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domingo, 30 de dezembro de 2012

A velha mania de estar na MODA - Comportamento


A VELHA MANIA DE ESTAR NA MODA - Comportamento



No desfile da história, as pessoas sempre se vestiram para expressar desejos e influenciar os outros. A roupa pode ajudá-las a seduzir, a impor respeito, a se destacar na sociedade. Muitas vezes, elas querem mostrar ao mundo que estão bem informadas: é quando seguem os lançamentos dos estilistas.

Não, o primeiríssimo grito da moda não deve ter sido a folha de parreira para cobrir o sexo, como dita a Bíblia, mas peles de animais jogadas sobre os ombros feito estolas-um estilo típico do Período Paleolítico, há quase 100 000 anos. O modelo fazia sucesso por total falta de opção, já que impedia os movimentos e, ainda por cima, deixava exposta boa parte do corpo à baixa temperatura da Época Glacial. Mas, então, o homem não conseguia vestir nada diferente: teve, primeiro, de aprender a amaciar as peles; no início, com uma laboriosa mastigação, como até hoje fazem as mulheres dos esquimós; além disso, só há 40 000 anos surgiram as agulhas de chifres, para costurar os retalhos das caças sob medida para o manequim primitivo. 

Quem pensa, no entanto, que a roupa só servia para espantar o frio, se engana. Os desenhos nas cavernas mostram que, mesmo nas regiões mais quentes do planeta, onde se desfilava nu há cerca de 20.000 anos, vestiam-se roupas em ocasiões muito especiais. Isto é, nos rituais mágicos, onde nasceu a moda. A ancestral latina dessa palavra, modus, se desdobra em dois significados: é maneira como algo deve ser feito e, também, a lei. Uma lei com força suficiente para impulsionar as confecções a movimentar, no ano passado, cerca de 25 bilhões de dólares, só no Brasil. O segredo desse faturamento continua sendo a magia-hoje, bordada pela publicidade-, ou seja, a crença de que um pedaço de pano dá ao usuário o poder de influenciar o mundo em que vive. Da mesma maneira como o homem primitivo tinha uma moda ou um modo de vestir para atrair a caça, para vencer uma guerra ou para cultuar os mortos, o homem moderno se veste de jeito diferente para seduzir, para fechar um negócio ou para descer a rampa de um palácio. A sensualidade se expressa na transparência de um tecido, a competência se transforma no alinhado terno, a seriedade pode ficar por conta de uma gravata francesa, marca Hermès, quem sabe.O figurino varia com o cenário. Ninguém faz ginástica de fraque", ironiza o economista Carlos Eduardo Machado. professor da Universidade de São Paulo, com pós-graduação em Comunicação. "Mas, independente disso, o fato é que esse figurino serve para cada um encarnar o seu personagem." Na opinião de Machado, em matéria de guarda-roupa, as pessoas seguem mitos ou seja, comportamentos idealizados: "A idéia inconsciente é que se você imita a aparência de uma pessoa bem-sucedida, então compartilhará esse sucesso", exemplifica. Autor de uma tese sobre indumentárias, Machado tem o aspecto desleixado, alvo de duras críticas da filha: "Ela diz que estudo moda porque não sei me vestir", e dá de ombros. Ele próprio sempre, evitou o fenômeno da imitação que diagnostica na sociedade. "Na minha adolescência, os jovens usavam topete como Elvis Presley, mas meus cabelos não paravam no lugar", Iembra o professor, hoje aos 47 anos. "Então, desisti do penteado da moda."Assim como Machado teimava com o topete diante do espelho, para ficar parecido com o ídolo americano, milhares de pessoas insistem em discar para o Centro de Atendimento ao Telespectador (CAT), instalado pela Rede Globo de Televisão, em São Paulo e no Rio de Janeiro. Meia dúzia de funcionários dão conta de 10.000 ligações semanais: 2.000 delas são em busca dos endereços das lojas onde se encontram os modelitos exibidos pelos repórteres dos jornais e pelos astros das telenovelas. De acordo com os registros do CAT, a última musa foi Stela, interpretada por Glória Pires, a heroína com alma de noviça e corpo de manequim, da novela O dono do mundo. "Já me vesti como a Madonna, como a Tieta da novela e como alguma personagens de cinema", admite, compreensiva, a atriz; baiana Ingra Liberato, estrela da novela Ana Raio e Zé Trovão, exibida pela, Rede Manchete em seu horário nobre. Sua personagem uma peoa, disparou e uma exótica onda de botas, chapéus e esporas nos centros urbanos. "Isso vai desaparecer", prevê a atriz. "O Brasil não tem clima para moda country"De fato, o clima sempre foi um fator determinante da moda-a tanga provavelmente só poderia ter aparecido no escaldante Rio de Janeiro. "Atenção: a moda ousa sob medida", adverte o economista Machado. "Se ela for contra algum tabu da sociedade, não se disseminará." Dai talvez a desenvoltura das minissaias das cariocas, contrastando com a deselegância discreta das paulistanas, cantada por Caetano Veloso. " Por mais que as revistas mostrem decotes, a moda só cola nos locais onde as pessoas aceitam a idéia de mostrar o corpo", alinhava o professor.
