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terça-feira, 30 de outubro de 2012

Pompéia Eletrônica- Informática


POMPÉIA ELETRÔNICA - Informática



A partir de ruínas, programas de computação reconstituem, rua por rua, casa por casa, a antiga cidade sepultada pelo Vesúvio.

O turista passeia pelas ruas luminosas da cidade italiana de Pompéia, 24 quilômetros ao sul de Nápoles. Quase sempre, encontra jardins bem cuidados, decorados com chafarizes. De repente, uma casa chama-lhe a atenção por suas colunas imponentes ou pelos afrescos multicoloridos. O desejo de entrar é irresistível e, sem hesitar, o viajante começa a perambular pelos cômodos repletos de utensílios antigos bem conservados e peças de inestimável valor artístico. Até há três meses, uma situação como essa só poderia acontecer na fantasia de um forasteiro imaginoso: afinal, ali só existem as ruínas da cidade destruída no dia 24 de agosto de 79 d.C. pela mais furiosa erupção do Vulcão Vesúvio. No entanto, o passeio foi real, ainda que se trate de uma realidade eletrônica.
De fato, vinte computadores interligados permitiram aos visitantes de uma recente exposição em Nova York conhecer a paisagem e a vida cotidiana do célebre lugar, antes da catástrofe. O evento, chamado Redescobrindo Pompéia, prova que, além de tudo que os homens já os mandam fazer, os computadores podem desempenhar o papel de túnel do tempo. Foi uma operação de truz. Durante dois anos, 22 técnicos em Informática e 120 arqueólogos trabalharam lado a lado no projeto Consortium Neapolis, patrocinado pelo Ministério da Cultura da Itália e por duas empresas - a Fiat e a IBM, que desenvolveu os computadores.
"A Informática ajuda a contar a história de Pompéia ao público, que assim passa a valorizar mais esse patrimônio", resumiu Ennio Presutti, presidente da IBM italiana, em entrevista a nos. "Ademais, todo o trabalho está agora à disposição dos arqueólogos". Nunca havia se compilado um número tão grande de informações sobre Pompéia, onde as primeiras escavações ocorreram 1748. Os cientistas alimentaram a memória dos computadores com mais de 300 000 dados. O primeiro passo foi analisar toda a área queimada pelo Vesúvio, que depositou 5 metros de cinza não apenas sobre Pompéia, mas também na cidade vizinha, a aristocrática Herculano, exumada pelos arqueólogos em 1719.

Em seguida, desenhou-se o mais completo mapa de Pompéia, a partir de fotografias, desenhos, anotações de cientistas e, obviamente, estudos sobre o assunto. Com o mapa devidamente traçado na tela do computador, os técnicos passaram então a se concentrar nas habitações: onde na vida real existe apenas uma parede quebrada, a máquina faz aparecer na tela um edifício em perfeito estado, resultado de complexos cálculos matemáticos, capazes de deduzir qual seria o projeto de arquitetura original. "A Informática se transformou em grande aliada para se entender o passado", reconhece o arqueólogo Norberto Luiz Guaranello da Universidade de São Paulo. Realmente, no mundo inteiro, cada dia mais arqueólogos trabalham em salas, repletas de computadores.

Para Guaranello, que há oito anos se dedica às escavações de Pompéia, nada melhor do que usar o  computador  para centralizar as descobertas dos cientistas. "O registro de qualquer observação feita em Pompéia, por mais simples que pareça, é fundamental", nota o arqueólogo. "A cidade está desprotegida a céu aberto: algo que pode ser visto hoje talvez não seja encontrado na mesma situação no dia seguinte." De qualquer modo, os visitantes da exposição nova-iorquina, ao atravessarem um longo corredor revestido de lava, lama e cinzas-simulando a camada que escondeu as ruínas por dezesseis séculos-, tinham a impressão de que o tempo parou nos primeiros anos da era cristã.

Na entrada, um computador programado por pesquisadores italianos do Grupo Nacional de Vulcanologia mostrava a evolução do Vesúvio, de hora em hora, nos dois dias que durou a tragédia. Em outro equipamento estava a planta da cidade, funcionando como uma espécie de guia: um simples toque em seu teclado era suficiente para localizar separadamente, por exemplo, as padarias, os palácios ou os templos. Ou, ainda, selecionar verdadeiras atrações conforme o estilo arquitetônico ou sua função. Conseguindo localizar os pontos de interesse no mapa, o visitante devia escolher por qual quarteirão gostaria de caminhar -na verdade, a decisão implicaria acionar computadores diferentes, um para cada região. Depois, bastava apontar na tela a rua desejada, um edifício e, até mesmo, no interior deste, um objeto qualquer.

Assim, ao entrar no templo conhecido como Casa dos Ritos Mágicos, podia-se ver sob todos os ângulos, como se estivesse sendo manipulada à vontade, uma mão de bronze. O computador é capaz de se comportar como um bom cicerone, fornecendo informações extras: aquela mão, por exemplo, costumava ser usada em cultos típicos da Ásia Menor, cuja influência religiosa sobre os habitantes de Pompéia era notável. Da mesma maneira, o computador informa quais os alimentos preferidos pelos antigos romanos ao apresentar a imagem de um vasilhame ou de uma magnífica peça de bronze, sempre presente nas mesas dos banquetes para conservar o calor da comida.

Os cientistas reuniram 200 objetos, escavados recentemente; ao computador coube a tarefa de colar cacos, projetar os pedaços ausentes, pintar as áreas descascadas ou descoloridas pelo tempo. O trabalho se estendeu às pinturas e afrescos, o que pôde ser notado nas famosas termas estabianas, onde os antigos habitantes aproveitavam os momentos de lazer, e no chafariz decorado com mosaicos-foi, aliás, a primeira vez que se viu um dos chafarizes de Pompéia, que, por isso mesmo, mereceu um lugar de honra, na saída da exposição. Os computadores conseguiram mesmo tornar legíveis papiros carbonizados. Programados para detectar a menor diferença no tom de uma imagem, destacaram os riscos de tinta escondidos sob a cor do carvão.

Esse tipo de programa, na verdade tem como principal objetivo ajudar a tarefa dos restauradores. A equipe italiana reconstruiu, por exemplo, um quarto com paredes revestidas por afrescos. "Uma espécie de palheta eletrônica com 64 000 tonalidades permitiu que testássemos no vídeo diversos tons de pigmento para cobrir as partes destruídas e completar o desenho", conta o arqueólogo Baldassare Conticelli, atual supervisor das ruínas de Pompéia. A restauração fica perfeita, pois o equipamento descobre qual era exatamente a tonalidade original. Isso, porém, não é o mais importante, lembra Conticelli: "Antes da Informática, os restauradores testavam os materiais diretamente em peças delicadas, que muitas vezes não suportavam as sessões de experimentação".

Expedições ao computador

A Informática e a Arqueologia ensaiaram os primeiros passos em sincronia ainda no final da década de 70, em centros de pesquisa europeus dedicados à Pré-História. Mas a idéia, na época, era usar o computador apenas como um tremendo arquivo, para guardar os relatos das expedições arqueológicas. Dez anos mais tarde, contudo, estava claro que nenhum cientista era capaz de relacionar dados, fazer cálculos e criar mapas tão depressa quanto a máquina. Os computadores, por exemplo, têm sido usados sistematicamente para orientar escavações na Garganta de Olduvai, no oeste da Tanzânia, África, onde foram achados restos dos mais antigos ancestrais da espécie humana.

O grande salto, no entanto, foi o avanço dos chamados computadores gráficos, capazes de desenhar plantas de cidades desaparecidas como Pompéia e até de projetar a restauração de ruínas. Atualmente, o recurso é aproveitado por cientistas da Universidade de Paris que trabalham com ruínas de pirâmides em Saara, no Egito. Eles pretendem recuperar a Cidade dos Mortos dos antigos egípcios com a tecnologia de Informática criada para realizar modernos projetos de urbanização-uma aventura que nem mesmo o cineasta americano Steven Spielberg ousou imaginar para seu arqueólogo Indiana Jones.

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Árvores da Vida - Botânica


ÁRVORES DA VIDA - Botânica



Em geral, enxerga-se a floresta, raramente as árvores que a compõem. Mas alguns belos e históricos exemplares que sobrevivem em vários países, remanescentes de tempos mais felizes, mostram que elas também têm identidade.

A vida sem elas é impossível, um dia sem vê-las é assustador. Dão sombra, ar fresco e beleza a qualquer paisagem. Nada representa melhor a natureza que essas majestosas soberanas do reino vegetal-as árvores. De fato, assim como o homem é o organismo mais complexo e evoluído do reino animal, as árvores simbolizam o máximo da evolução vegetal. Se não podem andar como os animais, em compensação podem fabricar o próprio alimento. É o conhecido processo da fotossíntese, pelo qual transformam energia solar, gás carbônico e água em substancias nutritivas e oxigênio. Graças a essa capacidade, as plantas não dependem dos animais para sobreviver. Na verdade, são a fonte básica da cadeia alimentar dos seres vivos. Foi o surgimento dos vegetais, sintetizadores de oxigênio, que tornou possível a vida animal.

Mas, se as árvores são responsáveis pela preservação do homem, este nem sempre se preocupa em cuidar de suas protetoras. Raízes, troncos, folhas, flores e frutos têm sido indistintamente transformados em alimento, madeira, papel e medicamentos. Nesse processo, esqueceu- se o valor da árvore viva, que só começou a ser resgatado nos anos recentes, com a eclosão dos movimentos em defesa da natureza. No entanto, por motivos variados, certos exemplares conquistaram a simpatia humana e mereceram uma atenção que, em geral, não é dada a florestas inteiras. Por exemplo, o grande cipreste mexicano da aldeia de Tula, com 42 metros de diâmetro, ou a velha figueira de 22 metros de altura da Rua Haddock Lobo, no Jardim América, em São Paulo. "Essa atitude é prova de que o homem não é só destruidor", opina o engenheiro agrônomo Antonio Luiz Gonçalves, do Instituto de Botânica de São Paulo. "É também o único animal que preserva a vida dos mais fracos."

Tal esforço, porém, nem sempre é bem-visto por alguns pesquisadores. Eles argumentam que esse tipo de preservação tem muito pouco valor em termos científicos, pois os exemplares, na maioria das vezes, são figuras decadentes que representam mal a forma da espécie. As variedades de árvores que hoje vivem e se multiplicam no planeta são as que conseguiram sobreviver às sucessivas mudanças das condições naturais ao longo dos quase 400 milhões de anos transcorridos desde o aparecimento dessas formas vegetais de vida. "A natureza é uma fotografia do momento e as árvores preservadas servem como documento histórico de milhões de anos de evolução", justifica Gonçalves. A primeira grande alteração climática a devastar as primitivas florestas ocorreu há cerca de 300 milhões de anos, quando a temperatura da Terra caiu e o ar ressecou, transformando ricas vegetações nos atuais depósitos de carvão mineral. Nessa época, os vegetais se reproduziam exclusivamente por esporos (células reprodutivas), constituindo o antigo embrião das árvores-os chamados fetos arbóreos do grupo das pteridófitas, que se tornaram o protótipo das árvores. "São as samambaias arbóreas, um primeiro ensaio tão bem-sucedido que permanece até nossos dias", explica o engenheiro agrônomo. Depois, há 200 milhões de anos, surgiram as gimnospermas, capazes de se reproduzir por meio de sementes. Nesse grupo estão as araucárias, os pinheiros e os ciprestes, entre outros. Árvores floridas, com sementes dentro de frutos, vieram a formar, há menos de 100 milhões de anos, o terceiro e último grupo, o das angiospermas, que constituem a maior parte das árvores existentes.

