O que acontece quando um clone é clonado repetidas vezes - Ciência finalmente tem a resposta
Pesquisa de 20 anos indica que mutações no DNA se acumulam ao longo das gerações e reduzem a taxa de nascimento; reprodução sexual ajuda a “corrigir” esses erros. Entenda mais.
Uma dúvida antiga da ciência acaba de ganhar uma resposta mais clara: afinal, até onde dá para ir clonando um animal repetidamente?
Um estudo publicado nesta terça-feira (24/03/2026) na prestigiada revista científica "Nature Communications" mostra que esse processo tem limite, pelo menos em pequenos mamíferos roedores.
Ao acompanhar camundongos clonados ao longo de 20 anos, pesquisadores japoneses descobriram que a clonagem sucessiva NÃO pode ser mantida indefinidamente em mamíferos.
🧬O motivo? Porque o DNA vai acumulando erros ao longo das gerações (entenda mais ABAIXO).
Na prática, segundo o estudo, os clones continuam parecidos e até vivem normalmente por um bom tempo. Mas, aos poucos, algo sempre começa a dar errado.
clonado da 50ª geração. — Foto: Universidade de Yamanashi
O estudo produziu mais de 1.200 camundongos clonados a partir de um único animal doador ao longo das duas décadas.
➡️E a sua descoberta central é que essas mutações genéticas de grande escala se acumulam progressivamente a cada geração de clonagem, até um ponto em que os animais simplesmente deixam de nascer vivos.
"Na reprodução clonal, todas as mutações do animal original são transmitidas para a próxima geração. Além disso, novas mutações continuam se acumulando ao longo das gerações", explica Teruhiko Wakayama, professor da Universidade de Yamanashi (Japão) e um dos autores do estudo.
"Embora cada mutação tenha pouco ou nenhum efeito no animal adulto, acreditamos que o acúmulo dessas mutações acabou ultrapassando um limite, levando à incapacidade de reprodução".
Como o experimento funcionou
O estudo foi conduzido por pesquisadores da Universidade de Yamanashi, no Japão.
O grupo começou os experimentos em janeiro de 2005 com uma única camundonga doadora e foi clonando os animais sucessivamente, geração após geração, por quase duas décadas.
A técnica usada se chama transferência nuclear de células somáticas.
Nesse processo, o núcleo de uma célula comum do corpo (aquela que carrega o DNA) é retirado e inserido em um óvulo esvaziado. Esse óvulo reconstituído é então implantado no útero de uma fêmea receptora, que leva a gravidez até o fim.
🐭 A cada nova geração, as células dos clones mais recentes eram usadas para gerar a geração seguinte.
Nas primeiras gerações, tudo parecia correr bem. Os camundongos nasciam com peso normal, viviam em média dois anos (tempo esperado para a espécie) e a taxa de sucesso da clonagem chegou a 15,5% na 26ª geração.
Por isso, os pesquisadores chegaram a acreditar, em um primeiro momento, que o processo poderia continuar indefinidamente.
Já na 58ª geração, todos os camundongos que nasceram morreram no dia seguinte.
Para entender por quê, a equipe fez sequenciamento completo do genoma de animais de diferentes gerações, uma leitura detalhada de todo o material genético dos clones.
O resultado mostrou que o problema não estava em erros na forma como os genes eram ativados ou silenciados, mas no DNA em si.
A cada nova geração clonada, o genoma acumulava em média 70 pequenas mutações pontuais e cerca de 1,5 alterações estruturais maiores.
Até a 23ª geração, esses erros não pareciam graves o suficiente para comprometer os animais.
Depois desse ponto, porém, problemas mais sérios começaram a aparecer: perda de cromossomos inteiros, grandes trechos do DNA reorganizados de forma errada e genes importantes completamente inativados.
conseguiu se desenvolver e chegar à fase adulta. — Foto: University of Yamanashi
Na 57ª geração, os animais carregavam cerca de 30 genes com perda total de função e outros 50 com mutações que alteravam as proteínas produzidas, um acúmulo que eventualmente ultrapassou o limite que o organismo consegue tolerar.
e chegaram à fase adulta. — Foto: Universidade de Yamanashi
Futuro da clonagem
Os resultados de toda essa empreitada de mais de duas décadas confirmam na prática uma previsão teórica feita pelo geneticista Hermann Muller nos anos 1960, conhecida como Catraca de Muller.
A ideia central é simples: em linhagens que se reproduzem sem sexo, mutações prejudiciais se acumulam de forma irreversível, geração após geração.
Com o tempo, esse acúmulo inevitavelmente compromete a viabilidade da espécie.
❗E o estudo da Universidade de Yamanashi oferece justamente a primeira demonstração empírica direta de que esse fenômeno ocorre em mamíferos.
Desde o nascimento da ovelha Dolly, em 1997, a clonagem de mamíferos tem sido discutida como ferramenta para preservar espécies ameaçadas de extinção, para a medicina e para a produção em escala de animais com características valorizadas, como o gado wagyu japonês.
O estudo, contudo, não descarta essas possibilidades, mas deixa claro que a clonagem em série tem limites biológicos reais que precisam ser levados em conta em qualquer aplicação prática.
"O fenômeno desse limite foi demonstrado pela primeira vez neste estudo, e seus detalhes ainda são totalmente desconhecidos", acrescenta Wakayama.
"A partir de agora, precisamos demonstrar que as mutações geradas pela clonagem não representam problemas para sua aplicação na pecuária".
é inserido em um óvulo para gerar um clone. — Foto: Universidade de Yamanashi
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