quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Crocodilo-do-nilo - Nascido para matar


CROCODILO-DO-NILO: NASCIDO PARA MATAR



Nas águas barrentas do Rio Mara, no Quênia, os crocodilos se preparam para o maior banquete anual. Eles aguardam pacientemente a chegada de milhões de gnus - antílope africano com cabeça e chifre semelhantes aos do búfalo -, que migram todos os anos em busca de pastagens verdes no país. Num turbilhão apressado, os gnus se espremem em uma massa compacta e entram na água. É quase um ato suicida. Em questão de segundos, o crocodilo-do-nilo abocanha uma das pernas de um dos antílopes. Os dois animais travam uma verdadeira batalha, mas, exausto, o gnu se rende.

O crocodilo é um dos predadores mais perfeitos que já passaram pela Terra. Prova disso é que ele existe há mais de 200 milhões de anos - foi contemporâneo do dinossauro, seu parente direto, que acabou extinto 65 milhões de anos atrás. A longevidade do crocodilo se deve, em grande parte, às suas habilidades predatórias. Mas suas virtudes anatômicas e biológicas também permitiram que esses répteis gigantes sobrevivessem e evoluíssem de tal forma que é possível contar nos dedos seus verdadeiros inimigos naturais - nos dedos de uma mão apenas.

O robusto crocodilo-do-nilo (a segunda maior e mais forte das 23 espécies do réptil - a primeira é o crocodilo-marinho) reina soberano nas águas de todo o continente africano. Medindo até 6,2 metros e pesando quase 1 tonelada, ele não escolhe suas presas: ataca qualquer corpo que se mova à sua frente. Tomando seu banho de sol na ribeira, ou navegando pelo Nilo ou outros cursos d’água, ele está sempre atento e disposto a fazer novas vítimas. Mesmo que elas sejam humanas.

O crocodilo-do-nilo é, de longe, a espécie que mais mata homens no mundo. Para as diversas populações africanas que habitam as áreas próximas do Rio Nilo e nele lavam suas roupas, tomam banho ou mesmo brincam em suas águas, a presença dos crocodilos é fatal. O número de pessoas mortas pode ultrapassar o de uma centena todos os anos.

Mas o cardápio do réptil é muito mais amplo. Ao lado do crocodilo-marinho (a maior espécie), ele é o único capaz de caçar grandes mamíferos. Antílopes, zebras e javalis não têm chances contra o rei do Nilo. Até mesmo leões, hipopótamos e girafas podem tornar-se presas fáceis quando invadem seu território. A facilidade na hora de abocanhar suas vítimas é o resultado de 66 dentes afiados e uma força descomunal dos músculos da mandíbula, com potência que chega a até 2 toneladas por centímetro quadrado.

Hábil caçador, o crocodilo sabe muito bem como montar uma cilada. Submerso com apenas seus olhos, ouvidos e focinho fora d’água, é silencioso e paciente. Ele pode ficar mais de uma hora debaixo d’água esperando sua caça. E isso só é possível graças a duas importantes características: um baixo metabolismo e um coração adaptado. "Como é um animal de sangue frio, o crocodilo tem um metabolismo lento. Ele usa o oxigênio em menor quantidade e consegue ‘segurar’ a respiração por muito mais tempo. Além disso, seu coração adaptado tem um vaso sanguíneo que permite que o sangue seja parcialmente desviado dos pulmões enquanto ele está submerso, uma válvula que ajuda nesse mesmo processo, e, finalmente, outros tecidos moles que desviam o fluxo do sangue", afirma Mason Meers, professor de biologia e anatomia evolutiva da Universidade de Tampa, na Flórida, Estados Unidos.

Mas os artifícios de caça do crocodilo não param por aí. Seus ouvidos são interligados e ele consegue manter o equilíbrio quando desliza submerso pelo Nilo - ao contrário de nós, que podemos ficar zonzos quando estamos boiando. Isso quer dizer que ele permanece camuflado como um tronco de madeira e faz manobras debaixo d’água tão suaves que é praticamente impossível percebê-lo. Uma vez perto de sua presa, seu bote é rápido - em menos de uma fração de segundo, o crocodilo tem sua caça na boca. Astuto, sabe que se sua presa for maior e mais pesada que ele, o mais prudente a fazer é trazê-la para água e afogá-la. Se não, ele a desmembra imediatamente em terra firme, segurando-a pela mandíbula e a girando rapidamente na superfície da água, até que ela se despedace.

Com o banquete à mesa, o crocodilo divide sua iguaria com outros animais da mesma espécie: o sistema hierárquico entre eles é bem definido e, se o caçador for menor, ele terá que esperar outros companheiros maiores se juntarem para comer. Mas o crocodilo só é sociável no momento da partilha. Ele raramente caça em bando: prefere sair sozinho, mesmo correndo o risco de encontrar outro indivíduo maior e mais forte - que certamente irá atacá-lo se estiver com fome. Sim, há canibalismo entre eles, principalmente quando um réptil grande e faminto se depara com um menos corpulento.

Uma questão polêmica, que ainda intriga os pesquisadores, é sobre uma velha lenda que dá conta que o crocodilo se alimenta apenas uma vez por ano. Embora não seja totalmente verdadeira, ela também não é completamente falsa. "Essa história não é uma verdade absoluta. O que acontece é que ele pode ficar um ano sem se alimentar, sem problema. Mas o que se observou é que com isso o crocodilo emagrece demais e torna-se presa fácil para outros crocodilos", afirma Adam Britton, pesquisador sênior da Wildlife Management International, instituto de pesquisa sobre crocodilos da Austrália.

Muita gente acredita que, por causa de seu aspecto monstruoso, ele come apenas presas grandes - outro mito. "Uma presa grande pode sustentar um crocodilo por meses, mas a maioria deles, principalmente os maiores, se alimenta de presas pequenas freqüentemente, já que a maior parte de sua dieta é constituída por peixes, aves, serpentes e o que puder ser encontrado no Nilo", diz Adam.

O que se sabe de verdade é que o crocodilo tem um estômago de pedra. Literalmente. Apesar de seus fortes músculos da mandíbula, o réptil não mastiga - por isso, tem ou que desmembrar sua presa e separá-la em partes (como faz com girafas, zebras e hipopótamos) ou engolir ela inteira, caso de filhotes de antílope. Seja como for, sua refeição inclui ossos, chifres e o que mais vier com a caça. Para digerir todo esse cardápio, no estômago do crocodilo existem pequenas pedras para ajudar na trituração dos pedaços mais duros.

Os instintos predatórios do crocodilo caminham lado a lado com seus instintos de preservação da espécie. Basta observar o zelo materno que uma mamãe crocodilo tem com seu ninho e, mais tarde, com seus filhotes - dedicação rara entre os répteis, que geralmente abandonam seus ovos logo após colocá-los. A fêmea crocodilo sabe como ninguém manter suas crias fora de perigo e é extremamente cuidadosa. Pouco antes dos pequenos répteis nascerem, emitem sons como forma de pedir ajuda. A mãe crocodilo auxilia os filhotes a sair dos ovos quebrando-os com sua boca e depois os leva para a água. O cuidado com suas crias vai além: a proteção pode se prolongar até os 3 anos de idade.

Outra característica preservativa do crocodilo é sua noção de perigo e cooperação. Por meio de um avançado sistema de comunicação, ele consegue intimidar animais como elefantes, hipopótamos e até leões com vibrações subsônicas. O mesmo sistema é usado para a comunicação entre eles. "Grandes animais podem ser ouvidos a longas distâncias. O interessante sobre esses sons é que nós, humanos, não somos capazes de ouvir, já que são subsônicos, ou mais conhecidos como ‘infra-som’. Eles, no entanto, se comunicam através desse sistema, que permite, entre outras coisas, que possam debandar das áreas de grande periculosidade", afirma Meers.
Outro importante fator de preservação do crocodilo está em seu sangue. Apesar de lutarem muito entre si - e acabarem com grandes feridas -, os animais quase nunca desenvolvem infecções. As pesquisas levam a crer que existe um antibiótico natural no sangue do réptil que mata bactérias e outros microrganismos. "Estudos indicam que é por causa de uma substância presente no sangue. Mas ninguém demonstrou exatamente a origem dessas propriedades", diz o pesquisador Pablo Siroski, do projeto Yacaré, que estuda crocodilianos na Argentina. Está aí um dos grandes mistérios do animal que segue à risca a teoria de seleção natural de Darwin: apenas os mais fortes sobrevivem.


Derrotando exércitos


Um dos maiores ataques de crocodilos-do-nilo ao homem ocorreu nos tempos de Alexandre, o Grande. Perdiccas, um dos generais de Alexandre, almejando o poder, resolveu invadir as terras de seu inimigo Ptolomeu e tomar Tebas, no Egito, em 321 a.C. Sabendo de suas intenções, Ptolomeu protegeu a região e obrigou o rival a mudar a rota para o delta do Nilo, na época infestada de crocodilos. À medida que cavalos e homens eram atacados pelos répteis, os soldados sobreviventes perceberam a fria na qual tinham entrado. Depois de mais de mil terem sido devorados, as tropas, desesperadas, deram meia-volta. Indignado com a "covardia", Perdiccas ordenou que eles voltassem ao rio e cumprissem sua missão. Os soldados, porém, preferiram enfrentar Perdiccas: fizeram um motim e acabaram, mais tarde, assassinando o general.


Fatos selvagens




Nome vulgar

Crocodilo-do-nilo



Nome científico

Crocodylus niloticus



Dimensões

6,2 metros, do focinho à cauda



Peso

Até 900 kg



Principais armas

A mandíbula, que pode dar uma mordida de mais de 1 tonelada



Comportamento social

Sociável, vive em grandes grupos. Mas existe canibalismo na espécie



Ataques a humanos

Não há estatísticas oficiais, mas supõe-se que centenas de ataques ocorram anualmente



Quanto come

Em cativeiro, até 65 kg de carne por semana (no inverno, não comem)



Expectativa de vida

45 anos em hábitat natural e 80 em cativeiro



Dieta

Antílopes, zebras, javalis e até leões e girafas



Principais inimigos

Os hipopótamos são os únicos animais que apresentam algum perigo



Se você encontrar um
Se você navegar em um rio cheio deles, não aproxime os braços da superfície. Em terra são lentos, mas bons saltadores. Mantenha uma distância segura


Para saber mais




Na livraria

Snap! A Book About Alligators and Crocodiles - Melvin Berger e Gilda Berger, Scholastic, EUA 2002

Alligators & Crocodiles - John L. Behler e Deborah A. Behler, Voyageur Press, EUA, 1998



Na internet
http://www.flmnh.ufl.edu/natsci/herpetology/crocs.htm - Site de uma organização que estuda os crocodilianos


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Onça-pintada - A dona da América


ONÇA-PINTADA: A DONA DA AMÉRICA



Ela é o maior felino das Américas. Tem também outro troféu de dar medo: o da mordida mais poderosa entre todos os grandes gatos, incluindo o leão e o tigre. A onça-pintada é capaz de partir com seus caninos mesmo os maiores ossos, como o crânio de uma anta, ou até cascos de tartaruga. Pode abater uma enorme variedade de presas - e as abate, pois quase nenhum animal escapa à sua voracidade. Fazem parte do menu mais de 80 espécies - há quem afirme que o número chega a 150. Ela se alimenta de jacarés, queixadas, capivaras, pacas, tatus - cutias também -, macacos, catetos, veados, aves, peixes, antas e até touros e búfalos. É uma exímia nadadora, capaz de atravessar até 1 quilômetro de rio atrás de comida ou de companheiros para reprodução, e consegue subir com destreza em árvores. Mas, devido ao porte encorpado e às pernas relativamente curtas, não é uma boa corredora - e prefere a emboscada.

