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segunda-feira, 2 de julho de 2018

Cientistas afirmam terem realizado a primeira transferência de memória entre seres vivos


Cientistas afirmam terem realizado a primeira transferência de memória entre seres vivos


Uma equipe de cientistas, liderada pelo neurobiólogo David Glanman afirma que conseguiu transferir a memória de um ser vivo para o outro para outro, após injetar ácido ribonucleico em ambos. 

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Cientistas podem ter encontrado o algoritmo da inteligência


Cientistas podem ter encontrado o algoritmo da inteligência


Alguns cientistas adeptos da teoria de que todos os processos cerebrais são interligados podem ter encontrado o algoritmo da inteligência. Seguindo o que propõe a teoria, uma lógica matemática seria capaz de simular a “computação cerebral”, ou seja, um algoritmo capaz de mapear o processamento de informações pelo cérebro.

terça-feira, 8 de novembro de 2016

Estudo afirma que videogames afetam nosso estado de consciência


Estudo afirma que videogames afetam nosso estado de consciência


O fenômeno dos games ultrapassa fronteiras e já não pode ser ignorado por disciplinas como a sociologia ou a medicina.

quarta-feira, 2 de março de 2016

Cientistas desenvolvem método de aprendizado semelhante ao de 'Matrix'


Cientistas desenvolvem método de aprendizado semelhante ao de 'Matrix'


No universo do filme "Matrix", as máquinas simulam uma realidade virtual dentro da mente dos seres humanos por meio de sinais elétricos interpretados pelo cérebro. É o mesmo método que os humanos renegados usam para fazer o download de certas habilidades para suas versões digitais dentro da Matrix.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Estudo aponta que cérebro de homens e mulheres funcionam da mesma maneira


Estudo aponta que cérebro de homens e mulheres funcionam da mesma maneira


Esqueça qualquer coisa que você já escutou sobre mulheres serem "multifuncionais" ou homens entenderem melhor os mapas: uma pesquisa inédita da Universidade de Tel Aviv, em Israel, atestou que os cérebros humanos não se ajustam às categorias feminino e masculino. 

segunda-feira, 30 de março de 2015

Lembranças apagam do cérebro memórias semelhantes


Lembranças apagam do cérebro memórias semelhantes



Estudo mostra que cérebro foca na memória que parece ser mais importante e apaga a outra para que não haja interferência.

Uma lembrança específica pode nos fazer esquecer outra parecida - e neurocientistas conseguiram observar este processo usando imagens computadorizadas do cérebro.

quinta-feira, 12 de março de 2015

Pesquisadores encontram cérebro de 2600 anos extremamente bem conservado


Pesquisadores encontram cérebro de 2600 anos extremamente bem conservado



Quando se fala em achados arqueológicos, é bastante raro encontrar qualquer tipo de tecido mole humano, como pele ou carne. Contudo, uma descoberta de 2009 e apenas divulgada recentemente trouxe um componente surpreendente: nada menos do que um cérebro. O órgão preservado foi encontrado por pesquisadores do York Archaeological Trust, em Heslington, no condado de York, na Inglaterra.

domingo, 23 de junho de 2013

Cientistas criam mapa 3D superdetalhado do cérebro humano


Cientistas criam mapa 3D superdetalhado do cérebro humano

Pesquisadores cortam segmentos do cérebro para criar o modelo 3D ‘BigBrain’ (Foto: AP Photo/Katrin Amunts, Karl Zilles, Alan C. Evans)

Modelo tem 100 mil vezes mais dados do que uma ressonância magnética.
Mais de 7 mil 'fatias' de um cérebro foram digitalizadas para criá-lo.

domingo, 30 de dezembro de 2012

Dez anos para decifrar o cérebro - Biologia


DEZ ANOS PARA DECIFRAR O CÉREBRO - Biologia



Agora é pra valer: os cientistas proclamam a Década do Cérebro (1990-1999), durante a qual pretendiam desvendar todos os segredos do mais misterioso órgão do corpo humano, sera que conseguiram...

