PUBLICADOS BRASIL - DOCUMENTARIOS E FILMES... Todo conteúdo divulgado aqui é baseado em compilações de assuntos discutidos em listas de e-mail, fóruns profissionais, relatórios, periódicos e notícias. Caso tenha algo a acrescentar ou a retirar entre em contato. QSL?
Mostrando postagens com marcador ambiente. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador ambiente. Mostrar todas as postagens
sexta-feira, 14 de outubro de 2016
O Fim do Mundo em FOTOS
O Fim do Mundo em FOTOS
O ser humano é o maior inimigo do ambiente e dos seres vivos do planeta. A poluição, sujidade e a exploração excessiva dos recursos naturais estão fazendo com que o nosso mundo seja destruído aos poucos.
Marcadores:
ambiente,
Animais,
crianças,
destruição,
Ecologia,
exploração,
fábrica,
humanidade,
industria,
inimigo,
morte,
Mundo,
paises,
Poluição,
recursos naturais,
Terra,
veneno.
sexta-feira, 13 de novembro de 2015
'Cofre' de sementes no Ártico pode ser esperança de lavouras do futuro
'Cofre' de sementes no Ártico pode ser esperança de lavouras do futuro
Silo Internacional é espécie de "cofre" criado para suportar condições ambientais extremas (Foto: BBC)
BBC tem acesso exclusivo a construção que abriga mais de 5 mil sementes de todo o mundo dentro de montanha e sob o gelo.
Em pouco menos de um mês, líderes mundiais se encontrarão em Paris para tentar entrar em acordo sobre ações contra as mudanças climáticas e o aumento da temperatura global. Uma das principais preocupações é que o aquecimento global afete safras de alimentos.
Marcadores:
alimentação,
ambiente,
bbc,
clima,
crise,
gelo,
global,
montanha,
Mundo,
nutrição,
paris,
Planeta,
plantações,
Preservação,
proteção,
semente,
SHTF,
Silo,
temperatura
sexta-feira, 21 de novembro de 2014
Cidade inglesa vai plantar 'árvore solar'
Cidade inglesa vai plantar 'árvore solar'
Feita de metal, escultura possui 36 painéis solares espalhados em sua copa como se fossem folhas.
Uma "árvore solar" de quatro metros de altura será instalada no centro da cidade de Bristol, no sudoeste da Inglaterra.
Marcadores:
ambiente,
arvore,
Ecologia,
energia solar,
escultura,
Inglaterra.,
wifi
sexta-feira, 17 de outubro de 2014
Lençóis de Areia - Ambiente
LENÇÓIS DE AREIA - Ambiente
Vista de avião, a paisagem lembra um imenso quintal coberto de panos brancos postos para secar ao sol, ondulados pelo vento. De perto, a gente descobre que tanta beleza é formada por enormes montanhas de areia, capazes de mudar de lugar e de forma conforme o movimento do ar. Os Lençóis Maranhenses, como é conhecida a região, são um espetáculo da natureza que se espalha por 1 500 quilômetros quadrados (o mesmo tamanho do município de São Paulo), cientificamente reconhecido como deserto. Mas um deserto estranho. Tem duas estações climáticas bem definidas. Em uma delas até chove, e muito. De janeiro a junho, a média de chuvas é de 1 500 milímetros, 300 vezes mais do que a média do Saara, na África. Com tanta água, as dunas maranhenses ficam entremeadas por milhares de lagoas. "Mas, de julho a dezembro, é uma secura só", disse à SUPER o geólogo marinho Edgard Freitas Parouco, da Universidade Federal do Maranhão. Mesmo assim, existem dois oásis de vegetação bem no meio desses montes de areia rica em quartzo. Em volta deles cresce mata de cerrado, com árvores baixas. Para proteger esse pedaço do Brasil - o único com essas características em todo o mundo -, em 1981 foi tombado o Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses, sob proteção do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis. A medida não mudou muito o cotidiano do lugar, que continua praticamente isolado. Há uma única e péssima estrada, de 380 quilômetros, que liga São Luís, capital do Estado, a Barreirinha, cidade mais próxima ao parque. A opção é descer de barco pelo Rio Preguiça. Mas é preciso esperar baixar a maré que todos os dias invade o rio. Por isso, poucos aventureiros encaram o desafio de chegar ao areal. Isso garante a tranqüilidade das mil famílias que habitam a região, das tartarugas e das centenas de pássaros migrantes que se alimentam na borda costeira do deserto, vindos do Alasca.
Lençóis de vento
Dunas e lagos azuis que não param no lugar
Se você foi aos Lençóis em maio e voltar lá agora, em outubro, pode levar um susto: cadê as lagoas que estavam aqui no primeiro semestre? É que o deserto maranhense vive se mexendo, um fenômeno de autoria da dupla água e vento.
Com as chuvas que caem na primeira metade do ano, afloram os lençóis freáticos (de água subterrânea). A água então vai se acumulando nos vales entre uma duna e outra, formando lagos de água doce, alguns com mais de cem metros de extensão. Em agosto, porém, pára de chover. Aí, o sol quente, com temperatura média de 32 graus, seca os lagos. Em dezembro, é só areia, apenas os rios resistem. Em janeiro, o ciclo de chuvas se repete e as lagoas voltam a se formar. Mas todo ano elas mudam de lugar e contorno, acompanhando a movimentação das dunas.
Os montes de areia andam graças aos alísios, ventos que sopram na parte mais baixa da atmosfera, sempre na direção litoral-interior. "Alguns cálculos indicam que as dunas avançam entre 15 e 20 metros por ano", conta o geógrafo Antônio Cordeiro Feitosa, da Universidade Federal do Maranhão. O movimento nunca pára e, numa dessas, a areia já soterrou vilas e até um aeroporto, em 1979, na cidade de Tutóia. O deserto vai crescendo. Há relatos indicando que, no início da década de 70, os Lençóis se estendiam apenas 20 quilômetros continente adentro. Hoje, alcançam 50 quilômetros.
Os rios que alimentam o mar e a terra
Em nenhum canto do planeta o mar é capaz de produzir areia. Ele a consome, isso sim. Nos Lençóis, quem produz os grãos são os rios. Eles escavam o leito por onde vão passando e carregam minúsculos fragmentos de rocha rumo ao litoral. Um dos principais é o Parnaíba, que desemboca na divisa entre Piauí e Maranhão e arrasta sedimentos até o mar. As correntes marítimas no Brasil se movimentam de sul para norte e vão espalhando os grãos pela costa.
As marés - duas altas e duas baixas no mesmo dia - lançam sobre a praia uma areia composta por grãos muito finos. Com o sol, ela seca e os ventos fortes, especialmente em outubro e novembro, levam-na de volta ao continente. O ar razoavelmente seco facilita o transporte. Assim que encontram um obstáculo, que pode ser um pequeno arbusto, uma pedra ou mesmo outra duna, os grãos se depositam na superfície.
O principal tipo de duna que se forma nos Lençóis é chamado de barcana. Ela se parece com uma meia-lua (veja o infográfico acima) e a parte convexa, a "barriga", fica voltada para a direção do vento. A areia se acumula no topo da duna e depois, por desmoronamento, escorrega para trás. "Esse processo, que já espalhou areia por 270 quilômetros de extensão ao longo da costa e 50 quilômetros para o interior, começou cerca de 11 000 anos atrás", diz o geólogo Edgard Freitas Parouco. "E não vai parar tão cedo. Os rios devem continuar carregando sedimentos por pelo menos mais alguns milhares de anos".
Lençóis de água
Ciclos naturais mudam a rotina da paisagem
Além das famílias que teimam em morar no deserto, mudando cada vez que as casas são invadidas pela areia, os Lençóis servem de moradia para várias espécies de animais. No cerrado que contorna as dunas encontram-se guaxinins e macacos do tipo guariba e prego. A porção costeira serve de abrigo para pássaros que migram do Pólo Norte e para a desova de tartarugas marinhas. Até uma nova espécie de tartaruga de água doce foi encontrada na região (veja abaixo).
Mas o ciclo natural mais curioso dos Lençóis acontece nas lagoas. Quando a chuva chega, em janeiro, elas se enchem de peixes como se fosse mágica. Mas não é. Durante a seca, os animais domésticos da região deixam fezes na areia. Quando vêm as águas, o dejeto vira comida para as larvas de insetos, o alimento preferido dos peixes. Algumas lagoas crescem tanto que se ligam a braços de rios ou lagoas já formadas, proporcionando o vai-e-vem aquático e a multiplicação dos peixes. Assim, as novas lagoas fazem a alegria dos pescadores. "Pode ser que também existam lá peixes que põem ovos resistentes à falta de água", diz o biólogo Antônio A. Rodrigues, da Universidade Federal do Maranhão. "Esses ovos provavelmente ficam enterrados na lama que sobra onde havia a lagoa e, com a chuva, se abrem."
Dois oásis resistem no meio do deserto
Existem dois focos de vegetação em Lençóis. O maior se chama Queimada, com 6 quilômetros de extensão por 3 de largura, formado de arbustos e árvores de frutos tropicais, como caju, que servem de alimento para a população local. "Realizamos um estudo e encontramos ali espécies características da Mata Amazônica", diz o biólogo Nivaldo de Figueiredo, da Universidade Federal do Maranhão. Para ele, as plantas podem ser resquício da mata pré-Amazônica que deve ter coberto parte do Maranhão até três milhões de anos atrás.
O outro oásis é Baixa Grande, com características parecidas e metade do tamanho de Queimada. Com certeza já foi maior. "Sempre encontramos troncos enterrados no deserto", conta Nivaldo. Só não se sabe por que os dois focos de flora ainda não foram cobertos pela areia. Os biólogos acreditam que, por serem mais úmidos, eles brecam o avanço das dunas.
Fora dali, a flora ainda teima nos Lençóis. Nas margens dos rios a vegetação é de mangue, baixa e pobre porque o solo é salino. Mas, como nada é comum nesse lugar, as árvores chegam a 15 metros de altura. "Não se conhecem árvores de mangue tão altas em todo o Brasil", diz Nivaldo. Rodeando o deserto encontra-se o típico cerrado, com plantas retorcidas e de casca grossa. Bem menos exuberantes que os manguezais ou os oásis, são essas árvores baixas que, barrando a passagem da areia, conseguem conter sua fúria e evitar que elas cubram as cidades que se instalaram ao redor do parque. Por enquanto.
PARA SABER MAIS
Maratur - Empresa Maranhense de Turismo, tel.: 098 221 1276 e 232 5667
Jogo de empurra no litoral maranhense
1 - Rio abaixo
O rio escava o leito por onde passa e carrega sedimentos que são depositados na costa.
2 - Terra firme
Na maré baixa, o vento leva a areia de volta para o continente, formando dunas.
3 - Férias no mar
Os grãos são carregados pelas correntes marinhas, que os empurram no sentido sul-norte.
