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sexta-feira, 22 de novembro de 2019

Gemfire - Genesis - 1991 - 16 Bit

Gemfire - Genesis - 1991 - 16 Bit


Gemfire (conhecido no Japão como Royal Blood) é um jogo de estratégia medieval em turnos para o Mega Drive/Genesis, MSX, NES, Supernes,  e MS-DOS desenvolvido por Koei. 

domingo, 1 de abril de 2012

2 Mil Anos de Xadrez

2 MIL ANOS DE XADREZ



Criado para curar a depressão de um antigo rei indiano, o jogo simula o confronto de dois exércitos, cujas manobras podem se desdobrar numainfinidade de lances diferentes.

Há mais de 2 mil anos, provavelmente no século Vl a.C., nos abastados reinos da Índia começou a surgir uma modalidade de jogo destinada a conquistar a imaginação dos nobres e dos mestres da guerra. Em poucas gerações, a nova mania espalhou-se por terras e povos vizinhos-e daí, muito mais lentamente, para o mundo todo. O nome original do jogo era chaturanga-que significava "quatro reis" -, e dele descende o xadrez, praticado por milhões de pessoas que o consideram o mais complexo exercício de inteligência já inventado.
Existem várias versões sobre a origem e o desenvolvimento do jogo, além de muitas dúvidas sobre os caminhos de sua propagação. Ao que tudo indica, a princípio o chaturanga não era disputado por apenas dois jogadores, como o xadrez atual, mas sim por quatro. Cada um deles, em vez das dezesseis peças modernas, dispunha de oito peças que corriam as 64 casas do tabuleiro. Não existia ainda, por exemplo, a figura da rainha-hoje a peça mais poderosa do xadrez. Os contendores moviam um elefante, um cavalo, um carro de guerra e quatro peões. O objetivo já era defender a peça central, o rei, e capturar o rei do adversário. No entanto, ao contrário do xadrez, o chaturanga dependia da sorte, pois a ordem das jogadas era definida pelos dados.
Segundo a lenda, o jogo nasceu como um remédio: teria sido inventado por um dos sábios da corte do Hindostão, de nome Sissa, para curar a depressão do rei. Encantado com sua pronta recuperação e ainda sem perceber as espantosas possibilidades do novo entretenimento, o rei prometeu ao sábio a recompensa que quisesse. Sissa pediu pouco, aparentemente. Apenas um tabuleiro cheio de trigo, mas de modo que na primeira casa houvesse um grão, na segunda, dois, na terceira, quatro, e assim sucessivamente, dobrando a quantidade de grãos até a casa 64. Quando o rei mandou fazer os cálculos, descobriu, assombrado, que o trigo necessário para completar o tabuleiro chegava a quase 20 quintilhões de grãos (o número 2 seguido de 19 zeros). Mais do que toda a produção mundial.
Em cinco séculos. o chaturanga já havia chegado à China, a mais de 4 mil quilômetros da Índia. Ali recebeu o nome de "jogo do elefante". Na mesma época, alcançou o Japão, onde passou a ser chamado de go ou go bang, nomes que se conservam até hoje. Em tempos bem mais recentes, no sexto século depois de Cristo, o jogo ganhou grande destaque na Pérsia, sob o reinado do xá Cosroes I. O nome persa para o jogo era chatrang, do qual parece terem se originado as expressões "xeque" e "xeque-mate"-ameaça ao rei e rei morto, respectivamente. Na União Soviética, até os dias que correm, o jogo se chama "xeque-mate". Em inglês é chess, em alemão, schach, em francês, jeu des échecs. Da Pérsia, o jogo emigrou para a Arábia. Em 650 da era cristã, o imperador francês Carlos Magno ganhou um tabuleiro de presente do lendário califa Harum-alRashid. Foi assim, acredita-se, que os ocidentais tomaram conhecimento do xadrez. O jogo difundiu-se inicialmente na Espanha. Em 1088, o rabino Abrahan Ben Ezra, de Toledo, escreveu um poema sobre uma partida entre peças negras (etíopes, no poema) e vermelhas (edomitas).
O xadrez é um jogo de infinitas combinações-ou algo muito perto disso. Calcula-se que o número de jogadas possíveis em uma partida é tão grande como o número de átomos do Universo. Outra conta de tirar o fôlego é a seguinte: um computador que fosse capaz de analisar 100 milhões de jogadas possíveis por segundo demoraria aproximadamente 3 x 10104 anos (ou seja, o número 3 seguido de 104 zeros) para terminar a partida. Isso resulta do fato de que, ao longo dos séculos, o xadrez foi se tornando mais variado, mais complexo e cheio de possibilidades. A principal transformação parece ter sido o aparecimento da rainha-o que não só subverteu as regras do jogo como também foi um lance inusitado: afinal, figuras femininas não costumavam freqüentar campos de batalha, reais ou simulados.
A rainha entrou em cena no século XV, depois que os árabes, que tinham aprendido o jogo com os persas, levaram-no para a Espanha. Ali e na França o jogo começou realmente a mudar. As inovações começaram pelos peões. Estas peças, que podiam andar apenas uma casa em cada lance, ficaram mais ágeis, podendo avançar duas casas no primeiro movimento. Depois dos peões foi a vez das torres: ganharam um movimento novo, chamado roque, no qual uma delas troca de lugar com o rei. Enfim, o caso da rainha. Os árabes chamavam a peça que Ihe deu origem de firzan, que significa "vizir" ou "conselheiro". Tratava-se de um personagem masculino, portanto. Além disso, o firzan só se movia uma casa de cada vez-e não quantas casas se queira, como no jogo moderno.
Não se sabe por que ocorreu essa mudança. Pode ter sido resultado da presença marcante da rainha Isabel, a Católica, que governou a Espanha no século XV. Pode ter sido também fruto de uma analogia com o jogo de damas, onde as peças são coroadas depois de atravessar o tabuleiro. Então adquirem o direito de circular com muito maior desenvoltura, já com o título de damas. Também no xadrez, o peão que chega a cruzar todo o tabuleiro fica mais poderoso. É possível que esse peão, por analogia com a dama, tenha passado a se chamar rainha. (Tecnicamente, em português rainha é chamada de dama.) O bispo também mudou, provavelmente a partir da metamorfose do velho elefante indiano. As informações mais recentes sobre o antecessor do bispo vêm da Pérsia, onde o elefante acumulava dois movimentos.
