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quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Feitiço do Tempo - Saúde


Feitiço do Tempo - Saúde


Eles são vermes transparentes que não medem mais do que 1 milímetro de ponta a ponta. Atendem por nematóides e vêm provocando muita inveja. Pois a ciência conseguiu prolongar barbaramente o seu tempo de vida. Na Universidade McGill, em Montreal, no Canadá, os nematóides se mexem menos do que o normal e comem menos também. Como um carro que roda pouco e conserva melhor seu motor, os vermes canadenses têm sobrevivido cinqüenta dias. É um período enorme, uma vez que nematóides morrem, em média, nove dias depois de terem nascido. Se a ciência obtiver, no futuro, um resultado semelhante com o homem, isso seria o mesmo que vê-lo apagar 420 velinhas.

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

A toca do dragão - Botânica


A TOCA DO DRAGÃO - Botânica


Segundo uma lenda árabe, um elefante e um dragão lutaram até a morte na ilha africana de Socotra, a sudeste do Iêmen, fazendo brotar lá uma árvore cuja seiva é vermelha como sangue. Mas a ciência sabe que foi a batalha pela sobrevivência que encheu o lugar de plantas exóticas como s sangue-de-dragão. Há 10 milhões de anos, Socotra não era uma ilha. Seus 3 600 quilômetros quadrados estavam colados na África e faziam parte da atual Somália. De lá pra cá o nível do mar subiu e ela ficou isolada no Oceano Índico. Enquanto rinocerontes acabaram com a vegetação costeira em terra firme, a flora da ilha sobreviveu às mudanças ambientais. As espécies mais resistentes ao clima semi-árido, com ventos de até 43 quilômetros por hora, transformaram Socotra em um dos maiores celeiros de espécies endêmicas - aquelas que só crescem em um lugar - em todo o mundo. São quase 300 plantas que só existem ali, segundo o relato dos botânicos escoceses Diccon Alexander e Anthony Miller, do Royal Botanic Garden de Edinburgo, publicado na revista inglesa New Scientist. Por isso a ilha está nos planos da ONU, para estudo do potencial econômico de sua biodiversidade.

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Máquina de criar bactéria - Saúde

MÁQUINA DE CRIAR BACTÉRIA - Saúde


Fermentadores modernos tornam a produção de vacinas pelo Instituto Butantan, em São Paulo, tão boa como as melhores do mundo.

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Choque Térmico - Medicina


CHOQUE TÉRMICO - Medicina


A mais leve queimadura já provoca um belo estrago nas células da pele. As mais graves, porém, conseguem até mudar o funcionamento do organismo.

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Uma dose de Veneno, por favor - Biologia


UMA DOSE DE VENENO, POR FAVOR - Biologia


Ao contrário das picadas de outras cobras, que costumam doer muito, a da cascavel provoca apenas uma sensação de formigamento. Agora já se sabe o motivo: na saliva dessa espécie existe um potente analgésico que, por não ser tóxico, deverá ser transformado em remédio 

domingo, 28 de julho de 2013

Talidomida continua a causar defeitos físicos em bebês no Brasil


Talidomida continua a causar defeitos físicos em bebês no Brasil


Mulheres que recebem prescrição de talidomida no Brasil são orientadas a utilizar duas formas de contracepção. Elas também passam por testes regulares de gravidez. (Foto: BBC)

Droga é proibida na maior parte do mundo.
No Brasil, ainda gera legião de bebês com deformidades, segundo estudo.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Charcot - Anatomia da Loucura


CHARCOT: ANATOMIA DA LOUCURA



Pioneiro da Neurologia, ele ensinou os cientistas a enxergar a diversidade das doenças mentais. Suas pesquisas sobre a histeria e sua maneira de lidar com os pacientes mudaram os rumos da Medicina

Em outubro de 1985, um jovem médico chegou a Paris,vindo de Viena, na Áustria. Embora costumasse julgar-se indeciso, sua viagem à capital francesa tinha um objetivo bem definido: conhecer o "patrão", como dizia, assistir às suas aulas de Patologia Clínica e discutir com ele anatomia cerebral. O estrangeiro esperava também ter acesso a cérebros de crianças mortas para pesquisar. Só que o mestre trabalhava no Hospital La Salpétrière, onde a grande maioria dos pacientes eram mulheres - todas sofrendo de alguma forma de doença mental. E foi por isso que o visitante acabou fazendo a autópsia, não de uma criança, mas de uma mulher idosa, vitima de atrofia cerebral e epilepsia parcial. O episódio entrou para a história porque o médico se chamava Sigmund Freud e o "patrão", a quem ele ia ouvir toda terça-feira no lotado anfiteatro do La Salpétrière, era Jean-Martin Charcot.Freud tinha imensa admiração pelo trabalho de Charcot e se preocupava em agradá-lo. Acabou sendo notado. O célebre professor convidou três vezes o entusiasmado discípulo às concorridas reuniões em sua casa, no Boulevard Saint-Germain. Eles conversavam em alemão e Freud ganhou do anfitrião uma fotografia com dedicatória. De volta a Viena, pendurou o retrato na parede da sala e deu ao filho o nome de Jean Martin. Quando Charcot morreu, em 1893, aos 68 anos, o criador da psicanálise falou dele como "o maior pesquisador da jovem ciência da Neurologia, o pai dos neurologistas de todos os países e um dos maiores homens da França".Charcot não ignorava o quanto valia. Grave, sério, calado, era porém suficientemente vaidoso para raspar as têmporas a fim de acentuar os traços que julgava nobres do rosto. Era um exemplo perfeito dos cientistas de seu tempo: positivista, acreditava no inexorável progresso da ciência e na sua capacidade de explicar todo e qualquer fenômeno, em todo e qualquer campo do conhecimento. À frente de um hospício que abrigava algo como 5 000 doentes, o metódico Charcot resolveu observar, anotar, fotografar aquilo que chamava de "museu patológico vivo". Com a montanha de dados que colecionou durante os anos de permanência no La Salpétrière, assentou o estudo da Neurologia em bases científicas.Diferenciou a histeria da alienação e da epilepsia, provou que esses males, ao contrário do que se acreditava, não eram típicos do século XIX, não se manifestavam exclusivamente em mulheres, nem tampouco eram causados por distúrbios nos ovários. Descobriu diversas enfermidades novas, como a que passou a ter o seu nome (ou artropatia neurogênica, uma lesão da medula que faz os músculos das pernas e braços contrair-se), postulou que o cérebro não era uma massa homogênea, mas dividia-se em regiões que comandam, cada qual, partes distintas do corpo e criou, enfim, pela primeira vez, uma clínica de atendimento externo para doentes mentais.Embora, aos olhos de hoje, tal atendimento ambulatorial pareça algo elementar, a clínica representou uma espécie de revolução no diagnóstico das perturbações neurológicas. Assim, uma mulher com sintomas de nervosismo causados por razões as mais diversas, como esterilidade, por exemplo, não era mais internada por tempo indeterminado no pavilhão das histéricas. Os nove volumes da obra de Charcot sobre o sistema nervoso e suas doenças Ihe valeram a primeira cadeira de ensino de Neurologia do mundo. Ele veio a ser também um dos primeiros médicos especializados de que se tem noticia.Um dos três filhos de um construtor de carruagens parisiense, Jean-Martin teve a sorte de poder escolher a profissão, algo decididamente incomum na primeira metade do século passado. Ao notar nele uma extrema aptidão para o desenho, além de afiada inteligência, mas sem poder custear os estudos dos três, o pai decidiu que ao menos Jean-Martin merecia traçar os próprios rumos - entre a pintura e a Medicina. Sem escolha, o irmão mais velho herdaria a atividade paterna e o terceiro seguiria carreira militar. Jean-Martin não desapontou o fabricante de carruagens. Sua trajetória no internato dos Hospitais de Paris foi nada menos do que brilhante. Aos 28 anos defendeu tese de doutoramento sobre a gota e aos 35 ganhou fama - sem falar numa boiada de francos - por tratar do banqueiro e futuro ministro das Finanças Achille Fould. A única condição imposta pelo ilustre paciente ao jovem médico era que este aparasse os bigodes.Em 1862, com 37 anos, ingressou no famoso Asilo de Mulheres do Hospital de La Salpétrière, onde conjulgou por bom tempo as habilidades de clinico geral com as pesquisas sobre doenças do sistema nervoso. De certo modo, não havia abandonado a prática do desenho. Seu raciocínio era visual, isto é, dependia de minuciosas observações e desenhos precisos de membros atrofiados ou de rostos distorcidos de suas pacientes. Nos raros momentos de humor, também se exprimia por figuras. Ao enviar uma carta, costumava rabiscar, no lugar reservado ao nome e endereço do remetente, um galo que punha um ovo com o número seis. Os amigos não tinham dificuldade em desvendar o que significava o enigma: 6, rue du Coq (galo, em francês). Ali, Charcot morava antes de ocupar a luxuosa casa de Saint-Germain, para onde, mais tarde, convidaria o fascinado Sigmund Freud.Como, no entanto, era dado ao mais severo rigor, quando entrou para o que se supunha ser o maior hospício do mundo resolveu vasculhar sua história, assim como todos os cantos daquele trágico lugar. O asilo fora criado em 1657 para abrigar uma população que não se enquadrava nos restritos padrões sociais da época. Um ano depois da fundação, misturavam-se no seu pátio mulheres cegas, surdas, inválidas, doentes mentais ou simplesmente miseráveis. junto com crianças abandonadas. Um século mais tarde, 8 000 pessoas estavam confinadas no que já então se tinha transformado num misto de hospício com prisão de segurança máxima. A situação chegou a tal ponto que em 1792 um suposto "complô de mulheres" foi alegado para justificar um bárbaro massacre promovido pelas forças da ordem nas dependências do La Salpétrière.Em 1862, Charcot encontrou ali 4 000 internas - e fez questão de examinar uma a uma, em seu consultório. Um escândalo: na época, a praxe médica mandava o doutor ir até onde estivesse o paciente, ou seja, ele passava em revista de uma só vez dezenas ou mesmo centenas de pessoas de um pavilhão. Afrontando o costume, o novo professor fazia com que a doente entrasse em seu gabinete. Diante de ajudantes e alunos, mandava que ela se despisse enquanto seus olhos percorriam cada reação, cada anomalia. Charcot nada dizia aos discípulos que se entreolhavam. curiosos. Repetindo o processo com as sucessivas pacientes, ele fazia comparações, traçava intermináveis esquemas, diferenciava sintomas. Em casa, passava noites em claro estudando cada detalhe. Numa dessas madrugadas, constrangido, precisou chamar a mulher: de tanto enrolar os cabelos com o dedo indicador enquanto passava horas a fio debruçado sobre os estudos aprontou um nó tão grande que Madame Charcot teve de socorrer o marido com uma tesoura para que ele pudesse soltar a mão.Ao cabo de semanas de trabalho, chegou ao que lhe pareceu serem as características imutáveis e universais do grande ataque histérico, "válido para todos os tempos, todos os países e todas as raças". Para ele, a manifestação da doença se dividia em quatro fases sucessivas: a aura, estado que precede a crise, quando o doente começa a se agitar sem, no entanto, perder a consciência; a fase epileptóide, manifestada por gritos, palidez e perda de consciência; o período de contorções, também chamado "clownesco", acompanhado de atitudes passionais e gesticulações teatrais; e, finalmente, a fase de resolução, com choros, risos e delírios.Numa época em que perturbações mentais eram automaticamente associadas a comportamentos perigosos, sendo as pessoas encarceradas e postas a ferros, as pesquisas de Charcot representaram o início de uma nova compreensão dos distúrbios psíquicos, abrindo caminho, entre outras coisas, para as ousadas teorias de Freud sobre a sexualidade infantil e a repressão dos desejos. Coerente com a lógica científica em voga, Charcot optou por uma explicação estritamente biológica do problema da histeria -apontando para o fator hereditariedade -, mas não deixou de fazer alusões à influência das emoções no processo. Do mesmo modo, não lhe escapou a questão da sexualidade, mencionada na sua obra Iconografia fotográfica de La Salpétrière.O homem de pequena estatura que gostava de posar para fofos com ares de Napoleão e se sentia lisonjeado quando comparavam-no ao poeta italiano Dante Alighieri, tornou-se uma das personalidades mais controvertidas da sociedade parisiense de então. Emboradistante da política, protestou patrioticamente contra a anexação da Alsácia e da Lorena pela Alemanha na guerra franco-prussiana de 1870, recusando-se a dar aulas ou conferências naquele país. No hospital, era considerado um deus tanto pelas pacientes quanto pelas enfermeiras, estas não menos enclausuradas que as primeiras, que literalmente dedicavam as vidas àquele "grande asilo de misérias humanas".Seu nome correu mundo e trouxe-lhe à porta personalidades ilustres da política, das artes e da filosofia de muitos países. O imperador brasileiro Pedro II, por exemplo, fez questão de procurá-lo no consultório, como admirador é claro, não cliente. Durante anos, adotou o hábito de receber em casa, semanalmente, entre a primavera e o verão, a fina flor da intelectualidade francesa. Alguns colegas, porém, se insurairam contra seus métodos, sobretudo a exposição das doentes nas famosas aulas das terças-feiras, as incontáveis fotografias tiradas de todos os ângulos das infelizes mulheres. Houve quem o acusasse de farsante ao observar as sessões de hipnotismo a que recorria -e  que seriam imitadas por Freud.No anfiteatro do hospício, o autoritário Charcot se recusava a explicar um ponto de vista sem demonstrá-lo "ao vivo". Mandava entrar uma das pacientes e convocava um auxiliar. "Faça-a dormir", ordenava. O assistente apoiava por alguns instantes as mãos sobre os olhos da mulher. Ela emitia apenas um suspiro antes de cair em sono profundo. Logo, começava a obedecer a cada estímulo muscular provocado por Charcot, contorcendo-se como num ataque histérico. Em resposta aos que o acusavam de fraude, ele argumentava que a doente, não dispondo de conhecimentos de Anatomia, não poderia ter simulado os movimentos que o professor alegava ter induzido. Teatro ou não, o mestre tinha um trunfo definitivo: o grande número de curas alcançadas.Recursos médicos tão diversos como eletrochoques e uma até então inédita intimidade com os sintomas de cada paciente associavam-se perfeitamente a uma imensa confiança que as pessoas sentiam naquele personagem misterioso, de olhar seguro e andar calmo. Mas ele não vivia apenas para a ciência. Amava a literatura e a música - indo até mais longe do que um amador comum. Por exemplo, leu e anotou toda a obra de Shakespeare, seu autor favorito. Apreciava Mozart  e Beethoven, mas detestava Wagner, de quem dizia ser demasiado enfático. Não fosse para um concerto, jamais saía de casa às noites, nem gostava de ser importunado pela família. Seguiu à risca o exemplo paterno, decretando que a filha Jeanne deveria ser mãe de família e o filho Jean-Baptiste, médico. As ordens não foram contestadas. Jean-Baptiste, porém, entregou-lhe o diploma, engajou-se na Marinha, conquistou fama como grande explorador e morreu como herói a bordo do Porquoipas? na Antártida.Jean-Martin Charcot encarnou, como poucos, a ebulição por que passaram as ciências biológicas em geral e a Medicina em particular na segunda metade do século XIX; Com a nvençãp da anestesia, que a neurocirurgia seria praticada sem maiores problemas por seus sucessores. Foi seguidor fiel de Claude Bernard (1813-1878), o cientista francês que fundou a medicina experimental e o primeiro a defender a separação entre Nerologia e Psicologia. Em suma, puxou pela primeira vez o fio da meada que embaraçava todas as doenças mentais numa única, grande e indistinta categoria - a loucura."Existem mais coisas entre o céu e a terra do que é capaz de sonhar a vã filosofia", Charcot invocava seu bem-lido Shakespeare para justificar a obsessão de classificar separadamente cada moléstia psíquica, descrevê-la exaustivamente e tratá-la de maneira distinta e específica. 

