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terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Quando o Homem Aprendeu a Montar - Arqueologia


QUANDO O HOMEM APRENDEU A MONTAR - Arqueologia



O cavalo pode ter sido domesticado muito antes do que se imaginava, acelerando o avanço da civilização. Dentes de animais fossilizados mostram que há 6 000 anos eles já usavam freio de metal

Do extremo oriental da Sibéria, quase na costa do Pacífico, até o Mediterrâneo, estende-se uma vasta planície de 4.000 quilômetros de comprimento e 500 quilômetros de largura, denominada estepe eurasiana. Coberta por vegetação rasteira, e cruzada por largos e mansos rios, essa região transformou-se, há 6.000 anos, numa verdadeira ponte entre a Europa e a Ásia, e foi palco de épicas transformações na história da humanidade. Basta ver que nesse período surgiram as chamadas línguas indo-européias, como o grego, o latim, o celta e muitas outras. Antes disso, os europeus, por exemplo, empregavam idiomas de uma família lingüística bem diversa - um desses idiomas seria o basco, o qual sobrevive como um vestígio do passado, na Espanha moderna. A mudança foi tão radical que, já nos tempos de Roma, as línguas indo-européias haviam sido adotadas por um sem número de povos, em uma área impressionante-estendendo-se da Índia à inglaterra. Não existe uma explicação consolidada sobre como se produziu tal sublevação, mas, de acordo com uma nova e extraordinária hipótese, ela tem muito a ver com a arte, ou a técnica, de cavalgar. Essa técnica teria sido dominada, a princípio, por populações relativamente pequenas e isoladas nas regiões centrais da estepe eurasiana, mais ou menos na altura da atual República Soviética da Ucrânia. A posse de montarias foi tão vantajosa que, embora marginais, esses povos expandiram-se com velocidade extraordinária e, num curto espaço de tempo, provocaram uma mudança decisiva nos padrões lingüísticos mundiais.
Trata-se de uma idéia ousada, pois contradiz, antes de mais nada, as evidências existentes até agora sobre a época em que o cavalo começou a ser domesticado. Isso teria ocorrido há 4 000 anos, e por isso não poderia ter influenciado a expansão indo-européia, que teve início dois milênios antes. O mais antigo desenho de um cavalo arreado, por exemplo, data do ano 2000 a.C., e o mais antigo pedaço de arreio já encontrado remonta a 1500 a.C. Este ano, no entanto, dois pesquisadores americanos-D. Anthony e D. Brown, da Universidade da Califórnia-identificaram o esqueleto de um cavalo que pode ter sido  domesticado há nada menos que 6 000 anos.
Os seus criadores habitavam às margens do Rio Dnieper, onde é hoje a Ucrânia, a algumas centenas de quilômetros do local em que se situa Moscou. Pertencentes a uma cultura de nome Sredny Stog, falavam, supostamente, uma língua ancestral da família indo-européia. Pareciam estar numa transição, pois ainda criavam cavalos principalmente para comer, metade dos ossos encontrados nas proximidades das habitações era desse animal. Mas também sabiam montar, segundo revela uma nova e poderosa técnica de investigação. Em vez de arreios ou selas, ela busca pistas da domesticação nos próprios animais.Anthony e Brown descobriram, por exemplo, que o freio, feito de metal, deixa marcas inconfundíveis sobre os dentes dos cavalos. O efeito da corrosão do metal sobre os primeiros pré-molares é claramente visível a olho nu, pois chega a tirar-lhes quase 1 centímetro na espessura. Também há desgaste nos dentes dos cavalos selvagens, devido ao simples ato de mastigar. No entanto, medidas cuidadosas mostram que a perda, nesse caso, é de apenas 1 ou 2 milímetros.Além disso, as ranhuras deixadas pelo freio são profundas, bem diferentes das naturais. A diferença transparece com nitidez quando os dentes são examinados ao microscópio eletrônico. Com esses cuidados, a nova e controversa data promete lançar luz sobre uma fase decisiva da história da civilização, durante a qual o homem aprendeu, primeiro, a plantar e a criar animais e, em seguida, a lidar com os metais. Essas conquistas, obtidas a partir de 10.000 anos atrás, mudaram o modo de vida do homem, pois foram acompanhadas da construção de cidades e da organização de grandes impérios, como o egípcio ou o sumério.
Mas, aparentemente, foi a arte de cavalgar que deu o impulso decisivo para a disseminação daquelas descobertas. Claro, nem tudo se fez por graça exclusiva do cavalo domesticado. "O importante foi a adição do novo meio de transporte às técnicas já conhecidas da agricultura, pecuária e metalurgia", resume o divulgador científico Jared Diamond, da Faculdade de Medicina da Universidade da Califórnia, Estados Unidos. "Esse pacote tecnológico dominou boa parte do mundo, nos 5 000 anos seguintes."Embora ainda precise ser corroborada por novas investigações, essa hipótese parece muito natural em vista do indubitável valor do cavalo. Inteligente, forte e veloz, ele parece ter sido escolhido a dedo para livrar o homem de suas limitações. Um cidadão a pé, mesmo em boa marcha, não cobria distâncias superiores a 50 quilômetros, numa jornada de um dia. Mas montado, superava sem grande esforço a marca dos 100 quilômetros. O mesmo vale para cargas transportadas a longa distância, que, em lombo de animal, podiam ultrapassar os 100 quilos, coisa impensável para um homem.
Sua característica marcante é a velocidade, pois se trata de um animal feito para correr. As pernas compridas, presas por forte musculatura ao resto do esqueleto, não podem realizar muitos movimentos: à maneira dos remos, nos barcos, elas concentram energia em poderosos impulsos à frente. Contribui para isso, a extrema especialização das patas, que, por terem um único dedo, permitem às pernas esticarem-se ao máximo durante a corrida. Não foi sempre assim. Sabe-se que as ancestrais do cavalo habitaram a Terra desde o inicio da Era Terciária, há uns 50 milhões de anos, mas esses animais eram baixos como um cão, com 25 centímetros de altura, somente.Também não contavam com a proteção dos cascos nas patas, que tinham cinco dedos. Aos poucos. à medida que perdiam os dedos, adaptaram-se à estratégia básica de seres velozes. Evolução semelhante ocorreu com os rinocerontes e as antas, parentes do cavalo. Os primeiros eqüídeos de um dedo começaram a perambular pelo planeta há cerca de 5 milhões de anos-não muito antes de surgir o gênero humano, 2 ou 3 milhões de anos mais tarde. É curioso que esses animais tenham começado a se espalhar pelo globo a partir da região hoje correspondente às Américas-de onde desapareceriam, há apenas 10.000 anos, por motivo desconhecido.
Só voltariam a estas plagas, no final do século XV, a bordo das caravelas, trazidos pelos conquistadores espanhóis. O gênero dos eqüídeos. atualmente, é formado por diversas espécies, como as zebras e os asnos, os mais antigos representantes do grupo. Mas todas as raças de cavalos pertencem a uma única espécie, de nome Equus caballus. Aí se incluem os grandes animais de carga, que são troncudos e chegam a ter 2 metros de altura, até os pôneis, que, por convenção, têm menos de 144 centímetros de altura. Essas variedades nasceram de uma raça-mãe, a mongólica, cujo habitat original era a China. Surgiram, em seguida, as raças berbere, difundida a partir da própria China: mongol, vinda do norte do Himalaia: céltica, disseminada depois da invasão da Grécia por povos asiáticos: e árabe, que proliferou no Egito.
Foram esses quatro troncos principais que deram origem às raças da atualidade, depois de demorado trabalho de seleção genética. Em cada lugar, os animais foram gradualmente escolhidos de acordo com o que se queria deles: força, velocidade ou mesmo mera beleza. Esse aperfeiçoamento, desde épocas remotas, muitas vezes transformou-se em lendas. Uma delas diz que o profeta Maomé, um dia, quis presentear os beduínos com um cavalo que os ajudasse a sobreviver no deserto. Assim. mandou soltar algumas éguas mantidas algum tempo sem água e comida, mas, antes que chegassem à margem, o profeta chamou-as de volta.
Apenas cinco obedeceram, demonstrando resistência à provação, e foi delas que nasceram os primeiros cavalos árabes. Seja como for, a verdade é que a raça tornou-se uma paixão para os homens do deserto, e mais tarde encantaram o mundo. Levada para a Europa durante a Idade Média, ela conquistou o rei da Inglaterra, Ricardo Coração de Leão, e acabou contribuindo para a criação do puro-sangue inglês, a partir de meados do século XVII. Nos cruzamentos, empregavam-se fêmeas inglesas, aristocraticamente apelidadas de "royal mares", ou éguas reais".
Os machos, ao longo do tempo, foram três garanhões orientais, cujos nomes passaram para a história: Bierly Turk, Darley Arabian e Godolphin Arabian. Este último, ainda hoje responsável por 40% dos genes de qualquer puro-sangue vivo, é personagem de uma novelesca história, pois seu verdadeiro nome era Xan e sua origem. berbere, em vez de árabe. Presenteado pelo rei de Túnis a Luis XIV, rei da França-que não ligava para cavalos -, foi vendido como animal de terceira categoria. Mas acabou reconhecido como macho excepcional e batizado de Godolphin Arabian.A raça andaluz, com origem igualmente rocambolesca, foi formada por um macho berbere, chamado Gusmán, por acaso abandonado em uma hospedaria de Córdoba, Espanha. Esse tipo de cavalo, conhecido como lusitano, deu origem às raças hoje encontradas nas Américas. No Rio Grande do Sul, por exemplo, formou-se a raça crioula, a que mais se encaixa nos padrões que definem os antigos berberes chineses. O manga- larga, muito comum no Brasil, também surgiu do andaluz, assim como o passo fino, do Peru, e o chickasaw, disseminado entre os índios da América do Norte.
Mas, para chegar a essas variedades, o cavalo percorreu um longo caminho. Até onde se sabe, as primeiras grandes criações ocorreram na fronteira da Europa com a Ásia, entre povos indo- europeus como os hicsos, citas, sármatas e mitanis. Talvez por serem originalmente nômades ou seminômades, esses povos ganharam a fama de bárbaros. Detinham, porém. a tecnologia dos animais para tração de cargas ou de veículos, e não hesitaram em usá-la na guerra. Os carros bélicos foram observados, pela primeira vez, no Egito e na Mesopotâmia, na época em que os hicsos chegaram a essa região.
Um dos seus primeiros feitos de vulto, em 1720 a.C., foi assumir o governo da antiga cidade de Avaris, importante centro regional do Império Egípcio, junto ao Mediterrâneo. Ao contrário do que se poderia pensar, as incursões nômades já não são descritas exatamente como uma invasão. Embora, vez por outra, ocorressem violentos confrontos armados entre os líderes locais e os imigrantes, na maior parte do tempo havia produtivo intercâmbio de idéias e conhecimentos.
No Egito, dessa forma, os hicsos repetiram uma estratégia comum a todos os indo-europeus. De imediato, fundaram aristocracias militares em localidades já existentes, de onde exerciam poderosa influência sobre a vida do Império. Aceitaram, por exemplo, o deus egípcio Set, que passaram a cultuar. Em troca, as populações locais podem ter assimilado o uso das montarias e aprendido a metalurgia do ferro, em contraposição ao bronze, até então dominante. Empregado nas armas, coisa impossível para o bronze, muito mole, o ferro ampliou a supremacia militar dos exércitos transportados.
O próximo passo desses exércitos, bem mais tarde, seria usar soldados montados, isto é, uma verdadeira cavalaria. Por volta do ano 1000 a.C., ela havia se tornado a mais poderosa força do exército assírio, na região onde é hoje o Irã. Sua evolução resultaria do aperfeiçoamento das armas, dos equipamentos próprios do cavalo e da equitação. Acabou por criar um grupo social favorecido, de importância crescente ao longo dos séculos. Os cavaleiros ganhariam especial notoriedade durante a Idade Média, quando apenas os nobres, filhos dos grandes senhores de terras, podiam candidatar-se a tal título.Nos exércitos, a cavalaria continuou como uma força fundamental até a metade do século XV. A partir daí, seu poder passou a ser limitado pelas pistolas e, mais ainda, pela utilização dos canhões. A arte de montar não perdeu com isso, pois havia se tornado uma apreciada forma de lazer. As corridas a cavalo estão entre os mais antigos esportes eqüestres, que tiveram destaque desde as Olimpíadas gregas. Em seguida, as corridas de bigas, em Roma e em Constantinopla, tornou-se uma febre.O entusiasmo pelas competições diminuiu nos séculos posteriores, para ressurgir apenas ao tempo das Cruzadas. A criação de escolas de equitação, a partir da Renascença, deu origem a competições como o salto, o pólo, a caça à raposa e, mais recentemente, os rodeios, enduros e cavalgadas. Como trabalhador, o cavalo está às vésperas da aposentadoria -data que se aproxima com rapidez cada vez maior. A primeira vez que o ser humano alcançou uma velocidade superior à dos cavalos foi em 1830, a bordo de uma locomotiva. E não se pode esquecer que até o século XIX era o cavalo quem puxava os bondes e ônibus. Mas, neste século, a mecanização vem celeremente substituindo a força animal mesmo na agricultura, ou, pelo menos, limitou seu uso às regiões de difícil acesso e fraco desenvolvimento industrial. Mas o renovado gosto pelos esportes eqüestres assegura que o cavalo será, por muito tempo ainda, um grande amigo do homem.