Um desses era o passo em diagonal, como o dos atuais bispos (embora elefante persa desse só um passo por vez). O segundo movimento lhe permitia saltar outras peças, como o moderno cavalo. Os espanhóis descartaram este último movimento e deram à peça o nome pelo qual se tornou conhecida-alfil, bispo, em espanhol. Na França, porém, ela se chamou, palhaço. Na Alemanha, ganhou o nome de laufer, corredor. Na Rússia ficou o nome tradicional, slon, elefante. O antigo cavalo, por sua vez, já possuía o movimento aos saltos, como hoje, e assim permaneceu, retendo também o velho nome. O mesmo vale para o movimento das torres. Estas porém, receberam diversos nomes, conforme as línguas. No árabe, chamavam-se ruji, carro de guerra. Daí a denominação inglesa rook, com a mesma acepção. Os peões, enfim, devem seu nome uma tradução da palavra árabe daq, soldado a pé. Esses humildes habitantes do tabuleiro causaram certa confusão quando adquiriram a capacidade de se transformar em rainhas Teóricos da época, talvez vexados, diziam que não ficava bem o rei ter duas ou mais rainhas no Jogo, como se fosse polígamo. Mas tais objeções vingaram. Assim se encerraram mudanças nas regras relativas aos movimentos das peças, realizadas no século XV e XVI, que deram ao jogo sua fisionomia atual. O que mudou - e muito-, desde então, foram as técnicas, tornando os lances muito mais pensados e armados.
Em conseqüência disso, os chamados grandes mestres deixaram de ser campeões solitários, que se enfrentavam um a um diante do tabuleiro. Eles aprenderam a trabalhar em equipes de assessores que os ajudam a planejar uma partida. O campeão mundial Garri Kasparov, da União Soviética, por exemplo, nunca deixa de levar consigo pelo menos três analistas, grandes conhecedores do jogo, estudam a estratégia e as táticas dos adversários e sugerem modos de sobrepujá-las. Além disso, Kasparov emprega outros cinco ou seis auxiliares-incluindo um psicólogo, para cuidar de seu estado emocional, e um burocrata, para controlar os elevados gastos da equipe. Em outras palavras, ocorreu com o xadrez algo semelhante ao que aconteceu com a produção científica. No passado, os cientistas eram trabalhadores solitários como os enxadristas: verrumavam suas invenções e descobertas exclusivamente com o próprio cérebro. Hoje, em vez disso, trabalham em vastos e complexos laboratórios ao lado de dezenas de auxiliares. "Mas não se deve pensar que o individualismo do passado desapareceu por completo entre os enxadristas", lembra o brasileiro Hermann Claudius, mestre internacional. Pode ser. No entanto, por mais que conte o talento incomparável dos grandes jogadores, o jogo moderno também exige enorme habilidade tática, que nem sempre pode ser dominada por um único homem. No passado, o objetivo essencial do enxadrista era o ataque, a qualquer preço. Um exemplo notável desse estilo foi a partida denominada imortal, entre os alemães Adolf Andersen e Lionel Kieseritzky, jogada em Londres, em 1851, que deu a Andersen o título mundial. Logo no início, ele fez uma arrancada impetuosa, não se importando, para isso, de sacrificar um peão e duas peças peso pesado-as torres - antes do vigésimo lance. Pior ainda: no 22º, o lance, Andersen entregou também a rainha. Em compensação, na jogada seguinte ele daria o xeque-mate, fulminando o surpreso adversário.
Hoje seria muito difícil repetir uma carreira desabalada desse tipo, pois as táticas ensinam como evitá-la. Mesmo na época de Andersen a concepção do jogo já havia dado passos importantes - por exemplo, com a tática dos peões, criada pelo francês André Philidor na virada do século XIX. Para ele, os peões não eram simples soldados a pé, mas, como dizia, "a alma do xadrez". Ao invés de colocá-los à frente para serem sacrificados, Philidor preservava-os para dar apoio às peças mais fortes. Depois de Philidor e Andersen, o xadrez seria cuidadosamente pesquisado pelo austríaco Wilhelm Steinitz (1836-1900), um enxadrista profissional de tempo integral. Campeão do mundo de 1866 a 1893, ele criou, com um alemão, Siegbert Tarrash, as famosas aberturas defensivas, que transformaram os inícios de partida em verdadeiras equações matemáticas.
As aberturas e táticas cuidadosas acabaram criando um dos maiores enxadristas de todos os tempos, o cubano José Raúl Capablanca (1888-1942). Menino prodígio no xadrez e campeão do mundo durante seis anos, sem que ninguém ousasse disputar-lhe a supremacia, Capablanca recorria às táticas existentes como se tivesse nascido sabendo utilizá-las. Ele acabaria derrotado por um novo teórico do tabuleiro: o russo emigrado Alexander Alekhine (1892-1946). Desde o século passado, com efeito, os russos já eram notáveis enxadristas. Mas Alekhine seria o primeiro de uma interminável sucessão de grandes mestres a aparecer para o mundo. Em 1948, com a vitória de Mikhail Botvinnik no campeonato mundial, os soviéticos iniciaram o período de supremacia que dura até hoje.
Esse poder só lhes seria usurpado -temporariamente-em 1972, pela irrupção de um gênio, o americano Robert Fischer. Mas ele era temperamental demais para seguir as estritas regras do xadrez internacional. Em poucos anos, renunciou ao título para não ter de disputá-lo com o soviético Anatoli Karpov. Este último teve ainda grande dificuldade para defender-se de outro jogador turrão, Viktor Korchnoi, soviético vivendo no exílio. Na União Soviética, há 4 milhões de filiados à Federação Nacional de Xadrez, enquanto nos Estados Unidos o número de filiados à federação local é de apenas 20 mil e na Inglaterra, 10 mil. No Brasil, não se sabe quantos são os enxadristas de carteirinha. O Clube de Xadrez de São Paulo, o maior do país, tem 600 sócios. É claro que apenas a quantidade de filiações não conta toda a história da popularidade do jogo em cada país: muita gente pode jogar habitualmente xadrez sem se preocupar em assinar fichas de instituições ou clubes.
Está em gestação algo capaz de popularizar ainda mais esse jogo. Trata se de uma simplificação, dessa vez encurtando de duas horas para apenas meia hora a duração das partidas, a fim de deixar pouco espaço a grandes cerebrações. As primeiras partidas dessa nova modalidade já começaram a ser disputadas, inclusive no Brasil. No entanto, nenhuma mudança vingará se não for encampada pelos países da Europa Oriental, especialmente a União Soviética.