"A onça-pintada é evolutivamente adaptada para encontrar, atacar, matar e se alimentar de sua presa de forma extremamente eficiente", afirma Fernando Azevedo, biólogo da Associação Pró-Carnívoros. "Para isso, ela precisa ter três sentidos bastante aguçados: a visão, a audição e o olfato. Em conjunto, são os responsáveis por seu sucesso em procurar e achar uma potencial presa." Apesar disso, o índice de bom êxito de uma caçada não passa de 10%.

Também conhecida como jaguar - nome de origem tupi mais popular no exterior do que aqui -, a onça costuma estar mais ativa à tarde ou à noite, o que dificulta o trabalho dos pesquisadores em observá-la caçando. "Sua atividade diária é solitária. As únicas fases de sua vida que são compartilhadas com outras onças são o período de acasalamento e a fase em que a mãe cria os filhotes", diz Fernando.

Os bebês ficam com as mães até completarem aproximadamente 2 anos. Durante esse período, a maior lição que aprendem é como caçar de forma eficiente. O aprendizado inicia já bem cedo - com 3 ou 4 meses de idade, as oncinhas acompanham a mãe durante as caçadas. No começo ficam só olhando, para depois começarem a ajudar de verdade. "Os felinos, em geral, têm infância bem maior que os outros animais", afirma Carlos C. Alberts, especialista em felinos da Unesp de Assis. "É durante esse período que eles aprendem as técnicas básicas de predação: escolher a presa, pegá-la, matá-la e prepará-la para ser consumida. A preparação é necessária porque as onças não comem pêlos nem penas. Se o filhote não for criado com a mãe, não saberá caçar." Quase adultos, a mãe os força a procurar o próprio território e achar o jantar sozinhos.

Peter Crawshaw, analista ambiental do Ibama e especialista em onças, teve duas oportunidades de assistir a uma mãe ensinando seus filhotes a caçar. "Em uma das vezes, eles haviam matado três queixadas, cujas carcaças estavam uma ao lado da outra", diz. Na outra, viu um filhotão de quase 1 ano correndo ao lado de um touro, acompanhado da mãe e de outro filhote. "Acredito que ela estava ensinando os filhotes o que não caçar, porque um touro é um animal perigoso", afirma.

Há dois tipos de predadores na natureza: os especialistas e os oportunistas. Os primeiros são aqueles que, como o nome diz, se especializam em determinado tipo de caça - caso dos guepardos, que perseguem quase exclusivamente duas espécies de gazela africana. Já o predador oportunista aproveita toda ocasião que surja para capturar qualquer animal que possa subjugar. "A pintada é um pouco dos dois tipos", afirma Crawshaw. "É oportunista por se alimentar de uma gama variada de presas, de tatus e primatas a sucuris e lagartos. E pode ser considerada especialista porque criou técnicas especiais para caçar determinados animais." No Parque Nacional do Iguaçu, no Paraná, por exemplo, as pintadas predavam mais queixadas do que seria esperado, em relação à densidade do animal no parque. "Isso indica uma preferência por essa espécie."

As onças passam a maior parte da vida em busca de comida. Ingerir entre 5% e 10% de seu peso é uma batalha diária - ou quase, porque, quando comem presas muito grandes, elas podem ficar alguns dias sem se alimentar. "Boa parte do tempo de uma onça é gasto no deslocamento dentro de seu território, no intuito de demarcá-lo, achar comida ou parceiros para reprodução", diz Fernando Azevedo. O território do macho normalmente é maior e tem pontos em comum com o de várias fêmeas - ele pode chegar a 200 quilômetros quadrados.

É dentro de sua área que a onça caça, se alimenta, se acasala. E a defende com unhas e dentes. Literalmente. "Por serem animais de uma constituição física muito forte, as onças evitam o contato físico com outras onças no caso de defesa do território. Uma briga entre elas pode acarretar danos físicos muito graves ou até mesmo a morte", diz Fernando. Isso porque os músculos da mandíbula do animal são muito desenvolvidos e ela tem uma mordida de potência bastante grande - mais ainda que a do tigre ou do leão.

Por causa da força na mandíbula, a onça costuma matar suas presas quebrando o pescoço delas. "Ela insere os caninos, que podem ter até 5 centímetros, entre a primeira e a segunda vértebra da presa. Assim, rompe sua medula espinhal. A morte é instantânea", diz Peter Crawshaw. Em outras ocasiões, ela morde o crânio da presa para matá-la. A forma como a onça agarra as vítimas varia bastante - pode ser pelo focinho, pelas costas, pela garganta ou pela cabeça. Em presas maiores, morde na garganta e mata por asfixia ou golpeia de forma que elas caiam no chão com o peso do corpo sobre o pescoço, quebrando-o.
Normalmente, a onça só come o animal que abateu. Não é comum ela se alimentar de bichos que morreram de causas naturais. "A pintada não precisa se preocupar em defender a carcaça de sua presa, porque não há nenhum outro competidor com ela em seu hábitat", diz Carlos C. Alberts. Vem daí a famosa expressão popular que diz respeito a seu hálito. O felino nem sempre tem um bafo de onça, mas, quando caça animais grandes, pode se alimentar da carcaça por dias. Acontece que a carne em florestas tropicais apodrece logo por causa da umidade. Assim, não tem quem agüente o odor exalado pela boca do felino. Nem quem é amigo da onça.


Dopada, mas não morta


Nem mesmo sedada uma onça perde seu instinto. Em julho de 1991, o biólogo Peter Crawshaw capturou e anestesiou uma onça-pintada no Parque do Iguaçu (PR), para colocar um rádio-transmissor. O processo foi acompanhado por um casal de turistas estrangeiros, que passeava pelo local. No final da tarde, a onça já se recuperava - mas ainda estava tonta - quando o casal resolveu tirar uma foto. O felino se assustou com o flash e arrancou na direção da mulher. Peter, num impulso, se colocou entre as duas. "Felizmente, as pessoas tiveram a presença de espírito de entrarem nos veículos", diz ele - que, depois de momentos angustiantes, fez o mesmo. Por sorte, o biólogo acabou apenas com ferimentos leves. Culpa da imprudência humana.


Fatos selvagens




Nome vulgar

Onça-pintada



Nome científico

Panthera onca



Dimensões

Até 2,60 metros do focinho à ponta da cauda



Peso

Até 160 quilos



Principais armas

A poderosa audição e caninos de até 5 centímetros



Comportamento social

É solitária, exceto na época de reprodução, e tem hábitos noturnos



Ataques a humanos

São raríssimos (o último registrado foi em 2004, na Argentina)



Quanto come

Até 16 quilos por dia



Expectativa de vida

Na natureza, 15 anos



Dieta

Queixadas, capivaras, tartarugas



Principais inimigos

Jacarés e cobras



Se você encontrar uma
Não corra. Olhe-a nos olhos para ela perceber que você a viu - a onça ataca de surpresa


Para saber mais




Na internet
www.savethejaguar.com - Site da Wildlife Conservation Society com informações sobre onças e um link para "adotar" financeiramente animais


Leão - Majestade por Mérito


LEÃO: MAJESTADE POR MÉRITO



A leoa corre em câmera lenta, pêlo dourado sob o sol da savana, em direção a um animal listrado de branco e preto. Ela dá um salto certeiro. O corpo dos dois se encontra e a zebra é levada ao solo. A leoa, vitoriosa, se prepara para saborear mais uma refeição. Não é à toa que, aos olhos humanos, leão e leoa carregam cetro e manto no reino animal. Ela, pela caçada implacável. Ele, pelo porte altivo, pela juba espessa e pelo rugido que, com um volume de 116 decibéis, pode ser ouvido a até 8 quilômetros de distância. Entretanto, apesar de todo o carisma do animal caçador, um reino não se mantém graças a um só indivíduo. Os leões são felinos com uma peculiaridade importante: podem caçar sozinhos, mas têm uma eficiente organização grupal, em que cada um tem sua função na luta por proteção e alimento para o bando. Apesar de outros animais também poderem se organizar para caçar em situações específicas, o leão é um estrategista particularmente eficaz nas matanças em grupo.

"O leão, como outros felinos, é um caçador oportunista", diz o biólogo Carlos C. Alberts, da Unesp de Assis, interior de São Paulo. Isso quer dizer que sua caça não é especializada em apenas um tipo de presa. "Além disso, eles muitas vezes podem comer o que estiver disponível, sejam presas levemente incapacitadas - doentes, velhos, muito jovens -, sejam carcaças de animais abatidos por outros predadores", afirma o pesquisador. A eficiência do leão na caça não é muito alta - ele captura a presa em cerca de 30% das tentativas, enquanto outros felinos, como guepardos, que caçam sozinhos, têm mais de 50% de sucesso. Mas é significativamente maior que a taxa de eficiência dos tigres, por exemplo, de apenas 10%. O grupo é que faz a diferença.

Quando se trata de presas grandes, a caça coletiva é uma cuidadosa organização de um bando de leoas. Elas se aproximam de uma manada de zebras, por exemplo, que pastam calmamente. A manada já está disposta de forma específica: os animais que estão nas bordas do grupo são os mais fracos - velhos, filhotes, doentes -, enquanto os indivíduos mais fortes ficam protegidos no centro da manada.

Para se posicionarem ao redor das presas, as leoas precisam calcular diversas variáveis. O reconhecimento do terreno é importante para que as presas fiquem encurraladas - se a vegetação e o relevo formarem uma espécie de funil, melhor. Depois disso, todas as leoas, menos uma, dispõem-se a favor do vento. Dessa maneira, as presas, que sentem o cheiro das predadoras, sabem que não podem ir para aquele lado se não quiserem morrer. Mas, ao mesmo tempo, a leoa que sobrou se esconde do lado oposto, contra o vento. A emboscada está armada.

Todas as leoas precisam estar atentas não só à manada mas também às outras felinas. Manchas localizadas na parte posterior de suas orelhas dão indicações da posição de cada caçadora. Quando estão bem posicionadas, as que estavam a favor do vento se movem em direção à manada, espantando as zebras para a direção oposta - que vão, assim, ao encontro da leoa que estava na tocaia. Ela permaneceu todo o tempo à mais curta distância possível, porque sabe que, se não vencer a presa em pouco tempo, ficará cansada e perderá a caça, que geralmente tem mais resistência para correr longas distâncias.

A predadora dá um pique e corre para pegar a zebra. Ao derrubá-la com a força de seu corpo, patas e garras, prefere morder a presa pela garganta, de modo a asfixiá-la. Abatido o animal, é necessário dividi-lo entre os membros do grupo. Até nesse momento há uma ordem precisa: o leão macho, líder do grupo, é o primeiro a comer. Depois, nessa ordem, as fêmeas mais fortes, as mais fracas e os filhotes. Não se pode dizer que não há agressividade na hora de dividir a comida - as leoas chegam a lutar entre si pelo direito de comer primeiro. Um leão pode consumir até 40 kg de carne em uma refeição, mas depois disso ele não precisa caçar por vários dias. E, findo o banquete, é hora do descanso. Com a barriga cheia, o animal pode ficar até 18 horas dormindo, enquanto o estômago digere a carne.

