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quinta-feira, 19 de setembro de 2013

O ultimo escriba dos Faraós - Perfil Jean-François

O ÚLTIMO ESCRIBA DOS FARAÓS - Perfil Jean-François 



Quando percebeu que havia encontrado a chave de um mistério milenar ele quase perdeu os senados. O menino prodígio rejeitado pela mãe tinha se transformado em um mestre da lingüística e realizado a proeza que os estudiosos perseguiam desde a descoberta da Pedra de Roseta: decifrou os hieróglifos e abriu o livro da história do Egito.



Jean-François tinha um bom motivo para acordar cedo e mergulhar no trabalho com mais empenho do que o normal naquele 14 de setembro de 1822. Nada poderia perturbar a concentração do taciturno pesquisados, que aos 31 anos sofria de tosses e crises de mal-estar, aparentava 40, mas mantinha intacto o apetite devorador com o qual se dedicava a, tudo que se relacionasse ao Egito. Em especial aos tais signos impenetráveis, que fascinavam sábios de toda a Europa desde a expedição militar de Napoleão ao país dos soberanos do Vale do Nilo, 24 anos antes. Em 1799, um oficial francês de nome Bouchard encontrou na pequena cidade do delta do Nilo chamada Roseta (atual Rashid), a peça fundamental do quebra-cabeça da literatura egípcia.

A Pedra de Roseta, como ficou conhecida essa lápide de basalto preto, de 114 centímetros de altura e 72 de largura. continha um texto gravado em três escritas diferentes. Uma delas era o grego, testemunha da presença helenística que, de 323 a.C. até a vitória das tropas romanas de Otávio sobre Cleópatra em 31 a.C., dominou política e culturalmente o norte da África. Das duas restantes, uma, incompleta, era idêntica aos signos gravados nos monumentos, chamada hieroglífica. e a outra Parecia ser uma variante do egípcio utilizada pelos helenos em documentos administrativos, conhecida como demótica.

Os escritos gregos revelaram que se tratava de um decreto de 196 a.C., época de Ptolomeu V Epifano, o conturbado monarca que levou o Egito a perder seus domínios na Ásia Menor, e a conclusão foi imediata: Napoleão tinha nas mãos um documento bilíngüe - grego e egípcio - em três escritas. Era a chance que os estudiosos esperavam para poderem comparar suas tentativas de desvendar os hieróglifos com um texto em idioma conhecido. A Pedra de Roseta foi enviada ao Instituto do Egito, no Cairo. de onde fornadas de cópias partiram para a França até 1801. ano em que os ingleses se apossaram dela e a levaram para o Museu Britânico.

Assim como o físico inglês Thomas Young e o fidalgo sueco Johan David Akerblad, outros "egiptólogos" da época, Champollion já tinha observado, destrinchado, copiado, rabiscado e sonhado com todos os caracteres da pedra reveladora quando os primeiros ruídos matinais emanaram da rua Mazarine, em Paris. onde. fazia um ano, estava exilado. Impregnado de disposição, debruçou-se sobre as reproduções de baixos-relevos trazidas do Egito pelo professor de Arquitetura Jean-Nicolas Huyot.

A maioria dos documentos eram os chamados cartuchos, conjunto de signos hieroglíficos rodeados por um circulo e usados para assinalar 0 nome de um soberano. Sabia-se disso graças às pesquisas feitas no decreto de Ptolomeu. O próprio nome do soberano por exemplo, já tinha sido reconhecido por Thomas Young, embora o inglês não tenha conseguido traçar a correspondência entre esse e outros hieróglifos. Champollion também havia percebido nela uma referência à mulher do monarca egípcio, Cleópatra I.

