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terça-feira, 13 de junho de 2023

Cientistas criam robô capaz de andar, suar e respirar

Cientistas criam robô capaz de andar, suar e respirar

Equipamento está sendo usado para investigar os impactos do calor extremo no corpo humano.

sexta-feira, 10 de abril de 2020

Encontrado o primeiro animal que não precisa de oxigênio para sobreviver

Encontrado o primeiro animal que não precisa de oxigênio para sobreviver


Uma equipe de cientistas identificou pela primeira vez um tipo de animal que não precisa respirar para sobreviver. 

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Respiração a Fundo - Biologia


RESPIRAÇÃO A FUNDO - Biologia



Ao partir do nariz, o ar deveria entrar no mais eficiente aparelho de condicionamento. Mas isso geralmente não acontece, porque os caminhos que levam aos pulmões estão danificados pela fumaça da poluição e dos cigarros

Respirar, segundo o bom e velho dicionário Aurélio, é "absorver o oxigênio do ar nos pulmões". Cientistas americanos, no entanto, pretendem fazer um acréscimo a definições clássicas como essa: pois, segundo eles, repirar é também encher os pulmões com um líquido transparente, insípido e inodoro, conhecido como perfluorcarbono. Ainda nos anos 60 , descobriu-se que essa substância possui uma concentração tão grande de oxigênio, a ponto de os pulmões de cobaias serem capazes de extraí-lo com facilidade. Só no final do ano passado, porém, na Universidade de Temple, nos Estados Unidos, experimentou-se pela primeira vez em seres humanos a chamada respiração líquida, ou seja, a substituição do ar pelo perfluorcarbono. Foram sete casos de bebês prematuros demais para realizarem os movimentos respiratórios sem a ajuda de aparelhos. Um sistema foi especialmente construído para injetar nos pulmões, com extrema delicadeza, o líquido rico em oxigênio.Nenhum bebê sobreviveu, por causa de outras complicações de saúde. Mas os cientistas garantem que, apesar disso, a respiração líquida, em si, pode ser considerada um sucesso, digno de ser comemorado como um dos grandes avanços da Medicina nos últimos tempos. Trocar o gás da atmosfera por esse líquido fabricado em laboratório oferece a vantagem imediata de aposentar os tradicionais aparelhos de ventilação artificial, usados sempre que os pulmões não conseguem trabalhar por conta própria. As máquinas convencionais de ventilação, ao simularem os movimentos respiratórios, lançam ar no organismo do paciente com tanta força, que a pressão acaba arrebentando as células, aliás, são uma das mais frágeis estruturas do corpo humano. Por isso, chega a ser surpreendente que uma pessoa de meia-idade ainda tenha pulmões funcionando, bem ou mal, vivendo em um mundo coberto pela fumaça da poluição e dos cigarros, próprios ou alheios.Isso só é possível porque o ar, antes de alcançar as células pulmonares, percorre as chamadas vias aéreas, repletas de obstáculos para toda sorte de partícula tóxica. Esse caminho ainda tem mistérios que fazem alguns pesquisadores perderem o fôlego de espanto. Só para comparar: hoje em dia, o homem consegue mapear o cérebro em áreas de acordo com a função, mas ignora o papel de seis dos oito tipos de células que revestem as vias aéreas. Embora seja o protagonista do processo, o pulmão mesmo não tem segredos. Afinal, o organismo humano troca gases exatamente como as amebas, seres unicelulares que surgiram há cerca de 500 milhões de anos. Isto é, o ar atravessa uma membrana finíssima, com aproximadamente 0.5 milésimo de milímetro de espessura, e se dissolve no citoplasma, o líquido que recheia a célula. Assim, o oxigênio pode ser transportado até microscópicos vasos capilares, onde pega carona nas moléculas de hemoglobina do sangue; pelo mesmo trajeto, em direção inversa, o gás carbônico, produzido pela queima do oxigênio no organismo, é mandado para fora.
A questão é que, diferente das amebas, o homem consome muito mais oxigênio do que sua superfície corporal seria capaz de capturar. O organismo humano adulto precisa de nada menos do que 90 metros quadrados forrados de células especializadas na troca gasosa. E, de fato, ele dispõe de toda essa superfície para a absorção do oxigênio, só que dobrada milhares de vezes, a ponto de ocupar o espaço modesto de dois sacos cor-de-rosa com mais ou menos 25 centímetros de comprimento, que pesam juntos cerca de 700 gramas. Um pulmão nada tem a ver com um balão, oco por dentro. Sua estrutura pode ser descrita como uma árvore com um tronco cartilaginoso, o brônquio, que se divide ao meio em dezessete gerações, isto é, 262 000 vezes, em galhos cada vez mais finos.
Com menos de 1 milímetro de diâmetro já se pode falar em bronquíolo, um tubo sem cartilagem, formado apenas por músculo e mucosa. Presos nos brônquios, encontram-se sacos com 1 a 2 centímetros, os lobos pulmonares. Estes, por sua vez, se subdividem em saquinhos com 0,1 a 0,3 milímetro, cercados por vasos capilares: são os  alvéolos , cenário efetivo das trocas gasosas. Os dois pulmões somam cerca de 300 milhões de alvéolos. "Se pudessem ser espalhados no chão, eles cobririam uma quadra de tênis", calcula o professor de Educação Física Benedito Sérgio Denadai, que vem pesquisando os  mecanismos dos pulmões na Escola Paulista de Medicina, onde está instalado um dos primeiros laboratórios brasileiros de fisiologia respiratória, inaugurado há doze anos. Ali, entre outras coisas, modernos equipamentos comparam o fôlego de atletas e de pessoas sedentárias, o que entusiasma Denadai, ex-jogador