Senadores e réus de quatro patas

Os povos da Antiguidade tinham o cavalo na conta de um mito. Para os gregos, por exemplo. teria sido o deus Netuno que, a golpes de tridente, fez brotar da terra o soberbo animal, símbolo da guerra. Uma lenda árabe, em vez disso, exaltava sua velocidade, dizendo que Alá o criou a partir de uma lufada de vento. Na Índia, durante um ritual de coroação, os reis soltavam um animal sagrado que podia galopar sem restrições. Onde estivesse, ao fim de um ano, erguia-se um altar. Já nos templos japoneses, as mulheres estéreis tocavam um cavalo esculpido em bronze, em tamanho natural, na esperança de ter filhos. Havia ainda afeição extremada-até absurda, como no caso do imperador romano Calígula, que quis tornar Incitatus, seu cavalo, cônsul. Para o sábio romano Plínio, a inteligência do cavalo era quase humana, e citava o cavalo de certo rei Nicomedes, que teria se deixado morrer de fome após a morte de seu senhor. Na Idade Média, cavalos ditos sábios eram vistos como feiticeiros e queimados vivos. Os animais "respondiam" por delitos aos tribunais e há registro judiciário de vários deles condenados à morte por homicídio. Em época mais moderna, na Inglaterra, o garboso Copenhagen foi enterrado com honras militares porque mostrou valentia em batalha-pelo menos, na opinião de seu dono, o Duque de Wellington, famoso por derrotar Napoleão Bonaparte, general e estadista francês.


