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segunda-feira, 12 de maio de 2025

Cores são objetivas, mesmo que o verde que você vê não seja exatamente igual ao dos outros

Cores são objetivas, mesmo que o verde que você vê não seja exatamente igual ao dos outros

A cor de um objeto parece diferente sob diferentes tipos de iluminação e contra diferentes fundos para diferentes espectadores. Mas isso não significa que as cores sejam subjetivas.

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

YInMn - O azul mais brilhante e durável descoberto ao acaso


YInMn - O azul mais brilhante e durável descoberto ao acaso

YInMn


O mais novo tom de azul do mundo, um brilhante pigmento e durável chamado YInMn, foi licenciado para uso comercial e já está nas mãos de alguns artistas. 

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Camaleões, Mestres do Disfarce - Natureza




CAMALEÕES, MESTRES DO DISFARCE - Natureza



Inofensivos, apesar da aparência assustadora, fazem bem mais que mudar de cor: seu comportamento inteligente intriga a ciência.

Quando minha mulher mostrou a nosso vizinho a foto de um camaleão, dizendo que ele nos pertencia e havia escapado, o homem arregalou os olhos para aquela estranha criatura verde, de olhos saltados e três chifres, com garras pontudas e recurvadas para dentro, mas não pareceu reconhecê-lo. "Poderia procurá-lo na copa de seus arbustos?", implorou minha mulher. "Ele é muito lerdo e difícil de enxergar." O homem devolveu a foto, claramente convencido de que estava lidando com uma lunática. "Não se preocupe. Os camaleões não podem lhe fazer mal",  disse ela. O homem, sem uma palavra, voltou-se, fechou a porta e trancou-a por dentro. Apesar da aparência assustadora de monstros pré-históricos, os verdadeiros camaleões  deveriam inspirar riso e não medo - e sua conhecida habilidade de mudar de cor e aspecto é apenas uma de suas menores extravagâncias. Com um andar desengonçado e indolente, ridículas atitudes intimidadoras, globos oculares de rotação independentemente (como torretas de um bombardeio B-17), cauda preênsil (que adere e apanha coisas), dedos assimétricos, língua comprida e elástica, além de todo um arsenal grotesco de cristas, rugas e babados, o camaleão é um dos animais mais inofensivos ao homem. Enquanto quase todos os camaleões vivem na África ou em Madagascar, o camaleão comum, ou mediterrâneo, pode ser encontrado do norte da África ao sudeste da Espanha, passando pelo Oriente Médio e as ilhas do Mar Egeu.

Algumas subespécies ocorrem na Península Arábica, na Índia e em Sri Lanka. Outras habitam as selvas da bacia do Rio Congo, as ressecadas vastidões do Deserto da Namíbia e as sebes de arbustos em Nairóbi, no Quênia. Há as que sobrevivem às raras nevadas nas montanhas da África Equatorial. A maioria pertence ao gêneroChamaeleo, mas uma parte é enquadrada em outro gênero-ou em diversos, dependendo do especialista.

Os camaleões são em larga medida arborícolas e raramente descem à terra, a não ser para o acasalamento e para a postura de ovos. Quase todas as espécies passam a maior parte do dia imitando a tonalidade da casca das árvores ou as folhagens, um efeito ampliado pela forma achatada de seu corpo. Nos ramos, esperam o balanço provocado pelo vento para se deslocar, bamboleando-se de um lado para outro, como as folhas agitadas pela brisa, com a cauda estendida para se equilibrar. Utilizam-na também para se prender ao galho durante uma manobra ou na hora das refeições. Quando estão tranqüilos, costumam enrolar a cauda numa espiral bem apertada.

As patas têm os dedos alinhados em lados opostos, para maior estabilidade e firmeza, na forma de um V invertido. As patas dianteiras têm dois dedos para o lado de fora e três para o lado de dentro, enquanto as traseiras têm três dedos alinhados para fora e dois para dentro. Perturbados durante o sono, animais de algumas espécies caem ao chão por reflexo, talvez para evitar a captura por uma cobra ou lêmure. Aterrissam com a elegância de uma sacola de compras. Andam sobre a ponta das unhas, as patas estendidas. Se esse caminhar efetivamente mascara sua presença numa árvore, torna-os ridículos e visíveis em terra. São lentos: mesmo quando fogem em pânico, mal cobrem 6 metros em 1 minuto. Desprotegidos ou acuados, sua melhor defesa é assumir uma aparência ameaçadora, que adquirem ao inflar-se e expelir o ar com um som sibilante.

Nosso fugitivo era um macho da espécie Jackson, natural das florestas do Quênia e da Tanzânia. Pavoneando-se com um andar arrastado e solene, ornado com três chifres na carapaça da cabeça, assemelha-se a um tricerátops (um tipo de dinossauro) em miniatura. Nem todos os camaleões, porém, desenvolvem chifres. Alguns portam apenas os vestígios em forma de cotos, enquanto outros exibem até quatro bem desenvolvidos cornos, cuja função parece ser a de impressionar as fêmeas ou intimidar os rivais. Pouco mais de doze anos atrás, minha mulher e eu encontramos nossos primeiros camaleões, um casal da espécie Jackson, confinados num pequeno tanque de vidro numa loja de animais de estimação. Eles ficavam pelos cantos, arranhando o vidro com uma pata, girando os olhos. Pagamos a fiança e os tiramos dali.

Com o tempo, o número de nossos camaleões foi aumentando. Revelavam ao ar livre sua verdadeira personalidade. Já aos primemos raios de sol da manhã, arqueavam-se de lado para captar a luz, achatando o corpo e esticando a garganta para criar a maior superfície possível exposta. A face do corpo voltada para o sol tornava-se quase negra para absorver os raios, enquanto a outra face permanecia verde. Se um mero graveto interpunha-se entre a pele e o sol, a interferência era registrada na pele à sombra, que recuperava, naquele ponto, o verde original. Ao término de alguns minutos, aquecidos e recarregados, recobravam a cor normal e voltavam para a sua faina de caça aos insetos.

De tanto cuidar dos camaleões, acabei aprendendo quanto são vulneráveis essas criaturas de modos grotescos. Por mais que nos esforçássemos, não conseguíamos manter nossos Jacksons vivos além de dois anos. Alguns morriam em um mês ou dois de estresse. Na ausência de sol, desenvolvem raquitismo. Para sobreviver, necessitam de grandes variações de temperatura durante o dia. É essencial que tenham uma dieta variada. Atualmente, há uma razão até mais alarmante para desaconselhar a criação doméstica desses animais: a sua presença nas listas de espécies em perigo. "O maior problema é a destruição do habitat", diz o paleontólogo Richard Leakey, diretor do Departamento de Vida Selvagem do Quênia. "Muitos camaleões têm um habitat exclusivo. Quando destruímos um determinado habitat, podemos eliminar certas espécies. E a última coisa que iríamos querer seria encorajar o comércio de animais de estimação."

