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quarta-feira, 8 de março de 2017

Cinco Minutos - José de Alencar - Literatura Brasileira



Cinco Minutos - José de Alencar - Literatura Brasileira




Cinco minutos é o primeiro romance do escritor, dramaturgo brasileiro José de Alencar, nome proeminente do romantismo no país. Foi publicada em 1856 em forma de folhetins pelo jornal Diário do Rio de Janeiro. Ao final de alguns meses, com todos os capítulos já publicados, esses foram juntados em uma única edição que foi oferecida como brinde para os assinantes do jornal. No entanto, diversas pessoas que não assinavam o jornal, procuraram um volume do livro.

(SEGUE ABAIXO ESTA OBRA COMPLETA)



 I 

É uma história curiosa a que lhe vou contar, minha prima.
Mas é uma história e não um romance. 
Há mais de dois anos, seriam seis horas da tarde, dirigi-me ao Rocio para 
tomar o ônibus de Andaraí. 
Sabe que sou o homem menos pontual que há neste mundo; entre os meus 
imensos defeitos e as minhas poucas qualidades, não conto a pontualidade, essa 
virtude dos reis e esse mau costume dos ingleses. 
Entusiasta da liberdade, não posso admitir de modo algumque um homem 
se escravize ao seu relógio e regule as suas ações pelo movimento de uma 
pequena agulha de aço ou pelas oscilações de uma pêndula. 

Tudo isto quer dizer que, chegando ao Rocio, não vi mais ônibus algum; o 
empregado a quem me dirigi respondeu:
- Partiu há cinco minutos. 
Resignei-me e esperei pelo ônibus de sete horas. Anoiteceu.
Fazia uma noite de inverno fresca e úmida; o céu estava calmo, mas sem 
estrelas.
A hora marcada chegou o ônibus e apressei-me a ir tomar o meu lugar.
Procurei, como costumo, o fundo do carro, a fim de ficar livre das conversas 
monótonas dos recebedores, que de ordinário têm sempre uma anedota insípida a 
contar ou uma queixa a fazer sobre o mau estado dos caminhos. 
O canto já estava ocupado por um monte de sedas, que deixou escapar-se 
um ligeiro farfalhar, conchegando-se para dar-me lugar.     
Sentei-me; prefiro sempre o contato da seda à vizinhança da casimira ou do 
pano.
O meu primeiro cuidado foi ver se conseguia descobrir o rosto e as formas 
que se escondiam nessas nuvens de seda e de rendas.
Era impossível.
Além de a noite estar escura, um maldito véu que caía de um chapeuzinho 
de palha não me deixava a menor esperança.
Resignei-me e assentei que o melhor era cuidar de outra coisa.
Já o meu pensamento tinha-se lançado a galope pelo mundo da fantasia, 
quando de repente fui obrigado a voltar por uma circunstância bem simples.
Senti no meu braço o contato suave de um outro braço, que me parecia 
macio e aveludado como uma folha de rosa.
   Quis recuar, mas não tive ânimo; deixei-me ficar na mesma posição e cismei 
que estava sentado perto de uma mulher que me amava e que se apoiava sobre 
mim.
Pouco a pouco fui cedendo àquela atração irresistível e reclinando-me 
insensivelmente; a pressão tornou-se mais forte; senti o seu ombro tocar de leve o 
meu peito; e a minha mão impaciente encontrou uma mãozinha delicada e 
mimosa, que se deixou apertar a medo.
Assim, fascinado ao mesmo tempo pela minha ilusão e por este contato 
voluptuoso, esqueci-me, a ponto que, sem saber o que fazia, inclinei a cabeça e 
colei os meus lábios ardentes nesse ombro, que estremecia de emoção.
Ela soltou um grito, que foi tomado naturalmente como susto causado pelos 
solavancos do ônibus, e refugiou-se no canto.
Meio arrependido do que tinha feito, voltei-me como para olhar pela 
portinhola do carro, e, aproximando-me dela, disse-lhe quase ao ouvido :
- Perdão!
Não respondeu; conchegou-se ainda mais ao canto.
Tomei uma resolução heróica.
- Vou descer, não a incomodarei mais.
Ditas estas palavras rapidamente, de modo que só ela ouvisse, inclinei-me 
para mandar parar.
Mas senti outra vez a sua mãozinha, que apertava docemente a minha, 
como para impedir-me de sair.
Está entendido que não resisti e que me deixei ficar ; ela conservava-se 
sempre longe de mim, mas tinha-me abandonado a mão, que eu beijava 
respeitosamente.
De repente veio-me uma idéia. Se fosse feia! se fosse velha! se fosse uma e 
outra coisa!
Fiquei frio e comecei a refletir.
Esta mulher, que sem me conhecer me permitia o que só se permite ao 
homem que se ama, não podia deixar com efeito de ser feia e muito feia.
Não lhe sendo fácil achar um namorado de dia, ao menos agarrava-se a 
este, que de noite e às cegas lhe proporcionara o acaso.
É verdade que essa mão delicada, essa espádua aveludada... Ilusão! Era a 
disposição em que eu estava!
A imaginação é capaz de maiores esforços ainda.
Nesta  marcha,  o  meu  espirito  em  alguns   instantes  tinha chegado  
a  uma  convicção  inabalável  sobre  a  fealdade  de minha vizinha.
Para  adquirir  a  certeza  renovei  o  exame  que   tentara  a princípio: 
porém,  ainda desta  vez, foi  baldado; estava  tão bem envolvida  no  seu  
mantelete  e  no seu  véu, que  nem um  traço do rosto traía o seu incógnito.
Mais uma prova! Uma mulher bonita deixa-se admirar e não se esconde 
como uma pérola dentro da sua ostra.
Decididamente era feia, enormemente feia!
Nisto ela fez um movimento, entreabrindo o seu mantelete, e um bafejo 
suave de aroma de sândalo exalou-se.
Aspirei voluptuosamente essa onda de perfume, que se infiltrou em minha 
alma como um eflúvio celeste.
Não se admire, minha prima; tenho uma teoria a respeito dos perfumes.
A mulher é uma ílor que se estuda, como a flor do campo, pelas suas cores, 
pelas suas folhas e sobretudo pelo seu perfume.
Dada a cor predileta de uma mulher desconhecida, o seu modo de trajar e o 
seu perfume favorito, vou descobrir com a mesma exatidão de um problema 
algébrico se ela é bonita ou feia.
De todos estes indícios, porém, o mais seguro é o perfume; e isto por um 
segredo da natureza, por uma lei misteriosa da criação, que não sei explicar.
Por que é que Deus deu o aroma mais delicado à rosa, ao heliotrópio, à 
violeta, ao jasmim, e não a essas flores semgraça e sem beleza, que só servem 
para realçar as suas irmãs?
É decerto por esta mesma razão que Deus só dá à mulher linda esse tato 
delicado e sutil, esse gosto apurado, que sabe distinguir o aroma mais perfeito...
Já vê, minha prima, porque esse odor de sândalo foi para mim como uma 
revelação.
Só uma mulher distinta, uma mulher de sentimento, sabe compreender toda 
a poesia desse perfume oriental, desse hatchiss do olfato, que nos embala nos 
sonhos brilhantes das Mil e uma Noites, que nos fala da Índia, da China, da Pérsia, 
dos esplendores da Ásia e dos mistérios do berço do sol.
O sândalo é o perfume das odaliscas de Stambul e das huris do profeta; 
como as borboletas que se alimentam de mel, a mulher do Oriente vive com as 
gotas dessa essência divina.
Seu berço é de sândalo ; seus colares, suas pulseiras, o seu leque, são de 
sândalo; e, quando a morte vem quebrar o fio dessa existência feliz, é ainda em 
uma urna de sândalo que o amor guarda as suas cinzas queridas.
Tudo isto me passou pelo pensamento como um sonho, enquanto eu 
aspirava ardentemente essa exalação fascinadora, que foi a pouco e pouco 
desvanecendo-se.
Era bela!
Tinha toda a certeza; desta vez era uma convicção profunda e inabalável.
Com efeito, uma mulher de distinção, uma mulher de alma elevada, se fosse 
feia, não dava sua mão a beijar a um homem que podia repeli-la quando a 
conhecesse; não se expunha ao escárnio e ao desprezo.
Era bela!
Mas não a podia ver, por mais esforços que fizesse.
O ônibus parou; uma outra senhora ergueu-se e saiu.
Senti a sua mão apertar a minha mais estreitamente; vi uma sombra passar 
diante de meus olhos no meio do ruge-ruge de um vestido, e quando dei acordo de 
mim, o carro rodava e eu tinha perdido a minha visão.
Ressoava-me ainda ao ouvido uma palavra murmurada, ou antes suspirada 
quase imperceptivelmente:
-- Non ti scordar di me! ...
Lancei-me fora do ônibus; caminhei à direita e à esquerda andei como um 
louco até nove horas da noite.
Nada!