Cada grupo de leões é composto de cerca de 15 adultos. Desses, de dez a 12 são fêmeas e de três a cinco são machos. Entre as leoas, somente algumas caçam. Outras cuidam dos próprios filhotes e dos filhotes alheios - elas têm a cria na mesma época do ano. A proteção do grupo é uma das grandes preocupações do leão, já que ele costuma se deparar com bandos menores, compostos de machos, que lutam com o líder para demovê-lo de sua posição. "Quando outro leão vence, os filhotes do grupo antigo são mortos, e o novo líder cruza com as fêmeas para começar a sua linhagem. Se o leão não defender seu bando, o investimento na reprodução vai por água abaixo", conta Carlos Alberts. Outra preocupação é assegurar o território de caça - que pode ser um pedaço de terra fixo ou então uma manada de presas que o bando segue savana afora.

Essa divisão de trabalho é, provavelmente, um dos motivos pelos quais somente as fêmeas caçam, na maior parte dos haréns. Enquanto elas têm as funções de conseguir a refeição e atender à prole, os machos são incumbidos de proteger o grupo. Outra evidência das vantagens de as fêmeas caçarem é a diferença física entre os sexos: a juba. Grande e pesada, ela atrapalharia os movimentos necessariamente ágeis durante a caça, além de aumentar a temperatura corporal. Os chamados leões-tsavo, que vivem perto do Rio Tsavo, no Quênia, não têm juba - e caçam junto com as leoas. (Aliás, outra função interessante da juba é revelar a idade do macho. Conforme o tempo passa, a juba vai ficando mais escura. E, se o leão entrar numa briga, ela cai e cresce de novo mais clara. Um leão de juba escura, portanto, é um vencedor. É um bom partido e será um bom pai.)

Estratégias leoninas para matar outros animais servem não somente para conseguir alimentos mas também para executar competidores. Hienas, por exemplo, alimentam-se de carniça e, como andam em bandos de até 70 membros, podem afastar um grupo de leoas que abateu uma caça e minar o esforço dos felinos. O grupo de hienas, no entanto, tem uma hierarquia matriarcal - uma fêmea lidera o bando e esse poder é passado de mãe para filha. Por isso, os leões antevêem a desestruturação do grupo e matam a líder. Se sua filha não tiver atingido a idade adulta, haverá uma luta pelo poder que desmembrará o grupo - e ele não será mais tão perigoso para os leões.

Cachorros-selvagens africanos são outros animais que competem com leões pelas presas. Diferentemente das hienas, porém, esses bandos não são prejudicados somente pela morte do líder, já que a hierarquia se restabelece rapidamente. É preciso que os leões matem o maior número possível de competidores. Ao se depararem com os cachorros, chegam a matar quase 20 de uma só vez.

Leões encontram inimigos até dentro da própria família dos Felidae: os ágeis guepardos, de alta eficiência de caça, podem ganhar dos leões na competição por uma presa, além de suportarem temperaturas mais altas e poderem caçar com o sol a pino. "Para evitar que, no futuro, o guepardo torne-se um competidor, o leão elimina-o enquanto filhote", diz Carlos Alberts. "É uma estratégia em longo prazo que mostra alta capacidade cognitiva."

Apesar das lutas com todos esses animais, o maior problema do leão tem sido a expansão populacional humana, que rouba seus territórios. Há cerca de 2 mil anos, os felinos habitavam a Europa, África e Ásia. Os leões europeus sumiram. Há menos de 200 anos, habitavam ainda quase toda a África, com exceção do Deserto do Saara e da bacia do Rio Congo, e o oeste da Ásia. Hoje em dia, foram reduzidos a algumas pequenas populações espalhadas pela África subsaariana, e há cerca de 250 leões da subespécie P. leo persica, o leão-asiático, no parque de Gir, na região de Goa, Índia. A caça de leões e a expansão territorial do ser humano vêm causando o declínio da população desses animais. O leão é considerado uma espécie vulnerável pela IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza).
"Se olharmos um mapa com a distribuição atual do leão, veremos uma mancha grande", diz o biólogo Laurence Frank, da Universidade da Califórnia em Berkeley. "Mas devemos ressaltar que, na maior parte dessa área, não há realmente leões. Eles se encontram em pequenas populações aqui e ali, confinados a áreas de preservação ambiental." Segundo Frank, somente Tanzânia e Botsuana ainda contam de verdade com uma grande população de leões. Aquela cena típica de documentário de televisão, de uma leoa abatendo uma presa, que descrevemos no início, está se tornando mais rara. O leão mostra por que é visto como rei - da caçada em grupo à eliminação de concorrentes, tanto atuais quanto potenciais. Mas é possível que o rei e as rainhas fiquem sem reino.


Caçadores de homens


Eles hoje estão empalhados no Field Museum, em Chicago, nos Estados Unidos. Mas, há mais de um século, já foram o terror de muitos homens. Em 1898, durante a construção de uma ponte ferroviária sobre o Rio Tsavo, no Quênia, África, dois leões mataram quase 140 operários de uma empresa da Inglaterra, responsável pela obra. Apesar de os homens tentarem se proteger com cercas e fogueiras, os ataques continuavam. Muitos deixaram o local. Só voltaram quando, finalmente, os leões foram mortos. Dois fatores podem ter contribuído para que os leões buscassem presas humanas. O primeiro seria uma epidemia que havia matado naquela década milhões de zebras e gazelas, diminuindo a oferta de comida. O outro, as covas precárias em que eram enterrados operários que morriam de acidentes ou doenças - ao comerem os cadáveres, os leões podem ter começado a buscar humanos como suas presas. Após alguns anos, a pele dos leões foi vendida para o museu, onde permanece até hoje em exposicão. As aventuras do engenheiro John Henry Patterson, que matou os leões a tiros, foram retratadas no filme A Sombra e a Escuridão, de 1996.


Como caça a leoa




1. Ardil

Todas as leoas, menos uma, avançam para as zebras na direção do vento



2. Fuga inútil

As zebras sentem o odor das leoas e correm na direção oposta



3. Surpresa

A leoa remanescente já esperava a presa e ataca



4. Golpe fatal
Uma zebra foi morta pela leoa, mas quem come antes é o macho


Fatos selvagens




Nome vulgar

Leão



Nome científico

Panthera leo



Dimensões

3 metros do focinho ao fim da cauda



Peso

Até 200 quilos



Principais armas

Velocidade, força, garras, dentes



Comportamento social

Sociável, quase sempre vive em grupo. As leoas caçam para o bando e os leões o protegem



Ataques a humanos

Mais de 700 ataques em 15 anos, na Tanzânia



Expectativa de vida

10 anos na natureza; 25 anos em cativeiro



Quanto come

Em cativeiro, 13 quilos de carne por dia



Dieta

Zebras, gnus, antílopes, búfalos, girafas



Inimigos

Hienas, guepardos, cachorros-selvagens



Se você encontrar um
Afaste-se calmamente, sem dar as costas para o animal


Para saber mais




Na livraria

Serengeti Lion - A Study of Predator-Prey Relations - George Schaller, University of Chicago Press, EUA, 1976



Na internet

www.african-lion.org - Site de uma organização sul-africana com informações e notícias sobre os animais



Nas bancas - DVD
Território Selvagem - Leão - Documentário produzido pela BBC e lançado no Brasil pela Super


Leopardo - Campeão de Resistência


LEOPARDO: CAMPEÃO DE RESISTÊNCIA



O leopardo é um mestre da sobrevivência. Entre os grandes felinos, é o único que não sente na pele pintada a ameaça imediata de extinção. Ele resiste graças à versatilidade e ao senso de oportunidade. E, é claro, à excelência na caça. Que ele prefere praticar na escuridão. Basta o sol dar uma trégua na savana ou na floresta para os olhos do leopardo ficarem alerta. Escondido na vegetação, ele caminha silenciosamente pelo breu da noite. Seus passos são pensados - o felino coloca suas patas traseiras exatamente no mesmo lugar das dianteiras, para minimizar qualquer ruído na hora do ataque.

Em meio a uma brisa refrescante, ele avista o cenário perfeito: um grupo de gazelas que descansa próximo a uma árvore, e que não faz a menor idéia do que está por vir. De repente, o leopardo desfere seu ataque fulminante. Em questão de segundos, ele salta para cima do grupo de mamíferos - o pulo do leopardo pode ter até 15 metros de distância. Ligeiras, as gazelas partem em disparada mata adentro, tentando se desvencilhar do predador. Mas o leopardo raramente volta com as mãos abanando. Com uma forte patada, consegue desequilibrar uma das gazelas e a sufoca rapidamente com uma mordida no pescoço. Menor e mais fraca, ela não demora a morrer e virar um banquete perfeito.

Notívago, o leopardo (ou pantera) age quando as vítimas estão mais vulneráveis à sua visão noturna, uma de suas principais características predatórias. A visão do animal é seis vezes mais definida do que a dos humanos e, por isso, ele é capaz de perceber sua presa a 20 metros de distância mesmo no breu total e preparar seu ataque com maior precisão. Além disso, como todos os outros felinos, o leopardo também lança mão de seus aguçados faro e audição.

"Os sentidos dos felinos têm um papel muito importante na hora da caça. É como um pacote: já vêm com a função adaptada para atacar suas presas", afirma o pesquisador Alan Shoemaker, do grupo de especialistas em felinos da União Mundial para a Conservação da Natureza (IUCN, na sigla em inglês). "Mas o leopardo, por ser o mais boêmio da turma, desenvolveu melhor sua visão, seu faro e sua audição. À beira de um rio, à noite, por exemplo, ele pode facilmente pegar um peixe em uma fração de segundos."

Embora seus hábitos sejam noturnos, é bom lembrar que o leopardo não passa os dias descansando. Esparramado em sua toca nas alturas das árvores, ele continua à espreita. Se percebe a aproximação de uma vítima, o felino pode arrematar seu almoço mesmo estando a mais de 5 metros de altura. Sua mira? Sempre a jugular de seu alvo.

A habilidade de caça do leopardo é surpreendente e ele pode fazer vítimas até três vezes maiores que seu peso. Que o digam os gnus - antílopes com cabeça e chifres semelhantes aos do búfalo -, que, todos os anos, são atacados pelos felinos em sua migração da Tanzânia para a fronteira do Quênia em busca de pastagens verdejantes. Mesmo não sendo um animal de grandes dimensões, comparado a felinos como o tigre e o leão, o leopardo tem a seu favor força, mobilidade e agilidade. Ele pode chegar a 2 metros de comprimento, mas seu corpo leve e compacto, guiado por uma pequena cabeça e um longo rabo que serve como leme, lhe permite alcançar altas velocidades em sua busca pela presa - chega a 56 quilômetros por hora em poucos segundos. Além disso, a perfeição de seu design garante uma grande habilidade com suas patas, que funcionam como os braços humanos: ele abraça sua vítima, que não consegue soltar-se por causa das unhas longas e afiadas.

Depois da mordida na garganta da presa, o leopardo trata de carregar rapidinho seu abate para casa - galhos altos de árvores, onde passa a maior parte de seu tempo. Essa é mais uma estratégia do territorial e zeloso leopardo na África para não correr o risco de perder sua refeição para outros animais. A habilidade requer força e destreza. Impulsionado pelas afiadas garras dianteiras, ele consegue escalar uma acácia de mais de 5,5 metros para esconder seu alimento de hienas e leões, por exemplo.

