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domingo, 30 de dezembro de 2012

O Desafio do Superarroz - Agricultura


O DESAFIO DO SUPERARROZ - Agricultura



Mais resistentes às pragas e às secas, de caule mais forte e grãos mais polpudos, as novas variedades desse alimento milenar prometem colheitas à altura da fome de seus fãs-mais de 3 bilhões de pessoas no mundo.

Cinco em cada seis habitantes do planeta, na hora de escolher o ingrediente básico de seu cardápio, preferem um pequeno grão da cor do leite e sabor leve, que vai bem com quase todos os alimentos, doces e salgados. E, caso se queira, a refeição pode ser acompanhada de vodca e saque, feitos a partir do mesmo alimento - o arroz. O gosto por esse cereal, é claro, varia de país a país: o europeu, por exemplo, degusta a ínfima fração de 3 quilos de arroz ao ano, mas o brasileiro come o peso de uma saca, 60 quilos, e o asiático, nada menos que 180 quilos. Mas, embora freqüente a mesa dos homens há pelo menos 5 000 anos, o arroz, atualmente, transformou-se num dos maiores desafios da agricultura.
Gerar colheitas à altura de um consumo tão disseminado é um jogo duríssimo, pois as terras disponíveis já estão quase todas em uso e a população mundial- especialmente a asiática - cresce sem parar. Em vista disso, opinam os especialistas, a saída é apelar para as artes da  Biotecnologia e criar uma planta inteiramente nova no tubo de ensaio. Dotado de ramos mais fortes, mais clorofila nas folhas, raízes vigorosas e resistência contra uma multidão de insetos e micróbios, o superarroz, espera-se, poderá vencer a corrida contra a superpopulação. Não se trata, dessa vez, de um simples aprimoramento da planta original, como vem sendo feito, com certo sucesso, desde o fim da Segunda Guerra.
A primeira variedade de arroz altamente produtiva, denominada IR-8, nasceu em 1966, do casamento de um arroz anão chinês com uma vigorosa planta indonésia. Já era um organismo revolucionário, pois o uso crescente de fertilizantes, nessa época, propiciava grãos maiores-tanto que a planta tradicional tombava ao solo, incapaz de suportar o peso. Apenas com a chegada da IR-8, de caule curto e firme, foi possível levar aos arrozais as modernas técnicas de adubação artificial. O mérito por essa façanha coube ao IRRI, Instituto Internacional de Pesquisa de Arroz, situado nas Filipinas e o mais importante do mundo em seu gênero. O mesmo instituto criaria, em 1982, a variedade IR-36, filha de nada menos que treze pais das mais variadas estirpes.
Em compensação, tinha defesas orgânicas apuradas contra uma dúzia de pragas e crescia mais rápido que seus avós: em 110 dias, em vez dos seis meses de praxe, estava pronto para a colheita. Não admira que tenha se tornado atualmente, a mais disseminada variedade nos campos de cultura do mundo inteiro. Seu criador, o geneticista Gurdev Khush, aposta que a IR-36 ainda está longe de pendurar as chuteiras e poderá ampliar a produção mundial em cerca de 25%, nos próximos dez anos. Apesar disso, a corrida contra a explosão demográfica é incerta e aconselha que se tomem medidas imediatas para prevenir um futuro avanço da fome.Mais importante ainda: nos últimos quatro anos, os cientistas deslindaram complicados quebra-cabeças genéticos que bloqueavam a pesquisa de novas plantas. E possível, portanto, começar a pensar numa variedade que suplante todas as anteriores. O primeiro passo, dado em 1988, foi mapear os doze cromossomos do arroz. Isto significa separar os genes uns dos outros e tentar descobrir o que faz cada um deles- por exemplo, qual torna o caule mais firme, qual permite à planta viver com pouca água e assim por diante. Ainda não existe nada tão preciso, mas os cientistas selecionaram, de saída, 135 pontos de interesse nos cromossomos.
De lá para cá, o número de pontos selecionados subiu para 300, o que reduzirá o tempo necessário para criar novas variedades, atualmente da ordem de cinco a dez anos. O trabalho exige cruzar plantas já existentes, replantar suas mudas, esperá-las crescer e checar se têm qualidades úteis. Com o mapeamento, não é preciso esperar as mudas crescerem: basta analisar seus cromossomos para saber se os genes de interesse estão ou não presentes. A expectativa, então, é cortar a demora pela metade. Mas o feito recente que causou maior entusiasmo nos pesquisadores foi a regeneração do arroz-isso significa que é possível arrancar um mero fragmento da folha ou da raiz de uma planta e fazê-la voltar à vida na forma de um novo broto. Um fenômeno trivial em muitos vegetais, a regeneração simplesmente não funcionava no arroz e em diversas plantas importantes, como o milho e o trigo. E o problema se tornava ainda mais grave porque o objetivo não era apenas regenerar a planta, mas também abrir suas células e mexer em seus cromossomos - isto é, inserir-lhes novos genes e assim alterar suas características.Para abrir uma célula vegetal, no entanto, é preciso primeiro extirpar sua parede, uma casca protetora de celulose, inexistente nos animais. Daí o nome protoplasto - célula da qual foi removida a parede. Desde 1990, diversas equipes científicas conseguiram, com sucesso, obter plantas férteis de arroz a partir de protoplastos geneticamente reformados. O próximo passo foi aprimorar a técnica de reforma: agora, é possível introduzir um gene estranho no corpo de uma bactéria que infesta o arroz. Assim, quando a bactéria penetra na célula de arroz, leva consigo o gene, que acaba incorporado aos cromossomos. Depois disso, sempre que se reproduzir, o vegetal regenerado repassa o novo gene para seus descendentes. O arroz foi o primeiro cereal em que essa técnica teve êxito. Uma das reformas genéticas que se quer impor ao arroz é a reprodução por semente. Atualmente, o plantio é feito com mudas, o que provoca considerável desperdício de tempo e trabalho. Assim, o superarroz imaginado por Khush deverá ter sementes capazes de brotar. Outro objetivo é reduzir os ramos da touceira de arroz, normalmente em número de 20 ou 25 ramos, dos quais apenas 15 geram grãos. A planta ganharia em produtividade, dizem os especialistas do IRRI, se tivesse três ou quatro ramos somente, mas bem fornidos de grãos. Alta produtividade, nesse caso, significa colher de 13 a 15 toneladas por hectare, em vez das atuais 8 ou 9 toneladas, em média.
Tais mudanças terão o sabor de uma irreverência, pelo menos nas diversas culturas em que o arroz é tradicionalmente venerado. No Japão, por exemplo, o próprio imperador é visto como uma espécie de encarnação do espírito do arroz. Na mitologia hindu, teria sido ordem expressa do deus Indra que a humanidade iniciasse o seu cultivo. Na China, sentimentos parecidos aparecem na linguagem, pois o nome chinês da planta, "mi", significa "o bom grão da vida". E não admira que seja assim, visto que o arroz selvagem é originário da Ásia-nasceu nas chamadas terras de Assam, pequeno território encravado entre a Índia e a Birmânia. Daí, ele pode ter chegado à Europa pelas mãos dos árabes e, mais tarde, os portugueses o trouxeram ao Brasil. Não seria à toa que a palavra portuguesa arroz deriva do termo árabe "ruz", acrescido do artigo "al". O evidente sucesso desse alimento entre os brasileiros infelizmente não se traduz em alta produção. Basta ver que, em média, ao longo de doze meses, cada americano consome apenas 5 quilos de arroz, mas seu país colhe 8 milhões de toneladas ao ano. No Brasil, embora o consumo seja dez vezes maior-entre 50 e 60 quilos-, a produção não é muito superior à americana, pois alcança 12 milhões de toneladas anuais.
Esse número é quinze vezes menor que o da China, campeã mundial em colheitas, com 170 milhões de toneladas. Os especialistas brasileiros acreditam que o esforço para mudar esse quadro é relativamente modesto, inclusive por causa do alto custo das pesquisas de engenharia genética. Isso, é claro, não significa que não se faz pesquisa de genética clássica, como demonstra o trabalho do japonês naturalizado brasileiro Akihiko Ando, da Esalq (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz), em Piracicaba, SP. Formado em Agronomia pela Universidade de Tóquio, ele há trinta anos busca um híbrido capaz de competir em rendimento e resistência com plantas japonesas e filipinas. O seu desafio, depois de cruzar esses vegetais com o arroz brasileiro, é dar estabilidade à prole resultante: apesar de os filhos desse casamento herdarem as virtudes dos pais, os netos voltam a perdê-las. Demorada, essa investigação poderia ser acelerada se houvesse mais recursos. "Na falta deles, usamos a técnica chinesa da paciência", brinca o pesquisador.De qualquer forma, os cruzamentos não tomam todo o seu tempo, parte do qual ele passa no Cena (Centro de Energia Nuclear na Agricultura), também em Piracicaba. Esse caminho Ihe foi sugerido pela própria história pessoal: quando soube da devastação causada pela bomba de Hiroxima, em agosto de 1945, Ando decidiu dedicar sua vida ao uso pacífico do átomo. No Cena, ele emprega uma bomba de cobalto para bombardear sementes de arroz com raios gama, uma forma de luz gerada pela desintegração nuclear do cobalto, mas tão violenta que provoca mutações genéticas nas sementes. Naturalmente, Ando não sabe o que vai nascer dos grãos mutantes, mas depois de descartar as inúmeras aberrações, sempre sobram plantas de alta qualidade. "Perdi a conta dos novos tipos mutantes que ajudei a batizar, mas foram muitos", orgulha-se.Produção elevada não é o único objetivo dos melhoristas de plantas, já que, depois de sobreviver às pragas e adversidades do clima, o cereal tem ainda de vencer o desafio dos fogões e panelas. Sob a ditadura das donas de casa, o alimento precisa ter um perfil para cada paladar. Os orientais, por exemplo, gostam dos grãos empapados e de um tipo chamado cateto, largo e curto, que absorve e retém bastante água. Essas qualidades dependem da quantidade de amido e amilopectina em cada tipo de planta. "O mercado é pobre, mas exigente", conta Geraldo José Aparecido, agrônomo e professor da Esalq. Fascinado pelo arroz desde a infância quando passeava pelas fazendas dos avós, ele acredita que os hábitos alimentares modernos não são razoáveis."É um desperdício raspar a camada escura que cobre os grãos não beneficiados porque as pessoas não apreciam seu gosto. Ela é muito nutritiva, contém gordura, proteína, vitaminas e sais minerais, mas vai para os porcos." A nutricionista Flora Spolidoro concorda: "O arroz polido é mais rico apenas em amido", ensina. Misturando os sotaques trazidos das suas viagens pelo mundo, ela se preocupa principalmente com a lisina, um componente de muitas proteínas, com baixo teor no grão beneficiado. "Essa carência pode comprometer o crescimento normal de uma criança", opina. Por sorte, no Brasil esse problema é contornado, já que o feijão, inseparável companheiro de prato do arroz, contém bastante lisina.
Um curioso problema gerado por hábitos alimentares é o arroz vermelho. Da mesma espécie que o branco- batizado Oryza sativa-e igualmente rico em proteína, ele não é bem aceito pelas pessoas. Pior, transformou-se em planta daninha, pois disputa o solo com o parente. Suas sementes desprendem-se fácil do caule, o que não ocorre com o arroz branco, e ficam no solo até dez anos, infestando a terra. No Rio Grande do Sul, dizem os agrônomos, ele causa perda de quase 8 milhões de sacas ao ano. Seja como for-pelo menos em princípio-, os avanços atuais viabilizam as mais profundas transformações dos seres vivos, sejam plantas ou animais. Pintar de branco um grão vermelho, por exemplo, ou somar lisina às suas reservas protéicas não seriam metas particularmente difíceis de atingir. Resultados desse tipo não são para amanhã, ou mesmo depois de amanhã. Mas não há dúvida que, dentro de poucos anos, o arroz será bem diferente daquele cereal que o homem conheceu nos primórdios da civilização. 