de basquete na cidade de Marília, no interior de São Paulo. Em qualquer parte do planeta, o ar que se respira é composto em 22,93% por oxigênio. "No alvéolo", descreve Denadai, "o oxigênio tende a passar para o sangue, que depois de circular por todo o corpo chega ali com baixíssima concentração e, portanto, pouca pressão desse gás."Com o gás carbônico acontece o contrário, pois o sangue venoso que alcança os pulmões carrega grande quantidade dele, enquanto o ar possui apenas 0,04% dessa substância. Assim, é natural que o gás carbônico troque o aperto no sangue pelafolga no ar do interior do alvéolo. Respirar, no entanto, envolve outras questões de Física. "Se a pressão dentro dos pulmões fosse idêntica à da atmosfera, o ar não se deslocaria. É preciso haver diferenças", determina o fisiologista Ivan da Cruz Piçarro, professor da Escola Paulista de Medicina. No caso, o jogo de pressões é realizado por músculos do tórax: "As pessoas têm a ilusão de que o peito estufa na inspiração porque os pulmões se enchem. Mas, na realidade, são os pulmões que ficam cheios porque o tórax dilata", esclarece Piçarro. A contração muscular faz a caixa torácica aumentar de tamanho, e a pressão interna cai. Quando isso acontece, aproximadamente meio litro de ar entra nos pulmões, porque, mais uma vez, o gás tende a sair do lugar de maior pressão para o de menor pressão.
Na expiração, contudo, os músculos não costumam ter trabalho - basta que relaxem e a caixa torácica encolhe. Logo a pressão interna fica maior do que a pressão do ambiente e o ar escapa para fora. Se alguém fura a caixa torácica, a pressão vai embora e, dai, fica impossível respirar. É por isso que tiros e facadas no peito quase sempre matam, mesmo sem haver perfuração do pulmão ou do coração. Segundo Piçarro, a situação dos músculos respiratórios só muda durante exercícios físicos : "Então, os pulmões passam a receber até 1,5 litro de ar, cada vez que se enchem", diz ele. "Como todo esse gás precisa ser renovado rapidamente, para atender à necessidade de oxigênio durante o esforço, alguns músculos passam a se contrair para acelerar a expiração." No governo desse ritmo está o cérebro, cujas células constantemente analisam o pH (índice de acidez) do sangue, para verificar o equilíbrio entre o gás carbônico e o oxigênio (veja quadro). "Tanto faz estar numa praia, onde a pressão atmosférica é alta, ou no pico de uma montanha, onde o ar é rarefeito", revela Piçarro. "Pois o organismo regula o ritmo respiratório para absorver sempre a mesma quantidade de oxigênio."Também não importa o lugar, o gás da atmosfera nunca é suficientemente bom para entrar em contato com as exigentes células pulmonares - mesmo o mais puro ar do campo. "As vias aéreas são o mais perfeito aparelho condicionador de que se tem notícia", considera a pneumologista Ilma Aparecida Paschoal, que divide seu tempo entre as salas de aula da Universidade de Campinas, no interior de São Paulo, e as pesquisas com o microscópio eletrônico, usado para examinar as células que revestem o caminho do ar pelo nariz, seios faciais, faringe, traquéia, brônquios e bronquíolos - enfim, as vias aéreas. "As células pulmonares enrijecem e até congelam com temperaturas frias" conta a pesquisadora. "Por isso, mal entra no nariz, o ar começa a ser aquecido, graças a uma rede de vasos sangüíneos sob a mucosa, para chegar nos alvéolos com uma temperatura exata: 37 graus Celsius, nem mais, nem menos."No caso de um andarilho no calor do deserto, a função das vias aéreas pode ser a de resfriar o ar, liberando água na superfície da mucosa. "Independente do calor excessivo, enquanto respiramos, perdemos água", revela Ilma. Mais uma vez isso acontece em prol das células pulmonares, que, de tão finas, se ressecam com facilidade: o ar só pode entrar em contato com elas quando possui uma umidade relativa de 100%. Para se ter uma idéia, em épocas de chuva, a umidade relativa de uma cidade como o Rio de Janeiro fica em torno de 75%; em climas desérticos, porém, a umidade relativa média costuma ser 10%, dando mais trabalho ao aparelho respiratório. O conceito antigo de que climas secos fazem bem aos pulmões vem do fato de que algumas bactérias causadoras de doenças são aeróbicas, isto é, respiram. Assim, se a secura do ar não facilita as coisas para os pulmões, também não ajuda esses microorganismos a sobreviver.
O ar ainda pode ser considerado uma suspensão de partículas e, teoricamente, nenhuma delas deve entrar nos pulmões. Para defendê-los, as vias aéreas possuem células gorduchas, as calciformes, que não param de produzir uma substância grudenta, o muco. Dessa maneira, as partículas de poluentes vão ficando coladas nas paredes das vias aéreas, à medida que o ar passa. Esse muco, por sua vez, é constantemente arrastado para cima, até ser engolido na altura da glote, sem que se perceba. Quem realiza esse serviço de limpeza, varrendo o muco contra a força da gravidade, são minúsculas células, cada qual com 200 microscópicos cílios em média. "A coreografia dos cílios é impressionante", nota Ilma, com os olhos azuis arregalados pelo entusiasmo. De fato, se os cílios simplesmente batessem de um lado para outro o muco ficaria zanzando, sem sair do lugar. Mas não é isso o que se observa. Esses microscópicos feixes, mergulhados na camada gelatinosa que reveste as vias aéreas, realizam movimentos como os dos braços de um nadador. Ou seja, emergem e batem na frente; em seguida, se encolhem mergulhando. Dessa forma, o muco é conduzido em um único sentido - para o alto. 