Um cavalo brasileiro

Formada no Brasil, a raça mangalarga ilustra como nasce um novo cavalo. Ela começou a surgir quando D. João VI deu um animal da raça berbere-pertencente à coudelaria real portuguesa-a Gabriel Francisco Junqueira, o Barão de Alfenas. Cruzado com éguas brasileiras comuns, o garanhão gerou filhos que foram selecionados para a lida com gado, caçadas e longas viagens. Mangalarga era o nome da fazenda do Barão em Pati do Alferes. RJ. A fama conquistada pelos cavalos da fazenda trazia muitos visitantes ao local e os animais logo foram denominados como "os cavalos da Fazenda Mangalarga". Não tardou para serem chamados somente pelo nome da fazenda. Os plantéis mais bonitos dessa raça continuam de posse de um parente do Barão-José Oswaldo Junqueira, que comprou seu primeiro animal no ano de 1931. O manga-larga, de porte e postura elegantes, é um cavalo de sela caracterizado pelo andamento macio e bem equilibrado, ideais para o trabalho e o passeio. Seus membros, bem aprumados e fortes, proporcionam duas maneiras de andar. Na marcha de tríplice apoio, três patas estão sempre em contato com o solo enquanto uma se desloca no ar. Na marcha trotada em diagonal, em dois tempos, o cavalo põe no chão, ao mesmo tempo, o membro anterior esquerdo e o posterior direito, e vice- versa. Os animais dessa raça têm cabeça média, de perfil retilíneo, e orelhas pequenas mas bem plantadas. As narinas são dilatadas, os olhos bem arredondados e afastados um do outro, e a boca rasgada. A linha do dorso lombar, curta, larga e musculosa, faz do manga-larga um bom cavalo para a montaria.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

A Busca do Graal

A BUSCA DO GRAAL



O jovem Percival estava exausto depois de cavalgar o dia inteiro. Meses antes ele tinha partido da corte do rei Artur em busca de fama e aventuras, mas naquela noite tudo que ele queria era dormir. Foi quando avistou um castelo. Os portões estavam abertos e Percival entrou. Lá dentro foi recebido por um certo "Rei Pescador", um velho nobre que o convidou para a ceia. Antes de o banquete começar, duas crianças atravessaram a sala. Primeiro um menino passou trazendo nas mãos uma longa lança, cuja ponta sangrava como se estivesse viva. Logo depois surgiu uma menina em roupas majestosas, carregando um recipiente de ouro puro, incrustado pelas jóias mais preciosas da Terra. O clarão era tão intenso que as velas do castelo perderam o brilho. Percival ficou deslumbrado, mas, por timidez, não perguntou o significado daquilo. No dia seguinte, o cavaleiro seguiu viagem. Aquela cena nunca mais sairia de sua cabeça. Um dia, ele decidiu reencontrar os tesouros e desvendar seus segredos, ainda que a aventura lhe custasse a vida. A busca pelo Graal acabava de começar.

Essa história foi escrita há mais de 800 anos, por volta de 1190. Ela faz parte do livro Le Conte du Graal ("O Conto do Graal"), de Chrétien de Troyes, um dos maiores escritores franceses da Idade Média. O livro deixava de explicar muitas coisas. Afinal, que recipiente dourado era aquele? Quem era o Rei Pescador? Por que a lança sangrava? Como acabou a busca de Percival? Poucos anos depois, Chrétian morreu, deixando todas essas perguntas sem resposta.

Pelo que se sabe, O Conto do Graal foi a primeira referência ao tema na história. A Bíblia não fala uma palavra sobre o Santo Graal e seus poderes. O livro de Chrétien incendiou a imaginação dos europeus do século 12 e acabou se tornando uma verdadeira obsessão para leitores e escritores. Tudo indica que O Conto do Graal foi uma espécie de best seller de sua época - o primeiro de uma longa série de sucessos literários inspirados pelo tema. Com o tempo, foram surgindo explicações para as coisas estranhas que aconteciam na história e tanto o recipiente dourado quanto a lança começaram a ser interpretados como relíquias dos tempos bíblicos. O Graal, que começou sua história no reino da ficção, foi sendo transformado pelo imaginário coletivo em uma das peças centrais da mitologia do cristianismo - um objeto divino, dotado de poderes miraculosos e capaz de diminuir a distância entre Deus e os homens. Uma imagem tão poderosa que até hoje há quem diga que ele realmente existiu.

Após a Idade Média, a "lança que sangra" ficou meio de lado nas páginas da literatura, mas o Graal continuou sua carreira de sucesso. Ele chegou aos tempos modernos e povoou filmes hollywoodianos, reflexões eruditas e best sellers internacionais. Por trás de toda sua fama, o mistério permanece. Oito séculos após o surgimento da lenda, o dilema central continua de pé: afinal de contas, o que é o Graal?

As raízes medievais

É bom avisar logo: para a pergunta acima não há resposta. O que se sabe é que graal é uma palavra do francês antigo que indica uma espécie de tigela utilizada nas refeições dos aristocratas. Alguns acreditam que o Santo Graal seja um artefato arqueológico cujos rumos podem ser traçados desde a Antiguidade até os dias de hoje. Para outros, ele é um símbolo esotérico ou um ideal filosófico. Muita gente afirma que ele nunca passou de fantasia literária.

A estréia do Graal nas páginas da ficção, no livro de Chrétien, ocorreu em uma das épocas mais dinâmicas e criativas da história: os séculos 12 e 13, que assistiram a uma revolução nas sociedades européias. "Em todos os aspectos da vida e da cultura, o período foi decisivo para a formação do Ocidente", diz o medievalista José Rivair Macedo, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. "As cidades se multiplicavam e se expandiam, o comércio renascia e por todo lado ocorriam grandes mudanças sociais e econômicas." Esse clima também se refletiu na literatura, dando origem aos primeiros poemas e romances das línguas européias modernas - antes só se escrevia em latim, e para poucos.

Chrétien de Troyes, autor de diversos romances sobre as lendas do rei Artur e dos cavaleiros da Távola Redonda, foi um dos escritores mais lidos dessa época revolucionária. Embora tenha sido o primeiro a escrever sobre o tema, há quem diga que o Graal não foi uma invenção sua. A figura de um "recipiente sagrado" era comum na mitologia do povo celta, que habitou a Europa Ocidental na Antiguidade, antes da chegada dos romanos. Entre as crenças celtas, havia a do caldeirão de Ceridwen, que continha uma "poção da sabedoria", e a do caldeirão de Bran, dentro do qual os guerreiros mortos ressuscitavam. Para muitos estudiosos, o Graal de Chrétien é herdeiro dessas lendas, mais antigas que o próprio cristianismo.

