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quarta-feira, 2 de outubro de 2013

O esconderijo dos Alerces - Ambiente


O ESCONDERIJO DOS ALERCES - Ambiente


Uma expedição atravessa lagos gelados e escarpas dos Andes chilenos para visitar uma floresta dos mais antigos habitantes do planeta: os alerces. Algumas dessas árvores da classe das coníferas estão de pé desde a época de ouro dos faraós, há 4.000 anos



As águas frias do Pacífico sul recortam na costa do Chile profundas reentrâncias, ou fiordes no jargão da Geografia, cujas paredes quase verticais são abertas diretamente nas rochas da Cordilheira dos Andes. Acima das ondas e escarpas, localiza-se uma floresta conhecida como Bosque Valdiviano. Embora seja densa e chuvosa, povoada por árvores gigantescas, esse tipo de mata é muito diferente da Amazônia, pois contém árvores típicas de clima temperado. Boa parte das matas desse tipo foi destruída no século passado e elas hoje quase não chamam a atenção.Mas algumas das árvores chilenas, pertencentes à espécie Fitzroya cupressoides e vulgarmente chamadas de alerces, são notáveis. Coníferas, como os ciprestes e pinheiros, elas já existiam há 350 milhões de anos, época em que ainda não existiam flores. Como estas representam uma evolução no sistema sexual das plantas, as coníferas são formas vegetais primitivas. Entre elas se acham os seres de vida mais longa em toda a natureza. Muitas espécies duram menos de um século, mas as sequóias, por exemplo, atravessam os milênios. E, ao que tudo indica, os alerces também são sequóias.O mais antigo ser vivo é uma sequóia norte-americana do deserto, de 4 900 anos de idade, mas pode haver alerces ainda mais velhos. Foi o que sugeriu o botânico chileno Antônio Lara, em 1988. Lara levou em conta que o tronco de muitas árvores contém anéis (algo como se vê nas cebolas), cujo número dá uma medida confiável da idade da árvore. Pois o alerce examinado tinha 3 300 anéis - dez vezes mais que a mais antiga sequóia - e tinha apenas metade do diâmetro de muitos alerces vivos.Estima-se, de fato, que as sementes desses anciãos tenham desabrochado por volta de 5 000 anos atrás - 1000 anos antes de o rei Menes unificar o Egito e dar origem à primeira dinastia de faraós. Os alerces têm perto de 3,5 metros de diâmetro na base do tronco, ou mais de 20 metros de circunferência, e são tão altos como um prédio de vinte andares. A resistência de sua madeira, depois de cortada, é compatível com sua longevidade, pois ela leva até 500 anos para apodrecer e se decompor completamente.Este ano, uma equipe de cientistas e jornalistas partiu da cidade turística de Puerto Montt (veja o mapa) para uma visita às matas de alerces. Na descrição daquilo que viu e aprendeu, o jornalista americano Daniel Dancer diz que as frias matas temperadas têm as mais densas concentrações de vida vegetal. Ao contrário das matas tropicais, poucos mamíferos percorrem suas trilhas. Entre eles se encontra a onça-parda, que é o mesmo puma norte-americano e a suçuarana brasileira, e o menor veado conhecido, o pudu, de apenas 30 centímetros de altura. Isolado pelo Pacífico a oeste, pelos Andes a leste e por um árido deserto ao norte, o Bosque Valdiviano tem muito poucos mosquitos, cobras e roedores.Em compensação, o solo da mata é tão rico em musgos, samambaias e trepadeiras que se pode andar muitas centenas de metros sem pisar no chão, conta Dancer. A massa de musgo, diz ele, é um mar adensada por restos de alerces em decomposição, é tão profunda que pode engolir um incauto excursionista até os ombros e deixá-lo imóvel. Isso quando o aventureiro não cai nos labirintos da quila, ou bambu-matador. São moitas de um bambu baixo como um arbusto, mas de ramos terrivelmente entrelaçados e numerosos. O ingênuo que se mete nesse emaranhado não esquece a lição, atesta a população ardina.E é bom que seja assim, dizem os cientistas. De suas florestas originais, o Chile conserva apenas 7,6 milhões de hectares - o equivalente a um quadrado de 275 quilômetros de lado. Desse total, apenas uns 10% representam bosques de alerces, que podem ser um intrigante capricho da natureza: embora tenham surgido em local diferente, eles talvez sejam gêmeos evolutivos das sequóias dos secos e quentes desertos norte-americanos. De alguma forma, que ainda não se conhece, a evolução produziu resultados iguais a partir de ingredientes inteiramente diversos. E melhor que os intrusos não se sintam à vontade nesse raro santuário natural.


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