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segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Explosão Islâmica - História


Explosão Islâmica - História


Já há mais de 1 bilhão de muçulmanos no mundo. O islamismo ultrapassou o catolicismo em número de fiéis em 1986 e continua a crescer. Nesse ritmo, deverão ser 1,1 bilhão de crentes no ano 2000 . O número de adeptos aumenta inclusive em áreas tradicionalmente cristãs, como na Europa, África Ocidental e Estados Unidos. E até no Brasil.

terça-feira, 2 de outubro de 2012

O Corpo em Expansão - Biologia



O CORPO EM EXPANSÃO - Biologia



Durante o crescimento, uma seqüência de metamorfoses transforma o bebê no complexo organismo do homem adulto.

Nada mais errado do que pensar que uma criança é um adulto em miniatura. Entre a célula-ovo fecundada, com seus 200 milionésimos de milímetros e os 60 trilhões de células do organismo plenamente desenvolvido, há não apenas um enorme aumento de tamanho mas uma tremenda sucessão de metamorfose que se desenrolam por mais de vinte anos. Trata-se do maior projeto de expansão de que se tem notícia e é impossível registrá-lo apenas em centímetros. É preciso usar outros sistemas de medida, como o termômetro. Sem a ajuda de agasalhos o bebê não conseguiria manter a temperatura de 36 graus Celsius que o corpo humano exige para funcionar direito.     Afinal, a maior parte das substâncias encarregadas de segurar o calor no organismo, fabricadas pela glândula tireóide (no pescoço), está sendo consumida em uma tarefa nobre: amadurecer o sistema nervoso, para que se possa, desde o início da vida, gravar nesse computador o maior número de informações sobre o mundo onde ele vai viver.
No começo da vida, mesmo aqueles adultos que se tornaram refinados gourmets tiveram um paladar bastante limitado. Há uma experiência clássica que comprova isso: oferece-se a um recém-nascido soluções de vitamina, leite de vaca e leite materno. Só a última opção desse cardápio é recebida sem choro ou careta. Sinal de que o bebê ou sente o sabor apenas do leite materno ou o cérebro está programado pelos genes a dar um gosto horrível a todos os outros alimentos. Uma sábia precaução do sistema nervoso: o aleitamento materno é a única maneira de garantir que o organismo receberá no início da vida toda a matéria-prima necessária para o crescimento."O sistema nervoso ajusta os ponteiros do relógio biológico, despertando padrões de comportamento conforme a fase do crescimento", explica o cronobiologista José Cipolla Neto, da Universidade de São Paulo, preocupado em verificar as mudanças nos ritmos do organismo, como o de sono e vigília. "Ser pequeno é ser um grande dorminhoco", ele exemplifica. De fato, o recém-nascido passa dezesseis horas por dia dormindo. Mais tarde a quantidade de sono diminui aos poucos, alcançando o padrão adulto por volta dos 4 anos. Não é à toa que o período em que o corpo mais espicha dura até essa idade. A hipófise - uma glândula situada logo abaixo da região cerebral do hipotálamo - aproveita as duas primeiras horas de sono para fabricar uma substância cujo nome é exatamente hormônio do crescimento. "Como o bebê dorme cerca de três horas, desperta, para em seguida adormecer de novo ", conclui Cipolla," é lógico que nele essa produção acaba sendo maior."Nas células, o hormônio do crescimento alcança o núcleo navegando por um mar de gotículas gordurosas, onde existem proteínas mergulhadas. Ali, os hormônios reagem com os genes que, assim, liberam o molde de uma proteína, sob a forma de uma molécula de RNA (ácido ribonucléico). O molde então é copiado pelas substâncias fora do núcleo. Como é preciso fazer cópias de um por um das centenas de aminoácidos que formam uma proteína, pode demorar muitos dias até a reprodução ficar pronta. Mas, quando finalmente isso ocorre, a célula aumenta de volume por conter mais proteína - e, algumas vezes, se divide. Apesar de o hormônio do crescimento ser o protagonista dessa ação, ele pode contracenar com outros hormônios, como os sexuais, produzidos a partir da adolescência pelos ovários nas meninas e pelos testículos nos meninos. Além de promoverem o crescimento - especialmente de músculos nos rapazes e de gordura nas moças -, esses hormônios são os responsáveis pelo desenvolvimento das características que marcam na aparência adulta a oposição entre masculino e feminino. Por exemplo, barbas e seios. "Curiosamente, o garoto recém-nascido possui doses dez vezes maiores de hormônios sexuais do que o adulto", conta o endocrinologista Fábio Bessa Lima, da Universidade de São Paulo. "E como a produção dessas substâncias só é retomada na puberdade, seus órgãos genitais, ao contrário do restante do corpo, diminuem nas primeiras semanas de vida".                                                                                                                         Essa quantidade de hormônios tem uma razão de ser: apesar de o sexo masculino já ter sido determinado pelos genes, todo embrião tende a formar um corpo feminino. São necessárias, portanto, doses elevadas do hormônio masculino, a partir do terceiro mês de gestação, para garantir que o menino continuará menino. O hormônio do crescimento começa a ser fabricado pelo embrião na mesma época - sua entrada em cena é tão impressionante que, se continuasse se desenvolvendo no mesmo ritmo após o nascimento, o ser humano alcançaria o tamanho adulto aos 2 anos de idade. "Não que exista mais hormônio do crescimento nesse período de gestação", esclarece Bessa Lima. "A maioria das taxas hormonais, aliás, permanecem idênticas por toda a vida. Ocorre que, à medida que se cresce, as células perdem receptores, as portas de entrada para os hormônios."Nunca, porém, se aumenta de tamanho simultaneamente da cabeça aos pés, pois nesse jogo de abrir e fechar receptores nas células o organismo estabelece, de acordo com a sua necessidade, o que deve aumentar de tamanho em cada momento. Assim, na gestação, os braços e as pernas - curtos no bebê - parecem sair perdendo. A cabeça, por sua vez, é proporcionalmente maior do que em qualquer outra etapa da vida. E, como se essa vantagem inicial não bastasse, ela se torna cada vez mais larga, até o sexto mês, porque não pára de aumentar a fontanela - conhecida por moleira -, um espaço de até 4 centímetros entre os ossos superiores do crânio, que se fecha por volta dos 2 anos de idade. Não são tanto os cerca de 330 gramas do cérebro ao nascer que exigem essa reserva de espaço. A questão é que o cérebro é o órgão que mais cresce após o nascimento (SUPERINTERESSANTE número 12, ano 3): até o sexto mês, deverá ter a metade do tamanho de um cérebro adulto e esse desenvolvimento não pode ser impedido por falta de lugar disponível entre os ossos cranianos.Trata-se de um privilégio - nenhum outro órgão dispõe dessa folga de espaço para crescer. No tronco, onde estão quase todas as vísceras, o aperto é tamanho que o apêndice, que no adulto fica na altura da virilha, só encontra um cantinho entre o umbigo e a costela da criança. A bexiga é empurrada de tal maneira que encosta na superfície interna do abdome. O que aumenta ainda mais o sufoco é o fato de o fígado