As angiospermas se dividem em duas classes: as mais complexas são as monocotiledôneas, que incluem palmeiras, bananeiras, bambus e dracenas; e as dicotiledôneas, mais numerosas, que incluem carvalhos, ipês e jequitibás. Todas essas classificações podem parecer simples passatempos de botânicos excêntricos pois, afinal não é difícil reconhecer uma árvore quando se está diante de uma. Entretanto, estudos mais profundos demonstram que a estrutura anatômica de certas árvores não se diferencia muito de alguns arbustos, trepadeiras ou ervas. Assim, a partir do estudo das relações evolutivas e genéticas, o conceito de árvore passou a se associar a uma planta que renova seu crescimento a cada ano, sustenta-se com um caule simples recoberto por tecidos mortos, ditos suberificados e, na maioria das espécies, produz ramos secundários, mais conhecidos como galhos. Para crescer, as pontas dos galhos e das raízes possuem os chamados tecidos meristemáticos, compostos por células que se dividem.

O crescimento na largura é causado por outros meristemas entre a madeira e a casca. Em coníferas (árvores em forma de cone) e dicotiledôneas é fácil observar os anéis concêntricos do caule, que indicam suas idades. Desse modo, as raízes se estendem menos ou mais profundamente pelo solo, captando água e nutrientes (a seiva bruta) e por efeito, evitando a erosão. O tronco e os galhos funcionam como vasos sangüíneos, levando a seiva do solo às folhas, as quais agem como uma espécie de célula solar, que capta a luz do sol para a fotossíntese. O processo pelo qual a seiva sobe até as folhas, sem contar com uma bomba eficiente como o coração dos animais, é uma das proezas evolutivas desses vegetais. Devido à propriedade que as moléculas de água têm de ficar fortemente unidas, elas formam uma grande corrente até o topo da árvore. Assim, à medida que uma molécula evapora na superfície da folha, outra é empurrada para o seu lugar. A grande maioria das espécies de árvores faz parte da vegetação de lugares com índices de chuva ao redor de 700 milímetros por ano. Algumas espécies, como os juazeiros do Nordeste brasileiro, estão adaptadas a climas semidesérticos, mas é nas regiões tropicais, com grande quantidade de chuva, que elas aparecem em grande variedade e abundância. "Com o calor, as reações químicas se aceleram, o que permitiu o surgimento de plantas mais evoluídas, no caso as monocotiledôneas", ensina o engenheiro agrônomo Gonçalves.

Por essa razão, o Brasil apresenta uma das floras mais ricas do mundo, com muitas árvores belas e valiosas. Perobas, cerejeiras, mognos, imbúias, cedros e jacarandás, entre outras, são alguns exemplos de árvores com madeira de boa qualidade para uso nobre, isto é, para a fabricação de móveis finos. "Não admira sermos o único país do mundo com nome de árvore", lembra ele. De fato, os colonizadores portugueses chamaram sua colônia de Brasil em referência à estranha árvore de miolo cor de brasa (daí o nome pau-brasil) encontrada por aqui. Já os indígenas a denominavam Pindorama que, no idioma tupi, quer dizer "terra das palmeiras", plantas que embora pertençam a outro grupo botânico, têm o porte de árvore.

A presença das árvores na cultura dos vários povos é sinal de reverência a esses impressionantes vegetais. Não há livro sagrado que não se refira a um símbolo inspirado nelas. Da árvore genealógica hebraica, à qual pertence Jesus Cristo, até as folhas de palmeira e oliveira que celebraram a passagem do Messias por Jerusalém, a Bíblia está cheia delas. Antes, os gregos já cultuavam em sua mitologia as figuras dos sátiros e das ninfas, os espíritos das árvores. Os antigos sacerdotes druidas (no velho idioma céltico, "aqueles que conhecem o segredo do carvalho"), que habitaram a região da Inglaterra há 23 séculos, também cultuavam a floresta, oferecendo-lhe sacrifícios humanos. Não é preciso ser tão radical hoje em dia para defender a natureza, mas seria o caso de pelo menos aprender com os druidas que a boa árvore é a árvore viva.


Eficiência em duas rodas - Tecnologia


EFICIÊNCIA EM DUAS RODAS - Tecnologia



Graças à moderna indústria, a bicicleta é cada vez mais leve, resistente e veloz. Uma brilhante vitória para a máquina que melhor uso faz da energia humana.

Depois de pedalar 90 horas, 43 minutos e 20 segundos, o americano Gregory LeMond venceu este ano, pela terceira vez, o Tour de France, uma das maiores provas ciclísticas do gênero. Realizada há 86 anos no mês de julho, a competição costuma reunir cerca de duas centenas de esportistas de todo o mundo para percorrer 3 420 quilômetros divididos em 23 etapas, das planícies aos íngremes Alpes franceses. Ganha quem tiver o menor tempo acumulado na soma de todas as fases. Para LeMond, foi uma questão realmente pessoal. No ano passado, sua vitória apenas 8 segundos à frente do favorito, o francês Laurent Fignon, estabeleceu um recorde às avessas: foi a menor diferença de tempo entre os dois primeiros classificados registrada nessa modalidade de corrida. Na verdade, a pequena vantagem deixou margem a que os especialistas do ciclismo atribuíssem o êxito do americano não a seu esforço individual, mas à utilização de um novo aparato, destinado a aumentar a aerodinâmica de sua bicicleta.
Trata-se de uma extensão em forma de U, presa ao guidão, a qual permite ao ciclista apoiar o cotovelo sem sair da posição que proporciona o melhor rendimento das pedaladas. A uma velocidade de 40 quilômetros por hora, LeMond foi ganhando de seu adversário francês até 2 segundos por quilômetro rodado - um desempenho tão notável que levou o derrotado Fignon a adotar o dispositivo em outras provas. Em pé de igualdade este ano, os ciclistas repetiram o duelo e o americano pôde comprovar sua superioridade sem nenhuma margem de dúvida: foram longos 2 minutos e 16 segundos de vantagem sobre o segundo colocado, desta vez o italiano Claudio Chiapucci. Com sua nova vitória na clássica prova, LeMond demonstrou como somar homem e tecnologia - uma combinação que por sinal deve caracterizar a maioria dos esportes no próximo século. Como bem mostra o ciclismo, a luta pelo tempo hoje em dia é travada não só pelos competidores, mas por toda a equipe, que tem de desenvolver equipamentos cada vez melhores e mais eficientes.
Tarefa difícil, pois a bicicleta, desde sua origem, tem sido a mais eficiente máquina já criada para converter energia humana em propulsão. Apenas irrisório 1% da energia transmitida das pernas à roda traseira se perde, o que torna possível ao ciclista manter facilmente a marcha entre 16 e 19 quilômetros por hora, isto é, quase quatro vezes a velocidade do caminhar. Não é por outra razão que o formato desses veículos pouco mudou desde a virada do século, quando uma série de aperfeiçoamentos levou ao ferro-velho nostálgicas engenhocas, elos perdidos na história da evolução das bicicletas. Há exatamente 200 anos, no mesmo cenário em que LeMond cruzava a linha de chegada, o conde de Sivrac apresentava o celerípedo, um biciclo de madeira sem direção, propelido pelo impulso dos pés contra o chão, considerado hoje o precursor da bicicleta.
Depois, foram incorporados a direção, invento do barão Karl de Drais em 1818; os pedais, que o francês Ernest Michaux acoplou em 1861 à roda dianteira; a transmissão por corrente, algo que embora criado séculos antes por Leonardo da Vinci (1452-1519) só foi aplicado às bicicletas em 1879; e, por último, em 1888, os pneumáticos do inglês John Boyd Dunlop (1840-1921). Em 1984 mais um nome se juntaria a essa distinta confraria. Decidido a quebrar o recorde de velocidade contra o relógio, o ciclista italiano Francesco Moser, em vez de lançar-se a cansativos treinamentos, foi antes buscar apoio nas últimas novidades tecnológicas. A partir do estudo de suas características físicas pessoais, ele desenvolveu no computador uma bicicleta totalmente diferenciada, com quadro inclinado, guidão especial e rodas carenadas. Sobre ela, tornou-se o primeiro homem a superar a barreira dos 50 quilômetros em uma hora de pedaladas.
Até hoje, seu recorde de exatos 51,151 quilômetros no velódromo da Cidade do México ainda não foi batido, mas suas inovações já se tornaram comuns ou até mesmo obsoletas nos modelos de corrida. As rodas carenadas ou lenticulares (com o centro do aro fechado), por exemplo, uma idéia que parece datar do século passado, não haviam sido aceitas antes por ciclistas ou engenheiros. Moser demonstrou que as rodas podem ter melhor impulsão se passarem a assumir o comportamento de uma estrutura maciça, deformando-se bem menos que os vários raios finos dos modelos convencionais e cortando o ar com mais facilidade.
Seu único inconveniente para as provas fora dos velódromos-a resistência que oferecem às rajadas de ventos laterais, capazes de desequilibrar o ciclista-foi superado este ano. A empresa americana Specialized Bicycle Components criou uma nova roda com três aros grossos, feitos de material especial, mais leve e resistente, composto de uma mistura de fibras de carbono, resina epóxi, Kevlare alumínio. Desenvolvida num dos sessenta computadores CRAY existentes no mundo, sua aerodinâmica perfeita pode representar uma valiosa economia de 10 minutos numa corrida de 160 quilômetros.
Roupas colantes de menor atrito com o ar, óculos protetores envolventes e pêlos das pernas raspados: tudo é válido para conseguir melhor aerodinâmica e ganhar alguns segundos de vantagem. O polêmico guidão Scott, como é conhecido o aparato usado por LeMond, é um resumo desse esforço. O nome é uma homenagem ao ciclista americano Scott Allen, o primeiro a utilizá-lo em 1987 nas provas de triatlon, dura modalidade esportiva em que o atleta corre um trecho a pé, nada outro tanto e pedala um terceiro. Mas foi outro americano, o esquiador e ciclista Boone Lennon, quem descobriu, em recentes pesquisas no túnel de vento, que os esquiadores conseguiam um avanço maior quando diminuíam sua largura, e não altura, como se pensava até então. Assim, ao jogar os braços para a frente e apoiar os cotovelos, os ciclistas, imitando os esquiadores, diminuem sua largura sobre a bicicleta em importantes 8 centímetros. A altura, embora menos decisiva, também baixa 15 centímetros.
Além disso, o esportista adota uma posição mais relaxada, podendo respirar com maior liberdade. Antes, ele se apoiava em três pontos: a pélvis, as mãos e os pés. Mas, com esse guidão, se apóia também nos cotovelos, descansando os músculos do tronco e obtendo melhor oxigenação ao respirar. Reduzir o atrito com o ar, entretanto, não é o único caminho para melhorar o desempenho. Outro recurso é diminuir o peso da máquina, adotando novos materiais, sempre mais leves e resistentes. Dessa maneira, o peso total baixou de cerca de 12 quilos numa bicicleta comum de dez marchas para menos de 8 num modelo especial de competição.
O quadro, que compõe a estrutura básica, é a peça mais pesada e também a que mais quilos perdeu nos últimos tempos. No ano passado, o ciclista australiano Phil Anderson competiu com LeMond sobre um quadro feito de uma liga com 91% de magnésio fundido, que bate o alumínio, até então a última palavra no assunto, em leveza, resistência e custo. Na realidade, boa parte das ligas de alumínio demonstrou ser bastante frágil, apresentando algumas desvantagens. Os tubos não agüentam solda e precisam ser rosqueados e colados num processo delicado, desenvolvido pela indústria aeroespacial. Submetidos ao esforço do pedalar, os quadros tendem a se dobrar mais, quebrando-se também com maior facilidade. Já o quadro de magnésio, embora igualmente frágil, é mais resistente devido ao seu processo de construção. Com o magnésio extraído de 1 metro cúbico de água do mar, os engenheiros fazem tubos mais grossos, fundidos num molde único, o que dispensa as pesadas juntas, onde geralmente a estrutura se rompe. Os tradicionais tubos de aço, por sua vez, engrossados nos pontos onde se concentram os maiores esforços e unidos entre si por conexões soldadas, surgiram no começo do século e ainda são usados nas bicicletas comuns. Mas, desde a década de 30, misturaram-se a novos componentes metálicos, como o molibdênio, o manganês e o cromo.
Aerodinâmica perfeita e peso reduzido se juntam ainda a um último recurso na busca por velocidade-aumentar a eficiência dos componentes. E um dos sistemas que mais têm evoluído é o mecanismo de transmissão de marchas. De fato, graças à popularidade crescente das bicicletas desenhadas para rodar em qualquer terreno, que exigem muito mais das marchas, todo o sistema evoluiu bastante nos últimos cinco anos. É a chamada linha de montanha, off road (fora de estrada, em inglês) ou allterrain byke (ATB), bicicleta para todo terreno, que já representa mais da metade de todas as novas bicicletas vendidas no mundo.
Andando por entre pântanos ou montanhas, os competidores dessa modalidade de ciclismo precisam contar com quadros mais robustos, pneus mais largos e principalmente um número maior de marchas, capazes de serem mudadas com suavidade e precisão. O moderno sistema de marchas descarrilhantes, criado pelo ciclista italiano Tulio Campagnolo em 1930, era já um aperfeiçoamento que reduzia a velha preocupação em não pular as marchas ou danificar o mecanismo. Consiste em um braço na roda traseira, que move a corrente sobre um conjunto de até sete rodas dentadas de tamanhos diferentes, variando assim a intensidade da força transmitida à roda. Outro braço perto do pedal move a corrente sobre duas ou três rodas dentadas mais largas, duplicando o número de marchas possíveis para catorze ou 21. A mudança de marchas, porém, ainda tinha de ser regulada de ouvido, de acordo com o som da corrente.
O avanço definitivo só veio há quatro anos, quando a fábrica japonesa Shimano criou para as ATBs o sistema indexado, que substitui o descarrilhamento contínuo por pequenos saltos precisos. O mecanismo funciona com dentes menores, que atuam como ponto de entrada para a passagem da corrente. Este ano, foi adaptado para as rodas dentadas do eixo do pedal. As rodas passaram a ser ovais e os dentes localizam-se nos pontos onde a pressão do pedalar é menor, garantindo melhor rendimento. Além disso, a precisão alcançada permite espremer até oito rodas dentadas no eixo traseiro, o que se traduz em um total de dezesseis marchas. As inovações da Shimano não terminam aí. A última novidade, disponível até agora só para grandes equipes de corrida, é uma manopla de freio que também controla a mudança de marchas, permitindo ao ciclista realizar as duas operações sem tirar o apoio do guidão. Para frear, basta apertar a manopla normalmente; para utilizar o câmbio, deve girá-la.
A nova manopla é conectada também a um novo sistema de freios. Em vez de um, dois braços de borracha reduzem o giro das rodas, com uma intensidade 30% maior. Cabos hidráulicos reduzem o espaço a ser percorrido entre seu acionamento e a parada da bicicleta, possibilitando aos atletas retardar as freadas nas descidas, quando chegam a mais de 100 quilômetros por hora. Os pedais, como o sistema de marchas, também mudaram radicalmente nos últimos cinco anos. Cada pedalada tem sua eficiência duplicada quando se prende os pés aos pedais, como já sabiam os atletas do começo do século, pois deste modo se aproveita também o movimento dos pés para cima. Mas essa pode ser uma medida perigosa, porque não se consegue soltar os pés com rapidez em caso de acidente e, durante o esforço, as presilhas podem prender demais, impedindo a circulação do sangue nos pés.
Foi só em 1985 que o engenheiro francês Michel Beyl, da companhia Look, resolveu o problema. Ele criou um pedal que se encaixa numa plataforma fixada na sola de um sapato especial. Um movimento lateral do pé solta-o do pedal, mas como esse movimento não ocorre no pedalar normal, a plataforma serve de presilha. Recentemente, Beyl aperfeiçoou o invento de forma a permitir um leve giro dos pés, sem soltá-los dos pedais. A vantagem do chamado pedal Time é que esse giro reduz o risco de lesões nos tendões do joelho. O engenho, porém, foi superado em 1988 pelo pedal da empresa americana Aerolite, seguro e simples. Trata-se de um eixo cilíndrico que se conecta ao sapato por uma série de dentes, uma estrutura muito parecida com certas peças das asas de aviões.

