Clique no PLAY para leitura automática do texto:

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Quando o Homem Aprendeu a Montar - Arqueologia


QUANDO O HOMEM APRENDEU A MONTAR - Arqueologia



O cavalo pode ter sido domesticado muito antes do que se imaginava, acelerando o avanço da civilização. Dentes de animais fossilizados mostram que há 6 000 anos eles já usavam freio de metal

Do extremo oriental da Sibéria, quase na costa do Pacífico, até o Mediterrâneo, estende-se uma vasta planície de 4.000 quilômetros de comprimento e 500 quilômetros de largura, denominada estepe eurasiana. Coberta por vegetação rasteira, e cruzada por largos e mansos rios, essa região transformou-se, há 6.000 anos, numa verdadeira ponte entre a Europa e a Ásia, e foi palco de épicas transformações na história da humanidade. Basta ver que nesse período surgiram as chamadas línguas indo-européias, como o grego, o latim, o celta e muitas outras. Antes disso, os europeus, por exemplo, empregavam idiomas de uma família lingüística bem diversa - um desses idiomas seria o basco, o qual sobrevive como um vestígio do passado, na Espanha moderna. A mudança foi tão radical que, já nos tempos de Roma, as línguas indo-européias haviam sido adotadas por um sem número de povos, em uma área impressionante-estendendo-se da Índia à inglaterra. Não existe uma explicação consolidada sobre como se produziu tal sublevação, mas, de acordo com uma nova e extraordinária hipótese, ela tem muito a ver com a arte, ou a técnica, de cavalgar. Essa técnica teria sido dominada, a princípio, por populações relativamente pequenas e isoladas nas regiões centrais da estepe eurasiana, mais ou menos na altura da atual República Soviética da Ucrânia. A posse de montarias foi tão vantajosa que, embora marginais, esses povos expandiram-se com velocidade extraordinária e, num curto espaço de tempo, provocaram uma mudança decisiva nos padrões lingüísticos mundiais.
Trata-se de uma idéia ousada, pois contradiz, antes de mais nada, as evidências existentes até agora sobre a época em que o cavalo começou a ser domesticado. Isso teria ocorrido há 4 000 anos, e por isso não poderia ter influenciado a expansão indo-européia, que teve início dois milênios antes. O mais antigo desenho de um cavalo arreado, por exemplo, data do ano 2000 a.C., e o mais antigo pedaço de arreio já encontrado remonta a 1500 a.C. Este ano, no entanto, dois pesquisadores americanos-D. Anthony e D. Brown, da Universidade da Califórnia-identificaram o esqueleto de um cavalo que pode ter sido  domesticado há nada menos que 6 000 anos.
Os seus criadores habitavam às margens do Rio Dnieper, onde é hoje a Ucrânia, a algumas centenas de quilômetros do local em que se situa Moscou. Pertencentes a uma cultura de nome Sredny Stog, falavam, supostamente, uma língua ancestral da família indo-européia. Pareciam estar numa transição, pois ainda criavam cavalos principalmente para comer, metade dos ossos encontrados nas proximidades das habitações era desse animal. Mas também sabiam montar, segundo revela uma nova e poderosa técnica de investigação. Em vez de arreios ou selas, ela busca pistas da domesticação nos próprios animais.Anthony e Brown descobriram, por exemplo, que o freio, feito de metal, deixa marcas inconfundíveis sobre os dentes dos cavalos. O efeito da corrosão do metal sobre os primeiros pré-molares é claramente visível a olho nu, pois chega a tirar-lhes quase 1 centímetro na espessura. Também há desgaste nos dentes dos cavalos selvagens, devido ao simples ato de mastigar. No entanto, medidas cuidadosas mostram que a perda, nesse caso, é de apenas 1 ou 2 milímetros.Além disso, as ranhuras deixadas pelo freio são profundas, bem diferentes das naturais. A diferença transparece com nitidez quando os dentes são examinados ao microscópio eletrônico. Com esses cuidados, a nova e controversa data promete lançar luz sobre uma fase decisiva da história da civilização, durante a qual o homem aprendeu, primeiro, a plantar e a criar animais e, em seguida, a lidar com os metais. Essas conquistas, obtidas a partir de 10.000 anos atrás, mudaram o modo de vida do homem, pois foram acompanhadas da construção de cidades e da organização de grandes impérios, como o egípcio ou o sumério.
