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sábado, 4 de agosto de 2012

Próxima parada Netuno - Voyager 2


PRÓXIMA PARADA: NETUNO - Voyager 2



A Voyager 2, o mais eficiente aparelho de engenharia espacial construído pelo homem chega este ano perto do planeta Netuno, antes de cruzar as fronteiras do sistema solar.

O corpo tem o peso e o tamanho de um Monza, mas a aparência lembra um grande guarda-chuva. Se fosse um foguete, não haveria combustível suficiente para levá-la aonde está - a 5 bilhões de quilômetros da Terra, a caminho de Netuno, em cujas imediações, por assim dizer, chegará no próximo mês de agosto. Apesar disso, a sonda espacial Voyager 2 é um meio de transporte supereconômico: seus três geradores nucleares produzem 389 watts de potência, metade do que gasta uma reles cafeteira elétrica. É o bastante para a viagem que a levará além do sistema solar. A Voyager 2 foi lançada em agosto de 1977, por estranho que pareça menos de um mês antes da Voyager 1. Esta cruzou as órbitas de Júpiter e Saturno e continua viajando.
Até hoje as sondas gêmeas Voyager são consideradas a maior realização científica do programa espacial americano, incluída a descida do homem na Lua. "A quantidade de informações que as sondas enviaram e ainda estão enviando do espaço é tão grande que ainda não houve tempo para digeri-la. Pode ser que os seus dados revelem novas surpresas", afirma o astrônomo Roberto Boczko, da Universidade de São Paulo.  O que mais sobressai no aspecto das Voyager é a antena parabólica, parecida com um prato de sopa, e que mede 3,7 metros de diâmetro. É graças a essa antena que as sondas se comunicam com a Terra.
Colado na base do prato há um compartimento de alumínio de forma arredondada onde estão guardados os instrumentos da nave. Ali funcionam três computadores - na realidade são seis, mas três ficam de reserva. Enquanto um deles controla o cotidiano da nave, os outros governam seus movimentos e as informações coletadas pelos instrumentos de medição. A capacidade de memória dos seis juntos não vai além de 68 kilobytes, semelhante à de um micro de uso pessoal. Os estranhos guarda-chuvas espaciais possuem, ainda, dois braços.
Num deles estão instalados os geradores que produzem eletricidade a partir do calor resultante da desintegração radioativa do óxido de plutônio, um combustível nuclear. Como o roteiro das Voyager afastou-as muito do Sol, não puderam ser equipadas com painéis solares à maneira de suas precursoras Mariner, que seguiram na direção oposta para conhecer Vênus e Mercúrio. No outro braço, as Voyager carregam uma plataforma com os demais instrumentos científicos e as câmeras de vídeo. As sondas têm um gravador digital de oito trilhas - parecido com um videocassete - onde estão registradas as informações, inclusive as fotos feitas pelas duas vidicons, as câmeras. Entre os braços há uma antena comprida, onde estão instalados o magnetómetro - que, como o nome diz, registra a intensidade dos campos magnéticos dos planetas - e os medidores de plasma (gás ionizado rarefeito espalhado pelo espaço) e de ondas de rádio provenientes do espaço.
Como as fotos enviadas pelas Voyager chegam à Terra? Os computadores das naves transformam as imagens obtidas pelas câmeras em sinais digitais que são enviados pelo rádio, a bilhões de quilômetros de distância, para os radiotelescópios terrestres. A NASA possui três estações rastreadoras - uma perto de Madri, na Espanha, outra no deserto de Mojave, na Califórnia, e uma terceira em Canberra, na Austrália. Estas retransmitem os sinais via satélite a uma série de torres de transmissão de microondas na Califórnia, que os enviam aos computadores do Laboratório de Jatopropulsão (JPL), em Pasadena, ao norte de Los Angeles, que refazem as imagens.
As fotos das Voyager lembram as telefotos de jornal, feitas de milhões de pontos, cada um com uma gradação diferente de cinza. Os pontos são tão pequenos e juntos que permitem ver nitidamente o contorno dos objetos. Após o processamento, que pode adicionar cor às imagens, os pontos são armazenados num disco magnético parecido com um filme fotográfico. 
"Só a Voyager 2 enviou 18 mil fotografias de Júpiter para a Terra", informa o engenheiro Douglas Griffith, encarregado da missão Voyager 2 para Netuno. "Isso representa uma tremenda quantidade de informações. Não são apenas imagens bonitas mas dados importantes sobre a formação do sistema solar, a origem da Terra e o processo de evolução dos planetas."
No 5.° andar do edifício de oito andares de número 264 do JPL, em Pasadena, onde funciona o cérebro das Voyager, o movimento desde já é intenso. Até 24 de agosto, quando a Voyager 2 passar a apenas 5 mil quilômetros acima da atmosfera de Netuno, os 220 técnicos que a vigiam dia e noite estarão checando cada instrumento de bordo para que não haja nenhuma falha nessa sua grande cerimônia de despedida do sistema solar. A expectativa dos técnicos é otimista. Afinal, como lembra Griffith, há oito anos a nave funciona sem problemas.
Antes disso, porém, ela pregou algumas boas peças. Em 1981, por exemplo, quando passou por Saturno, emperrou um dos dispositivos mecânicos que movimentam a plataforma onde estão instaladas as câmeras de TV. Embora os controladores tivessem conseguido fazê-lo movimentar-se de novo, não ficaram convencidos de que funcionava bem. Por via das dúvidas, inventaram uma forma de tirar as fotos sem precisar acionar a plataforma, fazendo com que toda a Voyager 2 se movimente junto com a câmera.
Problema bem mais complexo já havia acontecido sete meses depois do seu lançamento, quando uma descarga elétrica destruiu o rádio principal e danificou o equipamento de reserva. Parecia que a Voyager 2 ficaria para sempre surda aos chamados da Terra, pois somente o rádio principal era capaz de procurar e sintonizar automaticamente os sinais do JPL. Como o rádio reserva estava avariado, sua faixa de busca de freqüência ficou reduzida a um milésimo da faixa do rádio principal. Assim, os operadores da Terra precisam calcular a velocidade da nave quando o sinal a atinge e ainda a temperatura local quando a mensagem é recebida para sintonizar com o rádio reserva, pois mudanças na temperatura da nave alteram a freqüência do rádio.
Não é tarefa fácil. As estações de rádio da Terra emitem 50 mil watts de potência e o sinal da Voyager é de apenas 22 watts, inferior ao de uma lâmpada comum. Além disso, como o sinal se irradia pelo espaço em todas as direções, a fração recebida pela Terra é de apenas um bilionésimo de milionésimo de watt. Nem mesmo as três estações rastreadoras da NASA juntas foram suficientes para captar os sinais da Voyager 2 quando ela passou ao largo de Urano, em janeiro de 1986. A agência espacial americana teve de pedir socorro a outros radiotelescópios espalhados pelo mundo. Atualmente a Voyager 2 está tão longe que os sinais levam por volta de quatro horas para alcançar a Terra, embora viajando à velocidade da luz.
Em 1965, quando se começou a pensar no projeto, mandar uma sonda a Júpiter parecia uma missão impossível: o homem nem tinha chegado à Lua (o que só faria quatro anos mais tarde) e as sondas não-tripuladas como a Mariner 4 só tinham ido a Marte, o planeta mais próximo da Terra depois de Vênus. Uma viagem a Júpiter, centenas de milhões de quilômetros além de Marte e do perigoso cinturão de asteróides contra alguns dos quais as naves poderiam se chocar, significaria uma viagem de pelo menos nove anos, ou seja, tanto tempo quanto havia transcorrido desde o lançamento do Sputnik soviético, o primeiro satélite artificial da Terra, em outubro de 1957, até aquela data. Para vencer esses obstáculos, os engenheiros da NASA tiveram de improvisar. Uma sonda espacial funciona como um projétil em vôo livre. Como ensina a Física, um objeto solto no espaço flutua e fica indefinidamente sob a ação de uma força até que outra aja sobre ele.
Se um homem pudesse lançar uma bola para além da órbita da Terra, essa bola continuaria sua trajetória, com praticamente a mesma velocidade, para sempre, a menos que colidisse com um planeta ou sofresse a interferência de outra força, como o campo gravitacional de um planeta. A velocidade das Voyager - 63 mil quilômetros por hora - e a direção são influenciadas pela força gravitacional do Sol e dos planetas que elas encontram ao longo de sua trajetória. Para escapar da gravidade terrestre foi preciso o empurrão de um poderoso foguete Titan-Centaur. Quando as duas naves ultrapassaram cerca de um terço do caminho entre a Terra e Júpiter, a gravidade deste último planeta começou a atrai-las mais que a da Terra, acelerando as velocidades.
Essa ajuda involuntária já havia sido experimentada em 1973, quando a Mariner l0 usou o campo gravitacional de Vênus como "posto de abastecimento" até Mercúrio. Mas os engenheiros das Voyager contaram com um golpe de sorte adicional. Uma configuração favorável dos planetas permitiu que as naves alcançassem Júpiter em menos de dois anos e Saturno em quatro. Então houve uma alteração nas rotas. A Voyager 1 continuou seu caminho, sem se encontrar com mais nenhum planeta, embora continue em contato com a Terra. A Voyager 2 passou, nove anos depois do lançamento, por Urano e passa doze anos depois por Netuno. Para isso, usou a gravidade dos planetas como um estilingue, ou seja, a velocidade orbital de Júpiter e sua gravidade aceleraram a nave em direção a Saturno, daí a Urano e Netuno.
Mas isso só foi possível porque os planetas estavam colocados um à frente do outro e do mesmo lado do Sol. A última vez que isso tinha ocorrido, no começo do século passado, Napoleão Bonaparte se preparava para ocupar a Europa, enquanto nos Estados Unidos os pioneiros começavam a conquista do Oeste. O Brasil, naquela época, ainda estava para receber a visita de dom João VI, que abriria os portos da colônia às nações amigas. É claro que os engenheiros do JPL não deixariam de tirar vantagem da posição dos astros. Assim em 20 de agosto de 1977, partia a Voyager 2 do mesmo Cabo Canaveral que arremessaria nove anos mais tarde a Challenger, para a sua destruição. No dia 5 de setembro de 1977 foi a vez da Voyager 1.
A Voyager 1 não teve um papel tão extenso quanto sua irmã gêmea na abertura de novas fronteiras do Universo. Ela passou perto de Io e Calisto, duas das dezesseis luas de Júpiter, em 1979, ganhando tamanha velocidade que chegou a Saturno antes da Voyager 2, em 1981, muito cedo para ser desviada a Urano. Em compensação, pôde avistar Titã, Réia e Mimas, três dos satélites de Saturno. A Voyager 2 passou por Europa e Ganimedes - satélites de Júpiter -, ganhou impulso até Saturno, onde chegou perto dos seus satélites Tétis e Encélado, e continuou sua trajetória até Urano e agora Netuno.
Em 1990, as duas Voyager estarão além de Plutão, preparando-se para deixar o sistema solar. Os astrônomos calculam que, daqui a 40 mil anos, a Voyager 1 estará a um ano-luz de outro sol, na constelação de Ursa Maior. Depois disso, é pura especulação. Mas, apesar de todos os seus cálculos precisos, os engenheiros do JPL gostam de especulações. Eles acreditam, por exemplo, que mesmo depois de milhares de anos, as duas sondas podem alcançar outro sistema planetário parecido com o sistema solar - se houver, naturalmente.
Nesse caso, elas poderiam ser capturadas por uma civilização extraterrestre - se houver, naturalmente. As naves estão equipadas para o que der e vier: cada uma leva um pequeno videodisco instalado na parede do seu corpo principal. No envoltório há o desenho de um átomo de hidrogênio, o elemento mais comum do Universo, a posição da Terra em relação ao Sol, além de um desenho em escala da nave. Dentro está o disco propriamente dito, com imagens da Terra, saudações em 54 idiomas e trechos de música, de rock a Beethoven. .