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Coca-cola é isso ai - Costumes


COLA-COLA É ISSO AÍ - Costumes



A ascensão irresistível da bebida, que surgiu há um século como remédio para a indisposição, conquistou o mundo como refrigerante e já foi consumida até no espaço

Faltava menos de um ano para que a Coca-Cola, a bebida mais famosa do mundo, completasse um século. No dia 23 de abril de 1985, a direção da empresa convocou uma entrevista à imprensa em Nova York para anunciar a mais de 200 jornalistas uma novidade sensacional: a Coca-Cola ia mudar de gosto. A decisão, explicou o presidente da companhia, Roberto C. Goizueta, fora tomada depois que mais de 200 000 testes com consumidores fiéis haviam revelado uma flagrante preferência por um novo sabor, mais doce, obtido pelos químicos da Coca-Cola. A empresa não tardaria a perceber que cometera um gravíssimo engano.
O simples anúncio da mudança começou a gerar protestos antes mesmo que a versão mais adocicada chegasse ao mercado. Em poucos dias, a companhia foi bombardeada por milhares de cartas de consumidores indignados. Ao contrário do que haviam indicado as pesquisas, o público na verdade execrava a inovação e exigia a volta da fórmula clássica. Assim, passados menos de três meses, a direção da Coca-Cola chamou novamente os jornalistas, desta vez para anunciar, num episódio inédito na história das grandes corporações, que voltara atrás e relançaria o produto tal qual era conhecido.
Não é difícil compreender a reação conservadora do público. Bebida apreciada por nove em cada dez americanos, segundo os números apresentados pelos fabricantes, a Coca-Cola é um símbolo tão característico dos Estados Unidos como a Estátua da Liberdade e a bandeira das listras e estrelas. Quando o governo de algum país quer fazer um desaforo a Washington, tem sido isso aí: rompe relações diplomáticas e proíbe a venda do refrigerante. Foi o que aconteceu em Cuba de Fidel Castro em 1960 e no Irã do aiatolá Khomeini em 1980. É um paradoxo: americana até o fundo do casco, a Coca-Cola no entanto derramou-se de tal modo por todo o planeta que perdeu a identidade nacional.Nenhuma outra bebida industrializada é tão consumida: existe em pelo menos 160 dos 168 países da Terra. Depois dos americanos, os canadenses, os italianos e os espanhóis são os principais apreciadores per capita, à frente dos alemães, mexicanos e  brasileiros. Estima-se que a humanidade tome todo santo dia 1,3 bilhão de litros do refrigerante, um mundaréu de água equivalente a 688 piscinas olímpicas. Volume com o qual o químico americano John Styth Pemberton jamais ousaria sonhar, ao gastar 74 dólares em 1886 para conceber sua fórmula - até porque a Coca-Cola não se destinava originalmente ao consumo de massa.
No início, era apenas mais uma entre as incontáveis beberagens apregoadas nos Estados Unidos das últimas décadas do século passado como infalíveis remédios para uma série de mazelas do corpo e do espírito, como depressões nervosas, desânimo e indisposições variadas. A maioria era uma misturança de ervas e óleos vegetais, mas várias fórmulas continham também pequenas doses de substâncias já não tão inofensivas, como álcool, ópio e cocaína. 
Farmacêutico e dono de drogaria em Atlanta, capital do Estado da Georgia, no sul do país, Pemberton (1831-1888) já havia inventado um tônico, a que dera o nome de French Wine Coca, à base de álcool e folhas de coca. O elixir era uma variante do então famoso vinho Mariani, inventado por um químico da Córsega e largamente apreciado na Europa. Como um ingrediente essencial, o vinho de Bordeaux, tornara-se muito caro nos Estados Unidos, Pemberton decidiu eliminá-lo da fórmula. Para que o tônico mantivesse as alegadas propriedades revigorantes, substituiu-o por uma substância que a América descobrira com os escravos trazidos da África e que se habituara a usar como antídoto contra a ressaca: o extrato da noz de cola, o fruto da Cola acuminata, árvore da família das esterculiáceas (como o cacaueiro), de origem sudanesa. Um grão vermelho, com teor de cafeína de 24%, contendo ainda teobromina, alcalóide diurético e vasodilatador, a noz era mascada pelos nativos africanos para combater a fome e o cansaço, a exemplo do que os índios dos Andes fazem com as folhas da coca.
A combinação entre a coca e a cola, porém, dava à bebida um gosto amargo, que precisava ser disfarçado. Meses a fio, instalado em seu laboratório, Pemberton dedicou-se como um alquimista medieval a misturar dúzias de ingredientes em um xarope de cor escura e gosto agradável. Seu sócio e guarda-livros, Frank Robinson, foi quem se saiu com um nome sonoro, de fácil memorização, para o produto: Coca-Cola. Com sua caligrafia floreada, o mesmo Robinson desenhou aquela que viria a ser a inconfundível marca da bebida, patenteada em 1893. O passo seguinte foi anunciá-la como um novo medicamento capaz de suprimir a fadiga, facilitar a digestão, revigorar nervos extenuados, curar dores de cabeça, insônia, nevralgia, histeria e melancolia - tudo isso por 5 cents o copo. Como o capitalismo na época era risonho e franco, sem leis de defesa do consumidor nem castigos para a publicidade enganosa, essa milagreira Coca-Cola passou a ser vendida livremente em pequenos frascos cujos rótulos a descreviam como "deliciosa, refrescante, estimulante e revigorante!"
Estavam na moda então as soda-fountains, as ancestrais das máquinas de refrigerantes das lanchonetes de hoje. Instaladas atrás de elegantes balcões de mármore à entrada de farmácias e drogarias, distribuíam refrescos à base de água gaseificada e xarope de frutas ou de ervas. Diz a lenda que a irresistível ascensão da Coca-Cola começou numa dessas farmácias - por puro acaso. Certo dia, um cliente acometido de enxaqueca entrou na drogaria Jacob´s, em Atlanta, para comprar um frasco de Coca-Cola, com o qual esperava aliviar a dor. Decidindo tomar uma dose ali mesmo, pediu ao farmacêutico para diluir o remédio. Mr. Jacob teve a idéia de misturar o xarope à água gasosa, em vez de usar água de torneira. O freguês sentiu-se recuperado na hora, com certeza mais pelo paladar agradável da nova bebida do que por suas supostas virtudes medicinais.
Seja como for, o episódio passou de boca em boca e em pouco tempo a Coca-Cola gasosa tornou-se procurada, sendo vendida em todas as drogarias. A marca, porém, não ficaria muito tempo nas mãos de Pemberton. Cinco anos depois de inventar a.fórmula mágica, ele a vendeu a outro farmacêutico de Atlanta, Asa Griggs Candler, que se encarregaria de instalar fábricas do xarope em outras cidades. (Em 1893 surgiu a Pepsi, que hoje detém 26% do mercado americano de refrigerantes, três pontos abaixo da Coca-Cola.) Na virada do século, Candler inaugurou a prática inteligente de vender o xarope a terceiros, que fabricariam, engarrafariam e distribuiriam a bebida sob licença da Coca-Cola Company. A empresa mudaria de mãos mais uma vez, em 1919, ao ser comprada por 25 milhões de dólares pelo empresário Ernest Woodruff. Seu filho Robert iria dirigir a companhia de 1923 a 1955.Pouco a pouco, o caráter medicinal da bebida foi deixado de lado e sua publicidade conservou apenas o slogan "deliciosa e refrescante", que a acompanharia durante muitos anos. (A expressão mais famosa, "a pausa que refresca", data de 1929.) À medida que a Coca-Cola passou a ser consumida como simples refrigerante, a cocaína foi eliminada de sua composição. Em 1906, quando o Food and Drug Act entrou em vigor nos Estados Unidos, regulamentando severamente a adição em produtos alimentares e farmacêuticos de substâncias consideradas perigosas à saúde, todos os traços da droga já haviam sido suprimidos da bebida. Atualmente, a única companhia americana autorizada oficialmente a importar folhas de coca é um laboratório comercial, que extrai os alcalóides para a indústria farmacêutica e vende os resíduos da planta à Coca-Cola, que os utiliza para efeito aromatizante.Se é sabido que a Coca-Cola não contém cocaína, não se sabe até hoje precisamente o que ela contém. Sua fórmula, referida também pelo código  "7 X", como num romance policial, é um dos segredos comerciais mais bem guardados do mundo. Inúmeras análises químicas já tentaram decifrá-lo, em vão. Naturalmente, os principais componentes são de domínio público, até por exigência do FDA, o órgão que controla os produtos alimentícios e medicinais nos Estados Unidos para garantir que as substâncias vendidas legalmente no país não façam mal.Sabe-se, por isso, que além de água gasosa e açúcar a fórmula contém cafeína, noz de cola, folhas de coca descocainizadas, baunilha, caramelo, limão verde, noz-moscada, canela e ácido fosfórico, mas não se conhecem as proporções desses ingredientes, nem os vários outros temperos adicionados em doses mínimas, aos quais a bebida deve seu sabor peculiar. "É exatamente como um bom perfume: pode-se imitá-lo, mas apenas o laboratório que concebeu sua fórmula é capaz de produzi-lo à perfeição", costumava explicar o proprietário Robert Woodruff. "Um bom conhecedor pode identificar com precisão grande parte de seus componentes, mas é impossível definir sua dosagem, seu fixador e outros detalhes fundamentais."Durante muitos anos, a receita secreta era transmitida oralmente apenas para um punhado de químicos e diretores da companhia. Nenhuma nota escrita era autorizada. As etiquetas dos recipientes que continham os ingredientes eram retiradas logo depois da entrega. A partir daí eles só eram identificados pelo cheiro e por seu lugar nas prateleiras. O único documento que descreve toda a receita do sucesso é mantido a sete chaves num cofre na sede da companhia em Atlanta. A Coca-Cola tanto acredita que o segredo é a alma do negócio que em 1977 preferiu renunciar ao imenso mercado representado pelos 800 milhões de habitantes da Índia, a revelar a fórmula da bebida, como queria o governo hindu para permitir a instalação da empresa.
Além da fórmula e do logotipo, a terceira principal característica da Coca-Cola é a garrafa. No começo do século, quando se difundiu a praxe do licenciamento a terceiros para a fabricação da bebida a partir do xarope fornecido pela companhia de Atlanta, não havia um modelo único de garrafa, podendo cada distribuidor utilizar os vasilhames que quisesse. Isso, naturalmente, dificultava a identificação da verdadeira bebida entre as muitas Kolas, Colas e até Nolas que pipocavam por toda parte. As campanhas publicitárias martelavam sempre: "Exija a Coca-Cola genuína. Recuse as imitações".
Levaria ainda muito tempo até se perceber que seria muito mais fácil combater os imitadores com uma embalagem padrão, de características inconfundíveis. Só em 1916, quando já existiam 153 marcas impostoras disputando o mercado com a real thing, como a chamava a publicidade, o advogado da empresa, Harold Hirsh, propôs a criação de um modelo único de garrafa. Uma concorrência foi então aberta entre os produtores de embalagens de vidro. Um deles era a Root Glass Company, de Indiana. Seu diretor, Alex Samuelson, apostou na idéia de um design capaz de ser diretamente relacionado pelo consumidor com os ingredientes que davam nome à bebida: a noz de cola e a folha de coca.Não tendo porém a menor idéia do aspecto dessas plantas, Samuelson mandou um assistente fazer uma pesquisa numa biblioteca. Este, que tampouco entendia coisa alguma de Botânica, enganou-se: em vez de trazer uma ilustração da planta da coca, trouxe o desenho de um cacau. Samuelson, naturalmente, não percebeu o erro; ao contrário. achou que a forma do cacau era extremamente adequada para inspirar uma embalagem. E foi assim que acabou nascendo a garrafa que o mundo aprenderia a identificar num piscar de olhos, bojuda no meio, alongada no gargalo e recortada em gomos. Houve até quem a comparasse às curvas sensuais da pin-up americana Mae West.
Apenas a partir de 1923, contudo, quando Robert Woodruff assumiu a presidência da empresa, a Coca-Cola decolaria para valer. Sob a direção de Woodruff, uma política comercial e publicitária extremamente dinâmica projetou a bebida internacionalmente. Desde o começo, Woodruff centrou sua estratégia na distribuição do produto e no reforço de sua imagem junto ao público. Assim que assumiu, criou as primeiras embalagens de papelão para seis garrafas (as famosas six pack), a bordo das quais a bebida adentraria em massa as casas americanas. Outra idéia revolucionária de Woodruff, esta de 1930, foram as geladeiras vermelhas para conservar o refrigerante nos pontos-de-venda, uma das quais viria a ser concebida pelo designer Raymond Loewy. Uma grande sacada, em 1933, foram os distribuidores automáticos de copos de Coca-Cola, que permitiriam à bebida estar presente, sempre gelada, em fábricas, escritórios, estádios, clubes, cinemas etc.
A  conquista do mundo, porém, começou com a Segunda Guerra Mundial. Graças à antiga amizade de Woodruff com o general Dwight D. Eisenhower, comandante-em-chefe das Forças Armadas dos Estados Unidos. a empresa colheu em Washington uma autorização excepcional para importar todo o açúcar de que necessitasse, um artigo que o conflito tornara escasso e sujeito a racionamento. Isso representou uma vantagem incalculável, já que a concorrência não foi beneficiada pelo mesmo privilégio. Woodruff conseguiu a concessão seduzindo Eisenhower com a promessa de que todo soldado americano, onde quer que estivesse, poderia comprar uma garrafa de Coca-Cola por 5 cents, pelo tempo que durasse a guerra.A manobra de Woodruff permitiu-lhe ainda embarcar gratuitamente nos navios de transporte militar a maior parte das instalações de engarrafamento que a empresa montaria na Europa. Nada menos de 64 fábricas foram assim enviadas além-mar. Depois da vitória, elas permaneceram onde estavam e as populações civis substituíram a clientela militar. A partir de então, a Coca-Cola seria lançada sucessivamente em quase todos os países do mundo, incluindo a China e a União Soviética, enquanto a empresa criaria uma série de outros produtos aparentados, como a Fanta e a Cherry Coke, e ainda a Diet Coke.
Em 1985, acondicionada numa embalagem especial, ela atravessou as fronteiras do planeta a bordo do ônibus espacial Discovery, tornando-se assim o primeiro refrigerante a ser consumido no espaço. Hoje a empresa é responsável pela produção de pouco mais de 1/3 de todas as bebidas não alcoólicas consumidas no mundo, tendo faturado em 1989 quase 9 bilhões de dólares. Um sucesso que talvez tenha sido explicado melhor do que ninguém pelo falecido artista plástico americano Andy Warhol, por sinal um de seus maiores fãs: "Todo mundo bebe Coca-Cola, do garçom do bar ao presidente dos Estados Unidos, passando por você e por Elizabeth Taylor. E não há fortuna no mundo capaz de comprar uma Coca melhor do que aquela que você bebe". 

É isso aqui

Em números absolutos, o Brasil é o terceiro consumidor mundial de Coca-Cola, abaixo apenas dos Estados Unidos e do México. Estima-e que em 1990 os brasileiros beberam perto de 2,6 bilhões de litros do refrigerante, o que daria algo como 17 litros para cada homem, mulher, velho e criança. É um gosto duradouro. O país foi apresentado à Coca-Cola numa época de intenso namoro com os Estados Unidos, no curso da Segunda Guerra Mundial. Para combater a influência alemã, Washington construiu uma estratégia de aproximação com o Brasil, a famosa Política de Boa Vizinhança. Dela descenderiam em linha direta os requebros de Carmen Miranda em Hollywood e as malandragens do Zé Carioca nos quadrinhos Disney - e também, em última análise, os dólares para a usina de Volta Redonda e os tiros dos pracinhas no front italiano.
As primeiras Coca-Colas made in Brazil, nas clássicas garrafinhas de 185 ml, apareceram em abril de 1942, distribuídas por uma fábrica inaugurada um mês antes no bairro de São Cristóvão, no Rio de Janeiro. Logo de saída venderam-se 1 843 caixas. Em junho de 1943 foi instalada uma filial em São Paulo. Mas o decreto autorizando a Coca-Cola Company a funcionar no Brasil só seria assinado no ano seguinte pelo presidente Getúlio Vargas - que por sinal dispensou a empresa de revelar o segredo do refrigerante. De todo modo, a companhia informa ter fornecido às autoridades amostras para análises físicas, químicas e microbiológicas, além de cumprir os padrões que definem os aditivos permitidos e proibidos em alimentos e bebidas.Segundo a empresa, só alguns ingredientes do refrigerante são importados. A Coca-Cola assegura que a bebida é a mesma em qualquer parte do mundo: tem 88% de água, 9,976% de açúcar, 2% de gás carbônico e 0,024% do tal xarope que é a alma do negócio. Se a Coca brasileira parece algo mais doce, isso se deveria a variações da matéria-prima empregada como edulcorante. No Brasil, como na maioria dos países, utiliza-se o açúcar de cana.


