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quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Tubarão Branco: Grande Injustiçado


TUBARÃO-BRANCO: GRANDE INJUSTIÇADO



Todos nós temos medo do grande tubarão-branco e de seus primos menores. Depois de assistir a filmes como Tubarão ou o recente Mar Aberto, não há como não se arrepiar ao pensar em um ambiente inóspito de água infinita, rondada por um imenso animal de dentes dilacerantes. Mas é preciso perguntar: o que nos dá esse pavor - o tubarão em si ou a imagem que temos dele? O caçador marinho é, sim, um poderoso predador. Mas não é exatamente a fera que imaginamos.

"Os filmes mentem para causar sensação", diz o biólogo marinho Peter Klimley, da Universidade da Califórnia, em Davis, Estados Unidos. "Tubarões-brancos não são tão perigosos. Eles são seletivos", afirma. Isso quer dizer que sua força predatória é destinada à própria sobrevivência - e não a aterrorizar banhistas em praias ou barcos.

Para quebrar o mito de assassino do tubarão-branco, é preciso conhecê-lo um pouco melhor. Esse animal tem forma hidrodinâmica: parecido com um torpedo, possui corpo alongado e focinho pontudo, um formato apropriado para o ambiente aquático. Além disso, é muito musculoso. Isso se traduz em alta velocidade da natação - até 40 quilômetros por hora (para efeito de comparação, um campeão de natação humano não passa de 7,5 quilômetros por hora). "Ele tem um tamanho muito grande, mas consegue ser o animal mais ágil e forte do ecossistema marinho", diz o biólogo Otto Gadig, da Unesp de São Vicente, no litoral paulista. Além da força e da velocidade, o tubarão tem outras armas para caçar. Ele, de certa forma, tem sete sentidos - dois além de tato, olfato, visão, audição e paladar. O primeiro, que todos os peixes têm, é a linha lateral - uma série de poros enfileirados no corpo do animal com a função de sentir estímulos mecânicos. O segundo são as ampolas de Lorenzini, estruturas presentes na região debaixo do focinho compostas de câmaras com células especializadas em receber estímulos eletromagnéticos. Como todo corpo emite um campo elétrico, isso é útil para que o tubarão perceba presas enterradas, escondidas ou até invisíveis no escuro ou em águas turvas.

A caçada de um tubarão-branco é uma mistura de violência, sangue e pedaços de carne e tripas - nada bonita de ver. Entretanto, ele não ataca aleatoriamente ou por crueldade. Seu comportamento predatório mostra padrões organizados por tipos de presa. As favoritas são os pinípedes - mamíferos como focas e leões-marinhos. Geralmente, os tubarões-brancos atacam esses animais por baixo. É uma estratégia eficiente, já que ele tem as costas negras e se mistura à escuridão da água, tornando difícil que a presa o aviste. Para pegar uma foca, o tubarão nada do fundo para cima, morde a presa perto da superfície e a leva entre os dentes para debaixo d’água. Ele então a segura firmemente até que ela morra e pare de sangrar - é a chamada técnica da hemorragia. Depois de arrancar um pedaço, ele solta a carcaça. Mais tarde, pode voltar à superfície para comer outro pedaço do animal morto.

Já com leões-marinhos, o ataque é diferente. Ele começa com uma explosão - o tubarão se choca fortemente com a presa. Às vezes, essa força é suficiente para levá-la para fora d’água. O leão-marinho, ao contrário da foca, escapa mais rapidamente da primeira mordida e volta à superfície, sangrando, contorcendo-se e nadando de maneira desorientada. Mas logo o tubarão ressurge e o captura de novo, para mordê-lo outra vez e soltar a carcaça já sem sangue.

Se a estratégia do tubarão-branco para abater determinadas presas é sabida, o método que ele usa para escolhê-las ainda é obscuro. Uma possibilidade é que ele primeiro faça uma identificação visual e, depois de morder o animal, analise o paladar para decidir se vai comê-lo ou não. Os ataques a humanos podem ter essa lógica. "Uma idéia interessante é a de que os tubarões confundem humanos por presas como focas, mas depois percebam o erro", diz Otto Gadig.

