sábado, 21 de março de 2026

Empresa diz ter 'carregado' cérebro de mosca em computador, pesquisadores dizem que a afirmação é exagerada

Empresa diz ter 'carregado' cérebro de mosca em computador, pesquisadores dizem que a afirmação é exagerada

Experimento usa mapa de conexões neurais para simular comportamentos básicos do inseto, mas pesquisadores alertam que isso está longe de reproduzir um cérebro de verdade. Entenda as críticas.

Um vídeo curto, compartilhado nas redes sociais, mostra uma mosca digital andando, se alimentando e limpando o próprio corpo.

À primeira vista, parece só mais uma animação. Mas por trás da cena está uma promessa ousada: a de que, pela primeira vez, um cérebro biológico teria sido “copiado” para dentro de um computador e colocado para funcionar.

A afirmação vem da empresa Eon Systems, nos Estados Unidos, e rapidamente viralizou, junto com comparações com filmes de ficção científica e previsões sobre até um “upload de mentes humanas”.

Mas, na avaliação de especialistas ouvidos, o que foi demonstrado está muito longe disso.



À esquerda, a mosca digital em simulação; à direita, o conectoma
— a rede de conexões neurais usada no modelo. Especialistas ressaltam:
isso não equivale a um cérebro real. — Foto: Eon Systems



O que a empresa fez foi mapear as conexões entre os neurônios do cérebro da mosca e usar esse mesmo mapa para controlar um corpo virtual em simulação: um avanço real e inédito, reconhecem os pesquisadores.

➡️Mas um mapa de conexões NÃO é um cérebro.


"É como ter o mapa das estradas de uma cidade sem saber o tipo de veículos, o trânsito ou as regras de circulação — você conhece a estrutura, mas não entende o fluxo real", diz o médico e neurocientista Rogério Panizzutti, pesquisador do Instituto de Psiquiatria da UFRJ que não teve relação com o estudo.


Para ele, o modelo deixa de fora praticamente tudo que faz o cérebro funcionar de fato: a identidade de cada neurônio, os sinais químicos que eles trocam entre si, a capacidade do cérebro de se reorganizar com o tempo e a influência do ambiente ao redor de cada célula.

Na prática, o sistema consegue reproduzir comportamentos básicos porque segue esse “mapa” de conexões, mas não incorpora a complexidade biológica que define como um cérebro realmente funciona — o que limita até onde essa simulação pode ir.

Entenda mais abaixo.


Corpo simulado em computador

Para entender o que a Eon Systems realmente fez (e o que não fez) é preciso olhar para como diferentes peças desse experimento foram combinadas.

Em outubro de 2024, Philip Shiu, cientista sênior da empresa, e dezenas de colaboradores de várias universidades publicaram na prestigiada revista científica "Nature" um modelo computacional baseado no mapeamento do cérebro da Drosophila melanogaster, a mosca-das-frutas.



Mosca-das-frutas (Drosophila melanogaster) se alimenta de banana;
espécie é amplamente usada em pesquisas. — Foto: Sanjay Acharya/Wikimedia Commons

Esse mapeamento, chamado de conectoma, registrou mais de 125 mil neurônios e 50 milhões de conexões entre eles, reconstruídos a partir de imagens de microscopia eletrônica produzidas por outros grupos de pesquisa ao longo de anos.

Com base nessa estrutura, os pesquisadores criaram então um modelo matemático simples que simula como sinais elétricos se propagam de neurônio em neurônio, e mostraram que esse modelo consegue prever, com mais de 90% de acerto, quais células nervosas disparam quando a mosca detecta açúcar ou precisa limpar a sua antena, por exemplo.

🔍 O que a Eon Systems afirma ter feito agora vai além desse artigo, mas sem o mesmo respaldo.

“Minha preocupação é com a forma como a Eon Systems tem apresentado esses avanços, especialmente ao falar em ‘animais realmente carregados’. O que eles fizeram é limitado, baseado em trabalhos mais fundamentais, e essa ideia de ‘upload’ de um animal não se sustenta”, critica Alexander Bates, pesquisador em neurobiologia da Harvard Medical School (EUA).