Prato bem quente

Campos alagados, cultivados com arroz, são uma importante fonte de gás metano e, por extensão, contribuem decisivamente para o aquecimento do planeta por meio do efeito estafa. Avalia se que esses campos têm uma participação de 14% no aumento já medido na temperatura da Terra. Agora, cientistas americanos e chineses sugerem que a porcentagem pode ser bem mais alta. O motivo é simples: os dados que deram origem a esse cálculo foram obtidos em arrozais europeus e americanos, que são bem menores e geram metano em proporção bem menor que os chineses. A China produz nada menos que 36% de todo o arroz do mundo e seus campos podem gerar até 10 vezes mais metano que os ocidentais. Medidas feitas em quatro lavouras, durante duas estações de plantio, na vila de TuZu, província de Sczhuan, indica que cada metro quadrado dos alagados produz 60 miligramas de metano por hora. Essa massa de gás é cinco vezes maior que a dos arrozais americanos e quinze vezes maior que a dos espanhóis. 


Sexo, nem Pensar

Antes de começar a ser cultivado, há cerca de 5 000 anos, o arroz selvagem estava bem armado para a reprodução. Suas sementes e o pólen, por exemplo, se acomodavam junto a um grande espinho, de nome arista e até 5 centímetros de comprimento e isso Ihes permitia pegar carona nas penas dos pássaros, fãs incondicionais do cereal, e voar para longe da planta-mãe. Como conseqüência diferentes plantas intercambiavam seus patrimônios genéticos, o que já não ocorre com o acomodado arroz cultivado. A culpa disso cabe ao homem, especula o agrônomo Giancarlo Xavier Oliveira, da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz.O arroz selvagem, diz ele, brotava na beira de rios e lagos, de modo que as sementes, ao soltarem-se, geralmente se perdiam na lama. Em vista disso, o homem só podia colher as sementes que, por algum motivo, permaneciam mais tempo ligadas ao cacho. E, quando passou a replantá-las, começou, sem querer, a disseminar um tipo raro de arroz, cujas sementes não se desgarravam facilmente do ramo. Essas plantas inseguras são classificadas como autógamas, pois suas flores só se abrem depois de consumir o próprio pólen -ou seja, depois de fecundarem a si mesmas. "Sexo, para elas, nem pensar", diz o agrônomo.Ele conta que levou um baile na tentativa de forçar o cruzamento de variedades de arroz. Para impedir a autofecundação de urna das plantas, ele inicialmente extirpava as anteras, os órgãos masculinos, produtores de pólen, e mantinha apenas o pistilo, o órgão feminino. Depois, trazia pólen de uma planta vizinha e espalhava sobre a flor privada de anteras. Acabou driblando os hábitos sexuais do arroz moderno, mas fracassou inúmeras vezes até descobrir que, após desprender-se da planta, o pólen precisa juntar-se ao pistilo em menos de nove minutos, ou não sobrevive. 

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A velha mania de estar na MODA - Comportamento


A VELHA MANIA DE ESTAR NA MODA - Comportamento



No desfile da história, as pessoas sempre se vestiram para expressar desejos e influenciar os outros. A roupa pode ajudá-las a seduzir, a impor respeito, a se destacar na sociedade. Muitas vezes, elas querem mostrar ao mundo que estão bem informadas: é quando seguem os lançamentos dos estilistas.

Não, o primeiríssimo grito da moda não deve ter sido a folha de parreira para cobrir o sexo, como dita a Bíblia, mas peles de animais jogadas sobre os ombros feito estolas-um estilo típico do Período Paleolítico, há quase 100 000 anos. O modelo fazia sucesso por total falta de opção, já que impedia os movimentos e, ainda por cima, deixava exposta boa parte do corpo à baixa temperatura da Época Glacial. Mas, então, o homem não conseguia vestir nada diferente: teve, primeiro, de aprender a amaciar as peles; no início, com uma laboriosa mastigação, como até hoje fazem as mulheres dos esquimós; além disso, só há 40 000 anos surgiram as agulhas de chifres, para costurar os retalhos das caças sob medida para o manequim primitivo. 

Quem pensa, no entanto, que a roupa só servia para espantar o frio, se engana. Os desenhos nas cavernas mostram que, mesmo nas regiões mais quentes do planeta, onde se desfilava nu há cerca de 20.000 anos, vestiam-se roupas em ocasiões muito especiais. Isto é, nos rituais mágicos, onde nasceu a moda. A ancestral latina dessa palavra, modus, se desdobra em dois significados: é maneira como algo deve ser feito e, também, a lei. Uma lei com força suficiente para impulsionar as confecções a movimentar, no ano passado, cerca de 25 bilhões de dólares, só no Brasil. O segredo desse faturamento continua sendo a magia-hoje, bordada pela publicidade-, ou seja, a crença de que um pedaço de pano dá ao usuário o poder de influenciar o mundo em que vive. Da mesma maneira como o homem primitivo tinha uma moda ou um modo de vestir para atrair a caça, para vencer uma guerra ou para cultuar os mortos, o homem moderno se veste de jeito diferente para seduzir, para fechar um negócio ou para descer a rampa de um palácio. A sensualidade se expressa na transparência de um tecido, a competência se transforma no alinhado terno, a seriedade pode ficar por conta de uma gravata francesa, marca Hermès, quem sabe.O figurino varia com o cenário. Ninguém faz ginástica de fraque", ironiza o economista Carlos Eduardo Machado. professor da Universidade de São Paulo, com pós-graduação em Comunicação. "Mas, independente disso, o fato é que esse figurino serve para cada um encarnar o seu personagem." Na opinião de Machado, em matéria de guarda-roupa, as pessoas seguem mitos ou seja, comportamentos idealizados: "A idéia inconsciente é que se você imita a aparência de uma pessoa bem-sucedida, então compartilhará esse sucesso", exemplifica. Autor de uma tese sobre indumentárias, Machado tem o aspecto desleixado, alvo de duras críticas da filha: "Ela diz que estudo moda porque não sei me vestir", e dá de ombros. Ele próprio sempre, evitou o fenômeno da imitação que diagnostica na sociedade. "Na minha adolescência, os jovens usavam topete como Elvis Presley, mas meus cabelos não paravam no lugar", Iembra o professor, hoje aos 47 anos. "Então, desisti do penteado da moda."Assim como Machado teimava com o topete diante do espelho, para ficar parecido com o ídolo americano, milhares de pessoas insistem em discar para o Centro de Atendimento ao Telespectador (CAT), instalado pela Rede Globo de Televisão, em São Paulo e no Rio de Janeiro. Meia dúzia de funcionários dão conta de 10.000 ligações semanais: 2.000 delas são em busca dos endereços das lojas onde se encontram os modelitos exibidos pelos repórteres dos jornais e pelos astros das telenovelas. De acordo com os registros do CAT, a última musa foi Stela, interpretada por Glória Pires, a heroína com alma de noviça e corpo de manequim, da novela O dono do mundo. "Já me vesti como a Madonna, como a Tieta da novela e como alguma personagens de cinema", admite, compreensiva, a atriz; baiana Ingra Liberato, estrela da novela Ana Raio e Zé Trovão, exibida pela, Rede Manchete em seu horário nobre. Sua personagem uma peoa, disparou e uma exótica onda de botas, chapéus e esporas nos centros urbanos. "Isso vai desaparecer", prevê a atriz. "O Brasil não tem clima para moda country"De fato, o clima sempre foi um fator determinante da moda-a tanga provavelmente só poderia ter aparecido no escaldante Rio de Janeiro. "Atenção: a moda ousa sob medida", adverte o economista Machado. "Se ela for contra algum tabu da sociedade, não se disseminará." Dai talvez a desenvoltura das minissaias das cariocas, contrastando com a deselegância discreta das paulistanas, cantada por Caetano Veloso. " Por mais que as revistas mostrem decotes, a moda só cola nos locais onde as pessoas aceitam a idéia de mostrar o corpo", alinhava o professor.
Mas, esclareça-se, cortar tecido, para desnudar certas curvas da carne, não é sinônimo de modernidade. Há dois milênios, na Grécia Antiga, as cidadãs cretenses lançaram o topless: Da realidade, elas exibiam vestidos com mangas e saia em forma de sino, que deixavam os seios descobertos. Creta, aliás, é passarela obrigatória para quem vai seguir os passos da história da moda. Em primeiro lugar, porque ali a roupa ganhou o caráter de sedução, o qual nunca mais despiu- fora de seus arredores, as túnicas das mulheres eram muito parecidas com os trajes masculinos. A grande diferença, então, era o comprimento: nas mulheres, o tecido arrastava até os tornozelos. enquanto nos homens, mal escondia os joelhos. O mais curioso é que foi justamente na Grécia, famosa pelo legado da democracia, que a roupa passou a ser o divisor de ricos e pobres. O historiador Heródoto (484 - 420 a.C.) menciona em seus escritos um decreto ateniense que proibia os escravos e as pessoas de classes inferiores a freqüentar o teatro e outros lugares públicos com roupas tingidas. As chamadas classes superiores, no entanto, tinham liberdade para usar tons vivos, como o vermelho, o amarelo e o roxo.
Roma, nos mesmos tempos antigos, não era diferente: listras estreitas estampavam a toga de magistrados e aristocratas, enquanto as listras largas indicavam que a túnica pertencia a um senador ou a um alto oficial. Segundo o sociólogo José Carlos Durand, professor da Fundação Getúlio Vargas, em São Paulo, da Antiguidade até o fim da Idade Média o vestuário passou a ser, cada vez mais, um símbolo de status. Na medida em que as monarquias centralizadas colocaram fim ao feudalismo, criou-se todo um código de regulamentação do vestuário. "Existiam leis que limitavam o uso de cores e dos tecidos mais raros aos poderosos", explica o professor.
Essas leis, chamadas suntuárias, foram derrubadas pela Revolução Francesa, em 1789, com seus ideais de liberdade. igualdade e fraternidade. "Até hoje, passados mais de dois séculos, a classe alta tenta se distinguir pela roupa", observa Durand, em trajes sóbrios, que denotam cuidado na escolha. "Uma moda criada pela classe alta, até chegar ao cabide do operário ou da empregada doméstica, já passou pela classe média", raciocina o sociólogo. Desse modo, ao cumprir esse trajeto, já não serve para destacar os ricos que, nessas alturas, começam a consumir outra moda."A igualdade pregada pelos revolucionários franceses ficaria sem reflexo no espelho, se a Europa não tivesse presenciado, na mesma época, entre 1760 e 1830, a chamada Revolução Industrial-esta, literalmente, deu panos para manga."Antes, o material de costura era praticamente restrito às elites", compara Durand. "As máquinas para confecção, porém, permitiram o desenvolvimento das fiações, que passaram a produzir muito mais tecido." Por sua vez, essa montanha de tecido não podia ficar às traças. "Até o final do século XVIII, ser chique era aparentar tradição, como muitas pessoas defendem até hoje", conta a economista doméstica Maria Elisa Garavello, da Universidade de São Paulo, que mora na tranqüila Piracicaba, cidade do interior do Estado. "Mas, para desencalhar suas mercadorias, a indústria passou a valorizar o novo. Surgiu, assim, a moda sazonal, os lançamentos de inverno e de verão", explica. Os homens, contudo, não escorregaram no consumismo. E desse modo, vestiram a fama de ser um sexo irredutivelmente clássico. Mas, de acordo com os estudiosos, ninguém deveria comprar essa idéia: no pouco caso masculino existia uma enorme preocupação com a moda. Aliás, talvez, nunca os homens estiveram tão sintonizados com o jogo das aparências. Afinal, imperava o ócio no Antigo Regime derrubado pelos revolucionários franceses.Nenhum homem podia fazer muita coisa, carregando entre 8 e 10 quilos de babados - era quanto pesava, em média, o traje típico de um senhor elegante, no final do século XVII. As perucas masculinas, no mesmo período, tornaram-se ainda mais longas do que no século anterior, quando eram a grande novidade. Os revolucionários, portanto, ao protestar contra o regime, adotaram um visual oposto ao vigente, ou seja, extremamente simples e sóbrio. "Estar na moda é incorporar os símbolos de determinado grupo social", justifica Maria Elisa "É como afirmar aos outros, através das roupas, que você está bem informado sobre o que se passa no mundo." De fato, a palavra demodé -do francês, fora de moda- chega a ser sinônimo de desatualizado. "O curioso é que, na mesma época, as mulheres começaram a se enfeitar cada vez mais", observa Maria Elisa. A economista, aliás, escreveu um estudo sobre o consumo de vestuário de suas companheiras de sexo. "As lojas recebem menos mulheres acima dos 30 anos", garante." As solteiras gastam muito dinheiro com roupa", suspeita. "Depois do casamento, é como se tivessem cumprido seu papel social. Então, apelam para modelos discretos e transferem os enfeites para os filhos." Segundo Elisa, as jovens se comportam de maneira oposta: "Suas roupas têm de ser realmente justas, elas detestam qualquer acréscimo de pano, que escondem os contornos do corpo", revela. Uma das mais antigas disputas do mundo da moda também nasceu logo depois da Revolução Francesa. A Inglaterra e a França começaram a se alfinetar por motivos políticos, mas a briga continuou no guarda-roupa: nas ruas londrinas, as mulheres não dispensaram os vestidos de Paris, que sempre eram os mais bordados e cheios de panos; os alfaiates ingleses, de seu lado, vingaram a onda estrangeira, com cortes exemplares de roupas masculinas. Resultado: até nestes tempos modernos, da camiseta e da calça jeans, muitas mulheres ainda sonham em possuir a obra de um costureiro francês no armário, da mesma maneira como os homens esnobam elegância ao usar o tradicional terno inglês.
A mulher só optou pela praticidade no início deste século, quando eclodiu a Primeira Guerra Mundial. Boa parte dos tecidos, já escassos, era destinada à confecção de uniformes para os soldados nos campos de batalha europeus. Na ausência do marido convocado, a mulher começou a trabalhar -muitas vezes, usando a roupa do companheiro distante ou morto na guerra. Ninguém traduziu melhor o novo comportamento feminino do que a francesa Gabrielle Chanel (1883 1971). Coco Chanel, como preferia ser chamada cortou os cabelos na nuca-no penteado que notabilizou seu nome-, substituiu o rodado dos vestidos por uma saia reta, cujo comprimento também passou pela tesoura, parando um palmo abaixo dos joelhos, facilitando a vida de quem, a partir da década de 20, teria de andar até um escritório e, quem sabe, pegar o bonde. O traje era complementado por um casaco: estava criado o famoso tailleur. O novo visual, para a época, era chocante. Mas Coco Chanel, embora tenha nascido em uma família pobre, circulava pela nata da sociedade européia-e assim, das colunas sociais, acabou sendo imitada pela multidão de trabalhadoras.
Nesse mesmo período o homem deprimido pela guerra e pela situação  econômica mundial, começou a vestir, com freqüência, preto e cinza", compara Fernando de Barros, diretor da revista Claudia Moda. "Só recentemente, ele voltou a usar roupas coloridas. A moda masculina muda numa velocidade muito mais lenta do que a feminina." Para Barros, que nunca dispensa o par da gravata e do lenço guardado com falsa displicência no bolso do paletó, os homens são muito mais ligados em griffes da moda do que o sexo oposto-constatação que pode ser surpreendente. "Eles são muito mais técnicos, querem a roupa perfeita. As mulheres são mais criativas, aceitam o efêmero, querem sempre renovar", analisa com segurança.
Na verdade, as mulheres abandonaram a austeridade ainda na década de 40, quando Hollywood, a capital do cinema americano, passou a ditar a moda. Era a fantasia dos musicais contra o clima deprimente pós-Segunda Guerra. "O dia-dia incorporou o glamour dos filmes", nota a historiara da arte Cyntia Garcia, ex-estilista, diplomada em Florença, na Itália. Hoje, ela passa os dias prestando consultoria de moda a diversas confecções. "Na verdade, as pessoas o continuar seguindo a moda pelos mesmos motivos do homem primitivo A próxima revolução quem sabe, vai estar no estilo das roupas, com a chegada das fibras sintéticas", estima Cyntia. "Essas fibras permitem a criação de modelos como o próprio cinema já havia previsto para o futuro-coladas no corpo, tal como nos filmes de ficção científica. " 