Vale-tudo contra a Malária - Medicina


VALE-TUDO CONTRA A MALÁRIA - Medicina



Diante de uma doença que ameaça 1/3 da população mundial, pesquisadores percorrem todos os caminhos em busca do remédio definitivo - a vacina. É um esforço à altura do desafio

Há cerca de dez anos, centros de pesquisa, laboratórios e exames de cientistas em vários países decidiram voltar novamente suas atenções para uma doença que se acreditava vencida desde os anos 50: a malária. Também chamada maleita ou paludismo, ela é transmitida por um mosquito que transporta os parasitas causadores do mal de uma pessoa a outra, infectando-a e provocando, entre outros sintomas, acessos de febre que se repetem a cada dois ou três dias. Conhecida desde os tempos mais remotos - o médico grego Hipócrates, 500 anos antes da era cristã, já descrevera os diversos tipos da febre palustre - a malária fez incontáveis milhões de vítimas até a primeira metade deste século, quando rigorosas medidas sanitárias começaram a reduzir o ritmo de propagação da doença.Os motivos para a nova corrida às pesquisas são inequívocos e assustadores. De um lado, um dos quatro parasitas causadores da moléstia, o Plasmodium falciparum, justamente o que acarreta a forma mais grave, que pode levar à morte, desenvolveu insuspeitada resistência à nivaquina, substância que até então apresentava ótimos resultados no combate à doença. (Os outros três parasitas, Plasmodium vivax, malariae e ovale, este último mais raro, são responsáveis por versões benignas, também menos preocupantes em relação ao número de casos constatados). De outro lado, o próprio vetor da malária, o mosquito anófele, abundante em regiões tropicais, a bordo do qual viajam os parasitas, tornou-se resistente ao inseticida DDT.Junte-se a isso o quadro desolador em matéria de saneamento na grande maioria dos países onde a malária costuma atacar e ainda o desflorestamento caótico, como é tipicamente o caso associado à instalação de garimpeiros no Estado de Roraima, no extremo Norte do país. O resultado dessa coleção de desastres aparece com todos os números nos relatórios da Organização Mundial de Saúde (OMS). A entidade estima que um terço da população do planeta, algo como 1,67 bilhão de pessoas, está exposto à doença e que o número de pessoas já contaminadas é da ordem de 100 milhões. Os países mais atingidos pelo novo surto são os centro-africanos, mais Sri-Lanka. Afeganistão, Vietnã e Camboja, na Ásia; Irã, Iêmen e Iraque, no Oriente Médio; Colômbia, Venezuela, Peru, Guiana, Guiana Francesa, Suriname e ainda o Brasil, na América do Sul.A Amazônia , sozinha, é responsável pela metade do milhão de casos registrados em 1987 no continente. Em 1974, o número total nas Américas mal alcançava 270 000. Indícios de que a doença continua a se propagar com renovada rapidez na região amazônica surgem a cada levantamento. Estima-se que em 1989 nada menos de 6 000 brasileiros morreram de malária. "A malária representa uma das doenças infecciosas mais importantes do mundo", atesta o professor Luís Hildebrando Pereira da Silva, chefe da Universidade de Parasitologia Experimental do Instituto Pasteur de Paris - e não há razão para supor que ele exagera.Um dos maiores especialistas no assunto, ao lado de dois outros brasileiros, o casal Vitor e Ruth Nussenzweig , da Universidade de Nova York, o paulista Luís Hildebrando, 61 anos, mora na França desde 1962, quando se doutorou ali em Biologia Molecular. Tempos mais tarde, instalou-se na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, no interior de São Paulo. No entanto, o sufoco nas universidades brasileiras durante o regime militar obrigou-o a voltar ao Instituto Pasteur. Tendo dedicado os últimos dez anos de trabalho à descoberta de uma vacina contra o paludismo, em cooperação com pesquisadores de outros organismos internacionais, entre eles a Universidade de São Paulo, Hildebrando prevê que "até o final do século teremos uma vacina eficaz contra a doença".Esse prazo pode ser ainda maior. Para a pesquisadora francesa Dominique Mazier, do Instituto Nacional de Saúde e Pesquisa Médica (INSERM), e do Departamento de Parasitologia do Hospital Pitié-Salpetrière, em Paris, "se é impensável esperar uma vacina para já, um resultado dentro de dez anos é apenas provável", avalia. "Hoje só temos vacinas contra vírus (como o da poliomielite), organismos muito menores e mais simples. Já o causador da malária é um parasita, ser infinitamente mais complexo. Se compararmos o vírus a um punho fechado, o parasita teria o tamanho de uma sala. Pode-se imaginar o que essa diferença implica."Típica de zonas tropicais, a malária migrou até a Europa, particularmente à Itália, onde durante a Segunda Guerra Mundial infligiu baixas em número alarmante. Pouco depois, foi ordenada a drenagem de todos os pântanos - o ambiente preferido pelo anófele para se reproduzir - que circundavam a cidade de Roma. Seguiram-se rigorosas medidas de saneamento para eliminar o mosquito de uma vez por todas do continente europeu. Há pouco tempo, porém, mais de trinta casos da chamada "malária de aeroporto" foram registrados na França e na Suíça. Como o nome indica, trata-se da contaminação provocada pelos mosquitos que alcançam a Europa a bordo dos aviões provenientes de países, sobretudo da África, onde a doença já ultrapassou qualquer limite aceitável.Quando a fêmea do mosquito anófele se alimenta do sangue de uma pessoa contaminada, está incluindo em sua refeição alguns gametócitos, formas sexuadas precursoras dos gamelas (o equivalente, nos parasitas, aos precursores dos espermatozóides e dos óvulos na espécie humana). Os gametócitos amadurecem no estômago do mosquito onde ocorrerá a fecundação, ou seja, a união dos gametócitos fêmeas aos machos, que dará origem a um ovo, o zigoto. Os zigotos instalam-se na parede exterior do estômago do anófele até o crescimento de inúmeras células chamadas esporozoítos. 

Plenos de energia, estes penetram na glândula salivar do mosquito, que será ativada a cada nova refeição, pois contém uma substância anticoagulante que ajuda a sugar o sangue humano. Injetados no corpo de uma pessoa sã através da picada do anófele, os esporozoítos navegam pela circulação sangüínea até encontrar o fígado, após uns trinta minutos de viagem. Nas células hepáticas, completarão um ciclo de amadurecimento de cerca de duas semanas, durante as quais vão se multiplicar e liberar milhões de merozoítos, que atacam especificamente os glóbulos vermelhos (daí a anemia causada pela malária). 

Só quando os merozoítos invadem os glóbulos vermelhos e continuam a se multiplicar até a sua literal explosão é que começam os ataques de febre, as vertigens e os calafrios, típicos do mal. Enquanto alguns parasitas se concentram em invadir e destruir, outros merozoítos irão formar gametócitos, ainda no interior dos glóbulos vermelhos, que servirão de alimento para um novo mosquito, que os transportará ao organismo de outra pessoa.No corpo de um indivíduo não protegido, o número de parasitas desse exército de ocupação desanda a se multiplicar. Em regiões mais expostas à doença, porém, pessoas já atingidas, sem que tenham desenvolvido a malária, acabam por criar uma defesa natural contra os parasitas, pois o sistema imunológico guarda a "memória" da infecção. Segundo o professor Luís Hildebrando, não se sabe o motivo exato pelo qual o Plasmodium falciparum passou a resistir aos medicamentos clássicos. "Tudo que se pode dizer é que uma mutação genética ocorreu nesses organismos", aponta. O fato é que a única solução para o problema é a descoberta de uma vacina.Para tanto, a equipe de catorze pesquisadores da Unidade de Parasitologia Experimental do Instituto Pasteur se concentra na busca de um antígeno - substância capaz de induzir uma reação imunológica do organismo - que possa ser reproduzido sinteticamente e, sobretudo, que assegure um contra-ataque perfeito. Para escolher entre os vários candidatos possíveis a antígeno, foi necessário, antes de tudo, determinar em qual fase de seu desenvolvimento o parasita deve ser atacado, além de identificar os seus constituintes dos quais tais candidatos faziam parte. "Só essa fase exigiu anos de estudo", informa o professor. Primeiro, foi necessário fazer a clonagem do gene, ou seja, recriar fragmentos de seqüências de DNA, a molécula da herança dos seres vivos, a partir de uma seqüência original, para encontrar a informação desejada, capaz de induzir o anticorpo imunizante."O trabalho poderia estar concluído em questão de meses, não houvesse sempre um contratempo", conta Luís Hildebrando, que divide seu tempo entre a coordenação da equipe de parasitologistas em Paris e as viagens. No Senegal, o grupo acompanha a evolução da malária que atingiu todos os 300 habitantes de um lugarejo chamado Dielmon. De todo modo, seis antígenos relacionados à proteção contra a infecção já puderam ser identificados. Estágio mais avançado alcançou o professor Manoel Patarroyo, do Hospital San Juan de Diós, em Bogotá, Colômbia. Ele já testou em cerca de 30 000 pessoas uma vacina à base de peptídeos (conjunto de aminoácidos) sintéticos, que se mostrou eficaz "em 80% dos casos" em induzir uma proteção contra o Plasmodium falciparum. A vacina poderá ser testada também no Brasil a partir de 1991 em 500 adultos da região amazônica."A experiência colombiana é muito interessante, mas ainda restam dúvidas de extrema importância, como qual a duração da proteção e que acontece com o parasita depois de agredido", pondera Dominique Mazier, do INSERM francês. Outra dúvida resulta do seguinte: embora não apresentem sintomas da doença - os acessos palustres -, os indivíduos vacinados conservam parasitas em seu sangue.Em comum, as pesquisas do Instituto Pasteur e do Hospital San Juan de Diós têm a convicção de que o melhor momento para atacar o agente infeccioso é durante a proliferação do parasita no interior do glóbulo vermelho, ou seja, na fase eritrocitária. Nessa fase, o Plasmodium envia à membrana do glóbulo sangüíneo proteínas encarregadas de captar substâncias nutritivas fundamentais ao seu desenvolvimento. Com isso, modifica a estrutura do glóbulo, tornando-o facilmente identificável pelo exército que cuida da proteção do organismo. Já o grupo liderado pela professora Mazier decidiu estudar a fase anterior, em que o Plasmodium se desenvolve no fígado da pessoa contaminada. "A vantagem é que esse é um estágio intermediário e já se comprovou que as relações entre os diferentes estágios do parasita são de fundamental importância", afirma ela. Isto é se a vacina liquidasse com o Plasmodium no interior do fígado, apenas alguns merozoítos se atreveriam a atacar as células sangüíneas, numa ofensiva controlável pelo organismo. Um auxílio extra também seria possível, numa espécie de vacina-coquetel. Haveria, pois, duas oportunidades de eliminar o renitente inimigo.Extremamente complexos, os parasitas da malária são, porém, capazes de se dissimular e de se adaptar à contra-ofensiva do sistema imunológico - o que representa um complicador adicional aos cientistas. "Eu chegaria a afirmar que eles são inteligentes", brinca a doutora Dominique. Talvez por isso, o imunologista escocês Richard Carter, da Universidade de Edimburgo, tenha escolhido estudar outro tipo de vacina, chamada altruísta. Isso porque ela não imuniza o indivíduo vacinado e sim o mosquito. Original, mas ainda longe de ser viabilizada, a substância acabaria com a malária extinguindo os gamelas que se servem do anófele como meio de transporte. 