Ao que parece, não há limites para os avanços tecnológicos das bicicletas de corrida. É provável que boa parte dessas inovações nunca se torne suficientemente barata para ser incorporada às bicicletas comuns, embora alguns desses aparatos já comecem a chegar ao mercado nacional de ATBs. De qualquer modo, toda novidade beneficia o consumidor. "Como acontece com os carros de Fórmula 1, o aperfeiçoamento das bicicletas de corrida ajuda os fabricantes a produzir melhores modelos para o público", compara o uruguaio naturalizado brasileiro Juan José Timon.

Ex-ciclista profissional técnico da equipe de atletas da Caloi e da Confederação Brasileira de Ciclismo há quase duas décadas, ele lembra com orgulho os muitos vencedores que já treinou: do paulista Jair Braga, campeão pan-americano em 1985, ao paranaense Mauro Ribeiro, campeão mundial de ciclismo na Itália em 1982. Segundo Timon, embora existam poucos patrocinadores no país, o Brasil ostenta mais títulos conquistados que muitos países onde esse esporte tem maior tradição. Ele cita alguns números que ajudam a entender o aparente paradoxo: "A Caloi, que investe no esporte há mais de noventa anos, gasta cerca de 3 000 dólares por ano na manutenção de bicicletas de 1 800 dólares, conduzidas por atletas treinados ao longo de pelo menos cinco anos." 


Quebra-nervos - Costumes


QUEBRA-NERVOS - Costumes



O passatempo de juntar pedaços de imagens até formar uma cena completa chega à loucura nos diabólicos jogos criados por um ex-projetista de computadores.

No curso da revolução que derrubou o xá do Irã em 1979, seguidores do líder islâmico aiatolá Khomeini invadiram a embaixada dos Estados Unidos em Teerã, em protesto contra a ida do deposto Reza Pahlevi a Nova York. Além de fazer uma centena de reféns entre os funcionários diplomáticos americanos, os militantes mergulharam num trabalho capaz de quebrar a paciência do mais fiel xiita: juntar, uma a uma, as finas tiras de papel a que haviam sido reduzidos centenas de documentos da embaixada, fatiados pouco antes nos shreders, máquinas de destruir papel. O tormento a que se submeteram os iranianos para achar provas que incriminassem os Estados Unidos ficou famoso - mas não se iguala àquele que milhares de americanos vêm sofrendo também voluntariamente, desde 1974, quando um pequeno anúncio na revista New Yorker informava que um certo Steve Richardson, da pacata cidade de Nowich, Estado de Vermont, começara a fabricar requintados instrumentos de tortura. Richardson, um ex-projetista de computadores, de 51 anos, é um homem que os americanos amam odiar, pela exasperação e angústia que ele lhes inflige com seus perversos quebra-cabeças em madeira, arte na qual é um dos maiores mestres mundiais. Depois de enfrentar crueldades típicas, como peças extras que não se encaixam em lugar algum, falsos contornos, espaços vazios entre os encaixes e muitas outras, uma furiosa cliente disparou-lhe um telex sintetizando o sentimento que as pessoas em geral experimentam ao tentar montar um de seus puzzles:  "Aaaaaaargh". Não é à toa que os jogos vêm acompanhados de um brinde irônico e apropriado-um vidro de aspirina. 

Dono da Stave Puzzles, empresa cujo rol de compradores inclui nomes cintilantes para os americanos, como Du Pont e Roosevelt, e, do outro lado do Atlântico, a senhora Elizabeth Alexandra Mary, mais conhecida como Sua Majestade, a rainha da Inglaterra, Richardson não esconde sua mais diabólica intenção: "Criar um quebra-cabeça que seja possível montar, mas que ninguém consiga fazê-lo". Essa loucura tem preço-e costuma ser bem salgado, para o gênero. No ano passado, a empresa entrou para o Livro Guinness dos recordes pela venda do quebra-cabeça mais caro do mundo: um modelo exclusivo, de 2 640 peças, no valor de 7 355 dólares, algo como 650 000 cruzeiros ao câmbio paralelo de meados de julho último. É o que o autor chama "Rolls-Royce dos quebra-cabeças". Qualquer masoquista abonado pode encomendar um jogo exclusivo, com ilustrações especialmente desenhadas por artistas contratados e peças no formato desejado, incluindo iniciais do nome, datas comemorativas ou seja lá o que se imagine. Richardson, que toma o cuidado de jamais fornecer uma imagem do quebra-cabeça completo, lembra, a propósito, a peculiar encomenda com que um texano queria presentear a namorada. "À medida que ela ia colocando as peças, aparecia a figura de uma noiva e a pergunta em letra de fôrma: "Quer casar comigo?" Deu certo, pois ela disse sim."

Foi uma encomenda como essa, por sinal, que fez Richardson mudar de carreira. Formado em Matemática e com mestrado em Ciência da Computação, ele tinha um bom emprego no Estado de Nova Jersey, quando resolveu mudar-se com a família para Vermont em busca de uma vida mais calma. A pequena empresa para a qual foi trabalhar, entretanto, logo fechou as portas e ele acabou abrindo sua própria firma- a Stave, uma composição de seu primeiro nome com o do sócio Dave Tibbets. "Stave também quer dizer quebrar em pedaços", explica. No começo, especializaram-se em brinquedos sob encomenda e quebra-cabeças de papelão, além de jogos interativos. Em associação com a Liga Profissional de Futebol Americano, chegaram a desenvolver um jogo com o qual é possível brincar enquanto se assiste a uma partida pela televisão. Mas, um dia, um homem ligou.

"Ele disse que tinha visto nosso anúncio nas páginas amarelas e queria um quebra-cabeça para o aniversário da mulher. Pagava 300 dólares, mas tinha que ser de madeira", recorda Richardson. Para quem vendia produtos de papelão por 3 dólares, a encomenda era um desafio tentador. Nos meses seguintes ele, Tibbets e o sogro estudaram métodos de carpintaria, cortando margens precisas sem danificar a madeira nem a figura e encontrando a exata espessura de madeira compensada que não empenaria com o tempo ou depois de cortada em pedaços pequenos. O resultado foi uma série de desenhos de obras de arte, cuidadosamente colados e recortados numa chapa de compensado de cinco camadas, das quais a de baixo é uma cara variedade de mogno africano. Hoje, com Tibbets fora do negócio, Steve e sua mulher, Martha, responsável pela parte financeira da empresa, controlam doze cortadores e detêm uma técnica própria.

Um processo secreto de corte com trinta etapas, aliado ao caráter manual do trabalho, que utiliza uma serra elétrica de lâmina mais fina que um fio de cabelo, transforma cada quebra-cabeça numa obra única-e mais difícil de ser montada. A primeira geração de produtos da Stave ainda tinha resquícios de compaixão pelos clientes, mas a natureza impiedosa de seus quebra-cabeças logo apareceria. A segunda geração nasceu com ilustrações especialmente criadas para terem os contornos recortados, de modo a dificultar sua localização. Novas e belas armadilhas, então, vieram se acrescentar: as silhuetas, peças com o formato de uma figura humana ou de um objeto; as grandes silhuetas, formadas pela união de várias peças; as silhuetas interativas, talvez um touro e um matador conectados juntos; falsos cantos no interior e ao redor do quebra-cabeça e até uma charada dentro do jogo. Se a pessoa montar as peças, descobrirá uma seqüência de certas silhuetas e assim poderá desvendar a charada. Se fizer isso em 24 horas depois da compra, receberá um prêmio. "Adoro ouvir seus gritos de agonia enquanto você se sacrifica diante de nossas belas pecinhas de madeira", escreve Richardson nas embalagens dos jogos.