Cifras em voga

Há muito dinheiro dentro da cesta da costura verde e amarela: as 13 830 confecções nacionais empregam 1,6 milhão de pessoas e, juntas, faturaram cerca de 25 bilhões de dólares no ano passado. Em comparação com 1989, porém, as vendas das vinte maiores empresas da área retrocederam, em média, 18,7%. Nesse período, a indústria têxtil também diminuiu 10% de sua produção As razões da queda não estão apenas na crise econômica, que multiplica o número dos descamisados, mas também na fabricação das fibras sintéticas: no Brasil, a matéria prima tem qualidade inferior e, para agravar, são bem mais caras. 

Dez anos para decifrar o cérebro - Biologia


DEZ ANOS PARA DECIFRAR O CÉREBRO - Biologia



Agora é pra valer: os cientistas proclamam a Década do Cérebro (1990-1999), durante a qual pretendiam desvendar todos os segredos do mais misterioso órgão do corpo humano, sera que conseguiram...

No final do ano passado, o aparelho de eletroencefalograma instalado no laboratório de neurociências da Universidade de Calgary, no Canadá, começou a desenhar ondas regulares, que representavam o ritmo cadenciado da respiração de uma Lymnaca-uma espécie de lesma marinha com pulmões. O exótico animal costuma subir à superfície da água, de instantes em instantes, abrindo um orifício para a entrada do ar. Mas, no centro de pesquisas canadense, não havia água salgada, nem lesmas. A pulsação registrada vinha, apenas, de três neurônios espetados por delgados eletrodos. O trio, em condições normais, deveria comandar a respiração da Lymnaca e aquela era a primeira vez que os cientistas conseguiam observar o sistema nervoso comandando uma função fora do organismo. Equivaleria a reproduzir uma gargalhada ou um espirro em tubo de ensaio, para se verificar literalmente a raiz do fenômeno: os neurônios, as células onde nascem todas as funções orgânicas, assim como as sensações, as emoções e os pensamentos. As células nervosas que serviram de modelo nessa experiência pioneira funcionam como um oscilador eletrônico conhecido pelos cientistas por flip-flop-dois transístores ligados de modo que um deles, ao conduzir a corrente elétrica em sua saída, impede a entrada da corrente do outro. Assim, um neurônio aciona o músculo envolvido na inspiração da lesma e, ao mesmo tempo, bloqueia um segundo neurônio, responsável por disparar o movimento da expiração. No momento seguinte, a situação se inverte. É o terceiro neurônio, no caso biológico, que controla os dois que irão oscilar, banhando-os com uma substância chamada dopamina, numa espécie de ordem química. Cientistas do mundo inteiro, agora, pretendem realizar estudos semelhantes, trocando o tipo de neurônio e substituindo, muitas vezes, a dopamina por outras substâncias neurotransmissoras, a fim de flagrar novos mecanismos do sistema nervoso.
A mesma técnica, aliás, já serviu para que neurologistas da Universidade Columbia, nos Estados Unidos, assistissem à modificação neuronal provocada pela memória. Eles imitaram o cientista russo Ivan Pavlov que, no início deste século, induziu cães a salivar toda vez que ouvissem uma campainha-sinal sonoro associado com o horário da refeição. Só que, no caso, os alunos eram 29 pares de neurônios, retirados de outra espécie de lesma marinha, a Aplysia. Um neurônio sensorial, representando o papel do ouvido do cão na experiência pavloviana, recebia um estímulo e acionava em seguida um neurônio motor, equivalente à salivação do bicho. Sem a presença de um neurotransmissor específico, chamado serotonina, aquele neurônio motor reagia como se estivesse sendo estimulado pela primeira vez. Com serotonina, porém, agora consagrada como uma substância fundamental ao aprendizado, a cada repetição o segundo neurônio respondia mais depressa, porque reforçava suas ligações, os axônios, com a primeira célula.
Na realidade, ao se lidar com circuitos simples, formados por poucos neurônios, o que se espera é montar, peça por peça, o intricado quebra-cabeça do  cérebro humano - a trama de nada menos que 100 bilhões de células nervosas. A tarefa hercúlea tem um prazo final bem definido: dez anos, que começaram a correr a partir do calendário de 1990. Ao menos, esse é o desafio dos cientistas americanos. Pois o presidente dos Estados Unidos, George Bush, sancionou lei instituindo a Década do Cérebro, que começou no ano passado. Nesses dez anos, as instituições governamentais ligadas à pesquisa devem destinar a maior fatia do orçamento ao estudo do sistema nervoso, enquanto as escolas e empresas privadas que financiarem essa investigação pagarão menos impostos. Com isso, a meta é injetar recursos nas experiências sobre o cérebro. O investimento é lógico: cerca de 50 milhões de americanos são vitimas de algum distúrbio neurológico e gastam, entre exames de diagnóstico e tratamento, aproximadamente 120 bilhões de dólares por ano, uma montanha de dinheiro equivalente ao valor da dívida externa brasileira. Diga-se de passagem, a Década do Cérebro arrancou com força total naquele país. Pois, logo em maio de 1990. pesquisadores da Escola de Medicina Johns Hopkins anunciaram a reprodução de neurônios humanos-células que, até então, tinham a fama de jamais se multiplicar, depois do nascimento.
A proeza foi realizada quando dois neurocirurgiões, Jeffrey Nye e Salomon Snyder, retiraram amostras do córtex-a superfície cinza-chumbo do cérebro-de uma garota de 18 meses, submetida a uma operação. As células extraídas foram mergulhadas em diversos coquetéis de nutrientes e hormônios do crescimento. Passados 21 dias, duas colônias de neurônios começaram a crescer, em vez de morrer como as outras. Elas, aliás, continuam dobrando de população a cada 72 horas. "A descoberta abre a possibilidade de testar drogas e estudar doenças de maneira direta", comemora o neurofisiologista carioca Roberto Lent, que coordena uma dúzia de grupos de pesquisas em neurociências, no Instituto de Biofísica da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Na opinião do cientista, embora criada nos Estados Unidos-país onde são realizadas quatro de cada dez pesquisas científicas publicadas no mundo -, a Década do Cérebro repercutirá em laboratórios distantes do território americano. "Tamanha a comunicação entre os pesquisadores, que é possível saber, no dia seguinte, de uma descoberta feita lá fora", afirma Lent, que fez doutoramento no conceituado Massachusetts Institute of Technology (MIT), com o qual há dez anos, mantém uma linha de colaboração. Um dos estudos desenvolvidos pelos cientistas cariocas é o da depressão alastrante, fenômeno descoberto pelo neurologista brasileiro Aristides Leão, ainda em 1944. "Trata-se de uma baixa elétrica global no sistema nervoso, que pode acontecer depois de uma superexcitação dos circuitos neuronais como nas epilepsias", descreve Lent. "Sabemos que isso eventualmente se relaciona com certos tipos de enxaqueca. Portanto, investigar como e por que essa depressão ocorre levará a novos tratamentos para aquelas terríveis dores de cabeça." A Medicina, sem dúvida, será a maior beneficiada com a recente efervescência dos laboratórios de Neurologia. Mas esses estudos têm ainda aplicações, visíveis no horizonte, na área de inteligência artificial. "Só conhecendo o cérebro humano é que se pode criar máquinas capazes de tomar decisões a partir de uma informação qualquer", informa Lent, que também desenvolve trabalhos de apoio aos cientistas da área de Informática da UFRJ. Nesse sentido, segundo o neurofisiologista, outra vez é mais importante investigar a intimidade das células nervosas do que insistir no mapeamento cerebral, isto é, na determinação de funções específicas para cada área do cérebro, que antes parecia ser a mania de muitos pesquisadores.
Nunca, é verdade, os cientistas reuniram tantos equipamentos para bisbilhotar o funcionamento do sistema nervoso e, conseqüentemente, para traçar mapas, indicando a participação de cada uma de suas regiões. No final dos anos 80, por exemplo, surgiu o PET, sigla em inglês para tomógrafo de emissão de pósitrons, como são chamados os elétrons com carga elétrica positiva. Esse aparelho cria a oportunidade de se observar o cérebro em plena ação: injetados na circulação, os pósitrons se chocam com os elétrons do organismo, provocando pequenas explosões que liberam raios gama. Desse modo, um detector desses raios acusa as áreas cerebrais mais irrigadas pelo sangue, logicamente, aquelas mais ativas em uma situação qualquer-quando a pessoa examinada, por exemplo, ri ou chora, dorme ou faz ginástica, faz cálculos matemáticos ou devaneia diante de um quadro.Ironicamente, novas técnicas, como o PET, mostram que o cérebro nem sempre se comporta de acordo com a expectativa. Sua estrutura é muito mais complexa do que imaginávamos", reconhece Lent. "Além disso, os mapas também podem enganar. Até há pouco tempo, acreditávamos que a linguagem dizia respeito exclusivamente ao hemisfério cerebral direito", exemplifica. "No entanto, quando ocorre uma lesão no hemisfério esquerdo, a pessoa pode continuar falando e compreender do o que ouve ou o que lê, mas deixa de exprimir suas emoções através da voz, torna-se monotonal. E o hemisfério esquerdo, portanto, que faz alguém berrar ou falar mansinho."Em vez de caçar o endereço das funções do cérebro no labirinto de sua massa cinzenta, muitos pesquisadores concentram suas atenções na possibilidade de regenerar os estragos na rede de neurônios, provocados por doenças ou traumas. "Nos anos 40, o sistema nervoso era considerado irrecuperável, isto é, uma vez lesado, danou-se", conta o neurologista Esper Cavalheiro. Chefe de um dos principais laboratórios de Neurologia Experimental do pais, o da Escola Paulista de Medicina, Cavalheiro recorda que, nos tempos de estudante, dizia-se que o papel do neurologista terminava no diagnóstico. "Isso desanimava tanto os cientistas como os investidores interessados em pesquisas", lamenta. Hoje, no entanto, Cavalheiro e seus colegas apagam da memória o velho conceito da irreversibilidade. "Caminhamos muito no sentido de reverter as lesões tanto do cérebro como do sistema nervoso periférico, ou seja, dos nervos espalhados pelo corpo", diz, com animação.A equipe de neurologistas da Escola Paulista de Medicina, por exemplo, uniu-se a pesquisadores de Biologia Molecular para criar falsos neurônios a partir de fibroblastos, células da pele envolvidas no processo de cicatrização. "Alteramos seus genes, para transformá-las em usinas de substâncias neurotransmissoras e depois as multiplicamos em meios de cultura", explica Cavalheiro. "Implantados no cérebro de cobaias, os falsos neurônios podem produzir dopamina, por exemplo, cuja escassez provoca as agruras do mal de Parkinson. A idéia é que eles acabem suprindo essa falta." A primeira etapa dessa experiência de implante tem enorme sucesso. Mas, então, o fibroblasto acostumado a se reproduzir com facilidade, para fechar rapidamente as feridas da pele, não pára de crescer. "Eles terminam se transformando em tumores cerebrais", esclarece Cavalheiro. "Mas o importante, por enquanto, é saber que somos capazes de fabricar neurônios sob medida para consertar um problema", contenta-se o pesquisador, que cogita a possibilidade de substituir os fibroblastos por neurônios retirados do sistema periférico-"como os dos nervos do intestino".
Aparentemente, o ideal seria implantar neurônios cerebrais na região lesada. "Não faz sentido, porém, criar um segundo dano no cérebro, arrancando-lhe um pedaço, para curar a primeira lesão", esclarece Cavalheiro. Para resolver o impasse, alguns países sondam a possibilidade de usar, nesses implantes, neurônios de cérebros de fetos, obtidos em abortos. Contudo, além da discussão ética, os cientistas esbarram na dificuldade de analisar o resultado dessas operações. "Até o momento, ainda não se sabe se as células fetais, uma vez implantadas, funcionam conforme o esperado ou se permanecem em um dormente estado embrionário, inabaláveis, sem provocar alterações de qualquer espécie", diz Cavalheiro com ar cauteloso.
O neurologista também se dedica à pesquisa de distúrbios, como a epilepsia, que representa cerca de 15% dos casos de doentes nervosos. "Nela é como se os neurônios, de repente, passassem a receber uma estimulação excessiva", define. "Sem compreender o novo código, eles passam sinais em alta freqüência para outros neurônios." Esse desajuste nos circuitos cerebrais pode se traduzir, enquanto dura a crise epiléptica, em movimentos involuntários, emoções como medo incontrolável ou percepção de odores inexistentes, entre inúmeros sintomas. "As causas do problema podem ser genéticas, traumáticas ou infecciosas", conta o professor. "Felizmente, hoje já se fala em neurogenética, isto é, em localizar os genes que provocam distúrbios no sistema nervoso. No futuro, quem sabe, os problemas se tornarão previsíveis, graças a exames com marcadores de DNA. Nossa meta é impedir a evolução dos distúrbios, em vez de simplesmente atenuar seus sintomas."Novos exames também buscam separar com precisão o que existe de Biologia em problemas que, antes, eram considerados puramente emocionais, como a depressão e as psicopatias. "A Psiquiatria voltou a ser Medicina, diagnosticando sintomas biológicos" opina um dos mais respeitáveis neurologistas brasileiros, César Timo-laria, professor da Universidade de São Paulo. Há mais de 25 anos, ele persegue no sistema nervoso pistas sobre a fisiologia do sono e da vigília e sobre o controle do metabolismo. "Ultimamente, examinamos as alterações do fluxo sangüíneo durante o alerta", conta Timo-Iaria. Segundo o neurologista, um dos sinais de que a pessoa está em alerta é o potencial elétrico da superfície cerebral ou córtex, que reduz a voltagem e aumenta a freqüência. Outro sinal é o diâmetro pupilar. "Embora ninguém consiga perceber a olho nu, a pupila vive oscilando conforme o grau de atenção", explica Timo-Iaria. "Durante uma conversação, ela se dilatará quando o assunto despertar maior interesse". exemplifica, sem abandonar o estilo didático. "Também existem alterações na circulação do sangue pelo cérebro, que é maior naquelas regiões que estão sendo mais solicitadas. Se estou olhando com atenção para algo, então irá mais sangue para as áreas do córtex relacionadas com a visão."De acordo com Timo-Iaria, o grande desafio desse estudo é o fato do alerta variar a todo instante. "Afinal. as pessoas estão sempre pensando. Mesmo aqueles faquires que fazem o diabo para relaxar a mente. na realidade só pensam em não pensar", brinca com as palavras o professor, orgulhoso de conhecer como poucos a língua portuguesa, aliás, sua segunda paixão, depois da Medicina. Prestar atenção, por fim, acelera o coração. Faz sentido. Para atender à demanda de sangue do cérebro, cujos neurônios em determinadas regiões foram subitamente ativados, ocorre uma dilatação dos vasos que conduzem o fluxo à cabeça. "Isso poderia acarretar uma queda brusca da pressão. Mas ocorre o contrário, pois o músculo cardíaco, para compensar, se contrai mais rápido e com mais vigor. No final, a pressão aumenta", descreve. César Timo-Iaria é aquele tipo de pessoa que nunca começa uma história sem ter um objetivo: "Qualquer fenômeno do sistema nervoso mobiliza outros sistemas do organismo", conclui.
Em suas investigações sobre o sono, ele recentemente passou a se concentrar nos sonhos de ratos-"mas pretendo, em breve, passar para gatos, animais que parecem ter nascido para a pesquisa do sistema nervoso", revela. Segundo o professor, os sonhos não provocam somente alterações nas ondas cerebrais, mas em todo o sistema nervoso, com manifestações corporais diversas. "Se alguém sonha que está seguindo uma pessoa, os olhos se movem; se sonha que escuta uma voz, os nervos do ouvido emitem sinais", garante. "Como o olfato é um sentido muito importante para os ratos, nesses animais nós registramos movimentos do focinho." Ao examinar a atividade elétrica da região cerebral do hipocampo, o neurologista flagra o instante em que o rato começa a sonhar. Outra indicação do sonho: "É a única fase do dia em que a musculatura fica completamente relaxada".
O mais interessante, porém, é que a expressão corporal do sonho costuma aparecer de meio a 2 segundos depois de seu início. "É mais ou menos o que, supõe-se, hoje, acontece na vigília. Há indícios biológicos de que uma pessoa só tem consciência de um ato ou pensamento-seja lá o que for- cerca de meio segundo após seu cérebro ter deliberado o que ela irá fazer ou idealizar." Por enquanto, porém, os melhores cérebros que se dedicam ao sistema nervoso pouco conhecem sobre esses mecanismos aquém da razão, a vala comum onde estão os desejos, os instintos, os sentimentos e, de acordo com essa teoria, também os pensamentos mais lógicos. Resta intuir se, daqui ao final da década, eles terão concluído algum raciocínio. 