E, quando o assunto é comer, nada de frescura. A presa que ele guardou nos galhos da árvore pode ficar dias por lá e até começar a apodrecer que ele não se importará de comê-la mais tarde, quando tiver fome. Seu cardápio é bastante variado - ele aprecia de tudo um pouco: desde pequenos antílopes até babuínos e cachorros. "Outra característica importante do leopardo é seu senso de território. Ele sabe como ninguém defendê-lo e por isso é um bravo sobrevivente da selva", diz Alan Shoemaker.

O poderoso instinto de sobrevivência faz com que o leopardo seja, disparado, a maior população de felinos do continente africano. São cerca de 600 mil a 900 mil em toda África. E populações que podem chegar a 100 mil no total na Ásia - é o felino com maior distribuição geográfica do planeta. "Ele é um animal de fácil adaptação, talvez o mais versátil de todos os felinos. Mesmo com a caça à sua pele - febre nos 60, quando Jacqueline Kennedy lançou moda com seus casacos de leopardo -, a espécie esteve poucas vezes perto da extinção", afirma Alan.
O leopardo é um dos felinos que melhor convive com os humanos, embora possa haver graves problemas (leia quadro na pág. 35). Em subúrbios de Nairóbi, no Quênia, os moradores já se acostumaram à presença noturna dos leopardos, que perambulam pelos terrenos baldios à procura de comida. Mesmo assim, eles não abusam da boa vontade do felino e mantêm uma distância segura. Afinal, todo cuidado é pouco com um predador como esse.


Leopardos urbanos


A magalópole Mumbai, capital indiana de produção de filmes, cresce tanto que avança na direção do parque nacional Sanjay Gandhi, onde vivem leopardos selvagens. E os leopardos avançam para a cidade. Inclusive para os estúdios da chamada Bollywood. No ano passado, foram 30 ataques nos bairros vizinhos ao parque, com 19 mortes. Para 2005, a estimativa é que o número de ataques aumente. Uma possível razão para a invasão dos felinos é a escassez de presas nos limites do parque, devido à superpopulação de leopardos. Eles saem de lá para comer animais como cachorros - mas não poupam crianças ou idosos.


Fatos selvagens




Nome vulgar

Leopardo ou pantera



Nome científico

Panthera pardus



Dimensões

Até 2,90 metros



Peso

Até 80 kg



Principais armas

Mordida e patas



Comportamento social

Solitário



Ataques a humanos

Em ambiente selvagem, são muito raros



Quanto come

Até 3,2 quilos por dia



Expectativa de vida

Até 15 anos na selva; 20 anos em cativeiro



Dieta

Impalas, antílopes, macacos, babuínos, gnus



Principais inimigos

Leões e tigres



Se você encontrar um
Se não chegar perto demais, dificilmente será atacado


Para saber mais




Na livraria

Big Cat Siary: Leopard - Jonathan Scott e Angela Scott, Collins, Inglaterra, 2003



Na internet
http://lynx.uio.no/lynx/catfolk/ssaprd01.htm - Página da União Mundial para a Conservação da Natureza com informações sobre leopardos


Orca : Dentes e Cérebro


ORCA: DENTES E CÉREBRO



Se algum dia você tiver a chance de caminhar pela praia nas ilhas Crozet, um fim-de-mundo entre a costa leste da África e a Antártida, é provável que presencie uma cena meio impensável: uma baleia encalhando por vontade própria. Não, o bicho não endoidou, mesmo porque essa não é exatamente uma baleia. Se prestar atenção nos guinchos desesperados que vêm da boca da presa, você consegue resolver o mistério: essa é uma orca, e ela acaba de arriscar o próprio couro só para abocanhar um filhote de elefante-marinho que tomava sol por ali. De repente, uma onda mais forte atinge aquela parte da praia e carrega a caçadora de volta para o mar, em segurança - e com o almoço no papo.

A técnica de captura nada ortodoxa é só uma amostra dos talentos múltiplos das orcas, um dos predadores mais versáteis e cheios de manhas da Terra. É claro que ter várias toneladas e dentes afiados ajuda, mas o segredo do sucesso desses bichos é mesmo o cérebro. Não é à toa: na verdade, a orca não é uma baleia, como muita gente pensa. Ela é, sim, um golfinho avantajado, animal que, como todo mundo sabe, é sinônimo de inteligência. "De fato, as orcas são cetáceos (o grupo das baleias e golfinhos) odontocetos, ou seja, que possuem dentes na boca, e atualmente se encontram na família dos delfinídeos, junto com diversas espécies de pequenos golfinhos", afirma o biólogo Marcos César de Oliveira Santos, da USP.

"Em português, durante muito tempo, se utilizava o nome ‘baleia-assassina’. Além de ser um termo pejorativo, ele traz problemas à compreensão do que os animais realmente são. Por isso, nos anos recentes, há uma tendência entre os pesquisadores para chamá-las de orcas, que quer dizer tonel ou barril em latim", diz o pesquisador. Pelo menos em relação aos humanos, a fama de assassina é infundada, porque praticamente não existem relatos de um ataque direto dos bichos contra pessoas. Há quem diga que o significado original do termo se referia ao fato de que as orcas eram assassinas de baleias - nesse caso, até que é verdade. Que fique claro: ela só mata para se alimentar e, assim, sobreviver.

Mas reduzir esses animais a meros comedores de baleias, focas e afins não é muito justo. Na hora do jantar, as orcas não têm preconceito, e também se fartam de peixes, lulas, pingüins, tartarugas-marinhas e até lontras-do-mar. Como fazem alguns dos outros grandes carnívoros em terra, como leões e lobos, a especialidade delas é a caça coordenada, em grupo. "A sociabilidade é uma ferramenta de extrema valia para mamíferos que vivem em ambiente aquático", diz Marcos César.

A vida debaixo d’água fez com que a evolução favorecesse uma espécie de sonar para achar a presa. Como o som se transmite muito depressa no meio aquático (viajando a uns 1 500 quilômetros por hora), os bichos usam os estalidos, um de seus tipos de chamado, para localizar o possível jantar. Basicamente, é como se o som viajasse até a presa, fosse rebatido na forma de eco, e as características das ondas sonoras que voltam permitissem a formação de uma "imagem mental" da presa, ainda que a água esteja turva. O mesmo mecanismo vale para verificar a profundidade da água, para evitar o encalhe, que só dá certo se for friamente calculado. Já os assobios, outro tipo de chamado, permitem a comunicação entre os membros do bando e a coordenação dos ataques. As horas e horas de gravações que os pesquisadores obtiveram mostram que cada bando têm seu próprio dialeto - um recurso para avisar os competidores de que eles não devem se aproximar, pois a presa já tem dono.

As diferenças de dialeto, aliás, se refletem também em preferências de caça. Uma das subpopulações mais bem estudadas da espécie, a das orcas que rondam as costas do Canadá e do noroeste dos Estados Unidos, se divide em basicamente dois grupos: residentes e transientes. As primeiras têm bandos bem maiores, que passam de 100 indivíduos, e ficam de olho principalmente em peixes, como salmões e trutas. As transientes, em grupos menores (compostos de no máximo poucas dezenas), caçam em águas mais rasas, perto de rochedos, por exemplo, e se concentram em mamíferos marinhos - principalmente focas.

Presas diferentes, estratégias diferentes. Os bandos maiores costumam brincar de cão pastor com os cardumes de salmões e trutas, cercando-os e direcionando-os para águas mais fechadas. Quando a concentração parece a ideal, todos mergulham e começam o banquete. Se o cardume está particularmente alerta e difícil de cercar, as orcas apelam para o que os cientistas chamam de comportamento percussor - trocando em miúdos, encher a água de pancadas com a cauda ou as nadadeiras, de forma a atordoar os peixes.

Os animais parecem conhecer tão bem a caça que, quando a comida é peixe, emitem seus sons típicos sem parar - sabem que as presas não conseguem ouvi-los. Mas tomam todo o cuidado para não ser vistos. Não é incomum ainda que as orcas subam um trecho dos rios da costa oeste da América do Norte atrás dos salmões, que vão procriar em água doce. Mas, quando vão dar um bote em um cardume, certificam-se de chegar por trás e, assim, surpreender os peixes.

A coisa muda de figura quando o alvo é outro cetáceo. Nesse caso, a estratégia da orca é manter o bico calado. Quando se trata de uma baleia de grandes dimensões, os adultos do bando avançam por todos os lados, mordiscando pedaços e mais pedaços do gigante marinho até que ele morra e seja devorado. Há relatos de que, como acontece entre os leões, os machos só começam a se alimentar quando as fêmeas já dominaram a presa grande - mas isso ainda precisa ser confirmado por novas pesquisas. Seja como for, os enormes pedaços de carne são engolidos de uma vez: as orcas não mastigam a comida.

No caso de presas menores, como focas, lobos-marinhos e elefantes-marinhos, os golpes de cauda e nadadeira ajudam a deixá-las fora de combate antes de serem devoradas. Mas, se o animal está esperto e não se arrisca a entrar na água, as orcas de lugares como a Antártida, por exemplo, costumam usar um truque que quase sempre se revela recompensador. Imagine um pingüim tranqüilo sobre uma plataforma de gelo. O que ele não sabe é que uma orca acaba de nadar para debaixo dela. Com um impulso, o cetáceo arrebenta a crosta congelada, joga o pingüim pelos ares e o agarra com a boca quando ele cai de volta.
Talvez o mais surpreendente na vida desse "lobo dos mares" é que os cientistas comprovaram a existência de uma forma rudimentar de cultura entre os bandos de orcas. Animais que caçam por encalhe, por exemplo, só habitam dois pontos do planeta: além das Ilhas Crozet, na região argentina da Patagônia. "Mães passam a estratégia para os filhotes por meio de treinamentos e da própria captura", conta Marcos César. "E isso passa de geração a geração. Por que nem todas as populações de orcas fazem isso? Por que há populações que se alimentam somente de peixe e outras que comem exclusivamente animais de sangue quente? Muito provavelmente há uma contribuição da transmissão cultural", afirma o biólogo. Pelo visto, técnica de caça também é cultura.


Frisbee de arraia


Orcas adoram brincar. A pesquisadora Ingrid Visser encontrou na costa da Nova Zelândia um grupo de orcas que mergulhava até 20 metros para capturar arraias. As arraias, com até 2 metros, pertenciam a três espécies diferentes. A cientista via uma das orcas subindo para a superfície com o bicho vivo na boca e o jogando para as outras, até que o peixe ficasse provavelmente numa posição em que não houvesse risco de feri-la com sua cauda venenosa. Só então a orca devorava a arraia. Ingrid acha que essa tática seja também um jeito de ensinar orcas mais jovens a lidar com presas perigosas.


Como é a caçada




1. Preparar...

Da água, a orca localiza o alimento



2. ...Apontar...