No final do ano passado, o aparelho de eletroencefalograma instalado no laboratório de neurociências da Universidade de Calgary, no Canadá, começou a desenhar ondas regulares, que representavam o ritmo cadenciado da respiração de uma Lymnaca-uma espécie de lesma marinha com pulmões. O exótico animal costuma subir à superfície da água, de instantes em instantes, abrindo um orifício para a entrada do ar. Mas, no centro de pesquisas canadense, não havia água salgada, nem lesmas. A pulsação registrada vinha, apenas, de três neurônios espetados por delgados eletrodos. O trio, em condições normais, deveria comandar a respiração da Lymnaca e aquela era a primeira vez que os cientistas conseguiam observar o sistema nervoso comandando uma função fora do organismo. Equivaleria a reproduzir uma gargalhada ou um espirro em tubo de ensaio, para se verificar literalmente a raiz do fenômeno: os neurônios, as células onde nascem todas as funções orgânicas, assim como as sensações, as emoções e os pensamentos. As células nervosas que serviram de modelo nessa experiência pioneira funcionam como um oscilador eletrônico conhecido pelos cientistas por flip-flop-dois transístores ligados de modo que um deles, ao conduzir a corrente elétrica em sua saída, impede a entrada da corrente do outro. Assim, um neurônio aciona o músculo envolvido na inspiração da lesma e, ao mesmo tempo, bloqueia um segundo neurônio, responsável por disparar o movimento da expiração. No momento seguinte, a situação se inverte. É o terceiro neurônio, no caso biológico, que controla os dois que irão oscilar, banhando-os com uma substância chamada dopamina, numa espécie de ordem química. Cientistas do mundo inteiro, agora, pretendem realizar estudos semelhantes, trocando o tipo de neurônio e substituindo, muitas vezes, a dopamina por outras substâncias neurotransmissoras, a fim de flagrar novos mecanismos do sistema nervoso.
A mesma técnica, aliás, já serviu para que neurologistas da Universidade Columbia, nos Estados Unidos, assistissem à modificação neuronal provocada pela memória. Eles imitaram o cientista russo Ivan Pavlov que, no início deste século, induziu cães a salivar toda vez que ouvissem uma campainha-sinal sonoro associado com o horário da refeição. Só que, no caso, os alunos eram 29 pares de neurônios, retirados de outra espécie de lesma marinha, a Aplysia. Um neurônio sensorial, representando o papel do ouvido do cão na experiência pavloviana, recebia um estímulo e acionava em seguida um neurônio motor, equivalente à salivação do bicho. Sem a presença de um neurotransmissor específico, chamado serotonina, aquele neurônio motor reagia como se estivesse sendo estimulado pela primeira vez. Com serotonina, porém, agora consagrada como uma substância fundamental ao aprendizado, a cada repetição o segundo neurônio respondia mais depressa, porque reforçava suas ligações, os axônios, com a primeira célula.
Na realidade, ao se lidar com circuitos simples, formados por poucos neurônios, o que se espera é montar, peça por peça, o intricado quebra-cabeça do  cérebro humano - a trama de nada menos que 100 bilhões de células nervosas. A tarefa hercúlea tem um prazo final bem definido: dez anos, que começaram a correr a partir do calendário de 1990. Ao menos, esse é o desafio dos cientistas americanos. Pois o presidente dos Estados Unidos, George Bush, sancionou lei instituindo a Década do Cérebro, que começou no ano passado. Nesses dez anos, as instituições governamentais ligadas à pesquisa devem destinar a maior fatia do orçamento ao estudo do sistema nervoso, enquanto as escolas e empresas privadas que financiarem essa investigação pagarão menos impostos. Com isso, a meta é injetar recursos nas experiências sobre o cérebro. O investimento é lógico: cerca de 50 milhões de americanos são vitimas de algum distúrbio neurológico e gastam, entre exames de diagnóstico e tratamento, aproximadamente 120 bilhões de dólares por ano, uma montanha de dinheiro equivalente ao valor da dívida externa brasileira. Diga-se de passagem, a Década do Cérebro arrancou com força total naquele país. Pois, logo em maio de 1990. pesquisadores da Escola de Medicina Johns Hopkins anunciaram a reprodução de neurônios humanos-células que, até então, tinham a fama de jamais se multiplicar, depois do nascimento.
A proeza foi realizada quando dois neurocirurgiões, Jeffrey Nye e Salomon Snyder, retiraram amostras do córtex-a superfície cinza-chumbo do cérebro-de uma garota de 18 meses, submetida a uma operação. As células extraídas foram mergulhadas em diversos coquetéis de nutrientes e hormônios do crescimento. Passados 21 dias, duas colônias de neurônios começaram a crescer, em vez de morrer como as outras. Elas, aliás, continuam dobrando de população a cada 72 horas. "A descoberta abre a possibilidade de testar drogas e estudar doenças de maneira direta", comemora o neurofisiologista carioca Roberto Lent, que coordena uma dúzia de grupos de pesquisas em neurociências, no Instituto de Biofísica da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Na opinião do cientista, embora criada nos Estados Unidos-país onde são realizadas quatro de cada dez pesquisas científicas publicadas no mundo -, a Década do Cérebro repercutirá em laboratórios distantes do território americano. "Tamanha a comunicação entre os pesquisadores, que é possível saber, no dia seguinte, de uma descoberta feita lá fora", afirma Lent, que fez doutoramento no conceituado Massachusetts Institute of Technology (MIT), com o qual há dez anos, mantém uma linha de colaboração. Um dos estudos desenvolvidos pelos cientistas cariocas é o da depressão alastrante, fenômeno descoberto pelo neurologista brasileiro Aristides Leão, ainda em 1944. "Trata-se de uma baixa elétrica global no sistema nervoso, que pode acontecer depois de uma superexcitação dos circuitos neuronais como nas epilepsias", descreve Lent. "Sabemos que isso eventualmente se relaciona com certos tipos de enxaqueca. Portanto, investigar como e por que essa depressão ocorre levará a novos tratamentos para aquelas terríveis dores de cabeça." A Medicina, sem dúvida, será a maior beneficiada com a recente efervescência dos laboratórios de Neurologia. Mas esses estudos têm ainda aplicações, visíveis no horizonte, na área de inteligência artificial. "Só conhecendo o cérebro humano é que se pode criar máquinas capazes de tomar decisões a partir de uma informação qualquer", informa Lent, que também desenvolve trabalhos de apoio aos cientistas da área de Informática da UFRJ. Nesse sentido, segundo o neurofisiologista, outra vez é mais importante investigar a intimidade das células nervosas do que insistir no mapeamento cerebral, isto é, na determinação de funções específicas para cada área do cérebro, que antes parecia ser a mania de muitos pesquisadores.