No caso dos novos registros, porém, outros nomes chamavam a atenção do decifrador. Champollion escolheu um cartucho ao acaso. O grupo de sinais era formado por um disco, uma letra com três pernas e três pequenas espigas acima e dois sinais em forma de bengala. A cada um desses últimos fora atribuído o som de "s", pois a letra figurava no cartucho de Ptolomeu (Ptolmis). Quanto ao disco avermelhado, o francês sabia que, em capta, língua egípcia falada a partir do século III de nossa era, representava Rá, o deus Sol. Como o nome começava por Rá e terminava por "ss", bastava que a letra do meio valesse por um "m" para que Jean-François se deparasse com o grande Ramsés II (que reinou de 1304 a 1237 a.C:), o mais ilustre dos faraós no período da história egípicia conhecido como Novo império.

Segundo o sobrinho Aimé Champollion, o lingüista francês teria perdido a respiração e mesmo os sentidos quando anunciou ao seu irmão mais velho, Jacques-Joseph: "Eu domino a situação". Champollion, o Jovem - epiteto que Jean-François adotou para se distinguir do primogênito -, ainda deduziu, utilizando mais uma vez sua fluência em capta, o significado do nome legendário. Mise queria dizer "pôs no mundo". Logo, Ramsés podia ser traduzido como "Rá o pôs no mundo".

Tomado pela euforia, ele escolheu um novo cartucho. À esquerda, um íbis ave comum do norte africano. Em seguida, o signo com três pernas e espigas ao qual tinha atribuído o valor de "m". E, por fim, novamente o sinal em forma de bengala, o "s". Mas o íbis não representa outro que o deus Thot, o sábio inventor dos hieróglifos. Thot, ligado ao "m" e ao "s"? Só podia ser Thotmes. Melhor ainda: era Tutmés III (c. 1504 a 1450 a.C.), o conquistador que construiu aquele mesmo Novo Império em que Ramsés II tanto brilhou.

Champollion não apenas identificou o nome de dois célebres faraós, como conseguiu decifrar seu significado e demonstrar definitivamente sua teoria sobre os hieróglifos. Segundo 0 estudioso dessa terra onde nem sequer tinha posto os pés, tratava-se de um sistema que combinava ideogramas com signos fonéticos No caso de Ramsés, o disco simboliza uma idéia, a do deus Rá, enquanto os outros sinais correspondem a sons e letras, como no latim. Jean-Francois também estava certo de que essa escrita fora criada antes da chegada dos Ptolomeus, o que acabou confirmado pelas inscrições em monumentos anteriores aos gregos, onde foram encontrados os nomes de Amenófis, Séti e outros, escritos como ele previra. Vitória indiscutível do francês, que passou a se autodenominar, Maiamon -"o bem-amado de Amon", senhor dos deuses - em relação aos pesquisadores adversários da hipótese da escrita mista.

É um sistema complexo, ao mesmo tempo figurativo, simbólico e fonético no mesmo texto, na mesma frase e eu diria até na mesma palavra", afirmou na Gramática egípcia, elaborada nos dois últimos anos de sua vida. Champollion descobriu também que a escrita hieroglífica, intimamente ligada à estética da arquitetura, se modificava de acordo com o lugar onde era gravada. Dai a complexidade dessa literatura. Num obelisco, por exemplo, os signos são dispostos em colunas, enquanto numa parede podem estar escritos em linhas. A leitura pode ser da esquerda para a direita ou vice-versa. A direção é determinada pelos sinais que representam seres vivos: o leitor deve se colocar na posição de quem encara a face do personagem e fazer a leitura neste sentido. Além disso, como os sinais não têm o mesmo tamanho, os escribas os agrupavam de forma a não deixar vazios que prejudicassem a beleza dos monumentos.

O homem que desvendou essa intrincada charada nasceu em 23 de dezembro de 1790, em pleno tumulto revolucionário, na mirrada cidade de Figeac, no sudoeste da França. Sétimo e último filho do casal Jacques e Jeanne-Françoise, o pequeno de cabelos e olhos negros, pele cor de mate, chegou ao mundo envolto por comentários nem sempre bem-intencionados quanto à legitimidade de sua filiação. Existe até uma lenda sobre um curandeiro chamado Jacquou que, convocado para cuidar de Jeanne em janeiro de 1790, teria não só restabelecido sua saúde como profetizado o nascimento de "uma luz dos séculos futuros". Como Jacquou era analfabeto, os biógrafos do decifrador não levaram em conta a história fantástica: a frase era muito pomposa para o nível do curandeiro camponês.