“Não vejo evidência de que tenhamos ‘carregado’ um animal real em qualquer sentido significativo", acrescenta o pesquisador.

A empresa diz ter integrado esse modelo neural a um corpo virtual de mosca, ele próprio desenvolvido por outros pesquisadores em um projeto separado, e a uma plataforma de física computacional chamada MuJoCo, amplamente usada em robótica e inteligência artificial.

A ideia é que os sinais gerados pela simulação do cérebro passem a controlar os movimentos da mosca digital, fazendo com que ela ande, se alimente e se limpe sem que cada gesto tenha sido programado manualmente.

⚠️ Essa parte, porém, não foi publicada em nenhum artigo científico, não passou por revisão independente e não teve sua metodologia detalhada em nenhum documento público.

O que existe são dois vídeos curtos postados no X, antiga rede social Twitter, e uma postagem no blog da própria empresa.

"Acho que o termo 'emulação' é mais adequado nesse caso", pondera também João Luís Garcia Rosa, professor associado do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação da Universidade de São Paulo (ICMC-USP).

Para ele, se comprovado, o resultado representa um avanço real, mas ainda distante de reproduzir um cérebro completo.

"A teoria na prática é outra — a física pode ser muito diferente do modelo teórico", diz o especialista, que também pesquisa a interface entre neurociência e inteligência artificial, com foco justamente em interfaces cérebro-computador.

Na avaliação do pesquisador, o avanço está em mostrar esse modelo funcionando em um corpo simulado, o que amplia o que antes ficava restrito ao ambiente computacional.

Ainda assim, ele pondera que se trata de uma representação muito simplificada, capaz de reproduzir apenas aspectos limitados do comportamento cerebral, algo muito distante da complexidade de cérebros avançados.

“Não vejo objeção em chamar de ‘mosca virtual’, mas copiar o circuito do cérebro não cria uma mosca — apenas descreve seu funcionamento elétrico, que pode servir de base para protótipos mecânicos”, diz André Luiz Paranhos Perondini, professor do Departamento de Genética e Biologia Evolutiva da USP e especialista em biologia evolutiva de moscas-das-frutas.


O que o mapa deixa de fora

Entramos em contato com o cofundador da Eon Systems Alexander Wissner-Gross e com o cientista sênior Philip Shiu — principal autor do artigo publicado na Nature — para comentar as críticas de especialistas ao experimento. Nenhum dos dois respondeu até a publicação desta reportagem.

Entre as perguntas enviadas estavam como a empresa sustenta a afirmação de ter “carregado” um cérebro em um computador, qual seria exatamente o avanço em relação a estudos anteriores, o que a integração com um corpo virtual acrescenta do ponto de vista científico e como são tratados os limites conhecidos desse tipo de modelo.

Essas são justamente algumas das questões que mais geram debate entre especialistas.

“Modelos baseados apenas no conectoma [o esquema de conexões entre neurônios] são úteis para mapear ‘quem se conecta com quem’, mas deixam de fora praticamente tudo o que faz o cérebro funcionar de fato”, acrescenta Panizzutti.

Ele explica que elementos centrais não entram nesse tipo de simulação, como os sinais químicos trocados entre os neurônios, a identidade de cada célula, a capacidade de adaptação do cérebro ao longo do tempo e a influência do ambiente ao redor.

“É como ter o mapa das estradas de uma cidade sem saber o tipo de veículos, o trânsito ou as regras de circulação — você conhece a estrutura, mas não entende o fluxo real.”

Na prática, isso limita o alcance dessas simulações. Embora permitam identificar caminhos possíveis de propagação de informação, prever comportamento real é outra questão.

“O comportamento emerge de interações dinâmicas entre circuitos, estados neuroquímicos, experiências prévias e o ambiente”, diz. “Dois cérebros com conectividade semelhante podem se comportar de maneiras completamente diferentes.”

Por isso, para o pesquisador, o principal avanço está em usar esses modelos para testar hipóteses sobre circuitos específicos — não em reproduzir um cérebro completo nem em sustentar a ideia de que uma mente possa ser “transferida” para um computador.







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