já nascer quase com o seu tamanho definitivo: enquanto em pessoas bem crescidas ocupa um quarto do abdome, na parte superior direita, na criança ela se esparrama da costela até um local pouco abaixo do umbigo - daí a barriga saliente característica das crianças."Para não impedir a saída pelo canal de parto, o corpo nessa fase acomoda todos os órgãos com uma incrível economia de espaço. É um projeto perfeito", define, o cirurgião Aldo Junqueira Rodrigues Júnior, que, desde a época de estudante tem endereço certo: o departamento de Anatomia da Faculdade de Medicina da USP. Certamente, os ossos são os primeiros a aumentar de tamanho, definindo os limites do corpo - caso contrário, se as vísceras crescessem na frente, o homem literalmente não caberia em si. "De qualquer modo, o corpo humano tenta sempre contrabalançar: o que cresce muito hoje, cresce pouco amanhã", explica Aldo Junqueira. Por causa de sua desproporção no recém-nascido, as pernas e os braços, alternando-se em fases, são os que mais crescem na infância. Se, graças aos diversos fatores envolvidos no crescimento - hormonais, nutricionais e ambientais -, os braços foram além dos padrões daquela idade em seu momento de crescer, as pernas em compensação espicharão menos. A recíproca é verdadeira. E assim, nesse jogo, o produto final do crescimento são pessoas com os mais diversos tipos físicos: troncudos, franzinos, pernas longas.Na adolescência, é a vez de os ossos do tronco aumentarem e, finalmente, as vísceras comprimidas desde o nascimento descerem e se acomodarem. Nessa lei de equilíbrio, a cabeça, que já veio ao mundo com um tamanho respeitável - metade do tamanho que terá na idade adulta -, é a parte que menos cresce; o que não significa que sua aparência permaneça inalterada. No bebê, a mandíbula, em forma de V, possui um ângulo obtuso e, como seu ramo ascendente é bem mais curto, o queixo acaba puxado para trás, dando um aspecto arredondado à face, as órbitas, por sua vez, são maiores, criando a impressão de que a criança vive com os olhos arregalados. Após os 6 anos, no entanto, as feições se alteram: a mandíbula forma um ângulo cada vez mais reto; pois, além de crescerem os ossos faciais, começam a surgir os 32 dentes permanentes, que são relativamente maiores. O homem primitivo tinha quatro dentes a mais na boca, os quatro molares, que ainda aparecem em uma de cada 500 pessoas negras - a incidência cai para a metade em brancos. "O número de dentes continua diminuindo", comenta o odontologista Henrique Lefévre Neto, da Universidade de São Paulo. "Com freqüência aparecem casos em meu consultório de gente que precisa arrancar os sisos por falta de espaço." Uma das explicações para o fenômeno é a falta de uso dos dentes, já que a alimentação do homem moderno exige um esforço menor de mastigação. Aliás, o crescimento também altera a necessidade de alimentos, no sentido inverso do que muitas pessoas imaginam. Entre um bebê mamando e um adolescente devorando um prato cheio, pode-se apostar que a aparência engana, pois é o primeiro quem está se alimentando mais, comparando a ingestão de calorias e o tamanho do corpo. Tem lógica: "Quem é menor tende a crescer mais e, para isso, precisa de matéria-prima", explica a nutricionista paulista Flora Spolidoro. Isto é, olhando de perto, o crescimento é uma contínua deposição de proteínas, cálcio e fósforo, que o organismo não fabrica e precisa obter no cardápio de todo dia. Finalmente, ainda é preciso uma molécula de vitamina C, que feito cimento cola a célula recém-formada às já existentes. "Estudos de Fisiologia", conta a nutricionista, "mostram ainda que a fome é mais freqüente nos primeiros anos de vida."Isso porque é na infância, principalmente nos três primeiros anos, que o cérebro forma ligações entre as suas células - prolongamentos feito uma rede cruzando as informações memorizadas -, gastando muita glicose. Quando o nível dessa substância despenca no sangue, vem a fome: "Eis também o motivo de a merenda escolar existir em qualquer lugar do mundo, caso contrário a criança não memoriza as informações que recebe em aula", justifica Flora. Com o crescimento tem-se também cada vez mais gordura na massa cinzenta. É um excelente sinal. O revestimento branco e gorduroso chamado mielina acelera as mensagens nervosas. O recém nascido só possui mielina em áreas cerebrais primitivas e por isso possui apenas reflexos, como o de sugar tudo o que lhe chega à boca. À medida que a mielina cresce e reveste novas áreas, surgem os movimentos voluntários.
O pediatra Paulo Roberto Carvalho se dedica há mais de dez anos a estudar a evolução dos movimentos, que ensina aos estudantes de Educação Física da USP. "O controle é do cérebro. A primeira parte que se movimenta voluntariamente, por volta de um mês de idade, são os olhos - a retina, afinal, é uma extensão do próprio cérebro. E, por último, depois até de aprender a andar, a criança controlará a evacuação", explica. No início, a criança, ao olhar para um objeto, vê apenas uma mancha. Ao querer descobrir do que se trata, passa a enxergar duas manchas a segunda é o seu próprio braço, que lhe parece algo fora do corpo. A essa altura, ela já movimenta o pescoço: "Embora seja capaz de escutar desde a época do útero", explica a fonoaudióloga Liliane Desgualdo Pereira, da Escola Paulista de Medicina, "só quando movimenta o pescoço a criança aprende a localizar sons. E há quem diga que, com isso, ela desenvolve a percepção de espaço." Assim, entre 1 e 2 anos de idade, quando também já sabe que aquele braço lhe pertence, ela consegue calcular o movimento para, por exemplo, pegar um brinquedo. "No início, porém, faz esforço enorme, movendo dos ombros aos dedos. Só com o tempo aprende que basta mover os dedos para apanhar o que quer", descreve Paulo Roberto. "O movimento tende a se tornar mais simples para o organismo poupar energia." Segundo o médico, porém, na adolescência existe uma espécie de regressão.O corpo cresce rápido demais e o cérebro não consegue se adaptar à mesma velocidade. "O sistema nervoso continua comandando um bracinho quando na realidade existe um braço imenso", explica o pediatra. "É por isso que nessa idade todos são desajeitados, esbarram em objetos, derrubam coisas." O neurologista José Salomão, da Escola Paulista de Medicina, não considera saudável estimular o crescimento do sistema nervoso, como acontece, por exemplo, quando se ensinam duas línguas, simultaneamente, à criança. E justifica: "No desenvolvimento, tudo tem o seu momento adequado. Não é à toa que se aprende a escrever por volta dos 6 ou 7 anos: só com essa idade a mielina avançou até as áreas cerebrais responsáveis pela escrita". A capa de gordura, aliás, continua a crescer muito além da adolescência, até por volta dos 26 anos. O interessante, porém, é que parar de crescer não significa virar o Cabo da Boa Esperança, rumo à velhice. "Na realidade", explica o professor Salomão, "desde o nascimento cada centímetro que o organismo conquista são milhares de neurônios vencidos pelo desgaste." Crescer, teoricamente, faz envelhecer, mas quem de partida conta com 20 bilhões de células nervosas não sentirá o tamanho dessa perda. 