A tartaruga inédita
Vinte anos atrás, o pesquisador Antenor Leitão de Carvalho, do Museu Nacional do Rio de Janeiro, entrou no laboratório do biólogo Paulo Vanzolini, do Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo (USP), com uma tartaruga debaixo do braço. Carvalho queria estudá-la mas, por falta de tempo, o animal acabou se aboletando em seu jardim e gerando filhotes. Há quatro anos, Vanzolini decidiu recolher algumas dessas tartarugas para analisá-las. "Com a ajuda de uma aluna maranhense, em 1993 descobri que se tratava de um animal das lagoas dos Lençóis conhecido como pininga", diz Vanzolini. Terminada a pesquisa, o biólogo da USP não teve dúvidas de que era uma nova espécie de tartaruga. Um dos traços característicos são faixas e círculos em amarelo e laranja na carapaça.
O milagre dos peixes que se repete todo ano
1 - Andando por aí
No período de estiagem, os animais que pastam por ali depositam fezes na areia, que também pode ter ovos de peixes enterrados.
2 - Chove chuva
No primeiro semestre, alguns lagos se enchem tanto de água que se ligam temporariamente a rios e outras lagoas maiores.
3 - A caça e o caçador
Os insetos depositam na lagoa suas larvas que se alimentam das fezes. As larvas, por sua vez, viram comida de peixe.
4 - Banquete aquático
Alguns peixes migram dos rios para os lagos atrás de alimento e se reproduzem enquanto outros ovos de peixe enterrados na areia se abrem.
quarta-feira, 30 de outubro de 2013
Pontos quentes da cidade - Ambiente
PONTOS QUENTES DA CIDADE - Ambiente
Enquanto a brisa sopra na periferia, o centro de São Paulo ferve. Um novo mapeamento acusa diferenças de até 10 graus de temperatura, conforme a área da capital paulista. Este é o fenômeno das ilhas de calor, típico da urbanização desenfreada.
Marcadores:
ambiente,
brasil,
calor,
capital,
cidade,
ilhas de calor,
Poluição,
São Paulo,
temperatura,
urbanização,
urbano
quarta-feira, 2 de outubro de 2013
O esconderijo dos Alerces - Ambiente
O ESCONDERIJO DOS ALERCES - Ambiente
Uma expedição atravessa lagos gelados e escarpas dos Andes chilenos para visitar uma floresta dos mais antigos habitantes do planeta: os alerces. Algumas dessas árvores da classe das coníferas estão de pé desde a época de ouro dos faraós, há 4.000 anos
sexta-feira, 3 de maio de 2013
Reserva sem Lei - Ambiente
RESERVA SEM LEI - Ambiente
Parada obrigatória de aves migratórias e dona de uma variedade de 35 espécies de peixes, além de uma vegetação exuberante, a Reserva Biológica Marinha do Arvoredo, em Santa Catarina, vive ameaçada. Pesquisadores e ecologistas batalham por sua efetiva implantação.
Marcadores:
ambiente,
Animais,
aves,
Biologia,
brasil,
ecosistema,
Florianopolis,
marinha,
peixes,
proteção,
reserva sem lei,
Santa Catarina,
territorio
segunda-feira, 21 de janeiro de 2013
Fazendo amigos para o Ozônio - Ambiente
FAZENDO AMIGOS PARA O OZÔNIO - Ambiente
Numa corrida contra o relógio, a indústria trata de criar alternativas aos CFCs, responsáveis pelo rombo na camada do gás que protege a Terra dos raios ultravioleta do Sol.
sexta-feira, 30 de novembro de 2012
Ecologia à moda da casa - Ambiente
ECOLOGIA À MODA DA CASA - Ambiente
As tentativas de estabelecer uma convivência harmoniosa entre a natureza e desenvolvimento .
Nos últimos seis meses, a rotina da veterinária Rose Lilian Gasparini não tem mudado muito. Cedo às 7 horas, ela já está a cavalo, pronta para uma visita de inspeção a quase uma dezena de piquetes, como são chamados os pastos de 9 hectares onde estão confinados exatos 30 cervos do Pantanal, resgatados das várzeas do Rio Tietê, inundadas pela Hidrelétrica de Três Irmãos, em São Paulo quase na divisa com Mato Grosso do Sul. Durante cerca de duas horas, ela percorre a área à procura desses animais e observa seus hábitos. Quando o sol já está alto e o calor excessivo espanta os cervos para seus esconderijos no mato, a veterinária, uma moça decidida de 23 anos, está de volta. Durante o resto do dia, o seu trabalho é mais burocrático. Ela transforma as informações que obteve em anotações que servirão para o Conhecimento dessa espécie de animais hoje em extinção, mas que outrora habitava da Região Centro-Oeste até o Sul do Brasil. Seus relatórios são valiosos: quase nada se sabe sobre esses bichos ariscos que facilmente podem morrer de susto quando capturados e pouco resistem à vida em cativeiro."É um trabalho lento, mas que vale a pena", explica a veteriná-ria. O objetivo de Rose é garantir a sobrevivência dos cervos em semicativeiro para que a espécie, no futuro, mais adaptada à presença do homem, tenha condições de voltar a viver em áreas preservadas do Estado de São Paulo. Há dois anos, recém-formada, ela nem sabia das experiências de manejo de animais silvestres em extinção, aliás, pouco conhecidas em todo o território brasileiro, onde as construtoras de hidrelétricas costumavam simplesmente abandonar os animais à própria sorte, ou executar uma operação de salvamento de última hora nas áreas prestes a serem inundadas. Na época, apesar de ser uma paulistana pouco entusiasmada com as promessas da vida campestre, Rose tinha um objetivo incomum entre os colegas: dedicar-se a uma atividade ligada à conservação do meio ambiente. "Nunca pensei na natureza como algo intocável", afirma. "Mas acredito que os seus recursos podem ser mais bem aproveitados."Hoje, trabalhando na reserva de Promissão, no interior paulista, que a Cesp (Centrais Elétricas de São Paulo) mantém como um dos lugares de preservação dos cervos do Pantanal, Rose já não é uma raridade em sua geração A tendência dos novos profissionais saídos da universidade é, cada qual em sua especialidade, procurar maneiras de estabelecer uma convivência harmoniosa entre natureza e desenvolvimento-por mais que essa idéia soe como utopia no Brasil de hoje. Em sua maioria, não são ecólogos-aliás, uma palavra tão nova que nem existe no dicionário.
A atividade também não está regulamentada, mesmo porque só existe uma Faculdade de Ecologia em todo o Brasil. Trata-se de uma das unidades da Unesp (Universidade Estadual Paulista) que fica em Rio Claro, e cuja primeira turma formou-se em 1979. Esses profissionais-cerca de 300, como calcula o professor José Galizia Tundizi, da Universidade de São Paulo, presidente da Sociedade de Ecologia do Brasil-são biólogos, biólogos, agrônomos, que trabalham em universidades, órgãos do governo, empresas de consulta ia ou entidades ecológicas. Em geral, motivados pelo trabalho que realizam, acabam aperfeiçoando os estudos em algum dos seis cursos de pós-graduação em Ecologia do pais. Quando se fala em Ecologia, a primeira imagem que vem à cabeça é a de uma ruidosa manifestação de militantes do verde contra a instalação de alguma fábrica malcheirosa, pela preservação da Mata Atlântica ou o fim da caça às baleias. E, nesse caso, a primeira impressão faz sentido. Apesar de o Brasil estar vinte anos atrasado em relação ao despertar ecológico que sacudiu os Estados Unidos, a Europa e o Japão, também por aqui as entidades preservacionistas têm chamado a atenção com campanhas pela melhoria da qualidade de vida. Talvez por isso os técnicos que estudam, identificam e apontam soluções às vezes ousadas para os problemas causados pelo homem à natureza acabem associados ao ativismo ecológico. Na realidade, acontece o contrário. A militância está deixando a fase em que valia mais o entusiasmo, para alcançar causas imediatas e se empenha na realização de projetos de manejo sustentado da natureza. Hoje, uma entidade como a Fundação SOS Mata Atlântica, por exemplo, reúne profissionais de diversas entidades governamentais e privadas visando avaliar as possibilidades de usar imagens de satélite de sensoriamento remoto para um banco de dados da floresta. A ciência ecológica, por sua vez, é muito mais antiga do que a militância com que freqüentemente passou a ser contundida. Remonta ao século XIX, época em que o cientista inglês Charles Darwin (1809-1882) revolucionou a Biologia com a sua teoria sobre o mecanismo da evolução das espécies. Como uma chave para tentar explicar por que algumas espécies ganham melhores aptidões para desbancar suas competidoras, o zoólogo alemão Ernst Haeckel (1839-1919), admirador de Darwin, usou a palavra "ecologia" pela primeira vez numa conferência proferida na Universidade de Jena, Alemanha, onde lecionava.
Junção das palavras gregas oikos (casa) e logos (conhecimento, estudo), Ecologia significa o estudo do lugar onde se vive e das relações entre os organismos e o seu ambiente. Dizem os historiadores dessa ciência que Haeckel inventou a palavra, mas não a aplicou no seu próprio trabalho sobre a morfologia-estudo das formas-de seres microscópicos. Nesse caso, a Ecologia deve muito mais a outros cientistas da época, como o naturalista alemão Alexander von Humboldt (1769-1859), que mostrou a influência do clima sobre a vegetação, e o botânico dinamarquês Eugenius Warming (1841-1924), considerado o primeiro ecólogo, por ter pesquisado como as plantas se ajustam ao calor, à luz, à alimentação e à água disponíveis.Diferentemente das ciências exatas, a Ecologia, muito mais abrangente, tomou de empréstimo os conhecimentos da Geologia, Biologia, Física e Química, para analisar um rol de fatores, como a transferência de energia e matéria - alimentos, água e oxigênio-, que afetam populações e comunidades numa determinada área. Quando fala de comunidades, a Ecologia não tem limites. "A mais nua das rochas da Antártida fervilha de microorganismos", lembra o ecólogo Sérgio Rosso, da Universidade de São Paulo. Rosso estuda, há anos, a vida das algas, dos mexilhões, dos ouriços-do-mar, das anêmonas, da vegetação, das bactérias, enfim, da rica comunidade de seres vivos que ocupa os costões rochosos brasileiros. Em sua sala, no Departamento de Ecologia, estão guardadas centenas de frascos contendo pequeninos organismos marinhos à espera de serem identificados. Minucioso, Rosso enumera em gráficos, que depois são transformados em modelos no computador, a freqüência com que essas comunidades aparecem nos rochedos do litoral. "Se eu acompanhar o ciclo de vida dessas populações durante o ano, posso identificar quando um fator anormal estiver ocorrendo", explica. Por fator anormal leia-se qualquer espécie de poluição invadindo as praias.Durante anos, os americanos fizeram esse tipo de estudo na poluidíssima Baía de Chesapeake, no nordeste dos Estados Unidos. Hoje, graças aos parâmetros ali obtidos, eles têm condições de controlar qualquer ameaça a outras áreas de risco do litoral. Rosso acredita que isso também poderia acontecer nos costões brasileiros. Ele pretende este ano concluir a análise das espécies existentes na Praia de Barequeçaba, no litoral paulista, para apresentar as sugestões de cuidados que devem ser tomados na construção de um emissário de esgotos. Da mesma forma, no Rio de Janeiro, a instalação de um pólo petroquímico em Itaguaí, próximo da Baía de Sepetiba, só terá início com a aprovação do Rima-Relatório de Impacto Ambiental-que avaliará os efeitos da indústria sobre o litoral. Quarenta anos atrás, quando começou a ser implantado o pólo petroquímico de Cubatão, no litoral paulista, ninguém se preocupou com eles. E o resultado todos conhecemos e lamentamos: Cubatão ganhou o título de campeã mundial da poluição.Essa diferença de tratamento entre o passado-quando a preocupação com o meio ambiente era rotulada de romantismo-e o presente mostra como mudaram os valores das questões de poluição. Foi-se o tempo, por exemplo. de obras como a Hidrelétrica de Balbina, ao norte de Manaus, sempre lembrada quando se fala em falta de planejamento ambiental. Balbina, inaugurada há dois anos, inundou uma área equivalente à do lago de Tucuruí, sepultando madeira nobre e um número incalculável de animais, para fornecer trinta vezes menos energia que a usina paraense. Se fosse planejada hoje, depois de promulgada a nova Constituição, sua licença dependeria de uma análise prévia do impacto ambiental que viesse a provocar.