A estrutura mais complexa do Universo

O que se sabe sobre o emaranhado de 100 bilhões de células do cérebro humano.O cérebro humano vale muito mais do que o cerca de 1.3 quilo que pesa: se pudesse ser esticado, seria o maior entre todas as espécies, pois sua superfície cor de chumbo, o córtex, esconde nas reentrâncias nada menos de 9 décimos de sua área. Ali, no córtex, está sediada a maioria dos neurônios, células com milhares de prolongamentos, feito galhos -os dendritos, por onde chegam as informações das outras células nervosas. Na verdade, cada um dos 100 bilhões de neurônios cerebrais está ligado a 10 000 outros, aproximadamente, o que significa que ele pode receber 10 000 mensagens ao mesmo tempo. Ao processar esse colossal número de dados, o neurônio chega a uma única conclusão, que envia por uma saída exclusiva-um prolongamento chamado axônio.Um neurônio, porém, jamais encosta em outro e a informação salta no vazio graças a proteínas sintetizadas pelas próprias células nervosas: os neurotransmissores. "Hoje em dia, conhecem-se mais de 100 dessas substâncias", contabiliza o neurologista Esper Cavalheiro, da Escola Paulista de Medicina. "O mais interessante é que, cada uma delas, parece ter diversas funções no cérebro." É uma questão espacial, ou seja, de acordo com o pedaço da molécula que se encaixa em um receptor, na membrana de outro neurônio, o neurotransmissor provocará determinada reação. "Os cientistas, com freqüência, encontram novos receptores nas células cerebrais, indicando funções diferentes para neurotransmissores, cuja molécula, muitas vezes, já conheciam havia bastante tempo." 


O atalho das emoções

Cientistas da Universidade de Nova York, nos Estados Unidos, há apenas seis meses, derrubaram a teoria de que as emoções são percebidas exclusivamente na área cerebral do hipocampo. Segundo eles, amor e ódio podem ser disparados por outra região, a amídala, que fica nas proximidades do tálamo, a área que coleta os sinais sensoriais. Quando se reconhece o rosto de alguém. a amídala pode adicionar o registro de que você decididamente não gosta daquela pessoa. Esse acréscimo não passa pelo córtex, ou seja, não se toma consciência da emoção-a repulsa pelo outro, no caso do exemplo, é instintiva.Trata-se de um atalho neurológico: de acordo com os cientistas, que analisaram os dados do encefalograma de voluntários com a ajuda de um computador, à reação emocional da amídala economiza 40 milissegundos em relação à reação do hipocampo. Pode parecer uma fração insignificante de tempo, mas os pesquisadores desconfiam que esse intervalo ínfimo faz a maior diferença. Assim, o tálamo pode receber uma imagem, captada pelos olhos, que o hipocampo identifica como uma corda retorcida-mas, um instante antes de isso acontecer. a amídala la já teria acionado o reflexo do pulo. desencadeado pelo medo de aquela corda ser uma cobra. 

Biotérios Quatro e Cinco Estrelas - Biologia


BIOTÉRIOS QUATRO E CINCO ESTRELAS - Biologia



Cama trocada todos os dias, água limpíssima, refeições preparadas com esmero, ar absolutamente puro - tudo isso devem oferecer os locais em que se criam animais para experiências científicas.