Um ataque a um homem ocorrido nas Ilhas Farallon, na Califórnia, pode comprovar essa teoria. Um tubarão-branco mordeu a perna de um mergulhador e puxou-o para baixo por poucos segundos, enquanto o homem sangrava muito. De repente, o tubarão soltou-o e foi embora. Pesquisadores que faziam um estudo na área concluíram que, já que o padrão de ataque é igual ao da caça a uma foca - morte por hemorragia - e que o tubarão largou a "presa", ele deve ter percebido uma diferença no sabor. Comportamento parecido foi relatado em outros ataques a humanos, assim como a pelicanos e lontras. Como os três são compostos basicamente de músculos e focas e leões-marinhos são compostos de gordura, a hipótese mais forte é a de que os tubarões-brancos preferem alimentos mais gordos e se livram dos magros.

A explicação para essa preferência pode estar na alta velocidade de crescimento do tubarão-branco: o comprimento dos adultos aumenta mais de 5% ao ano, uma taxa maior do que a de tubarões de águas mais quentes. A escolha pela camada de gordura de focas e afins, rica em energia, estaria ligada à necessidade de crescimento em águas mais frias, de mares temperados. Em mares tropicais, ele tende a se alimentar de presas menores - e a ser menor.

Normalmente, o tubarão-branco caça sozinho, e sempre se pensou que fosse um animal solitário. Mas pesquisas recentes têm constatado que eles podem se juntar a grupos em determinadas situações. Peter Klimley e sua equipe fizeram um experimento com tubarões-brancos na Baía de Monterey, na Califórnia. Eles identificaram cinco tubarões e monitoraram-nos com sensores de alta freqüência. Em três semanas, somente duas caças foram registradas. No entanto, quando um deles teve sucesso ao pegar uma presa, os outros convergiram para o local. Após a refeição daquele tubarão que havia matado a presa, os restos permaneceram flutuando na água. Os outros tubarões que foram atraídos para o lugar não lutaram pela comida. Surpreendentemente, eles começaram um tipo de ritual: cada um levantava sua cauda e batia-a contra a superfície, espirrando água à sua volta. Klimley sugere que isso é um tipo de comunicação entre os tubarões-brancos. Aquele que espirrou mais água que os outros, levantando a cauda e parte do corpo para fora do mar, foi o "vencedor" e pôde comer o resto da caça.

É particularmente difícil estudar um tubarão-branco em seu ambiente natural. Por isso, pouco se sabe sobre seu comportamento - e menos ainda sobre as variações populacionais. Não é possível sequer estimar quantos deles há no mundo. Se a ciência consegue traçar esses números para leões, por exemplo, que habitam espaços visíveis e razoavelmente delimitados, o mesmo não vale para tubarões-brancos, que vivem espalhados pelos oceanos.

A dificuldade de estudá-los pode piorar com a diminuição das populações de peixes em geral, devido à pesca. Alguns cientistas acreditam que o tubarão-branco já esteja ameaçado de extinção em lugares como a costa da Califórnia, Austrália e África do Sul. "Apesar de não haver como contar tubarões-brancos, já que as áreas são ilimitadas, a diminuição na população é estimada pela menor captura", diz o biólogo Marcelo Szpilman, do Instituto Aqualung, no Rio de Janeiro. "A avaliação é de que a população tenha caído até 79% entre os últimos 15 e 20 anos."
O tubarão-branco, como se vê, não é o mesmo monstro pintado em livros e filmes. Após ter criado terror com sua imagem, o homem parece estar percebendo que é preciso protegê-lo. A África do Sul foi a primeira a proibir sua caça, em 1991. Mais tarde, outros países seguiram o exemplo. Mas os resultados dessas medidas ainda são discutíveis. Como diz Peter Klimley: "A ameaça do tubarão-branco sobre as pessoas pode se revelar pequena em comparação à ameaça das pessoas sobre o tubarão".


Tubarão rebocador


Era junho de 1978 - começo de verão. Na costa leste dos Estados Unidos, próximo a Nova York, um grupo de pescadores saía de barco para caçar baleias. No meio da pescaria, acharam que tinham tirado a sorte grande - o arpão atingiu o que parecia ser um enorme animal. Apesar do golpe, o bicho não morreu. Admiravelmente, começou a se mover - e a levar o barco junto. Era um grande tubarão-branco, e o arpão havia se prendido às suas costas. Com seu tamanho e força, ele tentava livrar-se da arma e arrastou o barco de pesca de cerca de 15 metros de comprimento. Por fim, após 14 horas e 23 quilômetros, o cabo se arrebentou e o tubarão fugiu. Os homens não levaram o animal como troféu. Ele virou mesmo história de pescador.