Cartões-postais planetários

Há vinte anos, o sistema solar não parecia tão belo quanto hoje. Foram as sondas espaciais que enviaram as primeiras imagens (depois coloridas artificialmente no computador) de mundos agora não tão desconhecidos. Júpiter, por exemplo foi observado de perto pela primeira vez em 1973 e1974 pelas Pioneer 10 e 11, mas somente as câmeras de TV das Voyager mostraram detalhes desse gigante - o maior planeta do sistema solar - e de suas luas. As Voyager exploraram cinco dos satélites de Júpiter e descobriram outros dois, aumentando seu número para dezesseis.
As Voyager também mostraram cinco novos satélites em volta de Saturno, além dos doze já conhecidos. Deram uma boa olhada em Titã, o maior satélite de Saturno, e o único do sistema solar com atmosfera. Como essa atmosfera é muito parecida com a mistura de hidrogênio, metano e outros gases, que existia na Terra há 2 bilhões de anos, especulou-se sobre a existência de substâncias que poderiam dar origem á vida em Titã. Essa hipótese, porém, não foi comprovada pelas naves. Em compensação, as Voyager mostraram pela primeira vez os cerca de mil anéis constituídos de fragmentos de rocha congelada e .pedaços de gelo que giram em torno de Saturno. Esse mesmo material acumulado pode ter formado o próprio planeta e seus satélites.
Primeira nave a passar por Urano, a Voyager 2 descobriu dez novos satélites em volta do plane-ta, além dos cinco já conhecidos. A sonda enviou fotos que evidenciam choques de meteoros, alguns de grandes dimensões, contra a superfície do planeta e de suas luas. O material que espirrou dos choques pode ter formado os dez discos em torno de Urano, vistos pela primeira vez pela própria Voyager. A sonda constatou outro fato surpreendente: os pólos magnéticos de Urano não coincidem com seus pólos geográficos. O que levou os cientistas à conclusão de que Urano rola como uma bola ao redor do Sol e não gira como um pião, a exemplo dos outros planetas.
Quando se encontrar com Netuno, as fotos da Voyager 2 mostrarão as variações da atmosfera desse planeta, já sugeridas pelos telescópios da Terra, além de auroras e outros fenômenos eletromagnéticos. Os astrónomos também suspeitam que Netuno tenha pequenos anéis ao redor, por causa da maneira como a luz é bloqueada. Enfim, em agosto, também poderão ver outros satélites, além dos dois conhecidos de Netuno. 

Companheiras de viagem

A primeira tentativa de enviar uma sonda não-tripulada a outros planetas ocorreu em 1961 - oito anos antes de o homem pisar na Lua pela primeira vez. A nave soviética Venera 1 chegou a ter um lançamento bem-sucedido, mas em seguida perdeu o contato com a Terra. O mesmo aconteceu um ano depois com a sua colega Mars. Aliás, o projeto soviético para Marte não teve muito êxito, o que é curioso, pois a série Venera na .década de 70 fotografou a superfície do planeta Vênus, um objetivo bem mais difícil.
Em 1962, a Mariner 2 foi a primeira missão planetária que deu certo. Ela passou por Vênus e mandou informações valiosas sobre o seu clima hostil. Em 1978, a Pioneer 1 mapeou com a ajuda do radar a superfície de Vênus. Marte foi contatado pela primeira vez em 1965 pela Mariner 4, que tirou fotografias das crateras e descobriu a tênue atmosfera de dióxido de carbono. Nos anos seguintes, novas informações marcianas foram fornecidas pelas Mariner 6, 7 e 9. Em 1976, duas Viking pousaram no solo de Marte. Antes disso, em 1973, a Pioneer l0, já havia passado por Júpiter, tirando suas primeiras fotos. Um ano depois, a Pioneer 11 fazia o mesmo com Saturno.

sábado, 19 de novembro de 2022

NASA desconecta suas emblemáticas sondas Voyager após 45 anos de serviço

NASA desconecta suas emblemáticas sondas Voyager após 45 anos de serviço

A agência espacial dos EUA está desligando os equipamentos aos poucos para tentar aumentar sua vida útil.

sábado, 13 de fevereiro de 2021

Sondas da NASA detectam nova interação física, exclusiva do meio interestelar

Sondas da NASA detectam nova interação física, exclusiva do meio interestelar

As sondas Voyager, da NASA, lançadas em 1977,  continuam a fazer novas descobertas. Agora, elas conseguiram detectar pela primeira vez rajadas de elétrons de raios cósmicos acelerados por ondas de choque, que nascem de grandes erupções no Sol. 

terça-feira, 28 de novembro de 2017

O que queríamos dizer aos extraterrestres há 40 anos


O que queríamos dizer aos extraterrestres há 40 anos

Voyager Golden Record foi enviado ao espaço em 1977 com informações 
sobre o nosso planeta (Foto: NASA)


Discos de ouro lançados ao espaço em 1977 na missão Voyager levavam mais de cem fotografias, sons e dados sobre a Terra e a humanidade.

segunda-feira, 16 de abril de 2018

As Sondas Espaciais - Voyager - Para o Infinito e Além - 41 anos


As Sondas Espaciais - Voyager - Para o Infinito e Além - 41 anos


*Após 33 anos de viagem, a nave Voyager I deixa os domínios do Sistema Solar
(*Quando fez 33, hoje com 41 anos)


sexta-feira, 16 de setembro de 2022

Mistério no espaço - NASA está preocupada com mensagens enviadas por sonda Voyager

Mistério no espaço - NASA está preocupada com mensagens enviadas por sonda Voyager 1

Mensagens que o equipamento começou a transmitir repentinamente dos confins do Sistema Solar seriam "dados impossíveis".

terça-feira, 18 de setembro de 2012

As Surpresas de Netuno - Astronomia



AS SURPRESAS DE NETUNO - Astronomia



O segundo planeta mais distante do Sol se revela um mundo turbulento, circundado de satélites e anéis. Sua lua, Tritão, é uma atração à parte, com geleiras e vulcões de 
nitrogênio congelado.

