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terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Memória gelada da Terra - Climatologia

MEMÓRIA GELADA DA TERRA - Climatologia


Groenlândia revela inesperada queda de temperatura no passado e fornece pistas para se compreenderem melhor as oscilações do clima no presente.

O cenário é uma imensa planície branca, fria e estéril, onde só se ouve o vento e a nevasca. Situada na Groenlândia, no extremo norte do planeta, onde é inviável qualquer manifestação de vida, sua temperatura, mesmo no verão, fica muito abaixo de zero, entre 10°C e 35°C negativos. No inverno, chega a -65°C. Em 12 de julho de 1992, porém, a monotonia da paisagem foi quebrada por uma melodia, entoada por nada menos que quarenta pesquisadores dinamarque-ses, franceses, suíços, alemães, italianos, belgas, islandeses e ingleses. Abrigados numa grande tenda em forma de iglu, eles dançavam e riam, indiferentes ao frio e à solidão. 

E tinham bom motivo para isso: depois de três verões de trabalho, estavam comemorando a retirada final de uma barra de gelo de nada menos que 3 029 metros de comprimento e 10 centímetros de diâmetro. Frágil como uma pilha de porcelana, a barra estende-se desde a superfície até as profundas rochas que o gelo recobre, e tem o valor de uma fantástica biblioteca - criada muito antes de o primeiro homem ter imprimido suas pegadas no planeta. Ela representa uma verdadeira "memória da Terra", como diz o glaciologista Claude Lorius, presidente do Instituto Polar Francês e membro do projeto GRIP (Greenland Ice-core Project), que reúne oito países europeus. 
As calotas polares  tornam-se um gigantesco banco de dados porque se formam gradualmente, quando sucessivas camadas de neve se depositam sobre as mais antigas e não se derretem nunca. Portanto, como os cristais de gelo guardam resíduos do ar, dão um testemunho fiel dos mais variados acontecimentos do passado remoto - sejam possíveis eras glaciais, erupções vulcânicas, incêndios de floresta, densidade da radiação cósmica, variações de temperatura e efeito estufa. Na barra de gelo colhida pelo GRIP - a mais antiga já extraída integralmente das calotas polares - estava codificada uma informação surpreendente e inexplicável. 
Ela diz respeito a um período interglacial de nome Eemian, que se estendeu de 110 000 a 140 000 anos atrás. Nessa época, por estar entre duas eras de frio extremo, a Terra gozava de clima ameno, tão clemente quanto o atual. Mas as coisas não aconteceram exatamente dessa forma, como mostra a barra de gelo: embora tenha sido bom, de maneira geral, o tempo sofreu diversos sobressaltos misteriosos, com va-riações bruscas de temperatura. Há 115 000 anos, por exemplo, a bonança climática foi abati-da por um rigoroso resfriamento que se prolongou por quase setenta anos, no hemisfério norte. 
"Em apenas alguns decênios, por motivos desconhecidos, a temperatura despencou nada menos que 14°C em média", admira-se Robert Delmas, diretor do Laboratório de Glaciologia e Geofísica do Meio Ambiente de Grenoble, na França. "Em seguida, e com a mesma rapidez, as condições voltaram ao normal." Esse evento está longe de representar mera relí-quia do passado, justamente porque o Eemian foi semelhante ao período climático atual, iniciado há 8 000 anos e igualmente classificado como interglacial. Ou seja: como saber se não vem aí um distúrbio de grandes proporções, tão inesperado quanto o que abalou o Eemian? 
Essa dúvida mostra como é importante extrair e analisar as barras de gelo - as "cenouras", como foram carinhosamente apelidados tais arquivos gelados. Lorius explica como se bisbilhotam as cenouras em busca das pistas depositadas pelos ventos nas regiões polares. "O gelo não é um material puro: quando examinamos com atenção uma barra, logo percebemos a presença de bolhas de ar, de mais ou menos 1 milímetro de diâmetro. É dentro delas que se acham as preciosas impurezas que marcaram o ar do passado." As impurezas podem ser grãos de poeira, ou então moléculas, como as de ácido sulfúrico ou de sal marinho, ou mesmo microscópicas partículas de origem cósmica. 