Durante os últimos quatro anos, o número de camaleões levados para os Estados Unidos triplicou, de cerca de 5 000 em 1985, para cerca de 15 000 em 1989. Algumas das espécies maiores são vendidas por 2 000 dólares a unidade. Os especialistas acreditam que as taxas de mortalidade dos camaleões são elevadas. Quando coletados no meio selvagem, são freqüentemente arrancados dos galhos; como eles se agarram firmemente, seus ossos se partem. É comum chegarem à loja de animais de estimação meio mortos de desnutrição e tão estressados, que são incapazes de resistir aos parasitas. Poucas semanas depois, morrem nas mãos de seus novos donos. Por isso, cada vez mais biólogos procuram estudar essas fascinantes e perturbadoras criaturas enquanto há tempo. Pesquisas em andamento cobrem tudo a respeito deles, dos hábitos à psicologia.

Jonathan Losos, da Universidade da Califórnia em Berkeley, e Al Bennett, da Universidade da Califórnia em Irvine, percorreram todo o Quênia. O propósito era estudar o modo como as diversas espécies se desenvolviam ou evoluíam em sua adaptação aos diferentes climas. Os biólogos coletaram camaleões de distintos habitats a variadas altitudes-capturaram-nos em parques de clima temperado em Nairóbi, nas encostas do Monte Quênia, onde as temperaturas podem chegar ao ponto de congelamento, e na região de cerrados, quente e árida, ao longo da fronteira com a Tanzânia. O trabalho apresentou alguns inconvenientes. "Eles nos mordiam o tempo todo", relata Losos. "Felizmente, era raro rasgarem nossa pele." Eles e seus colegas esperam elucidar a fisiologia da adaptação dos camaleões ao clima-um processo que se torna cada vez mais importante de entender, até em função do aumento da temperatura mundial.

Curiosa a respeito dos movimentos dos camaleões ao passarem de um galho a outro, a bióloga Jane Peterson, da Universidade da Califórnia do Sul, filmou e analisou as acrobacias em câmara lenta de seus animais. Concentrada na musculatura e na estrutura óssea dos lagartos, a pesquisadora focalizou-os em especial no ombro. Logo descobriu que alguns deles pareciam ter-se adaptado de maneira semelhante à dos primatas, com juntas rotatórias nos ombros para facilitar os movimentos. Flexíveis, as juntas permitem-lhes estender os membros anteriores em qualquer direção e vencer distâncias de até o dobro do comprimento do corpo. Ela considerou que esses movimentos lentos, metódicos, permitem ao camaleão mover-se discretamente entre as árvores sem chamar a atenção.

Os pesquisadores também se intrigaram diante da habilidade do camaleão em mudar de cor. O animal o faz de acordo com a intensidade de luz, seu estado de saúde ou emocional e temperatura-além do lugar onde se encontra. A teoria de que o camaleão não resiste a se tornar da cor do fundo não, tem base na realidade. Contrariamente ao mito, a maioria das mudanças de cor o torna mais visível. Junto com o aumento da luminosidade, o acasalamento e a defesa do território provocam as mais dramáticas transformações. Quando irados, nossos espécimes Jackson mudavam do verde-claro usual e uniforme para um pintalgado de preto em menos de 1 minuto e ofereciam uma configuração de diamante quando subiam nas cordas do teto. Um macho tornava os lábios amarelos para cortejar uma provável pretendente e outro saiu completamente negro de uma cirurgia. Quando o veterinário o pôs na mão de minha mulher, ele rapidamente tornou ao verde-claro.

Os camaleões possuem distintas camadas de pele, compostas de células especiais que contêm variados pigmentos. Logo abaixo da epiderme exterior fica uma camada com células nas cores verde e amarelo. Mais abaixo, vem a camada que contém as células das cores azul, branco, vermelho, laranja e violeta. A camada mais profunda contém os pigmentos marrom-escuros de melanina, a substância responsável pelo bronzeamento da pele humana. As células de melanina do camaleão têm numerosas ramificações, de modo que podem dispersar o pigmento escuro de seu centro para os "braços" externos, que penetram nas camadas superiores da pele. Estressado, o camaleão adquire uma| tonalidade escura porque, nesse estado emocional, a melanina vai para a superfície, bloqueando a camada de células brancas. Já as células de outras cores podem se expandir ou se contrair: se as células amarelas se alargam sobre as azuis, por exemplo, o animal adquire uma tonalidade verde, característica de quando está calmo.

Os camaleões vivem uma vida solitária. Os machos guardam seu território possessivamente. Qualquer intruso é recebido com extrema hostilidade. Na maioria das vezes, as batalhas territoriais consistem em exibições agressivas, sem contatos físicos. Quando dois rivais se confrontam, viram-se de lado, achatam o corpo, curvam a cauda e esticam o pescoço. Em seguida, inflam-se completamente e trocam de cores e desenhos, numa vibrante seqüência de intimidação. Finalmente, abrem a boca, expondo as cores contrastantes das membranas mucosas. Isso é muitas vezes acompanhado de uma coreografia de bamboleios laterais, entremeados de silvos sussurrados. Na maioria das espécies, tais movimentos e ruídos sinalizam o final do combate, quando um dos adversários normalmente concederá a vitória moral a outro e se afastará. Mas, em variedades maiores, ocorrerá o ataque físico, inflingindo-se danos reais que, às vezes, levam um dos oponentes à morte.

O olho do camaleão é uma maravilha ótica. Apenas a pupila desponta de uma protuberância de pele em formato de abóbada. Cada olho gira 180 graus e opera independentemente do outro. Ainda é um mistério como o cérebro tão pequeno dessas criaturas pode processar informações mutáveis e complexas relativas ao espaço. O camaleão pode localizar seus predadores sem mover a cabeça ou o corpo. Uma pesquisadora demonstrou como o camaleão depende da coordenação entre seus olhos e a língua. Ela equipou suas cobaias com óculos adaptados, distorcendo as imagens com lentes de aumento. Todos eles foram incapazes de capturar os insetos de sua escolha.

Quando o camaleão localiza um provável alimento, ambos os olhos convergem para o alvo, conferindo ao lagarto uma aparência ridiculamente vesga. Depois, ele balança um pouquinho para focalizar sua visão estereoscópica e confirmar a direção-um desvio de centímetros poderá ocasionar uma perda-e sua língua dispara como um raio. Ela pode se estender uma vez e meia o comprimento do corpo, com precisão absoluta e a tal velocidade que se torna invisível. Uma língua de 14 centímetros leva 1/16 de segundo para se estender inteira, o suficiente para capturar uma mosca em pleno vôo. A ponta da língua parece um bastão e é recoberta por uma saliva pegajosa; sua superfície abrasiva prende firmemente o alvo por aderência e então se enrola de volta com o alimento aprisionado. Vermes, lesmas e outras presas úmidas frustram o mecanismo, por não aderirem.