Ao longo dos séculos, circulou a tese de que Chrétien encontrou a história do Graal em algum manuscrito desaparecido. Essa opinião se baseia nas palavras do próprio autor: na obra ele cita um livro anônimo cujas revelações teriam servido de inspiração para o seu conto. De acordo com alguns historiadores, isso talvez não passe de um truque literário. Ao contrário do que acontece nos tempos atuais, a Idade Média não via a originalidade com bons olhos. Os escritores tinham o hábito de citar autoridades reais ou imaginárias para dar força a suas próprias criações. Ainda assim, a idéia de um manuscrito original contendo a "verdadeira" história do Graal tornou-se comum na Idade Média. Muita gente afirmou ter encontrado o texto, mas ninguém convenceu completamente os historiadores. Se Chrétien inventou o Graal ou se o encontrou numa narrativa antiga, é coisa que provavelmente jamais saberemos.

Ainda mais incerto é o significado que Chrétien pretendia dar aos tesouros do Rei Pescador. Embora o conto fosse um trabalho de ficção, era comum que literatura e teologia se misturassem na Idade Média, com uma facilidade que pode ser difícil de compreender para a mente materialista do século 21. A religião estava presente em todos os aspectos do dia-a-dia: nobres e plebeus acreditavam no poder das relíquias (veja quadro à esquerda), viajavam centenas de quilômetros para visitar túmulos de santos e viam por todos os lados presságios do Juízo Final e sinais da providência (ou da ira) divina. Naquele mundo saturado de misticismo, o público estava acostumado a encontrar símbolos religiosos em meio aos enredos de seus romances favoritos.

Nos 30 anos seguintes, a história de Percival seria recontada por diversos autores, que acrescentaram novos detalhes e deram ao Graal aspectos diferentes. Para alguns, ele é um relicário contendo a hóstia. Para outros, uma taça ou uma simples tigela. Em Perlesvaus, obra anônima escrita por volta de 1210, o Graal é um objeto mutante, que assume cinco formas diferentes. Segundo o romancista, "nenhuma dessas transformações pode ser revelada" aos mortais comuns, exceto a última: a forma de um cálice. Alguns acreditam que o Graal-cálice reflita o fascínio medieval pela cerimônia da Eucaristia, na qual a hóstia é consagrada como sendo o corpo de cristo - o momento mais solene e dramático da fé católica.

Mas foi nas páginas do Roman de L’Estoire du Graal ("Romance da História do Graal"), escrito entre 1200 e 1210 pelo poeta francês Robert de Boron, que o Santo Graal ganhou sua versão mais popular. Robert criou uma explicação "histórica" para o misterioso tesouro: o Graal seria o prato ou o vaso no qual Jesus partiu o pão na última ceia, mais tarde usado pelo seu discípulo José de Arimatéia para recolher o sangue de Cristo na cruz. Depois da crucificação, essa relíquia teria passado por várias peripécias na Terra Santa até aportar em solo europeu, onde teria ficado escondida atrás das muralhas de um castelo encantado. Segundo o livro de Robert, o objeto tinha poderes sobrenaturais, entre eles o dom de curar feridas, espantar demônios, fazer a terra florescer e revelar segredos apocalípticos. O Cálice Sagrado funcionaria como uma ligação do plano material com o metafísico - uma espécie de ponte entre o humano e o divino.

Em outros romances, a origem da "lança que sangra" também é desvendada. Ela é descrita como a arma usada pelo soldado romano Longinus para rasgar o flanco de Cristo durante a crucificação. Segundo uma velha crença, o golpe dado por Longinus representa o momento exato da morte do Messias. Logo, a lança seria nada menos do que a arma usada para matar Jesus. Não espanta que depois de tantos séculos ela continuasse ensangüentada.

Todas essas teses fortaleciam a crença de que os objetos avistados por Percival fossem mais do que simples tesouros. Eles eram as maiores relíquias do cristianismo - os mais sagrados entre todos os objetos sobre a terra.

As novas lendas

O poeta bávaro Wolfram von Eschenbach, que viveu entre os séculos 12 e 13, foi responsável pela versão mais surpreendente do Santo Graal na Idade Média. Sua obra-prima, Parsifal, escrita entre 1210 e 1220, sugere que o Graal era muito anterior a Cristo. Em vez de prato, vaso ou cálice, ele é descrito como uma pedra luminosa, trazida à Terra por espíritos celestiais quando o mundo era jovem. O Graal-pedra teria sido guardado através dos séculos por uma irmandade de cavaleiros, os templeisen (pronuncia-se "templáisen"), no castelo de Munsalvaesche. Wolfram era um autor criativo e suas obras estão cheias de palavras inventadas e lugares imaginários - ninguém sabe o que podiam ser os templeisen ou que lugar era Munsalvaesche.

A história de Wolfram tem semelhanças curiosas com a lenda do Al-Hajarul Aswad - rocha negra guardada na Caaba, centro da Mesquita de Meca -, o objeto mais sagrado do islamismo. O poeta bávaro pode ter sofrido influência de autores muçulmanos, numa época em que os árabes dominavam boa parte da Europa. Segundo lendas antigas, o Al-Hajarul Aswad caiu dos céus nos tempos de Adão e tem o poder de purificar os fiéis de seus pecados. Outros acreditam que o Graal de Wolfram seja uma alusão ao "lápis elixir", ou pedra filosofal, substância mítica que os alquimistas medievais consideravam capaz de prolongar a vida e transformar qualquer metal em ouro.

Parsifal pode estar na origem de outra lenda que passou a circular no fim do século 13. Segundo ela, o Graal era uma esmeralda que havia adornado a coroa de Lúcifer, o anjo mais poderoso dos exércitos divinos. Essa lenda afirma que a coroa foi despedaçada pela espada do arcanjo Miguel quando Lúcifer ousou revoltar-se contra Deus. O anjo despencou para o fundo do Inferno e a esmeralda caiu na Terra como um meteorito. Mais tarde, ela seria encontrada por um sábio chamado Titurel e esculpida na forma de um vaso.

Livros como esse alcançaram uma popularidade tão grande que, de acordo com o medievalista francês Philippe Walter, deram origem a uma verdadeira "Era do Graal" na cultura da Idade Média. Logo o Santo Cálice ultrapassou os limites da ficção e entrou no reino da possibilidade histórica. Começaram a correr rumores de que ele se encontrava de fato em algum lugar da Europa (veja o mapa abaixo).

Para os interessados em rastrear o "verdadeiro Graal", o livro de Wolfram, com seus detalhes exóticos e alusões obscuras, foi um prato cheio. Parsifal cercou-se de polêmicas, nenhuma delas mais persistente do que a levantada pela palavra templeisen. No início da Idade Contemporânea, surgiu a tese de que a irmandade citada em Parsifal fosse uma referência à Ordem dos Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo de Salomão - os templários. Para entender o fascínio que essa teoria exerceu (e ainda exerce) sobre leitores e escritores, é preciso dar uma olhada na controversa trajetória dos templários - um drama real, mas tão intenso e surpreendente que também poderia ter saído das páginas de um romancista.