Mais recentemente, a construção da barragem de Rosana, no Rio Paranapanema, entre São Paulo e Paraná, foi precedida por um estudo da qualidade da água e identificação de grupos de peixes, plancton e algas. Além disso, toda a área a ser inundada sofreu um processo de desmatamento. "Assim, quando o lago começou a cobrir a região, há quatro anos, não havia excesso de nutrientes provocado pela vegetação apodrecida", explica o biólogo Pedro Umberto Romanini, da Centrais Elétricas de São Paulo, responsável pelo trabalho. Durante esse tempo, Romanini fez coletas bimestrais de água e participou de pescarias periódicas na região, até poder afirmar, de maneira categórica: "Devido aos nossos cuidados, ocorreram poucas alterações no ecossistema".Quando a Rio-Santos, ligando o litoral paulista ao Rio de Janeiro, foi construída vinte anos atrás, pouca gente no Brasil dava atenção às questões da natureza. A estrada avançou pelas praias, lavouras, escarpas e matas da Serra do Mar, causando consideráveis perdas ao patrimônio turístico que pretendia valorizar. Atualmente, sem ter nas mãos um Rima, ninguém pode construir uma obra de porte com impacto ambiental. Foi assim no projeto da Rodovia do Sol, que ligaria a região metropolitana de São Paulo ao litoral norte do Estado. "Passamos semanas no meio do mato para identificar as espécies de vegetação que estariam no caminho da estrada", recorda-se o ecólogo Waldir Mantovani. Um dos raros especialistas brasileiros em fitossociologia, ou estudo das comunidades de plantas, Mantovani foi contratado como consultor da Themag Engenharia, encarregada das obras, para fazer um estudo que oferecesse subsídios ao Relatório de Impacto Ambiental.Foi um trabalho minucioso, no qual contaram-se as plantas e a variedade de espécies em encostas, fundos do vale e no alto dos morros do Parque Estadual da Serra do Mar, uma das poucas reservas da Mata Atlântica que ainda restam na costa brasileira e por onde passaria a rodovia. "O desmatamento em declives tão acentuados traria o grande perigo dos desabamentos". concluiu Mantovani. "A vegetação restante também não resistiria às alterações do terreno."
Essas considerações foram debatidas em audiências is públicas que contestaram a validade da estrada. O Estado, agora, terá de procurar uma opção que provoque menos prejuízos ecológicos, mesmo que isso signifique gastar mais, pois os órgãos ambientais só permitem que as obras sejam reali-zadas com a aprovação dos Rimas. Por isso mesmo, resume Mantovani, "esses relatórios são um recurso importante -desde que bem feitos". Mantovani se refere assim à falta de preparo de uma parte dos técnicos que produzem os relatórios. De fato, nesses tempos de aprendizado sobre como conciliar desenvolvimento com natureza, por falta de informação ou simplesmente má fé, vários diagnósticos de impacto ambiental são superficiais ou acabam omitindo problemas ecológicos e sociais.Por causa disso, pessoas como o economista Emilio Lebre La Rovere, ex -chefe da área de Energia da Finep (Financiadora de Estudos e Projetos), sentiram a necessidade de implantar o primeiro curso de pós-graduação em Impactos Ambientais a funcionar no país, na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Seu objetivo, como coordenador do curso, é formar equipes multidisciplinares de engenheiros, economistas e outros profissionais mais acostumados a fazer contas para diminuir os custos das obras do que a pensar no preço da qualidade de vida.
Mais amplo do que a pós-graduação em Ecologia, o curso de Impactos Ambientais analisa os problemas relacionados à natureza sob o aspecto da legislação, da segurança de construções, da arquitetura e do impacto social. Segundo La Rovere, "na maioria dos órgãos do governo e da iniciativa privada, os departamentos de meio ambiente não participam do processo de decisão. É preciso mudar essa mentalidade". O exemplo da UFRJ foi seguido em São Paulo, e hoje a USP está iniciando também a sua pós-graduação em Ciências Ambientais reunindo especialistas em Engenharia, Saúde Pública, Física e, naturalmente, Ecologia. Segundo a coordenadora do curso, Sylvia Campliglia, diretora do Instituto de Biociências, "existe, no pais, uma estrutura de defesa contra problemas de meio ambiente que funciona, mas de maneira isolada. Por enquanto, estamos aprendendo a apagar incêndios. Se formarmos mão-de-obra, vamos estabelecer uma estratégia global para acabar com o fogo".
Marcadores:
ambiente,
desenvolvimento,
Ecologia,
Meio Ambiente,
moda,
Natureza,
profissionais,
residuos
segunda-feira, 26 de novembro de 2012
A Evolução em Delírio - Paleontologia
A EVOLUÇÃO EM DELÍRIO - Paleontologia
Animais que não pertencem a nenhuma das grandes linhagens conhecidas revelam um período da história do planeta em que as formas vivas eram muito mais variadas e exóticas.
Burgess Shale, atualmente, é uma íngreme escarpa na face oeste das Montanhas Rochosas, no Canadá, situada a 2 500 metros de altitude. Mas as placas calcáreas que a recobrem não estiveram sempre nesses píncaros. Há 500 milhões de anos durante o obscuro período geológico do Cambriano, não passavam de lama num leito raso de mar e sobre elas perambulavam criaturas como jamais se veriam novamente na Terra. Elas revelam uma caótica disparidade de formas que, depois de enterradas e esmagadas por formidáveis movimentos geológicos, ao longo dos milênios, ficaram preservadas nas rochas canadenses. A maior parte desses animais não ia além dos 5 centímetros de comprimento e, superficialmente, se parecia com os vermes, moluscos e crustáceos comuns.
Mas eram tão diferentes dos animais modernos, que é tentador imaginá-los como extraterrestres - habitantes de um mundo distante no tempo. Foi essa a imagem que acorreu ao paleontólogo Stephen Jay Gould, da Universidade Harvard, nos Estados Unidos, ao descrevê-los. "Burgess Shale é como o cenário de um filme de ficção científica", compara. "Embora pouco maior que um quarteirão, exibe de quinze a vinte bizarros seres que não pertencem a nenhum grupo de animais conhecidos." Um dos mais inventivos pesquisadores da origem das espécies, Gould dedica inteiramente a essa fauna o último dos seus inúmeros livros de sucesso, Wonderful life (Vida maravilhosa, ainda não editado no Brasil). Excelente escritor, ele expõe com detalhes a perplexidade dos cientistas ao descobrirem a verdadeira identidade das "estranhas maravilhas" do Cambriano.
São seres como a Opabinia, cuja visão, inicialmente, provocou gargalhadas entre os paleontólogos. Medindo de 4 a 7 centímetros de comprimento, dotada de cinco olhos e uma inclassificável tromba frontal, ela sugere uma disparatada colagem de vários animais. À primeira vista, poderia ser um elo desconhecido entre duas grandes linhagens modernas: os anelídeos, que incluem as minhocas, e os artrópodes, representados pelas lagostas. Chegou a pensar que sua tromba era um esboço primitivo das antenas dos artrópodes, mas nenhuma conjetura plausível conseguiu desvendar a ligação entre os dois tipos de órgãos. O mesmo vale, ainda com mais razão, para o Hallucigenia, em cujo corpo tubular espetam-se sete pares de espinhos, à moda de patas, e sete enigmáticos tentáculos.
Um palpite é que os tentáculos seriam sete bocas independentes, tal como na mitológica Hidra de Lerna da Grécia Antiga. Seja como for, nada de vagamente comparável existe na moderna Biologia. Para Gould, não há como evitar a conclusão crucial: o desenho singular de inúmeros seres do Cambriano não tem paralelo em nenhuma das linhagens modernas. Representam experiências independentes e ampliam de tal maneira a disparidade da vida, que chocam as idéias convencionais sobre a evolução. Em primeiro lugar, nada explica a súbita criação de tantos animais complexos. Durante 3 bilhões de anos, a vida permanecera estável na forma de seres microscópicos e, então, em um átimo - apenas alguns milhões de anos - produziu as mais delirantes formas.
Gould pondera que, em tempos comuns, a evolução opera de maneira inteiramente diversa. As espécies se transformam lentamente e aquelas que ganham as melhores aptidões desbancam suas vizinhas. Assim, ao longo de muitos milhões de anos, as populações se alteram, e é sempre possível encontrar o registro gradual dessas alterações. Mas, durante o relâmpago criativo do Cambriano, simplesmente não houve tempo para que esse mecanismo operasse. Pelo mesmo motivo, também não se explica por que algumas linhagens sobreviveram e outras sucumbiram, como se sua sorte tivesse sido selada numa loteria. "Se o fenômeno se repetisse", imagina Gould, "os sobreviventes seriam outros e o próprio homem poderia não estar incluído entre eles."
A Terra, então, talvez fosse povoada pelos "anjos caídos", isto é, pela esdrúxula fauna do Cambriano, comparável aos anjos rebeldes expulsos do céu, descritos no livro do Apocalipse. O biólogo Richard Lewontin, de Harvard, emprega essa analogia para salientar a importância do registro fóssil de Burgess Shale, onde se descortinou, pela primeira vez, esse instante fugaz em que a vida se encontrava em máxima amplitude. Além das novas e complexas anatomias, essa criatividade se manifesta igualmente na rica ecologia de Burgess Shale - que não incluía apenas pequenos animais coletores de defeitos, mas também os grandes predadores. O exemplo mais notável é o Anamalocaris.
Com cerca de meio metro de comprimento, um gigante naquela era de pigmeus, ele era dotado de apêndices coletores de caça e uma boca circular sem igual, que tinha a forma de um anel e, embora gelatinosa, era forte o suficiente para contrair-se e decepar as presas capturadas pelos apêndices. Em vista disso, o Anomalo provavelmente encabeçava uma cadeia de predadores, que representa pelo menos 20% dos gêneros de animais encontrados em Burgess Shale. Abaixo deles, perfilava uma extensa lista de coletores de detritos, como a Wiwaxia, um ser dúbio entre os moluscos e os vermes, significativamente armado com pontudas conchas defensivas. No total, de acordo com o modo de vida e com os hábitos alimentares dos animais, distinguem-se nada menos que seis grandes categorias ecológicas nesse ambiente.