A maior ou menor concentração de cada tipo de impureza acusa eventos distintos na história do clima terrestre. Finalmente, podem-se observar por meio de iluminação especial cristais coloridos que denunciam a temperatura ambiente no momento em que a neve se depositou. Isso é possível porque os cristais revelam a quantidade de certos isótopos - átomos de peso anormal, fora da média característica de cada tipo de elemento químico - existente no ar. Um exemplo é o oxigênio-18 (O-18), cujo peso atômico é duas unidades maior que o do oxigênio-16, bem mais comum. 
Normalmente raro, esse isótopo se torna ainda mais escasso quando a temperatura do ar é baixa - a ponto de se poder dizer quando é inverno apenas medindo a concentração daquele raro elemento no ar. Assim, na barra de gelo, cada ano que passa deixa duas marcas: numa delas, um excesso de O-18 assinala o verão; logo a seguir, uma carência de O-18 assinala o inverno. Portanto, basta contar essas oscilações ao longo da cenoura para calcular sua idade. Esse método é eficaz em barras de até 12 000 anos. A cenoura do GRIP não pôde ser datada apenas por esse expediente, pois, da primeira à última fatia, resume nada menos que 200 000 anos de história da Terra. 
Nas suas amostras mais antigas, as camadas "anuais" estão esmagadas de tal forma que não ultrapassam a espessura de uma folha de papel. Não se podem, assim, obter datas com precisão, e os isótopos passam a ser usados para definir a temperatura média vigente em cada momento do passado. O lapso de 200 000 anos é o máximo a que se pode che-gar na Groenlândia, pois a ca-mada de gelo mais profunda incluída na barra do GRIP é a que está depositada diretamente sobre as rochas groenlandesas - as quais simplesmente quebraram as duas lâminas da perfuradora Istiuk utilizada pelos pesquisadores. 
Foi como eles descobriram, com imensa alegria naquele 12 de julho, que a extração da cenoura chegara ao fim, conta o incansável Lorius. Apresentado à imensidão branca ainda estudante da Universidade de Besançon, em 1957, Ano Internacional de Geofísica, ele explica melhor a descoberta que ajudou a fazer sobre o interglacial de Eemian. O abrupto resfriamento desse período fez com que a temperatura entre o pico do verão e o pico do inverno variasse de 16 graus positivos a 19 graus negativos (uma média em torno de -3°C). Em contraste, hoje na França a temperatura varia de mais 30 a menos 5 graus (não se pode comparar com o Brasil porque aquele fenômeno restringiu-se ao hemisfério norte). 
 "Precisamos desvendar esse enigma a fim de entender melhor a dinâmica do Holoceno, a época geológica em que vivemos", diz Delmas. Mas decifrar as pistas do gelo não será tarefa leve, pois os resíduos da atividade humana se misturam com todos os outros vestígios da história climática. Gás carbônico e metano, por exemplo, os dois principais gases responsáveis pelo aquecimento atual da atmosfera - o efeito estu-fa -, já estão em doses elevadas no pó-lo, diz Lorius. "Comparado com o presente, há 20 000 anos havia 30% menos de CO2 e metade do metano." Ao queimar combustíveis, o homem injeta  por ano 20 bilhões de toneladas de gás carbônico no ar. Mais 7 bilhões de toneladas vêem do desmatamento. Além disso, sulfatos e nitratos gerados pela indústria já estão encravados na Groenlândia, embora não sejam perceptíveis na Antártida. É que o hemisfério norte responde por 9 em cada 10 toneladas de sulfatos e nitratos produzidos no mundo. 
Seja como for, os dados das cenouras mostram que o efeito estufa não é fe-nômeno apenas "humano": ele po-de ocorrer por causas naturais. No Eemian mesmo, após o resfriamento, houve uma situação de alta temperatura, há 125 000 anos. É o que relata o cilindro de 200 milênios, hoje bem abrigado em câmaras geladas, concebidas na Uni-versidade de Copenhague, na Dinamarca. Não há dúvida sobre seu valor, afirma Delmas. "Ele ainda vai nos abastecer de muitas informações. Mesmo porque ainda estamos analisando os cilindros bem mais modestos da Antártida."


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