Nunca mais o planeta Netuno será considerado apenas um mundo gigante, meio azul meio verde, quase desconhecido, nos confins do sistema solar. Desde meados do ano passado, quando a sonda americana Voyager 2 sobrevoou os topos das nuvens coloridas, Netuno ganhou uma luzidia cédula nova de identidade, com foto e impressão digital para astrônomo nenhum pôr defeito. As imagens da Voyager 2 revelaram, ao contrário do que se pensava, um planeta ativo, com tempestades e ventos arrasadores, circundado por nada menos de oito luas e cinco anéis, além de uma camada de poeira. Tritão, antes um satélite apagado desse mundo distante, tornou-se depois das imagens da Voyager 2 um dos mais curiosos corpos do sistema solar.
Sabia-se pouco sobre Netuno, é certo, mas havia bons motivos para isso. Oitavo planeta em ordem de afastamento do sol, situado a 4,3 bilhões de quilômetros da Terra, Netuno está tão distante que não é visível a olho nu, assim como Plutão. Mesmo com o auxílio do maior telescópio brasileiro, o refletor de 1,6 metro do Laboratório Nacional de Astrofísica, em Minas Gerais, parece "um minúsculo círculo de luz com uma cor meio estranha brilhando no céu", como descreve o astrônomo Roberto Martins, do Observatório Nacional do Rio de Janeiro, que há poucos meses observou o astro noites a fio para medir a órbita de seus satélites. Foi preciso que a Voyager 2, no seu giro de doze anos pelos planetas gigantes, que a levou às vizinhanças de Júpiter, Saturno e Urano, passasse a 4850 quilômetros de Netuno no dia 25 de agosto último, para que se pudesse finalmente dar uma boa olhada nesse remoto mundo verde e no seu curioso satélite, Tritão.
Os estudos anteriores à sonda haviam mostrado que Netuno é o quarto maior planeta do sistema, depois de Júpiter, Saturno, e Urano, o que já não é pouco. Com diâmetro de 50 mil quilômetros, é quatro vezes maior que a Terra. Desde que foi descoberto em 1846, ainda não completou uma volta em torno do Sol. Explica-se: está tão distante que seu movimento de translação dura 164 anos e 280 dias terrestres. À distância que se encontra do Sol, não é de admirar que seja gelado. A temperatura ali fica na marca de 200 graus centígrados negativos. Em Tritão, considerado o lugar mais frio do sistema solar, desce a menos de 240 graus.
Netuno guarda a honra de ser o primeiro planeta cuja existência foi deduzida por cálculos matemáticos antes da observação ótica. Desde o fim do século XVIII se suspeitava que um corpo estranho estava alterando a trajetória prevista de Urano, até então o planeta mais distante conhecido. Ao estudar o movimento deste astro, o astrônomo inglês John C. Adams (1819-1892), em Cambridge, e seu colega francês Urbain Le Verrier (1811-1877), em Paris, descobriram, cada qual por si, que as alterações da órbita de Urano se deviam à influência de um astro ainda mais afastado do Sol. Embora Adams e Le Verrier tivessem concluído os cálculos praticamente juntos, não tiveram a mesma sorte na divulgação dos resultados.
As observações do astrônomo inglês, enviadas ao Observatório Real de Greenwich, não foram levadas a sério. Já Le Verrier comunicou suas conclusões ao Observatório de Berlim. Ali, na noite de 23 de setembro de 1846, o alemão Johann Galle (1812-1910) viu o planeta Netuno pela primeira vez. Por sugestão de Le Verrier, Netuno, que possuía uma cor azul esverdeada, recebeu o nome da versão romana do deus grego do mar, originalmente Poseidon. Seus satélites - Tritão, avistado um mês depois, e Nereida, observado apenas em 1949 - receberam seus nomes em homenagem a figuras da mitologia marinha.
Além de influir, na órbita de Urano, Netuno também se parece com ele. Tem quase a mesma composição, massa e tamanho. Como Urano, Netuno tem um centro rochoso envolvido numa bola gigante de neve suja. Essa capa congelada parece feita de água e metano. Em volta fica a atmosfera: hidrogênio e hélio misturados com metano. E por sinal o metano, que absorve a luz vermelha, é o responsável pela cor azul esverdeada do planeta. Essa aparência bizarra de Netuno, Urano e dos outros grandes planetas, tão diferentes da Terra e de seus vizinhos Vênus ou Marte, tem uma explicação que remonta à formação desses astros.
À medida que se vai além de Marte no sistema solar, penetra-se nos domínios dos planetas gigantes, formados por pequenos núcleos rochosos encapados por grandes esferas de compostos voláteis liquefeitos e gases. Ali não existem superfícies sólidas, a não ser nos satélites. Isso porque a matéria-prima da nebulosa que formou os planetas há 4,6 bilhões de anos variou de acordo com a vizinhança do Sol. Os mais próximos se tornaram ricos em minerais resistentes ao calor, como ferro, óxidos e silicatos. Os mais distantes, de temperatura mais baixa, concentraram os elementos voláteis: hélio, hidrogênio e outros compostos seus, como metano (CH4), amônia (NH3) e água (H2O).
"O crescimento desses astros pode ser comparado ao de uma bola de neve", explica o astrônomo Oscar Matsuura, da Universidade de São Paulo. "O material de que são compostos se agrega com facilidade e, por isso, quanto mais cresceram, mais atraíram outros elementos à sua volta." Matsuura, que dedicou dezessete dos seus 50 anos ao estudo dos cometas, acabou por se tornar também um interessado na formação do sistema solar. Ele explica que, durante bilhões de anos, este canto do Universo foi o cenário de uma batalha cósmica, na qual asteróides, cometas e meteoros colidiam com o que encontrassem pelo caminho. "As testemunhas mais evidentes desse período turbulento são as milhares de crateras da Lua", indica o astrônomo.
Quando um desses corpos caía na atmosfera de Netuno ou de qualquer outro planeta gigante, obviamente não deixava crateras como provas do choque. Para Matsuura, "existe uma longa história de colisões também no sistema solar exterior". O astrônomo confirma assim informações da NASA, onde geólogos e astrônomos, que trabalharam na interpretação das imagens das sondas espaciais como a Voyager 2, não se cansam de constatar que poucas coisas permaneceram intocadas nessa parte mais afastada do Sol. Uma evidência disso são os anéis.
Nenhum planeta do sistema interior tem anéis, todos os exteriores, com exceção de Plutão, têm pelo menos um. No caso de Netuno, desde 1984, os telescópios terrestres mostraram o que pareciam ser anéis incompletos, chamados arcos. "Se fossem realmente arcos, seriam os primeiros avistados ao redor de um planeta", comenta o astrônomo Jair Barroso, do Observatório Nacional do Rio de Janeiro. Barroso especializou-se numa técnica de observação conhecida como ocultação de estrelas. Ou seja, utilizando um fotômetro fotoelétrico rápido acoplado ao telescópio, ele registra a passagem de um astro por trás de outro - um fenômeno que ocorre às vezes em ínfimos um ou dois segundos.