A descoberta recente de fósseis em diversos outros lugares, inclusive na China e na Austrália, mostra que a explosão criativa sacudiu todo o planeta. E parece ter sido ainda mais violenta, pois alguns desses novos achados são de um período do Cambriano que antecede os tempos de Burgess Shale. Portanto, a irrupção dos animais ocorreu num prazo ainda menor do que se imaginava. No Brasil, curiosamente, nada se encontrou até agora. "Essa fase da história parece não ter deixado registro no país", lamenta o paleontólogo Murilo Rodolfo de Lima, da Universidade de São Paulo. Seja como for, a busca mundial só começou para valer há poucos anos, embora as criaturas do Canadá sejam conhecidas desde 1909. Nesse ano, o respeitado geólogo americano Charles Walcott praticamente tropeçou nelas ao voltar de uma temporada de caça. Interpretou-as, então, como simples ancestrais dos seres modernos, e seu prestígio impediu a revisão científica dos achados pelo menos até a década de 70.
É importante ter em mente que nem todas as maravilhas do Cambriano são inteiramente originais. Muitas delas podem ser incluídas em linhagens conhecidas, como a Marrella e a Yohoia, que foram primitivos artrópodes e, portanto, aparentadas às lagostas. Mesmo assim, esses fósseis estabelecem um ramo novo entre os artrópodes. O Sanctacaris, por sua vez, pertence a um grupo ainda mais restrito: o dos quelicerados, uma das quatro divisões convencionais dos artrópodes, ao lado dos insetos, crustáceos e trilobitas (seres rastejantes dotados de muitas patas, extintos há 225 milhões de anos). Os quelicerados agrupam aranhas, escorpiões e carrapatos, mas o Sanctacaris, a exemplo da Marrella e da Yohoia, funda uma categoria diferente de todos esses animais.
Isso dá uma visão mais precisa da variedade de formas evidenciada em Burgess Shale. Nas suas rochas, apenas entre os artrópodes, estão presentes treze grandes divisões além das quatro tradicionais. Numa escala mais ampla, os paleontólogos listam pelo menos nove seres cujo organismo obedece a um desenho inteiramente desconhecido - que não se vê entre os artrópodes, anelídeos, ou qualquer outro registrado pela Paleontologia. Alguns exemplos ilustram o significado dessas diferenças arquitetônicas. A maior parte das criaturas que se vêem no dia-a-dia, efetivamente, compreende apenas cinco ou seis grandes tipos básicos, ou filos, em linguagem técnica. Segundo essa classificação, o homem pertence ao mesmo filo que os macacos, as baleias, as aves e os répteis - inclusive os ancestrais extintos desses animais, como os dinossauros.
Todos esses seres carregam as marcas registradas do seu filo: possuem coluna vertebral e têm um cérebro derivado do tubo neural. Esses traços fundamentais, por outro lado, não se encontram em nenhum outro filo do planeta: nos outros animais, o cordão nervoso original localizava-se no ventre e tinha funções muito mais limitadas que as do tubo neural. É impossível delimitar as características chaves em todos os vinte ou trinta filos existentes na Terra, em sua grande maioria formados por animais raríssimos. Mas vale a pena distinguir os mais conhecidos e comuns. As esponjas estão entre os mais simples, pois seu corpo é constituído por pouco mais que uma membrana gelatinosa.
O mesmo se pode dizer dos anelídeos: seu corpo, exagerando um pouco, parece um intestino ambulante. É um cilindro formado por diversos anéis justapostos, no qual a boca fica em uma das extremidades e o ânus, na outra. Já a arquitetura corporal dos moluscos, cujos membros mais conhecidos são as ostras, as lesmas e os polvos, é um pouco mais elaborada. Uma das novidades de seu organismo foi a inclusão de partes duras, as conchas. Os artrópodes, em seguida, são bem mais elaborados. Também têm partes duras mas suas carapaças são feitas de uma complexa substância orgânica, o fosfato de arginina, enquanto as conchas empregam uma substância mineral simples, o carbonato de cálcio. Curiosamente, do ponto de vista do homem, o mais interessante dos filos é o dos equinodermos.
Embora reúnam animais como as estrelas e os ouriços-do- mar - caracterizados por uma exótica divisão do corpo em cinco partes que se irradiam de um centro comum -, são os parentes mais próximos dos cordados, o filo do homem. Ambos surgiram a partir de seres superficialmente parecidos com lesmas do mar, cujo representante mais antigo a Pikaia, também se encontrava entre as maravilhas de Burgess Shale. É difícil diferenciá-la de um verme anelídeo mas a presença do notocórdio (um cordão de células nervosas situado nas suas costas), convenceu os paleontólogos que o descreveram, Conway Morris e Harry Wittington, de Harvard. " A Pikaia é um marco na história dos cordados", escreveram. Mas era rara, sinal de que não tinha grande importância entre os diversos outros filos da época.
"Suspeito que os cordados tinham um tênue futuro no Cambriano", opina Gould. O fato de, a despeito disso, terem sobrevivido e herdado a Terra parece-lhe puro acaso. Argumentos desse tipo tendem a ser encarados como um desafio insuperável à Teoria da Evolução, tal como formulada, no século XIX, pelo inglês Charles Darwin (1809-1882). Mas não é bem assim. "É um erro pensar que a evolução é caótica e inexplicável", esclarece Gould.
De modo geral, os mecanismos de mutação e adaptação das espécies continuam valendo: o xis do problema são as bruscas explosões criativas e as grandes extinções, que redirecionam o curso da vida de modo inesperado.
Nas palavras do biólogo Richard Lewontin, a natureza volta e meia promove uma espécie de faxina geral na casa. É curioso notar que as extinções dizimaram diversos filos do Cambriano, mas os sobreviventes, por sua vez, ganharam muitos novos ramos. Hoje, por exemplo, apenas o grupo dos insetos, entre os artrópodes, contém 1 milhão de espécies diferentes, milhares de vezes mais do que no passado. A extinção, portanto, parece ter operado com certo critério, abrindo espaço para um novo ciclo evolutivo.
Gould insiste, no entanto, que essa faxina é muito rápida e introduz uma alta dose de sorte na seleção dos sobreviventes. Em vista disso, já não se pode pensar que a evolução avança sempre no sentido da maior perfeição - como se as espécies subissem, passo a passo, uma escada para o sucesso. A história mostra, em vez disso, que pode haver muitas escadas, isto é, diversos caminhos alternativos, que, em determinado momento, a evolução pode tomar. "Assim, o que acaba acontecendo", ensina o cientista, "é a concretização de uma entre 1 bilhão de possibilidades."
Arrogantes sobreviventes
A Teoria da Evolução explica muito bem a origem das espécies, mas transmite a falsa idéia de que os animais com o tempo, se tornam cada vez mais perfeitos. Não é isso, no entanto, o que revela a pesquisa moderna, afirma o paleontólogo Stephen Jay Gould. Ele ilustra o que quer dizer com um caso excepcional, a origem dos cavalos. Ela revela com detalhes as mudanças sofridas por uma espécie já extinta, o Hyracotherium, que há cerca de 50 milhões de anos possuía quatro dedos na pata. De acordo com a teoria, essas mudanças tiveram início ao acaso, ao lado de muitas outras mutações a que todos os seres estão sujeitos. No entanto,os animais que nasciam com o dedo central mais forte corriam com mais facilidade e levavam vantagem sobre seus irmãos menos afortunados. Assim, essa tendência impôs-se gradualmente, até levar ao cavalo moderno, cujo pé possui um único dedo, perfeitamente adaptado à necessidade de correr. Gould não tem dúvida de que esse raciocínio explica a origem do cavalo, mas não prova que ele é o mais perfeito descendente do Hyracotherium. Revela apenas que foi o único a ter sobrevivido. É provável que, no passado, o cavalo tenha tido diversos tios-avôs, já que a evolução tende a gerar uma profusão de formas vivas. Muitas delas, posteriormente se extinguem, mas isso não é sinal de imperfeição; pode ter causas imponderáveis, como a queda de um grande corpo celeste sobre a Terra. "Em última instância, a extinção é o destino natural de todos os seres",. pondera Gould. Na sua opinião o homem tem dificuldade para aceitar esse fato por se considerar o ápice da evolução.
Ele cita o exemplo dos dinossauros cujo desaparecimento é visto como um fracasso. "Trata-se de simples arrogância", ataca. "Afinal, os dinossauros existiram durante 120 milhões de anos e nós existimos há apenas 250 mil anos. Não creio que tenhamos muita chance de sobreviver por um tempo 500 vezes maior e empatar com eles".
Marcadores:
ambiente,
DNA,
evolução,
evolucionismo,
forma de vida,
linhagem,
vida exotica
quarta-feira, 7 de novembro de 2012
Mergulho na Água - Ambiente
MERGULHO NA ÁGUA - Ambiente
Os cientistas estão empenhados em preservar o líquido mais extraordinário que se conhece. Para que ninguém sinta sede ou se sirva de uma bebida de má qualidade.
Não existe água para todo mundo, concluíram representantes de diversas nações em um encontro em 1980, na União Soviética. Por isso, a ONU resolveu instituir a Década do Abastecimento de Água, que se encerra este ano: cada país traçou um plano para resolver seus problemas no que diz respeito ao com toda a razão chamado precioso líquido, essencial à vida. Pode parecer estranho que esse tipo de iniciativa seja necessário neste corpo celeste que, há 29 anos, foi descrito pelo cosmonauta soviético Yuri Gagárin como o planeta azul - era, então, a primeira vez que o homem viajava ao espaço, para testemunhar a ironia de se chamar Terra a um globo colorido pelo 4/5 de superfície cobertos de água. Mas nada é tão claro quando se trata dessa substância que ainda perturba os químicos e desafia os geólogos. Afinal, embora aparentemente abundante, a água nem sempre está onde o ser humano precisa e, estando, nem sempre tem a qualidade necessária para matar a sua sede.
Calcula-se que nos últimos 100 anos a descarga de água dos rios nos mares diminuiu 6%. Em primeiro lugar, porque nunca na história da humanidade as populações cresceram tanto. Segundo, porque, além de ser seu inveterado bebedor, o homem do século XX gasta muita água nas indústrias, na higiene pessoal e em atividades prosaicas como cozinhar, regar o jardim, lavar o carro, dar banho no cachorro ou encher a piscina. Segundo a Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental (ABES), em 1988 cada brasileiro consumiu em média 270 litros de água por dia, algo como duas banheiras transbordando. Cada americano, por sua vez, derrama cerca de 388 litros diariamente. Mas perto do colossal sistema de abastecimento proporcionado pela natureza, esse consumo todo parece representar apenas umas gotas a menos no oceano.
A rigor, a liquidez do planeta está garantida, pois a água vive no eterno jogo de evaporar, subindo para a atmosfera, e condensar, caindo na superfície para realimentar lençóis subterrâneos, rios, lagos, oceanos - é o ciclo hidrológico. "A falta de água, porém, é uma ameaça em algumas regiões castigadas pelo clima muito seco", adverte o geólogo Aldo Rebouças, que chefia na Universidade de São Paulo (USP) o Centro de Pesquisa da Água, o maior da América Latina. "Nos países do Norte da África, onde a precipitação anual fica em torno de 100 milímetros-aproximadamente dezesseis vezes menos do que no Brasil-, pode-se falar em crise", exemplifica. Felizmente, trata-se sempre de crises localizadas. A Terra inteira não corre perigo.