No Middlesex Hospital, em Londres, um grupo de cinco pesquisadores preferiu seguir um caminho diferente. "Já que a vacina capaz de eliminar o Plasmodium é tão difícil, estamos tentando desenvolver uma vacina que apenas elimine os sintomas da doença, ou seja, a pessoa contaminada viveria com o parasita mas não se sentiria doente, porque visamos apenas as toxinas agressoras do organismo", explica a imunologista Janice Tavane.Já os brasileiros Vitor e Ruth Nussenzweig, que estudam a malária há pelo menos vinte anos, desenvolveram um antígeno que, misturado a uma substância gordurosa, retarda a absorção da vacina pelo organismo, para que este possa produzir anticorpos em maior quantidade. A fórmula começa a ser testada pelo Instituto de Pesquisas do Exército dos Estados Unidos. 

Outra pesquisadora francesa, Catherine Breton, também do Instituto Pasteur, observou um exemplo da versatilidade do Plasmodium. Ao estudar o primeiro dos seis antígenos do parasita candidatos a matéria-prima da vacina, ela constatou com espanto que estava lidando com uma proteína muito especial, situada na extremidade dos merozoítos - uma enzima cujo papel consiste em destruir as cadeias de glicoproteínas que revestem o glóbulo vermelho e o protegem de organismos estranhos. De fato, o parasita só consegue aderir ao glóbulo para então invadi-lo, depois de raspar sua "cabeleira" de glicoproteínas. Logo, descobrir como bloquear a ação dessa enzima, ou como impedir que ela seja estimulada, pode significar a chave da questão.A fim de testar a capacidade de cada um daqueles candidatos, foi ainda necessário escolher um animal que desenvolvesse exatamente o mesmo tipo de infecção provocada no homem pelo Plasmodium e que, portanto, pudesse servir de cobaia nos testes das novas vacinas. Para tanto, desde 1980 o Laboratório de Imunologia Parasitária do Instituto Pasteur de Caiena, na Guiana Francesa, mantém uma criação de macacos saimiri, conhecidos comumente como macacos-esquilo. Cerca de 800 exemplares são mantidos em cativeiro; outros tantos são criados em liberdade na Ilha da Mãe, em frente a Caiena.Enquanto os pesquisadores se valem do que há de mais moderno em Biologia Molecular na guerra ao mosquito, há quem sensatamente defenda o emprego intensivo dos métodos tradicionais de combate. O uso de um simples mosquiteiro, responsável em parte pelo desaparecimento do paludismo na China, vem sendo recomendado como medida de precaução. Impregnada de um novo inseticida em fase experimental, a clássica malha não só protege as pessoas no seu abrigo como mata os mosquitos que dela se aproximam, a julgar pelo que se verificou em testes na Gâmbia. Trata-se de uma boa notícia - mesmo porque há muito chão pela frente até a vacina. Além de determinar quais os antígenos usados na elaboração do produto, "outros problemas retardam sua fabricação", avisa o professor Luís Hildebrando. "Para começar. não podemos obtê-la da forma usual, como é o caso das vacinas contra vírus e bactérias."De fato, enquanto vírus e bactérias se reproduzem à razão de milhares a cada 48 horas, o Plasmodium falciparum se multiplica por cinco no mesmo período. "Além disso, para que ocorra a reprodução do Plasmodium, é necessária a presença de glóbulos vermelhos, o que torna inviável a fabricação industrial." A alternativa seria sintetizar quimicamente os antígenos pelos métodos da Engenharia Genética, enxertando as proteínas antigênicas em bactérias que se reproduziriam em fermentadores industriais; enormes caldeirões repletos de uma substância adequada à sua proliferação. Todas essas dificuldades, mais o fato de não existir ainda nenhuma vacina contra doenças parasitárias - o que torna a tarefa uma espécie de caminhada no escuro, em que cada passo sem tropeços é saudado como uma importante conquista -, fazem da estimativa de uma vacina no prazo de dez anos uma corrida contra o relógio. "Pelo menos", garante Hildebrando, "temos a certeza de que é possível fabricá-la."

Ensinando natação a bactérias

Embora a obtenção da vacina seja o objetivo primordial dos institutos que estudam a malária, outras frentes de batalha foram abertas. Sem dúvida, a mais insólita nasceu no próprio Instituto Pasteur, em Paris. Trata-se de utilizar uma bactéria capaz de atacar as larvas dos mosquitos anófeles. A solução não teria os inconvenientes do uso de inseticidas para o ambiente e poderia contribuir de forma eficaz no combate ao paludismo - não fosse um pequeno problema: as tais bactérias não sabem nadar. Como as larvas do mosquito se desenvolvem na superfície da água, essa propriedade é essencial.O problema, contudo, não desesperou os pesquisadores. Eles recorreram à Engenharia Genética para dotar suas bactérias de certas características próprias das algas azuis, graças às quais são capazes de boiar. Ou seja, trata-se de implantar nas bactérias as seqüências de DNA que contêm os genes responsáveis por essa peculiaridade das algas. A primeira etapa, que consistiu em determinar quais os genes a serem transportados, já foi vencida, reatando a fase certamente mais difícil da sua incorporação ao material hereditário das bactérias.

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Resposta Errada - Alergia


RESPOSTA ERRADA - Alergia



Quando o organismo exagera ao defender-se de um agente externo, o resultado é a alergia, um mal que aflige uma em cada dez pessoas e contra o qual começa a nascer uma geração de potentes remédios.