Quando esse transporte deixa de ser eficiente, o muco passa a se acumular. Em um ato reflexo, os músculos abdominais se contraem com violência, para que um forte jato de ar expulse esse excesso. É a tosse. O espirro tem um papel semelhante, embora cause mais efeito para limpar as vias aéreas superiores, como o nariz: após uma inspiração profunda, ocorre uma expiração súbita pela boca, com o ar atingindo uma velocidade de até 150 quilômetros por hora.
Há catorze anos, pesquisadores suecos fizeram uma descoberta curiosa: a estrutura dos cílios do aparelho respiratório é idêntica à do espermatozóide. Existem doenças hereditárias em que o homem, além de ser estéril porque seus espermatozóides são imóveis, também sofre de bronquite crônica, por causa de defeitos nos cílios. Mas raramente o transporte nas vias aéreas é mal realizado por causa de problemas genéticos como esse: "O primeiro efeito do 3. cigarro. 3 é paralisar os cílios", acusa Ilma. O pior, vem algumas tragadas mais tarde, quando essas células ficam carecas. Afinal, uma célula ciliada demora até 220 dias para se renovar. Sabe-se que entre aquelas seis células desconhecidas das vias aéreas, uma se transforma em célula ciliada, quando uma substituição é necessária. Resta saber qual delas. Só assim os pesquisadores poderão entender o câncer de pulmão, que misteriosamente sempre nasce nos brônquios. "Os poluentes devem causar alterações na metamorfose da célula desconhecida em célula ciliada. Daí surgiria a doença", suspeita Ilma. A  poluição e o cigarro  também causam a proliferação das células calciformes, produtoras do muco. Eis o pigarro do fumante. Faz sentido: quanto mais muco, maior a barreira entre as paredes das vias aéreas e os tóxicos, capazes de provocar queimaduras.
O problema é que o muco é um campo fértil para microorganismos e, por esse motivo, ele aumenta muito quando alguém está resfriado, por exemplo. Microorganismos nunca são bem recebidos no aparelho respiratório, que deveria ser esterilizado da garganta para baixo, graças a um batalhão de células de defesa na faringe. O invasor que passa incólume não pode respirar aliviado: a postos nas paredes das vias aéreas ficam os macrófagos, células imunológicas que literalmente engolem os inimigos. Se, mesmo assim, o microorganismos escapa, muitos portões se fecham nas passagens para os pulmões. Ou seja, os brônquios se contraem para impedir a sua entrada. Daí a dificuldade do doente para respirar.Por zelo, dentro dos alvéolos encontram-se mais macrófagos, embora nenhum microorganismo devesse entrar nessa área nobre. Quando isso acontece, a inflamação resultante é a famosa pneumonia. "Se um germe consegue vencer todas as batalhas nas vias aéreas, é sinal de que as defesas estão muito enfraquecidas, como na AlDS, ou de que estamos diante de um inimigo muito poderoso", comenta Ilma "Os médicos devem encarar qualquer caso de pneumonia com o maior respeito. Para o pneumologista Flávio Tavares Martins, do Hospital Albert Einstein, em São Paulo, mais grave ainda é o enfisema, uma degeneração gradual das paredes pulmonares, que se rompem. "Isso não causa dor, só falta de ar", diz ele. "As pessoas só notam o problema quando a doença já evolui há vinte anos. Então, há pouco o que fazer."Segundo o médico, problemas pulmonares podem ser controlados com drogas e exercícios para os músculos respiratórios. Além disso, a Medicina tem realizado proezas: em novembro de 1990, na Universidade de Stanford, nos Estados Unidos, uma mãe transferiu parte do seu pulmão para substituir o órgão danificado na filha de 12 anos de idade. Os médicos agora esperam que a porção do pulmão materno cresça até atingir o tamanho normal na menina. Os cientistas, porém, desconhecem uma maneira de poupar os pulmões. Diferente do coração, por exemplo, não há ginástica que melhore a sua saúde: o único remédio é o luxo de respirar um ar livre de qualquer espécie de fumaça