Mas, esclareça-se, cortar tecido, para desnudar certas curvas da carne, não é sinônimo de modernidade. Há dois milênios, na Grécia Antiga, as cidadãs cretenses lançaram o topless: Da realidade, elas exibiam vestidos com mangas e saia em forma de sino, que deixavam os seios descobertos. Creta, aliás, é passarela obrigatória para quem vai seguir os passos da história da moda. Em primeiro lugar, porque ali a roupa ganhou o caráter de sedução, o qual nunca mais despiu- fora de seus arredores, as túnicas das mulheres eram muito parecidas com os trajes masculinos. A grande diferença, então, era o comprimento: nas mulheres, o tecido arrastava até os tornozelos. enquanto nos homens, mal escondia os joelhos. O mais curioso é que foi justamente na Grécia, famosa pelo legado da democracia, que a roupa passou a ser o divisor de ricos e pobres. O historiador Heródoto (484 - 420 a.C.) menciona em seus escritos um decreto ateniense que proibia os escravos e as pessoas de classes inferiores a freqüentar o teatro e outros lugares públicos com roupas tingidas. As chamadas classes superiores, no entanto, tinham liberdade para usar tons vivos, como o vermelho, o amarelo e o roxo.
Roma, nos mesmos tempos antigos, não era diferente: listras estreitas estampavam a toga de magistrados e aristocratas, enquanto as listras largas indicavam que a túnica pertencia a um senador ou a um alto oficial. Segundo o sociólogo José Carlos Durand, professor da Fundação Getúlio Vargas, em São Paulo, da Antiguidade até o fim da Idade Média o vestuário passou a ser, cada vez mais, um símbolo de status. Na medida em que as monarquias centralizadas colocaram fim ao feudalismo, criou-se todo um código de regulamentação do vestuário. "Existiam leis que limitavam o uso de cores e dos tecidos mais raros aos poderosos", explica o professor.
Essas leis, chamadas suntuárias, foram derrubadas pela Revolução Francesa, em 1789, com seus ideais de liberdade. igualdade e fraternidade. "Até hoje, passados mais de dois séculos, a classe alta tenta se distinguir pela roupa", observa Durand, em trajes sóbrios, que denotam cuidado na escolha. "Uma moda criada pela classe alta, até chegar ao cabide do operário ou da empregada doméstica, já passou pela classe média", raciocina o sociólogo. Desse modo, ao cumprir esse trajeto, já não serve para destacar os ricos que, nessas alturas, começam a consumir outra moda."A igualdade pregada pelos revolucionários franceses ficaria sem reflexo no espelho, se a Europa não tivesse presenciado, na mesma época, entre 1760 e 1830, a chamada Revolução Industrial-esta, literalmente, deu panos para manga."Antes, o material de costura era praticamente restrito às elites", compara Durand. "As máquinas para confecção, porém, permitiram o desenvolvimento das fiações, que passaram a produzir muito mais tecido." Por sua vez, essa montanha de tecido não podia ficar às traças. "Até o final do século XVIII, ser chique era aparentar tradição, como muitas pessoas defendem até hoje", conta a economista doméstica Maria Elisa Garavello, da Universidade de São Paulo, que mora na tranqüila Piracicaba, cidade do interior do Estado. "Mas, para desencalhar suas mercadorias, a indústria passou a valorizar o novo. Surgiu, assim, a moda sazonal, os lançamentos de inverno e de verão", explica. Os homens, contudo, não escorregaram no consumismo. E desse modo, vestiram a fama de ser um sexo irredutivelmente clássico. Mas, de acordo com os estudiosos, ninguém deveria comprar essa idéia: no pouco caso masculino existia uma enorme preocupação com a moda. Aliás, talvez, nunca os homens estiveram tão sintonizados com o jogo das aparências. Afinal, imperava o ócio no Antigo Regime derrubado pelos revolucionários franceses.Nenhum homem podia fazer muita coisa, carregando entre 8 e 10 quilos de babados - era quanto pesava, em média, o traje típico de um senhor elegante, no final do século XVII. As perucas masculinas, no mesmo