O padrinho escolhido para o caçula foi o irmão mais velho, Jacques-Joseph, então com 12 anos de idade, que se incumbiu de substituir pai e mãe, praticamente ausentes na vida de Jean-François. Jacques, o pai, era vendedor ambulante de livros antes de comprar uma pequena livraria. A dedicação ao trabalho, somada a um certo gosto pela bebida, o teria distanciado da prole. Jeanne-Françoise, que não chegava a assinar seu nome, alimentava, por sua vez, uma crescente indiferença em relação ao mais moço, atitude que abastecia a maledicência alheia. A torrencial correspondência trocada entre padrinho e afilhado nas poucas ocasiões em que estiveram distantes comprova a ausência do casal - Jeanne não é jamais citada, enquanto Jacques, quando mencionado, o é sob o apelido pouco afetivo de "o patrão".

O irmão também se encarregou da educação do caçula, que aos 7 anos já dominava os rudimentos da leitura - Jean-François decorava uma série de preces e depois as comparava com os escritos de um missal. Mesmo quando foi obrigado, aos 20 anos, a partir para Grenoble para trabalhar na casa Chatel, Champollion e Rif, um pequeno comércio de propriedade de seus primos. de longe Jacques-Joseph continuou a zelar pelo Jovem. Tratou de matriculá-lo, na véspera de completar 8 anos, na escola religiosa de Figeac, reaberta após anos do Terror. Uma educação sólida, segundo o padrinho - protetor, era mais importante do que os ideais jacobinos antieclesiásticos respeitados pelos Champollion - o pai, ardente defensor da causa burguesa, chegou a se aproveitar das vendas dos chamados bens nacionais para incluir uma vinha ao patrimônio familiar.

O problema era que o pequeno não suportava o ambiente escolar. Rejeitava tudo o que envolvesse Matemática, e sua ortografia, qualificada de aventureira, era tema de constantes reprimendas. A solução foi, pouco tempo depois, transferir a responsabilidade da educação do menino rebelde para um vigário de nome Calmels, ex-professor de JacquesJoseph. Calmels iniciou o pupilo em disciplinas mais bem vindas: Botânica, Geologia, Astronomia, Latim e Grego.

Nada. porém. foi mais festejado que a noticia de sua volta para a companhia do irmão, em Grenoble. Jean-François passou a estudar no reputado colégio do abade Dussert, onde se aventurou pela primeira vez no hebreu, no sírio e no aramaico,a língua falada por Cristo. Aos 14 anos, já matriculado em um dos liceus criados por Bonaparte - ou "a prisão". como ele o descrevia -, nos poucos momentos que escapava à autoridade acadêmica o Jovem se deliciava com uma gramática chinesa, a gramática árabe de Thomas van Erpe. o Corão, uma gramática etíope´ Jacques-Joseph previa um futuro brilhante para o amante da Antiguidade.

Por isto. não mediu esforços para que a Escola de Línguas Orientais, de Paris, recebesse o menino que, com apenas 17 anos, dominava, além do grego e do latim, seis idiomas orientais. Mas a mudança para a cidade que definiu como "a suja capital da França" não foi bem-sucedida. Acostumado à calma da província, Jean-François não se conformava com as longas caminhadas da Escola de Línguas até a Biblioteca Imperial, onde trabalhava copiando e recopiando papiros e manuscritos.

Champollion estava infeliz na capital. primeira paixão, Louise Deschamps, era casada. A vida austera que levava naquela cidade dificultava ainda mais as coisas. O irmão, empregado da Biblioteca de Grenoble, não ganhava para patrocinar regalias ao Protegido: não tinha roupas dignas para freqüentar os cursos e os atrasos no pagamento da pensão que o acolhia se tornaram cada vez mais freqüentes. A única alegria eram os estudos. Principalmente do capta. "Quero falar esta língua como falo francês", escreveu ao irmão.