Atualmente, passados dezesseis anos da invenção do primeiro suplício, suas vítimas estão entregues aos horrores da terceira geração. Desta vez, mesmo quem finalmente encaixar as peças e formar uma figura pode, ainda assim, estar montando tudo errado. Além disso, algumas peças devem ser viradas do avesso para serem encaixadas. No desenho de um pinheiro, por exemplo, é preciso virar certas peças com a base escura para cima a fim de compor o tronco da árvore. O mais elaborado projeto em desenvolvimento na Stave é a Dollhouse village (Vila das casas de bonecas), com silhuetas em escala para se ajustarem nas salas das casas e lojas que aparecem na ilustração. Ao preço de 5 000 dólares (440 000 cruzeiros), o complicado quebra-cabeça alivia o sofrimento das pessoas com um livreto de histórias sobre famílias que moram nessa típica vila do século XIX

Às vezes, a perversidade vai longe demais. Five easy pieces (Cinco pedaços fáceis), lançado para comemorar o 1° de abril, o dia dos tolos, tinha sempre uma peça que não se encaixava, fosse como fosse montado o jogo. Muitos clientes não acharam a brincadeira engraçada e Richardson foi obrigado a comprar de volta todos os trinta exemplares fabricados. Na maior parte dos casos, porém, os fanáticos montadores de quebra-cabeças estão sempre prontos a novos desafios, como provam as muitas cartas que o inventor recebe. Um aficionado, por exemplo, costuma escrever que os quebra-cabeças são bobos demais para tomar o tempo de um homem inteligente Richardson responde que o remetente é que é bobo demais para montar um deles. Para Tizuko Morchida Kishimoto, responsável pela brinquedoteca, um acervo de brinquedos mantido na Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, essa reação ao desafio dos quebra-cabeças não chega a espantar.

"As pessoas sempre gostam de fazer algo de que se julgam capazes", explica a educadora. "Quando fracassam, costumam reagir de duas formas: ou sentem ainda mais vontade de vencer o desafio, no caso, montar o quebra- cabeça, ou se frustram tanto que acabam desistindo. O jogo, portanto, não pode ser nem impossível de montar, porque só causaria frustração, nem fácil demais, porque não proporcionaria o prazer da conquista." Segundo o americano Mel Andringa, professor de Arte na Universidade de Iowa e apaixonado por puzzles, "o segredo desse passatempo é que o jogador está sempre progredindo em direção a um final feliz. Raras situações na vida conduzem a um resultado tão perfeito".

Na verdade, o prazer de transformar o caos em ordem sobre um tabuleiro vem conquistando, há mais de dois séculos, pessoas de todo tipo. É o que conta o livro Jigsaw puzzles: an illustrated history  (Quebra-cabeças: uma história ilustrada), lançado este ano nos Estados Unidos por Anne D. Williams, professora de Economia em Lewiston, no Maine. Na casa em que vive com sua gata Emily, ela guarda mais de 2 000 quebra-cabeças, incluindo algumas jóias como um exemplar de chocolate e outro com peças tão pequenas que vem acompanhado de pinças. Mas o exemplar mais valioso é um mapa da Europa montado numa placa de mogno, com as fronteiras recortadas.

Trata-se de um dos mais antigos quebra-cabeças conhecidos, feito em 1766 pelo gráfico inglês John Spilsbury, a fim de facilitar o ensino de Geografia para crianças. De fato, a maioria dos quebra-cabeças antigos representavam mapas e outros motivos considerados educativos, como imagens dos profetas do Velho Testamento. Saía-se melhor quem melhor conhecesse a Bíblia. A princípio, as peças não se prendiam entre si; um vento mais forte podia arruinar o trabalho de um dia inteiro. Surgiram, então, alguns modelos com encaixes entre as peças da borda. Por volta de 1840, todas as peças dos quebra-cabeças franceses e alemães eram já interconectadas.
O maior desafio dos artesãos sempre foi, como no caso de Richardson, encontrar a matéria-prima mais adequada. No século XVIII, os quebra-cabeças eram feitos de madeiras duras, que quebravam facilmente e não se prestavam a cortes complicados. Gradualmente, os fabricantes mudaram para o pinho e outras madeiras menos duras, até que, já neste século, pouco antes da Primeira Guerra Mundial, começou-se a usar o compensado, mais leve e resistente. Na mesma época, entretanto, grandes indústrias também começaram a fazer jogos de papelão, muito mais baratos. Assim, durante a Grande Depressão americana dos anos 30, essa versão foi muito procurada. Toda semana se podia comprar nas bancas um novo quebra-cabeça de 300 peças de papelão por 25 centavos de dólar; muitas bibliotecas passaram a alugá-los. Nessa época, cerca de 2 milhões desses jogos eram vendidos semanalmente.

Uma das mais tradicionais fabricantes daqueles anos de ouro-para o quebra- cabeça, bem entendido-foi a Par Company, fundada em 1933 por dois desempregados nova-iorquinos. Os quebra-cabeças de madeira compensada fabricados por John Henriques e Frank Ware viriam a ser os preferidos dos astros preferidos pelos americanos, como Gary Cooper (1901-1961) e Marilyn Monroe (1926-1962). Certa vez um diplomata ajudou os artesãos a importar madeira só para que completassem o jogo que ele Ihes havia encomendado. A fabricação era cuidadosa: usavam lâminas especiais alemãs da espessura de 0,2 milímetro, contrataram químicos para inventar colas melhores e personalizaram seus jogos com peças no formato das iniciais dos clientes ou de silhuetas especiais. Sua marca registrada era um cavalo-marinho.

Muito do estilo de Richardson vem da arte da dupla Henriques & Ware. Eles já cortavam peças que pareciam margens (mas não eram) e bordas que, mesmo encaixadas corretamente, deixavam um espaço vazio, fazendo o jogador pensar que estava errado. As embalagens tampouco davam muita chance para se adivinhar o motivo impresso, apresentando apenas um título deliberadamente obscuro. Um cavaleiro de armadura recebeu, por exemplo, o título de "garoto em lata". Mas, quando se trata de dificultar a vida do cliente, Richardson sabe ser original, como no caso de um quebra-cabeça com a imagem de um Papai Noel, que vem com três peças extras, as quais não se encaixam em lugar algum-são os clássicos ho, ho, ho da risonha figura. Em outros, as peças se tangenciam mas não se ajustam, dependendo de uma terceira para isso. O jogo A clowder of cats (Uma cambada de gatos) só foi montado inteiro por dois dos quarenta compradores.

Uma preciosidade é Denzel the dragon (Denzel, o dragão), cujas 500 peças, que ou se sobrepõem em camadas ou se encaixam em pé, representam um dragão assediando o castelo da princesa. Preço: 2 000 dólares (176 000 cruzeiros). Há cerca de um ano, porém, parecia não haver mais artimanhas invencíveis para Richardson. Os clientes, sempre desafiando-o a criar algo insolúvel, estavam vencendo. Então, ao brincar com a areia na praia, conta ele, veio a inspiração. Começou a nascer assim a mais recente geração de quebra-nervos, cujas perfídias o autor prefere manter em segredo até que o lote esteja pronto. Com certeza, os fãs ficarão ainda mais danados da vida. Ou seja, serão clientes satisfeitos.

Quebrando cabeças brasileiras

Existem quebra-cabeças de madeira feitos um a um, como os de Richardson, e existem os fabricados em série, geralmente de papelão. Mas, para Márcio Hegenberg, diretor de marketing da fábrica de brinquedos Grow, em São Bernardo do Campo, a escala industrial de produção desses últimos jogos não Ihes tira a originalidade. Segundo ele, o verdadeiro fã de quebra-cabeças dificilmente monta uma imagem mais de uma vez. Não obstante, como o recorte das peças tende a ser o mesmo em todos os jogos, existem aficionados que preferem misturá-los para tornar o passatempo mais interessante. Num jogo comum de 1 000 unidades, podem ser encontrados entre trinta e quarenta formatos diferentes de peças. Todo ano, doze novos títulos chegam às lojas e meio milhão de jogos são vendidos no país. O maior deles, com 5 000 peças, lançado em 1986, compõe o quadro A ronda noturna, do pintor holandês Rembrandt.
Os primeiros quebra-cabeças feitos no Brasil eram de madeira, obra de alguns poucos artesãos talentosos. Há cerca de três décadas, surgiram os exemplares de papelão e poucas peças, destinados às crianças. No início, os grandes quebra-cabeças vinham com tabuleiro de papelão e cola especial importada. "Quando a pessoa acabava de montar as peças sobre o tabuleiro era só passar a cola por cima. Ela prendia e ao mesmo tempo envernizava o conjunto", descreve Márcio, que prevê a volta desses acessórios. Graças a uma nova tecnologia, que permite o corte de peças grandes de madeira pelo sistema de facas utilizado para o papelão (no qual as facas têm o formato das peças), há dois anos a madeira voltou aos quebra-cabeças nacionais em jogos mais curáveis e bonitos para crianças.

Sakharov - dos Átomos aos homens


SAKHAROV - DOS ÁTOMOS AOS HOMENS



O cientista soviético que encarnou a consciência moral de seu país, na defesa dos direitos humanos, foi também um mestre da Física. Ele antecipou em um quarto de século as mais avançadas teorias sobre a matéria e o Universo.

A coragem política e a integridade do físico soviético Andrei Sakharov, falecido no fim do ano passado fizeram dele o campeão da luta pelos direitos humanos em seu país. A tenacidade com que resistiu a toda sorte de provações, como os sete anos de confinamento numa cidade proibida a estrangeiros, a 400 quilômetros de Moscou, ajudou a transformá-lo numa das mais respeitadas autoridades morais do mundo contemporâneo. Paradoxalmente, o renome do ativista e pensador ainda hoje impede que se enxergue o gênio científico, à altura dos maiores criadores do século. Seu feito mais divulgado foi o de ter resolvido um formidável problema de ordem prática - projetar a bomba de hidrogênio soviética. Mas as páginas menos conhecidas da obra de Sakharov incluem investigações de grande originalidade, relacionadas com a origem da matéria e do Universo.

Formuladas inicialmente há 25 anos, suas idéias acabaram antecipando teorias as mais avançadas, como as que se propõem a unificar as forças fundamentais da natureza-o Santo Graal das pesquisas de ponta em Física. Além disso, foi o precursor dos reatores de fusão nuclear. Sua primeira proeza teórica foi explicar, em 1966, por que não existem estrelas e planetas de antimatéria. Uma espécie de antípoda dos átomos comuns, a antimatéria já era produzida com certa facilidade nos laboratórios - por que então não se podia encontrá-la na natureza? Sakharov sugeriu que, num passado remotíssimo, matéria e antimatéria se aniquilaram mutuamente na que terá sido a maior hecatombe da história universal. A antimatéria foi consumida por completo desaparecendo do Cosmo. Restou um espantoso, embora ínfimo, resíduo de matéria comum, equivalente a 0,5 bilionésimo da massa original do Universo. Todas as galáxias, estrelas e planetas existentes, sustentou Sakharov, teriam sido recicladas a partir desse resíduo primordial. Mas e esse misterioso resíduo, por que sobreviveu? Porque, antes do holocausto cósmico, respondeu o físico, matéria e antimatéria sofreram a ação de um processo que os cientistas não haviam concebido-a desintegração dos prótons, com a diferença de que os prótons de antimatéria se desintegravam um nada mais depressa do que os de matéria. Resultado: em dado instante da gênese do Universo, pressupôs Sakharov a partir de cálculos de apropriada complexidade, para cada bilhão 3 de antiprótons havia um bilhão e um; próton. Hoje, os físicos estão convencidos de que as coisas realmente se passaram assim. Um dos motivos pelos quais esse trabalho de gigante permaneceu à sombra foram as muitas atribulações da vida do cientista.