Nunca, é verdade, os cientistas reuniram tantos equipamentos para bisbilhotar o funcionamento do sistema nervoso e, conseqüentemente, para traçar mapas, indicando a participação de cada uma de suas regiões. No final dos anos 80, por exemplo, surgiu o PET, sigla em inglês para tomógrafo de emissão de pósitrons, como são chamados os elétrons com carga elétrica positiva. Esse aparelho cria a oportunidade de se observar o cérebro em plena ação: injetados na circulação, os pósitrons se chocam com os elétrons do organismo, provocando pequenas explosões que liberam raios gama. Desse modo, um detector desses raios acusa as áreas cerebrais mais irrigadas pelo sangue, logicamente, aquelas mais ativas em uma situação qualquer-quando a pessoa examinada, por exemplo, ri ou chora, dorme ou faz ginástica, faz cálculos matemáticos ou devaneia diante de um quadro.Ironicamente, novas técnicas, como o PET, mostram que o cérebro nem sempre se comporta de acordo com a expectativa. Sua estrutura é muito mais complexa do que imaginávamos", reconhece Lent. "Além disso, os mapas também podem enganar. Até há pouco tempo, acreditávamos que a linguagem dizia respeito exclusivamente ao hemisfério cerebral direito", exemplifica. "No entanto, quando ocorre uma lesão no hemisfério esquerdo, a pessoa pode continuar falando e compreender do o que ouve ou o que lê, mas deixa de exprimir suas emoções através da voz, torna-se monotonal. E o hemisfério esquerdo, portanto, que faz alguém berrar ou falar mansinho."Em vez de caçar o endereço das funções do cérebro no labirinto de sua massa cinzenta, muitos pesquisadores concentram suas atenções na possibilidade de regenerar os estragos na rede de neurônios, provocados por doenças ou traumas. "Nos anos 40, o sistema nervoso era considerado irrecuperável, isto é, uma vez lesado, danou-se", conta o neurologista Esper Cavalheiro. Chefe de um dos principais laboratórios de Neurologia Experimental do pais, o da Escola Paulista de Medicina, Cavalheiro recorda que, nos tempos de estudante, dizia-se que o papel do neurologista terminava no diagnóstico. "Isso desanimava tanto os cientistas como os investidores interessados em pesquisas", lamenta. Hoje, no entanto, Cavalheiro e seus colegas apagam da memória o velho conceito da irreversibilidade. "Caminhamos muito no sentido de reverter as lesões tanto do cérebro como do sistema nervoso periférico, ou seja, dos nervos espalhados pelo corpo", diz, com animação.A equipe de neurologistas da Escola Paulista de Medicina, por exemplo, uniu-se a pesquisadores de Biologia Molecular para criar falsos neurônios a partir de fibroblastos, células da pele envolvidas no processo de cicatrização. "Alteramos seus genes, para transformá-las em usinas de substâncias neurotransmissoras e depois as multiplicamos em meios de cultura", explica Cavalheiro. "Implantados no cérebro de cobaias, os falsos neurônios podem produzir dopamina, por exemplo, cuja escassez provoca as agruras do mal de Parkinson. A idéia é que eles acabem suprindo essa falta." A primeira etapa dessa experiência de implante tem enorme sucesso. Mas, então, o fibroblasto acostumado a se reproduzir com facilidade, para fechar rapidamente as feridas da pele, não pára de crescer. "Eles terminam se transformando em tumores cerebrais", esclarece Cavalheiro. "Mas o importante, por enquanto, é saber que somos capazes de fabricar neurônios sob medida para consertar um problema", contenta-se o pesquisador, que cogita a possibilidade de substituir os fibroblastos por neurônios retirados do sistema periférico-"como os dos nervos do intestino".
Aparentemente, o ideal seria implantar neurônios cerebrais na região lesada. "Não faz sentido, porém, criar um segundo dano no cérebro, arrancando-lhe um pedaço, para curar a primeira lesão", esclarece Cavalheiro. Para resolver o impasse, alguns países sondam a possibilidade de usar, nesses implantes, neurônios de cérebros de fetos, obtidos em abortos. Contudo, além da discussão ética, os cientistas esbarram na dificuldade de analisar o resultado dessas operações. "Até o momento, ainda não se sabe se as células fetais, uma vez implantadas, funcionam conforme o esperado ou se permanecem em um dormente estado embrionário, inabaláveis, sem provocar alterações de qualquer espécie", diz Cavalheiro com ar cauteloso.
O neurologista também se dedica à pesquisa de distúrbios, como a epilepsia, que representa cerca de 15% dos casos de doentes nervosos. "Nela é como se os neurônios, de repente, passassem a receber uma estimulação excessiva", define. "Sem compreender o novo código, eles passam sinais em alta freqüência para outros neurônios." Esse desajuste nos circuitos cerebrais pode se traduzir, enquanto dura a crise epiléptica, em movimentos involuntários, emoções como medo incontrolável ou percepção de odores inexistentes, entre inúmeros sintomas. "As causas do problema podem ser genéticas, traumáticas ou infecciosas", conta o professor. "Felizmente, hoje já se fala em neurogenética, isto é, em localizar os genes que provocam distúrbios no sistema nervoso. No futuro, quem sabe, os problemas se tornarão previsíveis, graças a exames com marcadores de DNA. Nossa meta é impedir a evolução dos distúrbios, em vez de simplesmente atenuar seus sintomas."Novos exames também buscam separar com precisão o que existe de Biologia em problemas que, antes, eram considerados puramente emocionais, como a depressão e as psicopatias. "A Psiquiatria voltou a ser Medicina, diagnosticando sintomas biológicos" opina um dos mais respeitáveis neurologistas brasileiros, César Timo-laria, professor da Universidade de São Paulo. Há mais de 25 anos, ele persegue no sistema nervoso pistas sobre a fisiologia do sono e da vigília e sobre o controle do metabolismo. "Ultimamente, examinamos as alterações do fluxo sangüíneo durante o alerta", conta Timo-Iaria. Segundo o neurologista, um dos sinais de que a pessoa está em alerta é o potencial elétrico da superfície cerebral ou córtex, que reduz a voltagem e aumenta a freqüência. Outro sinal é o diâmetro pupilar. "Embora ninguém consiga perceber a olho nu, a pupila vive oscilando conforme o grau de atenção", explica Timo-Iaria. "Durante uma conversação, ela se dilatará quando o assunto despertar maior interesse". exemplifica, sem abandonar o estilo didático. "Também existem alterações na circulação do sangue pelo cérebro, que é maior naquelas regiões que estão sendo mais solicitadas. Se estou olhando com atenção para algo, então irá mais sangue para as áreas do córtex relacionadas com a visão."De acordo com Timo-Iaria, o grande desafio desse estudo é o fato do alerta variar a todo instante. "Afinal. as pessoas estão sempre pensando. Mesmo aqueles faquires que fazem o diabo para relaxar a mente. na realidade só pensam em não pensar", brinca com as palavras o professor, orgulhoso de conhecer como poucos a língua portuguesa, aliás, sua segunda paixão, depois da Medicina. Prestar atenção, por fim, acelera o coração. Faz sentido. Para atender à demanda de sangue do cérebro, cujos neurônios em determinadas regiões foram subitamente ativados, ocorre uma dilatação dos vasos que conduzem o fluxo à cabeça. "Isso poderia acarretar uma queda brusca da pressão. Mas ocorre o contrário, pois o músculo cardíaco, para compensar, se contrai mais rápido e com mais vigor. No final, a pressão aumenta", descreve. César Timo-Iaria é aquele tipo de pessoa que nunca começa uma história sem ter um objetivo: "Qualquer fenômeno do sistema nervoso mobiliza outros sistemas do organismo", conclui.
Em suas investigações sobre o sono, ele recentemente passou a se concentrar nos sonhos de ratos-"mas pretendo, em breve, passar para gatos, animais que parecem ter nascido para a pesquisa do sistema nervoso", revela. Segundo o professor, os sonhos não provocam somente alterações nas ondas cerebrais, mas em todo o sistema nervoso, com manifestações corporais diversas. "Se alguém sonha que está seguindo uma pessoa, os olhos se movem; se sonha que escuta uma voz, os nervos do ouvido emitem sinais", garante. "Como o olfato é um sentido muito importante para os ratos, nesses animais nós registramos movimentos do focinho." Ao examinar a atividade elétrica da região cerebral do hipocampo, o neurologista flagra o instante em que o rato começa a sonhar. Outra indicação do sonho: "É a única fase do dia em que a musculatura fica completamente relaxada".
O mais interessante, porém, é que a expressão corporal do sonho costuma aparecer de meio a 2 segundos depois de seu início. "É mais ou menos o que, supõe-se, hoje, acontece na vigília. Há indícios biológicos de que uma pessoa só tem consciência de um ato ou pensamento-seja lá o que for- cerca de meio segundo após seu cérebro ter deliberado o que ela irá fazer ou idealizar." Por enquanto, porém, os melhores cérebros que se dedicam ao sistema nervoso pouco conhecem sobre esses mecanismos aquém da razão, a vala comum onde estão os desejos, os instintos, os sentimentos e, de acordo com essa teoria, também os pensamentos mais lógicos. Resta intuir se, daqui ao final da década, eles terão concluído algum raciocínio. 