 II 

QUINZE dias se passaram depois de minha aventura.
Durante este tempo é escusado dizer-lhe as extravagâncias que fiz.          
Fui todos os dias a Andaraí no ônibus das sete horas, para ver se encontrava 
a minha desconhecida; indaguei de todos os passageiros se a conheciam e não 
obtive a menor informação.
Estava a braços com uma paixão, minha prima, e com uma paixão de 
primeira força e de alta pressão, capaz de fazer vinte milhas por hora. 
Quando saía, não via ao longe um vestido de seda preta e um chapéu de 
palha que não lhe desse caça, até fazê-lo chegar à abordagem.
No fim descobria alguma velha ou alguma costureira desjeitosa e continuava 
tristemente o meu caminho, atrás dessa sombra impalpável, que eu procurava 
havia quinze longos dias, isto é, um século para o pensamento de um amante.            
Um dia estava em um baile, triste e pensativo, como um homem que ama 
uma mulher e que não conhece a mulher que ama.
Recostei-me a uma porta e dai via passar diante de mim uma miríade 
brilhante e esplêndida, pedindo a todos aqueles rostos indiferentes um olhar, um 
sorriso, que me desse a conhecer aquela que eu procurava. 
Assim preocupado, quase não dava fé do que se passava junto de mim, 
quando senti um leque tocar meu braço, e uma voz que vivia no meu coração, uma 
voz que cantava dentro de minha alma, murmurou:
-- Non ti scordar di me!... 
Voltei-me.
Corri um olhar pelas pessoas que estavam junto de mim, e apenas vi uma 
velha que passeava pelo braço de seu cavalheiro, abanando-se com um leque.
-- Será ela, meu Deus? pensei horrorizado.
E, por mais que fizesse, os meus olhos não se podiam destacar daquele 
rosto cheio de rugas. 
A velha tinha uma expressão de bondade e de sentimento que devia atrair a 
simpatia; mas naquele momento essa beleza moral, que iluminava aquela 
fisionomia inteligente, pareceu-me horrível e até repugnante. 
Amar quinze dias uma sombra, sonhá-la bela como um anjo, e por fim 
encontrar uma velha de cabelos brancos, uma velha coquette e namoradeira!
Não, era impossível! Naturalmente a minha desconhecida tinha fugido antes 
que eu tivesse tempo de vê-la.         
Essa esperança consolou-me ; mas durou apenas um segundo.
A velha falou e na sua voz eu reconheci, apesar de tudo, apesar de mim 
mesmo, o timbre doce e aveludado que ouvira duas vezes.     
Em face da evidência não havia mais que duvidar. Eu tinha amado uma 
velha, tinha beijado a sua mão enrugada com delírio, tinha vivido quinze dias de 
sua lembrança.
Era para fazer-me enlouquecer ou rir; não me ri nem enlouqueci, mas fiquei 
com um tal tédio e um aborrecimento de mim mesmo que não posso exprimir. 
Que peripécias, que lances, porém, não me reservava ainda esse drama, tão 
simples e obscuro! 
Não distingui as primeiras palavras da velha logo que ouvi a sua voz; foi só 
passado o primeiro espanto que percebi o que dizia.
- Ela não gosta de bailes. 
- Pois admira, replicou o cavalheiro ; na sua idade!
- Que quer! não acha prazer nestas festas ruidosas e nisto mostra bem que é 
minha filha. 
A velha tinha uma filha e isto podia explicar a semelhança extraordinária da 
voz. Agarrei-me a esta sombra, como um homem que caminha no escuro.
Resolvi-me a seguir a velha toda a noite, até que ela se encontrasse com sua 
filha : desde este momento era o meu fanal, a minha estrela polar. 
A senhora e o seu cavalheiro entraram na saleta da escada. Separado dela 
um instante pela multidão, ia segui-la.       
Nisto ouço uma voz alegre dizer da saleta:
- Vamos, mamã!
Corri, e apenas tive tempo de perceber os folhos de um vestido preto, envolto 
num largo burnous de seda branca, que desapareceu ligeiramente na escada.
Atravessei a saleta tão depressa como me permitiu a multidão, e, pisando 
calos, dando encontrões à direita e à esquerda, cheguei enfim à porta da saída.
O meu vestido preto sumiu-se pela portinhola de um cupê, que partiu a trote 
largo. 
Voltei ao baile desanimado; a minha única esperança era a velha; por ela 
podia tomar informações, saber quem era a minha desconhecida, indagar o seu 
nome e a sua morada, acabar enfim com este enigma, que me matava de emoções 
violentas e contrárias.
Indaguei dela.
Mas como era possível designar uma velha da qual eu só sabia pouco mais 
ou menos a idade? 
Todos os meus amigos tinham visto muitas velhas, porém não tinham 
olhado para elas. 
Retirei-me triste e abatido, como um homem que se vê em luta contra o 
impossível. 
De duas vezes que a minha visão me tinha aparecido, só me restavam uma 
lembrança, um perfume e uma palavra!
Nem sequer um nome!
A todo momento parecia-me ouvir na brisa da noite essa frase do Trovador, 
tão cheia de melancolia e de sentimento, que resumia para mim toda uma história. 
Desde então não se representava uma só vez esta ópera que eu não fosse 
ao teatro, ao menos para ter o prazer de ouvi-la repetir.
A princípio, por uma intuição natural, julguei que ela devia, como eu, admirar 
essa sublime harmonia de Verdi, que devia também ir sempre ao teatro.
O meu binóculo examinava todos os camarotes com uma atenção 
meticulosa; via moças bonitas ou feias, mas nenhuma delas me fazia palpitar o 
coração.
Entrando uma vez no teatro e passando a minha revista costumada, descobri 
finalmente na terceira ordem sua  mãe, a minha estrela, o fio de Ariadne que me 
podia guiar neste labirinto de dúvidas. 
A velha estava só, na frente do camarote, e de vez em quando voltava-se 
para trocar uma palavra com alguém sentado no fundo. 
Senti uma alegria inefável. 
O camarote próximo estava vazio; perdi quase todo o espetáculo a procurar o 
cambista incumbido de vendê-lo. Por fim achei-o e subi de um pulo as três 
escadas.
O coração queria saltar-me quando abri a porta do camarote e entrei.
Não me tinha enganado; junto da velha vi um chapeuzinho de palha com 
um véu preto rocegado, que não me deixava ver o rosto da pessoa a quem 
pertencia.
Mas eu tinha adivinhado que era ela; e sentia um prazer indefinível em olhar 
aquelas rendas e fitas, que me impediam de conhecê-la, mas que ao menos lhe 
pertenciam.
Uma das fitas do chapéu tinha caído do lado do meu camarote, e, em risco 
de ser visto, não pude suster-me e beijei-a a furto. 
Representava-se a Traviata e era o último ato; o espetáculo ia acabar, e eu 
ficaria no mesmo estado de incerteza.
Arrastei as cadeiras do camarote, tossi, deixei cair o binóculo, fiz um barulho 
insuportável, para ver se ela voltava o rosto.
A platéia pediu silêncio; todos os olhos procuraram conhecer a causa. do 
rumor; porém ela não se moveu; com a cabeça meio  inclinada sobre a coluna, em 
uma lânguida inflexão, parecia toda entregue ao encanto da música. 
Tomei um partido. 
Encostei-me à mesma coluna e, em voz baixa, balbuciei estas palavras:
- Não me esqueço!
Estremeceu e, baixando rapidamente o véu, conchegou ainda mais o largo 
burnous de cetim branco. 
Cuidei que ia voltar-se, mas enganei-me ; esperei muito tempo, e debalde.
Tive então um movimento de despeito e quase de raiva; depois de um mês 
que eu amava sem esperança, que eu guardava a maior fidelidade à sua sombra, 
ela me recebia friamente.
Revoltei-me.
- Compreendo agora, disse eu em voz baixa e como falando a um amigo que 
estivesse a meu lado, compreendo por que ela me foge, por que conserva esse 
mistério ; tudo isto não passa de uma zombaria cruel, de uma comédia, em que eu 
faço o papel de amante ridículo. Realmente é uma lembrança engenhosa! Lançar 
em um coração o germe de um amor profundo ; alimentá-lo de tempos a tempos 
com uma palavra, excitar a imaginação pelo mistério; e depois, quando esse 
namorado de uma sombra, de um sonho, de uma ilusão, passear pelo salão a sua 
figura triste e abatida, mostrá-lo a suas amigas como uma vítima imolada aos seus 
caprichos e escarnecer do louco! É espirituoso! O orgulho da mais vaidosa mulher 
deve ficar satisfeito! 
Enquanto eu proferia estas palavras, repassadas de todo o fel que tinha no 
coração, a Charton modulava com a sua voz sentimental essa linda ária final da 
Traviata, interrompida por ligeiros acessos de uma tosse seca. 
Ela tinha curvado a cabeça e não sei se ouvia o que eu lhe dizia ou o que a 
Charton cantava; de vez em quando as suas espáduas se agitavam com um tremor 
convulsivo, que eu tomei injustamente por um movimento de impaciência.
O espetáculo terminou, as pessoas do camarote saíram e ela, levantando 
sobre o chapéu o capuz de seu manto, acompanhou-as lentamente.
Depois, fingindo que se tinha esquecido de alguma coisa, tornou a entrar no 
camarote e estendeu-me a mão.
-- Não saberá nunca o que me fez sofrer, disse-me com a voz trêmula.
Não pude ver-lhe o rosto; fugiu, deixando-me o seu lenço impregnado desse 
mesmo perfume de sândalo e todo molhado de lágrimas ainda quentes.
Quis segui-la; mas ela fez um gesto tão suplicante que não tive ânimo de 
desobedecer-lhe. 
Estava como dantes; não a conhecia, não sabia nada a seu respeito; porém 
ao menos possuía alguma coisa dela; o seu lenço era para mim uma relíquia 
sagrada. 
Mas as lágrimas? Aquele sofrimento de que ela falava? O que queria dizer 
tudo isto? 
Não compreendia; se eu tinha sido injusto, era uma razão para não 
continuar a esconder-se de mim. Que queria dizer este mistério, que parecia 
obrigada a conservar? 
Todas estas perguntas e as conjeturas a que elas davam lugar não me 
deixaram dormir. 
Passei uma noite de vigília a fazer suposições, cada qual mais desarrazoada.

 III 

RECOLHENDO-ME no dia seguinte, achei em casa uma carta.
Antes de abri-la conheci que era dela, porque lhe tinha imprimido esse 
suave perfume que a cercava como uma auréola. 
Eis o que dizia : 
"Julga mal de mim, meu amigo ; nenhuma mulher pode escarnecer de um 
nobre coração como o seu. 
"Se me oculto, se fujo, é porque há uma fatalidade que a isto me obriga. E só 
Deus sabe quanto me custa este sacrifício, porque o amo!
"Mas não devo ser egoísta e trocar sua felicidade por um amor desgraçado.
"Esqueça-me. 
Reli não sei quantas vezes esta carta, e, apesar da delicadeza de sentimento 
que parecia ter ditado suas palavras, o que para mim se tornava bem claro é que ela 
continuava a
fugir-me.
Essa assinatura era a mesma letra que marcava o seu lenço e à qual eu, 
desde a véspera, pedia debalde um nome!
Fosse qual fosse esse motivo que ela chamava uma fatalidade e que eu 
supunha ser apenas escrúpulo, senão uma zombaria, o melhor era aceitar o seu 
conselho e fazer por esquecê-la.
Refleti então friamente sobre a extravagância da minha paixão e assentei 
que com efeito precisava tomar uma resolução decidida.
Não era possível que continuasse a correr atrás de um fantasma que se 
esvaecia quando ia tocá-lo. 
Aos grandes males os grandes remédios, como diz Hipócrates. Resolvi fazer 
uma viagem.
Mandei selar o meu cavalo, meti alguma roupa em um saco de viagem, 
embrulhei-me no meu capote e saí, sem me importar com a manhã de chuva que 
fazia. 
Não sabia para onde iria.  O meu cavalo levou-me para o Engenho-Velho e 
eu daí me encaminhei para a Tijuca, onde cheguei ao meio-dia, todo molhado e 
fatigado pelos maus caminhos.
Se algum dia se apaixonar, minha prima, aconselho-lhe as viagens como 
um remédio soberano e talvez o único eficaz.
Deram-me um excelente almoço no hotel; fumei um charuto e dormi doze 
horas, sem ter um sonho, sem mudar de lugar.
Quando acordei, o dia despontava sobre as montanhas da Tijuca.
Uma bela  manhã, fresca e rociada das gotas de orvalho, desdobrava o seu 
manto de azul por entre a cerração, que se desvanecia aos raios do sol.
O aspecto desta natureza quase virgem, esse céu brilhante, essa luz 
esplêndida, caindo em cascatas de ouro sobre as encostas dos rochedos, 
serenou-me completamente o espírito.  
Fiquei alegre, o que havia muito tempo não me sucedia.
O meu hóspede, um inglês franco e  cavalheiro, convidou-me para 
acompanhá-lo à caça; gastamos todo o dia a correr atrás de duas ou três marrecas e 
a bater as margens da Restinga.
Assim passei  nove dias  na Tijuca,  vivendo uma  vida estúpida quanto 
pode ser: dormindo, caçando e jogando bilhar.
Na tarde do  décimo  dia, quando já me supunha perfeitamente curado e 
estava contemplando o sol, que se escondia por detrás dos montes, e a lua, que 
derramava no espaço a sua luz doce e acetinada, fiquei triste de repente. 
Não sei que caminho tomavam as minhas idéias; o caso é que  daí a pouco 
descia a serra no meu cavalo, lamentando esses nove dias, que talvez me tivessem 
feito perder para sempre a minha desconhecida. 
Acusava-me de infidelidade, de traição; a minha fatuidade dizia-me que eu 
devia ao menos ter-lhe dado o prazer de ver-me. 
Que importava que ela me ordenasse que a esquecesse?
Não me tinha confessado que me amava, e não devia eu resistir e vencer 
essa fatalidade, contra a qual ela, fraca mulher, não podia lutar?
Tinha  vergonha de mim mesmo; achava-me  egoísta, cobarde, irrefletido, e 
revoltava-me contra tudo, contra o meu cavalo que me levara à Tijuca, e o meu 
hóspede, cuja amabilidade ali me havia demorado. 
Com esta disposição de espírito cheguei à cidade, mudei de traje e ia sair, 
quando o meu moleque me deu uma carta.
Era dela.       
Causou-me uma surpresa misturada de alegria e de remorso:
"Meu amigo. 
"Sinto-me com coragem de sacrificar o meu amor à sua felicidade; mas ao 
menos deixe-me o consolo de amá-lo.
"Há dois dias que espero debalde vê-lo passar e acompanhá-lo de longe com 
um olhar! Não me queixo; não sabe nem deve saber em que ponto de seu caminho 
o som de seus passos faz palpitar um coração amigo. 
"Parto hoje para Petrópolis, donde voltarei breve; não lhe peço que me 
acompanhe, porque devo ser-lhe sempre uma desconhecida, uma sombra escura 
que passou um dia pelos sonhos dourados de sua vida. 
"Entretanto eu desejava vê-lo ainda uma vez, apertar a sua mão e dizer-lhe 
adeus para sempre.