Há dois meses, o centro recebeu a visita de um grupo de técnicos líbios, encarregados do projeto de 1 bilhão de dólares do mais gigantesco sistema de abastecimento em construção. O chamado Al Kupah As Sarir (em árabe, "o rio criado pelo homem") merece o nome que tem: trezentos poços vão extrair 206 milhões de metros cúbicos de água por ano para servir à população e irrigar uma área equivalente a Porto Alegre, no Rio Grande do Sul; a fim de ser distribuída pelo país, na maior parte incrustado em um solo desértico, essa água irá percorrer 2 000 quilômetros, mais ou menos a distância entre São Paulo e Salvador, na Bahia.
Nos últimos dez anos, não faltaram sugestões para abastecer de água as áreas excessivamente esturricadas do planeta. Talvez o projeto mais arrojado seja o desenvolvido por cientistas americanos do Massachusets Institute of Technology (MIT), que pretendem transportar icebergs da região ártica até zonas pobres em chuvas. Derretidas, tais montanhas de gelo se transformariam em imensas poças de água fresca, pois a água do mar, ao congelar-se, libera todos os sais. "Os ambientalistas criticam a idéia", comenta Rebouças, da USP, "mas, por maior que seja um iceberg, em relação ao oceano é apenas uma gota, que não faria muita diferença." Ironicamente, a Década da Água corre o risco de naufragar em países que não necessitam de manobras mirabolantes para se abastecer, mas enfrentam o drama da contaminação de suas fontes, como é o caso do Brasil, dono do maior potencial de água doce da Terra.
"No sertão nordestino, famoso pela seca, cai tanta chuva quanto nos países da Europa", compara Rebouças, que há dezesseis anos defendeu uma tese na França sobre os problemas dessa região, cujo calor faz aumentar o que os cientistas chamam evapotranspiração-a água que cai, embora em doses satisfatórias, evapora-se ao encontrar o solo quente. "Estudo isso por trauma de infância", brinca esse cearense, nascido em Aracati. No restante do país, jorra água à vontade, mas a poluição aparece como um grave perigo. Nas regiões Norte e Centro-Oeste, acumulam-se os tóxicos metais pesados, como o mercúrio, usados no garimpo. Para cada 450 gramas de ouro extraídos dos rios da Amazônia, o dobro é despejado em mercúrio. Calcula-se que 100 toneladas anuais desse metal envenenam a Bacia Amazônica. Na Região Sul, a ameaça está especialmente nos produtos químicos presentes nos pesticidas usados na agricultura. Finalmente, no Sudeste, a grande concentração urbana aumenta o volume de esgoto despejado na água- problema, aliás, que aparece também em países avançados, como Canadá e Estados Unidos, que hoje trocam tecnologia entre si para salvar a região dos Grandes Lagos em sua fronteira.
Não é à toa a preocupação: embora metade do Hemisfério Norte seja constituída de água (no Hemisfério Sul, 90% do território estão submersos) e ainda que o ser humano só consiga consumir muito pouco desse volume, o líquido que pode ser efetivamente aproveitado vem de fontes raras. É como se toda a água do mundo passasse por um funil: existem 16 litros de água salgada para 1 único litro de água fresca, como os geólogos preferem designar o que os leigos conhecem por água doce; desta, 2,7 litros em cada 10 estão nas geleiras polares, que só agora os cientistas esboçam planos para aproveitar, como no caso do MIT americano. Resta ao homem, portanto, extrair água do subterrâneo, que esconde 7,2 de cada 10 litros disponíveis; ou, ainda, servir-se da água da superfície da atmosfera, escoando na forma de chuvas, que representam somente o volume de duas meras colheres de sopa para cada litro de água fresca da Terra.
Além disso, estima-se que o volume de água circulando em rios e lagos seja apenas 1/10 do volume presente na atmosfera, na forma de vapor. E, no final, praticamente a gota d´água: somente 1/5 do líquido à disposição na superfície é potável. Na verdade, a maior parte da água com potabilidade, pronta para matar a sede do homem, é subterrânea, porque o solo funciona feito uma barreira: como os lençóis aquáticos costumam ficar mais de 800 metros abaixo da superfície, os germes causadores de doenças não os alcançam por falta de oxigênio ou ainda-no caso dos microorganismos anaeróbicos, que não respiram-por falta de tempo para penetrar a terra, pois só vivem cerca de 100 dias.
A maior parte da hidrosfera-como se denomina o conjunto de águas da Terra-não serve para consumo porque é cheia de sais. Aliás, quase não existe água pura na natureza, para conseguir uma amostra 100% pura do líquido, seria necessário colher pingos de chuva logo abaixo de uma nuvem. Isso porque, mal começa a atravessar a atmosfera, a água dissolve gases e, depois, ao tocar o solo, passa a arrastar partículas. Assim, esculpe o relevo, no fenômeno da erosão, e leva toda sorte de sais para os rios, cuja correnteza por sua vez carrega mais minérios até desembocar no mar. Destino final de todos os rios, o mar vai acumulando sais, pois só a água evapora.
O oceano, porém, tem mais mistérios para os cientistas do que para os marinheiros: ainda se ignora por que ele não fica cada dia mais salgado, visto que está sempre recebendo minérios. A salinização ocorre apenas em pontos isolados, como o Mar Morto, entre Israel e Jordânia, por não existir escoamento para a água. Mas, em geral, inexplicavelmente, no mar encontram-se cerca de 30 gramas de sal por litro. Na realidade, somente onze elementos químicos compõem 99,9% dessa água que é considerada o mais complexo fluído de que se tem noticia. "A questão está no 0,1% restante, que pode conter todas as substâncias conhecidas", arrisca a química Walkyria Hunold Lara, do Instituto Oceanográfico da USP. "No mar é possível encontrar até ouro dissolvido, mas numa concentração que, com a tecnologia atual, é inviável extrair."
Walkyria gosta de comparar o mar, com seus diversos ingredientes, a um "gigantesco tanque de reações". Animada, ela é capaz de ficar horas revelando a intimidade dessa mistura salgada, que começou a ser analisada de modo científico apenas na primeira década deste século, embora os antigos gregos já proclamassem a variedade de seus componentes-além de considerar a água, junto com o ar, o fogo e a terra, a matéria-prima do Cosmo. Um dos exemplos preferidos da pesquisadora tornou-se muito falado por causa do efeito estufa: as moléculas de água, na superfície dos oceanos, seqüestram mais gás carbônico da atmosfera do que as florestas. "Aliás, o gás carbônico mantém o pH 8 (índice de acidez), que deixa a água básica, ideal à sobrevivência dos peixes marinhos."
É a capacidade da água se combinar com gases que torna possível a existência de seres aquáticos. "O oxigênio que os peixes consomem é retirado da atmosfera", esclarece o engenheiro ambiental Rubens Monteiro, que há vinte anos trabalha com controle de qualidade de água na Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental (Cetesb), em São Paulo. As moléculas de água possuem dois átomos de hidrogênio e um único átomo de oxigênio, a sabidíssima fórmula H2O que todos aprendem na escola. O ar que se respira, por sua vez, são dois átomos de oxigênio-o que os livros de Química apontam como uma molécula de O2-, quantidade que a água não dispõe para oferecer aos seres vivos, mas pode retirar do ar. Nem sempre, contudo, o líquido consegue fazer isso com velocidade suficiente-eis um dos males da poluição.
Esclareça-se, a bem da verdade, que já existe tecnologia para tornar potável praticamente qualquer tipo de água, por mais poluída que seja. A necessidade de reciclar água contaminada, por sinal, parece estar delineada no futuro de todas as grandes cidades. O químico José Atilho Vanin, da USP, nota que muitas vezes a água é um reagente químico lento: pode-se esperar dias até que se complete uma reação de que o líquido faça parte. "Mas trata-se de uma substância extraordinária por vários motivos", ressalta. O primeiro deles, sem dúvida, é o formato da molécula, que para um leigo pode parecer um tanto simples: os átomos de hidrogênio presos ao oxigênio a exatos 105 graus, lembrando a cabeça de Mickey Mouse com suas orelhas.
Com essa arquitetura, cria-se o que os cientistas chamam dipolo, dois pólos eletrônicos separados. Ao redor do átomo de oxigênio, aglomeram-se partículas negativas; em torno dos átomos de hidrogênio concentra-se uma nuvem de partículas positivas. "Como se tivesse duas faces, a água acaba se combinando tanto com as substâncias que são atraídas por cargas elétricas positivas como por aquelas que são atraídas por cargas negativas", descreve o professor. "Por isso, ela pode dissolver qualquer um dos noventa elementos químicos naturais." A mais intrigante característica da água, no entanto, é ser capaz de flutuar quando no estado sólido, ou seja, em forma de gelo.
Isso contraria o clássico enunciado da Física segundo o qual o volume de uma substância gasosa, líquida ou sólida-diminui quando sua temperatura cai. Ao se retrair, a densidade aumenta; portanto, o sólido deveria sempre ser mais pesado do que o líquido. A água obedece a essa norma em quase todo o trajeto de queda de temperatura, mas um fenômeno estranho acontece quando ela chega a 4 graus Celsius: a partir daí, quanto mais esfria, mais a substância se expande, tornando-se mais leve. "Nessa temperatura, cada molécula de água-que no estado líquido nadava solta, tocando nas demais e até se sobrepondo a elas- vai se ligar a outras quatro moléculas, de modo organizado, desenhando uma espécie de tetraedro", descreve Vanin. "Assim, aparecem grandes espaços livres no interior dessas figuras geométricas, ocorrendo a dilatação."
Alguns pesquisadores acreditam que sem essa qualidade extraordinária não existiria vida no planeta. "Partindo da teoria de que os primeiros seres vivos surgiram no meio aquático, se o gelo não flutuasse, os períodos de glaciação teriam destruído ou solidificado aquelas formas de vida", raciocina Vanin. Faz sentido. A água do fundo do mar é mais fria e, ao congelar, sobe para a superfície. Assim, os seres vivos puderam sobreviver no fundo, onde havia liquido. Na forma líquida, por sinal, a substância participa de todas as reações químicas nos organismos. Por isso, numerosos cientistas dizem que é muito difícil existir vida, ao menos da forma como se conhece, em outros planetas. Embora o Cosmo seja rico em água, apenas em um estreito recanto do sistema solar as temperaturas permitem que ela se mantenha no estado líquido-e esse recanto, para sorte de seus inquilinos, é o planeta azulado talvez impropriamente chamado Terra.
Para saber mais:
Mundo deserto
(SUPER número 3, ano 4)
Sede de viver
Um dos pequenos grandes prazeres de todo ser humano é afogar a sede em um refrescante copo d´água. A ciência, porém, ainda não sabe o que gera essa satisfação única e imediata. "Provavelmente, quando a mucosa da boca é umedecida e o estômago se dilata com o líquido, receptores nervosos mandam sinais ao cérebro", suspeita a fisiologista Frida Zaladek Gil, da Escola Paulista de Medicina. "Mas devem existir outros disparadores da saciedade." No entanto, desde os anos 50 a ciência conhece o processo pelo qual a sede aparece, como um desejo urgente .