A estrutura mais complexa do Universo

O que se sabe sobre o emaranhado de 100 bilhões de células do cérebro humano.O cérebro humano vale muito mais do que o cerca de 1.3 quilo que pesa: se pudesse ser esticado, seria o maior entre todas as espécies, pois sua superfície cor de chumbo, o córtex, esconde nas reentrâncias nada menos de 9 décimos de sua área. Ali, no córtex, está sediada a maioria dos neurônios, células com milhares de prolongamentos, feito galhos -os dendritos, por onde chegam as informações das outras células nervosas. Na verdade, cada um dos 100 bilhões de neurônios cerebrais está ligado a 10 000 outros, aproximadamente, o que significa que ele pode receber 10 000 mensagens ao mesmo tempo. Ao processar esse colossal número de dados, o neurônio chega a uma única conclusão, que envia por uma saída exclusiva-um prolongamento chamado axônio.Um neurônio, porém, jamais encosta em outro e a informação salta no vazio graças a proteínas sintetizadas pelas próprias células nervosas: os neurotransmissores. "Hoje em dia, conhecem-se mais de 100 dessas substâncias", contabiliza o neurologista Esper Cavalheiro, da Escola Paulista de Medicina. "O mais interessante é que, cada uma delas, parece ter diversas funções no cérebro." É uma questão espacial, ou seja, de acordo com o pedaço da molécula que se encaixa em um receptor, na membrana de outro neurônio, o neurotransmissor provocará determinada reação. "Os cientistas, com freqüência, encontram novos receptores nas células cerebrais, indicando funções diferentes para neurotransmissores, cuja molécula, muitas vezes, já conheciam havia bastante tempo." 