período, tornaram-se ainda mais longas do que no século anterior, quando eram a grande novidade. Os revolucionários, portanto, ao protestar contra o regime, adotaram um visual oposto ao vigente, ou seja, extremamente simples e sóbrio. "Estar na moda é incorporar os símbolos de determinado grupo social", justifica Maria Elisa "É como afirmar aos outros, através das roupas, que você está bem informado sobre o que se passa no mundo." De fato, a palavra demodé -do francês, fora de moda- chega a ser sinônimo de desatualizado. "O curioso é que, na mesma época, as mulheres começaram a se enfeitar cada vez mais", observa Maria Elisa. A economista, aliás, escreveu um estudo sobre o consumo de vestuário de suas companheiras de sexo. "As lojas recebem menos mulheres acima dos 30 anos", garante." As solteiras gastam muito dinheiro com roupa", suspeita. "Depois do casamento, é como se tivessem cumprido seu papel social. Então, apelam para modelos discretos e transferem os enfeites para os filhos." Segundo Elisa, as jovens se comportam de maneira oposta: "Suas roupas têm de ser realmente justas, elas detestam qualquer acréscimo de pano, que escondem os contornos do corpo", revela. Uma das mais antigas disputas do mundo da moda também nasceu logo depois da Revolução Francesa. A Inglaterra e a França começaram a se alfinetar por motivos políticos, mas a briga continuou no guarda-roupa: nas ruas londrinas, as mulheres não dispensaram os vestidos de Paris, que sempre eram os mais bordados e cheios de panos; os alfaiates ingleses, de seu lado, vingaram a onda estrangeira, com cortes exemplares de roupas masculinas. Resultado: até nestes tempos modernos, da camiseta e da calça jeans, muitas mulheres ainda sonham em possuir a obra de um costureiro francês no armário, da mesma maneira como os homens esnobam elegância ao usar o tradicional terno inglês.
A mulher só optou pela praticidade no início deste século, quando eclodiu a Primeira Guerra Mundial. Boa parte dos tecidos, já escassos, era destinada à confecção de uniformes para os soldados nos campos de batalha europeus. Na ausência do marido convocado, a mulher começou a trabalhar -muitas vezes, usando a roupa do companheiro distante ou morto na guerra. Ninguém traduziu melhor o novo comportamento feminino do que a francesa Gabrielle Chanel (1883 1971). Coco Chanel, como preferia ser chamada cortou os cabelos na nuca-no penteado que notabilizou seu nome-, substituiu o rodado dos vestidos por uma saia reta, cujo comprimento também passou pela tesoura, parando um palmo abaixo dos joelhos, facilitando a vida de quem, a partir da década de 20, teria de andar até um escritório e, quem sabe, pegar o bonde. O traje era complementado por um casaco: estava criado o famoso tailleur. O novo visual, para a época, era chocante. Mas Coco Chanel, embora tenha nascido em uma família pobre, circulava pela nata da sociedade européia-e assim, das colunas sociais, acabou sendo imitada pela multidão de trabalhadoras.
Nesse mesmo período o homem deprimido pela guerra e pela situação  econômica mundial, começou a vestir, com freqüência, preto e cinza", compara Fernando de Barros, diretor da revista Claudia Moda. "Só recentemente, ele voltou a usar roupas coloridas. A moda masculina muda numa velocidade muito mais lenta do que a feminina." Para Barros, que nunca dispensa o par da gravata e do lenço guardado com falsa displicência no bolso do paletó, os homens são muito mais ligados em griffes da moda do que o sexo oposto-constatação que pode ser surpreendente. "Eles são muito mais técnicos, querem a roupa perfeita. As mulheres são mais criativas, aceitam o efêmero, querem sempre renovar", analisa com segurança.
Na verdade, as mulheres abandonaram a austeridade ainda na década de 40, quando Hollywood, a capital do cinema americano, passou a ditar a moda. Era a fantasia dos musicais contra o clima deprimente pós-Segunda Guerra. "O dia-dia incorporou o glamour dos filmes", nota a historiara da arte Cyntia Garcia, ex-estilista, diplomada em Florença, na Itália. Hoje, ela passa os dias prestando consultoria de moda a diversas confecções. "Na verdade, as pessoas o continuar seguindo a moda pelos mesmos motivos do homem primitivo A próxima revolução quem sabe, vai estar no estilo das roupas, com a chegada das fibras sintéticas", estima Cyntia. "Essas fibras permitem a criação de modelos como o próprio cinema já havia previsto para o futuro-coladas no corpo, tal como nos filmes de ficção científica. " 