"Existe uma enorme quantidade de sódio dissolvido na água do organismo", explica Frida. "Ao se perder líquido-pela urina, pelo suor ou ainda na forma de vapor, pela respiração-aumenta a concentração desse mineral no sangue. O cérebro, ao notar o excesso de sódio, manda a glândula hipófise produzir hormônios que desencadeiam a sede." A água compõe 70% a 80% do organismo; nos recém-nascidos, essa proporção pode chegar a 90% por causa de seu metabolismo acelerado-afinal, todas as chamadas reações bioquímicas dependem desse fluído vital. "Por isso", informa a fisiologista, "se não renovar o seu estoque, o ser humano pode morrer de sede no prazo de dois dias."
Ciranda aquática
O conteúdo de um copo de água algum dia já flutuou pelos ares, formou nuvens, despencou como chuva, esteve no fundo da terra, navegou por rios, afundou nos mares, boiou na forma de iceberg. Ao longo de milhões de anos, pouco se perdeu do estoque original de água do planeta. A mesma água está sempre sendo bombeada no chamado ciclo hidrológico, iniciado quando o calor do Sol aquece a superfície dos continentes e dos oceanos, fazendo com que uma parte das moléculas de água evapore e suba ao céu. Além disso, ao transpirar, os seres vivos também contribuem para a reserva de vapor da atmosfera. Em determinado momento, esse vapor se condensa e volta à forma liquida transformado em chuva: cerca de 2/3 caem sobre o oceano, onde graças às correntes as moléculas de água passeiam entre a superfície e o fundo, numa viagem que pode durar 1000 anos; o restante, se não vai para os rios e lagos, infiltra-se na terra. No subterrâneo segundo o ciclo natural, o líquido fica de 200 a 10 000 anos, conforme a profundidade do lençol aquático, até borbulhar em alguma nascente ou mesmo jorrar em um fumegante gêiser, nesse instante, finalmente torna à superfície para, depois de certo tempo-alguns dias ou milhões de anos-, evaporar de novo.
A liquidez do mundo
Na Terra devem existir cerca de 12 872 000 quilômetros cúbicos de água fresca. Mas esse impressionante volume corresponde a apenas 1/16 da sua reserva hídrica. Todos os lagos, juntos, representam somente 0,01 % da água do planeta; a atmosfera não contém mais que 0,001% na forma de vapor; finalmente, os rios, somados, reúnem apenas 0,0001%.
Abrindo as torneiras
Hoje em dia, 58 brasileiros em cada 100 contam com abastecimento de água provido pelo Estado. No entanto, seis em cada dez sistemas não têm estações de tratamento, o que torna duvidosa a qualidade do líquido que oferecem. "Na estação de tratamento, ao menos, sempre que a água está contaminada, determinamos que se aumente a dose de cloro", conta a bióloga Maria Inês Zanoli Sato, encarregada do laboratório da Cetesb, onde foram testadas no ano passado 32 988 amostras da água consumida pelos paulistanos. O índice de contaminação foi de toleráveis 3%.
O cloro garante um efeito germicida desde o momento em que a água sai do reservatório até a torneira de casa. Pesquisas americanas, contudo, relacionam o seu uso com o aumento na incidência de certos tipos de câncer, como o de fígado. No século passado, antes da adição do cloro, a água era a maior fonte de contaminação de doenças graves como o tifo e a hepatite. Alguns países, entre os quais a França, experimentam outras maneiras de tratar a água, com a aplicação de gás ozônio, cujo efeito porém logo cessa. Por esse motivo, a ozonização, além de ser cara, não funcionaria no Brasil: a água, que sai limpa de uma estação de tratamento, pode ser contaminada nas caixas-d´água domésticas, cuja limpeza não é fiscalizada. Por isso, na maioria dos países europeus, a caixa-d´água é proibida -a água deve viajar diretamente da estação de tratamento para as torneiras. A tecnologia de tratamento, aliás, avançou nos últimos anos, a ponto de permitir a reutilização da água do esgoto, como vem sendo feito, por exemplo, em Israel e no Japão. "Hoje, não importa a água que entra numa estação de tratamento, mas a água que sai", esclarece o geólogo Uriel Duarte, da USP. Segundo Duarte, a médio prazo, grandes centros urbanos brasileiros terão de apelar para a reutilização. "Mas, com urgência, devemos cuidar da manutenção das redes de distribuição: se um cano fura e a água perde pressão, abre-se uma porta para a entrada dos germes", alerta. Em São Paulo, 30% da água que sai das estações de tratamento se perdem em vazamentos.
Um sólido incomum
Por que a água é diferente.
O gelo tem uma estrutura cristalina, as moléculas se combinam de maneira organizada, desenhando tetraedros. Cada átomo de hidrogênio se liga ao átomo de oxigênio de uma molécula vizinha criando uma distância entre elas. Isso provoca a expansão da substância, que assim se torna extraordinariamente menos densa no estado sólido. Quando o gelo derrete tais elos começam a se desfazer, embora mesmo na água líquida sobrem algumas pontes de hidrogênio, como as ligações são chamadas, tamanha a força de atração entre as moléculas
Marcadores:
agua,
ambiente,
liquido precioso,
Meio Ambiente,
vida
terça-feira, 23 de outubro de 2012
Toda a vida do Mundo - Ambiente
TODA A VIDA DO MUNDO - Ambiente
Há mais vida na Terra do que o homem é capaz de saber: fala-se de 5 a 30 milhões de espécies. A biodiversidade fascina os cientistas, preocupados em conhecer e salvar toda essa riqueza.
Nos tempos bíblicos, Deus ordenou ao patriarca Noé que construísse uma arca para abrigar um casal de cada espécie de bicho enquanto o mundo se afogava no dilúvio universal. A missão de Noé pode ter sido ainda mais extravagante do que a lenda sugere. De fato, passados dois séculos desde que o botânico sueco Carolus Linnaeus (1707-1778) começou a classificar as formas animais e vegetais de vida, não se sabe quantas espécies dotadas de patas, rabos, antenas, asas, guelras, folhas, caules ou raízes existem. "Em todas as classes, a cada dia se descobre uma espécie nova", garante o zoólogo Miguel Trefaut Rodrigues, da Universidade de São Paulo. Há algum tempo, com outros pesquisadores, ele passou vinte dias enfurnado na Mata Atlântica do sul da Bahia, onde encontrou nada menos de catorze espécies ao que tudo indica desconhecidas de répteis e anfíbios, incluindo uma perereca que, com seus 10 centímetros de comprimento, talvez seja uma das maiores da América do Sul.
Isso é biodiversidade, o explosivo potencial que a vida possui de se multiplicar em miríades de formas adaptadas aos mais variados ambientes. Desbravando o globo de pólo a pólo, embrenhando-se em florestas e mergulhando nos mares, o homem conseguiu descrever 1,4 milhão de espécies, como se designa a unidade biológica fundamental. Cerca de 750 000 são insetos, 41 000 são vertebrados, 250 000 são plantas e o restante é uma coleção desconjuntada de outros invertebrados, algas, fungos e ainda microorganismos como bactérias e vírus. Parece um desvario da natureza - mas é pouco mais do que uma amostra. A maioria dos biólogos concorda que aquele censo não dá conta nem da terça parte dos passageiros convidados a embarcar na arca de Noé.
Os cientistas reconhecem, por exemplo, serem parcos os seus conhecimentos sobre a diversidade e a distribuição dos insetos, uma categoria que parece ter a preferência da natureza, pois constitui folgadamente a maioria dos seres vivos. O pesquisador americano Terry Erwin e seus colaboradores do Instituto Smithsonian de Washington tiveram a santa paciência de contar, uma a uma, as espécies de bichinhos nas copas de algumas árvores na Amazônia brasileira e peruana e extrapolaram o número encontrado para a área total de florestas tropicais. Resultado: somando as espécies estimadas dos insetos às outras presumivelmente existentes ali, obtiveram um megatotal de 30 milhões de formas distintas de vida. Mesmo quem acha que esse é um cálculo inflacionado demais aceita a hipótese de que pelo menos 5 milhões de espécies povoam o mundo. E não há dúvida de que a maioria anônima está escondida no verde e na água das florestas tropicais.
Sabe-se preto no branco que mais da metade da bicharada do planeta tem seu endereço nos trópicos, mais precisamente nos 7% da superfície do globo coberta por florestas tropicais. A desmedida variedade das espécies vegetais ainda é menor que a de insetos, peixes e microorganismos. Uma pesquisa recente mostrou que 950 espécies de besouros, 80% das quais desconhecidas, estavam instaladas em apenas dezenove árvores da selva tropical do Panamá. Como em cada hectare da Floresta Amazônica existem 300 espécies de árvores, dez vezes mais do que nas regiões temperadas da América do Norte, por exemplo, não é de espantar que o Brasil, onde a floresta ocupa 42% do território, seja o campeão mundial da biodiversidade.
Segundo uma classificação elaborada pela respeitável organização ambientalista internacional World Wide Fund for Nature (Fundo Mundial para a Natureza), o Brasil é o primeiro país do mundo em número de espécies de plantas e de anfíbios, o terceiro em aves e o quarto em borboletas, répteis e mamíferos. "Das 1 100 espécies conhecidas de sempre-vivas (um tipo de flor comum em adornos), 700 encontram-se entre Minas Gerais e Bahia", contabiliza a botânica Ana Maria Giulietti, da USP. "Só numa lagoa do Parque do Rio Doce, em Minas, existem mais espécies de libélulas do que em todo o território britânico", compara, por sua vez, o entomologista Ângelo Machado, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Ele é também presidente da Fundação Biodiversitas para a Conservação da Diversidade Biológica, uma entidade de cientistas ambientalistas criada há dois anos em Belo Horizonte que, como o nome já diz, se dedica à defesa desse incomparável tesouro que o homem vem dilapidando.
Machado explica por que "nossas várzeas têm mais flores, nossas flores têm mais vida", como se gabam os versos ufanistas de Gonçalves Dias. "No passado", ensina ele, "as zonas temperadas sofreram o rigor das glaciações, que sacrificaram inúmeras espécies e empurraram outras a regiões de climas mais quentes. Enquanto isso, próximo dos trópicos, o ambiente permaneceu estável, o que facilitou o desenvolvimento de ecossistemas mais ricos e complexos, adaptados a um clima com pouca variação." É o que aconteceu, não apenas no Brasil, mas também no México, na Colômbia, na África central e no sul da Ásia, igualmente bem situados no ranking da World Wide Fund. A Colômbia é o país mais rico em diversidade de espécies por unidade de área. Já a Indonésia se destaca não apenas pela variedade de espécies terrestres mas por possuir no seu litoral o mais rico tesouro de organismos marinhos.
Mesmo nas regiões tropicais existem áreas de preferência da bicharada. Perplexos com essa valorização, biólogos do mundo inteiro seguiram o exemplo do brasileiro Paulo Emílio Vanzolini e foram buscar respostas na Geomorfologia, ramo da ciência que estuda as formas do relevo terrestre. Baseado por sua vez nos trabalhos de um colega da USP, o geógrafo Aziz Ab´Saber, Vanzolini - um especialista no mecanismo de multiplicação das espécies, também conhecido por seus sambas - descobriu que a distribuição da vida nas florestas da Amazônia e na Mata Atlântica está relacionada à história antiga dessas formações. Durante a mais recente glaciação, que durou cerca de 10 000 anos, nesta parte do globo períodos frios e secos alternaram-se com outros mais quentes.