Ali, não é qualquer um que consegue entrar e nem se entra de qualquer jeito. Primeiro, o visitante abandona os sapatos, pula o muro de 0,5 metro e apanha chinelos. Então, um corredor comprido conduz ao banheiro, onde quatro duchas, juntas, expulsam do corpo nu a sujeira vinda de fora. Uma roupa esterilizada fica à espera. De banho tomado e vestida como um cirurgião, a pessoa abre a porta que dá para um cubículo, menor do que um elevador, decorado apenas com um interfone. Ela, assim, pede autorização para passar e, se a resposta é positiva, recebe jatos de ar, que correm do teto em direção ao chão, para varrer eventuais clandestinos, como insetos -afinal o banheiro ainda fica em uma área considerada suja. Só quando se destranca a outra porta do cubículo, oposta à primeira, é que se vai para a chamada área limpa, freqüentada apenas por quem passou por todo esse ritual e pelos animais destinados a experiências científicas.
Esse é o roteiro de quem visita o biotério central da Universidade de Campinas (Unicamp), no interior de São Paulo, um dos raros exemplares brasileiros que seguem os padrões internacionais estabelecidos para esses locais de criação. "As portas que interrompem o percurso têm maçanetas eletrônicas, acionáveis só de um lado- o de entrar, nunca o de sair. É um caminho sem volta", explica a bióloga Delma Pegolo Alves, que coordena o setor de gnotobiologia, ou seja, das cobaias cujos parasitos do organismo são bem conhecidos. A impossibilidade de retornar é uma medida de segurança: "Caso alguém se contamine em um dos ambientes, não levará o agente da infecção para outro lugar da área limpa", diz Delma. "Isso porque, quando já está dentro de uma câmara, como chamamos a sala em que ficam os animais, a pessoa só tem uma saída, que é voltar para a área suja."
Mas não existem apenas cuidados de percurso. Um biotério, como o da Unicamp, tem de ser um lugar especial até no próprio projeto do prédio. As câmaras dos animais devem ficar no miolo da construção, cuja pressão atmosférica é programada para ser maior do que a do corredor, a qual por sua vez é maior do que a de áreas mais externas e mais sujas, entre aspas, do edifício. Desse modo, o ar tende sempre a escapar para fora. Se alguém, por exemplo, passeia por ali com um germe de carona na roupa, é grande a probabilidade do microorganismo invasor voar para longe das câmaras. "Além disso, a cada hora ocorrem quinze a dezoito trocas de ar, que é filtrado, mantendo se puríssimo", conta a bióloga. Delma planejava trabalhar em um laboratório de Medicina, quando se formou. Mas, então, assistiu a um vídeo sobre bioterismo: "Fiquei encantada", recorda. O resultado é que há cinco anos, vaidosa, desfila de colar de pérolas entre ratos e camundongos.
"Muitos cientistas nem sequer fazem idéia sobre o que é um verdadeiro biotério-muito diferente de uma sala com um amontoado de gaiolas, como, infelizmente, se encontra em diversas escolas e centros de pesquisas brasileiros", critica a imunologista Teresa Kipnis, da Universidade de São Paulo. "Ao pensar em cobaias, a maioria das pessoas lembra que costumam morrer depois de experimentos científicos, sem se preocupar em como elas passam a vida", diz ela, famosa entre os pesquisadores por lutar pelo estabelecimento de melhores biotérios no país.
De fato, muitos animais são sacrificados em laboratórios. Mas, em princípio, eles não devem sentir qualquer sofrimento. Condená-los dessa maneira faz parte da luta pela sobrevivência do homem tanto quanto se alimentar com uma salsicha-feita a partir de um porco também criado para morrer, só que sem anestesia. No Rio de Janeiro, por exemplo, o Instituto Vital Brasil mata cerca de 17 000 camundongos, oitenta cobaias e sessenta coelhos por mês. Mas, com isso, são fabricadas 60 000 doses de soro antiofídico, 120.000 doses da vacina anti-rábica e 5 milhões de doses da vacina antitetânica, produtos que podem ser vitais. Sobretudo, os animais de laboratório são fundamentais à pesquisa, que irá utilizar determinada espécie conforme sua finalidade. Hoje em dia, é verdade, os pesquisadores procuram economizar cobaias, deixando-as para a última etapa de seu trabalho, iniciado com simulações em computador ou mesmo observando-se culturas de células em tubos de ensaio.
Sem os animais, contudo, a roda das ciências biológicas não teria girado: talvez ainda se acreditasse que os organismos obedecem a leis mecanicistas sendo um punhado de células isoladas entre si, funcionando certinhas como um relógio. Na década de 1870, porém, o francês Claude Bernard (1813 -1878), um dos precursores da Fisiologia experimental demonstrou com a ajuda de cobaias que existia uma relação entre todos os órgãos. Mas hoje se sabe: não é qualquer animal que serve para o pesquisador. "Às vezes, precisamos de uma cobaia com certa doença hereditária, para estudar um fenômeno especifico. Mesmo assim, ela não pode ter outros problemas de saúde, porque isso influenciaria o resultado da experiência. Daí os biotérios oferecerem tantos cuidados quanto um berçário", compara o imunologista Mário Mariano, professor do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo, ao qual pertence um dos melhores biotérios brasileiros-o de camundogos isogênicos, isto é, camundongos que possuem os mesmos genes. Dessa maneira, os camundogos da chamada linhagem Balb-C que se encontram em um laboratório brasileiro são idênticos aos Balb-C da China ou dos Estados Unidos. "Desse modo, uma experiência realizada aqui pode ser repetida em qualquer lugar do mundo", conclui Mariano.
Segundo o imunologista, as linhagens de laboratório têm duas características: sua bagagem genética é bem conhecida; além disso, são selecionados geneticamente os animais mais mansos e fáceis de manipular. No Brasil, por enquanto, o biotério da Unicamp é o único que possui um banco de embriões, para preservar essas linhagens sob medida para a pesquisa. "Não teremos de importar novamente os bichos, toda vez que eles forem contaminados", comemora o microbiologista baiano Humberto Rangel, que dirige o biotério. Os embriões são retirados das trompas maternas e congelados, cinco dias depois da fecundação, quando somam entre quatro e oito células. "Mais tarde, eles poderão ser implantados em qualquer fêmea, mesmo que ela pertença a outra linhagem", diz Rangel. Antes disso, porém, é preciso realizar a vasectomia no macho que irá acasalar com a mãe de aluguel. Sim, porque sem esse namoro prévio o organismo da fêmea, como ocorre na maioria das espécies, não produz os hormônios que mantêm a gravidez-e ela aborta.
Outra cirurgia na rotina dos biotérios é a histerectomia, no caso uma espécie de cesariana com a finalidade de limpar -no jargão dos especialistas-uma linhagem. "Quando os filhotes de uma fêmea infectada estão para nascer, nós retiramos todo o útero", descreve a veterinária Rosália Regina De Luca, acostumada a fazer a operação no biotério de isogênicos da USP, o qual ela chefia. O vidro que divide a pequena sala cirúrgica é cortado por uma banheira, repleta de solução anti-séptica. Nela, Regina mergulha o útero extraído. Um cirurgião, no outro lado, apanha a bolsa e reanima depressa uma por uma das crias, que ficaram temporariamente sem receber oxigênio. De tão pequenas, a massagem para ressuscitar o coração é feita com um cotonete. "Como, durante a gestação, os filhotes estavam protegidos pela placenta, capaz de barrar os germes, e mais tarde, durante o parto, não tiveram nenhum contato com o corpo infectado da mãe, eles nascem limpos, ou seja, sem herdar a infecção", conclui Regina.
O trabalho, porém, não termina aqui. "Programamos uma fêmea para dar crias poucos dias antes da histerectomia, assim ela pode servir de ama-de-leite. O problema é que ela só irá cooperar se for enganada", conta a veterinária. É um seqüestro: enquanto alguém distrai a mãe zelosa, outra pessoa troca os filhos legítimos pelos camundongos órfãos. "O truque é sujá-los com a maravalha que revestia a cama da primeira ninhada", revela Regina. "Com um pouco de sorte, a fêmea irá ignorar as diferenças, ao sentir o cheiro dos próprios filhotes."
No biotério de isogênicos da USP, os camundogos são SPF-sigla do nome em inglês, que significa livre de patógenos específicos. "São animais que possuem apenas as bactérias da própria flora intestinal, sem nenhum parasito estranho, capaz de provocar doenças", esclarece Regina. Por criar linhagens SPF, o biotério recebe a classificação de quatro estrelas. Sim, porque tais quais hotéis, os biotérios são devidamente estrelados. Uma única estrela recebem os biotérios onde não há nenhum tratamento especial com os animais, que no caso podem ser até doentes; duas estrelas vão para aqueles biotérios com animais sem determinadas bactérias que costumam provocar diarréias; três estrelas merecem os biotérios com barreiras, como filtros de ar para evitar as contaminações; quatro estrelas são para os que criam SPF; na categoria máxima, a das cinco estrelas, estão os biotérios de animais germfree -em inglês, livre de germes-que não têm sequer as bactérias da flora intestinal.
Manter um biotério quatro estrelas já não é fácil. O biotério da USP conta com sistemas de barreiras similares aos da Unicamp. Todo dia, os funcionários trocam cama por cama dos camundongos, forrada de maravalha de pinho. "De acordo com testes, essa madeira oferece menor risco de alergias nos animais", esclarece Regina. Tudo, do bebedouro à comida propriamente dita é esterilizado em autoclaves. O material também recebe banhos de ultravioleta, raios que têm ação bactericida. Além disso, periodicamente, é feita uma série de testes em 10% dos animais, a fim de flagar microorganismos indesejáveis. Os animais isogênicos, especificamente, exigem exames extras, com substâncias marcadoras de DNA, a fim de mapear seus genes, para verificar se continuam, de fato, idênticos entre um indivíduo e outro.
Para obter animais isogênicos, os cientistas cruzam vinte gerações de irmãos-os acasalamentos e os nascimentos ficam gravados na memória de um computador que pode fornecer rapidamente a árvore genealógica de qualquer animal do biotério. "Para saber se os bichos são isogênicos, realizamos um transplante", ensina a bióloga Sílvia Maria Gomes Massaroni, da USP. Sílvia corta a orelha de um camundongo, para costurá-la nas costas de outro. "Se não necrosar, passados 100 dias, é porque os dois organismos são idênticos", raciocina a bióloga, com jeito sereno. "Tantos cruzamentos entre irmãos, aumenta as chances de mutações".
As mutações, no entanto, às vezes são bem-vindas. "Nem sempre elas resultam em um monstrinho", afirma a bióloga Mirian Ghiraldini, da Escola Paulista de Medicina. Entre os 6 000 ratos que seu biotério abriga estão os de uma linhagem de hipertensos, que surgiu na Universidade de Quioto, no Japão. Mirian, sempre falante, mostra o aparelho que tira a pressão do rato pela cauda. "Ele é um dos modelos preferidos pelos cardiologistas", brinca. Outro mutante no biotério é um ratinho com um tipo de diabete em que não se produz o hormônio antidiurético, com o qual o organismo prende o líquido de que necessita. "Por acaso, um pesquisador americano notou que o bebedouro daquele rato estava sempre vazio", conta Mirian. "Constatada a mutação o sumiço da água fazia sentido: diabete deixa as vítimas sedentas." O metabolismo de uma cobaia pode ser avaliado em uma gaiola redonda de vidro. "Deixamos o animal doze horas ali dentro", explica Mirian. "Sabemos quanta água há no bebedouro e quantos gramas de ração, no prato. Assim, podemos calcular o consumo do animal nesse período." O Brasil também tem o seu mutante, um rato completamente careca chamado Paraíba, numa homenagem ao Estado em que apareceu. "Ele possui um sistema imunológico deficiente. Vamos cruzá-lo para tentar obter uma linhagem. Ela ajudará em pesquisas como a da AIDS", acredita.
A dificuldade do biotério da Escola Paulista de Medicina é ser multiespécie, reunindo ratos, camundongos, cobaias e coelhos. "O que não causa mal em uma espécie pode provocar doenças em outra", admite a bióloga. A pior batalha, porém, é a de um biotério cinco estrelas, para impedir o acesso de absolutamente qualquer microorganismo. O único cinco estrelas brasileiro está na Universidade Federal de Minas Gerais, em Belo Horizonte. Nele, os camundongos ficam dentro da proteção dos isoladores. Mas, há dois meses, mal pisou no biotério, às 7 da manhã como de costume, a técnica Ronilda Santos sentiu um cheiro estranho. Os colegas, a princípio, discordaram: "Afinal, aqui não se nota sequer o odor de ração e do pêlo dos animais, que ficam isolados", explica a técnica. Mas o nariz de Ronilda, apurado pelos quinze anos de experiência lidando com cobaias sem germes, notou que os bichos estavam contaminados. Felizmente, o biotério já importou novos animais.
O célebre microbiologista francês Louis Pasteur (1822 -1895) imaginava que seria impossível conseguir um animal sem parasitos - se existisse um ovo asséptico, então o filhote se contaminaria pela alimentação. Contudo, em 1928, R. Kimura, no Japão, e J. Reyniers, nos Estados Unidos, criaram filhotes nascidos de cesarianas com uma, dieta esterilizada. "Esses animais são extremamente úteis para a Medicina, porque têm um sistema imunológico praticamente virgem", ressalta o médico mineiro Ênio Vieira, que trouxe os primeiros exemplares de camundongos sem germes para o Brasil, há sete anos. "Só praticamente, porque os alimentos excitam as células de defesa", diz ele, especialista em alimentação.
Cheio de humor, Vieira mostra a pasta lotada de papéis-onde se lê, na etiqueta, Dia de São Nunca-perdida sobre a mesa, entre pilhas de projetos de estudos. "Com essas cobaias, podemos notar exatamente como as vitaminas influem no sistema imunológico ou observar até que ponto as cáries dentárias são provocadas pelos alimentos e pelas bactérias", conta animado. Hoje em dia, porém, ele prefere se dedicar à pesquisa de doenças freqüentes no Brasil, como o mal de Chagas. "Comparamos esses problemas em animais sem germes e animais convencionais. Temos descoberto coisas curiosas", revela. Segundo o professor, a flora bacteriana do intestino parece interagir com o organismo, ajudando-o a se defender em muitos casos. "Uma única salmonela, encontrada no alimento, é capaz de matar um camundongo sem germes", nota Vieira. "Podemos infectar o camundongo convencional com 10 000 salmonelas, que nada lhe acontece." Noventa por cento do número de células presentes no organismo humano são alheias, isto é, são bactérias da flora. "É natural que essa massa celular tenha um papel importante", opina a bióloga Leda Quércia Vieira.
Filha do professor Ênio, depois de fazer mestrado na Escócia, ela voltou para o laboratório chefiado pelo pai. É dela o desafio de entender como essas bactérias influenciam fenômenos aparentemente distantes. "Se inocularmos amostras da flora de um animal em um camundongo sem germes, ele se torna capaz de aceitar o implante de um órgão do primeiro. Sinal de que a flora tem algum papel nos mecanismos de rejeição-resta saber qual." Estudos como esse, no entanto, ficam emperrados cada vez que os bichos se contaminam. "Seremos menos dependentes quando existir mais biotérios cinco estrelas", torce Leda. 