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terça-feira, 25 de outubro de 2011

Os Alarmes soam quando somem as Borboletas

O ALARME SOA QUANDO SOMEM AS BORBOLETAS



Quando elas desaparecem de um trecho qualquer da mata, é sinal de que alguma coisa muito grave está acontecendo com aquele ecossistema. Mas os homens ainda não aprenderam a ouvir esses alarmes.

Aquela imagem tradicional do caçador de borboletas, ar desligado, redinha numa das mãos, chapéu de explorador, já não tem mais sentido se é que chegou a ter, algum dia. Pois caçadores de borboleta, hoje em dia, podem ser tudo o que quiser, menos desligados. Agora eles formam uma legião imensa, onde se enquadram todos os tipos físicos da América Latina, e trabalham sob as vistas e uma gigantesca conexão internacional que vai, por exemplo, das selvas do Peru, passa pelas ricas praias do Rio de Janeiro e termina, quem sabe, nas ruelas de Hong Kong. Os pratinhos e bandejas decoradas com aquele azul-metálico que nós, brasileiros, já nos habituamos a ver nas lojas e quiosques especializados em atender a turistas, são um produto dessa operação. Mas são ninharias, se comparados com as monstruosas tampas de mesas e biombos executadas por encomenda em países onde essas delicadas borboletas, habitantes dos trópicos americanos, fazem o deleite dos apreciadores de móveis exóticos. E haja borboleta azul, pois uma única tampa de mesa podem ser consumidas nada menos do que duas mil asas.
Já em 1975, cientistas denunciam na Inglaterra a captura e conseqüente comercialização de seis milhões de borboletas azuis , por ano. Há muito boas razões para imaginar que, atualmente, esse número tenha triplicado. Ainda assim, pode-se fazer com segurança uma afirmação aparentemente surpreendente: as borboletas azuis não estão ameaçadas de extinção, mesmo submetidas a esse fantástico regime de caça e perseguição. Isso, apesar de não gozarem da proteção de nenhum organismo internacional, nem terem sido objeto de petições com milhares de assinaturas dirigidas à Assembléia Nacional Constituinte.
São as fêmeas que garantem a sobrevivência das borboletas azuis, graças a algumas peculiaridades bem marcantes. Em primeiro lugar, elas são extraordinariamente férteis: numa única desova, uma dessas fêmeas é capaz de gerar centenas de lagartas. Em segundo lugar, elas não são azuis - ou, pelo menos, não são muito azuis -, de modo que não chegam a atrair a atenção dos caçadores. Finalmente, elas costumam voar muito alto, acima da copa das árvores, fora do alcance de qualquer caçador. Os machos, ao contrário, são azuis, bonitos, atraentes e voam baixo - e por isso engordam sozinhos aquelas estatísticas apresentadas pelos cientistas ingleses. Mas, por mais machos que sejam capturados, sempre sobra algum para fecundar as fêmeas que voam lá no alto e garantir, assim, a sobrevivência. Pode-se afirmar, portanto, que com redinhas e chapéus de explorador não se acabará nunca com as borboletas azuis, por mais asas que sejam necessárias para fabricar móveis e bandejas.
Mas não se pode afirmar que as borboletas, azuis ou que cor tenham, sobreviverão à sanha predadora de um certo tipo de progresso. Antes de chegar à idade adulta, quando adquire asas e passa a gozar de ampla liberdade, a borboleta passa uma fase relativamente longa sob a forma de larva. Fica, então, condicionada a viver agarrada a uma espécie qualquer de vegetal, que Ihe garanta a sobrevivência fornecendo-lhe alimento nas grandes quantidades de que ela tem necessidade. As lagartas que se mostram excessivamente seletivas na escolha de sua planta-alimento estão, teoricamente, ameaçadas, pois se o homem acabar com a planta, acabará também com a borboleta. E cada vez mais escasseiam, no Brasil e nos demais países da América Latina, as espécies nativas de bambus e ingazeiros, que fazem as delicias das larvas.Isso tem se tornado uma coisa tão marcante, que as borboletas acabaram sendo reconhecidas como uma espécie de barômetro para detectar os ataques do homem ao meio ambiente. Foram cientistas americanos, europeus e japoneses que chegaram a essa surpreendente conclusão, a partir do alarme que soou na costa ocidental dos Estados Unidos, mais precisamente na bala de São Francisco, na Califórnia.Lá estava localizado o último recanto onde sobrevivia uma pequenina borboleta azulada, a GIaucopsyche Xerces, uma espécie que vinha se tornando cada vez mais rara. Depois que os últimos exemplares de lótus nativos da baía de São Francisco foram destruídos pelos serviços de aterro necessários para ampliar a faixa urbanizada da cidade, a frágil borboletinha azulada nunca mais foi encontrada. Suas lagartas alimentavam-se exclusivamente com as folhas do lótus. O desaparecimento da Xerces despertou a atenção dos cientistas para um fato de conseqüências mais graves: se uma determinada espécie de borboleta escasseia, ou mesmo desaparece, numa determinada região que antes habitava, algo muito grave pode estar ocorrendo por ali com o equilíbrio ecológico. E simples: um ecossistema em perfeito equilíbrio pode ser comparado a um organismo complexo, cujas funções se desenvolvem normalmente. Ambos são compostos por diferentes elementos, fixos e móveis. Por exemplo, num ecossistema os vegetais são elementos fixos, os animais elementos móveis.Tal como os componentes do sangue, que fluem através dos órgãos fixos do nosso organismo, certos animais fluem através de uma floresta. Ora, aquilo que num exame de sangue denuncia o mau funcionamento de um setor do organismo pode ser, talvez, a diminuição repentina dos glóbulos vermelhos circulantes. Da mesma forma, a diminuição da circulação de uma borboleta numa clareira da floresta pode ser a primeira noticia de que, em algum setor daquele ecossistema, as coisas não andam bem. E, tal como no organismo humano, bastará essa pequena falha para logo fazer desandar tudo. Assim, torna-se urgente descobrir o que está errado, e começar a corrigir. Pois, na natureza, correções desse tipo exigem um tempo enorme. Quanto antes começarem a ser feitas, tanto melhor. E sobretudo, quanto antes forem tomadas providências para evitar que o desequilíbrio continue a se acentuar, tanto melhor ainda. Voltemos agora à Xerces, que desapareceu da bala de São Francisco. Indignados com o que havia acontecido ali, cientistas americanos fundaram uma associação, batizada com o nome da borboletinha - a Xerces Society -, e dedicaram-na ao estudo dos problemas do meio ambiente, Da extinção das espécies e, nesse capítulo, em particular, das borboletas, por eles desde então consideradas e proclamadas como valiosos sistemas de alarme contra agressões à Natureza.
Aqui no Brasil, já falta pouco para que tenhamos a nossa primeira borboleta extinta pela ação irrefreada dos predadores humanos do meio ambiente. Ela se chama Parides ascanius, e sempre habitou uma faixa estreita e curta do litoral do Rio de Janeiro, justamente a área do litoral brasileiro que mais vem sofrendo os efeitos da voracidade imobiliária que abocanha praia após praia. Ela é uma borboleta de asas negras, listradas de branco e grená, habitante dos mangues e das matas litorâneas. Suas larvas alimentam-se com as folhas de uma trepadeira silvestre, a Aristalochia macroura, uma planta rara e venenosa.
O caso dessa borboleta e de sua planta-alimento é um bom exemplo de como se faz, ao longo de um tempo que se mede por milênios, a evolução de um relacionamento biológico do tipo inseto-planta. A Aristolochia faz parte de um grupo de plantas que se caracterizam por estar sempre em guerra, defendendo-se quimicamente dos ataques dos animais herbívoros. Mas são exatamente as substâncias venenosas que elas usam para se proteger desses animais que funcionam como chamariz para outra espécie particular de herbívoro. No caso, a Parides ascanius. Durante um longo processo evolutivo certos animais foram selecionados pelos mecanismos bioquímicos, operados pela própria fisiologia dos vegetais, e tornaram-se dependentes de uma única planta venenosa. Assim, o que para os outros bichos se tornou um fator de repulsão, em relação àquela planta, para o eleito se tornou um fator de sobrevivência. Instalados através de caules e folhas, esses mecanismos caprichosos, gerados por uma alquimia vegetal quase mágica, definem com extrema precisão essas dependências alimentares dos insetos. Na raiz dessas intrigantes manifestações bioquímicas estão entidades microscópicas, enoveladas sobre suas malhas de ligações atômicas: os alcalóides. São compostos orgânicos capazes de operar profundas alterações fisiológicas no organismo dos animais.
São essas substâncias que determinam quem come o quê nas dietas vegetarianas dos animais herbívoros e, automaticamente, protegem as plantas contra uma legião de possíveis atacantes famintos. Os alcalóides são ambíguos, podem servir como remédio, curar doenças, tanto quanto podem matar. Os que se enquadram nesse segundo caso são considerados venenos naturais e as plantas que os elaboram, conseqüentemente, são classificadas como venenosas.
A Aristolochia é uma dessas plantas. Ela produz um alcalóide particular, a aristoloquina. Foram necessários alguns milhões de anos de evolução conjunta entre aristolóquias pré-históricas e certas lagartas trogloditas para que, lentamente, se desenvolvesse a tolerância à aristoloquina demonstrada pelas lagartas da borboleta Parides. Atualmente, quase todas as lagartas dessa espécie alimentam-se exclusivamente das folhas indigestas da Aristolochia, mortal para todos os outros herbívoros da floresta. Já o homem, com sua capacidade de investigar, descobrir e operar mudanças e transformações. vem usando a aristoloquina há muitos e muitos anos como remédio. Na Grécia antiga, os extratos de suas raízes eram utilizados pelas mulheres para garantir partos perfeitos. Aliás, foram os gregos quem deram nome à planta - aristos, o melhor; lokheia, parto. Não há nenhuma dúvida quanto à ação benéfica exercida pela aristoloquina sobre o aparelho genital feminino: ela favorece a menstruação, ativa as contrações uterinas e acentua nitidamente as descargas vaginais do pós_parto.
Usada com moderação, a aristoloquina é fantástica. Calmante, diurético, antisséptica e febrífuga, pode funcionar, de quebra, como um excelente tônico digestivo. Isso é apenas o que sabemos dela com certeza. Mas, além disso tudo, ela já foi apontada como um eficiente cicatrizante de feridas e úlceras rebeldes, um bom remédio para combater orquites (inflamações dos testículos) e certos tipos de paralisia, e auxiliar eficiente no combate ao béri-beri. Usada sem moderação, a aristoloquina se revela o veneno que é: produz náuseas, diarréias, taquicardia e, em casos extremos, chega a provocar um quadro clinico complicado, chamado embriaquez aristalóquica. caracterizado por sérias perturbações mentais.Isso é muita coisa, sem dúvida nenhuma, mas é bem possível que a Aristolochia ainda seja capaz de muito mais. Acontece que as espécies nativas brasileiras foram pouco estudadas pela bioquímica, até agora. Infelizmente, essas curiosas trepadeiras silvestres já se tornaram muito raras nas matas da região do Rio de Janeiro, devido às agressões sofridas por seus ambientes naturais. Assim, é muito provável que nem cheguemos a conhecer tudo o que elas poderiam nos oferecer, se as tratássemos com mais carinho e atenção.
E junto com a Aristalochia extinguese, pouco a pouca a nossa bela e frágil borboleta Ascanius, que só sabe alimentar-se com as suas folhas que todos os outros bichos consideram veneno mortal. Na verdade, para essa borboleta original, a Aristalochia representa muito mais do que um simples alimento; é uma verdadeira garantia de sobrevivência mesmo na fase adulta. Pois a toxicidade e o cheiro do alcalóide da planta passam a fazer parte do corpo da lagarta, que come as folhas, e continuam integrados na borboleta, mesmo na fase adulta. Isso confere à Ascanius uma segura defesa contra seus predadores, pássaros em particular.Ironicamente, as poucas e raras lagartas da Ascanius ainda existentes no Brasil, talvez as últimas, são cultivadas e preservadas, em cativeiro, por um caçador de borboletas que há mais de quarenta anos se dedica a capturar e exportar esses belos animaizinhos para vários países. Trata-se do catarinense Herbert Miers. Atarantado com as exigências burocráticas do governo para que possa exportar suas azuis - registro, alvará e manter uma criação de larvas -, ele reclama: "Isso só faz sujeira, não é eficiente". Eficiente seria prestar atenção aos alarmes naturais - como as borboletas que desaparecem das matas - e corrigir as distorções que os fazem soar.