ESTÍMULO PARA CRESCER

O crescimento envolve um complexo sistema de mensagens químicas. Por ordem do cérebro, a hipófise libera o hormônio do crescimento, que agirá diretamente na cartilagem dos ossos, desencadeando a formação de novas células. Além disso, esse hormônio tem uma ação indireta, reagindo com as células do fígado para formar a somatomedina C que, no final das contas. também provocará o crescimento dos ossos da mesma maneira. Na adolescência, a hipófise aumenta a fabricação de FSH e LH (do inglês Follicle-stimulating hormone ou "hormônio estimulante dos folículos" e luteinising hormone ou "hormônio luteinizante", respectivamente), que ao chegarem aos testículos dos meninos e aos ovários das meninas estimulam a produção de óvulos e espermatozóides e dos hormônios sexuais. "Eles fazem crescer rápido, mas também aceleram o fechamento da cartilagem", explica o endocrinologista Marcello Delano Bronstein, do Hospital das Clínicas em São Paulo.É comum aparecer em seu consultório um adolescente cansado de ser o baixote da turma: "Se os raios X mostram que ele tem pouca reserva de cartilagem para crescer, não posso receitar o hormônio sexual para ter um adolescente alto amanhã e um adulto baixo depois de amanhã", justifica o médico. Apesar de não oferecer o mesmo risco, por ser um remédio caro, extraído de cadáveres, o hormônio do crescimento costumava ser receitado apenas em casos de deficiência da hipófise. Felizmente, graças à Engenharia Genética que conseguiu sintetizá-lo, o hormônio do crescimento já está sendo testado na Europa em crianças normais, porém com estatura inferior à média. "Se der certo", imagina Bronstein, "nada impedirá que se cresça além dos limites dos genes. No futuro, os hormônios criarão super-homens." 

ALTOS E BAIXOS

Desde o primeiro instante de vida, quando o ser humano não é maior do que um grão de areia, sua estatura final está escrita em diversos genes. "No entanto, bastam alterações em um único gene para arrasar todo o crescimento", calcula o ginecologista Thomaz Raphael Gollop, especialista em Genética, do Hospital Albert Einstein, em São Paulo. É o caso do anão, o herdeiro de um gene defeituoso, cujo corpo desenvolve funções de adulto, mas permanece com estatura de criança. "Além disso, conforme os estímulos do organismo", diz o médico, "podem ser feitas correções nos genes, crescendo-se mais ou crescendo-se menos do que o programado."Acreditava-se que os genes do crescimento eram influenciados apenas por fatores físicos, como os hormônios e doenças pulmonares crônicas: com a respiração prejudicada, as células têm menos oxigênio para queimar no crescimento - não é à toa que a criança com bronquite costuma ser um adulto franzino. Hoje, porém, diversos estudos provam que, da mesma maneira como o estresse pode levar a hipófise a ordenar uma maior liberação de ácidos no estômago, causando uma úlcera, as emoções negativas também diminuem a safra de hormônio do crescimento. Resultado: criança com problemas psicológicos tende a ser baixa, por mais altos que sejam os pais.

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Inflação Humana - Demografia



INFLAÇÃO HUMANA - Demografia



Existe gente demais no mundo? Ou o que há é gente demais nas cidades? De toda forma, a superpopulação agride a Terra, inferniza a vida e gera um problema tamanho família.