Desde o nascimento, em 1921, quatro anos depois do terremoto da Revolução comunista, Sakharov cresceu numa cidade, Moscou, onde se respirava uma atmosfera de constante agitação, com todas as tragédias e as esperanças que tais acontecimentos suscitam. Filho de uma bem-sucedida família kulturny, como dizem os russos de pessoas que apreciam a cultura, passou a infância, em clima de relativa tranqüilidade para a época e recebeu uma sólida formação básica. Aos 4 anos, já tentava ler por conta própria, mas só foi freqüentar a escola aos 12. Aprendia em casa com a ajuda do pai, Dimitri, professor de Física e autor de livros didáticos e de divulgação científica, e da mãe, Ekaterina, professora universitária de Ginástica.

O jovem Andrei lia-lia muito. Desde Os três mosqueteiros, de Alexandre Dumas, a Fausto, de Goethe e a Hamlet, de Shakespeare. Mas gostava especialmente da ficção científica de Júlio Verne, da qual diria mais tarde tratar-se de "um tributo ao engenho humano e ao poder da ciência". Esses anos felizes desabaram com a Segunda Guerra Mundial. Recém-formado, já casado (com a química Klava Vikhereva) e pai de Tânia, sua primeira filha-o casal teve outra menina e um menino-, sofreu com a fome que devastava o país invadido em 1941. Não tinha sequer residência certa: os bombardeios alemães haviam destruído a casa onde ainda vivia com os pais. A própria Universidade de Moscou, onde obtivera o diploma de físico em 1942, teve de ser evacuada e transferida para Ashkhabad, capital da desértica, remota República Turcomana, na Ásia Central.

A carreira de Sakharov começaria bem longe dos meios acadêmicos. Seus talentos seriam aproveitados (escassamente) numa metalúrgica militar em Ulianovsk, às margens do Rio Volga, a quase 1000 quilômetros de Moscou. "Trabalhávamos em dois turnos de onze horas diárias, sete dias por semana", conta Sakharov em suas memórias, publicadas há poucos meses. Embora tivesse formalmente as funções de engenheiro, nos primeiros meses o físico exerceu uma variedade de tarefas, desde lenhador a chefe de turma na linha de produção. Mesmo assim, sonhava com altas Matemáticas. Enquanto picava repolho, por exemplo, imaginava uma lei capaz de dar conta da forma das fatias cortadas. À noite, sacrificava o pouco tempo de descanso para estudar Física teórica. Querendo exercitar o espírito  inventivo naquelas duras condições, acabou criando quatro novos aparelhos destinados a aprimorar o controle de qualidade na metalúrgica.

Alto, magro, sempre curvado, o que o fazia parecer mais velho, sabia ser educado e paciente apesar das ásperas circunstâncias. Dessa experiência provavelmente reteve um hábito "que me ajudava a pensar", como explicaria: lavar a própria louça depois das refeições, algo que, na radicalmente machista sociedade soviética, ainda é tarefa exclusiva de mulher, mesmo que ela ostente mais títulos acadêmicos que o marido. Passado algum tempo, Sakharov recebeu uma tarefa mais adequada às suas aptidões: pesquisador no laboratório da fábrica. Ali conheceu a mulher com quem voltaria casado a Moscou em 1944. Mas só começou a melhorar de vida cerca de dois anos mais tarde, quando conseguiu um lugar no Instituto de Física da Academia de Ciências, uma das importantes instituições soviéticas de pesquisa. Ali, há trinta anos, antes de qualquer outro país, começou-se a investigar o laser.

Sakharov pôde, finalmente, estabelecer residência e dedicar-se a estudos de alto nível. Ainda estava dando os primeiros passos nesse novo patamar quando o físico Igor Tamm (Prêmio Nobel em 1958 por sua teoria sobre um novo tipo de radiação, descoberta, por sinal, na URSS) convidou-o a trabalhar no projeto da bomba de hidrogênio. À medida que se ampliava a guerra fria entre Estados Unidos e União Soviética, Washington e Moscou aceleravam as pesquisas com armas nucleares. Quatro anos depois das bombas A que os americanos lançaram sobre o Japão em 1945, os soviéticos testaram com êxito um artefato semelhante. Mas o alvo das duas superpotências era já mais ambicioso: a bomba H.

A corrida armamentista acabou sendo decisiva para a trajetória de Sakharov-primeiro, como cientista, depois, como dissidente. Ele passou quase vinte anos praticamente confinado numa instalação secreta, embora próxima da capital, muitas vezes isolado da própria família. Sua tarefa era digna dos cérebros mais bem dotados: decifrar os enigmas da fusão termonuclear, a fonte de energia das estrelas-e também das bombas de hidrogênio. Ele estava, portanto, junto do primeiríssimo time científico da URSS, no qual se destacavam pesquisadores como o astrofísico Iacov Zeldovich.

Milhares de vezes mais violenta, a fusão é o oposto da fusão, cujo domínio tornou possível tanto a bomba A como as usinas nucleares para a produção de eletricidade. Nestas, quebram-se átomos pesados, como os de urânio, para aproveitar a energia que os mantinha unidos. Durante a fusão, ocorre o contrário: dois átomos leves, como os de hidrogênio, são comprimidos até seus núcleos se fundirem num só. O processo é mais violento porque os átomos resistem à fusão e, quando cedem, libertam vastas quantidades de energia.

Sabe-se pouco do projeto da bomba H soviética. Mas tem-se como certo que a chave para o seu funcionamento foi uma descoberta de Sakharov, ainda em 1948, até hoje mantida em segredo. Segundo ele mesmo relataria, sem entrar em detalhes, em poucos dias "a misteriosa fonte de energia das estrelas estava ao alcance das minhas mãos". Seu papel crucial na operação foi atestado pelas congratulações especiais que recebeu do governo soviético no mesmo dia em que a bomba explodiu, 12 de agosto de 1953. (A primeira bomba H americana havia sido detonada em novembro de 1952.) Alguns meses depois, com a idade de 32 anos, tornou-se o mais jovem membro do Olimpo intelectual do país-a Academia de Ciências da União Soviética. Nem esta, nem outras honrarias, porém, perturbaram seu modo de ser. Continuou a vestir-se modestamente e até o fim da vida habitou em Moscou um pequeno apartamento de dois quartos, um dos quais usava como escritório. O governo deu-lhe de presente uma dacha (casa de campo) e pagou-lhe altos salários. No fim dos anos 60, seu saldo bancário equivalia a 150 000 dólares-uma fortuna, para a época e para o país. Doou tudo a instituições de pesquisa e tratamento de câncer em seguida à morte prematura da mulher, com menos de 50 anos, vítima da doença.

Havia enfrentado a tarefa de fazer a bomba com o genuíno entusiasmo de um cientista diante dos desafios da natureza. Não era para menos. A física das explosões nucleares era vista então, como um paraíso para os teóricos. Ela Ihes permitiria, pela primeira vez, equacionar o comportamento da matéria quando sua temperatura alcança milhões de graus centígrados. Além da bomba, os fenômenos nesse campo levariam também aos primeiros reatores de fusão. Eldorado das fontes de energia do futuro, essas máquinas, seguras e limpas, consumiriam o combustível mais abundante do planeta-a água. Todos os três modelos em desenvolvimento no mundo foram sugeridos em primeiro lugar por Sakharov, no início dos anos 50. O problema desses projetos consiste em forçar os átomos a se unir. Nas estrelas, o próprio peso das camadas externas esmaga a matéria subjacente até ocorrer a fusão. Como alternativa, o cientista inventou uma espécie de torniquete magnético de nome tokamak (sigla em russo de "câmara magnética toroidal" ). A idéia básica do físico era privar os átomos dos seus elétrons para torná-los suscetíveis à ação de grandes ímãs. Estes poderiam então confiná- los num espaço cada vez mais apertado de modo a obrigar seus núcleos à fusão.

O tokamak dominou largamente as pesquisas na áreas em muitos países. A Universidade de São Paulo, por exemplo, tem um desses equipamentos. Mas os dois outros sistemas imaginados por Sakharov também se difundiram amplamente nos últimos anos. Um deles lança mão de raios laser para comprimir os átomos. O outro emprega a fusão a frio, mas é diferente das propostas que têm provocado intensa polêmica-e muitos narizes torcidos-nesse campo: sugere substituir os elétrons dos átomos por uma partícula semelhante, porém mais exótica e mais pesada, chamada múon. Em combinação com o trítio e o deutério, átomos semelhante aos do hidrogênio, o múon forma um átomo 200 vezes menor que os originais. Dessa maneira, aproxima os núcleos atômicos e tende a propiciar a fusão sem necessidade de pressões e temperaturas elevadas. Esse trabalho revelou o empenho de Sakharov em desviar a energia nuclear das aplicações puramente militares. O cientista preocupara-se desde o início com os resíduos tóxicos das bombas-a poeira radioativa que deixava à superfície do planeta um persistente legado de morte. Cedo ou tarde, segundo as suas contas, 10 000 pessoas morreriam em decorrência de uma explosão de um artefato de 1 megaton, equivalente a 1 milhão de toneladas de dinamite. Como o poder total das bombas detonadas até 1957 já alcançava 50 megatons, 500 000 pessoas estavam seriamente ameaçadas. Moscou alardeava a possibilidade de construir bombas de 100 megatons cada e Washington certamente não ficaria atrás. Obstinadamente. como seria a marca de seu comportamento nos embates futuros. Sakharov enfrentou de peito aberto a resistência dos próprios pares e dos dirigentes soviéticos, convencidos de que só uma nítida superioridade nuclear dissuadiria os americanos de atacar a URSS. Menos testes e sempre subterrâneos-eis a palavra de ordem do cientista.

Cada vez mais atritado com o Kremlin, deixou de trabalhar com os militares e voltou ao Instituto de Física, em 1965. Logo em seguida à morte da mulher, em 1968, ligou-se à médica de origem judaica Elena Bonner, uma experiente ativista em favor dos direitos civis. A despeito da viagem sem volta que tinha começado a empreender ao território da política, Sakharov aprofundou sem cessar a investigação do mundo físico. Havia iniciado pela fusão, que se passa no interior dos núcleos atômicos, em espaços da ordem de 1 quadrilionésimo de milímetro. Mais tarde, pesquisou a desintegração do próton, que ocorre numa escala um bilhão de vezes menor que a do núcleo atômico-algo que se pode expressar em fórmulas, mas está definitivamente fora do alcance da compreensão humana e, na natureza, só poderia ser observado na explosão primordial que deu origem ao Universo.

A partir de 1975, passou a perseguir um objetivo ainda mais ambicioso: reescrever as equações de Einstein sobre a gravitação. Sakharov sugeriu serem elas conseqüência dos pressupostos da Física Quântica-uma idéia que traumatizaria o velho Einstein, para quem, como se sabe, a gravitação era o fenômeno fundamental do comportamento da matéria. A empreitada de Sakharov se assemelhou ao esforço teórico do físico inglês Stephen Hawking em relação aos buracos negros-ambos radicados na fronteira mais avançada do conhecimento humano sobre o Universo. As elocubrações de Sakharov prometiam resultados cada vez mais estimulantes. Mas ele não teve tempo de alcançar esse objetivo que a outros poderia parecer tão inacessível a ponto de fazê-los arrepiar carreira a meio caminho. Aos 68 anos, foi impedido de avançar: o coração o matou durante o sono na noite de 14 dezembro de 1989.