Assim foram percebidos os anéis de Urano e os supostos arcos de Netuno. No começo de agosto de 1989, a Voyager 2 mostrou que entre estes últimos havia segmentos poeirentos muito tênues, por isso mesmo não observados da Terra. As imagens mostraram pelo menos cinco anéis, um deles tão tênue que parece uma camada de poeira. Eles lembram incontáveis luazinhas geladas orbitando o planeta. Podem representar relíquias de um período em que cometas e asteróides batiam nos planetas e se fragmentavam, sendo então capturados pela gravidade do planeta. Ou podem ser restos de uma lua que vagou muito perto e foi despedaçada pela atração de Netuno.
A Voyager 2 descobriu também seis novos satélites rodeando Netuno, designados temporariamente 1989 N1 a N6. "Todos são pequenos e apagados pelo brilho do planeta. Por isso nunca puderam ser avistados da Terra", explica Roberto Martins, o pesquisador de satélites, do Observatório Nacional. As seis luas recém-descobertas tem entre 50 e 200 quilômetros de diâmetro, com exceção da primeira, que chega a 300 quilômetros, quase do tamanho de Nereida. As imagens de suas superfícies escuras, frias e esburacadas reforçam as teorias de catástrofes durante a sua formação. Como a Lua terrestre cheia de crateras, os pequenos satélites netunianos permaneceram intocados nos últimos bilhões de anos.
Nereida, pouco observada pela sonda espacial, tem uma estrutura física ainda desconhecida. Seu formato é irregular e a órbita, a mais excêntrica de todos os satélites: chega a cerca de 1 milhão de quilômetros de Netuno e se afasta para quase 9 milhões de quilômetros de distância. Tritão, por sua vez, com um diâmetro de 4 mil quilômetros, é um dos maiores satélites do sistema solar. Curiosamente, gira em sentido contrário ao das outras luas e ao do próprio planeta. Por causa disso, e da atração gravitacional do astro maior, está se aproximando inexoravelmente de Netuno, e daqui a 100 milhões de anos deverá se partir em pedacinhos, formando talvez um magnífico anel em volta do planeta. "Provavelmente Tritão foi capturado pela atração gravitacional netuniana", especula o astrônomo Matsuura. "Todavia, a captura requer condições muito especiais", ressalva.
Segundo ele, a ciência ainda não tem respostas definitivas sobre a formação dos satélites, apenas algumas hipóteses. "Ou são pedaços do planeta despedaçados pelo choque provocado pela passagem de um grande corpo naquele período de catástrofes, ou objetos espaciais condensados na época de formação do planeta: como estão um pouco mais distantes, não se espatifaram transformando-se em partículas de poeira congelada, como ocorreu com os anéis."
Com tantas informações novas sobre os planetas gigantes, desde o encontro da mesma Voyager 2 com o planeta Urano, há três anos, a equipe da NASA responsável pela sonda vinha aguardando as surpresas de Netuno. O planeta começou a ser observado atentamente muitos meses antes da aproximação máxima. Esperava-se então que as imagens revelassem um mundo tranqüilo, como acontecera na passagem pelo seu irmão mais parecido. Mas desde o princípio começaram a surgir sinais de turbulência. A atmosfera de Netuno revelou faixas distintas e gigantescos pontos escuros. que significam tempestades. As câmeras da nave espacial captaram imagens belíssimas de bancos paralelos de nuvens douradas fazendo sombra sobre nuvens azuis mais embaixo. Havia furacões, um deles com mais de 13 mil quilômetros de extensão, ou seja, com dimensões equivalentes ao diâmetro da Terra inteira.
Essa superventania, que gira na contramão, ou seja, no sentido oposto ao da rotação do planeta, dá uma volta completa por Netuno em 18 horas e 20 minutos, duas horas a mais do que o dia local. Chamada Grande Mancha Escura, ela demonstrou ser mãe fecunda: mais ao sul de onde girava, a Voyager 2 registrou duas manchas menores. Uma delas, uma nuvem branca de metano, se desloca tão rapidamente, a mais de 800 mil quilômetros por hora, que foi apelidada galhofeiramente pelos técnicos da NASA de Scooter (patinete, em inglês). A outra mancha, sem um nome especial, mas quase tão rápida, apresenta como peculiaridade um núcleo mais claro, provavelmente também de metano.
Onde Netuno consegue tanta energia para sustentar fenômenos climáticos desse porte é um perfeito mistério. No caso da Terra, a energia vem do Sol, mas a 4,5 bilhões de quilômetros, Netuno recebe bem menos radiação. Mesmo assim sua atmosfera chega a ser mais dinâmica do que a de Júpiter, seu irmão maior. "Pode ser que o planeta não tenha terminado de se acomodar e possua uma fonte interna de calor", admite Matsuura. "Como Netuno possui campo magnético, isso ajudaria a trazer essa energia para a superfície." O campo magnético de Netuno foi outra das surpresas da Voyager 2. A sonda registrou um forte ruído de rádio ao passar pela turbulência de gases e partículas que formam a magnetosfera do planeta. Ao sobrevoar o lado escuro de Netuno, as câmeras captaram imagens de uma aurora boreal nas regiões polares. Este, como se sabe, é um fenômeno luminoso produzido pela excitação de moléculas por partículas eletricamente carregadas.
As imagens do maior sócio de Netuno, o satélite Tritão, despertaram ainda mais curiosidade nos cientistas da NASA. Descobriu-se um mundo gelado, digno dos filmes de ficção científica, esculpido de duas formas distintas. Uma delas, bastante lisa, formada por campos brilhantes, como se tivessem sido envernizados por algum tipo de material vulcânico. Outra, mais acidentada, apresenta montanhas, crateras e geleiras de metano e nitrogênio congelado. Nessa região existe pelo menos um vulcão ativo, de onde jorram jatos de gás pressurizados, com toda a probabilidade nitrogênio carregado de cristais de gelo e partículas escuras. Provavelmente Tritão tenha sido um planeta independente, como Plutão, com quem se parece em tamanho e talvez em composição. Por algum motivo, foi capturado por Netuno e entrou em órbita ao redor desse planeta. Por ser muito frio e relativamente grande, é capaz de reter uma atmosfera, sendo um dos três astros conhecidos do sistema solar com atmosfera em parte constituída de nitrogênio. Os outros dois são a Terra e Titã, este uma lua de Saturno quase tão grande quanto o planeta Marte.
Na Terra, como se sabe, a composição da atmosfera, entre outras condições específicas, foi favorável ao desenvolvimento da vida. Alguns cientistas, como o físico Carlos Viana  Speller, do Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA), na cidade paulista de São José dos Campos, estudam, com as informações enviadas pela Voyager 2, a existência na atmosfera de Titã de compostos orgânicos básicos para as moléculas precursoras da vida. "Se Tritão possui uma composição favorável, pode merecer um estudo semelhante ao de Titã", comenta Speller. Não é de estranhar. Como observou o astrônomo Edward Stone, da NASA, que recebeu as imagens do satélite, "Tritão é diferente de tudo que já havíamos visto, e pode ser considerado um dos mais interessantes corpos celestes".