Em ritmo acelerado

Com monitores para medir a respiração e o oxigênio absorvido pelo organismo, um atleta pedalou normalmente uma bicicleta; em seguida passou a pedalar com uma perna só. Para surpresa do fisiologista Antonio Carlos da Silva, que realizou a experiência na Escola Paulista de Medicina, a mudança fez a respiração do atleta acelerar. "Os músculos respiratórios são comandados por sinais nervosos que partem da região do tronco cerebral", explica o fisiologista. "Esses comandos, por sua vez, poderiam ser influenciados por substâncias liberadas durante a fadiga muscular.Ao agüentarem sozinhos a carga de uma bicicleta, os músculos de uma única perna se cansariam mais, portanto liberariam mais substâncias, aumentando o ritmo da respiração em um reflexo.Tradicionalmente, acreditava-se que esse ritmo era regulado apenas em função do oxigênio existente no sangue arterial, analisado por células especializadas no próprio cérebro e na artéria carótida, que parte do coração. "Para o sistema nervoso, aliás, pequenas alterações na oxigenação sanguínea são menos importantes do que variações na quantidade de gás carbônico", esclarece Silva. "Esse gás é capaz de modificar a acidez do sangue, o que prejudica o funcionamento das células, especialmente as nervosas."

Setor de Trocas: Onde se absorve oxigênio

A troca de gases ocorre em 300 milhões de saquinhos, os alvéolos, dentro dos pulmões. Ali, o oxigênio do ar passa para o sangue venoso, onde existe uma baixa concentração desse gás. Já o gás carbônico, cuja concentração sangüínea é alta, passa para o ar, que possui apenas 0,04% dessa substância.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