O que mais surpreende no percurso político de Andrei Dimitrievich Sakharov não é a transformação do criador da bomba H soviética, portador da condecoração de Herói do Trabalho Socialista, em inimigo do regime. O que chama a atenção são os longos anos durante os quais, mesmo sem ter sido membro do Partido Comunista, ele deu o melhor de si ao sistema que viria a abominar. "Eu estava a par dos crimes horríveis que se cometeram", admitiria. Três tios e um primo do cientista morreram, em circunstâncias diversas, enquanto estavam presos por alegados delitos políticos. Apesar de tudo, como reconheceria honestamente, "eu me dava por satisfeito absorvendo a ideologia comunista sem questioná-la". Um ano antes de ser convidado a participar do projeto da bomba, a KGB, a polícia secreta soviética, quis que sua mulher espionasse o que ele fazia. Tendo ela se recusado, o casal foi expulso do apartamento onde morava.

Tais partículas de terror policial não diminuíram porém o entusiasmo com que aceitou a empreitada. Sakharov era movido na época por vastas emoções e pensamentos imperfeitos: a oportunidade de escalar o Everest da nova Física atômica, a convicção de que as armas termonucleares iriam assegurar a paz no mundo, o orgulho nacionalista de estar engajado num combate científico com os Estados Unidos-em suma, a mentalidade típica da guerra fria, a que tampouco estiveram imunes muitos cientistas americanos. Talvez por isso guardasse para si fosse lá o que Ihe pudessem provocar os fatos da vida na URSS daqueles anos de stalinismo, desde a obrigação de submeter à censura prévia artigos para publicações científicas até algo incomparavelmente pior-os trabalhos forçados.

Com efeito, a "Instalação", o conjunto secreto de laboratórios, campos de provas e alojamentos onde trabalharia dezoito anos na pesquisa de armas nucleares, tinha sido construída por presos de um campo vizinho. "Todas as manhãs, longas colunas cinzentas de homens vestindo jaquetas forradas, cães de guarda nos calcanhares, passavam por nossas janelas", conta em suas memórias. Não obstante, quando Stálin morreu, em 1953, Sakharov escreveu à mulher: "Estou sob o impacto da morte de um grande homem. Penso na sua humanidade". O cientista iria se envergonhar dessas palavras, porém jamais conseguiria explicá-las satisfatoriamente a si mesmo. As primeiras sementes de descontentamento foram plantadas por seus conhecimentos científicos sobre os efeitos da radioatividade e pela consciência moral que o problema Ihe despertava. Cada vez mais contrário aos testes atômicos na atmosfera, suas opiniões levaram-no a um curso de colisão com o governo soviético. Em 1961, por exemplo, ouviu do líder Nikita Kruschev, numa solenidade, que estava "enfiando o nariz onde não devia". Desde então, embora nada Ihe sucedesse pessoalmente, sua distância do regime só faria aumentar-dessa vez por outros motivos. De um lado, sob Leonid Brejnev, o Kremlin voltou a tratar com dureza os intelectuais dissidentes. De outro, o cientista passara a encarar o mundo com novos olhos.

O resultado foi o manifesto Reflexões sobre o progresso, a coexistência pacífica e a liberdade intelectual, escrito nos primeiros meses de 1968. Logo publicado no exterior, o texto faria Sakharov famoso internacionalmente e representaria o penúltimo passo da caminhada rumo à ruptura com o sistema. Nele, condenou a intolerância e o dogmatismo, advogou a democracia e o pluralismo político. O documento não poderia ter sido mais pertinente: a 21 de agosto daquele ano, tropas soviéticas entraram em Praga para depor o governo que tentava implantar na Checoslováquia o "socialismo de face humana". Era o que faltava para Sakharov, definitivamente desiludido, voltar-se plenamente à causa dos direitos humanos -e pagar caro por isso.

A passagem do campo da reflexão política para a ação em defesa dos perseguidos do regime foi franqueada também por seu convívio com a militante Elena Bonner, com quem se casaria em 1972. As pressões sobre o cientista-ativista cresceriam na mesma medida de seu engajamento. Em 1975, contemplado com o Prêmio Nobel da Paz, proibiram-no de ir a Oslo, na Noruega, para receber a honraria, entregue afinal a Elena. O pior, no entanto, estava por vir: a invasão do Afeganistão em fins de 1979, inaugurou o mais sofrido período de sua vida, que incluiria até duas greves de fome. Despojado de seus títulos, Sakharov foi confinado em 1980 na cidade de Górki. Ali ficou até a antevéspera de Natal de 1986, sempre sob estrita vigilância da KGB que fazia o possível para infernizar-lhe a vida, a ponto de roubar (mais de uma vez) os manuscritos de suas memórias. Foi Gorbachev quem acabou com o exílio do casal. "Volte a seu trabalho patriótico", instou o dirigente soviético, ao telefonar a Sakharov para informá-lo de que podia regressar a Moscou.

Embora manifestasse apoio às reformas da perestroika e considerasse Gorbachev um "líder inteligente", tinha uma noção diferente deste do que deveria ser um trabalho patriótico. Na URSS e no exterior, seus pronunciamentos contra o regime soviético não se alteraram. Eleito para o Congresso dos Deputados do Povo, em 1988, juntou-se ao time de parlamentares que, sob a inócua designação de Grupo Inter-regional, formou-se com a intenção de ser o embrião de um novo partido, tornando-se seu principal membro. Sakharov, sabe-se, era muito mais do que isso. E a simples verdade é que sua morte empobreceu, além da ciência, a vida política na União Soviética.

A crise chega à ciência

O sistema científico que produziu um Andrei Sakharov coexiste com um paradoxo que pode ser apresentado em números como convém ao assunto. De cada quatro cientistas do mundo, por exemplo, um é soviético. Mas os americanos ficaram com 137 dos 370 prêmios Nobel já conferidos; os soviéticos, com apenas dez. Proporcionalmente às respectivas populações, no entanto, a URSS diploma todo ano duas vezes mais universitários do que os Estados Unidos. É claro que só a quantidade de troféus não mede o valor real do saber produzido num pais, assim como o grande número de pesquisadores não é em si sinônimo de boa pesquisa.

No passado, o peso da ciência soviética era maior-outra face do mesmo paradoxo. Nas décadas de 30 e 40, apesar do terror stalinista e do horror da guerra, os soviéticos foram os primeiros a estudar a fonte de energia das estrelas; a origem dos átomos químicos durante o nascimento do Universo; os raios laser; os reatores de fusão nuclear; a ação da eletricidade nos metais, base para a futura invenção do computador; e o fenômeno da supercondutividade, que permite transmitir corrente elétrica sem perda de energia. Pesquisas de vanguarda foram conduzidas por cientistas de renome mundial do quilate do físico Lev Landau, falecido em 1968, do químico Nicolai Semenov ou do matemático Izrail Gelfand.

Atualmente, os mais conhecidos pesquisadores soviéticos são homens já de alguma idade. O próprio Sakharov foi um exemplo disso, assim como o seu amigo, Iacov Zeldovich, um dos grandes mestres da Astrofísica, e o físico Piotr Kapitsa, um dos criadores dos veículos espaciais soviéticos. A URSS ficou nitidamente atrás do Japão e dos Estados Unidos em áreas criticas de ciência e tecnologia como Informática, Telecomunicações e Engenharia Genética. A perda de vigor da ciência soviética acabaria espelhando a crise geral do país-algo que Sakharov não se cansou de denunciar.

Uma pessoa obsessiva

Por José Goldemberg

Tive o primeiro contato pessoal com Andrei Sakharov em janeiro de 1988, em Moscou, durante a instalação do Comitê para a Segurança e o Desenvolvimento Mundial, integrado por cientistas de vários países. Aguardei o encontro com emoção, mas minhas relações com ele foram sempre muito difíceis. Um grande cientista, Sakharov era também um homem obsessivo. Dentro do comitê, por exemplo, preocupava-se o tempo todo com os direitos civis do povo armênio. Mas não achava igualmente importante defender os direitos civis dos povos da América Central. Também fiquei chocado com sua posição em favor de Edward Teller, que dirigiu a construção da bomba de hidrogênio americana, nos anos 50. Na época, Teller enfrentou a oposição de Robert Oppenheimer, que propunha retardar ar a produção da bomba H. Sakharov acreditava que Oppenheimer estava errado. Mas, para derrotá-lo, Teller denunciou-o como comunista numa época de caça às bruxas nos Estados Unidos. Uma atitude indefensável, na minha opinião.

Europa, Ano 1000 - História


EUROPA, ANO 1000 - História



Na passagem do primeiro para o segundo milênio da era cristã, o Ocidente vivia mergulhado em guerras, terrores e superstições: o fim do mundo estava próximo.

Era um tempo de medo. Há mil anos, na mesma Europa que agora se prepara para ingressar, próspera e unida como nunca, no terceiro milênio do calendário cristão, os homens viviam o pior dos mundos. O irreversível desmoronamento, século após século, do que ainda restava da civilização greco-romana, depois do fim do Império Romano do Ocidente, no século V, transformara o território europeu em campo de batalha onde gerações sucessivas se guerreavam interminavelmente - visigodos e vikings, bretões e saxões, vândalos e ostrogodos, magiares e eslavos,um sem-fim de povos que não por acaso entraram para a História sob a denominação coletiva de "bárbaros". Além da violência, a miséria, a ignorância e a superstição recobriam a Europa na marca do ano 1000.

A centralização política abençoada pela Igreja na virada do século IX, com a coroação de Carlos Magno, rei dos francos e dos lombardos, no trono do Sacro Império Romano, em 800, produziu um lampejo de renascimento cultural ao redor de sua corte em Aix-la-Chapelle (ou Aachen, na atual Alemanha). O que pudesse haver de paz e progresso, porém, não sobreviveria muito tempo ao imperador, falecido em 814. Fragmentada em reinos cada vez mais fracos, apesar da tentativa de restauração imperial, em 962, comandada pelo rei germânico Otto, o Grande, a Europa Ocidental se converte numa colcha de retalhos de governos locais. Papas e imperadores, uns e outros invocando direitos divinos, competiam pelo poder, celebrando alianças movediças com príncipes, duques, condes, bispos que também acumulavam títulos de nobreza e ainda uma vasta gama de barões da terra. Tudo isso só fez apressar a pulverização do continente em feudos.
Os proprietários de terras transformavam seus domínios em unidades autônomas, territórios com fortificações feitas de árvores e espinheiros e com habitações cercadas de paliçadas. Registrou um observador do ano 888: "Cada qual quer se fazer rei a partir das próprias entranhas". A cidade, como sede da política e da administração, centro do comércio e do conhecimento, à maneira de Roma, Atenas ou Alexandria na Antigüidade clássica, virtualmente inexistia na paisagem ocidental desse período. Havia, é bem verdade, burgos descendentes dos centros fundados pelos conquistadores romanos, como também ajuntamentos de um punhado de milhares de almas, nascidos da presença, nas proximidades, de um mosteiro ou de um vale fértil, ou do fato de se situarem no centro de uma região dominada por um príncipe. Nada, porém, que se comparasse a Constantinopla (hoje Istambul), capital do Império Romano do Oriente, com suas centenas de milhares de habitantes, abastado comércio e porto movimentado.