A natureza alcançou o maior aperfeiçoamento em matéria de camaleões em Madagascar, onde se concentram dois terços das espécies do mundo. Ali, acreditam os pesquisadores, devem ter existido os "protocamaleões", antes que a ilha se separasse do continente africano, no período Mesozóico. (Os mais antigos fósseis de camaleões datam do Mioceno, 10 milhões de anos depois.) Em Madagascar, os camaleões embarcaram em diversas viagens evolutivas. Os gêneros Oustalt e Parson podem ultrapassar 60 centímetros de comprimento, alvejando pequenos roedores a outros 60 centímetros de distância com a língua esticada. O camaleão pardalis  muda de cores tão rapidamente, que um observador julgaria ter visto dois animais diferentes; o camaleão jóia lembra uma pintura abstrata.

Para algumas espécies de camaleões, a única esperança de sobrevivência talvez seja a criação em cativeiro. Sua propagação bem-sucedida poderia também reduzir a demanda de camaleões importados. Diversos zoológicos e pelo menos um criador têm desenvolvido programas de orientação em cativeiro. Os progressos têm sido lentos: os lagartos não se reproduzem bem nessa condição. A postura dos ovos é uma empresa arriscada e incerta, a que a fêmea se sujeita várias vezes ao ano. Ela desce da árvore e cava fundos buracos no solo; leva quase um dia preparando um espaço apropriado. Depois de pôr os ovos, em geral de trinta a cinqüenta, enche o buraco com terra e alisa a superfície ao redor com as patas. Toda essa atividade ocorre à luz do dia.

Meses mais tarde, os filhotes emergem, começando a caçar desde momento em que saem à superfície, todos os seus sistemas de ataque e defesa operando com eficiência total. Ainda assim, a mortalidade é elevada, pois os filhotes são devorados por aves, cobras e outros lagartos. Alguns camaleões do continente africano, como a espécie Jackson, desenvolveram um atalho reprodutivo, os filhotes nascem de parto. Nós observamos uma fêmea dar à luz a 38 bebês na haste de uma cortina. Os recém-nascidos, envolvidos por uma fina membrana, caíam ao carpete e saíam andando à procura de um lugar seguro. Levamo-lhes filhotes de grilos, que eles capturavam com a língua já na primeira tentativa. Ainda que não parecessem afetados pela queda, na floresta, a mãe os depositaria nos galhos, pressionando-os para que a membrana elástica e pegajosa aderisse.

A Califórnia é a capital do camaleão nos Estados Unidos, e San Diego é sua meca-temperaturas agradáveis e sol quase todos os dias permitem que sejam deixados ao ar livre, onde vicejam. Cheryl DeWitt uma criadora de camaleões altamente respeitada na região, tem conseguido marcantes sucessos no traiçoeiro terreno dessa exótica criação. Quando a visitamos em sua casa, mais de uma centena de répteis alinhavam-se por suas paredes em gaiolas de arame e tanques de vidro. Um camaleão egípcio equilibrava-se num viveiro de plantas para aquecer-se sob uma lâmpada. Gaiolas no terraço continham cada uma um camaleão encarapitado numa planta, tomando sol.

"Os camaleões são animais que cultivam hábitos", disse ela. "Os egípcios nos viveiros de plantas vão para o pé da escada às 10 da manhã e ficam esperando que eu os leve para fora. Mr. Rainbow, meu macho pardalis, desce da haste da cortina, onde costuma dormir para se admirar no espelho todas as manhãs." Quando visitamos Mr. Rainbow, ele estava engajado num combate com seu reflexo no espelho, globo ocular contra globo ocular diante de seu obstinado oponente. Mr. Rainbow (arco-íris em inglês) fazia jus ao nome. Durante o combate, exibiu um amarelo-vivo tingido de ferrugem, com listras verticais e verde-oliva e listras , horizontais que se moviam para cima e para baixo como água. Um vermelhão de raiva flamejava em sua garganta. Depois que DeWitt o transferiu para um arbusto ao sol, suas cores "acalmaram-se" para tons de verde.

Dando seqüência à demonstração, DeWitt apresentou um jovem Jackson na ponta do dedo, com chifres incipientes despontando na testa. "Alguns camaleões se adaptam à perda do habitat, mas a maioria não", comentou ela. "Se não aprendermos a criá-los em cativeiro, logo perderemos muitas variedades. Eu pretendo fazer minha parte." Enquanto várias espécies desses encantadores e bizarros lagartos estão com os dias contados, muitos dos seus mistérios podem continuar sem solução. "Mas a verdadeira tragédia", comenta o biólogo Jonathan Losos, "é que essas espécies podem desaparecer antes mesmo que tenhamos a chance de identificá-las-ou de compreendê-las." 


sábado, 28 de janeiro de 2012

Salvos pelo Mimetismo - Insetos

SALVOS PELO MIMETISMO - Insetos



Certos animais fingem ser o que não são para escapar de seus perseguidores. Moscas parecem vespas, borboletas saborosas parecem venenosas, sapos parecem monstros pré-históricos. Eles são a melhor demonstração de que as espécies evoluem pela seleção natural, com a sobrevivência dos mais aptos, tal como Darwin descobriu há mais de um século.