Mas, aparentemente, foi a arte de cavalgar que deu o impulso decisivo para a disseminação daquelas descobertas. Claro, nem tudo se fez por graça exclusiva do cavalo domesticado. "O importante foi a adição do novo meio de transporte às técnicas já conhecidas da agricultura, pecuária e metalurgia", resume o divulgador científico Jared Diamond, da Faculdade de Medicina da Universidade da Califórnia, Estados Unidos. "Esse pacote tecnológico dominou boa parte do mundo, nos 5 000 anos seguintes."Embora ainda precise ser corroborada por novas investigações, essa hipótese parece muito natural em vista do indubitável valor do cavalo. Inteligente, forte e veloz, ele parece ter sido escolhido a dedo para livrar o homem de suas limitações. Um cidadão a pé, mesmo em boa marcha, não cobria distâncias superiores a 50 quilômetros, numa jornada de um dia. Mas montado, superava sem grande esforço a marca dos 100 quilômetros. O mesmo vale para cargas transportadas a longa distância, que, em lombo de animal, podiam ultrapassar os 100 quilos, coisa impensável para um homem.
Sua característica marcante é a velocidade, pois se trata de um animal feito para correr. As pernas compridas, presas por forte musculatura ao resto do esqueleto, não podem realizar muitos movimentos: à maneira dos remos, nos barcos, elas concentram energia em poderosos impulsos à frente. Contribui para isso, a extrema especialização das patas, que, por terem um único dedo, permitem às pernas esticarem-se ao máximo durante a corrida. Não foi sempre assim. Sabe-se que as ancestrais do cavalo habitaram a Terra desde o inicio da Era Terciária, há uns 50 milhões de anos, mas esses animais eram baixos como um cão, com 25 centímetros de altura, somente.Também não contavam com a proteção dos cascos nas patas, que tinham cinco dedos. Aos poucos. à medida que perdiam os dedos, adaptaram-se à estratégia básica de seres velozes. Evolução semelhante ocorreu com os rinocerontes e as antas, parentes do cavalo. Os primeiros eqüídeos de um dedo começaram a perambular pelo planeta há cerca de 5 milhões de anos-não muito antes de surgir o gênero humano, 2 ou 3 milhões de anos mais tarde. É curioso que esses animais tenham começado a se espalhar pelo globo a partir da região hoje correspondente às Américas-de onde desapareceriam, há apenas 10.000 anos, por motivo desconhecido.
Só voltariam a estas plagas, no final do século XV, a bordo das caravelas, trazidos pelos conquistadores espanhóis. O gênero dos eqüídeos. atualmente, é formado por diversas espécies, como as zebras e os asnos, os mais antigos representantes do grupo. Mas todas as raças de cavalos pertencem a uma única espécie, de nome Equus caballus. Aí se incluem os grandes animais de carga, que são troncudos e chegam a ter 2 metros de altura, até os pôneis, que, por convenção, têm menos de 144 centímetros de altura. Essas variedades nasceram de uma raça-mãe, a mongólica, cujo habitat original era a China. Surgiram, em seguida, as raças berbere, difundida a partir da própria China: mongol, vinda do norte do Himalaia: céltica, disseminada depois da invasão da Grécia por povos asiáticos: e árabe, que proliferou no Egito.
Foram esses quatro troncos principais que deram origem às raças da atualidade, depois de demorado trabalho de seleção genética. Em cada lugar, os animais foram gradualmente escolhidos de acordo com o que se queria deles: força, velocidade ou mesmo mera beleza. Esse aperfeiçoamento, desde épocas remotas, muitas vezes transformou-se em lendas. Uma delas diz que o profeta Maomé, um dia, quis presentear os beduínos com um cavalo que os ajudasse a sobreviver no deserto. Assim. mandou soltar algumas éguas mantidas algum tempo sem água e comida, mas, antes que chegassem à margem, o profeta chamou-as de volta.
Apenas cinco obedeceram, demonstrando resistência à provação, e foi delas que nasceram os primeiros cavalos árabes. Seja como for, a verdade é que a raça tornou-se uma paixão para os homens do deserto, e mais tarde encantaram o mundo. Levada para a Europa durante a Idade Média, ela conquistou o rei da Inglaterra, Ricardo Coração de Leão, e acabou contribuindo para a criação do puro-sangue inglês, a partir de meados do século XVII. Nos cruzamentos, empregavam-se fêmeas inglesas, aristocraticamente apelidadas de "royal mares", ou éguas reais".