Boxes da reportagem

A cor é uma arma e uma armadilha
O brilho metálico que faz cintilar as asas de uma borboleta azul não é um enfeite. Ele confere ao inseto um precioso recurso para esquivar-se dos ataques de pássaros predadores. Quando mergulha em direção a uma borboleta, o pássaro tenta enfiar a cabeça entre suas asas para apanhar, com o bico, o corpo pequeno de sua presa. Que é o que Ihe interessa.Se errar o golpe, a borboleta terá alguns segundos para executar uma série de acrobacias e se embrenhar no mato, para fugir à perseguição. É nessas ocasiões que o rápido abrir e fechar das asas de colorido metálico produz uma sucessão de lampejos desencontrados. O ziguezague da evasão impressiona a retina da ave com um salpicado de flashes, fazendo-a perder os verdadeiros posicionamentos da borboleta.Mas é esse mesmo brilho metálico que livra a borboleta azul dos pássaros que a tornou cobiçada por outro perseguidor: o homem. São caçadores profissionais que fornecem a matéria-prima para o comércio internacional, e seu trabalho já se tornou um excelente negócio. Afinal, o resplandecente azul-metálico desses insetos é algo muito raro na natureza, e mesmo entre as borboletas dos trópicos poucas são as espécies que o possuem.O colorido das borboletas, em geral, é produzido por uma numerosa concentração de minúsculas plaquinhas alinhadas sobre as asas, que são as escamas. Trata-se daquele conhecido pozinho (erradamente considerado perigoso que as borboletas largam em nossos dedos quando as agarramos pelas asas. Nas escamas brilhantes das borboletas azuis a cor é considerada estrutural, pois é criada pela incidência da luz sobre a estrutura das escamas.Essa cor azul é produzida pelo fenômeno ótico de decomposição da luz solar sobre as arestas de finíssimas ranhuras paralelas, encontradas na superfície de cada escama. O fenômeno pode ocorrer em muitas espécies de borboletas e sua maior ou menor intensidade depende do número de escamas geradores de cores estruturais que elas apresentarem sobre as asas. Entretanto, na maioria das espécies, o colorido é produzido pela composição química de um pigmento difundido sobre cada escama.



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segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Como a Espionagem mudou o mundo - Segunda Guerra

COMO A ESPIONAGEM MUDOU O MUNDO - Segunda Guerra.



Popov, Dusko Popov

Conflito: Segunda Guerra Mundial

Quando: 1941

Nações envolvidas: EUA, Japão, Alemanha

Missão: alertar os americanos sobre a intenção japonesa de atacar Pearl Harbor

Arma secreta: Dusko Popov, o espião bon vivant que inspirou James Bond

Estratégia: roubo de dados



Elegante, mulherengo, amante da boa vida. Esse era Dusko Popov, espião iugoslavo que inspirou o escritor inglês Ian Fleming na criação do personagem James Bond. O 007 de verdade também era culto, fluente em diversos idiomas, frio e esperto. Ele fez uma das carreiras mais brilhantes da espionagem internacional graças ao trabalho que realizou no posto reservado aos melhores do mundo: o de agente duplo.

Durante a Segunda Guerra Mundial, Popov atuava tanto para os nazistas quanto para os aliados. Mas só dava informações quentes aos aliados: os alemães ele enganava.

O ponto alto de sua carreira ocorreu em 1941, quando chegou aos EUA com um relatório dos alemães que trazia em 5 páginas todos os detalhes sobre um iminente ataque a Pearl Harbor. Durante um mês, Popov não obteve nenhuma resposta aos pedidos de encontro com o todo-poderoso do FBI, J. Edgard Hoover - que controlava o serviço secreto (a CIA só seria criada em 1947). Hoover duvidava das informações, dizia que estava tudo redondinho demais, com datas, lugares, nomes, etc.

Quando finalmente se reuniu com Hoover, os dois falaram o diabo um para o outro e saíram sem nada decidido. Para o chefão do FBI, Popov não passava de um bon vivant que estava nos EUA por farra - durante o mês de espera, Popov se esbaldou com belas mulheres e freqüentou os melhores lugares de Nova York. Para o agente secreto, Hoover era um irresponsável que deixaria o próprio país ser atacado.

No dia 7 de setembro, como havia sido adiantado por Popov, os aviões japoneses sobrevoaram a baía de Pearl Harbor, no Havaí, e atacaram a frota de navios do Pacífico, matando 2 235 militares e 68 civis. Popov soube quando voltava de uma viagem ao Brasil.

Até hoje não se sabe direito a razão da apatia do governo americano diante do seu relatório. Os EUA aprenderam a lição de Popov? Não, a julgar pelo atentado ao World Trade Center, que não foi evitado apesar das numerosas pistas levantadas pelo serviço de inteligência.



Dusko Popov arrancou dos nazistas informações sobre um ataque imininente do Japão a uma base dos EUA no Havaí. ...

... Mas os americanos não acreditaram no espião playboy e mulherengo. ...
... Pouco depois, os japoneses bombardeavam Pear Harbor. ...

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Clarividência - Espionagem Mental

CLARIVIDÊNCIA: ESPIONAGEM MENTAL



Já pensou se você fosse capaz de, sem receber nenhuma pista, descrever objetos hermeticamente trancados numa caixa? E que tal dar detalhes sobre pessoas e lugares que você nunca viu na vida? Não seria legal enxergar mentalmente as questões de uma prova na véspera de ela ser aplicada? Pois há quem afirme ter a habilidade de ver locais distantes, coisas, pessoas e acontecimentos futuros, presentes ou passados. Se as informações não foram transmitidas por outra mente - como ocorreria na telepatia -, o sujeito pode ter experimentado a clarividência, uma forma de percepção extra-sensorial de algo físico. Uma arma poderosa para uma potência vasculhar segredos de países inimigos, certo? Foi isso que o governo dos Estados Unidos pensou quando, nos anos 70, começou a financiar um programa de visão remota - técnica de pesquisa experimental em que uma pessoa tenta obter informações de uma localidade distante, por meio da clarividência.

A experiência americana teve início em 1972 e foi desenvolvida pelo Instituto de Pesquisa de Stanford (SRI), em Menlo Park, na Califórnia. Tudo começou quando o artista plástico Ingo Swann entrou em contato com o físico Harold Puthoff, pesquisador do SRI, e sugeriu que se fizesse um estudo de parapsicologia. Swann afirmava ser capaz de visualizar detalhes de objetos, lugares e pessoas mentalmente, sem usar os olhos ou outros sentidos. Puthoff o convidou então para passar uma semana no SRI. Antes de Swann chegar, o cientista trancou um magnetômetro - instrumento que mede a intensidade do campo magnético - num contêiner no porão, sem que o convidado soubesse. E se surpreendeu ao verificar que Swann não só "perturbou" o aparelho como também foi capaz de desenhá-lo a partir de uma visão mental. O feito chamou a atenção da CIA (Agência Central de Inteligência americana), que estava interessada em financiar um estudo sobre a aplicação da parapsicologia para fins militares, pois tinha informação de que a União Soviética já trabalhava nisso desde os anos 60. Em plena Guerra Fria, as duas nações teriam apostado na possibilidade de montar uma equipe de espiões clarividentes, capazes de obter informações valiosas sobre instalações militares e documentos secretos.