Nessa época, apesar da pouca idade, o caçula dos Champollion já era membro correspondente da Sociedade de Ciências e Artes de Grenoble, por conta da elogiadíssima tese Tentativa de descrição geográfica do Egito antes da conquista de Cambises (em 525 a.C., os persas, comandados por Cambises II, invadiram o país das pirâmides). Não foi difícil, portanto, para que Jacques-Joseph conseguisse sua nomeação como professor adjunto de História Antiga da Faculdade de Letras de Grenoble. Depois de um ano e meio, Jean-François estava de volta ao lar. E, mais do que nunca,  fascinado pelo Egito.

Mas a história da França se retorcia naquele começo de século. Napoleão, exilado pela primeira vez na Ilha de Elba. retornou em 7 de março de 1814. Escolheu Grenoble como porta de entrada e foi acolhido triunfalmente por toda a comunidade, sobretudo pelos Champollion. Grave deslize dos irmãos - prodígio, que pagaram com um ano de exílio em Figeac, quando, 100 dias depois, Bonaparte foi l definitivamente condenado ao isolamento da  Ilha de Santa Helena. No intervalo de quatro anos entre o primeiro e o segundo exílio dos figeacos,em 1821 - causado mais uma vez por suas posições políticas. opostos à restauração da dinastia dos Luíses -, Jean-François se casou com Rosine, por quem não nutria mais que uma sincera afeição, mãe de sua única filha, Zoraide.

Foi durante seu refúgio em Paris que Jean-François passou a ser Maiamon, quando, num dia de outono, apresentou se ao grande Ramsés, ao soberano Tutmés e tantos outros, condenados até então ao silêncio. A descoberta foi imortalizada na Carta a M. Dacier, então secretário perpétuo da Academia Real de Inscrições e Belas Letras. Nela, o lingüista revelou os mistérios de uma das mais antigas escritas que se conhecem, nascida 3 000 anos antes da era cristã. Além das explicações teóricas, estabeleceu todo o alfabeto dos sinais fonéticos, chave para a leitura da escrita dita monumental, pois ornava tais obras. O rival Thomas Young acabou por renunciar ao Egito. "Champollion avançou tanto que nada mais posso fazer", confessou. A Maiamon ao contrário. faltava tempo para todos os projetos.

Incumbiu-se de comprar a coleção Salt, de antiguidades egípcias, à venda em Florença, foi nomeado conservador da divisão que a abrigou no Museu do Louvre, cultivou uma paixão frustrada por uma intelectual italiana e, sobretudo, organizou sua primeira e única expedição arqueológica à terra dos faraós. Jean-François era impulsivo, algo arrogante, mas infeliz no amor. Talvez por este motivo, segundo os biógrafos, aos 38 anos, quando enfim embarcou para atravessia do Mediterrâneo, sua saúde já estivesse abalada por uma doença que nunca se soube exatamente qual era. De qualquer forma, foram dezessete meses de descobertas maravilhosas e de uma identificação total com o país. "Parece que nasci aqui", costumava dizer. "O Egito foi percorrido passo a passo - estive em toda parte onde o tempo deixou subsistir algum resto do esplendor antigo", escreveu ao barão La Bouillerie.

"Recolhi trabalho para uma vida inteira", confessou a outro amigo. Dois anos, no entanto, lhe foram concedidos. Maiamon morreu em 4 de março de 1832, enquanto uma epidemia de cólera invadia a capital francesa. Mas conseguiu, pouco antes do fim, completar a Gramática e pedir ao irmão para ser enterrado no cemitério de Père-Lachaise, em
Paris. "O escriba foi consumido por sua extenuante conquista papirácea", comentou o não menos notório e grandiloqüente romancista Honoré de Balzac dias depois. 


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