Licença para matar

No ano passado, na Inglaterra, nove cientistas perderam a licença do governo para pesquisar, acusados de realizar experiências sem anestesiar os animais. "No Brasil, falta fiscalização", reclama a bióloga Mirian Ghiraldini, da Escola Paulista de Medicina. "Poucas pessoas sabem, mas é proibido usar animais em escolas de primeiro ou segundo grau, até mesmo para mostrar em feira de ciências", exemplifica. Por sua vez, segundo a veterinária Rosália Regina De Luca, da USP, as aparências podem enganar: "O que parece tortura, às vezes é uma maneira de proteger o animal. Amarrá-lo, em certos casos. é a melhor forma de evitar que ele, ao se debater, acabe se machucando", diz ela. "Os sacrifícios, porém, só deveriam ser permitidos sem dor".

C=203.204

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Com auxílio até de computadores, as modernas indústrias papeleiras fabricam toneladas de folhas por
dia. Há, porem, o desafio de conseguir matéria-prima para a demanda gigantesca.

Separam-se os filamentos de um vegetal qualquer para misturá-los com água até que assim, em suspensão, possam se emaranhar sobre um molde poroso. Depois de prensar e secar a massa, obtém-se uma película fina de celulose. Simples, a receita básica do papel, criada há quase dois milênios. é cada vez mais aplicada. Algumas pessoas chegaram a imaginar que o enorme consumo global desse produto diminuiria com a incorporação, no dia-a-dia, de recursos como a Informática. Mas quem arriscou esse palpite acabou fazendo um papelão, porque, de fato, a última década fechou gastando o dobro de celulose em relação à anterior.
Na realidade, o que se observa são trocas de papéis: os balanços das empresas, por exemplo, vêm dispensando as tradicionais folhas sulfites para serem impressos em metros dos formulários contínuos de computadores: já o papel timbrado das cartas pode ser substituído pelo papel térmico do fax. Engordando a demanda, as campanhas ambientalistas muitas vezes triunfam no sentido de aposentar o plástico das embalagens, cuja vida se aproxima do infinito, promovendo o retorno do reciclável papel cartão. Se insistir nesse ritmo de crescimento, a necessidade de papel no ano 2000 será cinco vezes maior do que a atual, uma projeção que aflige os pesquisadores. Pois, com os indíces vigentes de reposição de árvores, não há fibra no planeta que dê conta de toda essa papelada. Ao menos, por enquanto. Hoje, a madeira representa 95% da matéria-prima fibrosa usada pela indústria papeleira. No entanto, os cientistas começam a examinar com atenção fontes alternativas, como folhas de carnaúba, palmito e, mesmo, bagaço de cana. Além disso, laboratórios americanos e japoneses desenvolvem papéis de fibras sintéticas - feito o náilon -, embora seu preço ainda seja proibitivo.
De certo modo, a história se repete: não é a primeira vez que o homem se vê obrigado a buscar novos suportes à escrita. A pedra, em que os egípcios relatavam episódios importantes há mais de 6 500 anos, foi provavelmente o primeiro deles. três mil anos mais tarde, porém, os babilônicos criaram a tábua de argila-entre eles, a educação era obrigatória, ou seja, quase todo mundo escrevia e não era nem um pouco prático fazê-lo em monolitos. A popularização da escrita, aliás, levou os povos mediterrâneos a desenvolver tabuletas portáteis cobertas de cera, que podiam ser polidas e, desse modo, grafadas repetidas vezes. Já os orientais, em geral, empregavam folhas- daí essa palavra ser sinônimo de páginas-costuradas feito livros. Os antigos gregos e romanos, contudo, preferiam gravar em chapas metálicas, até que os egípcios inventaram o papiro, no início da era cristã, trançando fatias finíssimas de uma planta com o mesmo nome, das margens do rio Nilo.
No século II, o papiro fazia tanto sucesso entre os gregos e os romanos, que os mandatários do Egito decidiram proibir sua exportação, temendo a escassez do produto. Isso disparou a corrida atrás de outros materiais e não tardou que, na cidade de Pérgamo, na Antiga Grécia (hoje, Turquia), se encontrasse o pergaminho. obtido da parte interna da pele do carneiro. Grosso e resistente, ele era ideal para os pontiagudos instrumentos de escrita dos ocidentais, que cavavam sulcos na superfície do suporte, o quais eram, depois, pacientemente preenchidos com tinta. O pergaminho, entretanto, não era liso e macio o suficiente para resolver o problema dos chineses, que praticavam a caligrafia com o delicado pincel de pêlo, inventado por eles ainda no ano 250 a.C.-só lhes restava, assim, a solução nem um pouco econômica de escrever em tecidos como a seda. E tecido, naqueles tempos antigos, podia sair tão   caro quanto uma pedra preciosa.
Provavelmente, o papel já  existia na China desde 0 século Il a.C., como indicam os restos em uma tumba, na província de Shensi. Mas o fato é que somente no ano 1 05 A C. o Oficial da corte. T´sai Lun anunciou ao imperador a sua invenção. Tratava-se, afinal, de um material muito mais barato do que a seda, preparado sobre uma tela de pano esticada por uma armação de bambu. Nessa superfície, vertia-se uma mistura aquosa de fibras maceradas de redes de pescar e cascas de árvores. "No fundo, fazer papel ainda é molhar as fibras, socar e deixar secar", resume a museóloga paulista Lourdes Cedran presidente da Associação Brasileira de Papel Artesanal (Abrapa), que reúne 45 sócios, dispostos a colocar literalmente as mãos na massa, imitando a velha técnica que, aliás, os chineses esconderam por 600 anos 
Aproximadamente no ano 750 d.C., dois artesãos da China foram aprisionados pelos árabes. na antiga cidade de Samarkanda, aos pés das montanhas do Turquestão, hoje território soviético. A liberdade só lhes seria devolvida com uma condição-se eles ensinassem a fabricar o papel, que assim iniciou sua viagem pelo mundo. No século X, foram construídos moinhos papeleiros em Córdoba, na Espanha. "Os demais países da Europa, fervorosamente cristãos, demoraram para aceitar o produto oferecido pelos árabes", nota Lourdes. "Usava-se como desculpa a fragilidade do papel em comparação ao pergaminho."
Para diminuir essa desvantagem, os italianos da cidade de Fabriano começaram a fabricar papéis, por volta de 1268, à base de fibras de algodão e de linho, além de cola-substancia que, ao envolver as fibras, tornava-as mais resistentes às penas metálicas com que escreviam europeus. Quanto ao preço, no entanto, papel e pergaminho empatavam, pois era muito difícil conseguir roupas velhas para extrair a celulose. Quando, na Renascença, o advento da imprensa fez o consumo de papel aumentar terrivelmente, os ingleses chegaram a determinar que as pessoas só poderiam ser enterradas com trajes de lã, a fim de poupar os trapos de algodão, deixados compulsoriamente de herança para os papeleiros.
Já não se faz papel como antigamente, embora os especialistas reconheçam que o algodão oferece as melhores fibras. Economicamente é mais interessante que essa matéria-prima seja encaminhada à indústria têxtil. Mas até hoje o papel-moeda, por exemplo, não dispensa esse nobre ingrediente, que por ter fibras longuíssimas faz um produto difícil de se rasgar e de grande longevidade. O algodão demorou para ser substituído. Somente em 1719, o entomologista René de Réaumur (1683-1757) sugeriu trocá-lo pela madeira. Ele observou vespas construindo ninhos com uma pasta feita a partir da mastigação de minúsculos pedaços de troncos. Sob lentes de aumento, a obra das vespas e a dos artesãos papeleiros eram muito parecidas.
A idéia de Réaumur foi mal recebida, por questão estética: a celulose extraída da madeira dava origem a uma pasta de cor parda. Até o final do século XVIII, escrever em uma folha branca era um verdadeiro luxo-já era difícil conseguir qualquer pedaço de pano e essas folhas, particularmente, só podiam ser obtidas de tecidos igualmente alvos . Em 1744, porém, uma descoberta iria impulsionar a fabricação do papel com a celulose de árvores: o químico sueco Karl Scheele (1742-1786) isolou a molécula do cloro e revelou seus efeitos alvejantes. Ou seja, daí em diante, era possível produzir papel branco com qualquer madeira, que se tornou a protagonista do processo.
"São necessárias poucas horas desde o momento em que a árvore tomba no chão para que se comece a extração da celulose", conta Antonio dos Santos, o Riska, apelido que ganhou no time de futebol da escola primária e pelo qual é conhecido na Ripasa, uma das maiores indústrias de celulose e papel do país. Ali, ele é o gerente de produção, embora nunca tenha entrado na faculdade. "Trabalho há trinta anos no setor papeleiro", orgulha-se ele, capaz de escalar as imensas máquinas da empresa, que as vezes alcançam  10 metros de altura, para explicar cada detalhe de seu mecanismo. Em alguns segundos, equipamentos descascam os troncos de eucalipto, a espécie preferida pelos brasileiros para a extração de celulose. "As cascas são aproveitadas em caldeiras, e se transformam em combustível", diz Riska.
Outro equipamento pica as toras já descascadas com a precisão de um exímio cozinheiro, em cubos de 1,5 a 2 centímetros de espessura, nem mais, nem menos. "Esses pedaços de madeira, os cavacos, devem ser todos o mesmo tamanho para que se consiga celulose de boa qualidade", determina o gerente de produção. Faz sentido: dali, após serem lavados para não sobrar um grão de areia ou da terra, os cavacos passam para gigantescas panelas de pressão, os digestores, onde são cozinhados numa temperatura de 170 graus Célsius. "Se fossem de tamanhos diferentes, alguns cavacos ficariam no ponto antes de outros", explica Riska.  O cozimento costuma demorar somente duas horas, porque esses toquinhos são mergulhados em um caldo leitoso, o licor branco, que combina soda cáustica e sulfeto de sódio, entre outros ingredientes. Essas substâncias são catalisadoras, isto é, aceleram certas reações que, no caso, provocam  a dissolução na água de tudo o que não é celulose, como a lignina - outro componente da madeira, cujas propriedades vêm sendo estudadas, para seu uso industrial como adesivo ou aromatizante.
Outra lavagem com água fresca separa a celulose do restante-agora um caldo escuro, a lixívia negra, que pode ser reciclada para que os componentes formem novamente o licor branco do início do processo, em vez de poluirem rios. "A massa de celulose serve diretamente para se fazer papel pardo ou papelão", conta Riska. Ou é tratada com cloro para se tornar branca."
Na hora de fabricar o papel propriamente dito as laminas de celulose são molhadas em água, dentro de liquidificadores tamanho família. Nessa fase, misturam-se também aditivos, conforme a finalidade. "Acrescentamos sabões à base de resina vegetal, quando queremos um papel que dificilmente se desmanche em água, como o dos coadores descartáveis de café", exemplifica Riska. Indispensável, porém, é a adição do amido, que funciona como um adesivo entre as fibras de celulose.