Os machos, ao longo do tempo, foram três garanhões orientais, cujos nomes passaram para a história: Bierly Turk, Darley Arabian e Godolphin Arabian. Este último, ainda hoje responsável por 40% dos genes de qualquer puro-sangue vivo, é personagem de uma novelesca história, pois seu verdadeiro nome era Xan e sua origem. berbere, em vez de árabe. Presenteado pelo rei de Túnis a Luis XIV, rei da França-que não ligava para cavalos -, foi vendido como animal de terceira categoria. Mas acabou reconhecido como macho excepcional e batizado de Godolphin Arabian.A raça andaluz, com origem igualmente rocambolesca, foi formada por um macho berbere, chamado Gusmán, por acaso abandonado em uma hospedaria de Córdoba, Espanha. Esse tipo de cavalo, conhecido como lusitano, deu origem às raças hoje encontradas nas Américas. No Rio Grande do Sul, por exemplo, formou-se a raça crioula, a que mais se encaixa nos padrões que definem os antigos berberes chineses. O manga- larga, muito comum no Brasil, também surgiu do andaluz, assim como o passo fino, do Peru, e o chickasaw, disseminado entre os índios da América do Norte.
Mas, para chegar a essas variedades, o cavalo percorreu um longo caminho. Até onde se sabe, as primeiras grandes criações ocorreram na fronteira da Europa com a Ásia, entre povos indo- europeus como os hicsos, citas, sármatas e mitanis. Talvez por serem originalmente nômades ou seminômades, esses povos ganharam a fama de bárbaros. Detinham, porém. a tecnologia dos animais para tração de cargas ou de veículos, e não hesitaram em usá-la na guerra. Os carros bélicos foram observados, pela primeira vez, no Egito e na Mesopotâmia, na época em que os hicsos chegaram a essa região.
Um dos seus primeiros feitos de vulto, em 1720 a.C., foi assumir o governo da antiga cidade de Avaris, importante centro regional do Império Egípcio, junto ao Mediterrâneo. Ao contrário do que se poderia pensar, as incursões nômades já não são descritas exatamente como uma invasão. Embora, vez por outra, ocorressem violentos confrontos armados entre os líderes locais e os imigrantes, na maior parte do tempo havia produtivo intercâmbio de idéias e conhecimentos.
No Egito, dessa forma, os hicsos repetiram uma estratégia comum a todos os indo-europeus. De imediato, fundaram aristocracias militares em localidades já existentes, de onde exerciam poderosa influência sobre a vida do Império. Aceitaram, por exemplo, o deus egípcio Set, que passaram a cultuar. Em troca, as populações locais podem ter assimilado o uso das montarias e aprendido a metalurgia do ferro, em contraposição ao bronze, até então dominante. Empregado nas armas, coisa impossível para o bronze, muito mole, o ferro ampliou a supremacia militar dos exércitos transportados.
O próximo passo desses exércitos, bem mais tarde, seria usar soldados montados, isto é, uma verdadeira cavalaria. Por volta do ano 1000 a.C., ela havia se tornado a mais poderosa força do exército assírio, na região onde é hoje o Irã. Sua evolução resultaria do aperfeiçoamento das armas, dos equipamentos próprios do cavalo e da equitação. Acabou por criar um grupo social favorecido, de importância crescente ao longo dos séculos. Os cavaleiros ganhariam especial notoriedade durante a Idade Média, quando apenas os nobres, filhos dos grandes senhores de terras, podiam candidatar-se a tal título.Nos exércitos, a cavalaria continuou como uma força fundamental até a metade do século XV. A partir daí, seu poder passou a ser limitado pelas pistolas e, mais ainda, pela utilização dos canhões. A arte de montar não perdeu com isso, pois havia se tornado uma apreciada forma de lazer. As corridas a cavalo estão entre os mais antigos esportes eqüestres, que tiveram destaque desde as Olimpíadas gregas. Em seguida, as corridas de bigas, em Roma e em Constantinopla, tornou-se uma febre.O entusiasmo pelas competições diminuiu nos séculos posteriores, para ressurgir apenas ao tempo das Cruzadas. A criação de escolas de equitação, a partir da Renascença, deu origem a competições como o salto, o pólo, a caça à raposa e, mais recentemente, os rodeios, enduros e cavalgadas. Como trabalhador, o cavalo está às vésperas da aposentadoria -data que se aproxima com rapidez cada vez maior. A primeira vez que o ser humano alcançou uma velocidade superior à dos cavalos foi em 1830, a bordo de uma locomotiva. E não se pode esquecer que até o século XIX era o cavalo quem puxava os bondes e ônibus. Mas, neste século, a mecanização vem celeremente substituindo a força animal mesmo na agricultura, ou, pelo menos, limitou seu uso às regiões de difícil acesso e fraco desenvolvimento industrial. Mas o renovado gosto pelos esportes eqüestres assegura que o cavalo será, por muito tempo ainda, um grande amigo do homem.