Cifras em voga

Há muito dinheiro dentro da cesta da costura verde e amarela: as 13 830 confecções nacionais empregam 1,6 milhão de pessoas e, juntas, faturaram cerca de 25 bilhões de dólares no ano passado. Em comparação com 1989, porém, as vendas das vinte maiores empresas da área retrocederam, em média, 18,7%. Nesse período, a indústria têxtil também diminuiu 10% de sua produção As razões da queda não estão apenas na crise econômica, que multiplica o número dos descamisados, mas também na fabricação das fibras sintéticas: no Brasil, a matéria prima tem qualidade inferior e, para agravar, são bem mais caras. 

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Fiesta de Ritmos - Dança


FIESTA DE RITMOS - Dança



Nem só de salsa e tango vive a música latino-americana. Nesse caldeirão de etnias, línguas, culturas e instrumentos, o processo de fusão é constante e subgêneros surgem sem parar. Conheça alguns dos ritmos que animam festas de rua e salões de dança no continente.



Cuba - Son

Mistura o violão espanhol com batidas de percussão. O son teve seu auge na era pré-Fidel Castro e é base de vários outros ritmos como a rumba, o mambo, o cha-cha-cha e a salsa.



Porto Rico - Bomba

Acredita-se que tenha origem puramente africana. O ritmo é dado por congas e a dança representa um duelo entre percussionista e dançarino, em que o objetivo é ser o mais rápido.



Rep. Dominicana - Merengue

Surge em meados do século 19. A base desse ritmo acelerado vem dos tambores e da güira. A dança, fácil de aprender, faz muito sucesso entre turistas.



Salsa

Fusão da música cubana, porto-riquenha, dominicana, jazz e R&B, "salsa" é, sobretudo, um nome comercial para este tipo de música.



México - Mariachi

Surgiu no estado de Jalisco, por volta de 1850 e varia de região para região. É popular em casamentos e serenatas. Violinos, trompetes, violão espanhol, viola e baixo formam a banda.



América Central - Punta

É uma releitura moderna de um ritmo africano chamado bunda. Chocalhos, tambores e até cascos de tartaruga ganham o reforço de instrumentos modernos. As letras falam de política, sociedade e economia.