Há cerca de mil anos, amplas extensões do continente europeu eram constituídas de florestas um mundo sombrio, estranho e ameaçador aos homens que construíam povoados, cultivavam cereais e criavam gado em grandes clareiras nas suas cercanias, numa economia de pura subsistência, da mão para a boca. A construção de castelos, abadias e mosteiros ocupava igualmente muitos braços. Mas o principal motor da atividade econômica era a guerra: a necessidade de produzir armas, acumular provisões para a tropa e pagar os mercenários em metal sonante estimulava o comércio. Perigos reais, como os animais selvagens, e terrores imaginários, como monstros e demônios, espreitavam os aldeões que adentravam a mata em busca de carne de caça e de mel, a única fonte de açúcar dos europeus de então. Vista pelos olhos de hoje, a vida cotidiana tinha tons de pesadelo.

As aldeias, com suas poucas dezenas de casas mambembes, eram de um primitivismo de dar dó-nada que pudesse lembrar nem as edificações do passado pré-cristão no Egito, Mesopotâmia, Grécia e Roma, nem as construções contemporâneas de povos tão diferentes entre si como árabes, chineses e incas. As habitações eram muito pequenas, de madeira, com coberturas de palha que chegavam rente ao chão. Janelas, quando havia, eram simples buracos. Móveis eram escassos. Animais compartilhavam o parco espaço com a família. Algumas casas eram precariamente cercadas por muros de adobe; outras, por grossas sebes de espinhos. Os germanos chamavam tais espinheiros zaun, o que daria em inglês, significativamente, thorn (espinho) e town (cidade).

Se um europeu atual caísse do céu num dia qualquer numa dessas aldeias talvez presenciasse uma cena que o deixaria escandalizado, com razão, mas cujo sentido lhe escaparia. Um homem, semidespido, corre em círculos; dois outros, tochas nas mãos, tentam queimar-lhe o traseiro, enquanto o populacho morre de rir. A grosseira palhaçada é séria: o homem está sendo castigado pelo roubo de um cachorro. O ladrão até que poderia ter se livrado do vexame se tivesse 5 soldos ou moedas de cobre para indenizar o dono do cão, mais 2 soldos de multa para o Conselho que fazia as vezes de governo do lugarejo - tão rústicos haviam se tornado a administração da justiça e o sistema de governo. A punição, em todo caso, dá idéia do valor dos cachorros em tais sociedades como auxiliares de caça freqüentemente dizimados nas incursões à floresta. Outros animais, como cervos, cavalos e falcões, eram também valorizados, com castigos à altura para os ladrões. Entre os burgúndios, povo germânico que vivia no que viria ser a Áustria, a um falcão recapturado era servido 1,5 quilo de carne crua-sobre o peito do ladrão.

O treinamento do homem medieval como caçador e guerreiro começava depois da barbatoria, o rito de iniciação que consistia na raspagem da primeira barba do jovem, por volta dos 14 anos. A partir de então, o rapaz deveria exercitar-se em corrida, natação, montaria (com o cavalo em movimento e sem estribo, que só apareceria em meados do século XI) e no manejo do arco, do machado e da espada. O homem passava da infância à condição adulta em pouco tempo porque pouco também era o tempo de vida. Morria-se geralmente por volta dos 30 anos, a mulher ainda mais cedo, quase sempre de parto. Os historiadores calculam que de cada 100 crianças nascidas vivas 45 morriam na infância. Diante disso, era preciso que houvesse muitas mulheres e muitas crianças para assegurar a sobrevivência das comunidades.

Por isso, conquistada uma aldeia, as mulheres e crianças pequenas eram levadas pelos vencedores como despojos de guerra. O resto da população, ou mais especificamente "todos aqueles capazes de mijar contra a muralha", segundo uma expressão da época, eram passados pelo fio da espada. Pelo mesmo motivo, entre os francos, quem batesse numa mulher grávida era condenado a pagar 700 soldos de multa; se matasse uma jovem solteira, portanto em idade fértil, pagaria 600 soldos. Mas, se matasse uma mulher idosa, só desembolsaria duzentas moedas. Morria-se com facilidade nas florestas, nos vilarejos e nos caminhos entre eles. Naturalmente, procurava-se viajar apenas de dia, calibrando o percurso de modo a se estar ao alcance de um mosteiro ao cair da noite. A hospitalidade, ao menos a dos religiosos, era algo sagrado na época. Os mosteiros costumavam ter dependências especiais para abrigar os viajantes, aos quais era praxe fornecer pão e vinho - uma frugalidade para os padrões alimentares vigentes. De fato, quem podia, como os monges, fartava-se de comer. A gula, aparentemente, não figurava entre os pecados capitais e a sabedoria convencional dizia que, quanto mais farta, gorda e pesada fosse uma refeição, mais saudável seria a pessoa e mais filhos poria no mundo.

Uma dieta diária à base de muito pão, sopa, lentilhas, queijo, e ainda vinho ou cerveja à farta, totalizava algo como 6 000 calorias, mais que o dobro do que se considera hoje necessário, em média, a um trabalhador braçal. Nos banquetes, que podiam durar até três dias, a comilança incluía também ovos, aves e carnes de caça.

A vida de todos os dias, para a mente medieval, estava tão impregnada de eventos extraordinários que não havia como separar realidade e fantasia. O europeu de mil anos atrás acreditava piamente em milagres e apocalipses. Como a Terra imaginada imóvel no centro do Universo, a Igreja era o único ponto fixo de referência para os homens da época-uma instituição segura num mundo onde o poder político não cessa de mudar de mãos ao sabor dos golpes de espada entre os senhores da terra e os príncipes leigos e clericais em seus eternos conflitos. No século X, uma das preocupações da Igreja tinha a ver com a persistência dos resquícios de paganismo nos cultos praticados pelas populações que de há muito professavam a fé cristã. A luta contra a herança pagã se dava, por exemplo, em relação à morte. A atitude das pessoas diante da morte era ambígua. Naquela sociedade tão brutal, em que a morte violenta fazia parte do cotidiano, os mortos eram especialmente temidos. Os cemitérios ficavam afastados das povoações e os túmulos cobertos de arbustos espinhosos para impedir que os cadáveres viessem atormentar os vivos. Além disso acreditava-se que os mortos precisavam ser apaziguados de tempos em tempos, o que se fazia mediante grandes banquetes funerários, nos quais as famílias dos falecidos os obsequiavam com comidas, cantos e danças - um costume que, pelo visto, não parece ter conhecido fronteiras ao longo da história humana. Condenando severamente esses rituais, os padres trataram de ocupar-se eles próprios da questão. Em conseqüência, cemitérios passaram a existir dentro das aldeias, ao redor das igrejas. Sepultados em campo-santo, os mortos ficariam em paz, não havendo mais razão para a angústia dos vivos nem para práticas reprováveis. E, realmente, o culto pagão dos mortos foi rareando até desaparecer de vez.

A Igreja concentrava toda a cultura erudita. O alto clero falava latim, língua em que também eram redigidos os raros documentos da época- textos que serviam para estabelecer direitos, como cartas de transferência de propriedades e notificações de decisões reais-, pois o uso da escrita, já muito restrito, desapareceu quase por completo depois de 860. Nos mosteiros, os monges copistas reproduziam minuciosamente os livros sagrados e as obras dos filósofos gregos, como Aristóteles, cujo pensamento era considerado compatível com a doutrina oficial do cristianismo. Um monge gastava um ano de trabalho para fazer uma cópia da Bíblia. Duro favor. "Embaralha a vista, causa corcunda, encurva o peito e o ventre, dá dor nos rins", deixou registrado um copista. "É uma rude provação para todo o corpo."

Dos mosteiros se propagava também, pela voz dos abades nos sermões que acompanhavam as missas, uma terrível profecia que submeteria os fiéis a outro tipo de provação: o fim do mundo exatamente no ano 1000, com a ocorrência, em sucessão, de incomparáveis acontecimentos, como a aparição do Anticristo, a volta de Jesus à Terra e o Juízo Final-o julgamento de todos os homens por Deus. A crença no fim do mundo no ano 1000 derivava de uma interpretação literal de um dos mais obscuros textos bíblicos, o Apocalipse de São João. De fato, ali se lê que "depois de se consumirem mil anos, Satanás será solto da prisão, saindo para seduzir as nações dos quatro cantos da Terra e reuní-las para a luta (...). Mas desceu um fogo do céu e as devorou (...) e os mortos foram julgados segundo as suas obras (...). Vi, então, um novo céu e uma nova terra, pois o primeiro céu e a primeira terra desapareceram e o mar já não existe". Esse "milenarismo crasso", como dizem os comentaristas do Novo Testamento, apropriou-se dos corações e mentes dos europeus.

Quanto mais se espalhava a profecia e mais próximo se estava da data fatal, mais apareciam indícios infalíveis do fim dos tempos -um eclipse, um incêndio inexplicável, o nascimento de um bebê monstruoso, uma praga agrícola, a passagem de um cometa no céu, o relato da aparição de uma baleia do tamanho de uma ilha na costa francesa, a grande epidemia de 997. Uma crônica de um certo Sigeberto de Gembloux descreve um "terrível tremor de terra" e a imagem de uma serpente vista através de uma fratura no céu. Muita gente doou todas as suas posses, muitos também se inflingiram cruéis castigos, a título de penitência. Os historiadores interpretam o "terror milenar" que se apossou dos europeus como uma expressão do caos político que se seguiu à desagregação do Sacro Império, desenhada com tintas fornecidas pelas Escrituras. Em 954, um Pequeno tratado do Anti- Cristo, de autoria de Adson, abade de Montier-en-Der, França, previa o fim do mundo depois de "todos os reinos estarem separados do Império Romano, ao qual haviam estado anteriormente submetidos".
O mundo, como se sabe, não acabou na passagem do milênio, nem no ano seguinte, nem no outro. Aos poucos, os homens começaram a suspeitar que o Apocalipse, afinal, não viria. Assim, em 1033, justamente no milésimo aniversário da Paixão de Cristo, um texto permitia-se festejar a "alegria dominante no Universo" - apesar da fome que devastava a Europa, do mau agouro representado por um eclipse solar e do desassossego causado pela revolta contra o papa Benedito IX, que ascendera ao trono com a extraordinária idade de 13 anos.

À espera do apocalipse: o continente na virada do milênio

Por volta do ano 1000, o Império Russo cobria a maior parte dos territórios europeus do leste, tendo o seu centro no principado de Kiev, na Ucrânia. População, língua e costumes eram eslavos. A dinastia tinha origem viking. A unidade do império era precária: Novgorod e Kiev eram governadas por diferentes membros da dinastia. Mesmo assim, amedrontava os povos balcânicos e servia de pára-choque entre os impérios e tribos do Oriente e os da Europa.

Entre a Rússia e a Alemanha, estavam, de um lado, os povos do Báltico, relativamente independentes das influências germânicas e cristãs; de outro, os reinos da Polônia, Hungria e Boêmia. Seus habitantes eram eslavos ou aparentados a eles no idioma e nos costumes, embora já começassem a se ocidentalizar.

Na Europa Ocidental, as populações da Alemanha, Itália, França e das llhas Britânicas eram cristãs, ou, como no caso dos vikings da Escandinávia, prestes a se converter ao cristianismo. O Império Bizantino se estendia, a oeste, até o sul da Itália. Mas o Reino da Sicília, assim como a Península Ibérica (menos o norte), fazia parte da Europa muçulmana.

Olhos e ouvidos da Terra - Espaço


OLHOS E OUVIDOS DA TERRA - Espaço



Mais de 6 000 pessoas em 150 edifícios fazem do Laboratório de Jatopropulsão, na Califórnia, o grande centro de controle das naves que começam a desbravar o Cosmo .