Os inimigos se encaram, fazem uma pausa e partem para o primeiro combate de uma guerra sem-fim. De um lado, células do sistema imunológico; de outro, substâncias inofensivas à maioria das pessoas, mas que para a minoria são veneno: nelas, o arsenal de defesa é tão numeroso que acaba deixando em ruínas os campos de batalha do organismo. Uma em cada dez pessoas é vítima da situação, o que classifica a alergia como a sexta maior doença em incidência. Não há saída, o mundo é mesmo cheio de pólen, pó, pêlos, produtos químicos - em todo lugar, a qualquer momento, algo pode detonar uma crise. A Medicina auxilia como pode, aliviando os sintomas. Pois as pesquisas só muito recentemente desvendaram as estratégias dos ataques de alergia, permitindo traçar caminhos para terapias mais eficazes.
A explosão de novas descobertas com certeza fará diferença, no futuro, para os cerca de 177 mil brasileiros alérgicos que devem nascer ao longo deste ano. Talvez eles nem venham a sentir na pele o peso dessa herança. 
Sim, é de herança que se trata, porque o comportamento anormal das células imunológicas tem raízes familiares - e por isso pode ficar latente. Com pais alérgicos, uma pessoa tem 50 por cento de chances de um belo dia ser surpreendida, por exemplo, pelo desejo compulsivo de se coçar após comer uma salada de tomates; quando só o pai ou a mãe tem o problema, a chance se reduz a um quarto. No entanto, o padrão herdado nem sempre é seguido à risca. Filho de quem é alérgico a chocolate devora às vezes bombons impunemente. Mas pode ficar literalmente sem fôlego pelo perfume da mãe.
Seus genes, afinal, não trazem o retrato falado de um inimigo da família, mas a predisposição para fabricar armas específicas contra estranhos que por si só fazem mal à saúde. Essas armas são, na verdade, um tipo especial de anticorpo - chamado imunoglobulina E ou simplesmente IgE - descoberto na década de 60 por um casal japonês, Kimishige e Teruko Ishizaga, que então cursava Medicina nos Estados Unidos. Como as IgE, produzidas por certos glóbulos sangüíneos, eram dez vezes mais numerosas em pessoas alérgicas, os pesquisadores perceberam que, nesses casos, alguma culpa elas deviam ter pelo tremendo engano que comete o sistema imunológico ao engalfinhar-se com o que habitualmente não incomoda a grande maioria das pessoas.
O comportamento diferente do sistema de defesa, aliás, inspirou o austríaco Clemens von Pirquet (1874-1929), o inventor do teste de tuberculose, a criar a palavra alergia, do grego allos (outros) e erguia (reação). Mas o termo tinha um sentido muito vago, pois englobava desde a saudável vermelhidão que indica a eficácia de uma vacina até as lesões de pele ou pruridos que certas pessoas manifestam ao tomar um inocente suco. Por isso, nos anos 50, o nome passou a definir apenas as reações negativas do organismo. Mas ainda se acreditava que os sintomas alérgicos eram causados por falhas nas defesas orgânicas, como se, paradoxalmente, elas conseguissem lidar com micróbios insidiosos e vacilassem diante da inevitável presença de pó.
A descoberta da IgE, portanto, colocaria as pesquisas no eixo: ou seja, demonstrou-se que a alergia não é típica dos organismos indefesos, mas dos intolerantes, que compram briga por qualquer bobagem. A luta nunca se trava de imediato. Ao cismarem com determinada substância, então promovida a alérgeno -, passa-se um tempo durante o qual cada encontro com o inimigo estimula a produção das IgE. Com sua forma em "Y", elas fincam suas hastes em basófilos, células existentes no sangue, ou em mastócitos, células que se encontram ali onde o corpo humano se abre para o mundo, ou seja, na pele, nos canais do aparelho respiratório, nos caminhos do aparelho digestivo.
Após vários encontros já se forma um batalhão em torno dessas células, todas recheadas de pequenos grãos, os mediadores, assim chamados porque intervêm em diversas reações fisiológicas. Com o exército de IgE a postos, os contatos seguintes com o alérgeno não serão nada diplomáticos. Os alérgenos serão atraídos para os anticorpos; ao se unirem, alterações químicas agirão como se disparassem uma granada, explodindo as células que serviam de guarita. Voam mediadores por todos os lados. Conforme o local do acidente, tem-se uma reação tóxica: no nariz, os grãos provocam a coriza; nos pulmões, contraem os brônquios, causando a asma; nos olhos, irritam até levarem às lágrimas; na pele, fazem as misérias das urticárias.
Os mediadores costumam ser liberados em quantidades mínimas. A histamina, o mediador mais conhecido, serve para manter normais as condições de pressão e temperatura. Em dias muito frios, o nariz vermelho e inchado que compõe o visual de quem se arrisca a longas caminhadas denuncia a sua ação. A finalidade não é deixar ninguém com cara de palhaço: com o seu poder de regular o tônus dos vasos sangüíneos, a histamina faz com que estes se alarguem quando o ar está abaixo dos aproximadamente 37 graus que os pulmões apreciam; assim, o inchaço dificulta a passagem da corrente fria pelas vias aéreas, dando um tempo maior para o ar se aquecer no corpo.
As placas vermelhas estampadas na pele com urticária, do mesmo modo como o inchaço, resultam de uma ação semelhante, mas aí provocada pela inundação de histamina nos tecidos, após o vazamento dos mastócitos. "Quem aparece no local errado sempre acaba fazendo bobagem. É o caso dos mediadores nas alergias", compara o alergista Charles Naspitz, da Escola Paulista de Medicina. Levada a extremos, a bobagem pode custar a vida: quando todos os tecidos do corpo estão sensibilizados em relação a certo alérgeno, uma quantidade ínfima deste é suficiente para espalhar histamina da cabeça aos pés; os vasos aumentam a ponto de a pressão cair a zero e o sangue perder o embalo para continuar circulando; a garganta, como todo o resto do corpo, incha por dentro, fechando a entrada para o ar. Este conjunto de sintomas caracteriza o choque anafilático, um caso fatal em cada milhão de casos de alergia.
Se todo mal, porém, fosse a histamina, as alergias já teriam remédio há mais de cinqüenta anos, quando foram descobertos os anti-histamínicos - substâncias que encostam nas células nos pontos exatos em que o mediador costuma se encaixar para realizar alterações químicas. Os remédios anti-histamínicos têm apenas um defeito: no cérebro, a histamina ajuda a manter-nos acordados; ao bloqueá-la ali, alguns anti-histamínicos provocam sonolência. "A reação varia conforme o organismo", observa o alergista Naspitz na própria família. "Minha filha dorme o dia todo se tomar uma única dose; já o irmão não sente nada."
Farmacologistas americanos criaram há cinco anos moléculas de anti-histamínicos que não atravessam o cérebro e, portanto, livram os pacientes dos bocejos. No entanto, segundo Naspitz, embora seja um avanço importante, os velhos remédios ainda são o melhor alívio para os casos de coceiras. Sedantes ou não, os anti-histamínicos funcionam em dois terços das alergias. Isso porque a histamina só merece o cartaz que tem em questões de pele. Nas alergias respiratórias, por exemplo, seu nome se perde numa lista de quinze a vinte mediadores em ação.
Entre estes, nos episódios de asma em particular, rouba a cena o PAF (sigla em inglês de "fator ativador de plaquetas"), que uma equipe do Instituto Pasteur, em Paris, comandada pelo farmacologista brasileiro Bernardo Boris Vargaftig, provou desempenhar três papéis de destaque (SI nº 8, ano 2). A descoberta é, sem dúvida, o mais recente capítulo na pesquisa sobre asma, problema que representa cerca de metade dos casos totais de alergias. Para se ter idéia, uma em cada dez crianças levadas aos prontos-socorros paulistanos sofre de crises asmáticas.
A doença também tem um custo social. Segundo estatísticas dos Estados Unidos, onde há mais de 10 milhões de asmáticos, as crises causam 8 milhões de faltas ao emprego e 130 milhões de ausências na escola, por ano. Descoberto ainda em 1972 pelo cientista francês Jacques Benveniste, o PAF só teve suas propriedades reveladas a partir do momento que a equipe chefiada por Vargaftig resolveu estudá-lo. "O PAF tem funções chocantes",  conta o cientista. De fato, a substância liberada pelas células basófilos está presente em processo tão diversos quanto úlceras, rejeição de transplantes e problemas oculares.