Se a legendária figura de Sherlock Holmes houvesse um dia se aventurado pela Amazônia, caçando borboletas com uma redinha de filó, certamente estaria na pele de um naturalista inglês que viveu no século XIX, chamado Henry Walter Bates. Bates não era um detetive, mas, tal como Holmes, conseguiu enxergar através de sua lente de bolso as pistas de um grande mistério. Aliás, de um dos maiores enigmas biológicos ligados à história evolutiva das espécies. O fenômeno, parcialmente esclarecido por Bates, tem hoje o nome de mimetismo batesiano, em sua homenagem, mas na época do naturalista ficou conhecido como "o estranho caso das borboletas imitadoras".
Depois de haver passado onze anos embrenhado na selva amazônica, Bates embarcou de volta para a Inglaterra em 1860, levando uma espantosa coleção de animais e plantas. Mas foram os insetos e, muito em particular, as borboletas que acabaram se tornando o principal objeto de suas investigações. Maravilhado com a exuberância da fauna tropical, ele já havia escrito em seu livro O naturalista no rio Amazonas que capturara cerca de setecentas espécies de borboletas, depois de alguns passeios em volta da cidade de Belém. Bates tinha conhecimento de que em toda a Europa só haviam sido registradas 341 espécies e que ele retornara, portanto, com uma das maiores coleções de borboletas do mundo.
Porém, entre todas aquelas centenas de caixas repletas de exemplares belos e exóticos, havia uma que reservava algo de muito mais importante. Ela estava rotulada com a palavra Heliconii, indicando tecnicamente o conteúdo: um grupo bem característico de borboletas tropicais (hoje é a família das helicônidas). Quando o naturalista passou a examiná-las detidamente, com o auxílio de sua lente de bolso, verificou, surpreendido, que a caixa estava cheia de falsas helicônidas.
Sem dúvida, Bates tinha levado para casa "gato por lebre". Só que, naquele caso, os "gatos" é que eram de grande valor, pois evidenciavam um alto padrão de imitações entre animais sem nenhum parentesco entre si. Aquilo foi suficiente para despertar na cabeça do naturalista uma série de recordações adormecidas desde a época em que caçava insetos nas florestas da Amazônia. Ele recordou-se de como eram abundantes as helicônidas em algumas regiões que visitara e que, a despeito de seus coloridos chamativos, raras vezes eram atacadas pelos pássaros caçadores de insetos. Bates entregou-se, então, a uma série de suposições. Se aquelas borboletas não eram perseguidas por seus predadores naturais, possivelmente não deveriam servir de alimento e a causa mais provável daquilo seria, de certo, um gosto muito ruim. Talvez, se o colorido de certas borboletas "comestíveis" se aproximasse do padrão Heliconii, elas tivessem alguma vantagem na luta pela sobrevivência ao se passar por repulsivas frente aos predadores. Daí por diante, através de sucessivos cruzamentos entre si, elas produziriam raças cada vez mais parecidas com as verdadeiras helicônidas.
Essas brilhantes deduções teriam feito com que o naturalista retirasse o cachimbo da boca e exclamasse um "elementar, meu caro Bates", se ele não soubesse o quanto seria difícil comprová-las. E isso ele jamais chegou a fazer completamente. Entre tanto, todas as suas investigações sobre as borboletas "imitadoras" foram apresentadas em 1861, incluídas num trabalho de grande vulto sobre os insetos da Amazônia. Aí, pela primeira vez, os cientistas tomaram conhecimento da existência de um incrível fenômeno biológico batizado de mimetismo.
Uma experiência desagradável pode permanecer na memória de um animal por um certo tempo. Por exemplo: gosto ruim de uma presa. É quase certo que nas investidas seguintes o predador irá evitar qualquer presa que se assemelhe a um modelo reconhecido como repulsivo. Esse processo de aprendizado, tão comum entre os animais, foi profundamente observado em pássaros insetívoros, demonstrando que as formas, as cores e o comportamento de borboletas determinam a freqüência dos ataques das aves caçadoras.
Muitas espécies de borboletas são evitadas como alimento porque em seus organismos circulam substâncias repulsivas e venenosas. Essas substâncias são geralmente alcalóides de origem vegetal, absorvidos pelas lagartas que se alimentam de plantas tóxicas. Mesmo depois da metamorfose, os alcalóides continuam incorporados ao inseto adulto, tornando-o repulsivo para diversos predadores. Principalmente para aves .
Quanto mais abundante for uma espécie de borboleta repulsiva numa determinada área, tanto mais rápido será o "aprendizado" da população de pássaros insetívoros dali. Pequenas variações de colorido ou desvios na distribuição dos desenhos das asas podem condenar a borboleta ao ataque da ave. Assim, ficam geralmente poupados os indivíduos (machos e fêmeas) que menos se afastam do tipo padrão. Estes, ao se acasalar, perpetuarão o velho sinal de reconhecimento-inalterado- nas gerações seguintes. Da mesma forma como acontecem variações desastrosas entre as borboletas do grupo repulsivo, podem ocorrer desvios de padrão entre as de um grupo comestível que viva na mesma área. Uma pequena mutação genética pode produzir sobre as asas das "comestíveis" uma discreta mancha colorida ou desenho que se assemelhe vagamente com o sinal das "repulsivas". Isso já é suficiente para provocar, no mínimo, momentos de hesitação entre as aves durante as investidas sobre essas formas variantes. Como resultado, as variantes passam então a escapar das aves com mais freqüência do que as for mas menos desviadas do antigo colorido. Então, dos sucessivos acasalamentos dessas sobreviventes, resultam descendentes com o novo sinal de "imitação" cada vez mais aperfeiçoado.
Pode parecer incrível, porém, são os próprios predadores que indiretamente aperfeiçoam os padrões de imitação que irão enganá-los no futuro. Se tudo corresse só por conta dos disfarces, as "imitadoras" deixariam de ter problemas depois que as cores de suas asas atingissem um certo grau de perfeição como sinal de advertência. Não sendo mais perseguidas, elas poderiam se multiplicar à vontade, tornando-se mais abundantes do que as verdadeiras "repulsivas". Mas isso nunca acontece.
Um mecanismo de correção começa a funcionar sempre que as "imitadoras" começam a se tornar mais numerosas. Aves ainda sem aprendizado, que usam atacar as borboletas coloridas, acabam comendo mais "saborosas" do que "repulsivas", e assim não criam os mecanismos que as fariam evitar a espécie. Automaticamente, começa a diminuir o número das "imitadoras"-até que elas se tornam tão raras que os pássaros acertam cada vez mais nas "repulsivas". O mecanismo se refaz, as "saborosas" ficam outra vez defendidas e começam a proliferar. E assim o ciclo vai se repetindo indefinidamente, de forma que o equilíbrio, embora alterado momentaneamente, sempre se restabelece.

Esses preferem a camuflagem

A mímica é a arte da imitação, mas, quando se trata de um animal que exibe a aparência de outro, o problema não tem nada a ver com imitação e, muito menos, com arte. O nome usado para esse fenômeno é mimetismo e, embora sendo uma palavra derivada de mímica ela indica um curioso mecanismo genético colocado em funcionamento por um processo de seleção natural. Em outras palavras: nenhum animal chega a se parecer com outro movido por uma intenção, ainda que essa semelhança Ihe confira vantagem na luta pela sobrevivência.
A natureza está cheia de exemplos de animais miméticos. Existem moscas inofensivas que se parecem com vespas, serpentes não peçonhentas com o colorido das perigosas corais, e borboletas com desenhos de assustadores olhos de coruja sobre as asas. Estes exemplos já mostram que tanto o mecanismo genético quanto a seleção natural envolvidos no mimetismo têm como produto final uma espécie de sinal. Eles elaboram geralmente "mensagens" do tipo "Cuidado comigo" ou "Não sirvo para comida". Mas outras podem funcionar, ao contrário, como atrativos. Além disso, no jogo fantasioso de mimetismo, os sinais fluem ora como imagens, ora como sons e, em alguns casos, como odores. Entretanto, há uma outra variação da mímica natural que se caracteriza por não chamar a atenção. Isto significa que o resultado final deste tipo de mimetismo passa a ser a ausência de sinais, e podemos chamá-lo então de camuflagem. A prova mais evidente de que a camuflagem é o tipo mais comum de mimetismo é a freqüente frustração dos "naturalistas" novatos que retornam de suas excursões pelas matas sem ter visto bicho nenhum.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Pele para toda Obra- Biologia

PELE PARA TODA OBRA - Biologia



O mais versátil órgão do corpo humano não tem sequer 2 milímetros de espessura.