Martinica - Zouk

Combina ritmos das Pequenas Antilhas, pop dos EUA e França, percussão africana e sons nativos. O zouk ("festa" em creole) lembra a lambada e sua dança chega a ser até mais sensual.



Países Andinos - Huayño

Romance, tristeza e alegria são cantados neste ritmo andino-peruano, de elementos pré-hispânicos (incas). Flautas, cordas e tambores animam os bailes.



Colômbia - Cumbia

Origens indígenas, espanhola e africana. As variações são mais populares que o estilo tradicional. Instrumentos de sopro, corda, percussão e acordeão são os mais usados. Os temas das canções vão de amor a pobreza.



Brasil - Samba

Do batuque improvisado na caixa de fósforos à "bateria pesada" de uma escola de samba na avenida. Cordas e percussão de ascendência africana fazem o som do ritmo-símbolo do Brasil.



Argentina - Tango

Nasce vulgar, em 1880, faz sucesso em Paris e só então é aceito em Buenos Aires. O som sofisticado mistura flauta, piano, violino e violão. Drama e sensuailidade marcam as coreografias.



Paraguai - Guarânia

Criada em 1925 por José Asunción Flores, pode ser cantada em espanhol, guarani ou jopará (mescla das línguas nacionais). As letras falam de nostalgia a heroísmo. Destaque para instrumentos sinfônicos e harpa.



Uruguai - Candombe
Chegou com os escravos de origem banto (Angola e Congo). Canta os lamentos e a nostalgia de uma gente que foi arrancada da terra natal. O som vem dos tambores, tocados pelas ruas da cidade.


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segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Cada um na sua - Camiseta


CADA UM NA SUA - Camiseta



Levante a mão quem nunca teve uma camiseta preferida. Já que você não se mexeu, é melhor sentar-se confortavelmente para ler esta reportagem. Afinal, é sobre aquele delicioso pedaço de pano que você veste sempre que quer se sentir bem - e sobre as histórias que ele conta - que estamos falando.

Quase dois bilhões de camisetas são vendidas no mundo todos os anos. Mas o que torna essa peça de roupa um item tão imprescindível? "A camiseta é uma tela em branco", diz a consultora de moda Constanza Pascolato. E parece ser justamente a possibilidade de pintar essa tela como quisermos que nos fascina. Pela camiseta, descobrimos se fulano foi a um show de rock, se estudou numa universidade da Califórnia, se toma aquele refrigerante tão pop, se é contra a caça às baleias ou a favor da prevenção do câncer. Elas servem de passaporte para entrar (camiseta virou convite para eventos e festas) e também para sair (experimente entrar na arquibancada do Atlético Mineiro com uma camiseta do Cruzeiro).

Usada durante séculos com a mesma discrição com que hoje usamos calcinhas e cuecas, a camiseta foi aos poucos sendo revelada. Ao longo do último século, vestiu sonhos, paixões, revoltas e protestos. E, enquanto cada um de nós estampava no peito sua história pessoal, nem percebíamos que estávamos pintando também um pouca da história do mundo em que vivemos.



Antes do começo - Antes do século 20

A história da camiseta costuma ser contada a partir da década de 1950, quando a juventude americana colocou para fora as peças que até então só eram usadas como roupa de baixo. Mas há um prólogo bem comprido na biografia da peça de roupa mais democrática de todos os tempos.

Em 1516, Michelângelo finalizou O Escravo Moribundo. A estátua mostrava um homem completamente nu, com exceção de uma peça que ele levantava acima do peito e que em nada lembrava as roupas empoladas usadas na época. "Na história da arte, esse pode não ser o único nem o primeiro exemplo de uma camiseta, mas é certamente o mais triunfante", escreveu o crítico de arte Olney Krüser no livro A História da Camiseta.

A ousadia de Michelângelo não ditou moda. Ainda iriam se passar centenas de anos antes que a camiseta pudesse ser vista com naturalidade sobre o corpo de homens e mulheres.