Bem na mariposa

Os agentes da CIA assistiram a alguns testes com Swann. Num deles, o clarividente tinha de descrever objetos que estavam fechados em caixas. Numa rodada, ele disse: "Vejo algo pequeno, marrom e irregular, uma folha ou algo com formato semelhante. Mas parece estar vivo e até se mexe". Era uma mariposa. Embora nem todas as descrições fossem precisas, foi o suficiente para que o SRI recebesse 50 mil dólares para recrutar os primeiros espiões e começasse a treiná-los. No ano seguinte, a CIA deu as coordenadas de uma base militar soviética em Semipalatinsk, na Sibéria, e pediu aos clarividentes que descrevessem o local por meio de desenhos. A experiência foi considerada um fracasso, tanto que a CIA decidiu suspender o projeto, em 1975. No entanto, um dos clarividentes, chamado Pat Price, rabiscou prédios vistos do alto e um enorme guindaste, de formato inusitado. Posteriormente, fotos feitas por satélite captaram uma imagem do tal guindaste, com uma incrível semelhança nos detalhes.

É claro que, por se tratar de um assunto confidencial e estratégico, o governo dos Estados Unidos não fica publicando relatórios anuais para divulgar suas descobertas nesse campo. Mas sabe-se que o treinamento de clarividentes para espionagem e os estudos sobre outros fenômenos da mente tiveram prosseguimento no país, por meio de um programa do Departamento de Defesa e de outras agências federais. Nos anos 80, o ex-militar e escritor Joe McMoneagle revelou ter usado técnicas de visão remota para ajudar a localizar funcionários da embaixada americana tomados como reféns no Irã, em 1979, entre outras ações. Sabe-se também que o Exército americano utilizou clarividentes na Guerra do Golfo, em 1991, para tentar localizar armas iraquianas. Em 1995, alegando não haver resultados, o governo de Bill Clinton pôs fim ao programa, que havia consumido mais de 20 milhões de dólares. Em tese, a Casa Branca teria abandonado as pesquisas sobre clarividência, mas há indícios de que ainda utiliza essa forma de espionagem, agora contratando empresas privadas de treinamento criadas por ex-integrantes dos primeiros projetos.

Apesar de alguns estudos sugerirem a possibilidade de existência da clarividência, essa percepção extra-sensorial não pode ser comprovada diretamente. É o que afirmam parapsicólogos como o padre Oscar Gonzalez-Quevedo, presidente do Centro Latino-Americano de Parapsicologia (Clap), em São Paulo. "A não ser que se matem todos os homens passados e futuros de todo o nosso globo numa margem de dois séculos. Do contrário, como garantimos que alguém conheceu diretamente uma coisa física, e não um pensamento que outra pessoa teve, tem ou terá sobre aquele fato?", indaga o padre.

Em um de seus livros, Quevedo relata casos que poderiam estar associados à clarividência. Uma das histórias é sobre o italiano João Belchior Bosco, o São João Bosco. Nascido em 1815, ele teria, quando criança, sonhado com um ditado que seria aplicado na escola no dia seguinte. Acordou e escreveu o texto. Como já tinha tudo registrado no papel, não prestou atenção durante a aula. Só que o apressado mestre ditou só a metade do material. Na hora da correção, o professor se surpreendeu ao ver que João tinha escrito tudo, inclusive a parte que não ditara. Chamado para se explicar, o garoto contou que vira o texto num sonho. "Clarividência? Talvez. Mas pode ser telepatia. Como saber?", diz Quevedo. Ele acrescenta que uma mente não pode ser treinada para a visão remota. "Todos nascemos com as faculdades. Quando se manifestam, são espontâneas, incontroláveis. Não podem ser provocadas nem repetidas em laboratório."

A explicação do parapsicólogo seria um balde de água fria na campanha de marketing de empresas privadas, como a americana PSI Tech, contratada em 1991 pelas Nações Unidas para tentar adivinhar os locais onde o ditador Saddam Hussein estaria escondendo armas de destruição em massa no Iraque. Seus profissionais são ex-militares que se apresentam como especialistas em desenvolver - em qualquer indivíduo - a capacidade de ver remotamente. Em maio de 1998, um telejornal do canal americano UPN lançou um desafio para Jonina Dourif, a presidente da PSI Tech: a produção escolheria um fato, uma coisa ou uma pessoa. A partir daí, Jonina deveria fazer uma descrição. O alvo escolhido foi um acidente com um helicóptero do Corpo de Bombeiros de Los Angeles, ocorrido em março daquele ano e no qual haviam morrido quatro pessoas. "Para cima, para baixo, diagonal, som mecânico, rodando como um ventilador, movimento. Estamos lidando com pessoas dentro de uma estrutura", disse ela. "Quantas pessoas?", questionou o repórter. "Uma, duas, três, quatro. Quatro pessoas, e nenhuma importante." Como diria o padre Quevedo, pode ser clarividência, mas também pode ser telepatia ou mesmo simples coincidência. Como saber?



A serviço da polícia

Talvez o filão mais rentável para os clarividentes seja a investigação policial. A americana Kathlyn Rhea leva o crédito pela solução de mais de uma centena de casos ao longo de três décadas. Um deles aconteceu na Califórnia com um homem chamado Russell Drummond. Ele estava acampando com a mulher, saiu para uma caminhada e não retornou. Mais de 300 policiais foram mobilizados no caso, mas seis meses se passaram e nada. Procurada pela mulher da vítima, Kathlyn descreveu o local, no meio da mata, onde dizia enxergar o cadáver de Russell. Com as pistas fornecidas pela clarividente, a polícia encontrou o corpo de Drummond, que havia morrido de ataque cardíaco. Apesar desse e de outros acertos, Kathlyn é vista por muitos como uma charlatã.

Mesmo quem realiza experimentos com a visão remota reconhece que, até o momento, os resultados não são satisfatórios. "Como os fenômenos parapsicológicos são, em quase sua totalidade, espontâneos, a sua repetibilidade em laboratório é de uma pobreza franciscana", diz Valter da Rosa Borges, presidente do Instituto Pernambucano de Pesquisas Psicobiofísicas. "Isso não quer dizer que os casos de clarividência espontânea devam ser rejeitados e, sim, que eles não apresentam a segurança que nos é dada pela pesquisa experimental", acrescenta Borges, reforçando a explicação de Quevedo sobre a dificuldade de comprovar o fenômeno. Ainda assim, Borges destaca um caso célebre registrado como sendo de clarividência. Foi uma pesquisa experimental realizada nos anos 20 pelos professores franceses Charles Richet e Gustave Geley com o engenheiro polonês Stephan Ossowiecki. Em um dos testes, Ossowiecki precisava adivinhar o conteúdo de envelopes fechados. "Estou num zoológico, uma luta está acontecendo com um animal grande, um elefante. Ele não está na água? Vejo a sua tromba enquanto nada. Vejo sangue", descreveu o polonês. "Bom, mas não é tudo", observou Geley durante o experimento. "Espere, ele não está ferido na tromba?", interrompeu Ossowiecki. "Muito bem, houve uma luta", reconheceu o cientista. "Sim, com um crocodilo", emendou o polonês. A frase dentro do envelope era: "Um elefante se banhando no Ganges foi atacado por um crocodilo, que mordeu a sua tromba".