Ela toma impulso e se lança sobre a superfície sólida



3. ...Fogo!
A presa é capturada e a orca volta rapidamente à água


Fatos selvagens




Nome vulgar

Orca, baleia-assassina



Nome científico

Orcinus orca



Dimensões

Até 9,8 metros de comprimento



Peso

Até 10 toneladas



Principais armas

Batidas de rabo, dentes de 10 centímetros, cérebro avantajado e sistema de sonar



Comportamento social

Bandos que variam entre algumas dezenas e pouco mais de 100 indivíduos



Ataques a humanos

Não há relatos confiáveis sobre esse tipo de evento na natureza



Expectativa de vida

Média de 35 anos (machos) e 50 anos (fêmeas)



Quanto come

Até 400 quilos por dia



Dieta

Trutas, salmões, lulas, elefantes-marinhos, leões-marinhos, focas, baleias-jubartes, arraias, lontras-do-mar



Principais inimigos

Tubarões-brancos



Se você encontrar uma
As orcas nunca vão perseguir um nadador humano até matá-lo, mas é bom não tentar contato físico com os bichos


Para saber mais




Na livraria

Dolphin Societies - Discoveries and Puzzles - Karen Pryor e Kenneth S. Norris (org.), University of California Press, EUA, 2004
Becoming a Tiger - How Baby Animals Learn to Live in The Wild - Susan McCarthy, Harper-Collins, EUA, 2004


segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Lobo-cinzento - Tudo em família


LOBO-CINZENTO: TUDO EM FAMÍLIA



Ele está sempre em algum lugar por perto, mas odeia encontro cara a cara. Prefere agir à noite, quando são menores as chances de ser pego em flagrante delito. No escuro, o lobo invade o território dos humanos e mata animais indefesos, como cordeiros e galinhas. Os uivos chorosos são o sinal de que o predador invisível está próximo. Quando o fazendeiro finalmente chega à cena do crime, só encontra penas e sangue. Esse comportamento de caça fez o estigma do lobo-cinzento, o maior e mais numeroso dos lobos: sorrateiro, desleal, quase sobrenatural na capacidade de matar e sumir. Deu origem a lendas de terror e detonou uma perseguição que quase acabou com a espécie.

O oportunismo não passa de uma estratégia de sobrevivência do lobo, animal que, se não tem o porte e a força de um leão, é inteligente o bastante para avaliar custos e benefícios nas caçadas. Mas só vai atrás de frangos quando a coisa realmente aperta - entre eles e um animal maior, como um alce, o lobo geralmente fica com o segundo. É mais vantajoso abater um jantar que dê para toda a família.

E a ajuda dos parentes - a alcatéia - é essencial no momento de encarar presas tamanho família. Um lobo-cinzento dificilmente atinge os 50 quilos - e sozinho nunca teria chances frente a um alce com dez vezes o seu peso e 2 metros de altura. "Na maioria das vezes, apenas um ou dois lobos realmente matam a presa, mas é correto dizer que todos os animais participam da caçada, porque todos ajudam a amedrontar e a cansar a vítima", diz o biólogo Marco Musiani, da Universidade de Roma, Itália.

Tudo na vida lupina gira em torno da alcatéia. Elas são compostas de seis a oito indivíduos, em média. "Mas existem alcatéias de até 20 lobos, e outras de apenas dois", afirma Marco. Independentemente do número de lobos que formam uma alcatéia, uma coisa é certa: em todas elas há uma rigorosa hierarquia. Os pais são os animais dominantes (os "alfa"), e usam linguagem corporal - andar com o rabo levantado, por exemplo - para indicar seu poder. Apenas eles podem se reproduzir dentro da alcatéia. São eles que lideram as caçadas, que demarcam o território e que ficam com os melhores pedaços das presas abatidas. E também são eles que tomam a dianteira em caso de terem de defender uma presa recém-abatida de alguma alcatéia rival.

A caçada em grupo requer planejamento. Primeiro, a alcatéia localiza a presa e se aproxima silenciosamente. Então, quando todos já estão próximos o suficiente e a presa já percebeu o ataque iminente, começa uma frenética perseguição, em que os lobos podem correr a uma velocidade de até 56 km/h. Quando estão prontos para atacar, cravam seus longos e afiados caninos geralmente no traseiro, flanco, ombros, pescoço ou nariz da presa. Depois de abatê-la, é hora de encher o estômago. No lobo, esse órgão pode armazenar cerca de 10 quilos de alimento para ser digerido depois - uma vantagem considerável, já que em ambientes selvagens nunca se sabe quando virá a próxima refeição. "Na natureza, um lobo se alimenta cerca de uma vez por semana," diz Marco Musiani.

Lobos são animais territoriais e estabelecem suas fronteiras com marcas de urina e fezes. Geralmente, eles conhecem muito bem seu pedaço de terra, que pode variar de 40 quilômetros quadrados a mais de 1 000 quilômetros quadrados. De tempos em tempos, percorrem-no para monitorar a oferta de potenciais vítimas. Um animal pode rondar até 50 quilômetros em um único dia. Ele é equipado para viagens longas: tem pernas compridas e patas largas, que o ajudam a se locomover na neve, e coração e pulmão grandes.

Outros órgãos cruciais são o nariz e os olhos. O olfato de um lobo, cerca de 100 vezes mais apurado que o nosso, permite que o animal fareje presas a até 5 quilômetros de distância. Basta um ínfimo traço de odor no ar para que o lobo consiga identificar sua possível vítima e ainda ter noção das condições de saúde dela. Além disso, um lobo enxerga tão bem à noite quanto de dia. "Suas retinas têm uma quantidade maior de células adaptadas à visão noturna", diz o biólogo Marco. Uma camada espelhada na retina reflete toda a luz disponível de volta para o olho. E sua visão periférica é sensível a movimentos repentinos.

Um incrível senso de oportunidade soma-se aos sentidos afiados do lobo. A caçada é facilitada pela escolha minuciosa da vítima, quase sempre vulnerável. A astúcia do lobo o leva aos doentes, aos feridos, aos velhos, aos filhotes. O que é bom até para as vítimas: ao matar os fracos, os lobos contribuem para uma população mais saudável de presas.
É no fim do inverno que os lobos têm mais facilidade para encontrar essas vítimas vulneráveis. A piora nas condições do tempo faz com que elas encontrem menos alimento e fiquem mais fracas - uma vantagem para o predador. A temporada de caça também é boa durante o verão, quando nascem os filhotes das presas preferidas dos lobos - que não são humanos. "A maior parte das pessoas tem muito medo de lobos. Isso é uma atitude irracional", afirma Marco Musiani. Ataques de lobos a pessoas são acontecimentos muito raros - mas ocorrem. Entre abril de 1993 e abril de 1995, eles invadiram repetidamente 63 aldeias no estado de Bihar, na Índia, e arrastaram 80 pessoas da cama para a floresta. Apenas 20 foram resgatadas. Como fazem com outros animais, os lobos preferiram atacar filhotes: 90% das vítimas eram crianças.


Sem caniço nem saburá


Lobos não são exatamente grandes pescadores, mas seu oportunismo não tem limites. Em 2002, observaram-se lobos-cinzentos capturando salmões nas regiões costeiras da Colúmbia Britânica, no oeste do Canadá. O biólogo Chris Darimont, na época um estudante da Universidade de Victoria, passou meses no arquipélago de Bella Bella estudando esse comportamento inusitado. Ele observou como os lobos caçam salmões: posicionam-se à beira da correnteza e, de repente, com um só golpe, agarram o peixe com a boca. Em uma única noite, uma alcatéia capturou nada menos que 200 salmões. O biólogo também observou lobos se alimentando de mexilhões e mariscos.


Fatos selvagens




Nome vulgar

Lobo-cinzento



Nome científico

Canis lupus



Dimensões

Até 2,1 metros de comprimento (do focinho à ponta da cauda) e 1 metro de altura



Peso

Até 50 quilos



Principais armas

Seus longos e afiados dentes caninos, além da caça em grupo



Comportamento social

O lobo costuma viver em grupos compostos geralmente por seis a oito indivíduos



Ataques a humanos

São raros. No entanto, podem acontecer, como os de Bihar, Índia



Quanto come

Cerca de 1 quilo por dia



Expectativa de vida

Em ambientes selvagens, lobos vivem entre 6 e 8 anos. Em cativeiro, esse número aumenta para até 20 anos



Dieta

Cervos, alces, veados, caribus, bisões, renas, búfalos, castores, coelhos



Principais inimigos

Ursos grizzly



Se você encontrar um
Não o alimente nem tente chegar perto. Se ele se mostrar agressivo ou se aproximar demais de você sem demonstrar medo, levante os braços e os agite no ar, para fazer com que você se pareça maior do que é. Afaste-se lentamente, sem dar as costas ao animal


Para saber mais




Na livraria

The Wolf Almanac - Robert H. Bush, Lyons Press, EUA, 1998

Wolves - Behavior, Ecology and Conservation - L. David Mech e Luigi Boitani, University of Chicago Press, EUA 2003



Nas bancas - DVD
Território Selvagem - Lobo - Documentário produzido pela BBC e lançado no Brasil pela revista Super.



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Urso Polar - O Colosso do Gelo


URSO-POLAR: O COLOSSO DO GELO



Um ataque sorrateiro pode parecer impossível para um urso. Afinal, o corpanzil de 2 metros de altura e 700 quilos não é exatamente discreto. Mas essa é uma das estratégias do urso-polar, o maior carnívoro terrestre e um predador eficiente. Tendo como cenário regiões como o Alasca, o norte do Canadá e da Rússia, a Groenlândia e a Noruega, o animal usa o aguçado olfato para localizar suas presas preferidas, as focas, a até 3 quilômetros de distância. Discretamente, camuflado pelo branco do gelo, o urso vai se aproximando do animal. Quando chega a uma distância de cerca de 20 metros, a surpreende e parte para o ataque. Muito mais rápido do que sua vítima (ele chega a alcançar 40 quilômetros por hora numa corrida curta), o urso a captura usando as garras e os dentes afiados. Pronto. Agora é só descansar por cerca de cinco dias.

"O urso-polar é o predador máximo do ecossistema marinho do Ártico", afirma Steven Amstrup, biólogo do U.S. Geological Survey (instituto de pesquisas geológicas do governo americano), que há mais de 20 anos estuda esses animais. Mas eles têm uma desvantagem: "O acesso à comida é no gelo", diz Steven. É muito mais fácil para um urso-polar obter sua presa no imenso rinque de patinação ártico que em águas abertas.

Isso não quer dizer que se seu alimento estiver submerso o urso não consiga pegá-lo. Entra aqui outra estratégia do mamífero, que requer paciência. As focas podem ficar vários minutos submersas, mas precisam de ar para respirar. Elas cavam, com suas garras, pequenos furos pela parte de baixo do gelo, para terem acesso ao oxigênio. Com o faro, o urso localiza esses buracos e espera, imóvel, por até uma hora - até que uma foca distraída apareça para respirar. Então, ele morde firmemente a presa pela cabeça e a traz à superfície. A refeição está servida.

A primavera no hemisfério norte é sinônimo de comida fácil. Nessa época, as focas dão cria e constroem tocas no gelo para abrigar seus filhotes. E no mesmo período os ursos usam uma terceira estratégia de caça: farejam as tocas e se posicionam silenciosamente ao seu lado até perceber algum sinal de vida dentro dela - o odor do filhote ou da mãe, ou algum barulho que denuncie a presença de um animal. Levantam-se então sobre as patas traseiras e investem com as dianteiras sobre a toca, até as quebrarem e alcançarem a presa. "Ser pesado é uma vantagem nessa hora", afirma Andrew Derocher, biólogo da Universidade de Alberta, no Canadá. E esse método, ao que parece, dá resultados: "Existem estimativas de que os ursos chegam a matar 44% dos filhotes de foca todos os anos", diz Steven.