Liberado graças ao alérgeno, na asma o PAF demonstra sua nefasta versatilidade. Seu efeito imediato é o de contrair os brônquios, o que Vargaftig provou aplicando a substância em cobaias e conseguindo com isso simular crise asmáticas. O pior é que o PAF também prepara o terreno para outras crises. Hoje se sabe que as chamadas crises tardias podem ocorrer quando a raiz de todo o mal - o alérgeno - nem está mais por perto. É que o PAF desencadeia um efeito cascata, convocando células ligadas a processos inflamatórios que, por sua vez, atraem outras até que, entre as recrutadas, chegam aos pulmões substâncias irritantes. Reagindo à agressão, os brônquios voltam a se contrair, numa crise tardia.
De seu lado, percebendo a contração, o cérebro pode exigir o comparecimento de mais células inflamatórias - é uma bola de neve. O PAF convoca também os eosinófilos, que correm no sangue. Essas células, que combatem parasitos como as lombrigas, soltam tóxicos que lesam as mucosas pulmonares. Eis porque os asmáticos tossem por qualquer coisa, embora nem toda asma seja alérgica: além das mucosas fragilizadas, os brônquios, também por causa do PAF, ficam cobertos por camadas mais espessas de muco, o que impede seus cílios de se movimentarem para se livrar de partículas estranhas.
"Se alguém tem um acesso de asma quando outro acende um cigarro, o alérgeno pode nem ser a fumaça. Pois a partir de certo ponto o pulmão fica sensível a quase tudo", explica o médico Júlio Croce, da Universidade de São Paulo, que há mais de trinta anos estuda o assunto. Descobrir o verdadeiro culpado é fundamental, porque a única cura comprovada para uma alergia é ficar longe do alérgeno.
O diagnóstico é realizado em clima detetivesco. O médico investiga os hábitos do paciente para levantar alguns suspeitos e testá-los na vítima. Mas, mesmo que uma substância provoque, por exemplo, uma irritação ao ser injetada sob a pele, o fato em si não é prova suficiente para acusá-la. Afinal, a pessoa pode ter anticorpos contra algo - daí a reação -, sem que esse algo seja o responsável pelos acessos de espirro ou pelo ardor nos olhos. Por via das dúvidas, o suspeito número 1 é afastado da vida do doente. Ainda que os sintomas desapareçam com a medida, os testes devem ser repetidos algumas vezes para se descartar a hipótese de coincidência. Identificado o alérgeno, pode-se tentar o uso de vacinas, na esperança de tornar o organismo inacessível a sua presença. Para Croce, quem passa as férias na praia conhece o mecanismo do tratamento por intuição.
"Os insetos", diz ele, "parecem castigar apenas os turistas, porque a maioria dos caiçaras não fica com os sinais inchados das picadas. Na verdade, o organismo deles pode ter se acostumado com as toxinas desses insetos." Contudo, nem sempre as vacinas cumprem seu papel: após anos de paciência, uma pessoa alérgica pode descobrir que nada faz seus anticorpos desistirem da luta. Existem pessoas que, por azar, tornam-se alérgicas a substâncias com as quais são obrigadas a lidar no trabalho. O mais grave, no entanto, é que algo como oito em dez pessoas com rinite ou asma são alérgicas ao pó domiciliar - ou, mais precisamente, reagem às fezes de seres microscópicos, os ácaros, primos distantes das aranhas.
Como cada grama de pó contém 5 mil desses invisíveis insetos, e 2 milhões deles dividem o espaço do leito com um casal, todo mundo os culpava pelas alergias, até que no início deste ano um cientista australiano provou que as fezes dos germes têm substâncias alérgenas muito mais potentes. "Isso explica porque boa parte dos extratos de alérgenos do corpo dos ácaros não funcionava bem para testes, muito menos para vacinas", esclarece o patologista Domingos Baggio, da Universidade de São Paulo.
Há dez anos, por mera curiosidade, ele foi conhecer os " tais ácaros", através das lentes de seu microscópio. Interessado, passou a dedicar tempo integral ao bichinho. A certa altura, o professor resolveu montar um aparelho para obter extratos de alérgenos de ácaros. A idéia é que quanto mais puros forem esses concentrados, mais eficazes serão. Os sofisticados equipamentos dos centros de pesquisa do hemisfério norte chegam próximo, mas não alcançam a perfeição. Por isso, Baggio ficou muito surpreendido quando o americano Thomas Platts-Mills, considerado maior acarologista do mundo, o procurou para saber como havia conseguido extratos 100 por cento puros de oito alérgenos de ácaros. Com jeito tranqüilo, o professor de 63 anos e cabelos grisalhos pisca os olhos: "Deixei que morresse de curiosidade. E também porque nem tive tempo para tirar patente". 
Os extratos já estão sendo testados até na Finlândia, onde, aliás, a necessidade de boas vacinas é grande: prova de que alergia é hereditária, ali 65 por cento da população é alérgica a pó. Engraçado mesmo será quando se descobrir em que consiste o famoso equipamento de Baggio:  entre as principais peças figuram potes de creme de leite. Baggio, porém está mais entusiasmado em revelar outro segredo. Por muito tempo os cientistas buscaram a causa de certas dermatites crônicas relativamente comuns, que parecem pruridos nas dobras do corpo, como cotovelos, joelhos, calcanhares.
Junto com o professor Júlio Croce, Baggio colecionou novecentos casos, nos últimos oito anos, mostrando que a alergia nada mais era do que o ácaro atacando outra vez num território bem diferente dos pulmões. "Passaram na nossa frente", lamenta o pesquisador, pousando um livro em inglês sobre a mesa. Baggio encomendou a obra recém-publicada por acaso, sem saber direito o conteúdo. E, para sua surpresa, a autora, uma cientista holandesa, provava a mesma tese sobre as dermatites. Com uma diferença: não reuniu mais de trezentos casos. Mas Baggio conhece o motivo do comportamento anormal dos ácaros: por razões diversas, eles não conseguem encontrar comida no ambiente e começam a mordiscar o corpo humano. "Isso ninguém publicou", revela o professor, como se tirasse uma carta da manga.
Quanto mais se conhece a intimidade dos processos alérgicos, maiores são as chances de vencê-los. Assim como as revelações sobre os ácaros levam a vacinas mais eficientes, a descoberta do PAF faz surgir substâncias capazes de anular seus efeitos, liquidando o mal da asma. Alguns desses antiPAFs, atualmente em testes clínicos, podem chegar ao mercado em dois ou três anos. Os cientistas também buscam bloqueadores de íons de cálcio, pois provavelmente é a passagem desses íons, dos anticorpos para o interior dos mastócitos, que detona a explosão dos mediadores, tipo histamina. Remédios como esse cortariam os sintomas das alergias.
O reverso dessa esperança é a evidência estatística de que o número de alérgicos dobrou na última década, de acordo com estudos europeus. Não é certo que o suspeito mais fácil, a poluição, seja realmente o culpado. Certo é que a síntese de novas substâncias praticamente todos os dias aumenta o rol dos alérgenos. Por isso os produtos deveriam especificar todos os ingredientes que contêm. Quando se afirma que apenas 2 por cento das alergias são causadas por alimento, não se sabe se a porcentagem baixa é conseqüência da ignorância em relação ao conteúdo de um enlatado ou de uma garrafa de refrigerante - algo que a legislação brasileira, por exemplo, não obriga a indústria a divulgar. Mesmo em relação a remédios, nunca se sabe: a bula de uma pomada para alergias especifica os princípios ativos e fornece apenas a porcentagem de excipiente. Por excipiente, porém, pode se entender um complexo de até vinte substâncias. Quem usa a pomada para tratar de uma urticária pode ironicamente ser alérgico a uma delas.

Idéias irritantes

A hipótese de ser surpreendido por uma crise alérgica não é exatamente agradável. Por isso, alguns acham que todo cuidado é pouco e acreditam piamente em mitos como estes: 

Alergia não tem cura
Pode ter, sim. Na teoria, manter-se longe do alérgeno por muito tempo pode fazer com que o organismo o esqueça, não produzindo anticorpos no reencontro. Na prática, isso foi observado apenas em crianças - poucas vezes, diga-se -, talvez porque seu sistema imunológico ainda esteja em desenvolvimento.

Pêlos provocam alergias respiratórias
Grande demais para ser aspirado, o pêlo leva a culpa por outras substâncias: cães e gatos, por exemplo, ao lamber-se deixam proteínas da saliva e mesmo caspinhas de sua pele no ambiente. Estas, sim, podem ser alérgenas.

Em casa de pessoas alérgicas a pó, os tapetes devem ser limpos com mais freqüência
Em casas de pessoas alérgicas a pó não pode haver tapete nem carpete. Pesquisas realizadas há poucos meses na Universidade de São Paulo mostram que após meio ano de uso o achatamento das fibras cria um refúgio seguro para os ácaros, os microscópicos bichos do pó. Dali, não há aspirador nem pano úmido que os arranque.