O atalho das emoções

Cientistas da Universidade de Nova York, nos Estados Unidos, há apenas seis meses, derrubaram a teoria de que as emoções são percebidas exclusivamente na área cerebral do hipocampo. Segundo eles, amor e ódio podem ser disparados por outra região, a amídala, que fica nas proximidades do tálamo, a área que coleta os sinais sensoriais. Quando se reconhece o rosto de alguém. a amídala pode adicionar o registro de que você decididamente não gosta daquela pessoa. Esse acréscimo não passa pelo córtex, ou seja, não se toma consciência da emoção-a repulsa pelo outro, no caso do exemplo, é instintiva.Trata-se de um atalho neurológico: de acordo com os cientistas, que analisaram os dados do encefalograma de voluntários com a ajuda de um computador, à reação emocional da amídala economiza 40 milissegundos em relação à reação do hipocampo. Pode parecer uma fração insignificante de tempo, mas os pesquisadores desconfiam que esse intervalo ínfimo faz a maior diferença. Assim, o tálamo pode receber uma imagem, captada pelos olhos, que o hipocampo identifica como uma corda retorcida-mas, um instante antes de isso acontecer. a amídala la já teria acionado o reflexo do pulo. desencadeado pelo medo de aquela corda ser uma cobra. 

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Charcot - Anatomia da Loucura


CHARCOT: ANATOMIA DA LOUCURA



Pioneiro da Neurologia, ele ensinou os cientistas a enxergar a diversidade das doenças mentais. Suas pesquisas sobre a histeria e sua maneira de lidar com os pacientes mudaram os rumos da Medicina