Quando o clima esfriava, as florestas encolhiam, cercadas por cerrados, pradarias e caatingas. Os pequenos grupos de espécies, isolados de seu território ancestral, lentamente começaram a se adaptar às peculiaridades locais. É o que os cientistas chamam de diferenciação em isolamento, um processo que leva ao endemismo. Este fenômeno, que ocorre em lugares menos acessíveis, montanhas e ilhas, marcou a peculiar flora e fauna da Austrália - simbolizada pelos cangurus e coalas - assim como da ilha de Madagascar, na costa oriental da África, o paraíso das orquídeas e dos primatas. Muito mais tarde, quando a floresta voltou a se expandir, aquelas espécies já tinham acumulado tantas variações genéticas que perderam por completo o parentesco com seus antepassados.
Comparados às espécies terrestres, os organismos marinhos estão mais bem distribuídos justamente porque toparam com menos barreiras físicas. Não é de estranhar, portanto, que a diversidade de espécies nos oceanos seja também menor. Em compensação, como a vida surgiu na água muitos milhões de anos antes que em terra, os oceanos abrigam formas mais antigas, como algas, moluscos, esponjas e corais. Para o biólogo Eurico Cabral de Oliveira, ex-diretor do Centro de Biologia Marinha da USP, "o equivalente marinho das florestas tropicais são os recifes de coral" - colônias de organismos invertebrados onde vivem numerosas espécies de peixes, moluscos, além de pássaros e tartarugas. "Como as florestas", compara o biólogo, "os corais são ecossistemas complexos e por isso mesmo de equilíbrio delicado."
Por pouco que se saiba sobre as espécies terrestres, ainda é muito comparado com o que se sabe dos oceanos. Recentemente - para surpresa de quem achava que a vida em profusão só existia nas águas mais iluminadas - se descobriu no fundo do Pacífico nada menos de uma centena de espécies estranhíssimas de organismos. Mais do que quaisquer outros terráqueos, são uma prova da incrível capacidade de diversificação e adaptação a todo tipo de ambiente. Costuma-se dizer que a variedade é a própria essência da vida, pois sem a matéria-prima que ela proporciona não haveria evolução. Cada organismo, como se sabe, contém uma quantidade colossal de informações genéticas que determinam todas as suas características. Mas os organismos individuais não evoluem - eles só podem crescer, reproduzir-se e morrer. As mudanças que entram para a história ocorrem nas espécies, a unidade básica da evolução. "Assim, de um mesmo ancestral podem se originar espécies tão diferentes como as lhamas que se adaptaram à Cordilheira dos Andes e os camelos aos desertos da África", lembra o biólogo Vanzolini.
Quando o clima, a água e a alimentação são constantes, as espécies podem repartir o ambiente para não tropeçar umas nas outras, ocupando diferentes nichos ecológicos, como dizem os biólogos. Nas planícies africanas, por exemplo, existem vários tipos de mamíferos que se alimentam de folhagens. Só que as girafas vão buscar o almoço nas copas das árvores, os rinocerontes preferem os arbustos e as zebras comem gramíneas. Mas o destino de uma dada espécie está sujeito a mais interferências do que é capaz de conceber a ciência humana - sem falar que o acaso desempenha um papel não desprezível nessa loteria. Desse modo, sem que se saiba ao certo por quê, algumas espécies tiveram mais sucesso, ao passo que outras passaram despercebidas pelo livro da vida e outras ainda desapareceram abruptamente durante as grandes extinções do passado, como aconteceu com os dinossauros há 65 milhões de ano.
Diante da interdependência e da complexidade dos processos que acontecem na natureza, nunca se sabe quando uma espécie pode representar um papel fundamental para a sobrevivência do homem. Assim, se não por um respeito moral à vida, ou pelo desfrute da beleza que sua variedade proporciona, o mero egoísmo aconselharia salvar o próximo. Não se trata de um raciocínio hipotético. Quem acha, por exemplo, que o mundo estaria melhor sem a enorme variedade de insetos que parecem ter nascido com a exclusiva finalidade de nos infernizar deveria dar uma olhada numa pesquisa feita pelos americanos. Eles calcularam que os insetos causavam um prejuízo de 7 bilhões de dólares anuais nos Estados Unidos. Ruim com eles, pior sem eles. Se os insetos fossem destruídos, os prejuízos que a agricultura teria com a ausência de polinização das plantas seria da ordem de 9 bilhões de dólares. Um exemplo brasileiro: se desaparecesse a mosca que poliniza o cacau no sul da Bahia ou a abelha que faz o mesmo com a castanha no Pará, estaria decretada a falência de importantes atividades econômicas dessas duas regiões.
Com o advento da Engenharia Genética, o estudo da diversidade de animais e plantas tornou-se uma prioridade científica nos países ricos. Isso porque, cada espécie, seja de macaco, barata, rosa ou bactéria, representa um estoque de genes cujo potencial apenas começa a ser arranhado. A humanidade já lucra muito com a herança transmitida por alguns organismos: calcula-se que um em cada quatro tipos de medicamentos contém ingredientes derivados de plantas silvestres. Pacientes com leucemia sobrevivem graças a substâncias contidas numa planta chamada pervinca. A dedaleira ajuda a regular os batimentos cardíacos. O cará proporciona o ingrediente ativo dos anticoncepcionais. O jaborandi combate o glaucoma. A barba-de-bode e a casca do salgueiro têm propriedades analgésicas semelhantes às da aspirina. Fungos e microorganismos-categorias ainda menos identificadas que a dos insetos - foram a chave para o desenvolvimento dos antibióticos e mais recentemente da ciclosporina, o bendito remédio que diminui os riscos de rejeição em transplantes.
O problema é que, para onde quer que se olhe, o homem parece ter declarado guerra às plantas e aos animais. É o desmatamento, os acidentes ecológicos, a ocupação desordenada e a poluição em terra. Os conservacionistas fizeram as contas e obtiveram um número de arrepiar. Se continuar o ritmo atual de destruição da natureza, nos próximos 25 anos cerca de 1,2 milhão de espécies desaparecerão por completo da face da Terra. Ou seja, estamos assistindo sem saber a um genocídio de cem espécies por dia.
O entomologista Ângelo Machado, da Fundação Biodiversitas, se irrita quando lhe perguntam por que conservar animais como o mico-leão-dourado, um primata característico da Mata Atlântica, que está na lista das 207 espécies ameaçadas de extinção elaborada pela Sociedade Brasileira de Zoologia. "O homem é uma espécie curiosa", raciocina ele. "Tem um apreço enorme pelas coisas bonitas que ele mesmo cria, mas destrói as que encontra prontas na natureza. Já imaginou se algum tipo de fungo destruidor de pinturas se alastrasse pelos museus e acabasse com a Mona Lisa ou com as telas de Van Gogh? Antes de mais nada é preciso preservar o mico-leão e outras espécies porque são obras de arte da natureza que levaram milhões de anos para serem criadas."
É possível preservar em parte, em zoológicos, jardins botânicos e bancos de sementes, o muito que ainda resta das espécies. Um exemplo é dado pelo paisagista Roberto Burle Marx. que reúne em seu sítio de Guaratiba, Rio de Janeiro, 3 500 espécies de plantas. Os ecologistas, no entanto, não querem apenas salvar espécies exóticas, mas processos evolutivos. E estes só podem ocorrer nos ecossistemas que Ihes deram abrigo. "Temos que dar chutes na direção certa", recomenda o biólogo Gustavo Fonseca, que leciona Ecologia na UFMG. "É impraticável preservar indefinidamente os ambientes naturais, mas se pode lutar por uma política realista de áreas de conservação."
Os sobreviventes e as vítimas.
O desaparecimento das espécies - e a conseqüente perda do seu material genético - é um fenômeno quase tão antigo quanto a própria vida. Os paleontólogos distinguem cinco episódios de extinção em massa durante os quais uma fração significativa de biodiversidade foi extinta. Os motivos são ignorados ou controversos. O primeiro caso ocorreu no Ordoviciano, há cerca de 450 milhões de anos, quando foram quase eliminados os trilobites, espécies de animais invertebrados. No Devoniano, desapareceu a maior parte das espécies de peixes, diminuíram os corais e os crinóides, animais marinhos. Mas a vida na Terra correu real perigo uma centena de milhões de anos adiante, no Permiano, quando mais de 90% das espécies e todos os trilobites desapareceram. Os sobreviventes abriram caminho para o aparecimento, entre outros, dos dinossauros.
As extinções continuaram. No Jurássico, morreram 75% das espécies de amonites (moluscos) e de crinóides. A mais falada extinção foi a dos dinossauros, que desapareceram no final do Cretáceo junto com os amonites. Em compensação os mamíferos se espalharam pela Terra. Muitos cientistas acusam um descendente desses mamíferos, o homem moderno, de estar promovendo a próxima extinção em massa das espécies. No seu livro O polegar do panda, o biólogo americano Stephen Jay Gould afirma que "aquele que se alegra com a diversidade da natureza e sente que aprende com cada animal tende a considerar o Homo sapiens como a maior catástrofe desde a extinção cretácea".
Comida no congelador.
Há quinze anos, a Organização de Alimentação e Agricultura das Nações Unidas (FAO) criou uma rede mundial de recursos genéticos, destinada a salvar centenas de espécies de plantas silvestres das quais o mundo pode vir a precisar como alimento e remédio. São os bancos de germoplasma, o material genético estocado nas sementes, mudas, células e sêmen, guardados em geladeira, a temperatura de 20° C negativos. No Brasil, o Centro Nacional de Recursos Genéticos e Biotecnologia (Cenargen), em Brasília, mantém cerca de 35 mil amostras de sementes de espécies de mandioca, milho, batata, feijão, arroz - alimentos que fazem parte do cardápio da população - e outras que talvez só os índios e os especialistas conheçam. Ao preservar dessa maneira a diversidade da natureza, os cientistas pretendem em primeiro lugar melhorar a produtividade agrícola das espécies conhecidas, especialmente agora que a Biotecnologia e a Engenharia Genética permitem selecionar plantas mais resistentes. Muitas variedades silvestres também podem substituir as vinte espécies de plantas responsáveis pela maior parte da alimentação do homem. Pode chegar um tempo em que espécies como a quinua, um grão que já entrou na dieta básica dos incas, mas é quase desconhecido fora dos países andinos, se tornem uma das mais produtivas fontes de proteína para o homem.
Marcadores:
ambiente,
atmosfera,
biodiversidade,
Biologia,
DNA,
especies,
Mundo,
Pesquisa,
Planeta,
Planeta Terra,
Reprodução,
riqueza,
vida
quinta-feira, 30 de agosto de 2012
Civilização das Baratas - Natureza
CIVILIZAÇÃO DAS BARATAS - Natureza
Compartilham a casa do homem e sobrevivem nos mais diversos ambientes. Transmitem doenças terríveis e proliferam apesar das chineladas e dos inseticidas.