O sentido da vida - O olfato

O SENTIDO DA VIDA - O olfato



Um simples aspirar e basta - qualquer cheiro é suficiente para despertar fome, provocar atração ou repulsa, trazer de volta cenas do passado. Cheirar é se emocionar sempre. Mas na maioria das vezes isso é tão sutil que não se dá importância e se acaba torcendo o nariz para o olfato - o mais primitivo e intrigante dos sentidos, e com certeza o menos conhecido pela ciência. Poucos percebem que, num mundo onde quase tudo tem odor, é esse sentido que decifra as mensagens químicas - das quais freqüentemente depende a própria sobrevivência - passadas pelos animais, vegetais, minerais e objetos manufaturados.
Além disso, é graças ao olfato, um aliado do paladar, que se sentem as diferenças de sabores, o que faz toda a diferença quando se está resfriado.
Para a maioria das espécies animais, o olfato é uma questão de vida ou morte. As gazelas são um exemplo: ao sentir o cheiro do leão ou de outro carnívoro feroz, saem correndo antes do ataque. Já entre os ratos, o olfato exerce um papel mais sofisticado: se uma rata é fecundada por um membro de sua própria família, aborta imediatamente ao sentir o odor de um rato estranho, com o qual se acasalará logo em seguida - como se tivesse consciência de que a mistura dos genes garante uma prole mais saudável.
Apesar de tudo, a função do olfato foi perdendo importância no decorrer da evolução das espécies. Os primeiros seres, que viviam nas profundezas dos oceanos, certamente só possuíam esse sentido, com o qual localizavam a comida, descobriam os parentes e evitavam os inimigos. O cérebro tinha apenas centros olfativos, que interpretavam os odores, e centros motores, que controlavam os movimentos. Quanto mais as espécies foram evoluindo, diminuía o tamanho da área cerebral especializada no olfato, chamada rinencéfalo, que cedeu espaço para outras estruturas especializadas. No homem, por exemplo, uma área do rinencéfalo foi ocupada pelo uncus, a parte do cérebro que controla as reações motoras do organismo diante das emoções, como tremer de medo.
No final das contas, o nariz do homem acabou perdendo para qualquer focinho de animal. No ser humano, as células olfativas cobrem uma área de 10 centímetros quadrados do nariz; já no cachorro, essas células ocupam 25 centímetros quadrados; e no tubarão, 60. Enquanto o homem, para perceber o cheiro do ácido acético - presente no vinagre - precisa de 500 milhões de moléculas dessa substância por metro cúbico de ar, o cão pode sentir o mesmo cheiro com apenas 200 mil moléculas.
Esse número de moléculas pode parecer imenso, mas é um nada perto da quantidade de substâncias odoríferas que as coisas exalam a todo instante. Uma pessoa produz cerca de meio litro de suor por dia; desse volume, apenas uma fração mínima passa pela sola do sapato. Mesmo assim, a cada passo deixa-se no chão cerca de 250 mil moléculas de ácido butírico, um dos componentes do suor. Com apenas um milésimo dessa quantidade, um cão poderia sentir seu cheiro - eis por que ele consegue farejar um rastro, mesmo quando a pessoa já passou há algum tempo e muitas das moléculas de seu suor se evaporaram.
Para que algo tenha cheiro é necessário que seja volátil, ou seja, que solte moléculas gasosas. E, no caso, justiça se faça ao nariz humano: apesar de menos equipado, entre todos os mamíferos, sua capacidade é maior do que se imagina. Segundo o otorrino Paulo Augusto de Lima Pontes, professor da Escola Paulista de Medicina, basta que apenas dez moléculas alcancem a câmara olfativa do nariz para que determinado odor seja sentido. "Todo o processo", ele explica, "não leva mais que um décimo de segundo." Tamanha rapidez não significa que tudo seja simples. A olfação é tão complexa que só no século passado foram formuladas cerca de quarenta teorias diferentes a respeito de seu funcionamento. No século passado, também se acreditava que existiam aromas básicos, que formariam todos os odores conhecidos, da mesma maneira como as cores primárias compõem as demais cores. Se fosse assim, as moléculas de uma rosa dentro da câmara olfativa acionariam células receptoras especializadas em aromas florais. Mas como o dono do nariz saberia a diferença entre o perfume da rosa e o do jasmim? Hoje em dia, os cientistas pensam que um determinado odor seria reconhecido no cérebro pela combinação dos tipos de receptores que estimulariam, e pela quantidade e intensidade desses estímulos. A variedade de odores que um nariz pode reconhecer é colossal. "Cada pessoa", diz o professor Pontes, "tem aproximadamente 25 milhões de receptores olfativos e todos eles podem ser diferentes entre si."