Aconteceu tudo em tempo recorde. Num abrir e fechar de olhos, a contar no relógio da História da espécie, ou numa fração infinitesimal disso, no calendário da História do planeta, o homem disse adeus a um modo de vida que inventara há uns 10 mil anos, quando pela primeira vez plantou uma semente, e escolheu crescer e multiplicar-se em aglomerações de pedra e cal - as cidades, um mundo de maravilhas, mas também um mundo literalmente à parte da natureza desta Terra. A vertiginosa rapidez da mudança é, de fato, de tirar a respiração - e esse ritmo, por sinal, tem muito a ver com as mazelas que a própria mudança engendrou.
Há apenas 89 anos, quando estava para começar um novo século, nove em cada dez homens, mulheres e crianças, que somavam uma população global de 1,65 bilhão de seres, ainda viviam no campo. Pois daqui a onze anos, quando estiver para começar um novo milênio, pouco menos da metade dos estimados 6 bilhões de pessoas habitará cidades. E desses quase 3 bilhões de citadinos nada menos de 485 milhões, ou seja, numa proporção de três para vinte, se apertarão em meia centena de metrópoles e megametrópoles de 5 milhões de habitantes para cima cada uma. Nesse período, por exemplo, São Paulo terá deixado de ser uma acanhada cidade de 240 mil almas (em 1900) para ascender à condição de segundo maior centro urbano do planeta, com 24 milhões de habitantes, o que representa um crescimento de colossais 9.900 por cento. E São Paulo é só um entre dezenas de casos de igual porte.
Dificilmente se encontrará metamorfose comparável a tamanha irrupção em qualquer outro capítulo da acidentada aventura do homem. Os números não são apenas espantosos. Constituem o caroço de uma realidade cada vez mais difícil de digerir. Servem para desenhar os contornos de um labirinto aparentemente sem saída ou sem saída até onde a vista alcança. Porque a crise da superpopulação humana e do congestionamento urbano já não se pesa na balança ingênua dos bons velhos tempos em que se lotava um dos pratos com pessoas enquanto se polvilhava o outro com grãos para, ao fim e ao cabo, provar judiciosamente que a oferta de comida, em escala planetária, não conseguiria crescer tanto e tão depressa como o número de bocas famintas. O buraco agora é mais profundo.
É claro que gente demais costuma andar de braço dado com alimento de menos - e aí estão largas fatias da Ásia e da África para provar que essa antiga verdade ainda sobrevive. Mas na dança macabra da pobreza com a proliferação humana nem sempre se enxerga com nitidez quem guia quem, sendo legítimo afirmar que as pessoas têm mais filhos porque são pobres (e portanto precisam mais braços para a lavoura, por assim dizer) e não que se tornaram pobres por terem tido mais filhos - sempre supondo, naturalmente, que se não quisessem tê-los saberiam como evitá-los. O problema em todo caso é outro: quando os demógrafos começaram a falar em explosão demográfica, a produção mundial de proteínas realmente perdia a corrida para a produção mundial de bebês e muita gente jurava que iria ser assim até o fim dos tempos. A ciência, porém, deu conta dessa profecia.
A revolução agrícola iniciada nos anos 60 e a revolução da engenharia genética que já desponta devem afugentar o fantasma da escassez alimentar, ficando por resolver a engenharia social da distribuição da fartura. Vista pelos inquietos olhos deste final de século, a questão populacional tem duas outras carrancas. A primeira assombra as combalidas relações do homem com a natureza. A segunda, as relações entre os próprios homens. Num caso, são os ecologistas que ficam de cabelo em pé. "A proliferação humana é a maior ameaça ao ambiente do planeta", denuncia o biólogo americano Paul Ehrlich, da Universidade de Stanford, Califórnia, autor do best-seller The population bomb, ainda não editado no Brasil.
No outro caso, quem se atormenta são os urbanistas, sociólogos e demais estudiosos da conduta humana. Não importa apenas saber quantos homens a Terra pode alimentar, mas a partir de qual densidade os homens começarão a se odiar uns aos outros", alertou certa vez o etólogo austríaco Konrad Lorentz, Prêmio Nobel de Medicina de 1973, morto em fevereiro último. Ele pensava na inevitável deterioração da qualidade de vida e do convívio entre as pessoas, obrigadas a pelejar às cotoveladas pelos seus direitos de cidadania em ajuntamentos urbanos cada vez mais inchados, onde as asperezas do dia-a-dia cobram de todos e de cada um pesados tributos emocionais, pagos geralmente na moeda da violência.
Na vertente ecológica, o aumento acelerado da população mundial - que simplesmente dobrou de 2,5 bilhões para os atuais 5 bilhões em menos de quarenta anos - é apontado como principal responsável pelos desastres acumulados que ameaçam a vida na Terra, desde o efeito estufa até a extinção em escala sem precedentes de espécies animais e vegetais,do buraco na camada de ozônio ao esgotamento dos solos e de recursos minerais. Para o biólogo Paul Ehrlich, a vítima preferencial da superpopulação são os ecossistemas -o conjunto de formas de vida e de processos naturais em equilíbrio dinâmico que tornam o mundo habitável. Os serviços que tais ecossistemas oferecem à humanidade são literalmente vitais", ensina ele.
Um desses serviços, ameaçados não só pelo aumento físico das populações como também pelas condições em que se dá a expansão da presença humana na Terra, é o que determina a qualidade da mistura de gases na atmosfera. Como se sabe, a respiração de animais e plantas consiste numa ciranda de oxigênio e dióxido de carbono. Este é usado pelas algas e plantas verdes terrestres para fixar a luz solar no processo da fotossíntese, da qual um subproduto é o oxigênio.Também se sabe que a queima de combustíveis fósseis, como carvão e petróleo, e o desmatamento por atacado desequilibram aquele jogo da vida, ao aumentar a quantidade de dióxido de carbono no ar. Pois bem. Recente pesquisa conduzida por cientistas americanos mostrou que existe uma íntima relação entre a concentração de gás carbônico na atmosfera e o crescimento populacional.
Trabalhando com medições de dióxido de carbono de um lado e de índices de expansão demográfica de outro, ao longo de um período de 26 anos; encerrado em 1983, os pesquisadoras verificaram estatisticamente o parentesco muito próximo entre as duas séries de dados. Ou seja, o ritmo do aumento da concentração do gás segue rigorosamente o ritmo do aumento da população mundial. Outro efeito potencialmente maligno da proliferação humana atinge aquilo que os cientistas chamam "produtividade da rede primária" - a energia total obtida do Sol por algas, plantas e bactérias (a fonte básica de alimento para os animais) menos o que elas próprias gastam para sobreviver.
Pois bem de novo: calcula-se que a espécie humana - uma entre milhões de formas de vida na face da Terra - se apropria de aproximadamente 40 por cento do potencial da produtividade do conjunto dos ecossistemas. As eventuais conseqüências de tamanha voracidade daqui a uns quarenta anos, quando as projeções indicam que haverá duas vezes mais gente do que hoje no mundo, é matéria aberta à especulação. Mas não é difícil imaginar, por exemplo, os efeitos ambientais da expansão em marcha batida das atividades agrícolas. Porque, por mais que a tecnologia faça aumentar a produtividade por unidade de terreno cultivado, o alargamento das fronteiras agrícolas em escala mundial será indispensável para que a humanidade tenha o que comer - pelo menos conforme os nem sempre satisfatórios padrões atuais.
Isso significa que extensões florestais essenciais à delicada contracorrente que torna suportável o clima na Terra terão de ser convertidas em plantações ou pastos. O uso cada vez mais intensivo do solo, por outro lado, irá requerer doses também maiores de fertilizantes sintéticos, o que deve modificar dramaticamente a química das terras da Terra. A água potável, outro recurso natural não renovável, tampouco fica imune à superpopulação. Mais gente, logicamente, usa mais água - e a velocidade do crescimento do consumo já é maior que o tempo necessário à recuperação dos mananciais.
Essa dor de cabeça que o homem está vertendo tem tudo a ver com a explosão das cidades. O aumento avassalador das áreas urbanizadas se traduz em novas ruas, avenidas, estradas asfaltadas. Tudo isso acaba por impermeabilizar o solo, impedindo que os lençóis subterrâneos sejam realimentados pelas águas das chuvas. Resultado: a cidade precisa capturar mananciais cada vez mais distantes, o que, entre outras conseqüências, irá pesar no bolso do consumidor. E dê-se ele por feliz se o seu dinheiro pelo menos servir para comprar confortos essenciais, como água à vontade. Pois tal qual os demais serviços urbanos afogados em gente, o abastecimento de água e esgoto tende a piorar no futuro.
Hoje, na maior cidade brasileira e terceira maior cidade do mundo, São Paulo, com seus 16 milhões de habitantes, cerca de 550 mil pessoas todo dia deixam de receber água. As autoridades explicam que o sistema não consegue acompanhar o ritmo com que novos conjuntos habitacionais brotam da noite para o dia nas quebradas da inflada periferia. Esse é apenas um exemplo, uma entre tantas contas que formam o colar de aborrecimentos da supercidade atual. Existem aí dois paradoxos: a metrópole passa mal porque deu certo e corre o risco de ficar pior sempre que melhora.
Com efeito, poucos experimentos humanos se revelaram tão bem-sucedidos como a grande cidade - provavelmente a mais vistosa criatura da civilização industrial-capitalista que aflorou no século passado. Foi em lugares como Londres, Paris, Berlim e Nova York que tomou forma e substância a explosão do engenho humano, que produziu a nunca por demais louvada moderna cultura ocidental - nas artes e no comportamento, na ciência e na tecnologia, na política .e na organização da sociedade. Acima de tudo, a vida urbana proporcionou ao homem o prêmio maior da liberdade. Mesmo ao mais ácido e competente crítico do mundo burguês há cem anos, o filósofo alemão Karl Marx, não escapou o fato de que o modo de vida engendrado pela metrópole capitalista libertou o homem do fardo da "idiotia rural", como ele afirmava.