A grande temporada de caça para um urso-polar vai de abril a junho. Quando pegam uma foca, podem consumir de uma só vez até 70 quilos de comida. Um estudo conduzido pelo canadense Ian Stirling, pesquisador e professor da Universidade de Alberta, revelou que a primeira coisa que os ursos fazem quando matam a presa é comer sua camada de gordura. É disso o que ele mais precisa para se manter aquecido em temperaturas que podem chegar a 34º C negativos. Muitas vezes, o animal deixa de lado a carcaça e a carne, que são consumidas por animais como raposas-do-ártico e gaivotas.

É no gelo, e só no gelo, que as estratégias de caça dos ursos-polares funcionam. Sem ele, não existem tocas nem buracos de respiração das focas. E, sem ele, o urso perde a camuflagem. É por isso que, para ursos-polares, a época mais difícil do ano é o verão, quando o sol brilha 24 horas por dia no Ártico. O gelo derrete, as tundras começam a aparecer e o urso perde sua plataforma de caça. Vários deles se deslocam o máximo que podem em direção ao norte, onde ainda há gelo e focas. "Ursos que vivem em regiões como os mares de Barents, no norte da Noruega e da Rússia, e Chukchi, no norte do Alasca, chegam a se deslocar até 1 000 quilômetros", diz Steven Amstrup. Mas os que vivem mais ao sul, como na Baía Hudson, no Canadá, não conseguem seguir o gelo e são obrigados a se adaptar à vida em terra, correndo o risco de passar um bom tempo sem conseguir alimento até que o mar congele novamente.

Para sobreviver longe do gelo, um urso-polar tem de se prevenir, garantindo seu estoque de gordura durante o inverno. Assim, quando chega o verão, sua maior preocupação passa a ser gastar a menor quantidade possível de energia. "Ursos-polares ficam preguiçosos no verão. Quando a temperatura ultrapassa os 20º C, eles apenas dormem, descansam e dão mergulhos para se refrescar", diz Andrew Derocher. O animal pode passar semanas - e até meses - sem comer nada. Se a fome apertar, eles podem tentar uma caçada. Sem focas, o jeito é improvisar com morsas, belugas, aves ou peixes. As chances de sucesso, no entanto, são bem menores. Outra opção para não ficar de barriga vazia é deixar a carne de lado e apelar para frutos típicos de regiões frias, a vegetação desses locais e até lixo deixado por homens. O urso ainda pode tentar caçar em águas abertas. Embora seja excelente nadador e consiga mergulhar a até 4,5 metros de profundidade, o urso-polar não consegue entrar na água sem ser percebido, por causa de seu tamanho. Assim, afasta as presas em potencial.

No verão ártico, os ursos-polares não podem gastar muita energia, mas não chegam a hibernar. O mais próximo que um urso-polar chega da hibernação é quando a fêmea grávida entra num estado chamado letargia carnívora - com significativa redução dos batimentos cardíacos e sutil baixa na temperatura corporal. As ursas não entram em estado de hibernação profunda porque têm de se manter aquecidas para dar à luz e amamentar.
O tão amado gelo dos ursos-polares pode deixar de existir. O aumento da temperatura global já faz com que o gelo demore cada vez mais para se formar e derreta com rapidez. Só isso já causa efeitos negativos sobre as populações desses animais, que têm sua época de caça e seu território reduzidos. Mas a situação pode piorar. Estima-se que, no fim deste século, o gelo do Ártico poderá derreter totalmente a cada verão. Entre as conseqüências disso, está a provável extinção dos ursos-polares.


Matador em série


Ursos-polares não costumam estocar alimento, como fazem outros ursos, mas podem caçar mais do que o necessário. O biólogo Steve Amstrup observou isso de perto, quando, a bordo de um helicóptero, procurava ursos-polares para seus estudos. "Avistei um urso macho de tocaia ao lado de um buraco para respiração de uma foca. Perto, havia uma foca morta, parcialmente consumida, e, entre o urso e essa foca, existiam mais três focas mortas amontoadas, como uma pilha de lenha. Quando o meu helicóptero se aproximou do urso, ele abandonou a tocaia, correu para onde estavam as três focas amontoadas e as cobriu com seu corpo, como se estivesse protegendo sua pilha de focas", afirma. Para o biólogo, o urso parecia satisfeito com o que havia comido da primeira foca, mas seguia perseguindo, caçando e empilhando os animais. "A probabilidade de ele comer tudo o que havia caçado era muito baixa", diz.


Como caça o urso




1. Cheiro de foca

O urso acha o local onde a foca respira



2. Na trilha

Pelo faro, ele vai seguindo os buracos



3. De tocaia

No próximo buraco, espera a foca e dá o bote



4. Mesa posta
Pela cabeça, ele puxa a presa e a devora


Fatos selvagens




Nome vulgar

Urso-polar



Nome científico

Ursus maritimus



Dimensões

Até 3 metros de altura



Peso

Até 680 quilos



Principais armas

Caninos longos e pontudos e garras afiadas, além da força e da camuflagem no gelo



Comportamento social

Solitários e até mesmo hostis com outros indivíduos da mesma espécie



Ataques a humanos

São raros. No Canadá, existem sete registros de mortes causadas por ursos-polares nos últimos 30 anos



Quanto come

Em cativeiro, cerca de 3 quilos por dia



Expectativa de vida

Até 18 anos em ambiente selvagem; 30 anos em cativeiro



Dieta

Focas-aneladas, baleias-beluga, peixes, morsas, pássaros marinhos, narvais, renas



Principais inimigos

Outros ursos-polares



Se você encontrar um
Não corra. Fique parado, a não ser que seja seguro dirigir-se devagar para um abrigo. Coloque uma jaqueta sobre a cabeça e abra-a com os braços, para você parecer maior do que é. Se o urso se aproximar, grite ou faça bastante barulho


Para saber mais




Na livraria

Polar Bears - Living With The White Bear - Nikita Ovsaynikov, Voyageur Press, EUA, 1999

Polar Bears - Ian Stirling e Dan Guravich, University of Michigan Press, EUA, 1998



Na internet

www.polarbearsinternational.org - Informações sobre ursos-polares



Nas bancas - DVD
Território selvagem - urso polar, documentário produzido pela BBC e lançado no Brasil pela Super



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Tigre de Bengala - O Caçador Invisível


TIGRE-DE-BENGALA: O CAÇADOR INVISÍVEL



Parque Nacional Ranthambhore, Índia, 2001. O jornalista Colin Stafford Johnson filmava um tigre-de-bengala de 5 anos, que ele chamava de Chips, para um documentário da emissora inglesa BBC. O felino estava atrás do jipe da equipe e percebeu a aproximação de um chital, espécie de cervo asiático, um pouco mais à frente. O cervo saltou para a estrada e avançou para um ponto em que havia precipícios de ambos os lados. Chips não titubeou: disparou atrás do chital. Uns 270 metros adiante, o tigre o pegou, o matou e desabou de exaustão, permanecendo sentado com uma pata sobre a presa. O banquete só começou depois de o felino se recuperar do enorme esforço físico.

A cena foi rara. Tigres não são como guepardos, que perseguem a presa em grande velocidade. E geralmente a vítima tem agilidade suficiente para virar de um lado para outro e safar-se do predador. O caso presenciado pela equipe da BBC foi uma exceção porque o cervo podia correr somente para uma direção. E o tigre só foi atrás dele porque estava convencido de que conseguiria pegá-lo. Senão, tenha certeza: não teria feito tamanho esforço.

Caçadas espetaculares não são a prioridade dos tigres. Na verdade, eles são bem objetivos: querem encontrar a maior presa possível e jantar sem fazer muito esforço. Ocorre que é muito difícil encontrar uma vítima fácil. As presas também têm mecanismos eficazes de se livrar do predador. Macacos sobem em árvores, o que o felino não consegue fazer. Aves podem voar e os ungulados (animais com casco), o prato predileto dos tigres, são extremamente alertas. Além disso, o tigre caça sozinho. Por essas e outras, apenas cerca de 10% das caçadas são bem-sucedidas. "As frustrações são uma parte normal do trabalho semanal do tigre", afirma o pesquisador Stephen Mills, autor do livro Tiger ("Tigre", inédito no Brasil).

Ainda assim, o tigre é uma máquina de caça eficiente. Esse felino tem força e rapidez suficientes para perseguir e matar, em curta distância, quase todos os animais de seu hábitat. E o seu instinto matador garante, ainda que precariamente, a sobrevivência da espécie (todas as cinco subespécies de tigre estão ameaçadas e três já foram extintas no século passado, quando a população total dos felinos ultrapassava os 100 mil indivíduos - hoje, os tigres-de-bengala, variedade mais numerosa, não chegam aos 5 mil indivíduos).

Uma qualidade do tigre faz a diferença: a habilidade de aproximar-se silenciosamente da presa. A camuflagem exerce aqui um papel importantíssimo. As listras verticais se confundem com o ambiente e quase desaparecem por trás das folhas da vegetação. "Mesmo que seja um animal gigante, um tigre em movimento no meio da floresta pode ser praticamente impossível de ser visto", diz Stephen Mills. Aliada a ela, o modo de caminhar do animal e as patas, arredondadas e fofas embaixo, contribuem para que a vítima não perceba sua aproximação.

Nas caçadas do tigre, o fator surpresa é essencial. Quase sempre o felino desiste da caça se ela notar sua presença. Isso levou as vítimas em potencial a criar sistemas de alarme sonoro para avisar ao tigre que ele foi desmascarado - mais que para alertar os outros animais da floresta. É uma barulheira só: o pavão grita, os primatas soltam um tipo de tosse seca e o chital emite um som que lembra um choro. "O tigre é o maior predador de seu hábitat. Por isso todos os outros animais desenvolveram essa vocalização, mesmo os que não são presas habituais, como os macacos, esquilos e pássaros", afirma Belinda Wright, diretora-executiva da Sociedade de Proteção da Vida Selvagem da Índia.

Atacar na surdina permite ao tigre-de-bengala abater animais muito mais velozes e maiores que ele, como o gauro, um bisão da Índia. A emboscada é simples. Ao perceber a presença da presa com os poderosos ouvidos e olhos (que enxergam seis vezes mais que os olhos humanos), o tigre se aproxima em silêncio. Quando está a cerca de 20 metros ou menos do animal, ataca. Dá um pulo longo e rápido, segura a presa com suas garras e prende os caninos no pescoço ou na nuca da vítima. E fica lá até que o animal morra por asfixia. "Os tigres não matam a presa para aparecer em documentários na televisão", afirma Mills. "Eles usam a menor quantidade de energia necessária, tentam fazer a caçada mais fácil e são eficientes em espaços curtos. Um pulo rápido, agarrar e matar estrangulado não são necessariamente cenas espetaculares. Às vezes, de tão mundana a cena, até parece que o tigre pegou sua comida direto da prateleira de um supermercado."

Mas é bem mais complicado que isso - uma nova "oferta" pode demorar muito a aparecer. Assim, quando consegue uma caça grande, o tigre se empanturra de carne. E pode ficar três ou quatro dias sem se preocupar com comida. Presas muito grandes, no entanto, têm um problema: o desperdício. Em florestas tropicais como Nagarahole, na Índia, em apenas cinco dias a carne do animal morto já está completamente podre. E tigres não comem carniça. Se o felino tiver matado um gauro, que pesa até 1 000 quilos, ele só tem tempo e espaço no estômago para devorar um quinto de sua caça antes de ela apodrecer. Em casos como esses, ele escolhe "dividir" a comida: a mãe com os filhotes, irmãos entre eles. O tigre-siberiano não tem esse problema: como seu hábitat é muito mais frio, a carne do animal morto dura até duas semanas.