Todo esse equipamento está pronto para entrar em ação assim que se nasce - enquanto os demais sentidos só vão funcionar perfeitamente depois de alguns dias de vida. Observando o comportamento dos bebês, os cientistas concluíram que a partir da primeira semana eles já reconhecem o odor da mãe. Todas as pessoas, por sinal, têm um cheiro próprio, uma espécie de combinação final de todas as substâncias odoríferas liberadas através da pele. Não se sabe ainda se o cheiro de cada um é de fato uma marca registrada tão particular como uma impressão digital. É provável que sim.
Os adultos também reconhecem o odor de outras pessoas. Cientistas italianos descobriram que um dos primeiros sinais do final de um romance é quando um dos parceiros passa a não suportar o cheiro do outro - um cheiro, aliás, sutil, embaçado por perfumes e desodorantes, e que portanto necessita de muita intimidade para ser captado pelo nariz humano. Nos animais a relação olfato-sexo é absoluta. É pelo cheiro que os machos da quase totalidade das espécies ficam sabendo que uma fêmea está no cio. Nesse sistema de informação, as mariposas parecem imbatíveis: um macho pode sentir o cheiro de uma fêmea a 2 quilômetros de distância.
Se os seres humanos não precisam se cheirar uns aos outros para reconhecer quem é homem e quem é mulher, certamente precisam do olfato para experimentar a atração sexual, embora isso não seja consciente. Sexo sem cheiro também dá prazer, mas nem tanto, descobriram recentemente cientistas norte-americanos. Numa pesquisa, eles verificaram que uma de cada quatro pessoas com anosmia - perda total de olfato - tem problemas de desempenho sexual.
Não se sabe quantos brasileiros sofrem de perda parcial ou total do olfato, mas quando o problema ocorre quem mais reclama são as donas de casa. Elas percebem que não têm mais olfato quando deixam o feijão ou o café queimar. As donas de casa, ao menos, reclamam da falta de capacidade de sentir odores. Mas muitas pessoas que perdem o olfato não sabem que o perderam. "Quem vai aos consultórios porque perdeu o olfato", conta o alergista Fábio Morato Castro, de São Paulo, "geralmente reclama de que não sente mais o gosto da comida."
A perda de olfato, além de estar associada à depressão, pode levar à desnutrição. É lógico. O nariz é o grande responsável pelo apetite: qualquer pessoa, sem perceber, cheira melhor quanto mais perto da hora de comer, o que faz com que sinta o aroma da comida de longe. Quando isso acontece, o cérebro manda o estômago produzir sucos gástricos. As glândulas salivares, então, entram em ação: fica-se literalmente com água na boca.
Metade do sabor é cheiro. As papilas gustativas da língua, que sentem o gosto das coisas, identificam apenas quatro sabores básicos: amargo, azedo, doce e salgado. A diferença entre um pudim de leite e um copo de vinho, por exemplo, é dada pelo cheiro de cada um. Afinal, uma pessoa cheira o ar quando aspira e quando expira. Quando se expira, o fluxo de ar, que passa pela garganta, capta moléculas odoríferas do alimento que está sendo mastigado. Essas moléculas alcançam assim a câmara olfativa; o cérebro, então, soma as informações das papilas gustativas com as do olfato e o resultado é o paladar. Por isso, quando se está gripado e a câmara olfativa fica cheia de muco, impedindo que as moléculas entrem em contato com os receptores, não se sente direito o gosto das coisas.