Em 1923, durante um congresso internacional de pesquisa psíquica, em Varsóvia, Ossowiecki adivinhou parte do conteúdo de uma nota embalada várias vezes em papéis coloridos e guardada num envelope lacrado. A nota trazia desenhos de uma bandeira e de uma garrafa. No canto, havia uma data: agosto, 22, 1923. O polonês conseguiu reproduzir a bandeira e a garrafa, mas escreveu a data desta forma: 19-2-23. Mesmo assim, Ossowiecki foi ovacionado.
Mas a polêmica em torno dessas adivinhações persiste e, até hoje, os parapsicólogos não chegaram a uma explicação sobre o seu mecanismo. "Enquanto a pesquisa sobre as relações mente-cérebro não alcançarem um patamar de maior clareza a respeito de experiências psíquicas e estados cerebrais, é temerário procurar uma explicação científica consistente para os fenômenos psi", diz Borges ("fenômenos psi", para quem não sabe, é como alguns estudiosos se referem aos fenômenos parapsicológicos). "Temos dados sugestivos, temos procedimentos metodológicos confiáveis, mas não dispomos de meios para operacionalizar, com segurança, essas experiências."


Um atalho na caça ao tesouro




Em 1907, o arqueólogo Frederick Bligh Bond pediu ajuda ao clarividente John Allan Bartlett para encontrar a capela de Edgar, na Abadia de Glastonbury, Inglaterra, em ruínas desde o século 16. Seguindo as instruções de Bartlett, foi possível determinar o local exato para as escavações. A notícia se espalhou e outros arqueólogos passaram a ver a paranormalidade como um meio de agilizar as descobertas.
Em 1979, o americano Stephan A. Schwartz liderou uma expedição em busca de tesouros arqueológicos no Egito, incluindo as ruínas da Biblioteca de Alexandria. Um dos membros da equipe era a clarividente Hella Hammid. Mesmo antes de sair dos Estados Unidos, Hella deu as indicações para as escavações: "Uma rua estreita ou viela com muros altos dos dois lados, vigas caídas, grande, madeira... Um tubo ou um canal com luz no final". Em Alexandria, onde jamais havia estado, Hella conduziu o grupo ao local exato. Lá estavam a passagem estreita e a coluna de madeira desmoronada. Outro caso célebre com a clarividente se deu em 1987, no Mar do Caribe. Depois de uma hora a bordo de um pequeno barco, Hella determinou o ponto onde havia "algo". Quatro semanas de escavação revelaram uma embarcação coberta por vegetação e areia. Assim foi descoberto um navio mercante americano que havia afundado nas primeiras décadas do século 19.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Alexandre o cara

ALEXANDRE, O CARA



Em 356 a.C., no sexto dia do mês grego de Hecatombeon, o grande templo de Artemis, em Éfeso, onde hoje fica a costa da Turquia, foi destruído pelas chamas. Entre os habitantes da cidade, o incêndio da magnífica construção - uma das sete maravilhas do mundo antigo - foi visto como um sinal divino. Enquanto o templo queimava, os magos de Éfeso corriam em volta das labaredas, batendo as mãos no rosto e anunciando que feitos grandiosos e terríveis se aproximavam.
No mesmo dia, segundo o escritor grego Plutarco, do outro lado do mar Egeu, uma mulher chamada Olímpias dava à luz seu primeiro filho. Olímpias era rainha da Macedônia, no norte do que hoje é a Grécia. Segundo ela, na noite em que o garoto foi concebido, um relâmpago a atingiu no ventre. O rei Filipe II, marido de Olímpias, disse ter encontrado a esposa adormecida ao lado de uma enorme serpente.
Se essas histórias são verdadeiras, não sabemos. O que sabemos é que o menino ganhou o nome de Alexandre. Sabemos também que, antes de completar 30 anos, o filho de Olímpias e Filipe se tornaria o maior conquistador que o mundo já vira - e um dos maiores que veria até hoje. Alexandre foi senhor de um império gigantesco e responsável por uma das campanhas militares mais espetaculares da história. Seu nome tornou-se um mito - e sua personalidade continua até hoje mergulhada em polêmica e mistério.
O nascimento se deu numa época conturbada. Fazia mais de um século que a bacia do mar Egeu era palco de um sangrento duelo entre duas potências rivais: as cidades-estado da Grécia e o enorme Império Persa. Até aquele momento, os gregos haviam sido vitoriosos, mas as poderosas e independentes cidades-estado, divididas por rivalidades seculares, mostravam-se incapazes de transformar a Grécia em uma nação coesa. Enquanto o Império Persa se recuperava das antigas derrotas, os gregos lutavam entre si, arrastando o país à beira da anarquia.
Filipe, pai de Alexandre e rei da Macedônia, dedicou-se a reverter essa situação. Dotado de um incansável gênio político, ele transformou seu reino em uma potência internacional e criou um exército organizado e eficaz (veja o quadro à direita). No auge de seu poder, Filipe fundou a Liga de Corinto, organismo que unificava todas as cidades da Grécia - menos Esparta - sob a hegemonia macedônica. No entanto, não teve tempo de realizar seu projeto mais ambicioso: unir gregos e macedônios em uma expedição contra o inimigo comum, o Império Persa.
Durante uma festa, em 336 a.C., Filipe foi apunhalado. Alexandre subiu ao trono em meio a uma tempestade de intrigas, cercado por inimigos dentro e fora do reino. Para manter-se no poder, ele foi implacável: eliminou adversários na corte, esmagou rebeliões e provou que Filipe tinha um herdeiro à altura. Com o reino pacificado, Alexandre estava pronto para levar adiante os projetos do pai - e superá-los. Caberia a ele conduzir a Macedônia ao auge de seu poder e abrir um novo capítulo na história do mundo.

Jovem rei
Quando tomou as rédeas do reino, Alexandre tinha só 20 anos, mas já era um político habilidoso e um guerreiro indomável. Desde a infância, a ambição foi sua característica dominante. Certa vez, ao receber notícias de uma vitória de Filipe, o príncipe lamentou-se com seus amigos: "Meu pai vai acabar conquistando tudo, e não deixará para nós nenhum feito grandioso". Aos 18 anos, quando comandou a cavalaria macedônica na batalha de Queronéia, sua coragem transformou-o em um ídolo entre os soldados. O gosto pelo perigo, unido a um profundo magnetismo pessoal, encantava seus companheiros e fazia de Alexandre um líder irresistível.
Além da bravura militar, ele havia demonstrado desde menino uma grande curiosidade intelectual. Apaixonado pelas artes e pelas ciências, sempre respeitou os poetas, filósofos e eruditos (veja o quadro na página 45). Certa vez, afirmou que teria preferido superar os outros em conhecimento do que em poder político. O macedônio sabia de cor os versos da Ilíada e costumava dormir com o livro debaixo do travesseiro - junto com a espada, claro. Sua mãe o convenceu de que era descendente de Aquiles, o grande herói da Guerra de Tróia. Essa guerra mítica teria sido a origem ancestral da rivalidade entre gregos e persas. Alexandre adotou Aquiles como modelo e, assim como o semideus fabuloso, o rei dos macedônios era generoso com os amigos e capaz da maior cortesia com os adversários, mas também vivia obcecado pela idéia de sua própria grandeza e deixava-se arrastar por surtos de cólera.
Em 334 a.C., ele pôs em ação o velho projeto do pai: à frente de um exército de 37 mil soldados, marchou para a Ásia Menor e atacou os persas em seus próprios domínios. A primeira grande batalha ocorreu às margens do rio Granico (que hoje se chama Koçabas). Galopando à frente da cavalaria, Alexandre foi cercado por uma multidão - e teria morrido ali mesmo, em começo de carreira, atravessado pela cimitarra de um comandante persa, se não fosse seu amigo Clito, que decepou o braço do atacante e salvou a vida do rei por uma fração de segundo.
O exército macedônico deparou com o grosso das forças adversárias em uma planície próxima de Issus, na Síria. Lá, Dario III, imperador da Pérsia, aguardava-o com um exército de provavelmente 50 mil a 75 mil homens (alguns historiadores antigos chegam a falar de 600 mil homens, mas os historiadores antigos não se notabilizam pela exatidão numérica). As tropas de Alexandre eram menores em número, mas superiores em tática e disciplina - e o resultado foi um banho de sangue. Os macedônios massacraram milhares de soldados inimigos e o resto fugiu em pânico - incluindo o próprio Dario III, que abandonou sua mãe, sua esposa e suas filhas no acampamento real. Ao encontrar a família do inimigo, Alexandre se comportou como um cavalheiro: garantiu às cativas que seriam tratadas como rainhas e jamais permitiu que alguém as desrespeitasse. As prisioneiras afeiçoaram-se tanto a seu captor que, após a morte de Alexandre, Sisigâmbis, mãe de Dario, suicidou-se por inanição.
Depois dessa vitória esmagadora, nada parecia impossível. Pouco a pouco, as verdadeiras ambições de Alexandre começavam a se revelar. Ele não pretendia apenas derrotar o Império Persa. Seu desejo ia um pouco além: dominar o mundo.