Os antepassados mais antigos da camiseta foram as túnicas usadas nos impérios grego e romano, por volta de 700 a.C. Elas deram origem aos camisolões da Idade Média, que eram usados só como roupa de baixo. Feitos com um tecido duro, que não moldava o corpo, eles não eram retirados nem na hora do banho, já que o contato com a própria nudez era considerado pecaminoso. Quando os homens passaram a usar calças, por volta do século 16, o camisolão começou a ser encurtado. E, à medida que os tecidos se tornavam mais maleáveis, ele ia se estabelecendo como o companheiro inseparável - porém invisível - da roupa do dia-a-dia.



Saindo do armário - Até os anos 50

Até o começo do século 20, a maior pretensão de uma camiseta era proteger os homens de incômodos como a transpiração. Se elas se exibiam, era no corpo de trabalhadores: verdureiros, jornaleiros e operários em geral.

Foram os imigrantes europeus que trouxeram a moda para o Brasil, por volta de 1895. Muitos inclusive usavam a versão sem mangas, mais apropriada para o clima tropical com o qual não estavam acostumados. Na época, a peça era conhecida por um nome mais comprido: "camisa-de-meia", uma referência ao algodão, tecido nada nobre e restrito às peças íntimas.

A moda acabou fazendo sucesso nas praias cariocas. Comparada às roupas de banho da época, largas camisas sobre shorts compridos, a camiseta, mais justa ao corpo, era uma experiência sem precedentes de liberdade.

Essa ligação com a idéia de liberdade e conforto esteve sempre presente na história da camiseta. Em 1934, durante suas férias na Riviera Francesa, Coco Chanel cometeu o absurdo de aparecer vestindo uma calça masculina e uma camiseta de marinheiro, feita de um tecido tão "inadequado, miserável, frágil e bom apenas para roupas de baixo" (como escreveu Edmond Charles-Roux no livro Le Temps Chanel - "Os Tempos de Chanel", sem tradução em português), que parecia impensável que estivesse sendo exibida por uma das estilistas mais bem-sucedidas de todos os tempos. A mensagem era clara: o conforto estava na moda. E nenhuma outra peça poderia ser uma aliada melhor que a roupa macia de algodão.



Onde tudo começou - Anos 50

Em 1955, o diretor americano Nicholas Ray decidiu filmar a história de um garoto rebelde, de passado conturbado. Juventude Transviada - ou Rebel Without a Cause ("Rebelde sem Causa", o título original) - tornou-se um marco no cinema. Para o papel principal, Ray escolheu um jovem ator hollywoodiano que acabou se tornando o ícone de uma geração. No papel de Jim Stark, James Dean era o retrato perfeito da juventude americana no começo da década de 1950: jovens másculos e perturbados que voltavam para a casa da Segunda Guerra Mundial e tinham extrema dificuldade em se reintegrar à conservadora sociedade americana.

Aqueles jovens não estavam dispostos a vestir o uniforme da conformidade, o terno. Assim, passaram a usar as mesmas camisetas que estavam por baixo da roupa de guerra (por cima delas, muitas vezes, apareciam as famosas jaquetas de couro). "Nos anos 50, a camiseta equivalia a uma evidente recusa da maneira tradicional de se vestir. Sua simplicidade equivalia a um ‘não’ incisivo", escreveu o filósofo Luiz Carlos Maciel no texto "Vestindo sonhos e idéias", também do livro A História da Camiseta. E o "não" da juventude americana logo se tornou um coro ao redor do mundo.



Paz, amor e camiseta - Anos 60

Ainconformidade e a negação ao tradicionalismo, que nasceram nos anos 50, chegaram à década de 1960 transformadas em revolta contra os padrões. O anseio por liberdade transformou a moda e a tornou unissex. Cabelos compridos não eram mais exclusividade feminina, assim como camisetas deixaram de ser roupas de homem.