Em outubro de 1985, um jovem médico chegou a Paris,vindo de Viena, na Áustria. Embora costumasse julgar-se indeciso, sua viagem à capital francesa tinha um objetivo bem definido: conhecer o "patrão", como dizia, assistir às suas aulas de Patologia Clínica e discutir com ele anatomia cerebral. O estrangeiro esperava também ter acesso a cérebros de crianças mortas para pesquisar. Só que o mestre trabalhava no Hospital La Salpétrière, onde a grande maioria dos pacientes eram mulheres - todas sofrendo de alguma forma de doença mental. E foi por isso que o visitante acabou fazendo a autópsia, não de uma criança, mas de uma mulher idosa, vitima de atrofia cerebral e epilepsia parcial. O episódio entrou para a história porque o médico se chamava Sigmund Freud e o "patrão", a quem ele ia ouvir toda terça-feira no lotado anfiteatro do La Salpétrière, era Jean-Martin Charcot.Freud tinha imensa admiração pelo trabalho de Charcot e se preocupava em agradá-lo. Acabou sendo notado. O célebre professor convidou três vezes o entusiasmado discípulo às concorridas reuniões em sua casa, no Boulevard Saint-Germain. Eles conversavam em alemão e Freud ganhou do anfitrião uma fotografia com dedicatória. De volta a Viena, pendurou o retrato na parede da sala e deu ao filho o nome de Jean Martin. Quando Charcot morreu, em 1893, aos 68 anos, o criador da psicanálise falou dele como "o maior pesquisador da jovem ciência da Neurologia, o pai dos neurologistas de todos os países e um dos maiores homens da França".Charcot não ignorava o quanto valia. Grave, sério, calado, era porém suficientemente vaidoso para raspar as têmporas a fim de acentuar os traços que julgava nobres do rosto. Era um exemplo perfeito dos cientistas de seu tempo: positivista, acreditava no inexorável progresso da ciência e na sua capacidade de explicar todo e qualquer fenômeno, em todo e qualquer campo do conhecimento. À frente de um hospício que abrigava algo como 5 000 doentes, o metódico Charcot resolveu observar, anotar, fotografar aquilo que chamava de "museu patológico vivo". Com a montanha de dados que colecionou durante os anos de permanência no La Salpétrière, assentou o estudo da Neurologia em bases científicas.Diferenciou a histeria da alienação e da epilepsia, provou que esses males, ao contrário do que se acreditava, não eram típicos do século XIX, não se manifestavam exclusivamente em mulheres, nem tampouco eram causados por distúrbios nos ovários. Descobriu diversas enfermidades novas, como a que passou a ter o seu nome (ou artropatia neurogênica, uma lesão da medula que faz os músculos das pernas e braços contrair-se), postulou que o cérebro não era uma massa homogênea, mas dividia-se em regiões que comandam, cada qual, partes distintas do corpo e criou, enfim, pela primeira vez, uma clínica de atendimento externo para doentes mentais.Embora, aos olhos de hoje, tal atendimento ambulatorial pareça algo elementar, a clínica representou uma espécie de revolução no diagnóstico das perturbações neurológicas. Assim, uma mulher com sintomas de nervosismo causados por razões as mais diversas, como esterilidade, por exemplo, não era mais internada por tempo indeterminado no pavilhão das histéricas. Os nove volumes da obra de Charcot sobre o sistema nervoso e suas doenças Ihe valeram a primeira cadeira de ensino de Neurologia do mundo. Ele veio a ser também um dos primeiros médicos especializados de que se tem noticia.Um dos três filhos de um construtor de carruagens parisiense, Jean-Martin teve a sorte de poder escolher a profissão, algo decididamente incomum na primeira metade do século passado. Ao notar nele uma extrema aptidão para o desenho, além de afiada inteligência, mas sem poder custear os estudos dos três, o pai decidiu que ao menos Jean-Martin merecia traçar os próprios rumos - entre a pintura e a Medicina. Sem escolha, o irmão mais velho herdaria a atividade paterna e o terceiro seguiria carreira militar. Jean-Martin não desapontou o fabricante de carruagens. Sua trajetória no internato dos Hospitais de Paris foi nada menos do que brilhante. Aos 28 anos defendeu tese de doutoramento sobre a gota e aos 35 ganhou fama - sem falar numa boiada de francos - por tratar do banqueiro e futuro ministro das Finanças Achille Fould. A única condição imposta pelo ilustre paciente ao jovem médico era que este aparasse os bigodes.Em 1862, com 37 anos, ingressou no famoso Asilo de Mulheres do Hospital de La Salpétrière, onde conjulgou por bom tempo as habilidades de clinico geral com as pesquisas sobre doenças do sistema nervoso. De certo modo, não havia abandonado a prática do desenho. Seu raciocínio era visual, isto é, dependia de minuciosas observações e desenhos precisos de membros atrofiados ou de rostos distorcidos de suas pacientes. Nos raros momentos de humor, também se exprimia por figuras. Ao enviar uma carta, costumava rabiscar, no lugar reservado ao nome e endereço do remetente, um galo que punha um ovo com o número seis. Os amigos não tinham dificuldade em desvendar o que significava o enigma: 6, rue du Coq (galo, em francês). Ali, Charcot morava antes de ocupar a luxuosa casa de Saint-Germain, para onde, mais tarde, convidaria o fascinado Sigmund Freud.Como, no entanto, era dado ao mais severo rigor, quando entrou para o que se supunha ser o maior hospício do mundo resolveu vasculhar sua história, assim como todos os cantos daquele trágico lugar. O asilo fora criado em 1657 para abrigar uma população que não se enquadrava nos restritos padrões sociais da época. Um ano depois da fundação, misturavam-se no seu pátio mulheres cegas, surdas, inválidas, doentes mentais ou simplesmente miseráveis. junto com crianças abandonadas. Um século mais tarde, 8 000 pessoas estavam confinadas no que já então se tinha transformado num misto de hospício com prisão de segurança máxima. A situação chegou a tal ponto que em 1792 um suposto "complô de mulheres" foi alegado para justificar um bárbaro massacre promovido pelas forças da ordem nas dependências do La Salpétrière.Em 1862, Charcot encontrou ali 4 000 internas - e fez questão de examinar uma a uma, em seu consultório. Um escândalo: na época, a praxe médica mandava o doutor ir até onde estivesse o paciente, ou seja, ele passava em revista de uma só vez dezenas ou mesmo centenas de pessoas de um pavilhão. Afrontando o costume, o novo professor fazia com que a doente entrasse em seu gabinete. Diante de ajudantes e alunos, mandava que ela se despisse enquanto seus olhos percorriam cada reação, cada anomalia. Charcot nada dizia aos discípulos que se entreolhavam. curiosos. Repetindo o processo com as sucessivas pacientes, ele fazia comparações, traçava intermináveis esquemas, diferenciava sintomas. Em casa, passava noites em claro estudando cada detalhe. Numa dessas madrugadas, constrangido, precisou chamar a mulher: de tanto enrolar os cabelos com o dedo indicador enquanto passava horas a fio debruçado sobre os estudos aprontou um nó tão grande que Madame Charcot teve de socorrer o marido com uma tesoura para que ele pudesse soltar a mão.Ao cabo de semanas de trabalho, chegou ao que lhe pareceu serem as características imutáveis e universais do grande ataque histérico, "válido para todos os tempos, todos os países e todas as raças". Para ele, a manifestação da doença se dividia em quatro fases sucessivas: a aura, estado que precede a crise, quando o doente começa a se agitar sem, no entanto, perder a consciência; a fase epileptóide, manifestada por gritos, palidez e perda de consciência; o período de contorções, também chamado "clownesco", acompanhado de atitudes passionais e gesticulações teatrais; e, finalmente, a fase de resolução, com choros, risos e delírios.Numa época em que perturbações mentais eram automaticamente associadas a comportamentos perigosos, sendo as pessoas encarceradas e postas a ferros, as pesquisas de Charcot representaram o início de uma nova compreensão dos distúrbios psíquicos, abrindo caminho, entre outras coisas, para as ousadas teorias de Freud sobre a sexualidade infantil e a repressão dos desejos. Coerente com a lógica científica em voga, Charcot optou por uma explicação estritamente biológica do problema da histeria -apontando para o fator hereditariedade -, mas não deixou de fazer alusões à influência das emoções no processo. Do mesmo modo, não lhe escapou a questão da sexualidade, mencionada na sua obra Iconografia fotográfica de La Salpétrière.O homem de pequena estatura que gostava de posar para fofos com ares de Napoleão e se sentia lisonjeado quando comparavam-no ao poeta italiano Dante Alighieri, tornou-se uma das personalidades mais controvertidas da sociedade parisiense de então. Emboradistante da política, protestou patrioticamente contra a anexação da Alsácia e da Lorena pela Alemanha na guerra franco-prussiana de 1870, recusando-se a dar aulas ou conferências naquele país. No hospital, era considerado um deus tanto pelas pacientes quanto pelas enfermeiras, estas não menos enclausuradas que as primeiras, que literalmente dedicavam as vidas àquele "grande asilo de misérias humanas".Seu nome correu mundo e trouxe-lhe à porta personalidades ilustres da política, das artes e da filosofia de muitos países. O imperador brasileiro Pedro II, por exemplo, fez questão de procurá-lo no consultório, como admirador é claro, não cliente. Durante anos, adotou o hábito de receber em casa, semanalmente, entre a primavera e o verão, a fina flor da intelectualidade francesa. Alguns colegas, porém, se insurairam contra seus métodos, sobretudo a exposição das doentes nas famosas aulas das terças-feiras, as incontáveis fotografias tiradas de todos os ângulos das infelizes mulheres. Houve quem o acusasse de farsante ao observar as sessões de hipnotismo a que recorria -e  que seriam imitadas por Freud.No anfiteatro do hospício, o autoritário Charcot se recusava a explicar um ponto de vista sem demonstrá-lo "ao vivo". Mandava entrar uma das pacientes e convocava um auxiliar. "Faça-a dormir", ordenava. O assistente apoiava por alguns instantes as mãos sobre os olhos da mulher. Ela emitia apenas um suspiro antes de cair em sono profundo. Logo, começava a obedecer a cada estímulo muscular provocado por Charcot, contorcendo-se como num ataque histérico. Em resposta aos que o acusavam de fraude, ele argumentava que a doente, não dispondo de conhecimentos de Anatomia, não poderia ter simulado os movimentos que o professor alegava ter induzido. Teatro ou não, o mestre tinha um trunfo definitivo: o grande número de curas alcançadas.Recursos médicos tão diversos como eletrochoques e uma até então inédita intimidade com os sintomas de cada paciente associavam-se perfeitamente a uma imensa confiança que as pessoas sentiam naquele personagem misterioso, de olhar seguro e andar calmo. Mas ele não vivia apenas para a ciência. Amava a literatura e a música - indo até mais longe do que um amador comum. Por exemplo, leu e anotou toda a obra de Shakespeare, seu autor favorito. Apreciava Mozart  e Beethoven, mas detestava Wagner, de quem dizia ser demasiado enfático. Não fosse para um concerto, jamais saía de casa às noites, nem gostava de ser importunado pela família. Seguiu à risca o exemplo paterno, decretando que a filha Jeanne deveria ser mãe de família e o filho Jean-Baptiste, médico. As ordens não foram contestadas. Jean-Baptiste, porém, entregou-lhe o diploma, engajou-se na Marinha, conquistou fama como grande explorador e morreu como herói a bordo do Porquoipas? na Antártida.Jean-Martin Charcot encarnou, como poucos, a ebulição por que passaram as ciências biológicas em geral e a Medicina em particular na segunda metade do século XIX; Com a nvençãp da anestesia, que a neurocirurgia seria praticada sem maiores problemas por seus sucessores. Foi seguidor fiel de Claude Bernard (1813-1878), o cientista francês que fundou a medicina experimental e o primeiro a defender a separação entre Nerologia e Psicologia. Em suma, puxou pela primeira vez o fio da meada que embaraçava todas as doenças mentais numa única, grande e indistinta categoria - a loucura."Existem mais coisas entre o céu e a terra do que é capaz de sonhar a vã filosofia", Charcot invocava seu bem-lido Shakespeare para justificar a obsessão de classificar separadamente cada moléstia psíquica, descrevê-la exaustivamente e tratá-la de maneira distinta e específica. 