O odor é tão importante para o sabor que as indústrias de alimentos investem milhões nos chamados aromatizantes artificiais. Hoje já existem mais de dez mil aromatizantes - cada um o resultado da combinação de duzentas a trezentas moléculas de substâncias diferentes. O aroma artificial de morango, que existe desde a década de 60, consumiu exatamente vinte anos de pesquisas. Algumas vezes os aromatizantes artificiais são muito mais caros que os naturais. O aroma artificial de baunilha é cerca de duzentas vezes mais caro que a baunilha natural. Apesar disso, a indústria prefere o aromatizante porque tem o odor dez vezes mais forte, garantindo um sabor muito mais acentuado de baunilha.
Todos conhecem a chatice de não sentir o sabor e o cheiro das coisas, quando se fica resfriado. Mas, quando a causa é uma alergia, a recuperação pode levar anos. "A cura, de certa forma, é fácil", diz o doutor Fábio Castro. "Na maioria dos casos basta afastar a causa da alergia. Se for impossível o afastamento - por exemplo, se for alergia à grama, não podemos proibir a pessoa de passar na frente de praças -, recorremos a antialérgicos." A cura depende de se descobrir a causa da alergia - o que às vezes leva tempo.
O nariz, afinal, é vítima de muitas alergias - algumas causadas por fatores que o atacam diretamente. "Muitas vezes", explica o alergista Laércio José Zuppi, "os próprios medicamentos para gripes e rinites irritam a mucosa olfativa, levando a uma perda temporária do olfato. A poluição, cada vez maior nas grandes cidades também ajuda a enfraquecer o olfato. Em certos casos, os danos à mucosa são irreversíveis: mesmo recuperado da alergia, o paciente não volta a sentir bem os odores.
Conservantes de alimentos podem causar alergias a longo prazo, que por sua vez podem causar a anosmia. Os medicamentos, porém, encabeçam os fatores que provocam esse tipo de problema, em especial os remédios para hipertensos, os diuréticos e o ácido acetilsalicílico, o mais popular analgésico.
Mas a maior causa de perda de olfato são os acidentes. Calcula-se que uma entre cada quinze pessoas com traumatismo craniano passa a viver num mundo inodoro. No caminho dos nervos que levam a mensagem olfativa ao cérebro, existe uma lâmina cheia de furinhos, o osso etnóide, que pela fragilidade e localização - abaixo do crânio - está sujeita a rachar em acidentes. "Se apenas um lado da lâmina é danificado, muitas vezes a pessoa nem sente que perdeu o olfato, porque um único lado sadio da cavidade nasal basta para que se tenha a sensação de cheiro", explica o neurologista Luiz Celso Vilanova, da Escola Paulista de Medicina. Outros problemas neurológicos, como tumores, podem causar a perda da sensação de odor. Mas nesses casos os sintomas são tão graves, como fortes dores de cabeça, que a pessoa nem sequer percebe que não sente mais cheiros.
Pesquisas norte-americanas sugerem que a capacidade de cheirar se desgasta com o tempo, mesmo quando o indivíduo é são: um quarto das pessoas entre 65 e 75 anos tem dificuldade em identificar odores; com mais de oitenta anos, quase cem por cento têm o mesmo problema. Em qualquer idade, as mulheres têm melhor olfato que os homens - com exceção das grávidas. No começo da gestação, a hipófise pode inchar o suficiente para comprimir os nervos do olfato que passam pelo crânio. "Em conseqüência", conta o ginecologista Nicolau Caivano, "muitas gestantes ou deixam de sentir cheiros ou passam a sentir cheiros que nem existem". Daí com certeza vem a lenda de que as grávidas têm olfato mais apurado.
Uma das funções mais importantes e mais conhecidas do olfato é estimular a memória. Pessoas com problemas olfativos às vezes não conseguem evocar situações com facilidade. A ciência não sabe explicar essa relação. Supõe-se que, para reconhecer qualquer coisa, o cérebro puxe de seu arquivo um fato do passado. De outro modo, apenas registraria odores, sem saber exatamente do que são. Assim, diante de uma flor, talvez a mente produza associações com momentos do passado - uma brincadeira de criança num jardim ou um passeio com a namorada num parque. Pois, se não bastasse tudo o mais, o olfato é também, misteriosamente, o mais nostálgico dos sentidos.