Para dar um salto no tempo e alcançar um só exemplo: a revolução na conduta individual das últimas três décadas é simplesmente impensável dissociada das pulsações da cidade grande. Nada mais natural, portanto, que de um continente para outro, através dos oceanos, ou dentro de um mesmo país, ao longo de estradas poeirentas, todos os caminhos conduzissem o homem das esquálidas aldeias do passado ao reino da esperança encarnada na ruidosa agitação urbana. A busca da cidade foi responsável até bem pouco pelos maiores movimentos migratórios da crônica humana - e a partir daí, com variações determinadas pela História, a Geografia e a Economia, a cidade começou a não mais dar conta do recado.
Não tardou que os administradores percebessem que estavam acorrentados a um círculo de ferro. Pois quanto mais investissem na melhora do conjunto de bens e serviços urbanos, mais depressa essa melhora seria tragada por uma overdose de uso. É simples: para desafogar o trânsito, por exemplo, gastam-se caminhões de dinheiro na abertura de novas vias, que justamente por tornarem mais fácil a circulação tendem a atrair um número maior de veículos - e o tráfego volta a empacar. Guardadas as proporções, o mesmo se aplica a tudo de bom e necessário que a cidade tem a oferecer, sobretudo às populações mais pobres - o conjunto de conveniências que foi exatamente o chamariz para legiões de migrantes. As conseqüências desse interminável inchaço da demanda não há citadino que não as conheça na pele.
De todas as doenças que acometem a metrópole, nenhum sintoma parece tão desconfortável como o sufoco no trânsito que asfixia o cotidiano de ricos e pobres e para o qual não há medicamento eficaz à vista em parte alguma - a menos que se adotassem cirurgias sociais tão severas que atropelariam o sagrado direito de ir e vir. Mesmo sem ousar tanto, a tendência é restringir cada vez mais o uso do automóvel particular, seja pelo fechamento puro e simples - de áreas crescentes ao carro de passeio, seja mediante a cobrança de pedágios extorsivos pelo acesso ao centro, por exemplo. Pode ser pouco, mas é imprescindível: mesmo sem isso não há cidade grande capaz de permitir que toda a sua frota saia à rua ao mesmo tempo; e ainda que um bom número de carros permaneça sempre quieto nas garagens, a regra é a hora do rush virtualmente imobilizar um número maior de ruas durante períodos cada vez mais longos.
Os resultados são previsíveis: numa capital como Paris, em cuja área metropolitana vivem 8 milhões de pessoas e em cujas ruas rodam todo dia 1,3 milhão de carros, a velocidade média de deslocamento nos períodos de pico não chega a 13 quilômetros por hora - uma toada que deve acometer muitos parisienses de nostalgia do tempo das carruagens puxadas por garbosos cavalos - que, além de tudo, não enchiam o ar de monóxido de carbono. Considerado o problema do estrangulamento urbano em dimensão mundial, o dado mais inquietante é empobrecimento - em todos os sentidos - da metrópole. A grande cidade está se tornando, em primeiro lugar.uma grande cidade pobre. A regra atual, ao que todos os números indicam, é a ascensão das sofridas metrópoles do Terceiro Mundo ao ranking das cidades mais povoadas do planeta.
Em 1970, por exemplo, pertenciam ao time dos pobres apenas cinco das doze urbes mais povoadas; em 1985 tornaram-se oito; e no ano 2000 deverão ser dez, lideradas pela inabitável Cidade do México, com seus 25,8 milhões de moradores previstos, ficando apenas Tóquio (20,2 milhões) e Nova York (10,8 milhões) para fazer as honras da casa em nome do Primeiro Mundo. Ou, por outra: em 1914, para cada habitante do hemisfério norte havia outro no sul. No ano passado.para cada nortista já havia três do lado de cá do equador. E no ano 2008 a proporção será de um para seis. A primeira lição desses números está em que o que ainda passa por qualidade de vida em tais ajuntamentos tende a piorar à medida que for encolhendo a receita por habitante à disposição dos governos, pela simples razão de que quanto mais pobre a população, menor o valor dos impostos arrecadados.menor portanto a possibilidade de investimentos públicos capazes de melhorar a vida dessa mesma população.
Onde foi que homem errou, ao ocupar tanto e de forma tão desigual a superfície do planeta? Eis uma questão sujeita a chuvas e trovoadas, para a qual os especialistas oferecem as mais disparatadas explicações.muitas vezes em função das idéias políticas de cada um. Os conservadores, por exemplo, dirão que a culpa é dos pobres, sempre tão férteis e tão imprevidentes. Os progressistas acusarão as injustiças na distribuição da renda, tanto dentro de cada país como entre os países. Para além dessas simplificações, no entanto, pode-se dizer com alguma margem de confiança que tudo começou com os avanços da Medicina.
De fato, como resultado da revolução científica do século passado, não só os adultos começaram a morrer mais tarde como a mortalidade infantil iniciou uma queda sem volta. Assim, a população mundial cresceu 70 por cento entre 1800 e 1900, e outros 50 por cento entre 1900 e 1950. Na década de 60, a espécie humana multiplicava-se alegremente ao ritmo de pouco mais de 2 por cento ao ano. Parece nada, mas é uma explosão: uma taxa de crescimento anual da ordem de 2,5 por cento significa dobrar a população em menos de trinta anos. Isso exige, apenas para manter o padrão de vida da geração anterior, dobrar também toda a malha de bens e serviços à disposição dessa massa humana - desde o número de casas ao de vagas nas escolas, desde a produtividade agrícola à capacidade do sistema de transportes. Haja dinheiro.
Pois enquanto isso, na mesma década de 60, a taxa de crescimento da população brasileira roçava os 3 por cento - passando de 5 nas cidades (quase 6 por cento em São Paulo). Na verdade, a explosão demográfica há muito que não se propagava por igual no mundo. No hemisfério norte laico e moderno, a pílula anticoncepcional recém-inventada mantinha a demografia sob controle, havendo países, como a França e a Alemanha, onde a população até diminuía ligeiramente, descontados os contingentes de imigrantes africanos, turcos, portugueses e iugoslavos. Mas o Brasil e outras nações ao sul do equador passaram a conhecer o que os cientistas chamam transição demográfica - e que em bom português significa o pior dos dois mundos.
Pois, de um lado, o padrão material de vida melhorou, prolongando a existência dos velhos e encurtando as estatísticas de mortalidade das crianças; de outro lado, porém, nessa etapa os padrões de comportamento ainda permaneciam em larga medida tradicionais, incluindo-se aí arraigadas resistências culturais ao planejamento familiar. Isso, mais as migrações internas, explica o fantástico crescimento das cidades maiores. A década de 80 encaminha-se para o fim registrando que o Homo sapiens cresce à razão de 1,7 por cento no mundo. Os demógrafos, porém, não estão soltando rojões. A queda em relação aos anos 60 reflete, segundo eles, apenas a continuação da curva embicada para baixo da natalidade nos países ricos - somada aos efeitos do feroz programa de controle da natalidade adotado na China (1,1 bilhão de habitantes), sob o lema "uma família, um filho".
No conjunto dos países pobres, suspiram os demógrafos, a situação não mudou muito. Os africanos, por exemplo, crescem ao ritmo de 2,9 por cento ao ano. Não espanta, por isso, que na virada do século a empoeirada Kinshasa, capital do Zaire, deva ter 5 milhões e Lagos, na Nigéria, mais de 8. Sem falar no Cairo, no Egito, com 11 milhões. Com tanta gente no pedaço urbano mais pobre do globo, a aritmética apronta uma crueldade: mesmo que despenquem as porcentagens de crescimento demográfico (o que ainda não aconteceu), em números absolutos a população das cidades continuará a galopar. E, como diz o ambientalista americano Paul Ehrlich, "os ecossistemas respondem ao impacto de gente, não de taxas". Os ecossistemas e tudo mais, diga-se.
Pelo menos uma convicção os demógrafos tendem a ter em comum: a chave para o controle populacional nos países chamados em desenvolvimento é a melhora da condição social das mulheres. E nesse ponto os especialistas dizem enxergar uma luz no fim do túnel no caso brasileiro. "A taxa de fecundidade da mulher no Brasil vem diminuindo desde 1965", informa a demógrafa paulista Neide Patarra, da Fundação Seade (Sistema Estadual de Análise de Dados). Ela se refere à relação declinante do total de filhos nascidos no país e o total de mulheres em idade reprodutiva, de 15 a 50 anos. "Hoje, 70 por cento das brasileiras em idade fértil usam anticoncepcionais", contabiliza. De seu lado, o sociólogo Vilmar Faria, da Universidade de São Paulo, autor de pesquisas sobre o assunto, acredita que quatro fatores contribuíram indiretamente para isso.
Seriam eles: o crédito direto ao consumidor (que ampliou a compra de bens domésticos em detrimento dos gastos relacionados à reprodução da família); a melhora na Previdência (que amenizou a necessidade de ter muitos filhos para sustentar os pais na velhice); o acesso mais fácil aos serviços de saúde (com o mesmo resultado); e, enfim, o desenvolvimento dos meios de informação (que modernizaram os costumes). "As famílias pobres estão tendo menos filhos", concorda o urbanista Jorge Wilheim, secretário do Meio Ambiente em São Paulo.Com não pouco otimismo. ele aposta que "a perspectiva da grande cidade brasileira não é o cataclismo, mas a estabilização".
De novo é o problema dos índices e dos números absolutos. Pois, ainda que a taxa de crescimento da população paulistana congele em 2,3 por cento no ano 2000, como se prevê,contra 3,4 por cento hoje, bastarão 34 anos para que essa população simplesmente duplique. E o Brasil, então, sétimo país mais populoso do mundo,terá de prover pão e bem-estar para 245 milhões de cidadãos. Um século e meio antes de Cristo, numa cidade grega chamada Megalópolis, que apesar do nome não tinha mais de 6 mil habitantes, vivia um historiador chamado Políbio, a quem muito preocupava o pouco entusiasmo de seus patrícios em gerar descendentes. "Vai ser um suicídio coletivo", costumava advertir. Talvez o velho Políbio não tivesse outro comentário a fazer se conhecesse as estatísticas da proliferação humana às portas do século XXI.