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Ao cérebro o que é do cerebro

AO CÉREBRO O QUE É DO CÉREBRO



Um aroma insuportável se espalha pelo velho casarão de Beam Hall, em Oxford, Inglaterra. Com a ajuda de serrotes e tesouras, o médico Thomas Willis abre o crânio de um fidalgo decapitado. Matemáticos, astrônomos e alquimistas observam com atenção a experiência nunca antes realizada. Willis finalmente corta o último nervo, arranca o cérebro do morto e o levanta nas mãos para o assombro da platéia. Tem início a anatomia da alma.

Aquela reunião malcheirosa de 1662 havia se perdido na história, mas o jornalista americano Carl Zimmer a trouxe de volta no livro A Fantástica História do Cérebro (Campus). Zimmer narra a saga de Willis, que sepultou o reinado do coração e concedeu ao cérebro o título de comandante soberano do corpo. Ao dar à alma novo endereço, Willis fundou a neurologia. Mas não foi fácil: no século 17, a idéia de que carne gelatinosa em nossas cabeças pudesse raciocinar sem depender de Deus ia além do simples absurdo. Beirava a heresia.

Fascinado por ciência desde criança, Zimmer não imaginou que escreveria para revistas como Discover, Newsweek e National Geographic e o jornal The New York Times, além de publicar quatro livros. "Foi tudo uma questão de sorte", disse ele à Super, de sua casa em Connecticut. Thomas Willis diria que foi tudo obra de suas células cinzentas.

Pode a mente humana compreender o funcionamento da mente humana?

Com certeza. Meu livro mostra uma compreensão crucial que os cientistas tiveram no século 17: a de que a mente emerge de um processo químico dentro do cérebro. Hoje, temos ferramentas mais sofisticadas para encontrar essas conexões. Entendemos melhor como diferentes partes do cérebro constroem a imagem da árvore que vemos pela janela. Mas os cientistas estão apenas no começo e seria prematuro dizer que o problema está resolvido.

Como foi evolução das descobertas científicas sobre o cérebro?