Senadores e réus de quatro patas

Os povos da Antiguidade tinham o cavalo na conta de um mito. Para os gregos, por exemplo. teria sido o deus Netuno que, a golpes de tridente, fez brotar da terra o soberbo animal, símbolo da guerra. Uma lenda árabe, em vez disso, exaltava sua velocidade, dizendo que Alá o criou a partir de uma lufada de vento. Na Índia, durante um ritual de coroação, os reis soltavam um animal sagrado que podia galopar sem restrições. Onde estivesse, ao fim de um ano, erguia-se um altar. Já nos templos japoneses, as mulheres estéreis tocavam um cavalo esculpido em bronze, em tamanho natural, na esperança de ter filhos. Havia ainda afeição extremada-até absurda, como no caso do imperador romano Calígula, que quis tornar Incitatus, seu cavalo, cônsul. Para o sábio romano Plínio, a inteligência do cavalo era quase humana, e citava o cavalo de certo rei Nicomedes, que teria se deixado morrer de fome após a morte de seu senhor. Na Idade Média, cavalos ditos sábios eram vistos como feiticeiros e queimados vivos. Os animais "respondiam" por delitos aos tribunais e há registro judiciário de vários deles condenados à morte por homicídio. Em época mais moderna, na Inglaterra, o garboso Copenhagen foi enterrado com honras militares porque mostrou valentia em batalha-pelo menos, na opinião de seu dono, o Duque de Wellington, famoso por derrotar Napoleão Bonaparte, general e estadista francês.


Um cavalo brasileiro

Formada no Brasil, a raça mangalarga ilustra como nasce um novo cavalo. Ela começou a surgir quando D. João VI deu um animal da raça berbere-pertencente à coudelaria real portuguesa-a Gabriel Francisco Junqueira, o Barão de Alfenas. Cruzado com éguas brasileiras comuns, o garanhão gerou filhos que foram selecionados para a lida com gado, caçadas e longas viagens. Mangalarga era o nome da fazenda do Barão em Pati do Alferes. RJ. A fama conquistada pelos cavalos da fazenda trazia muitos visitantes ao local e os animais logo foram denominados como "os cavalos da Fazenda Mangalarga". Não tardou para serem chamados somente pelo nome da fazenda. Os plantéis mais bonitos dessa raça continuam de posse de um parente do Barão-José Oswaldo Junqueira, que comprou seu primeiro animal no ano de 1931. O manga-larga, de porte e postura elegantes, é um cavalo de sela caracterizado pelo andamento macio e bem equilibrado, ideais para o trabalho e o passeio. Seus membros, bem aprumados e fortes, proporcionam duas maneiras de andar. Na marcha de tríplice apoio, três patas estão sempre em contato com o solo enquanto uma se desloca no ar. Na marcha trotada em diagonal, em dois tempos, o cavalo põe no chão, ao mesmo tempo, o membro anterior esquerdo e o posterior direito, e vice- versa. Os animais dessa raça têm cabeça média, de perfil retilíneo, e orelhas pequenas mas bem plantadas. As narinas são dilatadas, os olhos bem arredondados e afastados um do outro, e a boca rasgada. A linha do dorso lombar, curta, larga e musculosa, faz do manga-larga um bom cavalo para a montaria.

Nenhum comentário:

Postar um comentário