Fatos selvagens




Nome vulgar

Tubarão-branco



Nome científico

Carcharodon carcharias



Dimensões

Até 7,1 metros



Peso

Até 3 toneladas



Principais armas

Conjunto de recursos para caça - sensores para estímulos luminosos, mecânicos, elétricos e químicos; mandíbula e musculatura



Comportamento social

Normalmente é solitário, mas ocasionalmente se reúne em grupos



Expectativa de vida

25 anos



Ataques a humanos

805 ataques (99 fatais) entre 1990 e 2003



Quanto come

60 quilos por dia, em média



Dieta

Focas, leões-marinhos, peixes, outros tubarões, baleias, lulas, polvos, toninhas, golfinhos



Principais inimigos

Não tem inimigos



Se você encontrar um
Mantenha a calma e tente sair da água sem perder o tubarão de vista e sem agitação, pois o animal é atraído pelo movimento


Para saber mais




Na livraria

Tubarões no Brasil - Marcelo Szpilman, Mauad, 2003



Nas bancas - DVD
Território Selvagem - Tbarão - Documentário produzido pela BBC e lançado no Brasil pela Super (à venda em abril)


Águia - Dourada: Guerreira dos Ares


ÁGUIA-DOURADA: GUERREIRA DOS ARES



Em abril de 2004, cientistas monitoravam o comportamento de ursos na Noruega quando presenciaram uma cena nunca antes documentada. "Era como ver neve no Saara", comparou Torgeir Nygaard, do Instituto Norueguês para Pesquisa da Natureza. Um grupo de ursos escalava uma escarpa coberta de gelo, quando uma águia os surpreendeu e carregou um dos filhotes. "De repente, a ave mergulhou, raptou o urso e sumiu com ele", contou Jarlee Mogens Totsaas, outro membro da expedição. Até então, não se sabia que os ursos noruegueses tinham um inimigo à altura. Também não se sabia que águias atacassem bichos tão grandes. O pássaro que levou o filhote de urso, surpreendeu os cientistas e virou notícia mundo afora foi uma águia-dourada.

Façanhas desse tipo renderam apelidos imponentes como "Rainha dos Céus" e "Pássaro da Guerra" à águia-dourada, o predador alado mais famoso do mundo. Entre as 430 espécies de aves de rapina existentes, ela se destaca pelo sucesso adaptativo. Habita paisagens diversas e não está ameaçada de extinção - ao contrário, pode ser considerada até bastante comum. A mais recente estimativa da organização internacional BirdLife, de 2001, apontou a existência de pelo menos 250 mil águias-douradas sobre a terra.

No topo da cadeia alimentar, a águia-dourada também é um dos maiores pássaros do planeta. Em tamanho, ela só perde para a harpia, uma espécie amazônica de mais de 1 metro de altura.

A impressionante envergadura das asas - até 2,3 metros - obriga a águia-dourada a habitar áreas selvagens onde a vegetação é baixa ou praticamente inexistente, para evitar acidentes de vôo. É um animal que se dá bem em regiões montanhosas, em desertos ou planaltos. "Ela precisa de bastante espaço para caçar, por isso não consegue viver em cidades ou mata fechada", afima Jemima Parry-Jones, que dirige o Centro Nacional de Aves de Rapina, entidade inglesa que mantém programas de conservação para rapinantes.

Nesses ambientes, o predador é capaz de capturar peixes na superfície da água, atacar pássaros em pleno vôo ou raptar animais da terra. Sua arma mais poderosa são as garras. Curvas e com até 6 centímetros de comprimento, funcionam tanto como punhal (é com elas que a águia-dourada mata suas presas) quanto como garfo e faca (seguram o corpo para ser dilacerado pelo bico).

Outro grande diferencial está na visão - a expressão "olhos de águia" não existe por acaso. A águia-dourada enxerga três vezes melhor do que o homem e, durante vôos à procura de alimento, é capaz de avistar presas a 1,5 quilômetro de distância. O sentido ainda permite que ela se antecipe aos ataques de outras aves de rapina na disputa por territórios.