   "C."               

A carta tinha a data de 3; nós estávamos a 10; havia oito dias que ela partira 
para Petrópolis e que me esperava.           
No dia seguinte embarquei na Prainha e fiz essa viagem da baía, tão 
pitoresca, tão agradável e ainda tão pouco apreciada.               
Mas então a majestade dessas montanhas de granito, a poesia desse vasto 
seio de mar, sempre alisado como um espelho, os grupos de ilhotas graciosas que 
bordam a baía, nada disto me preocupava. 
Só tinha uma idéia... chegar; e o vapor caminhava menos rápido do que meu 
pensamento. 
Durante a viagem pensava nessa circunstância que a sua carta me revelara, 
e fazia-me por lembrar de todas as ruas por onde costumava passar, para ver se 
adivinhava aquela onde ela morava e donde todos os dias me via sem que eu 
suspeitasse.               
Para um homem como eu, que  andava todo o dia desde a manhã até a 
noite, a ponto de merecer que a senhora, minha prima, me apelidasse de Judeu 
Errante, este trabalho  era improfícuo.
Quando cheguei a Petrópolis, eram cinco horas da tarde; estava quase noite.  
Entrei nesse hotel suíço, ao qual nunca mais voltei, e enquanto me serviam 
um magro jantar, que era o meu almoço, tomei informações.
- Têm subido estes dias muitas famílias? perguntei eu ao criado.
- Não, senhor. 
- Mas, há coisa de oito dias não vieram da cidade duas senhoras?
- Não estou certo. 
- Pois indague, que preciso saber e já ; isto o ajudará a obter informações. 
A fisionomia sisuda do criado expandiu-se ao tinir da moeda e a língua 
adquiriu a sua elasticidade natural.
- Talvez o senhor queira falar de uma senhora já idosa que veio 
acompanhada de sua filha? 
- É isso mesmo. 
- A moça parece-me doente; nunca a vejo sair.              
- Onde está morando? 
- Aqui perto, na rua de... 
- Não conheço as ruas de Petrópolis; o melhor é acompanhar-me e vir 
mostrar-me a casa. 
- Sim senhor. 
O criado seguiu-me e tomamos por uma das ruas agrestes da cidade alemã.   

 IV 

A noite estava escura. 
Era uma dessas noites de Petrópolis, envoltas em nevoeiro e cerração.     
Caminhávamos mais pelo tato do que pela vista, dificilmente distinguíamos 
os objetos a uma pequena distância; e muitas vezes, quando o meu guia se 
apressava, o seu vulto perdia-se nas trevas. 
Em alguns minutos chegamos em face de um pequeno edifício construído a 
alguns passos do alinhamento, e cujas janelas estavam esclarecidas por uma luz 
interior.
É ali.
- Obrigado.
O criado voltou e eu fiquei junto dessa casa, sem saber o que ia fazer.
A idéia de que estava perto dela, que via a luz que a esclarecia, que tocava a 
relva que ela pisara, fazia-me feliz.
É coisa singular, minha prima! O amor que é insaciável e exigente e não se 
satisfaz com tudo quanto uma mulher pode dar, que deseja o impossível, às vezes 
contenta-se com um simples gozo d'alma, com uma dessas emoções delicadas, 
com um desses nadas, dos quais o coração faz um mundo novo e desconhecido.
Não pense, porém, que eu fui a Petrópolis só para contemplar com enlevo as 
janelas de um chalé; não; ao passo que sentia esse prazer, refletia no meio de vê-la 
e falar-lhe.
Mas como?...  
Se soubesse todos os expedientes, cada qual mais extravagante, que 
inventou a minha imaginação! Se visse a elaboracão tenaz a que se entregava o 
meu  espírito para descobrir um meio de dizer-lhe que eu estava ali e a esperava!
Por fim achei um; se não era o melhor, era o mais pronto.
Desde que chegara, tinha ouvido uns prelúdios de piano, mas tão débeis 
que pareciam antes tirados por uma mão distraída que roçava o teclado, do que por 
uma pessoa que tocasse.
Isto me fez lembrar que ao meu amor se prendia a recordação de uma bela 
música de Verdi; e foi quanto bastou.
Cantei, minha prima, ou antes assassinei aquela linda romanza; os que me 
ouvissem tomar-me-iam por algum furioso; mas ela me compreenderia. 
E de fato, quando eu acabei de estropiar esse trecho magnífico de harmonia 
e sentimento, o piano, que havia emudecido, soltou um trilo brilhante e sonoro, que 
acordou os ecos adormecidos no silêncio da noite. 
Depois daquela cascata de sons majestosos, que se precipitavam em ondas 
de harmonia do seio daquele turbilhão de notas que se cruzavam, deslizou 
plangente, suave e melancólica uma voz que sentia e palpitava, exprimindo todo o 
amor que respira a melodia sublime de Verdi. 
Era ela que cantava! 
Oh! não posso pintar-lhe, minha prima, a expressão profundamente triste, a 
angústia de que ela repassou aquela frase de despedida :  
 Non ti scordar di me. 
 Addio!... 

Partia-me a alma. 
Apenas acabou de cantar, vi desenhar-se uma sombra em uma das janelas; 
saltei a grade do jardim; mas as venezianas descidas não me permitiam ver o que 
se passava na sala.
Sentei-me sobre uma pedra e esperei. 
Não se ria, D... ; estava resolvido a passar ali a noite ao  relento, olhando 
para aquela casa e alimentando a esperança  de que ela viria ao menos com uma 
palavra compensar o meu sacrifício.
Não me enganei. 
Havia meia hora que a luz da sala tinha desaparecido e que toda a casa 
parecia dormir, quando se abriu uma das portas do jardim e eu vi ou antes pressenti 
a sua sombra na sala.
Recebeu-me com surpresa, sem temor, naturalmente, e como se eu fosse 
seu irmão ou seu marido. É porque o amor puro tem bastante delicadeza e bastante 
confiança para dispensar o falso pejo, o pudor de convenção de que às vezes 
costumam cercá-lo.     
- Eu sabia que sempre havias de vir, disse-me ela.
- Oh! não me culpes! se soubesses!
- Eu culpar-te? Quando mesmo não viesses, não tinha o direito de 
queixar-me.
- Por que não me amas! 
- Pensas isto? disse-me com uma voz cheia de lágrimas.
- Não! não!... Perdoa!
Perdôo-te, meu amigo, como já te perdoei uma vez; julgas que te fujo, que 
me oculto de ti, porque não te amo e, entretanto, não sabes que a maior felicidade 
para mim seria poder dar-te a minha vida. 
- Mas então por que esse mistério? 
- Esse mistério, bem sabes, não é uma coisa criada por mim e sim pelo acaso 
; se o conservo, é porque, meu amigo..., tu não me deves amar.  
- Não te devo amar! Mas eu amo-te!... 
Ela recostou a cabeça ao meu ombro e eu senti uma lágrima cair sobre meu 
seio.
Estava tão perturbado, tão comovido dessa situação incompreensível, que 
me senti vacilar e deixei-me cair sobre o sofá.
Ela sentou-se junto de mim; e, tomando-me as duas mãos, disse-me um 
pouco mais calma: 
- Tu dizes que me amas!
- Juro-te!
- Não te iludes talvez?
- Se a vida não é uma ilusão, respondi, penso que não, porque a minha vida 
agora és tu, ou antes, a tua sombra.  
- Muitas vezes toma-se um capricho por amor; tu não conheces de mim, 
como dizes, senão a minha sombra!...     
- Que me importa?..
- E se eu fosse feia? disse ela, rindo.
- Tu és bela como um anjo! Tenho toda a certeza.
- Quem sabe?
- Pois bem; convence-me, disse eu, passando-lhe o braço pela cintura e 
procurando levá-la para uma sala vizinha, donde filtravam os raios de uma luz. 
Ela desprendeu-se do meu braço. 
A sua voz tornou-se grave e triste. 
- Escuta, meu amigo ; falemos seriamente. Tu dizes que me amas ; eu o 
creio, eu o sabia antes mesmo que me dissesses. As almas como as nossas 
quando se encontram, se reconhecem e se compreendem. Mas ainda é tempo; não 
julgas que mais vale conservar uma doce recordação do que entregar-se a um 
amor sem esperança e sem futuro?... 
- Não, mil vezes não! Não entendo o que queres dizer; o meu amor, o meu, 
não precisa de futuro e de esperança, porque o tem em si, porque viverá sempre!... 
- Eis o que eu temia; e, entretanto, eu sabia que assim havia de acontecer ; 
quando se tem a tua alma, ama-se uma só vez. 
-- Então por que exiges de mim um sacrifício que sabes ser impossível?
-- Porque, disse ela com exaltação, porque, se há uma felicidade indefinível 
em duas almas que ligam sua vida, que se confundem na mesma existência, que 
só têm um passado e um futuro para ambas, que desde a flor da idade até à velhice 
caminham juntas para o mesmo horizonte, partilhando os seus prazeres e as suas 
mágoas, revendo-se uma na outra até o momento em que batem as asas e vão 
abrigar-se no seio de Deus, deve ser cruel, bem cruel, meu amigo, quando, 
tendo-se apenas encontrado, uma dessas duas almas irmãs fugir deste mundo, e a 
outra, viúva e triste, for condenada a levar sempre no seu seio uma idéia de morte, 
a trazer essa recordação, que, como um crepe de luto, envolverá a sua bela 
mocidade, a fazer do seu coração, cheio de vida e de amor, um túmulo para guardar 
as cinzas do passado! Oh! deve ser horrível!...
A exaltação com que falava tinha-se tornado uma espécie de delírio; sua voz, 
sempre tão doce e aveludada, parecia alquebrada pelo cansaço da respiração.
Ela caiu sobre o meu seio, agitando-se convulsivamente em um acesso de 
tosse.