Os templários

Em 1096, incitados pelo papa Urbano II, os cristãos da Europa organizaram um ataque à Terra Santa, então dominada por muçulmanos. Essa invasão foi a Primeira Cruzada e seu resultado foi a conquista de parte do território onde hoje fica Israel e a Palestina. Apesar da vitória militar, o território continuou sob litígio e, portanto, não era dos lugares mais seguros para cristãos. Por isso, 20 anos depois, foi fundada a Ordem do Templo, com o objetivo de proteger os peregrinos cristãos em visita aos santuários. Os membros da ordem uniam o treinamento militar às regras monásticas - além dos votos de pobreza e castidade, eles juravam defender a fé a golpes de espada.

Apesar do voto de pobreza, a ordem adquiriu uma especialidade nada franciscana: ganhar dinheiro. Ao longo dos séculos dedicados a proteger cristãos, os templários receberam de nobres agradecidos muitas doações de terras e dinheiro. Além disso eram beneficiados por isenções de impostos e foram aos poucos montando uma frota naval que se tornaria maior que a de qualquer Estado cristão. Seu sucesso no mundo financeiro foi tão grande que "os defensores de Cristo" acabaram se tornando banqueiros. Emprestavam dinheiro, aceitavam depósitos, controlavam investimentos. Cem anos após sua fundação, a ordem transformara-se numa verdadeira companhia multinacional, mais rica que qualquer país cristão. A influência política dos templários cresceu junto com sua riqueza. Nos séculos 12 e 13, os cavaleiros trabalhavam como conselheiros e diplomatas nas cortes dos reis e no próprio Vaticano, compartilhando segredos de Estado e contando com privilégios legais. É claro que tanto poder gerou inimigos. E a situação dos templários piorou muito em 1291, quando os muçulmanos, depois de dois séculos de luta, finalmente expulsaram os cristãos da Terra Santa.

Nas primeiras horas de 13 de outubro de 1307, Felipe, o Belo, rei da França, ordenou a prisão de todos os monges-guerreiros do país, sob acusação de heresia. Começava um dos julgamentos mais famosos e (aparentemente) injustos da história. As acusações incluíam o culto do demônio, homossexualismo e insultos à hóstia - crimes que, na Idade Média, eram motivo de sobra para a pena de morte.

Na opinião da maior parte dos estudiosos, tudo não passou de calúnia. "Nenhum historiador de renome admitirá como verdadeira essa miscelânea de tolices", escreveu o medievalista inglês Malcolm Lambert no seu livro de 1992, Medieval Heresy ("Heresia Medieval", sem versão brasileira). Torturados e amedrontados, muitos templários se declararam culpados. Vários monges-guerreiros pereceram nas câmaras de tortura, nas profundezas dos calabouços ou nas fogueiras da Inquisição. Outros se mataram de puro desespero. Em 1315, o papa Clemente V extinguiu oficialmente a ordem e parte das suas propriedades foi parar nas mãos de seu maior algoz - o rei da França.

A maior parte dos historiadores aposta que os monges-guerreiros tenham sido dizimados por motivos políticos e econômicos. O rei Felipe estava falido e confiscar a fortuna da ordem seria uma ótima solução para ele. Mas há teorias que dizem que a perseguição teve razões mais misteriosas. Elas falam num fabuloso "tesouro dos templários", que incluiria quantidades absurdas de ouro, prata e jóias, além de artefatos sagrados encontrados na Terra Santa. Essas teses começaram a tomar forma apenas entre os séculos 18 e 19 - época em que surgia, simultaneamente, um renovado interesse pelos mitos do Cálice Sagrado. O Graal tinha sido esquecido no início da Renascença, quando todos os medievalismos saíram de moda. Agora, no entanto, o mito do Cálice Sagrado renascia com força total, inspirando diversas obras-primas do Romantismo, entre elas a ópera Parsifal, do compositor alemão Richard Wagner.

Não demorou muito para que estudiosos sugerissem que o suposto "tesouro perdido" dos templários, nunca encontrado, fosse nada menos que o Graal. No século 19, as obras de Wolfram foram resgatadas - e o erudito austríaco Joseph von Hammer-Purgstall foi o primeiro a afirmar que os templeisen eram na verdade cavaleiros templários. Para ele, a Ordem do Templo servia de fachada para os adeptos de uma seita pagã que adotava o Graal como uma espécie de ídolo satânico. Segundo essa tese desvairada, a matança dos templários não tinha nada de injusta - foi apenas uma reação da Igreja contra esses conspiradores demoníacos.

Hoje, a maior parte dos historiadores descarta a teoria como pura imaginação. "O vínculo entre templários e o Graal é implausível", escreveu o medievalista inglês Richard Barber em The Holy Grail: Imagination and Belief ("O Santo Graal: Imaginação e Crença", publicado em 2004 e ainda sem tradução no Brasil). "A Ordem do Templo era uma sociedade militar com fins práticos e não tinha nenhum interesse em misticismo ou teologia", diz. Ainda assim, com sua irresistível mistura de erudição e conspiração, o pesquisador austríaco abriu as portas para teorias mirabolantes que relacionam templários, o Cálice e algum grandioso segredo escondido entre as páginas da história.

O cálice pop

No século 20, a lenda ganhou interpretações que soariam inacreditáveis para os contemporâneos de Chrétien de Troyes. Em 1920, a inglesa Jessie Weston imaginou uma explicação sexual: o vaso seria um símbolo da vagina e a "lança sangrenta" - adivinhe - representaria o pênis. Houve quem viajasse ainda mais longe. Na década de 80, o pastor anglicano Lionel Fanthorpe, presidente da Associação Britânica de Pesquisas Ufológicas, sugeriu, no livro The Holy Grail Revealed ("O Santo Graal Revelado", não traduzido no Brasil), que o Cálice tivesse sido "trazido à Terra por uma nave espacial".

Uma das teses mais famosas - e também das mais controversas - é a do livro O Santo Graal e a Linhagem Sagrada, de 1982. Os detratores da teoria reclamam da lógica peculiar do livro, onde coincidências servem como provas e suposições viram argumentos. Por exemplo: os evangelistas às vezes se referem a Jesus como "um rabino" e, na antiga Judéia, os rabinos tinham que ser casados. Logo, Jesus devia ter uma esposa. E ela devia ser Maria Madalena, a "pecadora" que Jesus salvou do apedrejamento.

Em seguida, o livro interpreta a expressão francesa San Greal (usada em alguns textos medievais para indicar o Cálice Sagrado) como uma corruptela de sang real (em francês antigo, "sangue de rei"). O Evangelho de Marcos afirma que Jesus era descendente dos reis Davi e Salomão - logo, o tal sangue real pode ser uma referência à linhagem terrena de Cristo. De suposição em suposição, os autores chegam à hipótese de que a crucificação foi uma farsa. Jesus, que se considerava herdeiro do trono de Jerusalém, fugiu para a França com a esposa e seus filhos. Sua descendência teria continuado viva com os merovíngios, dinastia francesa que reinou nos primeiros séculos da Idade Média. Perseguidos pela Igreja Católica, que temia perder seu poder sobre os fiéis, os herdeiros de Cristo teriam sobrevivido graças à proteção - adivinha de quem? - dos templários.