Como se fosse uma carapaça blindada, deixa de fora os raios solares e todo provável inimigo. Mantém a temperatura ideal: guarda o calor nos dias frios e o frio nos dias quentes. Reserva água para ser usada sempre que necessário e controla a pressão sangüínea. Produz vitamina e elimina substâncias tóxicas. Capta uma diversidade de informações do ambiente e transmite outras. E dá ainda ao corpo todo o seu contorno e relevo. Por baixo de sua aparente simplicidade, a pele é o mais versátil órgão humano, além de tão vital quanto o coração. Com toda essa importância, seria de esperar que as pessoas tivessem a seu respeito um conhecimento, digamos, menos epidérmico. Mas, na verdade, poucos sabem o que é estar na própria pele.
Embora seja uma engrenagem literalmente finíssima - sua espessura vai de 0,4 a 2 milímetros abriga uma série de estruturas, como nervos, glândulas e músculos, cada qual com funções bastante especializadas. Esticada da cabeça aos pés, a pele humana cobriria uma área de até 2 metros quadrados. Mas, certamente, ela não se estenderia por igual, feito um balão de gás que se enche: ora seria mais fina, ora mais áspera. Isso porque, para cobrir os olhos, por exemplo, a pele forma o fino parabrisa das pálpebras, enquanto para evitar o desgaste dos pés ela cria a proteção das calosidades. Sobre as juntas, como joelhos e cotovelos, fica pregueado para permitir flexibilidade e, nos dedos, para agarrar melhor, como um pneu agarra o chão, possui sulcos. Enfim, a pele não se pauta pela rigidez - ao contrário, se adapta à parte do corpo que reveste.
Um adulto perde diariamente cerca de 15 gramas de células epiteliais, como são chamadas as células da pele; é, em todos os sentidos, uma perda imperceptível: desde que se formam, na primeira semana de vida do feto, essas células se renovam sem parar. Toda essa atividade, que só termina com a morte, é para produzir a queratina, uma proteína impermeável que não permite a saída da água, que compõe 70 por cento do organismo humano.
Por isso, na verdade, por mais que uma pele rosada aparente estar cheia de vida, tudo o que se pode ver dela é uma camada de células mortas. As células vivas e arredondadas da epiderme, como é chamada a camada exterior da pele, nascem cerca de meio milímetro abaixo da superfície. Começam a subir gradativamente, empurradas por novas células param de nascer.
A epiderme, por sua vez, tem quatro camadas; as células saem da mais interior delas, a camada germinativa, rumo à camada de Malpighi, onde assumem uma aparência espinhosa; depois, sobem em direção à camada granulosa da epiderme, onde se inicia a formação da queratina, a partir da transformação de certas proteínas; a queratina, vai matando as células aos poucos, tomando o espaço dos seus núcleos. As células chegam mortas à última camada, a córnea, e, de tanto ser empurradas, ficam achatadas como escamas. Onde a pele é mais grossa, como na sola dos pés e na palma das mãos, podem existir camadas extras. De qualquer forma, todo o ciclo de vida da célula epitelial não dura mais de 21 dias.
Para formar as unhas, o organismo recorre ao mesmo processo. Afinal, as unhas nada mais são do que células epiteliais modificadas, cuja queratina atinge o máximo de rigidez. Há alguns milhares de anos sem uma função especial, as unhas são apenas resquício dos duros tempos primitivos em que o homem precisava lutar com garras e dentes pela sobrevivência. Também na epiderme, mais precisamente na camada germinativa, é que ficam os melanócitos, células especializadas em produzir um pigmento preto, a melanina, que se distribui pela pele, dando - lhe cor. Ao contrário do que se poderia pensar, não é o maior ou menor número dessas células que torna as pessoas negras ou brancas; o que conta é a quantidade de melanina que a célula consegue produzir.
A melanina não se limita a colorir: é o melhor dos filtros solares, impedindo a entrada dos raios ultravioleta. Por isso é que se pode ficar bronzeado numa praia, por exemplo: para proteger-se do sol, a pele aumenta a produção da melanina e escurece. Às vezes, a produção é maior em certos melanócitos do que em outros e assim surgem as sardas, pequenas pintinhas escuras. "Essa hiperatividade pode ser causada por hereditariedade", explica o dermatologista Mário Grinblat, do Hospital Albert Einstein de São Paulo, "mas também se sus peita que tenha a ver com certos hormônios femininos, já que as sarda aparecem com maior freqüência em mulheres."
Os poucos raios ultravioleta que conseguem atravessar a barreira de melanina reagem com determinada proteínas das células epiteliais, produzindo a vitamina D, essencial ao fortalecimento dos ossos. Porém, se essa produção for excessiva, causar problemas, como depósitos de cálcio nas juntas. É em cima da produção de vitamina D que muitos cientista tentam explicar as diferenças de cor na espécie humana. Ao longo da evolução, pessoas que viviam sob o sol forte e constante dos trópicos, com os africanos, teriam a pele mais escura porque a carência de vitamina D seria menor; já os habitantes de climas temperados ou frios teriam a pele clara para deixar entrar os poucos raios luminosos e assim manter a sua quota da vitamina. A única exceção, segundo essa teoria, seriam os esquimós, que têm a pele morena, mesmo vivendo no gelo.
Nesse caso, os cientistas observam que a alimentação dos esquimós. baseada em óleo de fígado e pescados crus, já é tão rica em vitamina D que a pele não precisa fabricá-la - daí a produção da melanina, para evitar excessos.
Mas é na derme, camada abaixo da epiderme, que se localiza o centro de operações da pele. Em meio a um líquido gelatinoso, chamado gel coloidal - que reserva água para outras partes do corpo, em caso de emergência - , estão mergulhados músculos, foliculos, glândulas, nervos e vasos.
As terminacões nervosas, especializadas em cinco sensações diferentes - tato, calor, frio, pressão e dor - fazem da pele o mais completo entre os órgãos dos sentidos. Nas regiões mais sensíveis, como nas pontas dos dedos e lábios, chegam a existir duas mil terminações nervosas por centímetro quadrado; já nos ombros, onde a pele é comparativamente menos sensível, não há mais do que quarenta terminações nervosas por centímetro quadrado. A imensa quantidade de vasos sangüíneos existente na derme, capaz até de trazer muito mais sangue do que a pele em si necessita, mostra que ela está a serviço também do sistema circulatório. De fato, quando a pressão arterial sobe muito, com risco de derrame no cérebro ou no coração, até um quarto do sangue que circula pelo corpo pode escapar para a pele, aliviando assim as artérias dos órgãos em perigo. Dai por que pessoas com pressão alta ficam com o rosto corado. A recíproca, no caso, é verdadeira, pois fica-se pálido quando se está com a pressão baixa, porque os vasos da pele se fecham, mandando mais sangue para o resto do corpo, a fim de aumentar a pressão nas artérias.
A circulação na derme, também aumenta ou diminui conforme a temperatura pois a pele está intimamente ligada à região cerebral chamada hipotálamo, que possui duas espécies de termostato. Um deles registra a elevação excessiva da temperatura corporal ou porque o dia está quente ou porque o corpo está em atividade e manda que o sangue circule com maior intensidade pela pele, a fim de dissipar o calor por radiação.
Ao mesmo tempo, certas glândulas da pele começam a produzir um líquido à base de sais, que se evapora em contato com o exterior da pele, provocando um ligeiro resfriamento do corpo: trata-se do popular suor. Calcula-se que um adulto pode produzir diariamente de meio litro a 2 litros de suor.