 V 

ASSIM ficamos muito tempo imóveis, ela, com a fronte apoiada sobre o meu 
peito, eu, sob a impressão triste de suas palavras.
Por fim ergueu a cabeça; e, recobrando a sua serenidade disse-me com um 
tom doce e melancólico:
-- Não pensas que melhor é esquecer do que amar assim?     
-- Não! Amar, sentir-se amado, é sempre um gozo imenso e um grande 
consolo para a desgraça. O que é triste, o que é cruel, não é essa viuvez da alma 
separada de sua irmã, não; aí há um sentimento que vive, apesar da morte, apesar 
do tempo. É, sim, esse vácuo do coração que não tem uma afeição no mundo e 
que passa como um estranho por entre os prazeres que o cercam.
-- Que santo amor, meu Deus! Era assim que eu sonhava ser amada! ...    
-- E me pedias que te esquecesse!... 
-- Não! não! Ama-me; quero que me ames ao menos...
-- Não me fugirás mais?
-- Não.
-- E me deixarás ver aquela que eu amo e que não conheço? perguntei, 
sorrindo. 
-- Desejas?
-- Suplico-te!
-- Não sou eu tua?...
Lancei-me para a saleta onde havia luz e coloquei o lampião sobre a mesa 
do gabinete em que estávamos.
Para mim, minha prima, era um momento solene; toda essa paixão violenta, 
incompreensível, todo esse amor ardente por um vulto de mulher, ia depender 
talvez de um olhar.
E tinha medo de ver esvaecer-se, como um fantasma em face da realidade, 
essa visão poética de minha imaginação, essa criação que resumia todos os tipos.
Foi, portanto, com uma emoção extraordinária que, depois de colocar a luz, 
voltei-me. 
Ah!...
Eu sabia que era bela; mas a minha imaginação apenas tinha esboçado o 
que Deus criara. 
Ela olhava-me e sorria. 
Era um ligeiro sorriso, uma flor que se desfolhava nos seus lábios, um 
reflexo que iluminava o seu lindo rosto.
Seus grandes olhos negros fitavam em mim um desses olhares lânguidos e 
aveludados que afagam os seios d'alma.
Um anel de cabelos negros brincava-lhe sobre o ombro, fazendo sobressair a 
alvura diáfana de seu colo gracioso.
Tudo quanto a arte tem sonhado de belo e de voluptuoso desenhava-se 
naquelas formas soberbas, naqueles contornos harmoniosos que se destacavam 
entre as ondas de cambraia de seu roupão branco. 
Vi tudo isto de um só olhar, rápido, ardente e fascinado! depois fui 
ajoelhar-me diante dela e esqueci-me a contemplá-la.
Ela me sorria sempre e se deixava admirar. 
Por fim tomou-me a cabeça entre as mãos e seus lábios fecharam-me os 
olhos com um beijo.
-- Ama-me, disse. 
O sonho esvaeceu-se. 
A porta da sala fechou-se sobre ela, tinha-me fugido.
Voltei ao hotel. 
Abri a minha janela e sentei-me ao relento. 
A brisa da noite trazia-me de vez em quando um aroma de plantas agrestes 
que me causava íntimo prazer. 
Fazia lembrar-me da vida campestre, dessa existência doce e tranqüila que 
se passa longe das cidades, quase no seio da natureza.
Pensava como seria feliz, vivendo com ela em algum canto isolado, onde 
pudéssemos abrigar o nosso amor em um leito de flores e de relva.
Fazia na imaginação um idílio encantador e sentia-me tão feliz que não 
trocaria a minha cabana pelo mais rico palácio da terra.
Ela me amava.  
Só essa idéia embelezava tudo para mim; a noite escura de Petrópolis 
parecia-me poética e o murmurejar triste das águas do canal tornava-se-me 
agradável. 
Uma coisa, porém, perturbava essa felicidade; era um ponto negro, uma 
nuvem escura que toldava o céu da minha noite de amor.
Lembrava-me daquelas palavras tão cheias de angústia e tão sentidas, que 
pareciam explicar a causa de sua reserva para comigo: havia nisto um quer que 
seja que eu não compreendia.
Mas esta lembrança desaparecia logo sob a impressão de seu sorriso, que 
eu tinha em minh'alma, de seu olhar, que eu guardava no coração, e de seus 
lábios, cujo contato ainda
sentia.
Dormi embalado por estes sonhos e só acordei quando um raio de sol, alegre 
e travesso, veio bater-me nas pálpebras e dar-me o bom dia.
O meu primeiro pensamento foi ir saudar a minha casinha; estava fechada. 
Eram oito horas. 
Resolvi dar um passeio para disfarçar a minha impaciência; voltando ao 
hotel, o criado disse-me terem trazido um objeto que recomendaram me fosse 
entregue logo. 
Em Petrópolis não conhecia ninguém; devia ser dela.
Corri  ao  meu  quarto  e  achei  sobre  a  mesa  uma  caixinha  de  
pau-cetim;  na  tampa havia  duas letras  de tartaruga incrustadas : C. L.
A chave estava fechada em uma sobrecarta com endereço a mim; dispus-me 
a abrir a caixa com a mão trêmula e tomado por um triste pressentimento.
Parecia-me que naquele cofre perfumado estava encerrada a minha vida, o 
meu amor, toda a minha felicidade.
Abri.
Continha o seu retrato, alguns fios de cabelos e duas folhas de papel 
escritas por ela e que li de surpresa em surpresa.



 VI 

EIS o que ela me dizia: 
"Devo-te uma explicação, meu amigo. 
"Esta explicação é a história da minha vida, breve história, da qual escreveste 
a mais bela página. 
"Cinco meses antes do nosso primeiro encontro completava eu os meus 
dezesseis anos, a vida começava a sorrir-me.
"A educação rigorosa que me dera minha mãe, me conservara menina até 
àquela idade, e foi só quando ela julgou dever correr o véu que ocultava o mundo 
aos meus olhos, que eu perdi as minhas idéias de infância e as minhas inocentes 
ilusões.            
"A primeira vez que fui a um baile, fiquei deslumbrada no meio daquele 
turbilhão de cavalheiros e damas, que girava em torno de mim sob uma atmosfera 
de luz, de música, de
perfumes.
"Tudo me causava admiração; esse abandono com que as mulheres se 
entregavam ao seu par de valsa, esse sorriso constante e sem expressão que uma 
moça parece  tomar na porta da entrada para só deixá-lo à saída, esses galanteios 
sempre os mesmos e sempre sobre um tema banal, ao passo que me excitavam a 
curiosidade, faziam desvanecer o entusiasmo com que tinha acolhido a notícia que 
minha mãe me dera da minha entrada nos salões. 
"Estavas nesse baile; foi a primeira vez que te vi. 
"Reparei que nessa multidão alegre e ruidosa tu só não dançavas nem 
galanteavas, e passeavas pelo salão como um espectador mudo e indiferente, ou 
talvez como um homem que procurava uma mulher e só via toilettes.
"Compreendi-te e, durante muito tempo, segui-te com os olhos; ainda hoje 
me lembro dos teus menores gestos, da expressão do teu rosto e do sorriso de fina 
ironia que às vezes
fugia-te pelos lábios.
"Foi a única recordação que trouxe dessa noite, e quando adormeci, os meus 
doces sonhos de infância, que, apesar do baile, vieram de novo pousar nas alvas 
cortinas de meu leito, apenas foram interrompidos um instante pela tua imagem, 
que me sorria. 
"No dia seguinte reatei o fio de minha existência, feliz, tranqüila e 
descuidosa, como costuma ser a existência de uma moça aos dezesseis anos.
"Algum tempo depois fui a outros bailes e ao teatro, porque minha mãe, que 
guardara a minha infância, como um avaro esconde o  seu tesouro, queria fazer 
brilhar a minha mocidade.
"Quando  cedia  ao  seu  pedido  e  me ia  aprontar, enquanto 
preparava o meu simples traje, murmurava: -- Talvez ele esteja.
"E esta lembrança, não só me tornava alegre, mas fazia com que procurasse 
parecer bela, para te merecer um primeiro olhar.
"Ultimamente era eu quem, cedendo a um sentimento que não sabia 
explicar, pedia a minha mãe para irmos a um divertimento, só na esperança de 
encontrar-te.
"Nem suspeitavas então que, entre todos aqueles vultos indiferentes, havia 
um olhar que te seguia sempre e um coração que adivinhava os teus 
pensamentos, que se expandia quando te via sorrir e contraía-se quando uma 
sombra de melancolia anuviava o teu semblante.
"Se pronunciavam o teu nome diante de mim, corava e na minha 
perturbação julgava que tinham lido esse nome nos meus olhos ou dentro de 
minh'alma, onde eu bem sabia que ele estava escrito. 
"E, entretanto, nem sequer ainda me tinhas visto; se teus olhos haviam 
passado alguma vez por mim, tinha sido em um desses momentos em que a luz se 
volta para o íntimo, e se olha, mas não se vê.
"Consolava-me, porém, que algum dia o acaso nos reuniria, e então não sei 
o que me dizia que era impossível não me amares.
"O acaso deu-se, mas quando a minha existência já se tinha completamente 
transformado. 
"Ao sair de um desses bailes, apanhei uma pequena constipação, de que 
não fiz caso. Minha mãe teimava que eu estava doente, e eu achava-me apenas 
um pouco pálida e sentia às vezes um ligeiro calafrio, que eu curava, sentando-me 
ao piano e tocando alguma música de bravura. 
"Um dia, porém, achei-me mais abatida; tinha as mãos e os lábios ardentes, 
a respiração era difícil, e ao menor esforço umedecia-se-me a pele com uma 
transpiração que me parecia gelada.       
"Atirei-me sobre um sofá e, com a cabeça recostada ao colo de minha mãe, 
caí em um letargo que não sei quanto tempo durou. Lembro-me somente que, no 
momento mesmo em que ia despertando dessa sonolência que se apoderara de 
mim, vi minha mãe, sentada à cabeceira de meu leito, chorando, e um homem 
dizia-lhe algumas palavras de consolo, que eu ouvi como em sonho: 
"-- Não desespere, minha senhora; a ciência não é infalível, nem os meus 
diagnósticos são sentenças irrevogáveis. Pode ser que a natureza e as viagens a 
salvem. Mas é preciso não perder tempo.
"O homem partiu. 
"Não tinha compreendido as suas palavras, às quais não ligava o menor 
sentido. 
"Passando um instante, ergui tranqüilamente os olhos para minha mãe, que 
escondeu o lenço e tragou em silêncio o seu pranto e os seus soluços.
"-- Tu choras, mamãe? 
"-- Não, minha filha... não... não é nada. 
"-- Mas tu estás com os olhos cheios de lágrimas!... disse eu assustada. 
"-- Ah! sim!... uma notícia triste que me contaram há pouco... sobre uma 
pessoa... que tu não conheces.
"-- Quem é este senhor que estava aqui? 
"-- É o Dr. Valadão, que te veio visitar. 
"-- Então eu estou muito doente, boa mamãe?                
"-- Não, minha filha, ele assegurou que não tens nada; é apenas um 
incômodo nervoso.
"E minha querida mãe, não podendo mais conter as lágrimas que saltavam 
dos olhos, fugiu, pretextando uma ordem a dar.
"Então, à medida que a minha inteligência ia saindo do letargo, comecei a 
refletir sobre o que se tinha passado.
"Aquele desmaio tão longo, aquelas palavras que eu ouvira ainda entre as 
névoas de um sono agitado, as lágrimas de minha mãe e a sua repentina aflição, o 
tom condoído com que o médico lhe falara.
"Um raio de luz esclareceu de repente o meu espírito.     
Estava desenganada. 
- O poder da ciência, o olhar profundo, seguro, infalível, desse homem que lê 
no corpo humano como em um livro aberto, tinha visto no meu seio um átomo 
imperceptível.
"E esse átomo era o verme que devia destruir as fontes da vida, apesar dos 
meus dezesseis anos, apesar de minha organização, apesar de minha beleza e dos 
meus sonhos de felicidade!"
Aqui terminava a primeira folha, que eu acabei de ler entre as lágrimas que 
me inundavam as faces e caíam sobre o papel.
Era este o segredo de sua estranha reserva; era a razão por que me fugia, 
por que se ocultava, por que ainda na véspera dizia que se tinha imposto o 
sacrifício de nunca ser amada por mim.
Que sublime abnegação, minha prima! E, como eu me sentia pequeno e 
mesquinho à vista desse amor tão nobre!