Graças ao gosto moderno por intrigas esotéricas e complôs universais, essa teoria acabou se transformando num fenômeno pop. Ainda que poucos pesquisadores a levem a sério, ela acabou definitivamente assimilada à mitologia do Santo Graal. As idéias contidas em O Santo Graal e a Linhagem Sagrada serviram de inspiração para best sellers internacionais como Os Filhos do Graal, de Peter Berling, sucesso na Europa na década de 90, e O Código Da Vinci, de Dan Brown, que vendeu 17 milhões de exemplares pelo mundo e vai virar filme pelas mãos do diretor Ron Howard.
Ao que tudo indica, a saga do Graal está longe de acabar. Relíquia católica, símbolo pagão ou estrela do entretenimento, ele continua uma imagem capaz de significar muitas coisas em muitas épocas diferentes - e é nesse poder camaleônico de sugerir e ocultar, iluminar e confundir, que se encontra o segredo de sua longevidade. Desde os tempos da cavalaria até a era da comunicação em massa, o Graal sempre foi um objeto mais do reino da ficção que da história. Mesmo assim, ao longo desses 800 anos, ele nunca parou de mexer com a imaginação humana. O Código Da Vinci não é o primeiro best seller a ter o Graal como estrela. E pode ter certeza de que não será o último.


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sexta-feira, 8 de julho de 2011

Alexandre o cara

ALEXANDRE, O CARA



Em 356 a.C., no sexto dia do mês grego de Hecatombeon, o grande templo de Artemis, em Éfeso, onde hoje fica a costa da Turquia, foi destruído pelas chamas. Entre os habitantes da cidade, o incêndio da magnífica construção - uma das sete maravilhas do mundo antigo - foi visto como um sinal divino. Enquanto o templo queimava, os magos de Éfeso corriam em volta das labaredas, batendo as mãos no rosto e anunciando que feitos grandiosos e terríveis se aproximavam.
No mesmo dia, segundo o escritor grego Plutarco, do outro lado do mar Egeu, uma mulher chamada Olímpias dava à luz seu primeiro filho. Olímpias era rainha da Macedônia, no norte do que hoje é a Grécia. Segundo ela, na noite em que o garoto foi concebido, um relâmpago a atingiu no ventre. O rei Filipe II, marido de Olímpias, disse ter encontrado a esposa adormecida ao lado de uma enorme serpente.
Se essas histórias são verdadeiras, não sabemos. O que sabemos é que o menino ganhou o nome de Alexandre. Sabemos também que, antes de completar 30 anos, o filho de Olímpias e Filipe se tornaria o maior conquistador que o mundo já vira - e um dos maiores que veria até hoje. Alexandre foi senhor de um império gigantesco e responsável por uma das campanhas militares mais espetaculares da história. Seu nome tornou-se um mito - e sua personalidade continua até hoje mergulhada em polêmica e mistério.
O nascimento se deu numa época conturbada. Fazia mais de um século que a bacia do mar Egeu era palco de um sangrento duelo entre duas potências rivais: as cidades-estado da Grécia e o enorme Império Persa. Até aquele momento, os gregos haviam sido vitoriosos, mas as poderosas e independentes cidades-estado, divididas por rivalidades seculares, mostravam-se incapazes de transformar a Grécia em uma nação coesa. Enquanto o Império Persa se recuperava das antigas derrotas, os gregos lutavam entre si, arrastando o país à beira da anarquia.
Filipe, pai de Alexandre e rei da Macedônia, dedicou-se a reverter essa situação. Dotado de um incansável gênio político, ele transformou seu reino em uma potência internacional e criou um exército organizado e eficaz (veja o quadro à direita). No auge de seu poder, Filipe fundou a Liga de Corinto, organismo que unificava todas as cidades da Grécia - menos Esparta - sob a hegemonia macedônica. No entanto, não teve tempo de realizar seu projeto mais ambicioso: unir gregos e macedônios em uma expedição contra o inimigo comum, o Império Persa.
Durante uma festa, em 336 a.C., Filipe foi apunhalado. Alexandre subiu ao trono em meio a uma tempestade de intrigas, cercado por inimigos dentro e fora do reino. Para manter-se no poder, ele foi implacável: eliminou adversários na corte, esmagou rebeliões e provou que Filipe tinha um herdeiro à altura. Com o reino pacificado, Alexandre estava pronto para levar adiante os projetos do pai - e superá-los. Caberia a ele conduzir a Macedônia ao auge de seu poder e abrir um novo capítulo na história do mundo.

Jovem rei
Quando tomou as rédeas do reino, Alexandre tinha só 20 anos, mas já era um político habilidoso e um guerreiro indomável. Desde a infância, a ambição foi sua característica dominante. Certa vez, ao receber notícias de uma vitória de Filipe, o príncipe lamentou-se com seus amigos: "Meu pai vai acabar conquistando tudo, e não deixará para nós nenhum feito grandioso". Aos 18 anos, quando comandou a cavalaria macedônica na batalha de Queronéia, sua coragem transformou-o em um ídolo entre os soldados. O gosto pelo perigo, unido a um profundo magnetismo pessoal, encantava seus companheiros e fazia de Alexandre um líder irresistível.
Além da bravura militar, ele havia demonstrado desde menino uma grande curiosidade intelectual. Apaixonado pelas artes e pelas ciências, sempre respeitou os poetas, filósofos e eruditos (veja o quadro na página 45). Certa vez, afirmou que teria preferido superar os outros em conhecimento do que em poder político. O macedônio sabia de cor os versos da Ilíada e costumava dormir com o livro debaixo do travesseiro - junto com a espada, claro. Sua mãe o convenceu de que era descendente de Aquiles, o grande herói da Guerra de Tróia. Essa guerra mítica teria sido a origem ancestral da rivalidade entre gregos e persas. Alexandre adotou Aquiles como modelo e, assim como o semideus fabuloso, o rei dos macedônios era generoso com os amigos e capaz da maior cortesia com os adversários, mas também vivia obcecado pela idéia de sua própria grandeza e deixava-se arrastar por surtos de cólera.
Em 334 a.C., ele pôs em ação o velho projeto do pai: à frente de um exército de 37 mil soldados, marchou para a Ásia Menor e atacou os persas em seus próprios domínios. A primeira grande batalha ocorreu às margens do rio Granico (que hoje se chama Koçabas). Galopando à frente da cavalaria, Alexandre foi cercado por uma multidão - e teria morrido ali mesmo, em começo de carreira, atravessado pela cimitarra de um comandante persa, se não fosse seu amigo Clito, que decepou o braço do atacante e salvou a vida do rei por uma fração de segundo.
O exército macedônico deparou com o grosso das forças adversárias em uma planície próxima de Issus, na Síria. Lá, Dario III, imperador da Pérsia, aguardava-o com um exército de provavelmente 50 mil a 75 mil homens (alguns historiadores antigos chegam a falar de 600 mil homens, mas os historiadores antigos não se notabilizam pela exatidão numérica). As tropas de Alexandre eram menores em número, mas superiores em tática e disciplina - e o resultado foi um banho de sangue. Os macedônios massacraram milhares de soldados inimigos e o resto fugiu em pânico - incluindo o próprio Dario III, que abandonou sua mãe, sua esposa e suas filhas no acampamento real. Ao encontrar a família do inimigo, Alexandre se comportou como um cavalheiro: garantiu às cativas que seriam tratadas como rainhas e jamais permitiu que alguém as desrespeitasse. As prisioneiras afeiçoaram-se tanto a seu captor que, após a morte de Alexandre, Sisigâmbis, mãe de Dario, suicidou-se por inanição.
Depois dessa vitória esmagadora, nada parecia impossível. Pouco a pouco, as verdadeiras ambições de Alexandre começavam a se revelar. Ele não pretendia apenas derrotar o Império Persa. Seu desejo ia um pouco além: dominar o mundo.