Filho de deuses
Antes de completar a conquista da Ásia, Alexandre dirigiu-se para a África e penetrou triunfalmente no Egito. A terra das pirâmides, que durante séculos fora dominada pelos persas, saudou-o como libertador - e o rei da Macedônia foi declarado herdeiro dos faraós. Após iniciar a construção de Alexandria - uma das muitas cidades que levariam seu nome (veja o quadro da página 47) -, o conquistador cavalgou pelo deserto para visitar o oásis de Siva, na Líbia, onde se localizava o célebre oráculo do deus solar Amon - que, na Grécia, era associado a Zeus, o senhor do Olimpo. De acordo com alguns relatos, os sacerdotes do templo, vendo aproximar-se o monarca, saudaram-no como "filho de Zeus" e anunciaram que seu destino era dominar o Universo.
As palavras dos sacerdotes alimentaram o velho rumor de que Alexandre não era um simples mortal - mas um filho dos deuses. "Para a mentalidade oriental, isso caía como uma luva. Especialmente no Egito", diz o historiador clássico Anderson Zalewski, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). "O fato de um conquistador se apresentar como deus não era anormal por lá. Um dos elementos da monarquia oriental era o caráter divino", afirma.
Jamais saberemos com certeza se o próprio Alexandre acreditava em sua natureza divina, mas, entre seus seguidores gregos e macedônios, essa pretensão - mesmo que não passasse de truque político - era encarada com desconfiança. Muitos pensavam que, ao declarar-se filho de um deus, Alexandre renegava a memória de seu pai, Filipe. Outros acreditavam que a vaidade do jovem soberano estava indo longe demais. Em 324 a.C., quando Alexandre ordenou que os súditos o reconhecessem como um deus vivo, seus inimigos denunciaram o ato como pura megalomania. Em Esparta, comentou-se com desprezo: "Deixem Alexandre ser um deus, se isso lhe agrada..."

Rei dos Reis
Conquistado o Egito, Alexandre não voltou para casa. Ele preferiu rumar para a Ásia, onde iniciou uma caçada humana - cuja presa era Dario III. "Se te consideras um rei", escreveu o macedônio ao imperador da Pérsia, "prepara-te para a luta e não fujas, pois eu te perseguirei aonde quer que vás". Os inimigos voltaram a se defrontar em 331 a.C., em Gaugamela (atual Tell Gomal, no Iraque). Dario fugiu pela segunda vez e acabou sendo assassinado por um de seus próprios oficiais. Em Susa, uma das antigas capitais do império, Alexandre sentou-se triunfalmente no trono dos soberanos persas. Agora ele era o "Rei dos Reis", senhor de gregos e dos asiáticos. Tinha apenas 25 anos.
No entanto, ao mesmo tempo em que o rei atingia o ápice da glória, as tensões entre ele e seus seguidores chegavam a um ponto crítico. O macedônio começava a se comportar como um monarca absoluto - e muitos de seus oficiais ressentiam-se dessa transformação. Alexandre instituiu em sua corte a cerimônia da proskynesis, ou prostração - gesto de humildade em que o súdito se curva perante o soberano. Entre os persas, esse ritual não passava de uma mostra de respeito. Para os gregos e macedônios, era um ultraje. "Os soldados de Alexandre consideravam-se seus companheiros, e o ato de se prostar era visto como uma degradação própria de escravos", afirma o historiador Zalewski.
Alexandre passou a favorecer cada vez mais os súditos asiáticos e começou a imitar muitos de seus costumes. Incluiu nobres persas em seu círculo de amizades, entregou o governo de províncias a antigos funcionários de Dario e adotou trajes orientais. Também estimulou a união entre seus oficiais e mulheres asiáticas - chegando ele próprio a se casar com uma nobre iraniana chamada Roxane. Muitos gregos e macedônios acusavam o rei de estar se afeiçoando perigosamente ao inimigo.
Durante os anos que Alexandre passou na Ásia, a antiguidade e o mistério das culturas orientais exerceram grande fascínio sobre seu espírito. No livro Alexandre e o Império Helênico, o historiador britânico A.R. Burn, da Universidade de Glasgow, Escócia, afirma que o macedônio "aprendera a respeitar os persas por sua coragem em luta, e mesmo por sua eficiência administrativa". Além disso, certamente lhe agradava o ego ser tratado como um soberano supremo. Acima de tudo, no entanto, havia uma questão de ordem estratégica: para governar um império que pretendia ser universal, era preciso ganhar o coração dos novos súditos e estabelecer uma unidade cultural em seus domínios. "Sua tática era mimetizar os costumes dos povos dominados, procurando conciliar a tradição helênica e a memória cultural local", diz o historiador e arqueólogo Francisco Marshall, também da UFRGS. "O grande motivo por trás da orientalização de Alexandre e de sua política de mestiçagem é o desejo de evitar a fragmentação em seus domínios", afirma.
É claro que um projeto tão complexo não poderia ser totalmente compreendido por aqueles que o cercavam. "A orientalização de Alexandre causou amargo rancor entre os macedônios e a tensão passou a disseminar-se pela corte", afirma o historiador britânico John Maxwell O’Brien em Alexander the Great: the Invisible Enemy ("Alexandre, o Grande: o Inimigo Invisível", sem tradução no Brasil). Murmúrios de descontentamento fervilhavam entre as tropas e o rei já sentia a solidão do poder absoluto. Desconfiado e taciturno, bebia cada vez mais, enxergava inimigos por todos os lados e tratava sem piedade os suspeitos de traição.
Em 328 a.C., durante um banquete de casamento na cidade de Samarcanda, Clito, o heróico oficial que tinha salvado a vida de Alexandre anos antes, às margens do Granico, deixou-se levar pela raiva e lançou na face do rei uma série de acusações amargas. "Tenho inveja dos mortos" gritou ele, "que não viveram para ver macedônios açoitados com varas, implorando aos persas, como se fosse um favor, uma audiência com nosso próprio rei!" A inveja de Clito não duraria muito. Alexandre, que estava completamente embriagado, arrancou uma lança das mãos de um de seus guardas e atravessou com ela o coração do amigo. Clito caiu com um gemido e morreu na hora. Ao ver o cadáver estirado a seus pés, Alexandre ficou imediatamente sóbrio e entrou em desespero. O remorso o manteve na cama durante três dias, sem aceitar comida nem vinho.
O episódio, contudo, não diminuiu a determinação do macedônio - e, passado o choque inicial, sua ambição e seus modos autoritários voltaram com força redobrada. Os domínios de Alexandre já abrangiam três continentes, mas ele não estava disposto a descansar enquanto não alcançasse os limites do mundo conhecido. Assim, em 327 a.C., o rei voltou a reunir suas tropas e marchou. Rumo à Índia.