 VII 

CONTINUEI a ler : 
"Sim, meu amigo!... 
"Estava condenada a morrer; estava atacada dessa moléstia fatal e traiçoeira, 
cujo dedo descarnado nos toca no meio dos prazeres e dos risos, nos arrasta ao 
leito, e do leito ao túmulo, depois de ter escarnecido da natureza, transfigurando as 
suas belas criações em múmias animadas.
"É impossível descrever-te o que se passou então em mim; foi um desespero 
mudo e concentrado, mas que me prostrou em uma atonia profunda; foi uma 
angústia pungente e cruel.
"As rosas da minha vida apenas se entreabriam e já eram bafejadas por um 
hálito infetado; já tinham no seio o germe de morte que devia fazê-las murchar! 
"Meus sonhos de futuro, minhas tão risonhas esperanças, meu puro amor, 
que nem sequer ainda tinha colhido o primeiro sorriso, este horizonte, que há 
pouco me parecia tão brilhante, tudo isto era uma visão que ia sumir-se, uma luz 
que lampejava prestes a extinguir-se. 
"Foi preciso um esforço sobre-humano para esconder de minha mãe a 
certeza que eu tinha sobre o meu estado e para gracejar dos seus temores, que eu 
chamava imaginários. 
"Boa mãe! Desde então só viveu para consagrar-se exclusivamente à sua 
filha, para envolvê-la com esse desvelo e essa proteção que Deus deu ao coração 
materno, para abrigar-me com suas preces, sua solicitude e seus carinhos, para 
lutar à força de amor e de dedicação contra o destino. 
"Logo no dia seguinte fomos para Andaraí, onde ela alugara uma chácara, e 
aí, graças a seus cuidados, adquiri tanta saúde, tanta força, que me julgaria boa se 
não fosse a sentença fatal que pesava sobre mim. 
"Que tesouro de sentimento e de delicadeza que é um coração de mãe, meu 
amigo! Que tato delicado, que sensibilidade apurada, possui esse amor sublime!
"Nos primeiros dias, quando ainda estava muito abatida e era obrigada a 
agasalhar-me, se visses como ela pressentia as rajadas de um vento frio antes que 
ele agitasse os renovos dos cedros do jardim, como adivinhava a menor neblina 
antes que a primeira gota umedecesse a laje do nosso terraço! 
"Fazia tudo por distrair-me; brincava comigo como uma camarada de colégio; 
achava prazer nas menores coisas para excitar-me a imitá-la; tornava-se menina e 
obrigava-me a ter caprichos.
"Enfim, meu amigo, se fosse a dizer-te tudo, escreveria um livro e esse livro 
deves ter lido no coração de tua mãe, porque todas as mães se parecem.
"Ao cabo de um mês tinha recobrado a saúde para todos, exceto para mim, 
que às vezes sentia um quer que seja como uma contração, que não era dor, mas 
que me dizia que o mal estava ali, e dormia apenas. 
"Foi nesta ocasião que te encontrei no ônibus de Andaraí; quando entravas, 
a luz do lampião iluminou-te o rosto e eu te reconheci.
"Faze idéia que emoção sentira quando te sentaste junto de mim.
"O mais tu sabes; eu te amava e era tão feliz de ter-te ao meu lado, de apertar 
a tua mão, que nem me lembrava como te devia parecer ridícula uma mulher que, 
sem te conhecer,
te permitia tanto.
"Quando nos separamos, arrependi-me do que tinha feito.
"Com que direito ia eu perturbar a tua felicidade, condenar-te a um amor 
infeliz e obrigar-te a associar tua vida a uma existência triste, que talvez não te 
pudesse dar senão os tormentos de seu longo martírio?!
"Eu te amava; mas, já que Deus não me tinha concedido a graça de ser tua 
companheira neste mundo, não devia ir roubar ao teu lado e no teu coração o lugar 
que outra mais feliz, porém menos dedicada, teria de ocupar.
"Continuei a amar-te, mas impus-me a mim mesma o sacrifício de nunca ser 
amada, por ti. 
"Vês, meu amigo, que não era egoísta e preferia a tua à minha felicidade. Tu 
farias o mesmo, estou certa.
"Aproveitei o mistério do nosso primeiro encontro e esperei que alguns dias 
te fizessem esquecer essa aventura e quebrassem o único e bem frágil laço que te 
prendia a mim. 
"Deus não quis que acontecesse assim; vendo-te só em um baile, tão triste, 
tão pensativo, procurando um ser invisível, uma sombra e querendo descobrir os 
seus vestígios em algum dos rostos que passavam diante de ti, senti um prazer 
imenso.              
"Conheci que tu me amavas; e, perdoa, fiquei orgulhosa dessa paixão 
ardente, que uma só palavra minha havia criado, desse poder do meu amor, que, 
por uma força de atração inexplicável, tinha-te ligado à minha sombra. 
"Não pude resistir. 
"Aproximei-me, disse-te uma palavra sem que tivesses tempo de ver-me; foi 
essa mesma palavra que resume todo o poema do nosso amor e que, depois do 
primeiro encontro, era, como ainda hoje, a minha prece de todas as noites.                
"Sempre que me ajoelho diante do meu crucifixo de marfim, depois de 
minha oração, ainda com os olhos na cruz e o pensamento em Deus, chamo a tua 
imagem para pedir-te que não te esqueças de mim. 
"Quando tu te voltaste ao som da minha voz, eu tinha entrado no toilette; e 
pouco depois saí desse baile, onde apenas acabava de entrar, tremendo da minha 
imprudência, mas alegre e feliz por te ter visto ainda uma vez. 
"Deves agora compreender o que me fizeste sofrer no teatro quando me 
dirigias aquela acusação tão injusta, no momento mesmo em que a Charton 
cantava a ária da Traviata.
"Não sei como não me traí naquele momento e não te disse tudo; o teu 
futuro, porém, era sagrado para mim, e eu não devia destruí-lo para satisfação de 
meu amor próprio ofendido.
"No dia seguinte escrevi-te; e assim, sem me trair, pude ao menos 
reabilitar-me na tua estima; doía-me muito que, ainda mesmo não me conhecendo, 
tivesses sobre mim uma idéia tão injusta e tão falsa. 
"Aqui é preciso dizer-te que no dia seguinte ao do nosso primeiro encontro, 
tínhamos voltado à cidade, e eu te via passar todos os dias diante de minha janela, 
quando fazias o teu passeio costumado à Glória. 
"Por detrás das cortinas, seguia-te com o olhar, até que desaparecias no fim 
da rua, e este prazer, rápido como era, alimentava o meu amor, habituado a viver de 
tão pouco.
"Depois da minha carta tu deixaste de passar dois dias, estava eu a partir 
para aqui, donde devia voltar unicamente para embarcar no paquete inglês.
"Minha mãe, incansável nos seus desvelos, quer levar-me à Europa e 
fazer-me viajar pela Itália, pela Grécia, por todos os países de um clima doce.
"Ela diz que é para - mostrar-me os grandes modelos de arte e cultivar o meu 
espírito, mas eu sei que essa viagem é a sua única esperança, que não podendo 
nada contra a minha enfermidade, quer ao menos disputar-lhe a sua vítima durante 
mais algum tempo. 
"Julga que fazendo-me viajar, sempre me dará mais alguns dias de 
existência, como se estes sobejos de vida valessem alguma coisa para quem já 
perdeu a sua mocidade e o seu futuro.
"Quando ia embarcar para aqui, lembrei-me de que talvez não te visse mais 
e, diante dessa derradeira provança, sucumbi. Ao menos o consolo de dizer-te 
adeus!...
"Era o último! 
"Escrevi-te segunda vez; admirava-me  da tua  demora, mas tinha uma 
quase certeza de que havias de vir. 
"Não me enganei. 
"Vieste, e toda a minha resolução, toda a minha coragem cedeu, porque, 
sombra ou mulher, conheci que me amavas como eu te amo.
"O mal estava feito. 
"Agora, meu amigo, peço-te por mim, pelo amor que me tens, que reflitas no 
que te vou dizer, mas que reflitas com calma e tranqüilidade.
"Para isto parti hoje de  Petrópolis, sem prevenir-te, e coloquei entre nós o 
espaço de vinte e quatro horas e uma distância de muitas léguas.
"Desejo que não procedas precipitadamente e que, antes de dizer-me uma 
palavra, tenhas medido todo o alcance que ela deve ter sobre o teu futuro.
"Sabes o meu destino, sabes que sou uma vítima, cuja hora está marcada, e 
que todo o meu amor, imenso, profundo, não te pode dar talvez dentro em bem 
pouco senão o sorriso contraído pela tosse, o olhar desvairado pela febre e carícias 
roubadas aos sofrimentos. 
"É triste; e não deves imolar assim a tua bela mocidade, que ainda te reserva 
tantas venturas e talvez um amor como o que eu te consagro. 
"Deixo-te, pois, meu retrato, meus cabelos e minha história; guarda-os como 
uma lembrança e pensa algumas vezes em mim: beija esta folha muda, onde os 
meus lábios deixaram-te o adeus extremo. 
"Entretanto, meu amigo, se, como tu dizias ontem, a felicidade é amar e 
sentir-se amado; se te achas com forças de partilhar essa curta existência, esses 
poucos dias que me restam a passar sobre a terra, se me queres dar esse consolo 
supremo, único que ainda embelezaria minha vida, vem!
"Sim,  vem! iremos pedir ao belo céu da Itália mais alguns dias de vida para 
nosso amor; iremos aonde tu quiseres, ou aonde nos levar a Providência.
"Errantes pelas vastas solidões dos mares ou pelos cimos elevados das 
montanhas, longe do mundo, sob o olhar protetor de Deus, à sombra dos cuidados 
de nossa mãe, viveremos tanto um como outro, encheremos de tanta afeição os 
nossos dias, as nossas horas, os nossos instantes, que, por curta que seja a minha 
existência, teremos vivido por cada minuto séculos de amor e de felicidade.
"Eu espero; mas temo.
"Espero-te como a flor desfalecida espera o raio de sol que deve aquecê-la, a 
gota de orvalho que pode animá-la, o hálito da brisa que vem bafejá-la. Porque para 
mim o único céu que hoje me sorri, são teus olhos; o calor que pode me fazer viver, 
é o do teu seio. 
"Entretanto temo, temo por ti, e quase peço a Deus que te inspire e te salve 
de um sacrifício talvez inútil!
"Adeus para sempre, ou até amanhã!"