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2025

O que significa o raro alinhamento de planetas que está acontecendo no céu

O que significa o raro alinhamento de planetas que está acontecendo no céu

Os observadores do céu já podem ver seis planetas alinhados - e, no dia 28 de fevereiro, Mercúrio se junta ao clube. Evento pode trazer oportunidades a cientistas.

terça-feira, 11 de agosto de 2020

O que diz a mensagem que Carl Sagan enviou aos extraterrestres

O que diz a mensagem que Carl Sagan enviou aos extraterrestres


Em março de 1972, a NASA lançou em direção ao espaço a sonda não tripulada Pioneer 10. 

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Clima do outro mundo

CLIMAS DO OUTRO MUNDO



Um consolo para quem se queixa de que na Terra chove demais ou de menos, ou faz calor demais ou de menos: nos outros planetas, o tempo é muito pior.

Prever se na Terra vai chover ou fazer sol é difícil - os erros que a Metereologia comete todos os dias estão aí para provar. Mas isso não é nada perto do quebra-cabeça que é a tentativa de deduzir temperatura, velocidade dos ventos, tempestades - enfim, o clima dos outros oito planetas do sistema solar. Mesmo com auxílio de cálculos complexos, observações através de potentíssimos telescópios e radiotelescópios , sem falar nos satélites e sondas espaciais, dá para perceber os problemas enfrentados pelos astrônomos para conhecer o clima de outros mundos. As dificuldades começam na atmosfera dos planetas. Mercúrio, o menor de todos e o mais próximo do Sol, por exemplo, nem mesmo atmosfera tem, devido à sua própria força gravitacional, que é baixíssima . Por isso, sem a proteção de nuvens ou correntes de vento, o planeta está diretamente exposto à radiação solar. Durante o interminável dia de Mercúrio, que dura nada menos que 58 dias e 5 horas terrestres, o calor pode chegar a 430 graus centígrados, para cair a 170 graus negativos quando o Sol se põe.
Seria lógico supor que esse planeta, por ser o mais próximo do Sol , fosse também o mais quente. Mas isso não acontece. Embora duas vezes mais longe do Sol do que Mercúrio, o recordista de altas temperaturas é Vênus , com 500 graus no seu lado iluminado. Vários veículos espaciais soviéticos e americanos já tentaram entrar na densa atmosfera de Vênus. O máximo que dois deles conseguiram foi funcionar por uma hora na superfície. A pressão em Vênus é 90 vezes a da atmosfera terrestre. Além disso, a atmosfera venusiana é composta de 96 por cento de dióxido de carbono. Esse indigesto gás permite a passagem da luz, mas não a do calor. Ao atingir o solo de Vênus, a luz se transforma parcialmente em calor, que não consegue sair do planeta, tornando a superfície muito quente. É o chamado efeito estufa - que aqui na Terra resulta do aumento da poluição.
Para completar esse clima nada agradável, descobriu-se que Vênus está rodeado também por uma eterna neblina formada por gotinhas de ácido sulfúrico concentrado. O dióxido de enxofre (SO2) que circula acima das nuvens é transformado pela luz ultravioleta do Sol e recombinado com o vapor de água da atmosfera para formar o ácido. Este, ao atingir altitudes menores, se transforma novamente em SO2 e água. É por isso que, embora sempre chova ácido sulfúrico no planeta, nenhuma gota chega a atingir o chão. Em Vênus, os relâmpagos são tão constantes e de tamanha intensidade que a superfície parece quase sempre iluminada, mesmo quando a luz do Sol não está presente. O dia venusiano dura 243 dias terrestres, devido à sua rotação lenta. Por causa do dióxido de carbono, o céu visto de Vênus é cor-de-rosa.
Comparado com o de Vênus, o clima de Marte é bem mais ameno. Como acontece com a Terra, seu eixo de rotação está ligeiramente inclinado enquanto se dá o movimento de translação em torno do Sol. Isso significa estações diferenciadas. As temperaturas, que no verão marciano podem ultrapassar a barreira de zero grau centígrado, no inverno chegam a 140 graus negativos. Como sua atmosfera também é composta principalmente de dióxido de carbono, os cientistas chegaram a levantar a hipótese de que em Marte ocorre o mesmo efeito estufa de Vênus. Mas logo verificaram que, como sua densidade é muito menor, o dióxido de carbono apenas retém o calor parcialmente refletido pela superfície do planeta, sem influir no nível da temperatura.
Em compensação, o planeta vermeIho exibe outros fenômenos climáticos curiosos. Por exemplo, nele pode até nevar. No inverno, quando o vento sopra levemente sobre a superfície, levanta pequenos grãos de areia que se misturam ao dióxido de carbono condensado e caem como se fossem flocos de gelo seco. O vento pode causar eventos dramáticos. Ao alcançar velocidades de mais de 200 quilômetros por hora, desencadeia imensas tempestades de areia que chegam a esconder parcialmente durante meses a superfície do planeta.
Nos chamados planetas exteriores, de Júpiter a Plutão, o clima é ainda mais peculiar. Por causa da massa, Júpiter e Saturno são quase estrelas. Se fossem mais maciços, teriam reações termonucleares e começariam a brilhar com luz própria. Mesmo não sendo, suas temperaturas interiores são tão elevadas que liberam duas vezes mais calor do que recebem diretamente do Sol. Mas nas agitadas camadas superiores da atmosfera desses planetas predominam temperaturas de 150 a 180 graus abaixo de zero. Quanto maior a proximidade do centro, mais aumentam as temperaturas.
Em Júpiter, o calor alcança fantásticos 400 milhões de graus, 10 vezes mais que no interior do Sol. Só que um imaginário explorador de Júpiter não teria tempo de perceber essas realidades climáticas. A imensa força gravitacional do planeta o esmagaria contra o solo, isto é, se existir solo. Pois Júpiter, abaixo da imensa atmosfera carregada de nuvens e tempestades, é um oceano de hidrogênio líquido que envolve um núcleo de hidrogênio sólido metálico. Nas proximidades de seu interior, as pressões são descomunais: cerca de 3 milhões de vezes a pressão atmosférica na superfície da Terra. Bem no centro de Júpiter-especulam os astrônomos -deve haver uma massa informe de rocha e ferro escondida embaixo do metal sólido.
Como é de esperar, a atmosfera de Júpiter também é composta principalmente de hidrogênio. Ventos de mais de 500 quilômetros por hora provocam turbulências eternas sobre a superfície. Para formar uma idéia, um tufão devastador na Terra é o resultado de ventos de mais de 90 quilômetros por hora. A chamada Mancha Vermelha do planeta, que se avista ao telescópio, é um furacão de hidrogênio de 40 mil quilômetros de extensão que rodopia há pelo menos três centenas de anos. Demora seis dias terrestres-ou dois dias e cinco horas jupiterianos-para que as massas gasosas que fazem parte da atmosfera do planeta contornem o furacão.
Da mesma forma que Júpiter, Saturno é de meteorologia instável- basicamente uma bola de gás em torno de um núcleo metálico. Ao estudar as nuvens que fazem parte de sua atmosfera, composta de hélio e hidrogênio, os cientistas descobriram ventos de até 1 400 quilômetros horários. Esses ventos, por sua vez, provocam violentas tempestades magnéticas, com relâmpagos e tudo.
Em agosto de 1981, a nave Voyager 2 descobriu uma nuvem de gases em torno do planeta, muitas vezes mais quentes que as camadas externas do Sol. A maior parte das informações sobre Júpiter e Saturno foram coletadas pelas sondas Voyager 1 e 2 , que passaram a milhares de quilômetros dos dois planetas.
Foram elas que mostraram, por exemplo, que os famosos anéis de Saturno são, na verdade, um labirinto de círculos concêntricos de fragmentos, provavelmente de gelo e rochas. A NASA pretendia que a sonda Galileu, cujo lançamento estava programado para este ano, transportasse aparelhos de medição para serem jogados de pára-quedas sobre Júpiter. A experiência foi adiada para 1995, quando se espera que a missão seja retomada, depois da interrupção do programa espacial americano devido ao desastre da Challenger.
Sobre o clima de Urano se sabe muito pouco. Nas altas camadas da atmosfera, composta por um coquetel de gases, como hidrogênio, metano, amoníaco, hélio e talvez ainda vapor de água, as temperaturas chegam a 200 graus abaixo de zero. Em janeiro de 1986, a Voyager 2 mandou para a Terra cerca de 6 mil fotografias desse terceiro maior planeta do sistema solar e sétimo em distância do Sol. A maioria delas mostra claramente seus satélites sem atmosfera, mas as imagens do próprio Urano não dizem muita coisa. Sua atmosfera, percorrida por ventos às vezes violentos, é coberta por nuvens verde-azuladas. Essa cor se explica provavelmente pelas alterações que o metano sofre em presença da radiação solar.
Aparentemente, o calor do Sol tem pouca influência sobre o clima de Urano. O planeta leva 84 anos terrestres para circular em volta do astro. Esse movimento é executado de lado, de tal forma que um dos pólos fica exposto diretamente à luz solar durante 42 anos, enquanto o outro permanece na sombra. Ou seja, o que é o equador na Terra em Urano é um pólo. Mas não existem diferenças significativas de temperatura entre as diversas regiões do planeta. No dia 25 de agosto de 1989, a sonda Voyager 2, lançada em 1977, estará enviando à Terra suas mais importantes observações sobre Netuno . O planeta está tão longe que é impossível ver qualquer coisa debaixo da camada de nuvens que o rodeia.
Tudo o que se diz de Netuno são apenas suposições. Entre 1975 e 1976, por exemplo, houve uma mudança na radiação emitida pelo planeta, captada na faixa do infravermelho do espectro de luz. Isso indica mudanças climáticas associadas à movimentacão de nuvens. Acredita-se que Netuno seja parecido com Urano, isto é, coberto por uma camada de hidrogênio e hélio. Além disso, como Urano, Netuno tem cor esverdeada, provavelmente também devido à absorção de luz vermelha pelo gás metano contido em sua atmosfera.
O mais remoto dos planetas conhecidos do sistema solar, Plutão é também o mais misterioso. Só recentemente se comprovou que possui uma atmosfera, que compartilha com o seu satélite Caronte. A temperatura máxima do planeta não vai além de cerca de 200 graus negativos. É quando os raios do Sol provocam a evaporação da neve de metano que recobre sua superfície, criando uma camada atmosférica muito fina. As moléculas de metano se aceleram a uma velocidade supersônica e atravessam a distância de 19 mil quilômetros que separa Plutão e Caronte (a distância entre a Terra e a Lua é vinte vezes maior). Isso cria a nuvem de metano que envolve os dois astros. Quando eles se afastam do Sol, em sua órbita alongada, a atmosfera volta a congelar-se, caindo como neve na superfície escura do planeta.
Em nenhum planeta existem condições climáticas confortáveis para os habitantes da Terra. O homem não suporta o calor e o frio extremos de Mercúrio, nem pode respirar o venenoso ar de Marte e Vênus, onde, além do mais, a atmosfera é muito ácida e densa. Todos os outros planetas são terrivelmente inóspitos, não só pela atmosfera mortal mas também pela incrível gravidade, no caso dos planetas gigantes, e pelo frio insuportável. Quanto mais afastado do Sol mais gelado e monótono é o clima de um planeta. Assim, mesmo quando a Voyager 2 passar perto de Netuno e Plutão, não se deve esperar que emita boletins meteorológicos espetaculares. Sob tais climas, é virtualmente impossível que haja vida em qualquer desses planetas-ao menos, vida como é conhecida aqui na Terra.

quarta-feira, 25 de agosto de 2021

Estas são as 5 luas mais estranhas do Sistema Solar

Estas são as 5 luas mais estranhas do Sistema Solar

Alguns dos astros mais fascinantes de nossa galáxia não são planetas, mas seus satélites naturais.

quinta-feira, 27 de março de 2025

James Webb faz registro inédito das auroras de Netuno

James Webb faz registro inédito das auroras de Netuno

Sinais dessas auroras foram detectados pela primeira vez em luz ultravioleta, em 1989. Agora, o telescópio registrou as luzes cintilantes no planeta em luz infravermelha.

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Quase uma Estrela - Astronomia



QUASE UMA ESTRELA - Astronomia



Como é o pequeno sistema solar formado por Júpiter e sua família de luas? 
A resposta começará a vir em 1995, quando a sonda Galileo tem um encontro marcado com o planeta.