A verdade é que um tigre faminto vai atacar qualquer coisa que vir pela frente. Até homens. Embora carne humana não costume fazer parte do cardápio, na Floresta de Sundarbans, na fronteira entre a Índia e Bangladesh, o ser humano virou praticamente parte da dieta alimentar do tigre - fato que vem sendo observado e estudado desde pelo menos o final do século 19. Hoje, acredita-se que isso ocorre porque os tigres sofreram algum tipo de interferência: foram perturbados, machucados, tirados de seu território ou tiveram suas presas habituais extintas.
Poucos animais estão a salvo de um tigre-de-bengala. Stephen Mills descreve em seu livro o felino caçando sucuris de 20 metros, ursos, elefantes e rinocerontes. E o tal fator surpresa é mandado para o espaço quando o predador está convicto do sucesso da caçada. Se a presa não dispõe de uma saída, não há por que ser discreto - veja o caso da perseguição do tigre Chips, descrita no começo do texto. "A confiança faz toda a diferença", afirma Stephen Mills. Mesmo na tática habitual, o tigre só é sorrateiro até o momento em que chega a uma distância curta o suficiente para dar o bote. Aí, ele já não se importa mais se a vítima irá vê-lo ou não. O tigre-de-bengala apenas ataca, mata e come.


Predileção por carne humana


O Parque de Sundarbans - entre a Índia e Bangladesh - tem um território de 10 mil quilômetros quadrados, as maiores florestas de mangue do mundo e tigres-de-bengala com uma particularidade: gosto especial por carne humana. Não se sabe ao certo quantos felinos habitam a área - especula-se algo em torno de 300 - nem os motivos de seus ataques. O fato é que, nos anos 80, entre 50 e 60 pessoas eram devoradas todos os anos pelos felinos. As vítimas eram coletores de mel e lenhadores que se embrenhavam nas florestas para trabalhar. Algumas estratégias foram elaboradas pelos governos dos dois países para tentar diminuir o número de mortes na região. Uma delas foi espalhar pela mata manequins equipados com mecanismos de choque. Assim que um tigre os atacava, levava um choque - e aprendia a ficar longe de humanos. A medida funcionou, mas foi descartada por ser cara e trabalhosa. A forma que atualmente parece mais eficiente é uma prosaica máscara de plástico ou de borracha usada pelos trabalhadores na parte de trás da cabeça. Como os tigres costumam atacar pelas costas, para não serem surpreendidos, as máscaras os enganam: eles acham que os homens estão olhando para eles e - às vezes - desistem da caçada.


Fatos selvagens




Nome vulgar

Tigre-de-bengala



Nome científico

Panthera tigris tigris



Dimensões

Até 3,8 metros da cabeça até ao fim da cauda



Peso

Até 250 quilos



Principais armas

Os poderosos dentes caninos e a camuflagem



Comportamento social

É uma espécie naturalmente solitária, embora sua convivência forçada com outros tigres em parques de áreas restritas da Índia esteja provocando uma aproximação maior entre os indivíduos nos últimos anos



Dieta

Sambar e chital (espécies de veados indianos), porcos selvagens, bisões, antílopes distribuição geográfica



Ataques a humanos

Embora não sejam comuns, eles acontecem. Na Floresta de Sundarbans, na Índia, são registrados cerca de 20 ataques por ano - a maior parte com morte



Quanto come

Na natureza, cerca de 10 quilos de carne por dia



Expectativa de vida

10 anos na natureza; 20 anos em cativeiro



Principais inimigos

Os únicos animais que oferecem algum perigo ao tigre-de-bengala são os cães-selvagens, mas apenas quando atacam em bandos numerosos



Se você encontrar um
Tente não se assustar - em geral, tigres não costumam atacar humanos. Evite agachar ou se curvar


Para saber mais




Na livraria

Tiger - Stephen Mills, Firefly Books, 2004



Na internet
www.5tigers.org - Site mantido por fundações e centros de pesquisa


Só Fera - Grandes Predadores


SÓ FERA - Grandes Predadores



Nada contra carneiros, marrecos e codornas. Pandas e coelhinhos têm, é claro, seu valor. Mas não existem animais tão fascinantes quanto os grandes predadores. São eles que habitam os porões da nossa imaginação, despertando sentimentos ambíguos de admiração e temor. Os grandes carnívoros são também os mais belos dos bichos - até os crocodilos têm seu charme. Estão no topo da cadeia alimentar. São astutos, ágeis, vorazes, implacáveis. Ou seja, não tem para mais ninguém no mundo selvagem.

Nós aqui, meros macacos pelados, resolvemos montar um time com a nata dessas feras. Um time de dez, sem goleiro - nesse esquadrão ninguém defende, só ataca. Juntamos, em uma edição especialíssima, os maiores predadores da terra, da água, do ar e do gelo. São páginas que mergulham fundo na rotina desses animais - revelam todas as suas táticas de caça, seus truques, suas artimanhas para obter a presa de cada dia.
Um time tão animal merece uma comissão técnica à altura. Para escolher as imagens que ilustram esta edição, chamamos Luciano Candisani, fotógrafo e autor de vários dos melhores livros de natureza já publicados no Brasil. Ele trouxe o melhor material dos melhores fotógrafos de vida selvagem do mundo: Frans Lantig, o mais criativo; Norbert Wu, o mago das lentes submarinas; Jim Brandemburg, o rei dos lobos; Michio Hoshino, que sacrificou a própria vida pelo ofício (morreu atacado por ursos).

Brasil 0 x 1 Argentina - A Rivalidade


BRASIL 0 X 1 ARGENTINA - A Rivalidade



É a cena brasileira por excelência. No bar, na casa de amigos, tanto faz. Basta eu dizer que estou morando na Argentina para que todos lancem um olhar surpreso, misto de escárnio e piedade. "Argentina? Mas que diabos você está fazendo lá com aqueles insuportáveis?" Já escutei de tudo. Que os argentinos são os europeus que não deram certo, que são um bando de arrogantes, que nos chamam de "macaquitos" e por aí vai. A maioria diz isso sem nunca ter conhecido um legítimo exemplar dessa espécie controvertida. Não importa. Ser brasileiro requer o cumprimento de apenas três dogmas: gostar de feijão, acreditar piamente que Pelé é melhor do que Maradona e ter birra de argentino.

Intrigado com a polêmica, partir para uma pesquisa de campo. Queria investigar o que existe debaixo daqueles (montes de) cabelos. Nesses dois anos em solo ini-migo falei com gente de todo tipo: taxistas, médicos, padeiros, artistas, estudantes, garçons.. e confirmei minha hipótese. Parece difícil de acreditar, mas enquanto esculhambamos os argentinos, eles têm enorme carinho por nós. Não é mera impressão minha. A simpatia pelo Brasil está nas televisões, escolas, centros culturais. Quando sai comigo à noite, um amigo que morou no Brasil só fala em português e se finge de brasileiro para ser bem tratado - inclusive pelas mulheres. As ruas estão cheias de bandeiras brasileiras e a moda aqui é usar sandália havaiana. Seja sincero: você sairia por aí usando chinelo com bandeira da Argentina?

Seria cômodo dizer que essas diferenças refletem as contradições entre o tropicalismo e o europeísmo. Ou que é tudo fruto de nossos desencontros lingüísticos e históricos. Mas me permitam ir direto ao ponto: os brasileiros pararam no tempo. Insuflado por locutores e comentaristas esportivos, o antiargentinismo extrapolou o mundo do futebol e talvez seja hoje o único caso de unileralismo brasileiro. É produto de um Brasil tacanho, preconceituoso. No fundo, dizer "odeio argentinos" não é menos discriminatório que dizer "odeio negros" ou "odeio homossexuais". Quem persegue boleiros argentinos simplesmente por serem argentinos não pode reclamar quando espanhóis xingam Roberto Carlos não por suas qualidades como jogador, mas pela origem mulata.

Sempre seremos rivais no futebol, mas não precisamos limitar nossa relação à velha briga boleira. Os argentinos, mais inteligentes, já se deram conta disso. Eles cantam as músicas dos Paralamas do Sucesso, jogam capoeira, viajam pelo Brasil e estão aprendendo português. As rádios dedicam programas à nossa música. Charly García, o cantor mais popular do país, conclama os argentinos a levantar o astral e se espelhar em nós, lembrando que Ia alegría no es sálo brasilera na música "Yo no quiero volverme tan loco". Os brasileiros mal sabem citar uma banda argentina. Mas adoram ficar exaltando a esperteza do samba ante a melancolia do tango - mesmo sem nunca ter ouvido falar nas chatinhas, mas festeiras, cumbia e chacarera. Como todo país de dimensões continentais, é natural que o Brasil seja autocentrado. Mas mesmo os Estados Unidos são mais permeáveis à cultura mexicana do que nós em relação à dos nossos vizinhos. O brasileiro comporta-se igual a um caipira americano, daqueles que acham que a capital do Brasil é, ironicamente, Buenos Aires.

O erro está em concebermos sociedades estáticas. Durante um tempo, a Argentina parecia de fato um pedaço da Europa por estas bandas pobres. No início do século 20, entraram quase 300 imigrantes europeus para cada mil habitantes, o triplo da média americana. Os salários no país superavam os da Inglaterra. Talvez venha daí a arrogância que gerou antipatia no resto do continente. Mas se existe algo positivo nas crises econômicas que os argentinos têm vivido é a maior consciência de serem latino-americanos - até porque os imigrantes de hoje vêm da Bolívia, Peru e Paraguai.

A rivalidade Brasil x Argentina pode até existir entre alguns líderes políticos e militares, mas não entre os po-vos. Porque rivalidade, segundo o dicionário, significa competição, oposição, luta. E não há nada disso do outro lado da fronteira. Somos nós que estamos tentando provar que o ditado "se um não quer, dois não brigam" está errado. Estamos empenhados em arranjar confusão com um povo que só quer se divertir conosco.



quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Super Humano - Cult Will Eisner


SUPER-HUMANO - Cult Will Eisner



Imperfeição. Esse era o tema preferido do desenhista e roteirista de histórias em quadrinhos Will Eisner, que morreu em janeiro, aos 87 anos. Considerado por muitos como o maior quadrinista da história, Eisner se destacou por criar personagens imperfeitos, sujeitos às fraquezas de que todos somos vítimas, incluindo ele mesmo. Em Fagin, o Judeu, não é diferente. A obra é panfletária - seu objetivo declarado é reabilitar o judeu Fagin, vilão do romance Oliver Twist, de Charles Dickens. Para Eisner, o personagem manchou a imagem dos judeus para sempre. No entanto, o que faz o quadrinista, logo no prefácio? Um mea-culpa em que reconhece ter ajudado a difundir o preconceito de raça (contra os negros), com personagens criados no início da carreira. E o Fagin de Eisner não é lá um encanto de pessoa. Rouba, trapaceia, espanca e explora crianças. Mas, aqui, isso seria resultado das condições de pobreza, azar e preconceito de que foi vítima. É verdade que alguns diálogos são melodramáticos demais, mas ninguém é perfeito, ora.