As seis patas espinhentas e ágeis da barata são capazes de transportar algo muito mais detestável do que o próprio inseto. Em algum ponto daquele corpo pode estar alojada a microscópica bactéria da peste, ou a da febre tifóide ou, pior ainda, o vírus da poliomielite. Uma espécie particular de virose - Herpes blattae - é facilmente disseminada devido ao abominável hábito que as baratas têm de roer os lábios das pessoas durante o sono. Além de recolherem partículas de alimentos que permaneceram aderidas aos cantos da boca, as baratas costumam introduzir a cabeça nas narinas dos adormecidos para saborear demoradamente as secreções nasais. É claro que este comportamento qualifica a barata, pelo menos em potencial, como uma perigosa vetora de doenças. Ela contribui também para a transmissão da cólera, da bouba, do carbúnculo e de vários tipos de conjuntivite.
Qualquer tipo de barata doméstica representa um dos subprodutos mais corriqueiros das civilizações e quando prolifera com facilidade transforma-se num indicador de falta de higiene. Desde que passaram a desfrutar de novos abrigos e fontes de alimento, graças aos descuidos com a limpeza dos antigos agrupamentos humanos, algumas espécies de baratas revelaram-se ávidas degustadoras de tudo o que serve de comida para nós. E do que não serve também. Atualmente, as baratas que se tornaram caseiras não poupam sequer os fios dos eletrodomésticos.
Para nós é reconfortante saber que das mais de 3 mil espécies de baratas que habitam o planeta apenas quatro são consideradas prejudiciais à saúde pública, por terem se tornado insetos caseiros. As demais espécies se mantêm a distância dos seres humanos, espalhadas por quase todos os ambientes naturais, sobrevivendo em regiões tão divergentes entre si como os desertos e as florestas tropicais. A grande barreira ecológica para esses insetos é o frio intenso, mas nem mesmo isso privou os lapões - que habitam o norte da Europa - do convívio noturno com uma minúscula e incômoda baratinha que costuma se aquecer em seus dormitórios.
As baratas caseiras não representam nenhum papel na cadeia ecológica: elas são apenas uma praga. Já as suas irmãs silvestres desempenham variadas tarefas na reciclagem de material orgânico vegetal e animal e servem de alimento para vários predadores, animais noturnos como elas. A distribuição geográfica das baratas caseiras ampliou-se bastante na época das grandes navegações. As antigas caravelas costumavam transportar milhares de baratas através dos oceanos, deixando que elas fundassem novas e prósperas colônias nos continentes recém-descobertos.
O relato mais impressionante sobre o problema das baratas em viagens transoceânicas foi feito em 1587 por Sir Francis Drake, um intrépido comandante a serviço da rainha da Inglaterra. Depois de tomar dos espanhóis o valioso galeão San Felipe, ele descreveu em seu diário de bordo o início de uma nova e terrível luta contra a incalculável multidão de baratas que infestava a nau espanhola. Drake acabou perdendo a batalha para elas e a sua derrota revelou-se um sombrio prenúncio de que as baratas não deixariam tão cedo de atormentar os viajantes marítimos.
Para quem já tentou eliminar uma barata, o aparente insucesso do famoso pirata inglês não causa espanto. O animal é capaz de se arrastar dezenas de metros com as vísceras expostas devido a uma potente chinelada, esconder-se e ser visto mais tarde roendo restos de comida no mesmo local onde havia sido surpreendido. Mesmo depois de decapitadas, as baratas conseguem se evadir com a agilidade de sempre. Um gânglio nervoso situado no tórax substitui parte das funções do cérebro e passa a coordenar os movimentos da fuga. Se a barata sem cabeça corre, como de costume, para um lugar escuro é porque seu corpo possui um revestimento de células sensíveis à luz. Assim, mesmo desprovida dos olhos, ela consegue localizar as sombras e desaparecer na escuridão.
Na verdade, os olhos não desempenham uma grande função para essa típica passeadora noturna. De muito maior importância são as duas longas antenas recobertas por milhares de poros e de pelinhos microscópicos. Operando como órgãos táteis e olfativos simultaneamente, as antenas revelam uma espantosa acuidade sensorial ao detectar substâncias nocivas ao inseto, protegendo-o contra as poderosas iscas venenosas e inseticidas líquidos usados para combatê-lo.
As antenas também são utilizadas como sensores de direção. Sem elas, as baratas perdem a noção de estar indo para a direita ou para a esquerda. Numa experiência que se tornou clássica, várias baratas foram submetidas a pequenos choques elétricos quando fugiam para uma das extremidades de um tubo em forma de T. Elas aprenderam a superar a sua normal aversão pela luz e passaram a correr para o lado luminoso depois de levarem choques sucessivos dentro do braço escuro do tubo. Mas, com uma das antenas removida, o inseto já não apresentava mais o resultado do treinamento. A amputação da antena esquerda de uma barata treinada para fugir para esse lado causava-lhe quase sempre uma desastrosa evasão à direita, encaminhando-a aos fios elétricos. Essa experiência também demonstrou que a velocidade e a retenção do aprendizado é bastante desigual entre baratas da mesma espécie. O número de choques usado para treiná-las foi de vinte a cem. Depois, verificou-se que baratas diversas retiveram o aprendizado por um tempo que variou de cinco minutos a uma hora.
Comprovadamente, o cérebro de uma barata não é o responsável pelo excelente desempenho desse tipo de inseto na luta pela sobrevivência. Admitimos que a barata seja um "bicho que deu certo", porque ela pouco modificou sua estrutura externa quando comparada com os fósseis de suas ancestrais, insetos que existiram há 320 milhões de anos. O ambiente em que viveram as baratas pré-históricas assemelhava-se ao de uma luxuriante e superúmida floresta tropical. Foi naquele cenário que, em circunstâncias desconhecidas, alguns grupos de baratas passaram a diferenciar-se acentuadamente dos demais, não só na anatomia mas, sobretudo, no comportamento. Lentamente, nos agrupamentos de baratas mutantes surgiram procedimentos típicos de insetos sociais e suas congregações passaram a se organizar em castas orientadas para a execução das variadas tarefas de construção, reprodução, defesa e obtenção de alimentos. Por fim, elas alcançaram os dias de hoje estruturadas em sólidas sociedades que viemos a denominar de termiteiros ou cupinzeiros.
Cupins e baratas são tão aparentados entre si que um especialista já propôs reuni-los numa mesma ordem de insetos. Curiosamente, os dois caminhos evolutivos seguidos por esses insetos culminaram nas formas atuais, combatidas pelo homem.
Um fato notável: dezoito espécies de microorganismos encontradas no trato digestivo de uma barata norte-americana são da mesma família encontrada nos intestinos dos cupins. Esses protozoários e bactérias atuam auxiliando o inseto na digestão de substâncias resistentes como, por exemplo, a celulose. Eles podem ser transferidos artificialmente do organismo da barata para o do cupim e, assim mesmo, continuarem a se reproduzir com sucesso. Complexas adaptações entre microorganismos e insetos demonstram que as relações entre eles são simbióticas, isto é, esses relacionamentos são de vital importância para ambos. Isso ficou comprovado quando se descobriu que os insetos podem apresentar os mais diversos mecanismos de transferência de microorganismos para seus descendentes.
Nas baratas, as bactérias simbiontes migram do intestino para os ovários, instalam-se sobre a superfície dos óvulos do inseto e, depois, infiltram-se dentro deles, garantindo sua "cadeira cativa" nas baratinhas da geração seguinte. No momento da postura, um pequeno aglomerado de ovos fica protegido por uma rígida embalagem fabricada por glândulas abdominais do inseto: a ooteca ou ovoteca. A dureza da ovoteca é resultante da mistura de duas substâncias que só endurecem quando entram em contato, reagindo entre si como acontece com certas colas dotadas de grande poder de adesão (e vendidas em dois tubos separados). A enorme barata caseira, de colorido castanho-avermelhado, deposita dezesseis ovos em cada ovoteca. Ela vive no máximo dois anos, mas consegue produzir em média cinqüenta ovotecas e gerar, ao menos em teoria, uma descendência de oitocentas baratinhas, que demoram 45 dias para nascer. Mesmo que apenas uma minúscula parte delas atinja a idade adulta, escapando de parasitos, predadores e dos produtos químicos aplicados para exterminá-las, podemos ficar certos de que surgirão aos milhares ao menor descuido em nossa vigilância. A barata avermelhada é uma das quatro espécies que atingiram o grau de "doméstica", o que significa que dificilmente nos livraremos dela.
Medo de barata
- Barata? Bicho nojento...
- Medo? Nenhum... Pensando bem, só de barata. Comentários desse tipo não são incomuns, do mesmo modo que não é raro ver gente subindo em mesas ou cadeiras para fugir desse pequenino ser. E incrível como o homem, apesar de sua racionalidade, sente-se à mercê de um inseto frágil, desprovido de recursos para agressão. Só mesmo a mente humana poderia tê-lo transformado num monstro tão forte e poderoso, capaz de fazer uma pessoa literalmente gritar de pavor.
O absurdo dessa contradição pode ser percebido por qualquer observador, mas não faz sentido para quem vive tal angústia. Ela pode até parecer um medo real da barata, mas não é. É de seus próprios impulsos agressivos, muitas vezes sentidos como inadmissíveis e por isso mesmo inacessíveis ao conhecimento, que a pessoa tem medo. E como a mente humana precisa, de alguma forma, lidar com essas suas peculiaridades, prega uma peça na pessoa que não consegue ter esse contato íntimo consigo mesma.
A mente passa, então, a mostrar claramente à pessoa que sentimentos hostis existem - contanto que sejam manifestados contra a barata. O medo real é do que se passa dentro, e não fora da pessoa. O de fora apenas se ajusta certinho a esses medos, que tanto podem ser de baratas como de ratos, cobras ou seja lá o que for capaz de lembrar o que de ruim pode nos acontecer: doenças, morte, impotência etc. São horrores guardados nos nossos porões, muitas vezes sentidos como se fossem esgotos parecidos com os que servem de morada às baratas: cheios de sujeiras e coisas estragadas.
Como não é fácil tomar consciência desses sentimentos, a pessoa tende muitas vezes a deixá-los intocados. Sente por eles a mesma repugnância que sente pela barata. Por sinal costuma-se chamar essa repugnância de nojo, a mesma palavra que designa situações de luto, tristeza ou mágoa profunda. Nas situações difíceis de suas vidas, que não estão prontas para suportar ou administrar, tais pessoas sentem-se enojadas, com um terrível mal-estar psicológico. Também essa repugnância pela situação problemática é parecida com a que se passa em relação à barata. Ambas se apresentam sorrateiramente, ameaçando nossa onipotência (desejo de poder qualquer coisa, inclusive acabar com as baratas). Manda-se embora, e elas voltam. Mostram a impotência da pessoa, sua incapacidade de enfrentar o inesperado.
Certamente, para quem não tem acesso às suas próprias situações interiores, essa explicação não terá sentido. Tais pessoas ainda não se deram conta da existência de seu mundo interno, cheio de medos, angústias, fantasias, embora sejam exímias observadoras das situações externas de medo - são as chamadas medrosas, que gritam de pavor diante de uma barata. Mas que ninguém se iluda. Nesse caso, não há medo real, apenas a busca de uma forma mais simples de lidar com aquelas aflições e angústias.
Marcadores:
ambiente,
baratas,
habitação,
humanidade,
inseto,
medo,
Natureza,
nojento,
praga,
Reprodução,
sobrevivencia
Assinar:
Postagens (Atom)