Disse certa vez o celebrado escritor de ficção científica Isaac Asimov que, se um visitante  do espaço contemplasse a distância o sistema solar, acabaria concluindo que o "único objeto que interessa por essas bandas é aquele grande planeta, o quinto a partir do Sol. Tudo o mais são fragmentos de matéria que não merecem consideração." O imaginário observador extragalático estaria se referindo, é claro, a Júpiter, o maior planeta do sistema solar, não por acaso assim chamado em homenagem ao deus máximo da mitologia para os romanos. Calcula-se que Júpiter possui 70 cento de toda a matéria que gira em torno do Sol. É tão gigantesco que no seu interior caberiam folgadamente mais de mil Terras. Comparadas a tal gigante, até os planetas mais avantajados, como Urano, Netuno e Saturno - este, o segundo maior - não passam de anões.Não é de estranhar, portanto, que, quando foi formado junto com os outros planetas, há cerca de 4,5 bilhões de anos, Júpiter podia perfeitamente bem se transformar numa estrela. Se isso tivesse acontecido, os habitantes deste pequeno mundo chamado Terra , a cerca de 600 milhões de quilômetros de distância, passariam pela provavelmente desconfortável experiência de viver com dois sóis no céu e talvez nenhuma noite. Não seria uma novidade na Via Láctea, onde a maioria das estrelas é binária, ou seja, faz parte de sistemas duplos.Mas o Sol permaneceu solitário: Júpiter teria que acumular cinqüenta vezes mais massa para que a temperatura no seu interior desse início às reações de fusão nuclear que caracterizam uma estrela, e ele passasse a brilhar com luz própria.
Como isso não ocorreu, o planeta se tornou uma espécie de bola gigantesca de gases - hidrogênio, hélio, metano e amônia - que por motivos ainda não explicados pela Astronomia emite duas vezes mais energia do que recebe do Sol. Dotado de um sistema particular de dezesseis luas, Júpiter passou a ser um alvo importante das sondas espaciais. Quatro delas, as Pioneer 10 e 11 e as Voyager 1 e 2, mostraram imagens fantásticas da atmosfera multicolorida desse planeta, que lhe dão a aparência de um ovo de Páscoa achatado, pintado a mão. Outra sonda, a novata Galileo, lançada em 18 de outubro do ano passado, promete determinar a composição química e o estado físico da atmosfera do gigante, quando dele se aproximar em dezembro de 1995.
"As observações convencionais feitas na Terra não podem se comparar aos resultados obtidos pelas sondas espaciais" reconhece o astrônomo Jair Barroso, do Observatório Nacional, no Rio de Janeiro. "Mas ainda podem trazer alguma contribuição." Pensando assim, este astrônomo carioca, um cinqüentão calmo e meticuloso, pretende passar algumas noites em claro no fim do ano, em Brazópolis, sul de Minas, onde estão os telescópios do Laboratório Nacional de Astrofísica, para observar as órbitas dos quatro maiores satélites de Júpiter - Io, Europa, Ganimedes e Calisto. À primeira vista, a tarefa não requer muito esforço nem habilidade para quem, como ele, está acostumado a observar estrelas a milhares de anos-luz de distância.
Afinal, Júpiter é conhecido desde a Antiguidade, por ser o segundo astro mais brilhante no céu (depois de Vênus e, naturalmente, sem contar o Sol e a Lua), podendo portanto ser localizado facilmente a olho nu. Além disso, seus satélites, todos com nomes de amigos e amantes dos deuses, foram avistados por Galileu (1564-1642) há mais de trezentos anos com uma simples luneta. Mas Barroso não se limita a observar. Ele está engajado num projeto coordenado pelo astrônomo francês Jean Arnot e com a participação de pesquisadores de várias partes do mundo que usam a técnica de fotometria rápida, ou seja, a análise das variações da intensidade de luz recebida dos satélites em intervalos de milésimos de segundo. Com esse método é possível calcular a posição das luas de Júpiter com uma precisão de 100 quilômetros - menos da metade da distância do Rio a Brazópolis."Estas observações vão beneficiar a Galileo, que será a primeira sonda espacial a navegar entre todos os grandes satélites do planeta", comenta Barroso. Considerada um dos mais perfeitos equipamentos no espaço, devido à extraordinária precisão dos seus instrumentos, a Galileo - cujo nome presta homenagem ao cientista que descobriu as luas de Júpiter - deve percorrer dez órbitas em volta do planeta. Durante quase dois anos, essa maravilha de pouco mais de 1 metro de diâmetro colecionará imagens mil vezes mais próximas e com uma resolução dezenas de vezes mais nítida do que as produzidas pelas sondas que a antecederam. Seu programa inclui ainda uma acrobacia suicida. Baseado numa experiência semelhante realizada em 1978 pela sonda Pioneer 1 em Vênus, uma parte da nave deve se separar do corpo principal e mergulhar na atmosfera de Júpiter.
Construída para resistir a pressões vinte vezes maiores que as existentes na Terra, a minissonda descerá no planeta a uma estonteante velocidade de 200 mil quilômetros por hora até que a desaceleração torne possível a abertura de um pára-quedas. Antes que seja destruída, a cápsula enviará à NASA uma série de dados sobre a estrutura física da atmosfera de Júpiter. Será um dossiê e tanto. Pois, por tudo o que se sabe, Júpiter é um planeta muito peculiar. Nele não existem montanhas, vales, vulcões ou lagos subterrâneos. Apenas um vasto oceano de gás e nuvens densas. Por causa disso, sua atmosfera mais parece com repulsiva fumaça que exala do caldeirão de uma feiticeira dos velhos contos infantis de terror.
Abraçando todo o planeta, se estendem camadas e mais camadas de nuvens de centenas de quilômetros de espessura. Como na Terra, ali as correntes de ar se deslocam dos pólos para o equador a baixas altitudes e do equador para os pólos a altitudes mais elevadas. Mas pára aí a semelhança. Em Júpiter, as faixas ascendentes são brancas e provavelmente têm em sua composição cristais de amônia. As mais profundas e quentes, de cor marrom-avermelhada, podem conter cristais de fósforo, enxofre ou, não é impossível, até mesmo alguma substância orgânica. Como tudo o que se refere a Júpiter é exagerado, sua rotação também é a mais rápida do sistema solar.
O planeta tem o diâmetro onze vezes maior que o da Terra; no entanto gira em torno do seu eixo em menos da metade do tempo. "Por causa desse deslocamento rápido, as nuvens a distância parecem se mover em faixas paralelas e são cortadas intermitentemente por grandes turbilhões", comenta o astrônomo Oscar Matsuura, da Universidade de São Paulo, um estudioso da física dos planetas. Perto do equador de Júpiter avista-se, com o auxílio de telescópios, uma das mais misteriosas peculiaridades desse carrossel climático: a Grande Mancha Vermelha, conhecida desde 1610 e cuja área é quase igual à da Terra. "Nesses últimos trezentos anos, esse colossal furacão se expandiu, contraiu, escureceu, clareou, mas nunca deixou de soprar", surpreende-se o astrônomo.Justamente um dos objetivos da sonda é colocar na balança a proporção de gases existente nessa atmosfera gelada - ali a temperatura gira em torno de 150 graus negativos. "Parece que estamos participando de uma pesquisa arqueológica", entusiasma-se Matsuura. "Júpiter reteve desde a sua origem a maior parte do material de que foi composto e portanto deve ter a mesma natureza química da nebulosa que formou o sistema solar." Matsuura calcula que esse mundo de gases deve ter no centro uma massa informe de rocha e ferro. Em volta dela, numa zona onde o calor chega a 400 graus Celsius e onde a pressão é inconcebíveis 3 milhões de vezes maior que a da atmosfera da Terra, deve existir um grande oceano derretido e escuro de hidrogênio. Nessas condições, afirmam os físicos, o hidrogênio, embora líquido, se torna um condutor elétrico como qualquer metal, com a peculiaridade de não oferecer resistência à passagem de correntes, como se fosse uma cerâmica supercondutora. O que alguns planetas têm demais, em outros não existe. Na Terra, por exemplo, sonha-se com a produção em laboratório de hidrogênio supercondutor a altas temperaturas, o que levaria a uma revolução na indústria eletrônica. Em Júpiter, o hidrogênio metálico é tão abundante que dele se origina o campo magnético do planeta, que, para variar, é também o maior do sistema solar. Além disso, recebe os vapores de enxofre ionizados na atmosfera, provenientes dos vulcões em atividade do satélite Io. Quando passar por Júpiter, a Galileo vai analisar as partículas do campo magnético e medir sua densidade e carga elétrica.
Até março de 1979, data do encontro da Voyager 1 com as luas Io e Calisto, os satélites de Júpiter chamados galileanos constituíam pontos de luz ofuscados pelo brilho do planeta gigante. "Sua aparência era completamente desconhecida", lembra o astrônomo Sylvio Ferraz Mello, da Universidade de São Paulo. Há vinte anos, Ferraz Mello, então trabalhando na sua tese de doutoramento sobre a órbita desses satélites, teve que bancar o detetive para descobrir o pouco que se conhecia dos astros. Hoje já existem fotografias não só de lo e Calisto, mas também de seus semelhantes Europa e Ganimedes, tiradas pela Voyager 2 também em 1979, e ainda dos anéis muito tênues, feitos de poeira e gás, em volta do planeta. "Não é impossível que esses anéis sejam restos de corpos maiores cujas partículas estão demorando para se dissipar", especula Ferraz Mello.
Para o astrônomo, "o sistema solar não é um atlas imutável, mas um sistema em constante modificação". Os quatro grandes satélites, por exemplo, tiveram histórias geológicas e evoluções diferentes. Calisto, o mais afastado de Júpiter, ganha a distinção de ser o objeto mais esburacado do sistema solar. Suas camadas de gelo não puderam impedir as marcas do impacto de milhões de meteoritos na superfície. E, em pelo menos um lugar, o calor provocado pelo choque de um projétil grande fundiu o material da superfície cavando uma depressão de 600 metros de diâmetro parecida com os mares lunares.Ganimedes também é uma mistura de rocha e gelo parcialmente coberta de crateras. Ali, o derramamento de lavas vulcânicas limpou uma parte da superfície, deixando áreas claras e escuras, estas últimas as mais esburacadas. Europa, um globo onde o chão é coberto de pólo a pólo com o que parece uma teia de aranha, lembra a rede de canais que os terrestres mais imaginosos pensavam ter sido construída pelos hipotéticos habitantes de Marte. Europa já foi inteirinho coberto de gelo. Hoje sua carapaça possui rachaduras, espécies de janelas que permitem a passagem da luz.Nas fotos das Voyagers podem ser vistos vulcões gelados que lançam cristais de gelo e água no céu de Europa. Por isso, cientistas da Associação Americana de Geofísica formularam a ousada hipótese de que a luz, penetrando nas rachaduras, poderia assegurar a sobrevivência de microorganismos em oceanos subterrâneos do satélite, como aqueles encontrados sob o gelo perpétuo que cobre os lagos antárticos da Terra. O mais colorido de todos os satélites de Júpiter chama-se Io e tem o tamanho da Lua terrestre. Queimado de amarelo e vermelho e salpicado de pontos negros, ou vulcões, Io já foi comparado a uma pizza descomunal. O calor gerado pela enorme força gravitacional de Júpiter, do qual está muito próximo, detona explosões de enxofre e sulfeto de enxofre do seu interior. Quando isso acontece, o material jorra dos vulcões a quilômetros de altura para depois voltar sob a forma de neve sulfúrica. Io tem atmosfera - uma raridade entre os satélites do sistema solar compartilhada apenas por Titã, de Saturno, e Tritão, de Netuno - composta de uma fina camada de dióxido de enxofre. Diante de tanto enxofre, os especialistas da NASA costumam brincar que se Io fosse realmente uma pizza teria um insuportável cheiro de ovo podre.Se os quatro grandes satélites de Júpiter fossem do tamanho de uma bola de futebol, os doze menores não passariam de um grão de areia - sem falar na possibilidade de que haja outros mais ainda invisíveis. Desses pequenos astros conhecidos, quatro sobrevivem como podem no ambiente hostil muito próximo de Júpiter, expostos ao contínuo bombardeio de partículas carregadas de sua magnetosfera e de dejetos sulfurosos dos vulcões de Io.
Em órbitas mais afastadas estão quatro luas companheiras, também com diâmetro de algumas centenas de quilômetros. Tanto estas como as quatro mais distantes, que giram no sentido oposto ao da rotação do planeta, podem ser asteróides, arrancados de suas primitivas órbitas entre Marte e Júpiter por uma espécie de cabo-de-guerra gravitacional em que o planeta derrotou o Sol. A gigantesca atração gravitacional de Júpiter teria afetado até o próprio cinturão de asteróides, onde se concentram milhares de pedaços de astros "Há evidências indiretas de que ali começou a se formar um planeta que por algum motivo desconhecido não vingou", explica Ferraz Mello, da USP. "Os fragmentos foram confinados a determinadas órbitas por causa da influência de Júpiter." Quase uma estrela dotado de uma família de satélites e influenciando os astros a seu redor, Júpiter pode mesmo ser considerado um sistema solar em miniatura - se é que essa palavra pode ser aplicada a um corpo tão gigantesco. Quando a Voyager 2 passou perto dele, há mais de dez anos, foram enviadas à Terra 18 mil fotografias. Ainda hoje elas estão sendo analisadas. Resta agora esperar mais cinco anos para que a sonda Galileo, dotada de aparelhos mais modernos do que os da Voyager 2, mande mais uma batelada - não apenas de imagens bonitas, mas principalmente de informações importantes sobre o sistema solar, a origem e o processo de evolução dos nove planetas e de seu pequeno sol. 