Deus caído
Para os gregos, a Índia era uma região misteriosa e de geografia incerta. Alguns afirmavam que, para além dela, estendia-se o Oceano Exterior - uma gigantesca massa de água que demarcava os limites da Terra. Acreditasse ou não nessas lendas, o fato é que Alexandre pretendia ultrapassar as antigas fronteiras do Império Persa e estabelecer seu domínio sobre as "terras incógnitas" do Extremo Oriente. Ele queria nada menos do que a China.
Às margens do rio Hidaspes (hoje Jhelum, na Caxemira, região disputada pela Índia e o Paquistão), Alexandre encontrou um adversário à altura: o rajá de Paurava, conhecido entre os gregos como rei Porus. Porus era um gigante - dizem que tinha mais de 2 metros - e poucos igualavam sua coragem em batalha. Segundo algumas fontes, seu exército contava com 23 mil homens, 300 carros de guerra e 85 elefantes. A luta começou sob chuva, na penumbra da madrugada, enquanto os cavaleiros gregos atravessavam o rio com água no peito. Montado em seu elefante, Porus continuou a lutar com fúria mesmo após a morte de seus dois filhos e a dispersão de quase todas as tropas. Quando o indiano finalmente se rendeu, Alexandre estava impressionado com sua bravura. Perguntou-lhe como desejava ser tratado, ao que Porus respondeu: "Como um rei". Alexandre atendeu seu pedido: manteve Porus no poder e fez dele um aliado. O rajá permaneceu leal ao rei da Macedônia até o fim da vida. Foi nessa batalha que morreu Bucéfalo, o célebre cavalo de Alexandre.
Entusiasmado com a vitória, o conquistador preparava-se para avançar até o rio Ganges. Mas a encarniçada batalha contra Porus havia esfriado o ânimo das tropas. Esgotados pelo sufocante verão indiano e pelas incessantes chuvas de monção, os soldados, que acompanhavam Alexandre havia oito anos, só pensavam em voltar para casa. Às margens do rio Hífaso, o exército recusou-se a dar um único passo adiante. Furioso, Alexandre afirmou que seguiria sozinho se fosse preciso. Encerrou-se em sua barraca e, por dois dias, recusou-se a ver qualquer pessoa. Mas, dessa vez, sua ira foi inútil. Compreendendo que não lhe restava opção, ele cedeu ao apelo dos oficiais. Quando souberam que iam voltar, os soldados choraram de alegria.
Retornando ao centro do império, Alexandre começou a sonhar com novas campanhas. Mas seu corpo e sua mente estavam esgotados por uma década de guerras. Em 324 a.C., o espírito combalido do macedônio recebeu um golpe duro: Heféstion, seu amigo mais íntimo (e, segundo alguns, seu amante), morreu por excesso de bebida. O rei chorou sobre o cadáver do companheiro e resolveu afogar as mágoas de seu jeito favorito: marchou contra a tribo dos cosseanos e ordenou que toda a população masculina fosse passada no fio da espada.
Com a alma envenenada pela solidão e pela desconfiança, o homem mais poderoso do mundo deixou-se derrotar pelo vinho. Seus banquetes estendiam-se noite adentro. Numa dessas ocasiões, segundo Plutarco, 41 convivas morreram de tanto beber. Com a saúde destroçada, Alexandre foi dominado por fantasias supersticiosas e começou a ver presságios de sua própria morte por todos os lados.
Em 323 a.C., na Babilônia, os presságios se confirmaram. Após um dia e uma noite de bebedeira, o imperador caiu de cama, ardendo em febre. No dia 10 de junho, ao pôr-do-sol, Alexandre, o Grande, estava morto. Para alguns, a causa foi a bebida; para outros, uma doença não diagnosticada, como malária (pesquisadores atuais cogitam a hipótese de ter sido sífilis). Há quem fale em envenenamento. Alexandre ainda não tinha 33 anos.
O rei não deixou herdeiros - e quando, no leito de morte, perguntaram-lhe a quem legaria o trono, ele murmurou: "Ao mais forte". Enquanto os soldados pranteavam o grande líder, seus generais já se batiam pela soberania. Em meio a uma profusão de assassinatos, lutas e traições, o sonho de um império universal chegava ao fim.

A herança
A partir de 321 a.C., os domínios de Alexandre foram divididos entre seus oficiais: Seleuco apoderou-se da Ásia Ocidental, Antígono reinou sobre a Macedônia e Ptolomeu fundou uma dinastia no Egito, cuja herdeira mais famosa foi a rainha Cleópatra. O gigantesco império fragmentou-se em pedaços que acabaram sendo subjugados pelos romanos, cerca de dois séculos depois. Alguns detratores de Alexandre chegaram a negar sua contribuição para a história - um texto anônimo afirma que "nada do que ele fez permaneceu, exceto pelas pessoas que matou, e essas continuam mortas".
A verdade, no entanto, é que as conquistas macedônicas, motivadas em grande parte pela ambição e pelo orgulho de um único homem, tiveram conseqüências tão vastas e profundas que deram início a um novo período histórico - conhecido como "época helenística". Em sua passagem pela Ásia e pela África, Alexandre fundou cidades, estabeleceu rotas de comércio e abriu as portas do mundo para a cultura helênica. Gregos passaram a migrar para o Oriente e metrópoles floresceram, como Pérgamo, Antióquia e Alexandria do Egito. Nas regiões mais remotas, governantes cercavam-se de filósofos, historiadores, geógrafos, pintores e escultores, ajudando a criar novos estilos artísticos e dando início a um período de curiosidade intelectual e avanço científico.
Para o classicista Marshall, a helenização do mundo antigo pode ser interpretada como a primeira globalização da história. "Alexandre foi o primeiro a realizar um projeto de unificação dirigida, planificada, deliberada. Com a fundação de cidades gregas por todo o Oriente, ele estabeleceu focos de irradiação da cultura clássica."
O período foi marcado por um intenso diálogo entre civilizações. O fascínio das culturas orientais logo começou a agir sobre o helenismo, transformando o espírito dos dominadores. Deuses como Ísis e Serápis, vindos do Egito, passaram a ser adorados pelos gregos. Ao redor do Mediterrâneo, fiéis eram iniciados em novos cultos, que prometiam salvação individual e imortalidade para a alma. Surgia, assim, o caldo heterogêneo no qual nasceria o cristianismo. "Os conquistadores gregos e macedônios passaram a interagir com as elites e as populações das terras dominadas, e o resultado foi uma experiência de total encontro de culturas", diz a arqueóloga Maria Beatriz Borba Florenzano, do Museu de Arqueologia e Etnologia da USP.
Embora Alexandre tenha inaugurado uma era de tanto florescimento, seria ingênuo imaginar que o objetivo de seus atos fosse a fraternidade universal ou o bem das nações. Como escreveu Burn, "a idéia de que a ambição e o desejo de dominar são motivos indignos só surgiria na Europa sob influência do cristianismo". Alexandre viveu na certeza de que a dominação em larga escala era o único alvo digno de seus talentos. E foi seguindo a implacável lógica da conquista que ele escreveu seu nome, em letras de fogo e sangue, na história da humanidade.


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segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Planta prospera 'comendo' fezes

25/06/09 - 15h51 - Atualizado em 25/06/09 - 15h51

Planta prospera 'comendo' fezes de mamífero, afirma nova pesquisa
Flor é parente das chamadas plantas carnívoras, que digerem insetos.
Estratégia ajuda vegetal a obter nitrogênio para seu organismo.




Foto: Reprodução Uma das formas da planta (Foto: Reprodução)As plantas Nepenthes estão entre as espécies mais estranhas do planeta. Sua flor possui um amplo “recipiente” pendurado, onde a planta digere formigas e outros insetos que escorregam para dentro.

Porém, a Nepenthes lowii, encontrada em Bornéu, é ainda mais estranha. Ela obtém sua alimentação não de insetos, mas de musaranhos, que usam a planta como privada.

Jonathan A. Moran, da Universidade Royal Roads na Columbia Britânica, Charles M. Clarke, da Universidade Monash na Malásia, e colegas, descrevem essa “original estratégia de sequestro de nitrogênio” num artigo na revista científica "Biology Letters". Usando uma análise isotópica, eles estimam que as fezes do musaranho, depositadas nos recipientes da N. lowii, sejam uma fonte significativa de nitrogênio para as plantas.

A N. lowii é encontrada em altitudes elevadas, onde formigas e outros insetos são menos frequentes, contou Moran, que estuda plantas Nepenthes há duas décadas. Em seu estado imaturo, a planta desenvolve seu “recipiente” próximo ao solo e aproveita as poucas formigas disponíveis. “Quando você começa pequeno, é preciso capturar algo”, disse Moran.

Todavia, a planta madura desenvolve os recipientes no ar. Os musaranhos visitam as plantas para comer o néctar que vaza da cobertura aberta no recipiente, posicionando-se diretamente por cima dele.

“A forma acompanha a função”, disse Moran. Os recipientes da N. lowii “até mesmo se parecem com privadas”, acrescentou, “embora fôssemos educados demais para dizer isso no artigo”.