 CARLOTA              


 VIII 

DEVOREI toda esta carta de um lanço de olhos. 
Minha vista corria sobre o papel como o meu pensamento, sem parar, sem 
hesitar, poderia até dizer sem respirar.        
Quando acabei de ler, só tinha um desejo: era o de ir ajoelhar-me a seus pés 
e receber como uma bênção do céu esse amor sublime e santo.
Como sua mãe, lutaria contra o destino, cercá-la-ia de tanto afeto e de tanta 
adoração, tornaria sua vida tão bela e tão tranqüila, prenderia tanto sua alma à terra, 
que lhe seria impossível deixá-la.
Criaria para ela com o meu coração um mundo novo, sem as misérias e as 
lágrimas deste mundo em que vivemos; um mundo só de ventura, onde a dor e o 
sofrimento não pudessem penetrar.         
Pensava que devia haver no universo algum lugar desconhecido, algum 
canto de terra ainda puro do hálito do homem, onde a natureza virgem conservaria 
o perfume dos primeiros tempos da criação e o contato das mãos de Deus quando a 
formara.          
Aí era impossível que o ar não desse vida; que o raio do sol não viesse 
impregnado de um átomo de fogo celeste; que a água, as árvores, a terra, cheia de 
tanta seiva e de tanto vigor, não inoculassem na criatura essa  vitalidade poderosa 
da natureza no seu primitivo esplendor. 
Iríamos, pois, a uma dessas solidões desconhecidas; o mundo abria-se 
diante de nós e eu sentia-me com bastante força e bastante coragem para levar o 
meu tesouro além dos mares e das montanhas, até achar um retiro onde esconder 
a nossa felicidade. 
Nesses desertos, tão vastos, tão extensos, não haveria sequer vida bastante 
para duas criaturas que apenas pediam um palmo de terra e um sopro de ar, a fim 
de poderem elevar a Deus, como uma prece constante, o seu amor tão puro?           
Ela dava-me vinte e quatro horas para refletir e eu não queria nem um 
minuto, nem um segundo. 
Que me importavam o  meu futuro e a  minha existência se eu os 
sacrificaria de bom grado para dar-lhe mais  um dia de vida?
Todas estas idéias, minha prima, cruzavam-se no meu espirito, rápidas e 
confusas, enquanto eu fechava na caixinha de pau-cetim os objetos preciosos que 
ela encerrava, copiava na minha carteira a sua morada, escrita no fim da carta, e 
atravessava o espaço que me separava da porta do hotel.        
Aí encontrei o criado da véspera. 
-- A que horas parte a barca da Estrela? 
-- Ao meio-dia.     
Eram onze horas; no espaço de uma hora eu faria as quatro léguas que me 
separavam daquele porto.
Lancei os olhos em torno de mim com uma espécie de desvario. 
Não tinha um trono, como Ricardo III, para oferecer em troca de um cavalo; 
mas tinha a realeza do nosso século, tinha dinheiro.
A dois passos da porta do hotel estava um cavalo, que o seu dono tinha pela 
rédea.
-- Compro-lhe este cavalo, disse eu, caminhando para ele, sem mesmo 
perder tempo em cumprimentá-lo.
-- Não pretendia vendê-lo, respondeu-me o homem cortesmente; mas, se o 
senhor está disposto a dar o preço que ele vale.
-- Não questiono sobre o preço; compro-lhe o cavalo arreado como está.
O sujeito olhou-me admirado; porque, a falar a verdade, os seus arreios nada 
valiam.
Quanto a mim, já lhe tinha tomado as rédeas da mão; e, sentado no selim, 
esperava que me dissesse quanto tinha de pagar-lhe.
-- Não repare, fiz uma aposta e preciso de um cavalo para ganhá-la.
Isto deu-lhe a compreender a singularidade do meu ato e a pressa que eu 
tinha; recebeu sorrindo o preço do seu animal e disse, saudando-me com a mão, de 
longe, porque já eu dobrava a rua:            
-- Estimo que ganhe a aposta; o animal é excelente!             
Na verdade era uma aposta que eu tinha feito comigo mesmo, ou antes com 
a minha razão, a qual me dizia que era impossível apanhar a barca, e que eu fazia 
uma extravagância sem necessidade, pois bastava ter paciência por vinte e quatro 
horas. 
Mas o amor não compreende esses cálculos e esses raciocínios próprios da 
fraqueza humana; criado com uma partícula do fogo divino, ele eleva o homem 
acima da terra, desprende-o da argila que o envolve e dá-lhe força para dominar 
todos os obstáculos, para querer o impossível. 
Esperar tranqüilamente um dia para dizer-lhe que eu a amava e queria 
amá-la com todo o culto e admiração que me inspirava a sua nobre abnegação, me 
parecia quase uma infâmia.
Seria dizer-lhe que tinha refletido friamente, que tinha pesado todos os prós 
e os contras do passo que ia dar, que havia calculado como um egoísta a felicidade 
que ela me oferecia.
Não só a minha alma se revoltava contra esta idéia; mas parecia-me que ela, 
com a sua extrema delicadeza de sentimento, embora não se queixasse, sentiria 
ver-se o objeto de um cálculo e o alvo de um projeto de futuro.
A minha viagem foi uma corrida louca, desvairada, delirante. Novo 
Mazzeppa, passava por entre a cerração da manhã, que cobria os píncaros da  
serrania, como uma sombra que fugia rápida e veloz.
Dir-se-ia que alguma rocha colocada em um dos cabeços da montanha 
tinha-se despreendido de seu alvéolo secular e, precipitando-se com todo o peso, 
rolava surdamente pelas encostas.
O galopar do meu cavalo formava  um  único som, que ia reboando pelas 
grutas e cavernas e confundia-se com o rumor das torrentes. 
As  árvores, cercadas de névoa, fugiam diante de mim como fantasmas; o 
chão desaparecia sob os pés do animal; às vezes parecia-me que a terra ia 
faltar-me e que o cavalo e cavaleiro rolavam por algum desses abismos imensos e 
profundos, que devem ter servido de túmulos titânicos. 
Mas, de repente, entre uma aberta de nevoeiro, eu via a linha azulada do mar 
e fechava os olhos e atirava-me sobre o meu cavalo, gritando-lhe ao ouvido a 
palavra de Byron: -- Away! 
Ele parecia entender-me e precipitava essa corrida desesperada; não 
galopava, voava; seus pés, como impelidos por quatro molas de aço, nem tocavam 
a terra.
Assim, minha prima, devorando o espaço e a distância, foi ele, o nobre 
animal, abater-se a alguns passos apenas da praia; a coragem e as forças só o 
tinham abandonado com a vida e no termo da viagem.
Em pé, ainda sobre o cadáver desse companheiro leal, via a coisa de uma 
milha o vapor que singrava ligeiramente para a cidade.
Aí fiquei, perto de uma hora, seguindo com os olhos essa barca que a 
conduzia; e quando o casco desapareceu, olhei os frocos de fumaça do vapor, que 
se enovelaram no ar e que o vento desfazia a pouco e pouco. 
Por fim, quando tudo desapareceu e que nada me falava dela, olhei ainda o 
mar por onde havia passado e o horizonte que a ocultava aos meus olhos.
O sol dardejava raios de fogo; mas eu nem me importava com o sol; todo o 
meu espírito e os meus sentidos se concentravam em um único pensamento; vê-la, 
vê-la em uma hora, em um momento, se possível fosse. 
Um velho pescador arrastava nesse momento a sua canoa à praia.
Aproximei-me e disse-lhe:
-- Meu amigo, preciso ir à cidade, perdi a barca e desejava que você me 
conduzisse na sua canoa. 
-- Mas se eu agora mesmo é que chego!
-- Não importa; pagarei o seu trabalho, também o incêmodo que isto lhe 
causa. 
-- Não posso, não, senhor, não é lá pela paga que eu digo que estou 
chegando; mas é que passar a noite no mar sem dormir não é lá das melhores 
coisas; e estou caindo de sono.
-- Escute, meu amigo... 
-- Não se canse, senhor; quando eu digo não, é não; e está dito.
E o velho continuou a arrastar a sua canoa.
-- Bem, não falemos mais nisto; mas conversemos.
-- Lá isto como o senhor quiser.
-- A sua pesca rende-lhe bastante? 
-- Qual! rende nada!... 
-- Ora diga-me! Se houvesse um meio de fazer-lhe ganhar em um só dia o 
que pode ganhar em um mês, não enjeitaria decerto?
-- Isto é coisa que se pergunte? 
-- Quando mesmo fosse preciso embarcar depois de passar uma noite em 
claro no mar?
-- Ainda que devesse remar três dias com três noites, sem dormir nem comer.   
-- Nesse caso, meu amigo, prepare-se, que vai ganhar o seu mês de 
pescaria; leve-me à cidade.
-- Ah! isto já é outro falar ; por que não disse logo?...
-- Era preciso explicar-me?!
-- Bem diz o ditado que é falando que a gente se entende.
-- Assim, é negócio decidido. Vamos embarcar?
-- Com licença; preciso de um instantinho para prevenir a mulher ; mas é um 
passo lá e outro cá.
-- Olhe, não se demore ; tenho muita pressa.               
-- É em um fechar de olhos, disse ele, correndo na direção da vila.
Mal tinha feito vinte passos, parou, hesitou, e por fim voltou lentamente pelo 
mesmo caminho.
Eu tremia; julgava que se tinha arrependido, que vinha apresentar-me 
alguma nova dificuldade. Chegou-se para mim de olhos baixos e coçando a 
cabeça.
-- O que temos, meu amigo? perguntei-lhe com uma voz que esforçava por 
ter calma.
- É que... o senhor disse que pagava um mês...
-- Decerto; e, se duvida, disse, levando a mão ao bolso.
-- Não, senhor, Deus me defenda de desconfiar do senhor! Mas é que... sim, 
não vê, o mês agora tem menos um dia que os outros!
Não pude deixar de sorrir-me do temor do velho; nós estivamos com efeito, 
no mês de fevereiro. 
-- Não se importe com isto; está entendido que, quando eu digo um mês, é 
um mês de trinta e um dias; os outros são meses aleijados, e não se contam.
-- É isso mesmo, disse o velho, rindo-se da minha idéia; assim como quem 
diz, um homem sem um braço. Ah!... ah!...
E, continuando a rir-se, tomou o caminho de casa e desapareceu.
Quanto a mim, estava tão contente com a idéia de chegar à cidade em 
algumas horas, que não pude deixar também de rir-me do caráter original do 
pescador.
Conto-lhe estas cenas e as outras que se lhe seguiram com todas as suas 
circunstâncias por duas razões, minha prima.
A primeira é porque desejo que compreenda bem o drama simples que me 
propus traçar-lhe ; a segunda é porque tenho tantas vezes repassado na memória 
as menores particularidades dessa história, tenho ligado de tal maneira o meu 
pensamento a essas reminiscências, que não me animo a destacar delas a mais 
insignificante circunstância; parece-me que se o fizesse, separaria uma parcela de 
minha vida.
Depois de duas horas de espera e de impaciência, embarquei nessa 
casquinha de noz, que saltou sobre as ondas, impelida pelo braço ainda forte e ágil 
do velho pescador.
Antes de partir fiz enterrar o meu pobre cavalo; não podia deixar assim 
exposto às aves de rapina o corpo desse nobre animal, que eu tinha roubado à 
afeição do seu dono, para imolá-lo à satisfação de um capricho meu.
Talvez lhe pareça isto uma puerilidade; mas a senhora é mulher, minha 
prima, e deve saber que, quando se ama como eu amava, tem-se o coração tão 
cheio de afeição, que espalha uma atmosfera de sentimento em torno de nós e 
inunda até os objetos inanimados, quanto mais as criaturas, ainda irracionais, que 
um momento se ligaram à nossa existência para realização de um desejo. 