Em 1963, a edição francesa da revista Elle, um dos símbolos da moda no mundo, publicou na capa uma foto de moças vestidas com bonés e camisetas. Ou melhor, "suéteres de verão". A moda estava pegando, mas parece que a alta burguesia francesa ainda não estava preparada para usar a mesma roupa que operários e jovens delinqüentes.

Foi só a partir da metade da década, com a turbulência dos protestos pacifistas contra a Guerra do Vietnã, dos assassinatos de Kennedy e Martin Luther King, dos movimentos pela liberação sexual e dos sucessos estrondosos do rock’n roll, que a camiseta assumiu de vez seu papel de meio de comunicação. Havia tanta coisa a ser dita, tantos partidos a tomar, que era melhor ir avisando logo de que lado se estava. E nenhum suporte era mais eficiente do que a mensagem estampada com todas as letras no peito de cada um. "A contestação expressa pela camiseta ganha um conteúdo afirmativo nos anos 60, quando ela deixa de ser simplesmente roupa para se tornar meio de comunicação de massa", escreveu Maciel.

A idéia de simplicidade e recusa dos padrões que a peça sugeria agradava aos hippies, a massa jovem da época. Estava preparado o terreno para as mensagens mais radicais, sem papas na língua, que invadiram as camisetas na década seguinte.



Rasgados e chiques - Anos 70

Em 1971, Yves Saint Laurent era um dos estilistas mais badalados do mundo. Suas roupas vestiam divas do cinema e suas modelagens tinham a fama de transformar qualquer ser do sexo feminino em uma mulher poderosa e sexy. O que ele dizia sobre moda virava regra e não poderia ser diferente quando ele declarou que "tudo o que uma garota de 20 anos precisa é de uma t-shirt e um par de jeans". Nada dos "eufemismos de verão" da década anterior. A camiseta havia, enfim, conquistado a todos nós.

Àquela altura, as grandes marcas de refrigerantes, automóveis e outros produtos haviam percebido o enorme alcance daquela peça de roupa e passaram a estampá-la com seus nomes e logos. Ao mesmo tempo, camisetas se estabeleciam como um meio de comunicação e, por isso mesmo, se materializavam como uma aliada importantíssima da contracultura. Aquilo que era ignorado pela grande mídia podia facilmente atingir multidões por meio de imagens estampadas em algodão. Foi assim com a foto do líder revolucionário "Che" Guevara. Foi assim com os protestos do movimento punk. Nada era ousado demais para as camisetas e bastavam dois quarteirões para que as linhas curvilíneas de "Enjoy Coca-Cola" (Saboreie Coca-Cola) se transformassem em "Enjoy Cocaine" (Saboreie Cocaína).



As grifes e o Brasil - Anos 80

Em 1984, a estilista inglesa Katharine Hamnett tornou-se a "eco-chata" mais famosa do mundo. Convidada para uma cerimônia na residência oficial da primeira-ministra britânica, Margareth Tatcher, Hamnett compareceu ao evento vestindo uma jaqueta fechada. Ao se aproximar de Tatcher, e ao lado de todos os fotógrafos, abriu o casaco mostrando uma camiseta que levava os dizeres "58% don’t want Pershing" (58% não querem Pershing). Pershing é um tipo de míssil que estava sendo produzido nos Estados Unidos, com apoio da Inglaterra, mesmo sobre protesto de 58% dos ingleses.

Protestos e posturas contestadoras não faziam tanto sucesso na Europa e nos Estados Unidos dos anos 80. Os hippies haviam saído de cena e agora eram os yuppies - jovens ricos profundamente comprometidos com o consumismo - que ditavam as regras. E a regra, em geral, era muito clara: se você tem dinheiro, mostre-me. Foi assim que as camisetas deixaram de ser a peça mais simples do guarda-roupa e passaram a ostentar a marca de seus fabricantes em letras garrafais. Para dar um look ainda mais suntuoso à roupa, valia até colocar ombreiras por baixo das camisetas.