A longa viagem da Galileo

A 18 de outubro do ano passado, foi lançado de Cabo Canaveral, na Flórida, o ônibus espacial Atlantis, levando a sonda Galileo. Começou então para a nave uma jornada de 4 bilhões de quilômetros, em cinco etapas, ao final das quais alcançará o seu destino: o planeta Júpiter. Da mesma forma que as Voyagers, suas antecessoras, a Galileo recorre aos campos gravitacionais de outros planetas para acelerar sua velocidade sem necessitar de propulsores potentes, mas também perigosos e antieconômicos - um procedimento que os técnicos da NASA apelidaram de "estilingue cósmico". A primeira escala, marcada para este mês, é o planeta Vênus, pelo qual passará a 19 mil quilômetros de distância. Em dezembro a Galileo torna a se aproximar da Terra, aproveitando para tirar fotografias da face escura da Lua. Depois de mais idas e vindas, a Galileo toma definitivamente o rumo de Júpiter em agosto de 1993. No caminho, deve fazer uma visita ao satélite Io, quatro a Calisto e Europa e cinco a Ganimedes, a distâncias de centenas a dezenas de milhares de quilômetros. É quando ela realiza suas atividades mais importantes. O corpo principal da sonda e a cápsula que dela se desprenderá, para mergulhar na atmosfera de Júpiter, são dotados de espectrômetros a fim de medir a composição e a temperatura da atmosfera jupiteriana e captar suas eventuais moléculas orgânicas. As duas partes da Galileo possuem também detectores de partículas energéticas e de plasma para medir o campo magnético e um instrumento para calcular as massas e as órbitas precisas do planeta e seus satélites. As câmaras mandarão às estações rastreadoras da NASA as imagens dos astros, sob a forma de sinais digitais, com uma resolução inferior a 1 quilômetro.Todo esse equipamento está protegido por um escudo térmico contra as altas temperaturas de Júpiter e por uma espécie de pára-sol, contra a ação dos raios solares. Quando passar perto do Sol, durante o longo trajeto até Júpiter, a Galileo vai analisar a nuvem de hidrogênio que se supõe ser de origem cometária que se vê à sua volta. Na distância em que estará da Terra, a Galileo não poderá contar com painéis solares para fornecer a energia necessárias às suas comunicações e ao funcionamento dos instrumentos científicos. A NASA optou então por instalar dois geradores de eletricidade movidos a plutônio, o material radioativo que resulta da fissão do urânio, acondicionados em cápsulas de irídio, um metal extremamente duro, capaz de resistir a uma explosão semelhante à que destruiu o ônibus espacial Challenger há quatro anos. Essa foi também a fonte de energia das Voyagers, lançadas em 1977. Mesmo assim, grupos antinucleares americanos tentaram sustar o embarque da Galileo, para impedir eventual contaminação radioativa do espaço.

domingo, 17 de janeiro de 2016

E Carl Sagan foi para o céu - Divulgação científica


E Carl Sagan foi para o céu - Divulgação científica


Na natureza, como ensinou Lavoisier lá no século XVIII, nada desaparece: tudo se transforma. Carl Edward Sagan, morto aos 62 anos, no dia 20 de dezembro de 1996, de mielodisplasia, em Seattle, nos Estados Unidos, transformou-se em conhecimento. O que ele sabia, e era muito, ensinou para milhões de semelhantes. Vivo, era uma estrela boa, de luz intensa. Morto, parece que continua assim. Vamos aqui nos permitir uma licença poética, ou melhor, científica. Vamos dizer que Sagan foi para o céu. Ele iria gostar disso.

sábado, 24 de junho de 2023

JÚPITER - Sonda da NASA registra impressionante brilho verde

JÚPITER - Sonda da NASA registra impressionante brilho verde

Segundo os cientistas, a imagem retrata um gigantesco raio que atingiu o polo norte do planeta.

terça-feira, 23 de maio de 2023

Cientistas afirmam que a Terra poderá receber mensagens extraterrestres em 2029

Cientistas afirmam que a Terra poderá receber mensagens extraterrestres em 2029

Os sinais de rádio enviados pela NASA já alcançaram sistemas estelares vizinhos e uma resposta pode estar a caminho.

terça-feira, 30 de abril de 2024

TELECOMUNICAÇÕES - Com laser, NASA envia mensagem para a Terra a uma distância de 226 milhões de km

TELECOMUNICAÇÕES - Com laser, NASA envia mensagem para a Terra a uma distância de 226 milhões de km

Feito recorde foi obtido pela sonda Psyche, lançada para explorar um "asteroide de ouro" no espaço.

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Olhos e ouvidos da Terra - Espaço


OLHOS E OUVIDOS DA TERRA - Espaço



Mais de 6 000 pessoas em 150 edifícios fazem do Laboratório de Jatopropulsão, na Califórnia, o grande centro de controle das naves que começam a desbravar o Cosmo .

Se uma nave extraterrestre viesse à Terra fazer contato direto com os seus habitantes, talvez o local mais conveniente para o pouso fossem os contrafortes das montanhas San Gabriel, 20 quilômetros ao norte de Los Angeles, na Califórnia, Estados Unidos. Ali está sediado o centro nervoso da comunicação entre o planeta e o espaço profundo - o Laboratório de Jatopropulsão, mais conhecido pela sigla JPL. Pertencente ao Instituto de Tecnologia da Califórnia, o JPL é a única instituição universitária diretamente ligada às atividades da NASA, à qual se vinculou desde a fundação, em 1958. Mas a palavra laboratório, na verdade, já não a define com toda justiça. Seria mais conveniente falar em uma cidade do espaço - onde os viajantes do cosmo, com certeza, se sentiriam em casa. Na pior das hipóteses, estariam no lugar mais adequado para, em caso de necessidade, comunicar-se com planeta natal - a exemplo do E.T. de Steven Spielberg. Pois, embora parte do complexo de nada menos de 150 edifícios do JPL abrigue alojamentos e escritórios comuns, a maioria tem um ar definitivamente extraterreno. Entre outras estruturas, existem grandes galpões para a montagem de satélites e de naves, instalações para testar instrumentos e simular condições de vôo, assim como sofisticadas salas de navegação e de comunicação espacial, a verdadeira marca registrada do Laboratório. No total, ele emprega uma formidável equipe de 3 800 engenheiros e cientistas, 560 técnicos e 2130 funcionários administrativos. O fato de estarem entre os mais qualificados profissionais do mundo não os impede de cultivar um simpático estilo informal em que se mesclam o bom humor e o entusiasmo. "Aproveitam para nos pagar pouco porque gostamos da tarefa", brinca o físico Omer Divers, chefe de uma das equipes encarregadas de analisar a colossal massa de informações recebidas do espaço. Trata-se de uma peça vital na teia de comunicações montada pelo JPL ao longo dos anos. Na extremidade mais distante dela estão as dezenas de satélites e naves automáticas atualmente em operação-os olhos e os ouvidos remotos da Terra.

A nave Voyager 1, por exemplo, poderia ser o primeiro objeto de origem humana com o qual eventuais visitantes extraterrestres talvez cruzassem, pois já se encontra a 5 bilhões de quilômetros da Terra, bem além do último planeta conhecido do sistema solar, Plutão. Como um batedor avançado da civilização. A nave poderia antecipar o contato com os alienígenas e transmitir dados pormenorizados a seu respeito. Essa é a função dos satélites e naves automáticas: equipados com instrumentos de alta sensibilidade, espionam detalhes importantes do Cosmo, próximos ou longínquos. Em seguida, remetem os seus relatórios na forma de sinais eletrônicos codificados, diretamente para as três grandes estações de escuta operadas pelo JPL.