Megametrópoles do ano 2000.
Na virada do século, 485 milhões de pessoas estarão vivendo em cidades com 5 milhões de habitantes ou mais.

Acompanhando o sentido do aumento das populações, o inchaço das cidades atinge principalmente os países mais pobres. Prova disso é que, no ano 2000, das 48 metrópoles de 5 milhões de habitantes para cima, 36 estarão localizadas no Terceiro Mundo - e, destas 21 na Ásia. Entre as regiões menos desenvolvidas, porém, a América Latina lidera a urbanização: em 1985, sete em cada dez latino-americanos já moravam em cidades. Na virada do século, serão praticamente oito em dez.

A dança das cidades

De meados do século passado até o fim da Segunda Guerra Mundial, a cidade grande era tipicamente uma expressão dos grandes países - basta pensar em Londres, Paris, Nova York, Berlim. Desde então, nas metrópoles mais ricas, a população tendeu a estabilizar-se, quando não diminuiu efetivamente - com a notável exceção de Tóquio. Enquanto isso, a explosão das megacidades arrasa o Terceiro Mundo e subverte o ranking das maiores concentrações urbanas do planeta. Em 1970, por exemplo, Calcutá, na Índia, nem ao menos figurava entre as doze mais do mundo, então lideradas por Nova York. Em 1985, já com Tóquio na cabeça, Calcutá tinha massa humana suficiente para colocar-se em sexto lugar. No ano 2000, quando a Cidade do México for o maior ajuntamento urbano da Terra, Calcutá estará no quarto posto. São Paulo conhece bem este filme: de décima maior em 1970 saltou para terceira em quinze anos e deve subir mais um degrau até o ano 2000. Essas cidades sediam as chamadas "nações de miséria". Segundo o economista Carlos Lessa, da Unicamp pertencem a tais nações três em cada dez habitantes do Brasil urbano.

Explosão na Terra

No século passado, a humanidade cresceu algo como 70 por cento. Neste, os números da demografia rebentam as costuras: até o ano 2000 a espécie humana terá aumentado cerca de 270 por cento em relação a 1900. Todo dia, 220 mil bebês vêm ao mundo. Apesar disso, o ritmo de crescimento da população mundial está diminuindo, sobretudo por causado planejamento familiar voluntário, adotado como regra geral nos países mais ricos. Também pesa nessa conta, porém, a severíssima política de controle da natalidade imposta pelo governo da China, às voltas com seu mais de 1 bilhão de cidadãos,onde a meta oficial é "uma família,um filho". Isso permite prever que no início do século XXI a humanidade estará crescendo à razão de 1,4 por cento ao ano, contra 1,7 por cento hoje em dia. No entanto, há quem receie que essa tendência venha a ser detida nos países modernos por uma espécie de contra-revolução dos costumes resultante da epidemia da AIDS; com a monogamia de novo em alta, as pessoas passariam a casar mais cedo, a ficar casadas mais tempo com o mesmo cônjuge - e a ter mais filhos que o planejado.

Estouro no Brasil

Tendo se multiplicado por cinco no século passado, a população brasileira deverá ter crescido outras dez vezes quando o calendário marcar o início do século XXI - um estouro por qualquer lado que se olhe os números. Mas podia ser pior. Em 1974 o IBGE concluía de suas projeções que no ano 2000 o Brasil teria 200 milhões de habitantes. As estimativas mais recentes, porém, indicam uma população vizinha dos 180 milhões, havendo até quem desenhe um total otimista de 170 milhões. Num país onde os governos sempre resistiram à idéia de patrocinar ativamente políticas de planejamento familiar, a desaceleração das taxas demográficas mostra o efeito de uma série de mudanças na economia, na sociedade, nos costumes: calcula-se que sete em dez brasileiras em idade fértil usam anticoncepcionais. Não raro, a queda dos índices de natalidade reflete também situações de patologia, nos abonos e esterilizações nem sempre consentidas. O Brasil, de todo modo, não vive uma crise demográfica como a Índia, a China e a maioria dos países africanos. O problema de arrepiar, aqui, é a explosão das cidades.

Haja espaço

Quando já se é grande, qualquer crescimento adicional, por discreto que seja, representa muito - em números absolutos. Essa elementar verdade aritmética, que faz a delícia dos milionários, por exemplo, é a face mais impiedosa da crise social que anda de braço dado com a proliferação urbana no Terceiro Mundo. É só imaginar a montanha de dinheiro, tecnologia, bens, serviços e equipamentos necessários para ao menos não piorar o padrão de vida do grosso da população de metrópoles como Cidade do México e São Paulo, Bombaim e Calcutá, onde o número de habitantes ameaça simplesmente dobrar em 25 anos ou pouco mais, se não caírem as taxas de crescimento atuais. Mesmo que se confirmem as projeções da ONU, segundo as quais mexicanos e paulistanos festejarão o novo século multiplicando-se à razão de 2,3 por cento ao ano (contra uns 3,5 hoje), a população das duas cidades duplicará em 34 anos.

Onde estão os brasileiros.

Nestes vinte anos finais do século, nenhuma região do pais crescerá tanto como o Norte. De fato, em 1980 as vastidões amazônicas abrigavam esparsos 1,65 habitantes por quilômetro quadrado. No ano 2000, serão 3,2 habitantes - o dobro, portanto. Com isso, os nortistas serão ainda apenas 6,4 por cento do povo brasileiro (contra 5,6 % atualmente). Também representando pouco no conjunto da população, os habitantes do Centro-Oeste, com a expansão da fronteira agrícola, produzirão um aumento de 70 % na densidade demográfica da região - de 4 habitantes por quilômetro quadrado para 6,8. Os números amargos vêm do Sudeste, onde a densidade demográfica, que já é a maior do país com 56,3 habitantes/km2, deverá alcançar 84,5 habitantes/km2 na virada do século. Esse adensamento tornará a vida ainda mais difícil nas áreas metropolitanas de São Paulo, do Rio  de Janeiro e Belo Horizonte. No todo, a densidade demográfica no Brasil irá a 21,1 habitantes/km2, 50 por cento a mais do que em 1980.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Mania de grandeza - Cidades


MANIA DE GRANDEZA - Cidades



Se você esperava viver numa pacata vila do interior nos próximos anos, terá de mudar de planeta. O futuro das cidades é megalomaníaco. Em 2015, deverá ficar pronta a primeira cidade inteligente da Índia, a Royal Garden City, futura moradia de 500 000 empresários, trabalhadores de alta tecnologia e novos-ricos em geral. O projeto do bilionário Manoj Benjamin, um indiano criado no Canadá, está fazendo surgir do nada uma metrópole inteiramente conectada à internet, com 35 000 residências, três distritos - financeiro, industrial e de lazer -, restaurantes, shopping center e escolas. Os 9 bilhões de dólares que estão sendo investidos nessa obra faraônica deverão criar a primeira cidade inteiramente auto-sustentável do mundo. Benjamin confia tanto no sucesso do empreendimento que já tem no papel outras três cidades iguaizinhas.