Quando a temperatura do corpo cai, o outro termostato do hipotálamo entra em ação e cuida para que o suor e a circulação do sangue diminuam. Mas, em dias frios. a terceira e última camada da pele, a hipoderme, abaixo da derme, também tem um papel fundamental, pois é formada por glóbulos de gordura, que servem de isolante térmico. É claro que a espessura dessa camada, além de definir as curvas do corpo, faz a diferença do gorda para o magro. No passado remoto da espécie, a função principal dos pêlos era aquecer. À medida que o homem foi evoluindo, porém, os pêlos foram se atrofiando. Mesmo assim, o corpo humano só não possui pêlos nas palmas das mãos e solas dos pés, ainda que em certas regiões sejam invisíveis a olho nu, como nos rostos femininos.
Um pêlo nada mais é do que um fio de proteína queratina, como a da pele, envolvido por uma capa de queratina dura; a cor do pêlo é dada pelos melanócitos de seu interior. Com o passar dos anos, essas células deixam de produzir a melanina e o pêlo embranquece. Da mesma forma como nos animais, o pêlo humano tem vida curta: os do corpo caem todo ano; os do couro cabeludo duram de dois a seis anos. Apenas não se nota a muda dos pêlos como nos outros animais, porque ela não acontece de forma organizada: cai um ou outro pêlo diariamente, e não todos de uma vez. Para se ter uma idéia, uma pes-soa normal perde em média todo santo dia trinta dos cerca de 300 mil fios que lhe cobrem a cabeça.
Cada pêlo está ligado a uma ou mais glândulas sebáceas. Estas se aproveitam do canal por onde sai o fio para liberar uma substância gordurosa que, junto com o suor, forma a emulsão protetora natural da pele. Existem cerca de dezessete glândulas sebáceas por centímetro quadrado de pele. Nesse mesmo espaço comprimem-se até duzentas glândulas sudoríparas.
"Pele normal é aquela em que as secreções dessas glândulas se equilibram", explica o doutor Mário Grinblat. "O equilíbrio pode dificultar o aparecimento de certas doenças, como pé-de-atleta".
Milhões de microorganismos, na maioria bactérias, habitam a pele humana. Só nas axilas, por exemplo, existem de 2 a 4 milhões de bactérias por centímetro quadrado: são responsáveis, aliás, pelo odor acre do suar, que na origem não tem cheiro algum. Num encontro de dermatologistas americanos, em fevereiro último, em Nova York, revelou-se algo que talvez explique como a pele mantém sob controle aqueles microorganismos: as células epiteliais produzem certas substância anteriormente consideradas exclusivas dos glóbulos brancos do sangue - que ajudam a desenvolver as células T de defesa do organismo.
Os cientistas descobriram que as células epiteliais ativam hormônios, como os sexuais, produzem substâncias equivalentes aos hormônios da tireóide e ainda fabricam uma proteína típica do fígado, que elimina o colesterol. Não se sabe ainda a função dessas substâncias para as células epiteliais. Mas é certo que, quando se danifica a pele em acidentes, está se perdendo parte daquela produção, o que de alguma maneira deve afetar o restante do organismo. Naturalmente, quando acontece um corte superficial na pele, o cérebro manda que se acelere o ritmo de produção de novas células. Mas em acidentes mais graves, como queimaduras, que destroem um pedaço da pele. não existem tantos recursos. Por desempenhar tantas funções ao mesmo tempo, a perda de uma determinada quantidade de pele pode ser fatal. Calcula se que uma pessoa com menos de 30 anos só sobrevive a queimaduras se tiver menos de 75 por cento da pele atingidos; uma pessoa de 45 anos não pode ter mais de 48 por cento da pele afetados; já em pessoas com mais de 75 anos, queimar 20 por cento da área total da pele do corpo é altíssimo risco de vida.
Essa realidade pode mudar com o uso de uma pele artificial, capaz de substituir temporariamente a pele distruída. Há alguns anos, os cientistas têm pesquisado materiais derivados de petróleo, como o silicone, para a fabricação de pele artificial. Mas o produto mais moderno, candidato a substituto à altura do órgão original, por ser biológico, foi desenvolvido pelo pesquisador brasileiro Luis Fernando Farah, 33 anos, de Curitiba, que há um ano e meio patenteou em dezenove países uma celulose para substituir a pele, chamada Bio Fill. A descoberta foi quase um acaso. No réveillon de 1985, Farah se contorcia de dor por ter derramado uma panela de água fervente sobre o corpo. Na ilha do litoral paranaense onde passava o ano novo. não havia recursos. Ele mesmo acabou cuidando da queimadura, rasgando bolhas e tentando colar os pedaços de pele para não deixar o ferimento em carne viva.
Um ano depois, já recuperado, Farah começou a pesquisar algo como uma celulose capaz de substituir a cera de abelha na produção de mel. "Quando cheguei à celulose, lembrei-me do acidente e achei que o material tinha características ideais para substituir a pele. Tratei então de testá-lo e funcionou." Hoje a pele de celulose é usada em hospitais do país inteiro. Além de acelerar a cicatrização e proteger contra infecções, o produto, ao cobrir as terminações nervosas, elimina qualquer sensação de dor. "Os nervos se deixam enganar, enviando ao cérebro a mensagern de que ali existe pele", explica Farah. E de fato a celulose se comporta como uma pele. A pessoa pode levar uma vida normal, e até tomar banho, que a pele irá descascando como se fosse natural, à medida que ocorrer a cicatrização dos tecidos naturais que estão por baixo.
Segundo os especialistas, quase a metade das pessoas que procuram um dermatologista têm um problema estético. Geralmente, segundo Mário Grinblat, elas acreditam que esse problema foi causado por algo que comeram, 0 que não costuma ser verdade. "Raramente um problema de pele está relacionado à alimentação, como a maioria pensa", diz Grinblat. E dá uma grande notícia: "Chocolate nunca causou espinha". Ele acredita, porém, que a pele é um dos órgãos mais facilmente influenciáveis pela mente: "Quando se acha que algo vai causar manchas ou irritações cutâneas, pode apostar que vai mesmo".
As pesquisas na área de estética se concentram mais no combate ao envelhecimento, a maior causa de rugas de preocupação. Na derme, as fibras de proteínas chamadas colágeno e elastina sustentam todo o tecido cutâneo, organizando-se como uma verdadeira rede. Tais fibras parecem molas: esticam ou se contraem quando a pele é puxada num beliscão. Com o passar dos anos, essa rede perde a elasticidade e o tecido a que dá sustentação - ou seja, a pele - fica flácido. A polêmica surge quando se discute o que fazer para manter elástica a rede de sustentação.
Alguns pesquisadores acreditam que o processo é irreversível e apontam o sol como um dos grandes culpados, por desidratar as fibras de proteína, que precisam sempre de absorver água. Cientistas americanos constataram recentemente que a vitamina A, usada em casos de acne, parece provocar a reidratação das fibras elásticas, mas isso ainda está sendo testado. E os cremes, será que funcionam? Depende. As pesquisas mostram que a pele é um dos órgãos com maior capacidade de regeneração, ou seja, ao menos em teoria uma ruga pode desaparecer. Mas, ao mesmo tempo, a pele é extremamente influenciada pelos estados emocionais e pelo modo de vida. "Está provado que, para se recuperar de uma desidratação ou, no caso, do envelhecimento, as fibras elásticas dependem diretamente de uma vida saudável além de tratamentos cosméticos", diz Roberto Papov, da empresa O Boticário. "Não há creme que evite problemas em quem dorme pouco, bebe e fuma muito."