Olhando-se um papel no microscópio, vê-se que essas fibras nem sempre se dispõem homogeneamente-ora estão mais unidas; ora, mais separadas. "Sem o amido. tapando os buracos dessa superfície, o papel daria sempre a impressão de estar engordurado, com partes mais transparentes e partes mais opacas" descreve Riska. A pasta de celulose é finalmente derramada na máquina de papel, que surgiu ainda em 1799, criada por dois ingleses, os irmãos Fourdrinier. Ela se divide em três seções: formação, prensas e secagem.
"As máquinas modernas produzem 1 200 metros de papel por minuto", informa José Luiz Malerbi gerente de marketing da Voith, empresa alemã que está entre os três maiores fabricantes mundiais de equipamentos para a indústria papeleira. "Essa velocidade é para compensar os dois anos que elas demoram para ficar prontas", brinca. Uma máquina é sempre desenhada de acordo com as características da encomenda. "Com mais de 125 metros de comprimento é 10 metros de altura, só vale a pena montá-la em seu endereço definitivo", conta Malerbi.
Os equipamentos mais recentes, como os que se encontram na fábrica da Ripasa, em Americana, interior de São Paulo, são monitorados por computador. Na tela, o técnico pode ver o desenho do tanque de celulose e conferir se ele está cheio da pasta. Com aparência de coalhada, ela se derrama em jatos na chamada mesa formadora-o que também pode ser visto na telinha -, cujo comprimento é comparável ao de uma piscina olímpica. A massa é jorrada em alta velocidade-para haver o mínino de turbulência, o que provocaria ondulações no papel-, através de inúmeros tubinhos, dispostos na mesma direção em que se pretende deixar as fibras. Isto é, no papel de boa qualidade, esses microscópicos fios de celulose não se espalham ao acaso, mas enfileiram-se longitudinal ou transversalmente.
Ao sair da mesa formadora, a composição da folha é 80% água e 20% sólidos. Parte dessa água será retirada por pesadas prensas de aço, revestidas com feltros de fibras sintéticas. O revestimento, idéia que os alemães tiveram ainda em 1829, ajuda a alisar a folha, aumentando seu brilho. No final da seção de prensagem, apenas seis em cada dez moléculas do papel, que viaja a 60 quilômetros por hora na esteira do equipamento, são de água. Durante o percurso, o líquido é sugado por rolos perfurados e, então, escoados até um tanque sob a máquina.
"Essa água é filtrada para ser novamente aproveitada", conta Eduardo Antonio Mambrim, gerente de meio ambiente da Ripasa. Depois de trabalhar trinta anos na produção de papel, ele se anima com o desafio de arrancar dessa indústria a fama que sempre teve - a de destruir florestas para conseguir matéria-prima, ser poluidora, despejando, por exemplo, o cloro do branqueamento nos rios e, ainda, consumir água indiscriminadamente. Segundo Mambrim, graças a um sistema fechado, que não permite muita perda do líquido cada máquina gasta apenas cerca de 420 000 litros de água por dia o equivalente a cerca de três banheiras comuns cheias.
Na parte final da prensagem, a folha passa por cilindros aquecidos com vapor, até ficar com 4 a 5% de água. "Nesse setor, ela pode receber ainda banhos de substâncias específicas na superfície", explica Mambrim. Por exemplo, o papel que embala seringas descartáveis são revestidos com camadas de bactericidas, servindo assim de barreira, que evita a contaminação do produto embrulhado. Cada máquina moderna fabrica entre 400 a 600 toneladas de papel por dia. No ano passado as indústrias brasileiras, juntas, produziram 1 321 000 toneladas de papel para escrever e imprimir; 246 000 toneladas de papel de imprensa para jornais; 2 269 000 toneladas de papel para embalagem; 404 000 toneladas de papel sanitário; 487 000 toneladas de cartões e cartolinas; 116 000 toneladas de papéis especiais, como os dos passaportes. Contudo, apenas um terço de todo esse papel é reciclado-isso é metade do que reaproveitam países como o Japão, a França e a Alemanha.
Para conseguir fibras para essa montanha de papel novinho em folha, a Aracruz, por exemplo, que lidera o mercado nacional de celulose, derruba 11 900 eucaliptos por dia, aproximadamente. "Para evitar danos à natureza, não basta um simples programa de reflorestamento", adverte Leopold Rodés, ex-diretor do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), em São Paulo, que hoje dá consultoria à Klabin, a maior fabricante brasileira de papel. "É preciso plantar aquelas árvores com maior quantidade de madeira e mais resistentes às pragas." Para Rodés, com isso as indústrias poderiam manter a produção de papel, serrando menos eucaliptos. Segundo o engenheiro florestal José Zani Filho, da Ripasa, no Brasil o eucalipto cresce em menos de sete anos, graças a um feliz casamento de clima e solo: "No Hemisfério Norte e o mesmo na Austrália, o período de amadurecimento é de 20 a 25 anos", compara. "Podemos acelerar um pouco mais o crescimento, verificando a influência de cada componente do solo". A paixão de Zani, no entanto, é passar o dia trancafiado na estufa, em Araraquara, interior de São Paulo, onde crescem milhões de mudas de eucaliptos dentro de tubetes, feito provetas. "Escolhemos as melhores sementes sob lentes de aumento", conta. "No ano passado, plantamos 20 milhões de eucaliptos, 2 milhões a mais do que cortamos", comemora.

O nobre bagaço da cana

Fazer papel com a celulose extraida do bagaço de cana-de-açúcar começa a se tornar possível, com resultados semelhantes aos dos processos que utilizam madeiras. Pesquisas realizadas por Priscila Benar, do Instituto de Química da Unicamp, SP, mostram que o rejeito das usinas de açúcar e álcool pode ser aproveitado pelas indústrias de papel, com a vantagem de não prejudicar o ambiente. Graças a esse trabalho, ela ganhou o Prêmio Jovem Cientista de 1990, no último mês de junho.
A extração da celulose foi baseada em um método europeu que, no caso, combina madeira de pinus e solventes orgânicos, como etanol e acetona. Com um processo parecido, Priscila, primeiro, separou os componentes do bagaço, atacando-o com ácido acético, o popular vinagre, e catalisadores capazes de adiantar a obtenção da polpa de celulose. Esses reagentes são reaproveitados, numa escala de 90 a 95%, evitando a poluição ambiental.
Depois, a química de 23 anos desenvolveu um projeto, inspirado na planta piloto de uma fábrica de celulose alemã. "Nela, o espaço físico ocupado é dez vezes menor que o de uma indústria papeleira convencional, mas o rendimento é o mesmo", conta Priscila, entusiasmada. Se comprovada a eficiência do modelo criado por Priscila, o setor se beneficiará com a possibilidade de montar pequenas indústrias, nas vizinhanças das usinas de álcool e açúcar. Bolsista da Fapesp-Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, Priscila ainda não produziu papel com a celulose do bagaço: "Será a última etapa do trabalho", explica. "O lixo e a queima em caldeiras, para geração de energia, são finalidades pouco nobres para uma matéria-prima tão rica", afirma a pesquisadora.
Marcelo Afini


Arte do lixo

A garagem da casa antiga, no bairro do Sumaré, em São Paulo, abriga tachos, varais, ferros de passar. É nesse espaço que a artista plástica e museóloga Lourdes Cedran faz pequenos cartões, folhas coloridas, livros, cadernos, telas, cúpulas de luminárias, trabalhos que, hoje, estão expostos na Suíça. "Fazer papel se tornou um vício", diz ela, entre meia dúzia de gatos siameses, que passeiam pelo ateliê. A apixão surgiu em uma viagem ao Japão, quando Lourdes trouxe alguns exemplares de papel artesanal. "Tive pena de usá-los. Eles continuam intactos na gaveta", conta. Desde então, ela estuda técnicas de preparar papel, em que a máquina é substituída por moldes, os cilindros secadores, por ferros de passar roupa. O mais interessante porém, é a matéria-prima usada para esses papéis: cascas de legumes e galhos de árvores podado pela prefeitura. "O melhor desse trabalho é transformar lixo em arte", conta a artesã, que agora prepara um livro e um curso, sob encomenda da Unesco.


A fabricação do dinheiro vivo

Pode ser o pagamento de uma dívida de jogo, de drogas ou mesmo de um resgate. Na cena, comum em filmes policiais, bandido que se preza só aceita dinheiro vivo, feito com o inimitável papel-moeda. Afinal, o bom falsário engana, mas seu trabalho jamais atinje a perfeição, tamanha a tecnologia por trás de uma cédula. Além de usar fibras especiais, como as de algodão, que dão maior durabilidade às notas, esse papel especial apresenta o que se chama itens de segurança.
Basta colocar 50 cruzeiros contra a luz, por exemplo, para ver o desenho sombreado e a linha que corta a cédula verticalmente conhecido como marca-d´água, esse efeito é obtido com uma moldagem no papel, quando a massa não está completamente seca. Além disso, o dinheiro exibe inúmeras fibras coloridas, espalhadas aleatoriamente, impossíveis de ser reproduzidas em um papel depois de pronto. Há apenas treze anos, o Banco Central parou de importar o chamado papel-moeda. O Brasil, no entanto, não tinha tecnologia para fabricar o próprio dinheiro. Por isso, foi aberta uma licitação internacional: a proposta vencedora, então, foi a do Grupo Simão em parceria com o francês Arjomari, prevendo não só o repasse de tecnologia como sua instalação no Brasil.
A fábrica, fruto dessa parceria, fica no miolo do prédio de uma indústria que produz outros tipos de papéis especiais, como os dos vales-refeições. É como se uma fábrica servisse de segundo muro ou barreira para a outra duplicando a segurança", explica Michel Giordani, o neto de franceses que dirige a Arjomari no Brasil. Isso, no entanto, não dispensa circuitos de televisão, guardas e cães treinados, que cercam o edifício em Salto, no interior de São Paulo. 
"Há apenas uma entrada, que também serve de saída. As paredes de cimento são capazes de resistir até a explosão de bomba", contra Michel Giordani.
Até certo ponto, a fabricação do papel-moeda é semelhante à do papel comum. Uma máquina transforma a pasta de celulose em folhas secas, que são cortadas, conforme especificações da casa da moeda. Primeiro, é feita uma contagem manual, por mulheres que verificam nota por nota, observando eventuais deformações ou bordas nas folhas, que comprometeriam a segunda contagem. Esta é realizada por máquinas: o número de folhas deve ser exato - não podem existir notas a mais nem a menos. Finalmente, o papel é transportado por caminhões-baús, enviados pelo próprio cliente, lacrados e escoltados por viaturas de seguranças armados, até o município de Santa Cruz, no Rio de Janeiro, onde fica a casa da moeda. "Tinta impressão e numeração, por exemplo, são fatores menores na hora de separar o falso do verdadeiro. Só o papel responde por 70% da autenticidade de uma nota", garante giordani. O Brasil exporta esse produto para quase todos os países da América Latina. "Infelizmente, porém, os brasileiros não tratam bem suas notas. Armafanhadas em bolsos e carteiras, elas acabam se deteriorando mais rápido", lamenta Giordani. "Isso não ocorre em países onde a inflação é menor. A duração de uma nota costuma acompanhar a do valor estampado em sua face".  

Viagem ao Início do Tempo - Cosmologia


VIAGEM AO INÍCIO DO TEMPO - Cosmologia



Novos instrumentos, em terra e no espaço, abrem uma inédita janela para o primeiro bilhão de anos da história do universo. A luz que começa a chegar desses ermos, depois de varrer a imensidão do espaço, esboça épicos momentos da criação dos mundos.