Caso o bilionário indiano tenha razão, estará confirmando a tendência de um mundo cada vez mais urbano e digital. Nos últimos três séculos, a população nos grandes centros urbanos não parou de crescer. Se em 1700 menos de 10% da população mundial vivia em cidades, hoje a proporção é de 50%. A Organização das Nações Unidas (ONU) estima que, em 2015, o número de megacidades no mundo com mais de 10 milhões de habitantes vai aumentar das atuais 19 para 23. Nos próximos dez anos, 600 cidades terão mais de 1 milhão de habitantes, 400 delas situadas abaixo do Trópico de Câncer. Pelas estatísticas, o futuro está mais para a aglomeração caótica do filme Blade Runner (Ridley Scott, 1982) do que para o alegre cotidiano tecnológico dos Jetsons.

No seu livro E-topia: A Vida Urbana, Mas Não como a Conhecemos (Editora Senac, 2002), William J. Mitchell, professor de arquitetura e planejamento do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), propõe uma das mais badaladas e controversas teorias do início do século 21. Segundo Mitchell, num mundo interconectado digitalmente, as cidades serão auto-sustentáveis não só economicamente, mas também social e culturalmente. Eis o padrão das cidades do futuro imaginadas por ele: casas que unem moradia e trabalho, construídas em vizinhanças ricas em relacionamentos pessoais e comunitários, complementadas por pontos de encontro eletrônicos (fóruns e salas de bate-papo) e um eficiente sistema descentralizado de produção, venda e distribuição de mercadorias. Nas e-topias imaginadas por Mitchell, as pessoas ficam mais tempo em casa, porque não precisam sair para trabalhar, graças às novas tecnologias de comunicação. Tudo pode ser feito pela internet ou resolvido rapidamente nas redondezas, 24 horas por dia. Basta caminhar alguns quarteirões para usufruir restaurantes, cafeterias, lavanderias, escolas e ginásios de esportes. Assim, os automóveis permanecem estacionados nas garagens, aliviando os congestionamentos nas ruas. Diversos prédios - bancos, supermercados, livrarias - poderão ser "desmaterializados", pois o serviço vai chegar até a casa do cliente.

No entanto, se depender das previsões do relatório Delphi, um estudo de futurologia científica patrocinado pelo governo alemão, a cidade sonhada por Mitchell demorará mais uma geração para sair do papel. O teletrabalho, o trabalho feito à distância, é um dos pilares das e-topias, mas os empregados remotos não serão maioria antes de 2024, estimam os 1 800 especialistas em ciência e tecnologia consultados pelo relatório Delphi. Uma minoria privilegiada, até 2012, conseguirá trabalhar em casa dois dias por semana. Nos outros três, terá de continuar batendo o ponto na empresa.



PÉ NA ESTRADA

Para sobreviverem, as megacidades do futuro serão obrigatoriamente auto-sustentáveis, com processos eficientes de reciclagem de lixo e conservação da água. Até 2023, a energia solar para uso doméstico, comercial e industrial ficará quatro vezes mais barata do que no início deste século. E vá se acostumando com a idéia de usar o ônibus ou o metrô. Mesmo que os automóveis do futuro sejam menos poluentes e mais econômicos do que os veículos atuais - como planejam as montadoras -, as prefeituras vão dificultar cada vez mais o acesso dos carros particulares ao centro da cidade, como já ocorre em Londres. Em troca, os cidadãos poderão viajar para qualquer direção usando um transporte público limpo, seguro e pontual. Ou mesmo ir a pé, como propõe a organização não-governamental I Walk to School, que nasceu na Inglaterra, há dez anos, com a idéia de incentivar pais e filhos a irem a pé para a escola.

A arquitetura da cidade do futuro promete ser mais amigável aos seus moradores, segundo os especialistas do relatório Delphi. Até 2014, o planejamento e a construção de casas e edifícios com facilidades para crianças e idosos renderão impostos e taxas públicas mais camaradas. Nos próximos 15 anos, os deficientes visuais também ganharão maior autonomia, graças a sensores instalados nas calçadas e nos corredores de prédios, exclusivamente para guiá-los e orientá-los. Outra boa notícia do relatório é que não corremos o risco de viver em gigantescas torres residenciais de 3 000 metros de altura, dividindo espaço com outros 50 000 moradores, como previam os livros de ficção científica do século 20. A tendência vale inclusive para as megacidades de 20 milhões de habitantes. Antes de 2025, pelo menos, as reuniões de condomínio não precisarão ser marcadas no estádio do Maracanã. Algumas coisas permanecerão iguais, segundo as previsões do relatório Delphi. As instituições de segurança, como polícia e prisões, por exemplo, ainda serão responsabilidade do Estado.
Metrópoles superpovoadas, mas comunitárias. Interligadas, mas desestressadas. A bola de cristal de otimistas e pessimistas pode até falhar. Mas ninguém nega que, dominante ou não, a tecnologia é a única parceira inseparável das cidades do futuro.


Tendências




- MEGACIDADES

Nos próximos anos, as megacidades serão a fonte de renda e moradia da maioria da população mundial.



- CONCENTRAÇÃO

Em 2015, haverá no mundo 23 cidades com mais de 10 milhões de habitantes. E 600 cidades terão mais de 1 milhão de habitantes.



- AUTONOMIA

Para sobreviverem, as megacidades serão obrigatoriamente auto-sustentáveis, com processos eficientes de reciclagem de lixo e conservação da água.



- VIDA SOCIAL

Num mundo interconectado digitalmente, as cidades poderão ser auto-sustentáveis não só economicamente, mas também social e culturalmente.



- LAR, DOCE LAR
Graças às novas tecnologias, as pessoas poderão passar mais tempo em casa. Mas a maioria ainda terá de sair para trabalhar.


Mau humor




Meus cinco leitores não devem mais suportar meu mau humor congênito. Mas o que posso fazer, se a cidade está mesmo um caos e ninguém faz nada? Lembro-me de meu avô falando dos monstruosos engarrafamentos de sua juventude, com literalmente milhões de automóveis tentando ir de um lado a outro da cidade. E eram movidos a petróleo, que na época já era raro, quase tanto quanto a água hoje em dia. Aliás, vocês viram o preço da água?

Pois é... O sr. Ministro não garantiu que não haveria reajuste até dezembro? Ora, mas estou divagando.