Como fazemos para cheirar bem.

Os odores são sentidos na chamada área olfativa da cavidade nasal. Trata-se de uma câmara situada num lugar pouco acessível, na parte mais alta e funda do nariz, longe do fluxo do ar que respiramos. Existe um motivo para isso: se as células olfativas, que são muito sensíveis, ficassem demasiado expostas ao ar, acabariam danificadas pela poeira e o sobe-desce da temperatura.
Por causa dessa localização, ocorre um fenômeno estranho: quando se respira normalmente não se sente cheiro algum. Mas, quando um odor qualquer existe no ar numa concentração relativamente alta, algumas poucas moléculas odoríferas podem alcançar a câmara. Diante dessa sensação ainda imprecisa, o cérebro ordena uma segunda aspiração mais forte - para provocar o que os cientistas chamam turbilhão de ar dentro do nariz, capaz de carregar as moléculas para a câmara olfativa. Tudo isso acontece num relance e sem que a pessoa se dê conta.
Na câmara, as moléculas são atraídas para a mucosa amarela formada pelas células olfativas, também chamadas de receptores. No lado externo, um receptor possui cílios microscópicos cobertos por uma fina camada de muco, no lado interno, ele se prolonga sob a forma de um nervo. Durante muito tempo, acreditou-se que os aromas eram reconhecidos graças a reações químicas entre as moléculas odoríferas e o muco. Tais reações seriam sentidas pelos cílios dos receptores, que as transformariam em estímulos nervosos.
"Hoje se sabe que o processo não é químico, mas físico", explica o professor Paulo Pontes. "Os receptores avaliam o peso e os prótons liberados pelas moléculas odoríferas e, a partir disso, engatilham um certo estímulo." O muco, por sua vez, serve para proteger os receptores, e também para diluir e expulsar da câmara olfativa as moléculas do odor.
Os impulsos dos receptores são ondas elétricas que percorrem os nervos até o bulbo olfativo, uma estrutura logo abaixo da parte frontal do cérebro. O bulbo mantém uma espécie de linha direta com o sistema nervoso central: nele se dará a sinapse ou conexão com o cérebro. Até aí, tudo bem. Mas a ciência ainda fareja explicações para a questão de como o cérebro identifica um odor.