Se uma nave extraterrestre viesse à Terra fazer contato direto com os seus habitantes, talvez o local mais conveniente para o pouso fossem os contrafortes das montanhas San Gabriel, 20 quilômetros ao norte de Los Angeles, na Califórnia, Estados Unidos. Ali está sediado o centro nervoso da comunicação entre o planeta e o espaço profundo - o Laboratório de Jatopropulsão, mais conhecido pela sigla JPL. Pertencente ao Instituto de Tecnologia da Califórnia, o JPL é a única instituição universitária diretamente ligada às atividades da NASA, à qual se vinculou desde a fundação, em 1958. Mas a palavra laboratório, na verdade, já não a define com toda justiça. Seria mais conveniente falar em uma cidade do espaço - onde os viajantes do cosmo, com certeza, se sentiriam em casa. Na pior das hipóteses, estariam no lugar mais adequado para, em caso de necessidade, comunicar-se com planeta natal - a exemplo do E.T. de Steven Spielberg. Pois, embora parte do complexo de nada menos de 150 edifícios do JPL abrigue alojamentos e escritórios comuns, a maioria tem um ar definitivamente extraterreno. Entre outras estruturas, existem grandes galpões para a montagem de satélites e de naves, instalações para testar instrumentos e simular condições de vôo, assim como sofisticadas salas de navegação e de comunicação espacial, a verdadeira marca registrada do Laboratório. No total, ele emprega uma formidável equipe de 3 800 engenheiros e cientistas, 560 técnicos e 2130 funcionários administrativos. O fato de estarem entre os mais qualificados profissionais do mundo não os impede de cultivar um simpático estilo informal em que se mesclam o bom humor e o entusiasmo. "Aproveitam para nos pagar pouco porque gostamos da tarefa", brinca o físico Omer Divers, chefe de uma das equipes encarregadas de analisar a colossal massa de informações recebidas do espaço. Trata-se de uma peça vital na teia de comunicações montada pelo JPL ao longo dos anos. Na extremidade mais distante dela estão as dezenas de satélites e naves automáticas atualmente em operação-os olhos e os ouvidos remotos da Terra.

A nave Voyager 1, por exemplo, poderia ser o primeiro objeto de origem humana com o qual eventuais visitantes extraterrestres talvez cruzassem, pois já se encontra a 5 bilhões de quilômetros da Terra, bem além do último planeta conhecido do sistema solar, Plutão. Como um batedor avançado da civilização. A nave poderia antecipar o contato com os alienígenas e transmitir dados pormenorizados a seu respeito. Essa é a função dos satélites e naves automáticas: equipados com instrumentos de alta sensibilidade, espionam detalhes importantes do Cosmo, próximos ou longínquos. Em seguida, remetem os seus relatórios na forma de sinais eletrônicos codificados, diretamente para as três grandes estações de escuta operadas pelo JPL.

Localizadas nos Estados Unidos, na Espanha e na Austrália, cada uma conta com uma equipe de cerca de 100 pessoas e com quatro grandes antenas de rádio medindo entre 26 e 70 metros de diâmetro. A disposição das estações em continentes diferentes é proposital. Assim, em nenhum momento se perde contato com um ponto qualquer do céu. Em última instância, o conjunto de naves, censores e antenas constitui a chamada Rede do Espaço Profundo, o coração da malha de comunicações montada pelo JPL. Totalmente informatizada, a rede começa a ser interligada por meio de um único computador, o Hipercubo, o maior do mundo em sua categoria.

Capaz de comparar informações à velocidade de 400 milhões de sinais codificados por segundo, esse gigante está sendo montado pela fusão de 128 processadores independentes, cada um deles 100 vezes mais rápido que os grandes computadores comerciais em uso. Com essa inovação, fechou-se uma épica fase da história do JPL, durante a qual uma tripulação de 200 a 400 profissionais conduziu as duas naves da categoria Voyager até a periferia do sistema solar. Naturalmente, ninguém precisou deixar a Terra, pois os pilotos movem os comandos à distância, por meio de uma bem planejada troca de sinais de rádio com as naves. As mais inteligentes sondas da era espacial, as Voyagers foram guiadas, em parte, por instruções previamente embutidas nos computadores de bordo.

Quando se aproximavam de um planeta, recorriam a instruções eletrônicas mais complexas e geralmente consultavam seus aguçados censores de direção para constatar os desvios de rota, inevitáveis numa travessia tão longa. Então, comunicavam-se com o comando do JPL e aguardavam as correções transmitidas pelas grandes antenas terrestres. Ao mesmo tempo, acionavam o arsenal de instrumentos para dar inicio à investigação dos planetas. Assim, ao longo de dezessete anos, as Voyagers visitaram sucessivamente Júpiter, Saturno, Urano, Netuno e os 56 satélites desses planetas. Nas cercanias de Saturno, situado a 1 bilhão de quilômetros, demoravam pelo menos uma hora para ouvir um comando da Terra; em Netuno, a diferença já chegava a quatro horas.

Apesar disso, demonstraram pontaria perfeita em vôos rasantes sobre os corpos celestes. Mesmo dispondo de um rádio de baixa potência, transmitiram para a Terra, entre montanhas de outras informações, cerca de 100 000 fotos de impecável nitidez. O êxito, nesse caso, foi completo, já que as Voyagers foram concebidas, montadas, testadas e pilotadas pelas diversas seções especializadas do JPL. Nem sempre é assim. Muitas vezes, o Laboratório pilota, ou mantém comunicação com sondas e satélites construídos por outras instituições. Foi o caso das sondas Pioneer 10 e 11, fabricadas pelo Ames Research Center, da NASA. No entanto, a história do JPL começou efetivamente décadas antes, com a tentativa de construir foguetes, nos idos de 1936.

A portentosa equipe atual não passava de um pequeno grupo de alunos do Instituto de Tecnologia da Califórnia liderado pelo engenheiro de origem húngara Theodore von Kármán (1881-1963). Na época, o grupo dispunha apenas de alguns barracões de madeira e parcos instrumentos. Não obstante, essa experiência pioneira se tornou o alicerce da futura indústria espacial americana. Até hoje o Laboratório cultiva a antiga vocação para a pesquisa de novos foguetes. Um exemplo é o projeto Tau: uma nave que deverá voar por volta da virada do século em direção ao espaço interestelar. Capaz de ejetar partículas atômicas eletricamente carregadas, o foguete levará essa nave a uma distância de 150 bilhões de quilômetros para investigar o que, de fato, existe no imenso vazio além dos planetas.

Depois da Segunda Guerra Mundial, o objetivo prioritário do JPL passou a ser a construção de satélites. O primeiro deles foi o Explorer 1-um projeto de emergência que vôou no dia 31 de janeiro de 1958, apenas quatro meses depois de os soviéticos lançarem o Sputnik, dando inicio à era espacial. A própria NASA nem sequer existia (seria criada em dezembro daquele mesmo ano), mas o trabalho do JPL impediu que os soviéticos ampliassem a dianteira obtida sobre os Estados Unidos com o primeiro satélite artificial. Atualmente, a instituição está ativamente empenhada em desenvolver e construir satélites para os mais diversos fins científicos e civis. Conta, para isso, com uma verba de 1 bilhão de dólares, dos quais cerca de 700 milhões são alocados pela NASA e o restante, por outras agências governamentais.

Pelo menos metade desse dinheiro é aplicado em novas pesquisas e na construção de instrumentos, informou a nos o porta-voz do JPL, Jim Wilson. "A outra metade é consumida pelos vôos e pelas tarefas de navegação e comunicação com as naves." Entre os mais recentes projetos criados pelo Laboratório, a Terra tem um lugar especial. Os novos satélites já estão executando, ou vão começar a executar em curto prazo, uma centena de tarefas relevantes, como criar mapas com precisão jamais alcançada, sondar a estrutura geológica do planeta sob os oceanos, ou medir o volume exato dos gases da atmosfera. Outros satélites estão ocupados com o controle da poluição, o planejamento mais racional das rotas aéreas e a identificação de novas fontes de energia. Além disso, o Laboratório possui uma divisão inteiramente dedicada ao aproveitamento dos instrumentos científicos na vida prática. Redesenhados, eles podem ter aplicações importantes, em particular como aparelhos médicos.
Mas as sondas interplanetárias continuam sendo o prato de resistência da casa. Um dos modelos surgidos depois das Voyagers é a Galileu, lançada no final de 1989 com a missão de estacionar por longo tempo nas órbitas próximas de Júpiter. Inteiramente projetada e construída pelo JPL, suas câmeras de TV possuem captadores eletrônicos de luz capazes de revelar detalhes de apenas 20 metros da superfície gasosa do planeta. Além disso, a sonda vai transportar uma pequena nave auxiliar construída fora do JPL, cujo destino é mergulhar sobre Júpiter para colher dados diretamente da sua atmosfera. Exemplo ainda mais ousado é o bólido Mariner Mark II, projetado para perseguir e fazer acrobacias em torno do cometa Kopff durante alguns meses. Para isso, será dotado de pequenos e ágeis propulsores e poderá ver o cometa de vários ângulos diferentes.
Uma nave desse tipo também poderia penetrar a salvo no perigoso reino dos asteróides, formado por milhões de pequenas rochas, situado entre Marte e Júpiter. Nunca observados de perto, os asteróides aparentemente se movimentam no espaço de maneira aleatória, mas podem se organizar de forma complexa. Foi o que descobriu recentemente o astrônomo Steven Ostro do JPL. Por sorte, ele pôde fotografar com precisão o asteróide denominado 1989 pb, de apenas 1600 metros de diâmetro. Ostro descobriu surpreso que não havia apenas um, mas sim dois asteróides. O 1989 pb era, na verdade, constituído por duas rochas girando uma em torno da outra, como um planeta e seu satélite em miniatura.
Novidades desse gênero revelam como ainda é frágil o conhecimento acumulado sobre o espaço e como é rico e diversificado o vasto mundo situado além da Lua. Também se compreende o entusiasmo com que os profissionais do JPL se atiram à conquista dos planetas vizinhos. Como diz o físico Omer Divers, o que gosta do que faz apesar da paga, "novos mistérios são mais divertidos do que os fatos conhecidos". 

Cortesias da era espacial

Nem só de espaço vive o JPL. Seus cientistas também estão empenhados em transformar os instrumentos ultraprecisos utilizados pelos satélites e naves espaciais em aparelhos úteis ao dia-a-dia das pessoas comuns. Os benefícios potenciais são especialmente promissores na área médica. Um detector de moléculas eletricamente carregadas, por exemplo, está sendo incumbido de investigar o organismo de pessoas submetidas a altas doses de radiação. O objetivo é procurar danos que podem levar as células ao câncer e dar o alerta com antecedência. Outro tipo de monitor, também desenvolvido originalmente de olho nas pesquisas espaciais, integra por meio de um computador as imagens do organismo humano, mais ou menos como faz com as imagens dos planetas remetidas pelas naves. Acoplado a dispositivos como o ultrasom e a tomografia, o aparelho poderá proporcionar aos médicos pormenores ainda longe de seu alcance sobre a evolução dos pacientes de aterosclerose.
Fora da área médica, procura-se integrar por computador grande número de informações sobre o clima, a fim de repassá-las rapidamente aos pilotos e controladores de vôo.
O esquema tornaria o transporte aéreo mais seguro e eficiente, porém não é fácil de implantar. Projeto mais simples é o da conversão dos captadores de energia solar em geradores comerciais de alta eficiência. Existem ainda propostas extremamente ambiciosas, como a de remontar alguns mecanismos usados no espaço na forma de robôs-operários de alta sensibilidade. Um bom robô, como se sabe, é o que consegue diferenciar entre um aperto de mão e o ato de levantar um automóvel. A meta, no caso, é superar a dificuldade dos autômatos em manipular objetos móveis e dosar corretamente sua força.