Meu avô viveu num mundo bizarro, e eu deveria agradecer a Deus por não ter que ficar horas enfiado dentro de uma lata velha todos os dias. Mas o que dizer do congestionamento da internet nos últimos anos? O governo, as agências reguladoras, os provedores, todos garantem que o problema são os hackers. Pois sim! Ninguém investe em infra-estrutura porque é muito caro, e a culpa é dos hackers. E agora vem a prefeitura falar em rodízio de internet. Antes ainda do tempo do meu avô alguém teve a idéia de fazer um rodízio de automóveis para resolver o problema do trânsito. Adiantou nada. Imagino a beleza que será se esse projeto de rodízio for aprovado agora.

Nesse meio tempo, enquanto nossas autoridades não pensam numa solução, ninguém consegue trabalhar. Estou agora mesmo na redação do jornal escrevendo esta crônica, porque não haveria jeito de enviá-la de casa. Sinto-me um homem das cavernas, precisando sair de casa para trabalhar. Mas há outra maneira? Com tantos hackers (pois sim!) por aí, o jeito é pegar o trem-bala - o nome só pode ser piada, mas já falei nisso semana passada - e vir para a redação, onde não há sequer um bebedouro. Tudo bem, eu sei que o prédio é feito para máquinas, não para seres humanos. Mas custava ter só um bebedourozinho? Custava nada! E olha a água aí de novo. Vocês desculpem essa minha obsessão, mas não consigo aceitar isso. Então o Brasil é o maior fornecedor de água para o mundo, determina os preços, manda e desmanda, e o povo mal tem o direito de matar sua sede? Como pode? Foi assim na Era do Petróleo também: os países do Oriente Médio detinham as maiores reservas, enriqueciam a não mais poder, e o povo continuava na pindaíba de sempre. A história se repete, não tem jeito.

Lembro-me de quando eu era criança: pensava que em 2100 todos andaríamos por aí em ônibus voadores e teríamos robôs para fazer de tudo. Três anos depois de 2100, porém, tenho que me contentar com uma rede que não funciona e com a falta d’água. Quem é que consegue manter o bom humor nessas condições, meus amigos? Quem?


Marco Aurélio dos Santos é co-autor do livro Balde de Gelo (Editora Gênese, 2004) e autor das sátiras bíblicas do blog Jesus, me chicoteia! (www.jesusmechicoteia.com.br)

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segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Vão acabar comigo ? Adolescência

VÃO ACABAR COMIGO? Adolescência



Não há nada mais controverso que um adolescente. Com os hormônios em ebulição, o temperamento varia de uma hora para outra. Descobertas, angústias, planos, mudanças no corpo: tudo é vivido intensamente pelos jovens. E sempre foi assim, mesmo quando eles ainda não eram um estrato da sociedade - sim, houve um tempo em que os adolescentes, como os conhecemos hoje, simplesmente não existiam. A adolescência passou a ser encarada com mais seriedade há apenas 60 anos. Mas o que o futuro reserva para os teens? A resposta é tão controversa quanto o próprio tema. Por um lado, há quem acredite que a adolescência tende a se prolongar até os 30 anos. Por outro, há quem aposte que ela vai acabar. De novo.

Não faz muito tempo, a adolescência não existia. Isto é, ela existia, mas não era percebida. As mudanças psicossociais que caracterizam a fase sempre estiveram presentes numa faixa etária que vai dos 12 aos 19 anos. Mas, durante muito tempo, passada a infância, o jovem já era tratado como um miniadulto. Trabalhava, casava e saía de casa. "O conceito de adolescente como conhecemos hoje só surgiu quando se aumentou o período em que eles permaneciam na escola", diz a psicanalista Diana Dadoorian. "Ele, assim, passou a não entrar tão cedo no mercado de trabalho."

Hoje em dia, sabemos que a adolescência é um período marcado por importantes mudanças. Do ponto de vista biológico, há o aumento da quantidade de pêlos e a mudança de voz. É a puberdade. Já a adolescência em si tem mais a ver com alterações psicológicas e sociais: aquisição de mais responsabilidades, hora de tomar decisões, transformação dos relacionamentos com os pais e com outras pessoas.

O pediatra e hebiatra (médico especialista em adolescente) Walter Marcondes Filho diz que a sociedade de consumo está "adultizando" as crianças. Isso é facilmente percebido em qualquer lugar: crianças se maquiam e agem como adultos. "Muitas crianças se vestem como verdadeiras anãs, usando sapato de salto, piercings, pequenas tatuagens... É uma aberração, com o consentimento dos pais e da sociedade."

Quer dizer que os jovens estão precoces demais? Sim. No século 18, a menarca (primeira menstruação) acontecia geralmente aos 15 anos. Hoje aparece em média aos 12. Os adolescentes hoje têm sua primeira relação sexual em torno dos 14 anos. "Mas muitos iniciam a vida sexual aos 11, 12 ou 13 anos"diz Marcondes filho. Os índices de gravidez entre eles estão aumentando e metade dos jovens entre 10 e 12 anos já experimentou álcool.

Por conta dessa precocidade toda, alguns pesquisadores acreditam que a adolescência pode acabar de novo: as crianças vão voltar a pular da infância para a vida adulta. Diana Dadoorian é autora do livro Pronta para Voar - Novo Olhar sobre a Gravidez na Adolescência (Rocco, 2000). Nele, a psicanalista aponta que adolescentes de famílias mais pobres engravidam não porque são mal informadas, e sim porque querem. Mães, elas se transformam em mulheres e conquistam um novo papel no seu meio socioeconômico. No entanto, a própria Diana discorda da teoria do fim da adolescência. "Percebo hoje em dia, e também aponto como tendência para os próximos anos, que os jovens têm um tempo diferente de adolescência em função da classe social", diz. "Os menos privilegiados entram mais cedo no mercado de trabalho, por isso têm a adolescência reduzida. Mas os aspectos emocionais que caracterizam a fase vão existir sempre."

Do outro lado da pirâmide social, a psicanalista vislumbra uma outra tendência: a adolescência tardia. Com a melhoria da qualidade da relação entre pais e filhos, muitos jovens de classe média ou alta não precisam mais sair de casa para poder, por exemplo, dormir com a namorada. Há também a dificuldade de manter-se sozinho por conta dos altos custos de vida. "Eles criam uma extensão da adolescência para a vida adulta, com toda a falta de responsabilidades que isso acarreta. Por isso uma geração toda de jovens de até 30 anos continua morando na casa dos pais. E vai continuar assim."
Para Marcondes Filho, faltam políticas públicas voltadas para os adolescentes. Ele acredita que, em 2020, estaremos discutindo mais sobre os problemas da adolescência. "No futuro, os jovens mudarão o país, como, aliás, já vêm fazendo. Eles só precisam que abramos espaço para eles", diz o hebiatra. "Eles jamais desaparecerão, porque a sociedade sucumbiria. Seria uma sociedade inteiramente psicopática."


Tendências




- PRECOCES

Os jovens estão iniciando a vida sexual e entrando no mercado de trabalho cada vez mais cedo. Assim, tendem a passar direto da infância para a vida adulta, encurtando a fase da adolescência.



- GRAVIDEZ

Entre as famílias de baixa renda, muitas adolescentes engravidam não porque são mal informadas, mas sim porque desejam ser aceitas como adultas e ser valorizadas no seu meio social.



- TARDIOS
Devido ao elevado custo de vida, muitos jovens tendem a prolongar sua permanência na casa dos pais. Alguns continuam vivendo com os pais até os 30 anos, estendendo indefinidamente a fase da adolescência.


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