Crises de asma num momento difícil são chantagem emocional
Estresse e reações emocionais fortes efetivamente desencadeiam, por mecanismos desconhecidos, a liberação de mediadores - mas só em pessoas já alérgicas.

Gripe mal curada pode virar asma
Como o nariz de quem sofre de rinite alérgica vive escorrendo, confunde-se o problema com uma gripe que custa a passar. Eventualmente, a histamina liberada pelos mastócitos do nariz chega aos pulmões e irrita os brônquios - daí a asma. Mas isso ocorre nos casos de rinite.


terça-feira, 16 de agosto de 2011

Cada vez mais social - A Maconha

CADA VEZ MAIS SOCIAL - A Maconha



Não há como fazer vistas grossas: as chamadas drogas ilícitas - aquelas cuja produção, comercialização e uso são proibidos por lei - estão ao alcance de qualquer pessoa. E, a cada dia, novos curiosos embarcam nessa onda. Segundo o mais recente relatório do Escritório das Nações Unidas contra Drogas e Crimes, existem 185 milhões de usuários de drogas ilícitas em todo o mundo. Isso significa que, de cada 100 pessoas, três consomem entorpecentes. Se considerarmos somente as pessoas com mais de 15 anos, a proporção sobe para quase cinco usuários em cada 100 pessoas.



FÁCIL, FÁCIL

Obter maconha é tão comum atualmente como tomar uma cervejinha no boteco da esquina. Sem procurar muito, é possível avistar nas ruas um comunista velho de guerra dividindo um baseado com uma patricinha com bolsa Louis Vuitton a tiracolo. Segundo a ONU, são 146 milhões de usuários de maconha no mundo, 2,3% da população mundial. Nos Estados Unidos, 11% da população consome a erva regularmente. Na Austrália, são 17%. E esses números estão crescendo a cada ano.

Mas é o ecstasy que desponta como a droga do século 21. Num mundo ultra-rápido, caracterizado pela tecnologia e embalado pela música eletrônica, nada parece fazer mais sentido do que uma droga sintética, capaz de alimentar horas e horas de euforia. De acordo com a ONU, já são 38 milhões de usuários de ecstasy e anfetaminas. No Brasil, mais de 100 000 pessoas consomem essa droga regularmente.

O avanço das drogas ilegais sobre a socieda-de escancara a ineficácia da política de repressão adotada até agora na maioria dos casos. Com isso, a estratégia de combate ao problema começa a mudar e, nos próximos anos, deveremos assistir ao abrandamento no tratamento de dependentes, bem como a um debate maior sobe a controversa descriminalização do consumo. Essa descriminalização, acredita-se enfraqueceria o crime organizado em torno do narcotráfico, cujo controle parece ter escapado das mãos da polícia em algumas cidades.

A estratégia de abrandamento é percebida, por exemplo, num decreto do governo federal, atualmente em análise, que possibilitaria a criação de locais seguros para dependentes graves. Um espaço restrito para atendimento de viciados, onde poderiam ser distribuídas seringas limpas para usuários de drogas injetáveis. Nesses lugares, não haveria repressão ao consumo.

Atualmente, à margem da lei, algumas organizações não-governamentais tentam implementar essa política de "redução de danos". Voluntários percorrem as ruas para distribuir seringas e preservativos a viciados. Não recebem nada por isso e ainda correm o risco de serem presos. No Brasil, a ONG Se Liga, de Pernambuco, é uma das entidades que defendem a nova abordagem, uma alternativa às estratégias de combate direcionadas, exclusivamente, para o abandono do consumo de drogas. Essas entidades acreditam que as políticas públicas devem visar também aos que não querem largar as drogas. Nesse caso, a maior preocupação é com a redução dos possíveis danos. O slogan do Se Liga: "Se for usar, não abuse".

Seguindo essa mesma estratégia, a Escola Paulista de Medicina vem realizando experiências com jovens viciados em crack. Eles passam por uma "terapia de substituição", com o objetivo de fazê-los trocar essa droga pela maconha, menos ofensiva à saúde. Os resultados, segundo a Escola Paulista, são positivos.



LEVES E PESADAS

Na esteira dessas experiências, um velho tabu parece começar a balançar: o de que a maconha seria a porta de entrada para outras drogas mais pesadas. Uma pesquisa do governo inglês, divulgada em artigo da revista britânica The Economist, questiona a teoria da escalada de drogas, segundo a qual o uso de substâncias mais leves levaria inevitavelmente às mais pesadas. Os resultados evidenciam que, embora a maioria dos usuários de cocaína e heroína tenha realmente utilizado maconha anteriormente, a recíproca nem sempre é verdadeira: a maioria dos usuários de maconha não passa a consumir drogas mais pesadas. O processo de escalada, segundo o artigo, depende de outros fatores, como a influência genética e as condições sociais e familiares.

No Brasil, um dos defensores da política de redução de danos é o ministro Nilmário Miranda, da Secretaria Especial de Direitos Humanos. Durante um seminário em Porto Alegre, o ministro declarou que o usuário de drogas ilegais deve ser tratado com políticas de saúde da mesma forma que aqueles que consomem drogas legais, como o álcool e o cigarro.
Fazendo coro, a psicoterapeuta Mônica Gorgulho, diretora da Associação Internacional de Redução de Danos e coordenadora da ONG Dínamo, sugere um caminho para a relação entre a sociedade e as drogas ilícitas na próxima década: "Se não é possível livrar o mundo das drogas, é melhor aprender a conviver com elas. E ensinar as pessoas a usarem as substâncias com o máximo de segurança possível". Já seria uma revolução no admirável mundo novo.


Tendências




- DESCRIMINALIZAÇÃO

O avanço das drogas ilegais - três em cada 100 pessoas no mundo consomem algum tipo de entorpecente - demonstra que a política de repressão adotada até agora na maioria dos países não tem sido eficaz. Assim, nos próximos anos, deverá crescer o debate a respeito da descriminalização do consumo de drogas.



- ABRANDAMENTO
Em vez de tentar convencer os usuários a abandonarem as drogas, uma abordagem alternativa seria focar a redução dos possíveis danos à saúde daqueles que não querem ou não conseguem se livrar do vício. Nos próximos anos poderão ser criados no país centros de atendimento de dependentes graves, onde seriam distribuídas seringas limpas para usuários de drogas injetáveis.


quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Aspirina diária reduz risco de morte por câncer

07/12/2010 09h04 - Atualizado em 07/12/2010 09h24

Aspirina diária reduz risco de morte por câncer, diz estudo



Segundo pesquisa, consumo de 75 mg diários da droga reduziu em até 20% os riscos de morte.

Uma pequena dose diária de aspirina é capaz de reduzir substancialmente o risco de morte por uma série de tipos de câncer, segundo sugere um estudo britânico.

A pesquisa coordenada pela Universidade de Oxford verificou que uma dose diária de 75 mg reduziu em até 20% a chance de morte por câncer.

O estudo, publicado na última edição da revista científica "The Lancet", analisou dados de cerca de 25 mil pacientes, a maioria deles da Grã-Bretanha.

Especialistas dizem que os resultados mostram que os benefícios da aspirina comumente compensam os riscos associados, como aumento da possibilidade de sangramentos ou irritação do sistema digestivo.

Outros estudos já haviam associado a aspirina à redução dos riscos de ataques cardíacos ou de derrames entre as pessoas nos grupos de risco.

Mas acredita-se que os efeitos de proteção contra doenças cardiovasculares sejam pequenos entre adultos saudáveis. Também há um risco maior de sangramentos no estômago e no intestino.

Porém a pesquisa publicada nesta terça-feira afirma que, ao avaliar os benefícios e os riscos do consumo de aspirina, os médicos deveriam também considerar seus efeitos de proteção contra o câncer.

As pessoas que consumiram o medicamento tiveram um risco 25% menor de morte por câncer durante o período do estudo, e uma redução de 10% no risco de morte por qualquer causa em comparação às pessoas que não consumiram aspirina.

Longo prazo
O tratamento com a aspirina durou entre quatro e oito anos, mas um acompanhamento de mais longo prazo de 12.500 pessoas mostrou que os efeitos de proteção continuaram por 20 anos tanto entre os homens quanto entre as mulheres.

Após 20 anos, o consumo diário de aspirina ainda tinha o efeito de reduzir em 20% o risco de morte por câncer.

Ao analisar os tipos específicos da doença, os pesquisadores verificaram uma redução de 40% no risco de morte por câncer de intestino, 30% para câncer de pulmão, 10% para câncer de próstata e 60% para câncer de esôfago.

As reduções sobre cânceres de pâncreas, estômago e cérebro foram difíceis de quantificar por causa do pequeno número de mortes por essas doenças entre as pessoas pesquisadas.

Também não havia dados suficientes para analisar os efeitos da aspirina sobre cânceres de ovário ou de mama, mas os autores da pesquisa sugerem que a razão para isso é que não haveria mulheres suficientes entre as pessoas analisadas.

Mas estudos de larga escala sobre os efeitos da aspirina sobre esses tipos específicos de câncer estão em andamento.

O coordenador do estudo, Peter Rothwell, disse que ainda não aconselha os adultos saudáveis a começarem a tomar aspirina imediatamente, mas afirmou que as evidências científicas estão 'levando as coisas nessa direção'.

Segundo Rothwell, o consumo diário de aspirina dobra os riscos de grandes sangramentos internos, que é de 0,1% anualmente. Mas ele diz que os riscos de sangramento são 'muito baixos' entre adultos de meia idade, mas aumentam bastante entre os maiores de 75 anos.

Segundo ele, o tempo ideal para começar a considerar tomar doses diárias de aspirina seria entre os 45 e os 50 anos, por um período de 25 anos.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Um golpe na moleza - Viagra

UM GOLPE NA MOLEZA - Viagra



Chamando-o por sua denominação oficial, citrato de sildenafil, quase ninguém é capaz de reconhecê-lo. Mas recorrendo ao nome com o qual o produto chegou ao mercado, em 1998, nenhum terráqueo minimamente informado dirá que não conhece o Viagra, a milagrosa pílula azul que surgiu para combater um dos maiores fantasmas masculinos: a impotência sexual. Sildenafil é o nome da droga - sintetizada a partir da análise minuciosa do funcionamento do órgão sexual masculino - que inibe a ação da enzima responsável pelo relaxamento das veias do pênis. Dessa forma, evita-se que ele fique flácido. O processo funciona em 80% dos casos. A substância começa a agir cerca de meia hora após ingerida e permanece por quatro horas no corpo, período em que o pênis se torna capaz de responder satisfatoriamente a estímulos. O medicamento não deve ser ingerido depois de comer ou após tomar bebidas alcoólicas e é necessário haver estímulo sexual para surtir o efeito desejado.