Munida desse binóculo natural, a águia-dourada procura alimento sozinha ou em pares - embora haja registros de pequenos grupos que caçam juntos na América do Norte. De um toco de árvore seco ou planando no céu, a até 600 metros de altura, ela observa o ambiente em busca de possíveis vítimas. Quando as encontra, mergulha a até 128 quilômetros por hora e, antes de pousar, projeta as garras para a frente, fincando-as violentamente no pescoço ou no focinho da presa. A refeição pode ser abatida no local ou levada para um ponto afastado de competidores. Em dupla, as águias formam uma eficiente parceria. Uma delas persegue a vítima até deixá-la exausta, enquanto a outra cuida de surpreendê-la.

As presas favoritas da águia-dourada são mamíferos com até 1,5 quilo, como coelhos e lebres, e pássaros grandes, como perdizes e faisões - carne suficiente para saciá-la por quase dois dias. Mas ela devora de bom grado répteis, peixes e anfíbios. No inverno, quando é mais difícil caçar, se aproveita da carniça desprezada por outros animais. O item mais estranho do eclético cardápio são as tartarugas-testudo. Para comê-las, as águias que vivem no sudeste da Europa e na Ásia Central as levam para passeios no céu para arremessá-las contra rochas até que os cascos se quebrem e elas possam se fartar do recheio.

Há lendas que associam as águias-douradas ao rapto de crianças. É verdade que elas, quando adultas, têm força para erguer presas de até 5 quilos. Mas, por mais que a façanha seja possível, até hoje nunca foram registrados casos de ataques de águias-douradas contra humanos. Os maiores animais desafiados pelo pássaro são cervos, raposas, lobos e, desde abril último, ursos.

A caçadora implacável é um animal, digamos, caseiro. Existem populações que migram no inverno, mas a maioria é apegada ao ambiente em que nasceu - há, em penhascos da Escócia, ninhos que têm sido usados por sucessivas gerações de pássaros há pelo menos 400 anos. O conservadorismo também fala alto quando o assunto é vida a dois: casais formados para a primeira reprodução permanecem unidos até a morte de um dos dois.
No ninho da águia, por sinal, o macho não tem muito como cantar de galo: a fêmea costuma ser 10% maior que ele. Uma das teorias para explicar a diferença se baseia na divisão de tarefas domésticas. Enquanto o macho fica responsável por conseguir o alimento, a fêmea trata de cortá-lo em pedaços para alimentar os filhotes - tarefa que demanda ainda mais força muscular do que a caçada em si. Ser mãe, no fim das contas, pode ser mais difícil que voar por aí para conseguir a lebre de cada dia.


Caçadora de lobos


Como outras aves de rapina, águias-douradas podem ser treinadas para ajudar nas caçadas dos humanos. Nas estepes da Ásia Central, elas aprendem a predar animais que não figuram em seu cardápio habitual: lobos e raposas. Os kirguises, nômades que habitam o Cazaquistão e a Mongólia, capturam os pássaros em armadilhas e, em troca de um punhado de carne crua, os condicionam a atacar peles de lobos e de raposas. Terminado o treinamento, a águia vai a campo e captura os animais para seus donos. Os kirguises usam as mesmas aves por três estações seguidas de caça e depois as devolvem à liberdade. Se uma das águias se machuca durante a caçada, é adotada como animal de estimação. Recentemente, a caça de lobos com águias se tornou um negócio. Agências européias e americanas levam grupos para observar a prática - os kirguises recebem sua parte em dinheiro vivo e as águias, em carne crua.


Fatos selvagens




Nome vulgar

Águia-dourada



Nome científico

Aquila chrysaetos



Dimensões

Até 2,3 metros de envergadura



Peso

Até 6 quilos



Principais armas

Garras que permitem apanhar presas na água, no ar e sobre a terra; visão três vezes melhor do que a do homem



Comportamento social

Solitária e monogâmica



Ataques a humanos

Não há registros, apesar de lendas a associarem ao rapto de crianças



Expectativa de vida

Até 50 anos



Quanto come

Cerca de 1 quilo



Dieta

Coelhos, lebres, faisões, cobras, peixes, tartarugas



Principais inimigos

Outras aves de rapina



Se você encontrar uma
Se não chegar tão perto, dificilmente será atacado


Para saber mais




Na livraria

Eagle - Eyewitness Guide - Jemima Parry-Jones, Dorling Kindersley, Inglaterra, 1997
Raptors of the World - James Ferguson-Lees, Houghton Mifflin, EUA 2001