 IX 

ERAM seis horas da tarde. 
O sol declinava rapidamente e a noite, descendo do céu, envolvia a terra nas 
sombras desmaiadas que acompanhavam o ocaso.
Soprava uma forte viração de sudoeste, que desde o momento da partida 
retardava a nossa viagem; lutávamos contra o mar e o vento.
O  velho pescador, morto de fadiga e de sono, estava exausto de forças; a 
sua pá, que a princípio fazia saltar sobre as ondas como um peixe o frágil 
barquinho, apenas feria agora a flor da água.
Eu, recostado na popa, e com os olhos fitos na linha azulada do horizonte, 
esperando a cada momento ver desenhar-se o perfil do meu belo Rio de Janeiro, 
começava seriamente a inquietar-me na minha extravagância e loucura. 
À proporção que declinava o dia e que as sombras cobriam o céu, esse vago 
inexprimível da noite no meio das ondas, a tristeza e melancolia que infunde o 
sentimento da fraqueza do homem em face dessa solidão imensa de água e de 
céu,  se apoderavam do meu espírito. 
Pensava então que teria sido mais prudente  esperar o dia seguinte e fazer 
uma viagem breve e rápida, do que sujeitar-me a mil contratempos e mil 
embaraços, que no fim de contas nada adiantavam. 
Com efeito já tinha anoitecido; e, ainda que conseguíssemos chegar à 
cidade por volta de nove ou dez horas, só no dia seguinte poderia ver Carlota e 
falar-lhe.
De que havia  servido, pois, todo o meu arrebatamento, toda a minha 
impaciência? Tinha morto um animal, tinha incomodado um pobre velho, tinha 
atirado às mãos cheias dinheiro, que poderia melhor empregar socorrendo algum 
infortúnio e cobrindo esta obra de caridade com o nome e a lembrança dela.
Concebia uma triste idéia de mim; no meu modo de ver então as coisas, 
parecia-me que eu tinha feito do amor, que é uma sublime paixão, apenas uma 
estúpida mania; e dizia interiormente que o homem que não domina os seus 
sentimentos, é um escravo, que não tem o menor merecimento quando pratica um 
ato de dedicação.
Tinha-me tornado filósofo, minha prima, e decerto  compreenderá a razão.
No meio da baía, metido em uma canoa, à mercê do vento e do mar, não 
podendo dar largas à minha impaciência de chegar, não havia senão um modo de 
sair desta situação, e este era arrepender-me do que tinha feito. 
Se eu pudesse fazer alguma nova loucura, creio piamente que adiaria o 
arrependimento para mais tarde, porém era impossível.
Tive um momento a idéia de atirar-me à água e procurar vencer a nado a 
distância que me separava dela; mas era noite, não tinha a luz de Hero para 
guiar-me, e me perderia nesse novo Helesponto. 
Foi decerto uma inspiração do céu ou o meu anjo da guarda que me veio 
advertir que naquela ocasião eu nem sabia mesmo de que lado ficava a cidade.
Resignei-me, pois, e arrependi-me sinceramente.             
Dividi com o meu companheiro algumas provisões que tínhamos trazido; e 
fizemos uma  verdadeira colação de contrabandistas ou piratas.
Caí na asneira de obrigá-lo a beber uma garrafa de vinho do Porto, bebendo 
eu outra para acompanhá-lo e fazer-lhe as honras da hospitalidade. Julgava que  
deste modo ele restabeleceria as forças e chegaríamos mais depressa.
Tinha-me esquecido de que a sabedoria das nações, ou a ciência dos 
provérbios, consagra o princípio de que devagar se vai ao longe.
Acabada a nossa magra colação, o pescador começou a remar com uma 
força e um vigor que me reanimaram a esperança.
Assim, docemente embalado pela idéia de vê-la e pelo marulho das ondas, 
com os olhos fitos na estrela da tarde, que se ia sumindo no horizonte e me sorria 
como para consolar-me, senti a pouco e pouco fecharem-se-me as pálpebras, e 
dormi.
Quando acordei, minha  prima, o sol derramava seus raios de ouro sobre o 
manto azulado das ondas: era dia claro.
Não sei onde estávamos; via ao longe algumas ilhas; o pescador dormia na 
proa, e ressonava como um boto.
A canoa tinha vogado à mercê da corrente; e o remo, que caíra naturalmente 
das mãos do velho, no momento em que ele cedera à força invencível do sono, 
tinha desaparecido. Estávamos no meio da baía, sem poder dar um passo, sem 
poder mover-nos.
Aposto, minha prima, que a senhora acaba de dar uma risada, pensando na 
cômica posição em que me achava; mas seria uma injustiça zombar de  uma dor 
profunda, de uma angústia cruel como a que sofri então.
Os instantes, as horas, corriam de decepção em decepção; alguns barcos 
que passaram perto, apesar dos nossos gritos, seguiram o seu caminho, não 
podendo supor que com o tempo calmo e sereno que fazia, houvesse sombra de 
perigo para uma canoa que boiava tão levemente sobre as ondas. 
O velho, que tinha acordado, nem se desculpava; mas a sua aflição era tão 
grande que quase me comoveu; o pobre homem arrancava os cabelos e mordia os 
beiços de raiva.
As horas correram assim nessa atonia do desespero. Sentidos em face um 
do outro, talvez culpando-nos mutuamente do que sucedia, não proferíamos uma 
palavra, não fazíamos
um gesto.
Por fim veio a noite. Não sei como não fiquei louco, lembrando-me de que 
estávamos a 18, e que o paquete devia partir no dia seguinte.
Não era unicamente a idéia de uma ausência que me afligia; era também a 
lembrança do mal que ia causar-lhe, a ela, que, ignorando o que se passava, me 
julgaria  egoísta, suporia que a havia abandonado e que ficara em Petrópolis, 
divertindo-me. 
Aterrava-me com as conseqüências que poderia ter esse fato sobre a sua 
saúde tão frágil, sobre a sua vida, e me condenava já como assassino.
Lancei um olhar alucinado sobre o pescador e tive ímpetos de abraçá-lo e 
atirar-me com ele ao mar. 
Oh! como sentia então o nada do homem e a fraqueza da nossa raça, tão 
orgulhosa de sua superioridade e do seu poder!
De que me serviam a inteligência, a vontade e essa força invencível do amor, 
que me impelia e me dava coragem para arrostar vinte vezes a morte?
Algumas braças d'água e uma pequena distância me retinham e me 
encadeavam naquele lugar como a um poste; a falta de um remo, isto é, de três 
palmos de madeira, criava para mim o impossível; um círculo de ferro me cingia, e 
para quebrar essa prisão, contra a qual toda a minha razão era impotente, 
bastava-me que fosse um ente irracional.
A  gaivota, que frisava as ondas com a ponta de suas asas brancas; o peixe, 
que fazia cintilar um momento seu dorso de escamas à luz das estrelas; o inseto, 
que vivia no seio das águas e plantas marinhas, eram reis dessa solidão, na qual o 
homem não podia sequer dar um passo. 
Assim, blasfemando contra Deus e sua obra, sem  saber  o que fazia nem o 
que pensava, entreguei-me à Providência; embrulhei-me no meu capote, deitei-me 
e fechei os olhos, para não ver a noite adiantar-se, as estrelas empalidecerem e o 
dia raiar.
Tudo estava sereno e tranqüilo; as águas nem se moviam; apenas sobre a 
face lisa do mar passava, uma aragem tênue, que se diria hálito das ondas 
adormecidas.
De repente, pareceu-me sentir que a canoa deixara de boiar à discrição e 
singrava lentamente; julgando que fosse ilusão minha, não me importei, até que 
um movimento contínuo e regular convenceu-me. 
Afastei a aba do capote e olhei, receando ainda iludir-me; não vi o pescador; 
mas a alguns passos da proa percebi os rolos de espuma que formavam um corpo, 
agitando-se nas ondas.
Aproximei-me e distingui o velho pescador, que nadava, puxando a canoa 
por meio de uma corda que amarrara à cintura, para deixar-lhe os movimentos 
livres.
Admirei essa dedicação do pobre velho, que procurava remediar a sua falta 
por um sacrifício que eu supunha inútil: não era possível que um homem nadasse 
assim por muito tempo.
Com efeito, passados alguns instantes, vi-o parar e saltar ligeiramente na 
canoa como temendo acordar-me; a sua respiração fazia uma espécie de 
burburinho no seu peito largo e
forte.
Bebeu um trago de vinho e com o mesmo cuidado deixou-se cair n'água e 
continuou a puxar a canoa.
Era alta noite quando nesta marcha chegamos a uma espécie de praia, que 
teria quando muito duas braças. O velho saltou e desapareceu. 
Fitando a vista nas trevas, vi uma claridade, que não pude distinguir se era 
fogo, se luz, senão quando uma porta, abrindo-se, deixou-me ver o interior de uma 
cabana.
O velho voltou com um outro homem, sentaram-se sobre uma pedra e 
começaram a falar em voz baixa. Senti uma grande inquietação; na verdade, minha 
prima, só me faltava, para completar a minha aventura, uma história de ladrões.       
A minha suspeita, porém, era injusta; os dois pescadores estavam à espera 
de dois remos que lhes trouxe uma mulher, e imediatamente embarcaram e 
começaram a remar com uma força espantosa.
A canoa resvalou sobre as ondas, ágil e veloz como um desses peixes de 
que havia pouco invejava a rapidez.
Ergui-me para agradecer a Deus, ao céu, às estrelas, às águas, a toda a 
natureza enfim, o raio de esperança que me enviavam.
Uma faixa escarlate já se desenhava no horizonte; o oriente foi-se 
esclarecendo de gradação em gradação, até que deixou ver o disco luminoso do 
sol.
A cidade começou a erguer-se do seio das ondas, linda e graciosa, como 
uma donzela que, recostada sobre um monte de relva, banhasse os pés na corrente 
límpida de um rio.
A cada movimento de impaciência que eu fazia, os dois pescadores 
dobravam-se sobre os remos e a canoa voava. Assim nos aproximamos da cidade, 
passamos entre os navios, e nos dirigimos à Glória, onde pretendia desembarcar, 
para ficar mais próximo de sua casa.
Em um segundo tinha tomado a minha resolução; chegar, vê-la, dizer-lhe 
que a seguia, e embarcar-me nesse mesmo paquete em que ela ia partir.
Não sabia que horas eram; mas há pouco havia amanhecido; tinha tempo 
para tudo, tanto mais que eu só precisava de uma hora. Um crédito sobre Londres e 
a minha mala de viagem eram todos os meus preparativos; podia acompanhá-la ao 
fim do mundo.     
Já via tudo cor-de-rosa, sorria à minha ventura e gozava da alegre surpresa 
que ia causar-lhe, a ela que já não me esperava.
A surpresa, porém, foi minha. 
Quando passava diante de Villegaignon, descobri de repente o paquete 
inglês : as pás se moviam indolentemente e imprimiam ao navio essa marcha 
vagarosa do vapor, que parece experimentar as suas forças, para precipitar-se a 
toda a carreira.
Carlota estava sentada sob a tolda, com a cabeça encostada ao ombro de 
sua mãe e com os olhos engolfados no horizonte, que ocultava o lugar onde 
tínhamos passado a primeira e última hora de felicidade.
Quando me viu, fez um movimento como se quisesse lançar-se para mim; 
mas conteve-se, sorriu-se para sua mãe, e, cruzando as mãos no peito, ergueu os 
olhos ao céu, como para agradecer a Deus, ou para dirigir-lhe uma prece.
Trocamos um longo olhar, um desses olhares que levam toda a nossa alma 
e a trazem ainda palpitante das emoções que sentiu noutro coração; uma  dessas 
correntes elétricas que ligam duas vidas em um só fio.
O vapor soltou um gemido surdo; as rodas fenderam as águas; e o monstro 
marinho, rugindo corno uma cratera, vomitando fumo e devorando o espaço com os 
seus flancos negros, lançou-se.
Por muito tempo ainda vi o seu lenço branco agitar-se ao longe, como as 
asas brancas do meu amor, que fugia e voava ao céu.
O paquete sumiu-se no horizonte.