Para Aristóteles, o cérebro era um refrigerador que mantinha o corpo frio e evitava que o coração esquentasse. Ele pensava que o coração era responsável por nossas sensações e percepções. Outros gregos descobriram o sistema nervoso, um avanço gigantesco, mas ninguém associava o cérebro ao que chamamos de mente. Muitos pensavam que ele era apenas uma bomba que expulsava espíritos do corpo. Na Idade Média, a Igreja combinou as idéias gregas com teologia cristã. Aprovou-se a visão de que o corpo servia de casa para três almas: a alma vegetativa do fígado, responsável pelos desejos; a alma vital do coração, produtora de calor e coragem; e a alma racional da cabeça. Essa noção foi quebrada no século 17, com o Círculo de Oxford, grupo liderado por Thomas Willis. Eles reconheceram o cérebro pelo que ele é de fato e inventaram uma nova ciência, que chamamos de neurologia.

Por que Thomas Willis foi esquecido?

Porque suas idéias vieram rápido demais. Willis teve visões impossíveis de seguir no século 17, pois as pessoas não tinham a tecnologia suficiente. Achavam que era especulação. Somente 200 anos depois aceitaram que o cérebro fosse o responsável por funções como memória e linguagem. Cientistas de hoje seguem as pegadas de Willis com scanners que podem tirar fotos do raciocínio. Registram marés microscópicas de sangue que suprem os neurônios do oxigênio consumido a cada sinal enviado às células vizinhas. Mas poucos sabem quem foi Willis. Na ciência, quem quiser ser famoso precisa torcer para que reconheçam logo seu trabalho. Ou será relegado à obscuridade.

Quais os maiores mistérios que persistem sobre o cérebro humano?

A memória é um deles. Podemos localizar circuitos para distintas formas de memória, mas não conseguimos explicar o que eles fazem. Imagine pessoas falando vários idiomas numa casa. Sabemos que algumas estão conversando no quarto, mas não sabemos o que estão dizendo. Mas o maior mistério é a consciência, que nos intriga sempre que dormimos ou ficamos sob efeito de anestesia. Há neurologistas que lidam com pessoas que sofreram danos e perderam a consciência de forma permanente, embora abram os olhos e reajam a estímulos. Elas podem ficar assim durante anos, e esses médicos não têm idéia do que as torna diferentes de nós.

Com tanto remédio para depressão, o cérebro se tornou a alma do século 21?

Thomas Willis pensava que o único caminho para curar as doenças da alma ou da mente era químico. Profundamente religioso, ele acreditava que suas poções alteravam os espíritos dentro do cérebro. O sucesso de drogas antidepressivas deriva da cultura neurocêntrica que Willis ajudou a criar, que coloca o cérebro no comando do corpo. A psicanálise era extremamente popular nos EUA nos anos 50 e 60, até sofrer um duro golpe do neurocentrismo. Hoje, muitos americanos tratam a depressão com um médico que receita drogas sem levar em conta suas experiências de vida. Esperamos que uma pílula pocure as doenças da alma. A idéia da depressão é confortadora para as pessoas porque distancia do problema central: tudo passa a ser culpa de uma deficiência de dopamina no cérebro que muito pouco tem a ver com nosso "eu".

O debate sobre a origem da moral se divide entre os"realistas", que crêem que julgamos pelo raciocínio, e os"intuicionistas", que dizem que as emoções determinam decisões sobre o que é certo e errado. De que lado você está?

Para entender como tomamos tais decisões, temos que nos distanciar da idéia de que tudo é criado através do poder da razão. Nossas emoções e reações são muito intensas e geralmente atuam mais rápido que o raciocínio. Suponhamos que seu cachorro morra atropelado. É certo cozinhá-lo para o jantar? A maioria dos americanos diria: "Oh, meu Deus, claro que não!". Comer um animal de estimação não faz parte de nossa cultura, mesmo que ninguém fique doente por isso. Poderão dizer que, se comermos nossos cães, começaremos a matar-nos uns aos outros. Quase sempre aplicamos valores racionais para a moral apenas depois que nossas intuições emocionais já atuaram. Essas intuições têm uma longa história evolutiva nos nossos ancestrais primatas.

Isso quer dizer que cada cérebro determina seu próprio padrão moral?

As pessoas não devem pensar que a moral não importa só porque descobrimos a evolução. Muitos cientistas afirmam que desenvolvemos nossa moralidade do mesmo jeito que desenvolvemos a linguagem. Os bebês não nascem falando português ou chinês. Nascem com instintos de linguagem e aprendem a falar o idioma do lugar onde vivem. Do mesmo modo, crianças que nascem com os instintos morais são influenciadas pelo sistema moral que as rodeia. Esses instintos são importantes, mas ainda assim temos que debater com nossos amigos para concluir o que é certo ou errado.

No futuro, será possível fazer um "upgrade" das funções executadas pelo cérebro com o auxílio de máquinas ou substâncias químicas?
Já fazemos isso. Ao escrever num notebook você está usando tecnologia para ampliar sua memória. Em breve, poderemos conectar eletrodos ao cérebro para que um computador leia nossos sinais e faça o que quisermos. Isso já deixou de ser ficção. O debate das substâncias químicas é mais sério. Drogas ajudam pessoas com o mal de Alzheimer a estender a memória e melhorar o raciocínio, ou seja, ajudam a restaurar o cérebro ao que ele era quando jovem. Mas e se você é jovem e toma essas drogas? É errado consumi-las para alterar o modo como pensamos, lembramos e sentimos? Deixamos de ser nós mesmos? Não sei responder. Emergimos de um processo químico que está em constante mudança dentro de nossas cabeças. O mesmo acontece com essas substâncias. Portanto, talvez não haja nada de errado com elas. O certo é que teremos que chegar a um acordo sobre esse tema no futuro.