FAGIN, O JUDEU*

Will Eisner
Companhia das Letras, 128 páginas



OS MELHORES DO MELHOR




Um Contrato com Deus e Outras Histórias de Cortiço (Brasiliense)

Lançada em 1978, revolucionou as HQs e criou um novo gênero, a graphic novel, espécie de romance em quadrinhos. Em quatro histórias de cunho autobiográfico, retrata a vida de imigrantes no bairro nova-iorquino do Bronx.



Spirit

Personagem mais famoso de Eisner, o policial Spirit era um herói sem superpoderes, a não ser seu sex-appeal. Em seu auge, a tira semanal para jornais americanos chegou a ter 5 milhões de leitores. Só no Brasil, foram editadas mais de trinta compilações.



Um Sinal do Espaço (Abril)

Nesta ficção científica com pitadas de guerra fria, um operador de rádio detecta sinais que podem comprovar a existência de vida extraterrestre. É o que basta para os personagens de Eisner destilarem todo tipo de fraqueza, da ganância ao fanatismo religioso.



New York - A Grande Cidade (Martins Fontes)

Nova-iorquino atento, Eisner sacava os cantos da cidade. NY traz suas observações, em relatos sobre elementos banais como metrô, paredes, música de rua. A versão brasileira tem página extra sobre São Paulo, uma das cidades favoritas de Eisner.



O Edifício (Abril)
Sim, Eisner ficou famoso como um grande desenhista, capaz de criar seqüências de beleza cinematográfica. Mas seus roteiros não ficam atrás, a exemplo desta graphic novel, em que ele cruza a história de quatro personagens unidos por um edifício.



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Foi quase - César Lattes


FOI QUASE - César Lattes



No dia 24 de maio de 1947, o mundo foi informado de que, ao contrário do que aprendemos na escola, a composição do átomo não se resume a nêutrons, prótons e elétrons. A prestigiada revista Nature anunciou a descoberta e a comprovação da existência da partícula subatômica méson pi, responsável pela ligação das partículas nucleares, e sem a qual tudo o que chamamos de matéria não poderia existir. Por trás da pesquisa, decisiva para a exploração do átomo e favorita ao Nobel de Física desde o momento em que foi divulgada, estava o brasileiro César Lattes. Ele tinha 22 anos.

O prêmio não veio. E menos de um ano após descobrir o méson pi, Lattes chacoalhou a ciência novamente ao reproduzi-lo artificialmente. Dessa vez o experimento levou o Nobel, mas quem ficou com a honraria foi o americano Cecil Powell, que era chefe do brasileiro e não tinha participado diretamente das pesquisas. Ninguém entendeu. "Deixa isso pra lá, prêmios grandiosos não ajudam a ciência", dizia.

Desde a morte da esposa, há dois anos, Lattes saía pouco de sua casa em Campinas, interior de São Paulo. Foi lá que recebeu o repórter Daniel Azevedo, colaborador de um jornal científico de São Carlos, para aquela que seria sua última entrevista, no final de fevereiro. O físico morreu de parada cardíaca no dia 8 de março, aos 80 anos.

Sem exagero, os obituários o descreveram como o mais importante físico brasileiro de todos os tempos. Além da descoberta e criação artificial do méson pi, ele ajudou a criar o Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF ) e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). O merecido Nobel acabou vindo postumamente, na forma de um erro de imprensa: ao anunciar a morte de Lattes, a agência de notícias Associated Press (AP) o descreveu como "físico ganhador de um Prêmio Nobel."



Você faz críticas seguidas a algumas das mais respeitadas teorias da física. Em especial, ao surgimento do Universo a partir de uma explosão, o big-bang. Como o Universo pode ter surgido sem um ponto inicial?

Ele pode ter tido vários núcleos iniciais. Por que não? Acredito em um Universo indefinido, que é diferente de iniciado ou infinito. Qualquer teoria que tente explicar a origem do Universo é bobagem. O big-bang é a teoria de um traque, uma charlatanice. Na verdade, nem mesmo é uma teoria. É apenas uma hipótese. Perguntam para mim: então, de onde surgiu a matéria? A resposta é: não sabemos. O que existe de real são apenas dados experimentais. As pessoas afirmam coisas sobre as quais não se pode fazer experiências para comprovar.



Albert Einstein também recebeu críticas suas. Quais foram os erros dele?

A teoria da relatividade começou a ser concebida por volta de 1880 por um físico francês chamado Jules Poincaré. Depois, Einstein fez uma teoria da gravitação fajuta, que chamou de relatividade geral, algo que não existe. Einstein, na verdade, é um plagiador. Este ano completamos 100 anos da divulgação da teoria da relatividade e até hoje ninguém o desmascarou.



Quem, então, é o mais importante físico moderno?

São dois: Niels Bohr e Ernst Rutherford. Eles são dois monstros. O Rutherford, que descobriu a existência do núcleo atômico [em 1911], era mais pé-no- chão. O Bohr [teórico da estrutura e dos espectros atômicos, ganhador do Nobel de Física em 1922], mais visionário: morreu tentando convencer os americanos a não fazerem a bomba atômica.



Como você avalia a importância da descoberta do méson pi?

Por volta de 1946, eu estava com a idéia fixa de que havia partículas intermediárias que garantiam a ligação entre prótons e nêutrons. Na verdade, já se sabia que seria impossível existir matéria sem essas partículas, sem elas não haveria ligação no núcleo atômico. Demonstrar a existência do méson pi foi útil para entendermos como uma forma de energia se transforma em outra. Mas a importância é antes de tudo teórica, não diria que ela abriu perspectivas na física aplicada. Até hoje não existe uma máquina que funcione graças à descoberta. Apenas entendemos que esta partícula está em toda matéria.



E como foi o processo para a descoberta e criação artificial do méson pi?

Foi uma grande aventura. Durante as pesquisas, precisava fazer uma experiência numa cidade com grande altitude. Escolhi Chacaltaya, na Bolívia, para onde voaria com uma companhia aérea inglesa. Logo depois, fui aconselhado a não viajar em aviões ingleses, que ainda enfrentavam problemas mecânicos por culpa da Segunda Guerra, que acabara um ano antes. Troquei a passagem para um avião brasileiro, da Panair. Quando cheguei, fiquei sabendo que o avião inglês havia se esborrachado no Senegal.



Você tinha 22 anos quando demonstrou a existência do méson pi. Como a notícia de que um jovem descobrira algo tão importante foi recebida?

Entre os cientistas, a recepção foi normal. Na época, outros grupos estavam fazendo pesquisas parecidas, então não foi uma surpresa. Mais forte foi a atenção da imprensa européia e do Brasil. A notícia saiu na primeira página de vários jornais.



Você acha que o fato de ser brasileiro contribuiu para que outro pesquisador ganhasse o Nobel de Física nas pesquisas em que você participou?

Apesar de a comissão julgadora ser formada por ingleses, acredito que não foi minha nacionalidade que pesou na decisão do vencedor. Tanto na descoberta do méson pi, em 1946, como na sua criação artificial, em 1948, tive colaboração do Giuseppe Occhialini. Quem deveria ter ganho era ele. E, em 1950, quem levou o prêmio foi o Cecil Powell, que também participou do trabalho. Mas deixa isso para lá. Esses prêmios grandiosos não ajudam a ciência.



Cientistas costumam ter uma relação conturbada com a religião. Como você lida com a fé?

Não tenho ligação com a religião. Tenho em casa algumas bíblias que ganhei. São livros bonitos, mas com os quais eu não tenho qualquer relação. Não sei como religião e ciência se aproximam. Como um Deus onipotente deixa acontecer um maremoto que mata centenas de milhares de pessoas?



O que pode ser feito para avançarmos no conhecimento da física no Brasil?

Acho que está sendo feito o necessário, dentro da possibilidade brasileira. Acho apenas que o ensino da física deveria ter mais experiências. É sempre melhor que o aluno faça o próprio equipamento. Hoje, ninguém constrói o próprio equipamento - vai à loja e compra. Isso é ruim porque coisas compradas limitam os resultados.



Qual a contribuição que a física ainda pode dar à vida na Terra?

A física só explica e entende a natureza. Aplicá-la é outra questão. Com a física fica muito mais fácil obter coisas que no passado eram penosas. Mas existem problemas novos que a física ainda não conseguiu abarcar. E eu não tenho idéia do que poderá ser feito com novos conhecimentos.



A física ainda tem muito a explicar?
Em relação ao que ainda está aí para ser descoberto, falta tudo.


Pelo furo da agulha - Fotografia


PELO FURO DA AGULHA - Fotografia



Literalmente, pin hole significa furo de agulha. Na fotografia, é o nome da técnica que, no lugar de lentes, usa um único furo (de agulha, claro) para captar a imagem. O minúsculo orifício é capaz de registrar o mundo em imagens múltiplas, vivas e cheias de personalidade



Distorções à vista

Uma câmera pin hole é bem simples de fazer (veja na próxima página). O requisito básico é que ela seja completamente escura. Por isso, muita gente escolhe latas de alumínio como matéria-prima. Como a lata é curva, a projeção acaba ficando distorcida, como nas imagens desta página. Quanto mais curvo o papel fotográfico estiver, maior será a distorção da foto



Muitos olhares

Uma das máquinas usadas pelo grupo gaúcho Lata Mágica é uma caixa com 20 furos, dispostos em quatro linhas. Esta foto mostra o trajeto do fotógrafo pela rua Andradas, no centro de Porto Alegre. Cada furo projeta a imagem no pedaço de papel fotográfico atrás dele. A foto abaixo é coletiva. Cada um dos integrantes do grupo "clicou" uma das linhas de furos da caixa



Defeito ou efeito?

O tempo de exposição na técnica pin hole tem de ser bem longo. No mínimo 30 segundos são necessários para que a imagem seja impressa no papel. Assim, se a pessoa ou o objeto que está sendo fotogrado se mexe, a foto capta o movimento. O resultado é uma imagem "fantasmagórica". Os apaixonados por pin hole acreditam que nenhuma outra técnica é capaz de captar a realidade tão bem. Para eles, a pin hole fotografa não só coisas e pessoas, mas o momento



Obras do acaso

Nada é muito previsível na fotografia pin hole. Primeiro porque a câmera não tem um visor para que o fotógrafo observe a imagem previamente. Além disso, como o tempo de exposição é longo, nunca se sabe o que pode acontecer durante o "clique". Nesta foto, a câmera, sem querer, foi apontada rapidamente em direção ao céu e um raio de sol - o risco no meio da foto - acabou sendo captado pelo furo de agulha



Também em cores

As máquinas pin hole não precisam usar só papel fotográfico. É possível utilizar filme e fazer fotos coloridas. A técnica é bem parecida, mas o tempo de exposição usando filme deve ser bem menor, já que ele é bem mais sensível à luz do que o papel



Igual à sua

Uma foto pin hole pode ficar idêntica às convencionais. Para isso, apóie a máquina em um lugar bem firme, para que a imagem não fique tremida, e escolha um objeto imóvel. O tempo de exposição deve variar de acordo com a quantidade de luz. Trinta segundos são o mínimo quando há bastante sol (entre 10 e 16h)



Câmeras customizadas
A máquina usada para essa foto foi construída com uma caixa de papel. Na hora de fazer o furo da caixa (aquele feito com o prego, nas máquinas à base de lata), o fotógrafo optou por rasgar um pedaço. A intervenção na própria máquina determina, mais tarde, qual vai ser o formato da imagem



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