Apesar de caro, logo o produto se tornou um sucesso de vendas - e não por acaso. Estima-se que metade dos homens acima de 40 anos sofra, em algum estágio, de disfunção erétil. O problema pode ser causado por fatores como pressão alta, colesterol, diabetes, estresse e depressão. De acordo com projeção do laboratório que produz o medicamento, mais de 16 milhões de homens já fizeram uso do Viagra. Em média, a cada minuto, 500 pílulas azuis são consumidas ao redor do mundo.
O Viagra reinou sozinho no mercado nos primeiros anos, tempo suficiente para que a marca lançada pela Pfizer se transformasse em substantivo comum - a exemplo do que aconteceu com "gilete" como sinônimo de lâmina de barbear ou "aspirina" como sinônimo de comprimido para dor de cabeça. Outros produtos na mesma linha foram lançados nos últimos tempos, alguns deles com promessa de efeitos mais prolongados. Uma das novidades esperadas na área para os próximos anos é uma versão em spray do Viagra, que proporcione efeitos ainda mais rápidos.

De volta à festa
Embora tenha surgido para tratar de um problema de saúde - a disfunção erétil -, o Viagra logo ganhou uso "recreativo". Muitos homens sem dificuldades sexuais driblam a exigência de prescrição médica e usam o remédio para ampliar o tempo de ereção, obter maior prazer e impressionar a parceira ou o parceiro. Especialistas temem que esse tipo de uso crie dependência psicológica. Há também preocupação com possíveis conseqüências a longo prazo, embora a princípio não haja contra-indicações para o uso diário - exceto em casos de associação com determinados remédios, como aqueles à base de nitrato, freqüentemente usados contra dores no peito. Ao trazer de volta à vida sexual milhões de homens que se julgavam "aposentados", o Viagra promoveu uma verdadeira revolução na Terceira Idade.
O fenômeno chegou a tal ponto que nos Estados Unidos há campanhas de prevenção de doenças sexualmente transmissíveis voltadas para essa faixa etária (há grande dificuldade para convencê-los a usar preservativos). Nos Estados Unidos e na Europa, 10% dos novos casos de contaminação por HIV ocorrem em pessoas a cima de 50 anos.

O impacto da descoberta
Ao amenizar um dos maiores problemas sexuais, a impotência masculina, o Viagra contribuiu para melhorar a qualidade de vida não só dos homens afetados pelo problema, mas também das suas parceiras e de seus parceiros.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Os Cientistas das prateleiras- Remedios

OS CIENTISTAS DAS PRATELEIRAS



Houve um tempo em que se vendia ópio como remédio para acalmar as crianças nos Estados Unidos. Na mesma época, anúncios publicitários ofereciam remédios infalíveis para a cura do câncer. Era o final do século 19, quando o governo americano deixava o mercado seguir seu rumo e a indústria farmacêutica aproveitava para ganhar dinheiro com todo tipo de doença, tivesse ela um remédio ou não. Responsabilidade social e lucro até deveriam caminhar juntos, mas o segundo teimava em andar na frente, a passos bem mais largos. O problema atingia toda a indústria, porém, com alimentos e remédios ineficientes, os danos causavam mortes.

A solução para essa concorrência selvagem e desleal foi a criação de uma das agências governamentais mais famosas e influentes do mundo, a FDA (sigla em inglês para Administração de Comida e Drogas). Em 2003, cerca de 20% de tudo que os americanos consumiram - uma quantia que chega a 1,5 trilhão de dólares - precisou ser aprovado por esse órgão. Não é um assunto apenas americano. Se os brasileiros hoje podem entrar na farmácia ou no supermercado e comprar produtos sem ter a preocupação de terminar no cemitério, muito se deve ao trabalho pioneiro da FDA. Sabe aquelas informações nutricionais que aparecem nas embalagens? A lei que obriga as empresas a publicá-las foi uma das muitas normas influenciadas por ações bem-sucedidas da agência americana. "Ela é uma das nossas grandes inspirações", diz Cláudio Maierovitch Pessanha Henriques, diretor-presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (veja o quadro na página YY).

O impressionante é que uma agência governamental tão importante só tenha surgido no final do século 19 e, mesmo assim, por causa de tragédias com produtos picaretas. Por que teve de ser assim? Essa é a história do livro Protecting America’s Health ("Protegendo a Saúde da América", inédito em português), de Philip J. Hilts, uma "biografia" da FDA. Além de levantar os escândalos e as mortes causados pelos produtos "tabajaras", Hilts diz que a agência só pôde ser criada no século 19 porque antes ninguém sabia como avaliar os alimentos. A ciência não havia se desenvolvido a ponto de descobrir se comidas ou remédios eram saudáveis ou se haviam sido adulterados.

Existiam também barreiras administrativas. Naquela época, a fiscalização de mercadorias era feita pelos estados americanos, cada qual com regras mais ou menos rígidas. De um modo geral, não pegava bem tentar limitar o mercado: a liberdade de comércio era sagrada nos Estados Unidos e as leis de regulamentação não eram toleradas pela política conservadora da época. A primeira vez que se tentou fazer isso foi em 1867, quando a recém-criada Divisão de Química do Departamento de Agricultura começou a investigar as fraudes de produtos agrícolas. Os trabalhos dessa equipe eram tímidos e talvez continuassem assim se, 16 anos depois, a chefia do órgão não fosse passada ao médico Harvey Washington Wiley - o grande herói da regulamentação de alimentos.

Antes de fazer história, no entanto, ele precisou fazer ciência. Obstinado pelo conhecimento científico, ele expandiu a área de pesquisa da Divisão de Química. Na época, a ciência americana estava atrasada em relação à européia. Os Estados Unidos não tinham sequer um departamento de saúde, nem métodos de angariar dinheiro para as pesquisas. Os empresários desprezavam o conhecimento científico, principalmente se os acadêmicos cruzassem o caminho de seus negócios. Mesmo assim, Wiley iniciou os experimentos com alimentos e remédios, testou os efeitos de conservantes químicos no corpo humano e publicou tudo no documento Foods and Food Adulterants (Comidas e Adulteradores de Comida), publicado entre 1887 e 1902. Eram denúncias contra as práticas dos "barões ladrões", como ficaram conhecidos os empresários inescrupulosos, acostumados a usar conservantes que mudavam a cor e o sabor, camuflavam a putrefação e prorrogavam o prazo de armazenamento. Wiley mostrou que, entre as propriedades dessas substâncias, estava também a de causar perda de apetite, enjôos, indigestão, dores de cabeça, problemas intestinais e letargia.

A Divisão de Química não tinha autonomia e autoridade para conter esses abusos e, por isso, o relatório de Wiley foi uma estratégia inteligente para despertar a opinião pública. Pouco a pouco, diversos estados editaram leis de regulamentação dos mercados de alimentos e medicamentos. A imprensa percebeu que tinha uma boa história naquelas denúncias e, em 1906, publicou várias reportagens mostrando as péssimas condições sanitárias das fábricas de carne embalada. A pressão fez o presidente Theodore Roosevelt assinar uma lei que dava poderes de administração, regulação e fiscalização ao já então renomeado Bureau de Química. O ato presidencial ficou conhecido como Wiley Act.

A indústria achava um absurdo a intromissão do governo no mercado, mas a briga só esquentou quando passou a envolver um coisa séria e essencial a todo americano: o ketchup. O conservante mais usado nele, o benzoato de sódio, estava na lista das substâncias proibidas de Wiley. Não era um composto essencial - podia ser substituído por regras simples de higiene -, mas representava tudo que incomodava os barões. Muitos deles patrocinaram uma campanha nacional contra Wiley, enviando artigos difamatórios a jornais e revistas. Organizaram também um painel de "especialistas" no assunto que concluiu que o benzoato era seguro. Para vencer o duelo, Wiley obteve um projeto de lei que tirava o valor legal desses cientistas da indústria. Os esforços dos barões tiveram ao menos uma vitória: cansado das pressões políticas e das campanhas difamatórias, Wiley renunciou ao cargo em 1912.

Com os alimentos sob controle, o próximo alvo eram os anúncios de remédios. O Bureau de Química controlava os produtos das farmácias, mas não apitava nada em relação à propaganda que se fazia deles. Para tirar do mercado as drogas que prometiam curas milagrosas, o órgão - que a partir de 1930 ganhou o nome de FDA - precisaria do longo e caro trabalho de provar que elas só prejudicavam os consumidores. Seria quase impossível, se uma série de calamidades causadas pela indústria não tivesse revoltado a população.

Em 1937, o laboratório Massengill lançou com sucesso o antibiótico Elixir Sulfanilamide, um alívio para algumas infecções infantis. Para apressar o lançamento, a empresa não fez testes rigorosos com o solvente do produto, o dietilenoglicol. Era um álcool tóxico que causou a morte de pelo menos 100 pessoas, a maioria crianças. O escândalo chocou os Estados Unidos e, um ano depois, o presidente assinava o Food, Drug and Cosmetic Act (Ato de Comidas, Drogas e Cosméticos). A norma determinou que só poderiam ser vendidos no mercado remédios pré-aprovados pela agência. Também endureceu contra a publicidade enganosa, que passou a ser fiscalizada por uma comissão federal.

Em 1938, uma emenda obrigou a indústria a informar o nome genérico e os efeitos colaterais dos remédios nas embalagens. Também determinou a renovação periódica da licença dos fabricantes. Na época, era pedir demais. A indústria reforçou o lobby no Congresso para derrubar as medidas e dar uma meia-trava nessa história de regulamentação. Quem veio em socorro da FDA foi, mais uma vez, uma tragédia: a introdução nos Estados Unidos da talidomida, um sedativo prescrito para atenuar enjôos em mulheres grávidas. O laboratório que trazia a novidade da Alemanha forjou dados para obter a aprovação da FDA. Na verdade, não havia nem começado os testes em animais e usou como "cobaias" 20 mil pacientes americanos. No mesmo ano, apareciam na Europa os primeiros casos de nascimentos de bebês com focomelia - ausência de ossos longos nos braços e nas pernas. Nos hospitais americanos nasceram, oficialmente, 40 crianças com os braços curtos e grudados ao corpo graças ao sedativo. A contagem extra-oficial chega às centenas.

A tragédia deixou claro que a ação da FDA era essencial. A partir daí, a agência criou uma base tão sólida que, apesar de uma ou outra ação isolada, não houve lobby da indústria capaz de derrubá-la. A FDA ampliou a equipe de pesquisadores e passou a prestar consultoria às empresas que já haviam percebido o quanto a fiscalização contribuía para a credibilidade de seus produtos. O trabalho se reforçou com leis: em 1962, o presidente John Kennedy assinou uma norma que obrigava os laboratórios a mostrar cientificamente que seus produtos eram seguros e eficazes, além de manter registros de todos os testes. Foi aí também que se determinou que experimentos em humanos só seriam permitidos com o consentimento dos pacientes (é, foi preciso uma lei para isso). Só quando reunissem essa papelada é que a FDA liberaria o lançamento de um remédio.
Hoje não há quem discuta a importância da regulamentação, mas as polêmica ainda fazem parte do dia-a-dia da agência. A mais recente diz respeito aos transgênicos - uma questão parecida com aquelas que atingiam Wiley no século 19. Temos como provar a segurança total desses produtos? Devemos usar qualquer incerteza para proibir uma tecnologia capaz de nos trazer mais alimentos? A FDA foi uma das primeiras agências a liberar esse tipo de produto - uma postura polêmica, adotada por alguns países e criticada por outros. De qualquer forma, o que a FDA mostrou para o mundo - e que ninguém discute - é que a regulamentação com base científica é essencial.