No Brasil, no entanto, a história era outra. Havíamos amargado duas décadas de ditadura e foi nos anos 80 que finalmente estampamos nossos ideais de um país democrático. As mesmas curvas da Coca-Cola, por aqui, se transformaram em "Tome Eleições Diretas". "A palavra de ordem das ‘diretas-já’ sofreu, num primeiro momento, um boicote por parte dos veículos de comunicação. A utilização ampla de camisetas supriu a falta de jornais e tevê e conduziu a palavra de ordem ao dia-a-dia", escreveu Luiz Carlos Maciel. Mais uma vez a camiseta se provou imprescindível.



Novas formas - Anos 90

No começo de 1992, ao sair para o cooper matinal, o então presidente Fernando Collor de Mello escolhia cuidadosamente a camiseta que iria usar. Elas sempre estampavam frases como "Não fale em crise, trabalhe!" e bastavam alguns flashes para que as mensagens saltassem às páginas dos jornais. A camiseta havia se convertido definitivamente em propagadora de mensagens.

Com isso, ela perdeu parte do seu caráter contestador. Afinal, já não servia apenas àqueles que desejavam um outro mundo. Os protestos até continuaram a ser estampados, mas eram a moda restrita de movimentos localizados. "Nos bairros da periferia de São Paulo, por exemplo, o hip-hop ganhou força nos anos 90, mas a maior parte dos valores da classe média era hedonista, sem preocupação em passar uma mensagem política", diz a professora de antropologia da PUC-SP Márcia Regina da Costa.

A falta de aspirações ou idealismo podia ser vista no movimento grunge. Jovens passaram a se vestir de forma exageradamente largada usando, por exemplo, camisetas por cima de camisetas. Atenta às novas demandas, a indústria logo respondeu aos grunges, com peças imitando a sobreposição.

Mais para o final da década, os jovens começam a viver num paraíso eletrônico, com celulares, internet e eventos superproduzidos. As raves ganham força e, para fazer jus ao novo ambiente noturno, a moda clubber investe em tecidos tecnológicos (brilham no escuro, refletem a luz néon).

Assim, na história da camiseta, a grande revolução dos anos 90 podia ser vista em sua forma e tecidos. Camisetas feitas de sacolas de supermercados, de tecidos sintéticos; camisetas com golas em V, sem mangas, com uma única manga; camisetas largas, baby-looks. O formato em T estava sendo transformado de todas as maneiras possíveis.



Todos de camiseta - Hoje

De tanto estilo que se criou, de tanto tecido que se inventou, os anos 2000 chegaram sem muitas regras no mundo da moda. A idéia é cada um ser o que quer e, por isso mesmo, se vestir como quiser. "As pessoas viraram estilistas de si próprias", diz a consultora Costanza Pascolato.

Com isso, entra em cena a customização. O termo surgiu ainda nos anos 60, quando a Harley-Davidson, fabricante americana de motocicletas, decidiu que seus clientes podiam escolher a cor, os desenhos e todos os acessórios de sua moto. A idéia era que o cliente (customer, em inglês) saísse da loja com uma moto que fosse a sua cara e, por isso mesmo, única.

O termo chegou com força ao mundo da moda. O impacto da internet tornou as marcas globalizadas e espalhou tendências pelo mundo. Para escapar da massificação, muita gente passou a fazer suas próprias camisetas, usando a tecnologia disponível. A indústria, mais uma vez, percebeu o filão. Fabricantes pequenos comercializam camisetas quase exclusivas pela internet e grandes marcas se organizaram para colocar à venda camisetas com cara de únicas. "Vivemos uma época de capitalismo flexível, que, ao invés de produzir para grandes massas, produz para nichos definidos de consumo", diz o professor de ciências sociais e política da Fundação Getúlio Vargas, Francisco Fonseca. "Esses nichos existem pois os valores estão mais individualistas."
A falta de um ideal coletivo é mesmo a marca do mundo em que vivemos. Diferentes sonhos, projetos e modos de pensar formam a sociedade heterogênea de hoje e aparecem refletidos no peito de cada um de nós. Como diz o lema, estamos cada um na sua. Mas todos de camiseta.



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