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segunda-feira, 19 de junho de 2017

Contos Fluminenses - Parte 1 de 4 - Machado de Assis


Contos Fluminenses - Parte 1 de 4 - Machado de Assis



Machado de Assis - CONTOS FLUMINENSES

Contos Fluminenses é um livro de contos do escritor brasileiro Machado de Assis, com tema relacionado ao Rio de Janeiro do período imperial. O livro foi publicado em 1870 e o conto mais famoso é Miss Dollar.

Data da primeira publicação: 1869
Autor: Machado de Assis




Miss Dollar ....................... 2
Luiz Soares........................28
A mulher de preto ..............52
O segredo de Augusta......... 84
Confissões de uma viúva moça ... 114
Linha reta e linha curva ..... 142
Frei Simão....................... 197

Edição Guinefort
2


Miss Dollar
I
Era conveniente ao romance que o leitor ficasse muito tempo sem saber
quem era Miss Dollar. Mas por outro lado, sem a apresentação de Miss Dollar,
seria o autor obrigado a longas digressões, que encheriam o papel sem adiantar a
ação. Não há hesitação possível: vou apresentar-lhes Miss Dollar.
Se o leitor é rapaz e dado ao gênio melancólico, imagina que Miss Dollar
é uma inglesa pálida e delgada, escassa de carnes e de sangue, abrindo à flor do
rosto dois grandes olhos azuis e sacudindo ao vento umas longas tranças louras.
A moça em questão deve ser vaporosa e ideal como uma criação de Shakespeare;
deve ser o contraste do roast-beef britânico, com que se alimenta a liberdade do
Reino Unido. Uma tal Miss Dollar deve ter o poeta Tennyson de cor e ler
Lamartine no original; se souber o português deve deliciar-se com a leitura dos
sonetos de Camões ou os Cantos de Gonçalves Dias. O chá e o leite devem ser a
alimentação de semelhante criatura, adicionando-se-lhe alguns confeitos e
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biscoitos para acudir às urgências do estômago. A sua fala deve ser um murmúrio
de harpa eólia; o seu amor um desmaio, a sua vida uma contemplação, a sua
morte um suspiro.
A figura é poética, mas não é a da heroína do romance.
Suponhamos que o leitor não é dado a estes devaneios e melancolias;
nesse caso imagina uma Miss Dollar totalmente diferente da outra. Desta vez será
uma robusta americana, vertendo sangue pelas faces, formas arredondadas, olhos
vivos e ardentes, mulher feita, refeita e perfeita. Amiga da boa mesa e do bom
copo, esta Miss Dollar preferirá um quarto de carneiro a uma página de
Longfellow, coisa naturalíssima quando o estômago reclama, e nunca chegará a
compreender a poesia do pôr-do-sol. Será uma boa mãe de família segundo a
doutrina de alguns padres-mestres da civilização, isto é, fecunda e ignorante.
Já não será do mesmo sentir o leitor que tiver passado a segunda
mocidade e vir diante de si uma velhice sem recurso. Para esse, a Miss Dollar
verdadeiramente digna de ser contada em algumas páginas, seria uma boa inglesa
de cinqüenta anos, dotada com algumas mil libras esterlinas, e que, aportando ao
Brasil em procura de assunto para escrever um romance, realizasse um romance