Localizadas nos Estados Unidos, na Espanha e na Austrália, cada uma conta com uma equipe de cerca de 100 pessoas e com quatro grandes antenas de rádio medindo entre 26 e 70 metros de diâmetro. A disposição das estações em continentes diferentes é proposital. Assim, em nenhum momento se perde contato com um ponto qualquer do céu. Em última instância, o conjunto de naves, censores e antenas constitui a chamada Rede do Espaço Profundo, o coração da malha de comunicações montada pelo JPL. Totalmente informatizada, a rede começa a ser interligada por meio de um único computador, o Hipercubo, o maior do mundo em sua categoria.

Capaz de comparar informações à velocidade de 400 milhões de sinais codificados por segundo, esse gigante está sendo montado pela fusão de 128 processadores independentes, cada um deles 100 vezes mais rápido que os grandes computadores comerciais em uso. Com essa inovação, fechou-se uma épica fase da história do JPL, durante a qual uma tripulação de 200 a 400 profissionais conduziu as duas naves da categoria Voyager até a periferia do sistema solar. Naturalmente, ninguém precisou deixar a Terra, pois os pilotos movem os comandos à distância, por meio de uma bem planejada troca de sinais de rádio com as naves. As mais inteligentes sondas da era espacial, as Voyagers foram guiadas, em parte, por instruções previamente embutidas nos computadores de bordo.

Quando se aproximavam de um planeta, recorriam a instruções eletrônicas mais complexas e geralmente consultavam seus aguçados censores de direção para constatar os desvios de rota, inevitáveis numa travessia tão longa. Então, comunicavam-se com o comando do JPL e aguardavam as correções transmitidas pelas grandes antenas terrestres. Ao mesmo tempo, acionavam o arsenal de instrumentos para dar inicio à investigação dos planetas. Assim, ao longo de dezessete anos, as Voyagers visitaram sucessivamente Júpiter, Saturno, Urano, Netuno e os 56 satélites desses planetas. Nas cercanias de Saturno, situado a 1 bilhão de quilômetros, demoravam pelo menos uma hora para ouvir um comando da Terra; em Netuno, a diferença já chegava a quatro horas.

Apesar disso, demonstraram pontaria perfeita em vôos rasantes sobre os corpos celestes. Mesmo dispondo de um rádio de baixa potência, transmitiram para a Terra, entre montanhas de outras informações, cerca de 100 000 fotos de impecável nitidez. O êxito, nesse caso, foi completo, já que as Voyagers foram concebidas, montadas, testadas e pilotadas pelas diversas seções especializadas do JPL. Nem sempre é assim. Muitas vezes, o Laboratório pilota, ou mantém comunicação com sondas e satélites construídos por outras instituições. Foi o caso das sondas Pioneer 10 e 11, fabricadas pelo Ames Research Center, da NASA. No entanto, a história do JPL começou efetivamente décadas antes, com a tentativa de construir foguetes, nos idos de 1936.

A portentosa equipe atual não passava de um pequeno grupo de alunos do Instituto de Tecnologia da Califórnia liderado pelo engenheiro de origem húngara Theodore von Kármán (1881-1963). Na época, o grupo dispunha apenas de alguns barracões de madeira e parcos instrumentos. Não obstante, essa experiência pioneira se tornou o alicerce da futura indústria espacial americana. Até hoje o Laboratório cultiva a antiga vocação para a pesquisa de novos foguetes. Um exemplo é o projeto Tau: uma nave que deverá voar por volta da virada do século em direção ao espaço interestelar. Capaz de ejetar partículas atômicas eletricamente carregadas, o foguete levará essa nave a uma distância de 150 bilhões de quilômetros para investigar o que, de fato, existe no imenso vazio além dos planetas.

Depois da Segunda Guerra Mundial, o objetivo prioritário do JPL passou a ser a construção de satélites. O primeiro deles foi o Explorer 1-um projeto de emergência que vôou no dia 31 de janeiro de 1958, apenas quatro meses depois de os soviéticos lançarem o Sputnik, dando inicio à era espacial. A própria NASA nem sequer existia (seria criada em dezembro daquele mesmo ano), mas o trabalho do JPL impediu que os soviéticos ampliassem a dianteira obtida sobre os Estados Unidos com o primeiro satélite artificial. Atualmente, a instituição está ativamente empenhada em desenvolver e construir satélites para os mais diversos fins científicos e civis. Conta, para isso, com uma verba de 1 bilhão de dólares, dos quais cerca de 700 milhões são alocados pela NASA e o restante, por outras agências governamentais.

Pelo menos metade desse dinheiro é aplicado em novas pesquisas e na construção de instrumentos, informou a nos o porta-voz do JPL, Jim Wilson. "A outra metade é consumida pelos vôos e pelas tarefas de navegação e comunicação com as naves." Entre os mais recentes projetos criados pelo Laboratório, a Terra tem um lugar especial. Os novos satélites já estão executando, ou vão começar a executar em curto prazo, uma centena de tarefas relevantes, como criar mapas com precisão jamais alcançada, sondar a estrutura geológica do planeta sob os oceanos, ou medir o volume exato dos gases da atmosfera. Outros satélites estão ocupados com o controle da poluição, o planejamento mais racional das rotas aéreas e a identificação de novas fontes de energia. Além disso, o Laboratório possui uma divisão inteiramente dedicada ao aproveitamento dos instrumentos científicos na vida prática. Redesenhados, eles podem ter aplicações importantes, em particular como aparelhos médicos.
Mas as sondas interplanetárias continuam sendo o prato de resistência da casa. Um dos modelos surgidos depois das Voyagers é a Galileu, lançada no final de 1989 com a missão de estacionar por longo tempo nas órbitas próximas de Júpiter. Inteiramente projetada e construída pelo JPL, suas câmeras de TV possuem captadores eletrônicos de luz capazes de revelar detalhes de apenas 20 metros da superfície gasosa do planeta. Além disso, a sonda vai transportar uma pequena nave auxiliar construída fora do JPL, cujo destino é mergulhar sobre Júpiter para colher dados diretamente da sua atmosfera. Exemplo ainda mais ousado é o bólido Mariner Mark II, projetado para perseguir e fazer acrobacias em torno do cometa Kopff durante alguns meses. Para isso, será dotado de pequenos e ágeis propulsores e poderá ver o cometa de vários ângulos diferentes.
Uma nave desse tipo também poderia penetrar a salvo no perigoso reino dos asteróides, formado por milhões de pequenas rochas, situado entre Marte e Júpiter. Nunca observados de perto, os asteróides aparentemente se movimentam no espaço de maneira aleatória, mas podem se organizar de forma complexa. Foi o que descobriu recentemente o astrônomo Steven Ostro do JPL. Por sorte, ele pôde fotografar com precisão o asteróide denominado 1989 pb, de apenas 1600 metros de diâmetro. Ostro descobriu surpreso que não havia apenas um, mas sim dois asteróides. O 1989 pb era, na verdade, constituído por duas rochas girando uma em torno da outra, como um planeta e seu satélite em miniatura.
Novidades desse gênero revelam como ainda é frágil o conhecimento acumulado sobre o espaço e como é rico e diversificado o vasto mundo situado além da Lua. Também se compreende o entusiasmo com que os profissionais do JPL se atiram à conquista dos planetas vizinhos. Como diz o físico Omer Divers, o que gosta do que faz apesar da paga, "novos mistérios são mais divertidos do que os fatos conhecidos". 

Cortesias da era espacial

Nem só de espaço vive o JPL. Seus cientistas também estão empenhados em transformar os instrumentos ultraprecisos utilizados pelos satélites e naves espaciais em aparelhos úteis ao dia-a-dia das pessoas comuns. Os benefícios potenciais são especialmente promissores na área médica. Um detector de moléculas eletricamente carregadas, por exemplo, está sendo incumbido de investigar o organismo de pessoas submetidas a altas doses de radiação. O objetivo é procurar danos que podem levar as células ao câncer e dar o alerta com antecedência. Outro tipo de monitor, também desenvolvido originalmente de olho nas pesquisas espaciais, integra por meio de um computador as imagens do organismo humano, mais ou menos como faz com as imagens dos planetas remetidas pelas naves. Acoplado a dispositivos como o ultrasom e a tomografia, o aparelho poderá proporcionar aos médicos pormenores ainda longe de seu alcance sobre a evolução dos pacientes de aterosclerose.
Fora da área médica, procura-se integrar por computador grande número de informações sobre o clima, a fim de repassá-las rapidamente aos pilotos e controladores de vôo.
O esquema tornaria o transporte aéreo mais seguro e eficiente, porém não é fácil de implantar. Projeto mais simples é o da conversão dos captadores de energia solar em geradores comerciais de alta eficiência. Existem ainda propostas extremamente ambiciosas, como a de remontar alguns mecanismos usados no espaço na forma de robôs-operários de alta sensibilidade. Um bom robô, como se sabe, é o que consegue diferenciar entre um aperto de mão e o ato de levantar um automóvel. A meta, no caso, é superar a dificuldade dos autômatos em manipular objetos móveis e dosar corretamente sua força.

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

A dama dos anéis - Saturno - Sistema solar


A dama dos anéis - Saturno - Sistema solar

 

Uma das espaçonave terráquea que esteve em Saturno foi a Voyager 2, que passou a 38.000 quilômetros de distância do planeta, em 1981.