 X 

O resto desta história, minha prima, a senhora conhece, com exceção de 
algumas particularidades. 
Vivi um mês, contando os dias, as horas e os minutos; e tempo corria 
vagarosamente para mim, que desejava poder devorá-lo.
Quando tinha durante uma manhã inteira olhado o seu retrato, conversado 
com ele, e lhe contado a minha impaciência e o meu sofrimento, começava a 
calcular as horas que faltavam para acabar o dia, os dias que faltavam para acabar 
a semana e as semanas que ainda faltavam para acabar o mês.
No meio da tristeza que me causara a sua ausência, o que me deu um 
grande consolo foi uma carta que ela me havia deixado e que me foi entregue no 
dia seguinte ao da sua partida.
"Bem vês, meu  amigo, dizia-me ela, que Deus não quer aceitar o teu 
sacrifício. Apesar de todo o teu amor, apesar de tua alma, ele impediu a nossa 
união; poupou-te um sofrimento e a mim talvez um remorso. 
"Sei tudo quanto fizeste por minha causa e adivinho o resto; parto triste por 
não te ver, mas bem feliz por sentir-me amada, como nenhuma mulher talvez o 
seja neste mundo."
Esta carta tinha sido escrita na véspera da saída do paquete; um criado que 
viera de Petrópolis e a quem ela incumbira de entregar-me a caixinha com o seu 
retrato, contou-lhe metade das extravagâncias que eu praticara para chegar à 
cidade no mesmo dia. 
Disse-lhe que me tinha visto partir para a Estrela, depois de perguntar a hora 
da saída do vapor; e que embaixo da serra referiram-lhe como eu tinha morto um 
cavalo para alcançar a barca e como me embarcara em uma canoa.
Não me vendo chegar, ela adivinhara que alguma dificuldade invencível me 
retinha, e atribuía isto à vontade de Deus, que não consentia no meu amor. 
Entretanto, lendo e relendo a sua carta, uma coisa me admirou; ela não me 
dizia um adeus, apesar de sua ausência e apesar da moléstia, que podia tornar 
essa ausência eterna.
Tinha-me adivinhado! Ao mesmo tempo que fazia por me dissuadir, estava 
convencida de que a acompanharia.
Com efeito parti no paquete seguinte para a Europa.        
Há de ter ouvido falar, minha prima, se é que ainda não o sentiu, da força 
dos pressentimentos do amor, ou da segunda vista que tem a alma nas suas 
grandes afeições.   
Vou contar-lhe uma circunstância que confirma este fato.
No primeiro lugar onde desembarquei, não sei que instinto, que revelação, 
me fez correr imediatamente ao correio; parecia-me impossível que ela não tivesse 
deixado alguma lembrança para mim.
E de fato em todos os portos da escala do vapor havia, uma carta que 
continha duas palavras apenas: 
"Sei que tu me segues. Até logo." 
Enfim cheguei à Europa e  vi-a. Todas as minhas loucuras e os meus 
sofrimentos foram compensados pelo sorriso de inexprimível gozo com que me 
acolheu. 
Sua mãe dizia-lhe que eu ficaria no Rio de Janeiro, mas ela nunca duvidara 
de mim! Esperava-me como se a tivesse deixado na véspera, prometendo voltar. 
Encontrei-a muito abatida da viagem; não sofria, mas estava pálida e branca 
como uma dessas Madonas de Rafael, que vi depois em Roma. 
Às vezes uma languidez invencível a prostrava; nesses momentos um quer 
que seja de celeste e vaporoso a cercava, como se a alma exalando-se envolvesse 
o seu corpo.
Sentado ao seu lado, ou de joelhos a seus pés, passava os dias a 
contemplar essa agonia lenta; sentia-me morrer gradualmente, à semelhança de 
um homem que vê os últimos clarões da luz que vai extinguir-se e deixá-lo nas 
trevas.        
Uma tarde em que ela estava ainda mais fraca, tínhamo-nos chegado para a 
varanda. 
A nossa casa em Nápoles dava sobre o mar; o sol, transmontando, 
escondia-se nas ondas; um raio pálido e descorado veio enfiar-se pela nossa janela 
e brincar sobre o rosto de Carlota, sentada ou antes deitada em uma conversadeira.           
Ela abriu os olhos um momento e quis sorrir ; seus lábios nem tinham força 
para desfolhar o sorriso. 
As lágrimas saltaram-me dos olhos; havia muito que eu tinha perdido a fé, 
mas conservava ainda a esperança; esta desvaneceu-se com aquele reflexo do 
ocaso, que me parecia o seu adeus à vida.
Sentindo as minhas lágrimas molharem as suas mãos, que eu beijava, ela 
voltou-se e fixou-me com os seus grandes olhos lânguidos.
Depois, fazendo um esforço, reclinou-se para mim e apoiou as mãos sobre o 
meu ombro.
-- Meu amigo, disse ela com voz débil, vou pedir-te uma coisa, a última; tu me 
prometes cumprir?
-- Juro, respondi-lhe eu, com a voz cortada pelos soluços.
-- Daqui a bem pouco tempo... daqui a algumas horas talvez... Sim! sinto 
faltar-me o ar!...
-- Carlota!... 
-- Sofres, meu amigo! Ah! se não fosse isto eu morreria feliz.
-- Não fales em morrer!
-- Pobre amigo, em que deverei falar então? Na vida?...
Mas não vês que a minha vida é apenas um sopro... um instante que breve terá 
passado?
-- Tu te iludes, minha Carlota. 
Ela sorriu tristemente.
-- Escuta; quando sentires a minha mão gelada, quando as palpitações do 
meu coração cessarem, prometes receber nos lábios a minha alma?
-- Meu Deus!... 
-- Prometes? sim?... 
-- Sim.
Ela tornou-se lívida; sua voz suspirou apenas:           
-- Agora!      
Apertei-a ao peito e colei os meus lábios aos seus. Era o primeiro beijo de 
nosso amor, beijo casto e puro, que a morte ia santificar.
Sua fronte se tinha gelado, não sentia a sua respiração nem as pulsações de 
seu seio.
De repente ela ergueu a cabeça. Se visse, minha prima, que reflexo de 
felicidade e alegria iluminava nesse momento o seu rosto pálido!
-- Oh! quero viver! exclamou ela. 
E com os lábios entreabertos aspirou com delícia a aura impregnada de 
perfumes que nos enviava o golfo de Ischia.
Desde esse dia foi pouco a pouco  restabelecendo-se, ganhando as forças e 
a saúde; sua beleza. reanimava-se e expandia-se como um botão que por muito 
tempo privado de sol, se abre em flor viçosa. 
Esse milagre, que ela, sorrindo e corando, atribuía ao meu amor, foi-nos um 
dia explicado bem prosaicamente por um médico alemão que nos fez uma longa 
dissertação a respeito da medicina.      
Segundo ele dizia, a viagem tinha sido o único remédio e o que nós 
tomávamos por um estado mortal não era senão a crise que se operava, crise 
perigosa, que podia matá-la, mas que felizmente a salvou. 
Casamo-nos em Florença na igreja de Santa Maria Novella.
Percorremos a Alemanha, a França, a Itália e a Grécia; passamos um ano 
nessa vida errante e nômade, vivendo do nosso amor e alimentando-nos de 
música, de recordações históricas, de contemplações de arte. 
Criamos assim um pequeno mundo, unicamente nosso; depositamos nele 
todas as belas reminiscências de nossas viagens, toda a poesia dessas ruínas 
seculares em que as gerações que morreram, falam ao futuro pela voz do silêncio; 
todo o enlevo dessas vastas e imensas solidões do mar, em que a alma, 
dilatando-se no infinito, sente-se mais perto de Deus.           
Trouxemos das nossas peregrinações um raio de sol do Oriente, um reflexo 
de lua de Nápoles, uma nesga do céu da Grécia, algumas flores, alguns perfumes, 
e com isto enchemos o nosso pequeno universo. 
Depois, como as andorinhas que voltam com a primavera para fabricar o seu 
ninho no campanário da capelinha  em que nasceram, apenas ela recobrou a 
saúde e as suas belas cores, viemos procurar em nossa terra um cantinho para 
esconder esse mundo que havíamos criado. 
Achamos na quebrada de uma montanha um lindo retiro, um verdadeiro 
berço de relva suspenso entre o céu e a terra por uma ponta de rochedo.
Aí abrigamos o nosso amor e vivemos tão felizes que só pedimos a Deus 
que nos conserve o que nos deu; a nossa existência é um longo dia, calmo e 
tranqüilo, que começou ontem, mas que não tem amanhã. 
Uma linda casa, toda alva e louçã, um pequeno rio saltitando entre as 
pedras, algumas braças de terra, sol, ar puro, árvores, sombras, ...eis toda a nossa 
riqueza. 
Quando nos sentimos fatigados de tanta felicidade, ela arvora-se em dona de 
casa ou vai cuidar de suas flores; eu fecho-me com os meus livros e passo o dia a 
trabalhar. São os únicos momentos em que não nos vemos. 
Assim, minha prima, como parece que neste mundo não pode haver um 
amor sem o seu receio e a sua inquietação, nós não estamos isentos dessa 
fraqueza. 
Ela tem ciúmes de meus livros, como eu tenho de suas flores. Ela diz que a 
esqueço para trabalhar; eu queixo-me de que ela ama as suas violetas mais do que 
a mim. 
Isto dura quando muito um dia; depois vem sentar-se ao meu lado e dizer-me 
ao ouvido a primeira palavra que balbuciou o nosso amor: -- Non ti scordar di me.
Olhamo-nos, sorrimos e recomeçamos esta história que lhe acabo de contar 
e que é ao mesmo tempo o nosso romance, o nosso drama e o nosso poema.
Eis, minha prima, a resposta à sua pergunta; eis por que esse moço 
elegante, como teve a bondade de chamar-me, fez-se provinciano e retirou-se da 
sociedade, depois de ter passado um ano na Europa.
Podia dar-lhe outra resposta mais breve e dizer-lhe simplesmente que tudo 
isto sucedeu porque me atrasei cinco minutos.
Desta pequena causa, desse grão de areia, nasceu  a minha felicidade; dele 
podia resultar a minha desgraça. Se tivesse sido pontual como um inglês, não teria 
tido uma paixão nem feito uma viagem; mas ainda hoje estaria perdendo o meu 
tempo a passear pela rua do Ouvidor e a ouvir falar de política e teatro. 
Isto prova que a pontualidade é uma excelente virtude para uma máquina; 
mas um grave defeito para um homem.               
Adeus, minha prima. Carlota impacienta-se, porque há muitas horas que lhe 
escrevo; não quero que ela tenha ciúmes desta carta e que me prive de enviá-la.

   Minas, 12 de agosto. 

Abaixo  da  assinatura  havia  um pequeno  post-scriptum de uma letra 
fina e delicada :
"P. S. -- Tudo isto é verdade, D..., menos uma coisa.       
"Ele não tem ciúmes de minhas flores,  nem podia  ter, porque sabe que só 
quando  seus olhos  não me  procuram é  que vou visitá-las e  pedir-lhes que  
me ensinem  a fazer-me  bela para agradá-lo.
"Nisto  enganou-a ;  mas eu  vingo-me, roubando-lhe  um dos meus 
beijos, que lhe envio nesta carta. 
"Não o deixe fugir, prima; iria talvez revelar a nossa felicidade ao mundo 
invejoso." 
       



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