Coisa de pele

Quando alguém se sente atraído por alguém e diz que o motivo é "coisa de pele" sabe exatamente o que está falando. De fato, sexo e pele têm muito em comum. Para começar, através das terminações nervosas cutâneas, pode-se experimentar a sensação das carícias que levam à excitação. Aliás, pele e carinho se associam desde os primeiros dias de vida, pois é pelos afagos e pelo calor transmitido pela pele dos pais que a criança experimenta segurança e conforto.
A pele tem, ainda, alguns recursos próprios para seduzir o próximo (ou a próxima). Na área dos órgãos sexuais, ela se torna mais escura, como se fosse para chamar a atenção; é por esse mesmo motivo que os mamilos têm uma pigmentação mais acentuada.
Os pêlos também entram nesse jogo de assinalar determinadas partes do corpo e diferenciar pele de homem e de mulher. Quando uma pessoa se sente atraída por outra, a pele envia sinais que muitas vezes passam despercebidos, mas nos quais sedutor e seduzida (ou vice-versa) deveriam prestar mais atenção. As palmas das mãos tendem a ficar úmidas porque ali aumenta a produção de suor; o mesmo ocorre na região genital. Enfim, o rosto de quem está apaixonado tende a ficar mais corado, graças a um aumento da circulação sangüínea na superfície cutânea - talvez seja essa coloração rosada o que se costuma chamar "ar de felicidade".

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Jogo de cores - Cromoterapia

JOGO DE CORES - Cromoterapia



Reflexos de ondas de luz, as cores têm forte influência sobre as pessoas. Animam, relaxam, provocam emoções boas e más. Mas, nesse jogo, a personalidade de cada um e os costumes da época também desempenham um papel. As pesquisas ajudam o homem a tirar proveito de todos os matizes.