Filho de deuses
Antes de completar a conquista da Ásia, Alexandre dirigiu-se para a África e penetrou triunfalmente no Egito. A terra das pirâmides, que durante séculos fora dominada pelos persas, saudou-o como libertador - e o rei da Macedônia foi declarado herdeiro dos faraós. Após iniciar a construção de Alexandria - uma das muitas cidades que levariam seu nome (veja o quadro da página 47) -, o conquistador cavalgou pelo deserto para visitar o oásis de Siva, na Líbia, onde se localizava o célebre oráculo do deus solar Amon - que, na Grécia, era associado a Zeus, o senhor do Olimpo. De acordo com alguns relatos, os sacerdotes do templo, vendo aproximar-se o monarca, saudaram-no como "filho de Zeus" e anunciaram que seu destino era dominar o Universo.
As palavras dos sacerdotes alimentaram o velho rumor de que Alexandre não era um simples mortal - mas um filho dos deuses. "Para a mentalidade oriental, isso caía como uma luva. Especialmente no Egito", diz o historiador clássico Anderson Zalewski, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). "O fato de um conquistador se apresentar como deus não era anormal por lá. Um dos elementos da monarquia oriental era o caráter divino", afirma.
Jamais saberemos com certeza se o próprio Alexandre acreditava em sua natureza divina, mas, entre seus seguidores gregos e macedônios, essa pretensão - mesmo que não passasse de truque político - era encarada com desconfiança. Muitos pensavam que, ao declarar-se filho de um deus, Alexandre renegava a memória de seu pai, Filipe. Outros acreditavam que a vaidade do jovem soberano estava indo longe demais. Em 324 a.C., quando Alexandre ordenou que os súditos o reconhecessem como um deus vivo, seus inimigos denunciaram o ato como pura megalomania. Em Esparta, comentou-se com desprezo: "Deixem Alexandre ser um deus, se isso lhe agrada..."

Rei dos Reis
Conquistado o Egito, Alexandre não voltou para casa. Ele preferiu rumar para a Ásia, onde iniciou uma caçada humana - cuja presa era Dario III. "Se te consideras um rei", escreveu o macedônio ao imperador da Pérsia, "prepara-te para a luta e não fujas, pois eu te perseguirei aonde quer que vás". Os inimigos voltaram a se defrontar em 331 a.C., em Gaugamela (atual Tell Gomal, no Iraque). Dario fugiu pela segunda vez e acabou sendo assassinado por um de seus próprios oficiais. Em Susa, uma das antigas capitais do império, Alexandre sentou-se triunfalmente no trono dos soberanos persas. Agora ele era o "Rei dos Reis", senhor de gregos e dos asiáticos. Tinha apenas 25 anos.
No entanto, ao mesmo tempo em que o rei atingia o ápice da glória, as tensões entre ele e seus seguidores chegavam a um ponto crítico. O macedônio começava a se comportar como um monarca absoluto - e muitos de seus oficiais ressentiam-se dessa transformação. Alexandre instituiu em sua corte a cerimônia da proskynesis, ou prostração - gesto de humildade em que o súdito se curva perante o soberano. Entre os persas, esse ritual não passava de uma mostra de respeito. Para os gregos e macedônios, era um ultraje. "Os soldados de Alexandre consideravam-se seus companheiros, e o ato de se prostar era visto como uma degradação própria de escravos", afirma o historiador Zalewski.
Alexandre passou a favorecer cada vez mais os súditos asiáticos e começou a imitar muitos de seus costumes. Incluiu nobres persas em seu círculo de amizades, entregou o governo de províncias a antigos funcionários de Dario e adotou trajes orientais. Também estimulou a união entre seus oficiais e mulheres asiáticas - chegando ele próprio a se casar com uma nobre iraniana chamada Roxane. Muitos gregos e macedônios acusavam o rei de estar se afeiçoando perigosamente ao inimigo.
Durante os anos que Alexandre passou na Ásia, a antiguidade e o mistério das culturas orientais exerceram grande fascínio sobre seu espírito. No livro Alexandre e o Império Helênico, o historiador britânico A.R. Burn, da Universidade de Glasgow, Escócia, afirma que o macedônio "aprendera a respeitar os persas por sua coragem em luta, e mesmo por sua eficiência administrativa". Além disso, certamente lhe agradava o ego ser tratado como um soberano supremo. Acima de tudo, no entanto, havia uma questão de ordem estratégica: para governar um império que pretendia ser universal, era preciso ganhar o coração dos novos súditos e estabelecer uma unidade cultural em seus domínios. "Sua tática era mimetizar os costumes dos povos dominados, procurando conciliar a tradição helênica e a memória cultural local", diz o historiador e arqueólogo Francisco Marshall, também da UFRGS. "O grande motivo por trás da orientalização de Alexandre e de sua política de mestiçagem é o desejo de evitar a fragmentação em seus domínios", afirma.
É claro que um projeto tão complexo não poderia ser totalmente compreendido por aqueles que o cercavam. "A orientalização de Alexandre causou amargo rancor entre os macedônios e a tensão passou a disseminar-se pela corte", afirma o historiador britânico John Maxwell O’Brien em Alexander the Great: the Invisible Enemy ("Alexandre, o Grande: o Inimigo Invisível", sem tradução no Brasil). Murmúrios de descontentamento fervilhavam entre as tropas e o rei já sentia a solidão do poder absoluto. Desconfiado e taciturno, bebia cada vez mais, enxergava inimigos por todos os lados e tratava sem piedade os suspeitos de traição.
Em 328 a.C., durante um banquete de casamento na cidade de Samarcanda, Clito, o heróico oficial que tinha salvado a vida de Alexandre anos antes, às margens do Granico, deixou-se levar pela raiva e lançou na face do rei uma série de acusações amargas. "Tenho inveja dos mortos" gritou ele, "que não viveram para ver macedônios açoitados com varas, implorando aos persas, como se fosse um favor, uma audiência com nosso próprio rei!" A inveja de Clito não duraria muito. Alexandre, que estava completamente embriagado, arrancou uma lança das mãos de um de seus guardas e atravessou com ela o coração do amigo. Clito caiu com um gemido e morreu na hora. Ao ver o cadáver estirado a seus pés, Alexandre ficou imediatamente sóbrio e entrou em desespero. O remorso o manteve na cama durante três dias, sem aceitar comida nem vinho.
O episódio, contudo, não diminuiu a determinação do macedônio - e, passado o choque inicial, sua ambição e seus modos autoritários voltaram com força redobrada. Os domínios de Alexandre já abrangiam três continentes, mas ele não estava disposto a descansar enquanto não alcançasse os limites do mundo conhecido. Assim, em 327 a.C., o rei voltou a reunir suas tropas e marchou. Rumo à Índia.