No início deste ano, após longo e exaustivo trabalho, o astrônomo inglês Richard McMahon, da Universidade de Cambridge, Inglaterra, concluiu uma busca que se poderia, sem nenhum exagero, qualificar de monumental. Seu objetivo era bater as mais remotas fronteiras do espaço visível e selecionar, entre nada menos que 25 milhões de objetos - galáxias, a maioria - , aqueles que pudessem ser classificados como quasares. Tais personagens cintilam a grandes distâncias como esfínges cósmicas, já que, até onde se pode ver, são pouco mais extensos que o sistema solar, mas emitem mais energia que bilhões de estrelas em conjunto. 
McMahon, sem dúvida, encontrou o que estava procurando: identificou nove quasares recordistas em distância, e um deles, denominado BR 1202-07 é o mais longínquo já visto. Tanto que sua luz demorou 12,1 bilhões de anos para alcançar a Terra, ou seja, quando ela iniciou sua viagem, o universo era um menino de 900 milhões de anos-somente 7% de sua idade atual, avaliada em 13 bilhões de anos. Não é difícil perceber o valor de um raio que em sua rota iluminou várias regiões do cosmo e armazenou valiosas informações a seu respeito. Não é por esse motivo, no entanto, que a proeza provoca espectativa e excitação, e sim por seu significado simbólico: afinal, o primeiro bilhão de anos da história do universo nunca havia sido observado até hoje - nem mesmo de forma indireta por meio das equações que descrevem a evolução cósmica. 
Na falta de melhor juízo, a cautelosa imagem que se faz desse período é a de um deserto absoluto. Apenas um gás - composto pelos átomos mais leves e simples da natureza, o hidrogênio e o hélio - encheria monotonamente o espaço em todas as direções. Suspeita se, porém, que logo será possível dar corpo, cor e movimento a esse cenário que, em vez de amorfo, se revelaria fulgurante, quase selvagem, comparado aos padrões atuais. É o que sugere o quasar recém-descoberto, que emite 25% mais energia que qualquer outro conhecido. A magnitude de sua potência só com certo esforço pode ser concebida pela mente, pois brilha com a força de 10000 galáxias do porte da Via Láctea-que contém de 100 a 200 bilhões de sóis.
Vitalidade nessa escala faz pensar que a plácida visão das estrelas em noite límpida é enganosa. Ela esconde fenômenos e corpos celestes extremamente violentos, e estes denunciam as forças responsáveis pela evolução dos astros e do Cosmo. Uma hipótese afirma, por exemplo, que os quasares não são essencialmente diferentes das galáxias, mas sim gerados por elas. Esse raciocínio pressupõe que em sua juventude as galáxias teriam um núcleo extremamente denso, repleto de estrelas, radiação e gases dispersos, em alta temperatura. A ponto de em seu centro formar se um monumental buraco negro, ou seja, uma região onde a densidade da matéria tende ao infinito e adquire força suficiente para devorar estrelas próximas. Como compensação, o monstro ejeta para o espaço um vendaval de energia.
Estima-se que o quasar BR 1202-07 abriga um buraco negro de massa 10 bilhões de vezes maior que a do Sol, capaz de sorver o lauto banquete de 100 estrelas por ano. Assim se explicaria o jorro de energia que o torna visível a incomensurável distancia. Este ano, obteve-se a primeira evidência direta de um quasar escondido no núcleo de uma radiogaláxia, a Cygnus A, assim denominada porque emite a maior parte de sua energia em ondas de rádio, forma de energia eletromagnética, como a luz. Embora muito ativa, a Cygnus A tem grande extensão no céu-por isso não se assemelha aos quasares, que aparecem nos telescópios como um ponto de luz.
Ela também está perto da Via Láctea, 750 milhões de anos-luz (1 ano-luz mede cerca de 10 trilhões de quilômetros); em comparação, 0 BR 1202-07 está a 12,1 bilhões de anos-luz). No seu coração, porém, brilha um poderoso foco de energia, como se verificou por meio dos raios infravermelhos - a radiação de calor que, ao contrário da luz, atravessa com certa facilidade a poeira cósmica. Esse é o motivo porque não se vêem quasares em galáxias do tipo da Cygnus A vistas de perfil, elas expõem aos telescópios um espesso disco de estrelas, gases e poeira e não o seu núcleo.
Aquilo que se chama de quasares, por outro lado, seriam galáxias vistas de frente: assim, expõem seu núcleos isto é, o centro do disco. A energia do quasar, nesse caso, obscurece as estrelas à volta. Esse é o raciocínio do astrônomo americano George Djorgovski, do Instituto de Tecnologia da Califórnia, chefe da equipe que analisou a Cygnus A. "A interpretação lógica é que encontramos um quasar sepultado, que não podíamos ver por meios ópticos." A própria Via Láctea pode ter sido habitada por um quasar, mas, por ser idosa, esgotou a provisão de estrelas próximas que alimentavam a fera. Mesmo velho e desdentado,. porém, ele ainda agita o centro da galáxia, situado na direção da Constelação de Sagitário. a 30 000 anos-luz do Sol. Entrevê-se aí forte turbulência em massas de gases, possivelmente sob a batuta de um buraco negro ancião.
Se os quasares forem realmente o núcleo ativo das galáxias, estas já habitariam o Universo desde o seu primeiro bilhão de anos de vida. Ou ainda mais cedo, pois os quasares mais distantes não parecem jovens: haviam começado a brilhar algum tempo antes de serem avistados. "Se pudéssemos determinar em que época foram acionados, saberíamos quando as galáxias se formaram?, aposta o astrônomo americano Wallace Sargent, do Instituto de Tecnologia da Califórnia. Um dado animador é que, de acordo com alguns cientistas, as barreiras do tempo serão quebradas cada vez com maior freqüência. De fato, mal se anunciou a descoberta do BR 1202-07, surgiu outro recordista, cuja luz teria sido emitida quando o Universo tinha 870 milhões de anos.. Assim, dentro de um ano se poderá chegar ao período em que o Cosmo tinha cerca de 350 milhões de anos. Mas será difícil superar essa barreira.
"Nesse limite, até os mais brilhantes raios de luz serão apagados por incontáveis nuvens de poeira e gás intergalácticos", explica McMahon. Ele calcula que ao longo das eras a luz do quasar BR 1202-07 teria atravessado mais de 1 000 nuvens como essas muito rarefeitas, geralmente, mas tão extensas que às vezes milhares de galáxias aninham-se em uma delas. Trata-se de um dos componentes da chamada matéria escura, cuja existência tornou-se um dos mais importantes fatos estabelecidos nos últimos anos. Supõe-se que apenas 10% da massa do Universo está na forma de objetos brilhantes como as estrelas: os 90% restantes não emitem luz e são praticamente invisíveis. Parte substancial da matéria escura pode ser formada por neutrinos, partículas subatômicas que transportam muito pouca energia e por isso são difíceis de detectar. Seja como for, essa massa invisível deixa sinais claros de sua presença.
Como exerce força gravitacional extra, faz com que as estrelas de uma galáxia, por exemplo, girem mais rápido do que girariam, caso a única matéria existente fossem os corpos brilhantes. Assim, qualquer teoria sobre a evolução do Cosmo terá de levar em conta as ações desse lado negro da matéria, até agora despercebida nos assombrosos vazios entre as galáxias. Mais do que isso, a mais bem cotada teoria atual considera que no interior da matéria escura surgiram as sementesdas das galáxias. O raciocínio básico, bastante convincente, supõe que o Cosmo era realmente muito monótonos no princípio. Embora distribuídos por igual em toda parte, seria inevitável que alguns átomos se aproximassem, ainda que por breves momentos.
Mas, quando se forma uma pequena aglomeração de matéria-uma semente-, a força gravitacional cresce, nesse local, atraindo novos átomos das vizinhanças. Cria-se, assim, uma reação em cadeia: quanto mais se amplia a aglomeração, maior é sua força de atração e mais ela cresce. Viria daí a grande intimidade observada entre matéria escura e brilhante uma envolvendo a outra em grandes halos. Foi o que viu, de maneira espetacular, há alguns meses, o astrônomo Anthony Tyson, pesquisador da empresa americana AT&T. Ele verificou que a luz de uma galáxia distante era fortemente encurvada ao passar perto de um aglomerado-diversas galáxias girando em torno de um centro comum, como os planetas à volta do Sol.
A massa luminosa, por si só, não poderia forçar a luz a curvar-se tanto quanto se observava e Tyson deduziu: o que estava "vendo" era a matéria escura. "Era como se a matéria luminosa e a escura tivessem conhecimento uma da outra" compara o astrônomo. Justamente como se poderia esperar no caso de as duas formas de matéria terem evoluído juntas ao longo de bilhões de anos, elas gravitavam em perfeita sintonia à volta de um centro comum. Novos instrumentos podem fornecer chaves para dirimir dúvidas persistentes, e nesse caso, o vento sopra a favor dos pesquisadores. Já no final de 1991 começa a funcionar o maior telescópio do mundo batizado de Keck e situado no Mauna Kea, um vulcão adormecido do Havaí.
Com 36 lentes de 2 metros de diâmetro, ele promete esmiuçar aquilo que, até agora, apenas se entrevê. "Junto com outros instrumentos ele vai localizar, identificar e estudar a época de formação das primeiras estrelas e galáxias", diz o pesquisador Frederick Gillet, dos Observatórios Nacionais de Astronomia Óptica. Estados Unidos. Há grande expectativa, também, com relação a três formidáveis satélites-telescópios que, apesar dos problemas com o Hubble, os americanos pretendem colocar em órbita até o final da década. O primeiro deles, designado pela sigla GRO, foi lançado no último mês de abril com a meta de elaborar a mais ampla investigação celeste na faixa dos raios gama, a mais energética forma de radiação eletromagnética (uma partícula, ou fóton, de raio gama transporta 10 000 vezes mais energia que uma partícula de luz).
Em 1997 está programado para voar o AXAF, capaz de enxergar fótons de raios X, um pouco menos energéticos que os raios gama, e em 1999 deve subir o SIRTF, especializado em captar radiação de calor. Nessa data também ficará pronto o Telescópio Muito Grande, que os europeus estão construindo no alto dos Andes chilenos. Ele deve o nome às quatro lentes de 8 metros cada uma, capazes de torná-lo mais potente que o Keck. A simples listagem dos instrumentos impressiona os mais experientes pesquisadores, como o americano John Bahcall, do Instituto de Pesquisa Avançada de Princeton. "A Astronomia terá uma década de novidades chocantes" admira-se Bahcall.
Poucos cientistas, atualmente, arriscam-se a dar traços precisos aos esboços que fazem sobre a origem das galáxias. Exemplo disso é um livro recém-escrito (ainda não editado em português) pelo teórico americano Tony Rothman, da Universidade Harvard. Rothman faz curiosa descrição do primeiro bilhão de anos da história cósmica. "Nessa era desbotada, os planetas ainda não tinham se formado e talvez nem mesmo as primeiras estrelas e galáxias. Os mais antigos quasares datam desse período, mas os astrônomos não esperam encontrar muitos deles em tempo mais recuado", resume o cientista. A expectativa, agora, inverteu-se. Aos poucos, reduz-se a imensidão que ainda separa o início dos tempos e os homens, que, 13 bilhões de anos mais tarde, se encantam com a perspectiva de reconstituir o mundo onde nasceram.

Corrida para o passado

A chave para se calcular a idade do Universo surgiu com o astrônomo americano Edwin Hubble, que, em 1929, percebeu-não sem espanto -que todas as galáxias do céu estavam se distanciando da Terra. Era como se todo o Cosmo estivesse se esticando e a conseqüência disso irrompeu como um clarão na mente dos cientistas. Se estavam se afastando, as galáxias deviam ter estado juntas, em algum momento do passado-desde então identificado com o início dos tempos. Mais do que isso, podia-se calcular o tempo que duas galáxias haviam demorado para afastar-se uma da outra: se dois corpos estão a 10 quilômetros um do outro e se afastam a 5 quilômetros por hora., conclui-se que estiveram lado a lado duas horas antes.
Não é fácil fazer essa conta ao lidar com o conjunto do Universo. Para se ter uma idéia, as galáxias mais distantes têm de se afastar mais velozmente, já que, para chegar à distancia em que estão, não podem ter demorado mais tempo que uma galáxia próxima, mais lerda. É justamente por isso que, se o tempo andasse para trás, todas as galáxias chegariam, ao mesmo tempo, a um mesmo ponto do espaço. Outra complicação: além de acompanhar o esticamento geral do Universo, as galáxias também se atraem sob ação da gravidade. Por esse motivo, muitas galáxias próximas, em lenta expansão, estão se aproximando, e não se afastando da Terra. Por outro lado, é difícil avaliar a distancia das galáxias muito afastadas.
Todas essas dificuldades, embora não impeçam seu cálculo, introduzem grande incerteza na idade do Universo: os cientistas, muitas vezes, assinalam apenas que ela se situa entre 10 bilhões e 20 bilhões de anos. As mais aprimoradas estimativas apontam para o tempo de 13 bilhões de anos, mas ainda se trata de um número provável. Não é definitivo.