Imagine quatro fotografias de um mesmo prato. Toda a diferença está no fundo. Sobre o branco, parece uma insossa refeição de hospital. O verde também corta a fome, porque chama mais a atenção que a própria comida. O violeta esfria o prato. Sobre o vermelho, porém, o filé parece suculento, os legumes mais tenros - sem dúvida, esta é a foto que mais impressiona. Ao vê-la, alguém é bem capaz de correr à geladeira ou dar um pulo à lanchonete mais próxima.
Esse jogo de quatro pratos prova que cor não é só beleza - desperta reações tanto emocionais quanto fisiológicas. Pode provocar apetite ou inapetência, sugerir ódio ou paixão, excitar ou relaxar. Quando se fica exposto a uma luz vermelha por certo tempo ou se permanece num ambiente onde essa cor predomina, o ritmo cardíaco aumenta, a respiração se acelera, o metabolismo é impulsionando. Com isso, as secreções glandulares aumentam - daí a tendência a sentir fome. Não é à toa que as lanchonetes preferem os tons de vermelho, laranja e amarelo na decoração.
Já as chamadas cores frias - como o violeta, o azul e certas tonalidades de verde - têm efeito inverso. Eis por que se tem uma sensação de relaxamento ao se olhar o mar. Essas cores, principalmente o azul, colocam freios no metabolismo, como se a pessoa estivesse prestes a adormecer: a pressão arterial cai, o ritmo cardíaco diminui, a respiração se torna mais lenta. Os cientistas acreditam que essa resposta do metabolismo tenha surgido com o homem primitivo, que se guiava basicamente por dois fatores: dia e noite. A claridade o obrigava a estar fisicamente preparado para buscar alimento ou lutar para se defender; a escuridão era sinônimo de sono e descanso. O homem manteve até o presente essas reações fisiológicas diante das cores vivas e suaves.
De certa maneira, instintivamente, se conhece a ação das cores. Ninguém associa emoções fortes, que fazem disparar o coração, com tonalidades suaves e, muito menos, escuras. A paixão, por exemplo, é eternamente simbolizada por corações vermelhos. Já quando se está desanimado, a tendência é usar roupas de cores frias. Nas pesquisas sobre preferências de cores, invariavelmente a maioria das pessoas que vivem em grandes cidades escolhe o azul - talvez numa busca nostálgica de tranqüilidade.
Se as cores estimulam as pessoas, há quem acredite que podem até curar doenças, cada matiz fornecendo energia para uma parte específica do organismo. Os indianos praticam até hoje a terapia cromática na sua forma tradicional e milenar, expondo a água que será servida ao doente à luz do Sol, sob filtros coloridos. A água ficaria, assim, energizada com uma certa cor, da qual o organismo estaria carente.
Os cientistas sabem que determinadas cores precisam ser evitadas em certas situações. Objetos de cor laranja ou vermelha tendem a deixar os doentes mentais ainda mais confusos. Nos quartos dos hospitais modernos, as paredes estão sendo pintadas de cores suaves em substituição ao clássico branco, isso porque o branco traz tamanha sensação de paz que, em pessoas deprimidas por causa de doenças, pode acabar resultando numa impressão de solidão. Parece claro que, se há cores que devem ser abolidas em alguns casos, também devem existir cores com excelentes efeitos terapêuticos.
Na decoração, em geral, a escolha de cores costuma ser deliberada. Os quartos de dormir são pintados de suaves tonalidades pastel, para acalmar e induzir o sono. Mas, nos motéis, aonde ninguém vai exatamente para dormir, os quartos têm colorações fortes. Nas escolas, chegou-se à conclusão de que o ideal é o amarelo-claro ou mesmo o bege. Parece correto: com muito branco nas classes, as crianças tendem a sentir monotonia e qualquer aula se torna chata; os tons de azul e o verde-claro, por outro lado, fazem até mesmo um aluno nota-10 dormir em aula; tons fortes estimulariam a bagunça, em vez da atenção.
A idéia de usar cores para obter determinadas reações psíquicas é antiga. Os monges tibetanos há milhares de anos enfatizam uma cor - como o verde, para obter harmonia - conforme a meditação que pretendem fazer. Tem lógica: na escala cromática, que vai do vermelho ao violeta, a cor verde fica bem no meio. Nessa posição estratégica, parece quente ou frio, dependendo da tonalidade. Os tons que puxam mais para o azul, como o musgo, são repousantes. Já o verde-limão, próximo do amarelo, é considerado uma cor estimulante. O verde médio é o perfeito equilíbrio.
Mas, em geral, qualquer verde dá sensação de bem-estar, e por esse motivo é a cor que significa "siga" no semáforo: diante da luz verde, o motorista é induzido a crer que tudo está tranqüilo e ele pode avançar. O gritante vermelho, porém, provoca sempre um choque - pois é a cor associada à agressividade, às mudanças repentinas, às revoluções onde corre sangue. Não há quem ouse ignorá-lo, a não ser algumas pessoas ao volante, com os resultados que todos conhecem. Em matéria de cor, porém, não se pode pintar tudo em um único tom. Os mais recentes estudos mostram que tudo depende do estado emocional e da personalidade de cada um - e principalmente dos valores a que se adere.
O marrom, por exemplo, é sempre relacionado com segurança e recato - por isso os que preferem trajes marrons são chamados sóbrios. Contudo, conforme o estado emocional, o apego ao marrom pode significar dependência ou seu oposto - sensação de poder, excesso de confiança. Qualquer pessoa tende a combinar a cor de sua emoção com a cor que está vestindo ou preferindo em dado momento. Todos sentem isso no dia-a-dia.
Ignoram-se as chamadas cores alegres quando se está triste, buscando no guarda-roupa trajes escuros. Afinal, a escuridão é associada às tristezas, às perdas, ao medo e à morte. A Psicologia, porém recomenda que cada um brinque com as cores, criando contrastes. Assim, quem está alegre, ao escolher tons mais claros, intermediários como o cinzento ou mesmo os tons tristes, não corre o risco de exacerbar ou sentir-se, por exemplo, agitado.
Por sua vez, vestir tons fortes e contrastantes dá mais colorido à vida, quando a situação parece preta. Em relação à idade, é interessante perceber que os jovens - cujo metabolismo funciona a toda - gostam dos tons fortes, justamente os que os estimulam ainda mais. Os mais velhos, porém, combinam o passar dos anos com uma crescente sobriedade. Ou seja, preferem as cores que diminuem ainda mais o seu ritmo metabólico. Em países como os Estados Unidos, onde os idosos procuram levar vida normal, viajando e se divertindo em locais públicos, em vez de se trancar dentro de casa, eles tendem a usar roupas ainda mais coloridas.
A cultura de uma sociedade também influi na escolha das cores. Povos tropicais costumam apreciar cores vivas. E só lembrar a arte plumária dos índios brasileiros.
Já as sociedades do hemisfério norte gostam de tons mais sóbrios, como os das milenares porcelanas chinesas.
E, numa mesma sociedade, os mais pobres gostam de cores contrastantes, mais do que os ricos. Estes, muitas vezes, apontam tons quase raros, como cor de vinho e lilás, nas suas preferências. Isso, segundo a Psicologia, significaria uma tentativa inconsciente de mostrar sofisticação. Afinal, as chamadas cores nobres não são tão fáceis de ser encontradas na multicolorida natureza.
Às vezes, também, uma mesma situação é colorida de modo diferente em lugares diferentes. O luto nos países ocidentais é preto porque essa é a cor da morte - a sensação de preto é causada justamente pela ausência de luz, que por sua vez é relacionada à vida. Mas os budistas, por exemplo, usam branco nos enterros, como símbolo da paz alcançada pelo morto. A preferência por esta ou aquela cor também está relacionada à época. O vermelho, antigamente, era símbolo de riqueza, porque a tintura dessa cor para tecidos era caríssima. Eis, então, o motivo de ter sido a cor dos mantos de reis, tapetes de palácios e de catedrais. Hoje o símbolo da riqueza é o próprio dourado do ouro. Contudo, não importa quem, quando ou onde - toda cor tem seu momento. Não é por menos que se pergunta o que seria do azul,. se não fosse o amarelo.

Pintura a olho.

Ninguém passa a vida em branco e preto pela simples razão de que o olho humano não pára de medir as ondas luminosas do Sol. Cada uma produz uma sensação de cor: vermelho, laranja, amarelo, verde, azul-anil, índigo, violeta. Quando a luz alcança um objeto, este reflete algumas ondas que acabam determinando a sua cor. O branco é a sensação produzida por coisas que refletem toda a luz; um objeto preto, ao contrário, absorve todas as ondas, sem refletir nada.
Na retina há cerca de 7 milhões de cones, receptores especializados em cores, que só trabalham às claras. No escuro, funcionam os 10 milhões de bastonetes, receptores que, em matéria de cor, só percebem o preto e os tons de cinza. É por isso que, em ambientes sem iluminação, tudo parece acinzentado. O fisiologista inglês Thomas Young (1773-1829) provou que o olho é como um pintor que mistura tintas, forma novas cores e cria uma imagem multicolorida para o cérebro.
Ele mostrou que bastam três tipos de receptores: aqueles sensíveis às ondas longas do vermelho, os que são estimulados pelo verde e os que percebem as ondas curtas do violeta. Toda onda luminosa estimula os três receptores, mas somente um com prioridade. Assim na soma dos estímulos, os receptores formam comprimentos de ondas ou sensações de cor diversas. Não se chegou ainda à conclusão sobre quais seriam as reais cores primárias para o olho: muitos cientistas substituem o violeta pelo azul, por exemplo. Também não se sabe o número exato de tipos de cones. Com certeza, o olho só precisa se especializar em algumas cores para sentir todo o colorido do mundo.