Deus caído
Para os gregos, a Índia era uma região misteriosa e de geografia incerta. Alguns afirmavam que, para além dela, estendia-se o Oceano Exterior - uma gigantesca massa de água que demarcava os limites da Terra. Acreditasse ou não nessas lendas, o fato é que Alexandre pretendia ultrapassar as antigas fronteiras do Império Persa e estabelecer seu domínio sobre as "terras incógnitas" do Extremo Oriente. Ele queria nada menos do que a China.
Às margens do rio Hidaspes (hoje Jhelum, na Caxemira, região disputada pela Índia e o Paquistão), Alexandre encontrou um adversário à altura: o rajá de Paurava, conhecido entre os gregos como rei Porus. Porus era um gigante - dizem que tinha mais de 2 metros - e poucos igualavam sua coragem em batalha. Segundo algumas fontes, seu exército contava com 23 mil homens, 300 carros de guerra e 85 elefantes. A luta começou sob chuva, na penumbra da madrugada, enquanto os cavaleiros gregos atravessavam o rio com água no peito. Montado em seu elefante, Porus continuou a lutar com fúria mesmo após a morte de seus dois filhos e a dispersão de quase todas as tropas. Quando o indiano finalmente se rendeu, Alexandre estava impressionado com sua bravura. Perguntou-lhe como desejava ser tratado, ao que Porus respondeu: "Como um rei". Alexandre atendeu seu pedido: manteve Porus no poder e fez dele um aliado. O rajá permaneceu leal ao rei da Macedônia até o fim da vida. Foi nessa batalha que morreu Bucéfalo, o célebre cavalo de Alexandre.
Entusiasmado com a vitória, o conquistador preparava-se para avançar até o rio Ganges. Mas a encarniçada batalha contra Porus havia esfriado o ânimo das tropas. Esgotados pelo sufocante verão indiano e pelas incessantes chuvas de monção, os soldados, que acompanhavam Alexandre havia oito anos, só pensavam em voltar para casa. Às margens do rio Hífaso, o exército recusou-se a dar um único passo adiante. Furioso, Alexandre afirmou que seguiria sozinho se fosse preciso. Encerrou-se em sua barraca e, por dois dias, recusou-se a ver qualquer pessoa. Mas, dessa vez, sua ira foi inútil. Compreendendo que não lhe restava opção, ele cedeu ao apelo dos oficiais. Quando souberam que iam voltar, os soldados choraram de alegria.
Retornando ao centro do império, Alexandre começou a sonhar com novas campanhas. Mas seu corpo e sua mente estavam esgotados por uma década de guerras. Em 324 a.C., o espírito combalido do macedônio recebeu um golpe duro: Heféstion, seu amigo mais íntimo (e, segundo alguns, seu amante), morreu por excesso de bebida. O rei chorou sobre o cadáver do companheiro e resolveu afogar as mágoas de seu jeito favorito: marchou contra a tribo dos cosseanos e ordenou que toda a população masculina fosse passada no fio da espada.
Com a alma envenenada pela solidão e pela desconfiança, o homem mais poderoso do mundo deixou-se derrotar pelo vinho. Seus banquetes estendiam-se noite adentro. Numa dessas ocasiões, segundo Plutarco, 41 convivas morreram de tanto beber. Com a saúde destroçada, Alexandre foi dominado por fantasias supersticiosas e começou a ver presságios de sua própria morte por todos os lados.
Em 323 a.C., na Babilônia, os presságios se confirmaram. Após um dia e uma noite de bebedeira, o imperador caiu de cama, ardendo em febre. No dia 10 de junho, ao pôr-do-sol, Alexandre, o Grande, estava morto. Para alguns, a causa foi a bebida; para outros, uma doença não diagnosticada, como malária (pesquisadores atuais cogitam a hipótese de ter sido sífilis). Há quem fale em envenenamento. Alexandre ainda não tinha 33 anos.
O rei não deixou herdeiros - e quando, no leito de morte, perguntaram-lhe a quem legaria o trono, ele murmurou: "Ao mais forte". Enquanto os soldados pranteavam o grande líder, seus generais já se batiam pela soberania. Em meio a uma profusão de assassinatos, lutas e traições, o sonho de um império universal chegava ao fim.

A herança
A partir de 321 a.C., os domínios de Alexandre foram divididos entre seus oficiais: Seleuco apoderou-se da Ásia Ocidental, Antígono reinou sobre a Macedônia e Ptolomeu fundou uma dinastia no Egito, cuja herdeira mais famosa foi a rainha Cleópatra. O gigantesco império fragmentou-se em pedaços que acabaram sendo subjugados pelos romanos, cerca de dois séculos depois. Alguns detratores de Alexandre chegaram a negar sua contribuição para a história - um texto anônimo afirma que "nada do que ele fez permaneceu, exceto pelas pessoas que matou, e essas continuam mortas".
A verdade, no entanto, é que as conquistas macedônicas, motivadas em grande parte pela ambição e pelo orgulho de um único homem, tiveram conseqüências tão vastas e profundas que deram início a um novo período histórico - conhecido como "época helenística". Em sua passagem pela Ásia e pela África, Alexandre fundou cidades, estabeleceu rotas de comércio e abriu as portas do mundo para a cultura helênica. Gregos passaram a migrar para o Oriente e metrópoles floresceram, como Pérgamo, Antióquia e Alexandria do Egito. Nas regiões mais remotas, governantes cercavam-se de filósofos, historiadores, geógrafos, pintores e escultores, ajudando a criar novos estilos artísticos e dando início a um período de curiosidade intelectual e avanço científico.
Para o classicista Marshall, a helenização do mundo antigo pode ser interpretada como a primeira globalização da história. "Alexandre foi o primeiro a realizar um projeto de unificação dirigida, planificada, deliberada. Com a fundação de cidades gregas por todo o Oriente, ele estabeleceu focos de irradiação da cultura clássica."
O período foi marcado por um intenso diálogo entre civilizações. O fascínio das culturas orientais logo começou a agir sobre o helenismo, transformando o espírito dos dominadores. Deuses como Ísis e Serápis, vindos do Egito, passaram a ser adorados pelos gregos. Ao redor do Mediterrâneo, fiéis eram iniciados em novos cultos, que prometiam salvação individual e imortalidade para a alma. Surgia, assim, o caldo heterogêneo no qual nasceria o cristianismo. "Os conquistadores gregos e macedônios passaram a interagir com as elites e as populações das terras dominadas, e o resultado foi uma experiência de total encontro de culturas", diz a arqueóloga Maria Beatriz Borba Florenzano, do Museu de Arqueologia e Etnologia da USP.
Embora Alexandre tenha inaugurado uma era de tanto florescimento, seria ingênuo imaginar que o objetivo de seus atos fosse a fraternidade universal ou o bem das nações. Como escreveu Burn, "a idéia de que a ambição e o desejo de dominar são motivos indignos só surgiria na Europa sob influência do cristianismo". Alexandre viveu na certeza de que a dominação em larga escala era o único alvo digno de seus talentos. E foi seguindo a implacável lógica da conquista que ele escreveu seu nome, em letras de fogo e sangue, na história da humanidade.


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