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verdadeiro, casando com o leitor aludido. Uma tal Miss Dollar seria incompleta
se não tivesse óculos verdes e um grande cacho de cabelo grisalho em cada fonte.
Luvas de renda branca e chapéu de linho em forma de cuia, seriam a última
demão deste magnífico tipo de ultramar.
Mais esperto que os outros, acode um leitor dizendo que a heroína do
romance não é nem foi inglesa, mas brasileira dos quatro costados, e que o nome
de Miss Dollar quer dizer simplesmente que a rapariga é rica.
A descoberta seria excelente, se fosse exata; infelizmente nem esta nem
as outras são exatas. A Miss Dollar do romance não é a menina romântica, nem a
mulher robusta, nem a velha literata, nem a brasileira rica. Falha desta vez a
proverbial perspicácia dos leitores; Miss Dollar é uma cadelinha galga.
Para algumas pessoas a qualidade da heroína fará perder o interesse do
romance. Erro manifesto. Miss Dollar, apesar de não ser mais que uma cadelinha
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galga, teve as honras de ver o seu nome nos papéis públicos, antes de entrar para
este livro. O Jornal do Comércio e o Correio Mercantil publicaram nas colunas
dos anúncios as seguintes linhas reverberantes de promessa:
“Desencaminhou-se uma cadelinha galga na noite de ontem, 30. Acode
ao nome de Miss Dollar. Quem a achou e quiser levar à rua de Matacavalos nº...,
receberá duzentos mil-réis de recompensa. Miss Dollar tem uma coleira ao
pescoço, fechada por um cadeado em que se lêem as seguintes palavras: De tout
mon coeur.”
Todas as pessoas que sentiam necessidade urgente de duzentos mil-réis,
e tiveram a felicidade de ler aquele anúncio, andaram nesse dia com extremo
cuidado nas ruas do Rio de Janeiro, a ver se davam com a fugitiva Miss Dollar.
Galgo que aparecesse ao longe era perseguido com tenacidade até verificar-se
que não era o animal procurado. Mas toda esta caçada dos duzentos mil-réis era
completamente inútil, visto que, no dia em que apareceu o anúncio, já Miss
Dollar estava aboletada na casa de um sujeito morador nos Cajueiros que fazia
coleção de cães.
II
Quais as razões que induziram o Dr. Mendonça a fazer coleção de cães, é
coisa que ninguém podia dizer; uns queriam que fosse simplesmente paixão por
esse símbolo da fidelidade ou do servilismo; outros pensavam antes que, cheio de
profundo desgosto pelos homens, Mendonça achou que era de boa guerra adorar
os cães.
Fossem quais fossem as razões, o certo é que ninguém possuía mais
bonita e variada coleção do que ele. Tinha-os de todas as raças, tamanhos e cores.
Cuidava deles como se fossem seus filhos; se algum lhe morria ficava
melancólico. Quase se pode dizer que, no espírito de Mendonça, o cão pesava
tanto como o amor, segundo uma expressão célebre: tirai do mundo o cão, e o
mundo será um ermo.
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O leitor superficial conclui daqui que o nosso Mendonça era um homem
excêntrico. Não era. Mendonça era um homem como os outros; gostava de cães
como outros gostam de flores. Os cães eram as suas rosas e violetas; cultivava-os
com o mesmíssimo esmero. De flores gostava também; mas gostava delas nas
plantas em que nasciam: cortar um jasmim ou prender um canário parecia-lhe
idêntico atentado.
Era o Dr. Mendonça homem de seus trinta e quatro anos, bem apessoado,


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maneiras francas e distintas. Tinha-se formado em medicina e tratou algum
tempo de doentes; a clínica estava já adiantada quando sobreveio uma epidemia
na capital; o Dr. Mendonça inventou um elixir contra a doença; e tão excelente
era o elixir, que o autor ganhou um bom par de contos de réis. Agora exercia a
medicina como amador. Tinha quanto bastava para si e a família. A família
compunha-se dos animais citados acima.
Na memorável noite em que se desencaminhou Miss Dollar, voltava
Mendonça para casa quando teve a ventura de encontrar a fugitiva no Rocio. A
cadelinha entrou a acompanhá-lo, e ele, notando que era animal sem dono
visível, levou-a consigo para os Cajueiros.
Apenas entrou em casa examinou cuidadosamente a cadelinha. Miss
Dollar era realmente um mimo; tinha as formas delgadas e graciosas da sua
fidalga raça; os olhos castanhos e aveludados pareciam exprimir a mais completa
felicidade deste mundo, tão alegres e serenos eram. Mendonça contemplou-a e
examinou minuciosamente. Leu o dístico do cadeado que fechava a coleira, e
convenceu-se finalmente de que a cadelinha era animal de grande estimação da
parte de quem quer que fosse dono dela.
- Se não aparecer o dono, fica comigo, disse ele entregando Miss Dollar
ao moleque encarregado dos cães.
Tratou o moleque de dar comida a Miss Dollar, enquanto Mendonça
planeava um bom futuro à nova hóspede, cuja família devia perpetuar-se na casa.
O plano de Mendonça durou o que duram os sonhos: o espaço de uma
noite. No dia seguinte, lendo os jornais, viu o anúncio transcrito acima,
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prometendo duzentos mil-réis a quem entregasse a cadelinha fugitiva. A sua
paixão pelos cães deu-lhe a medida da dor que devia sofrer o dono ou dona de
Miss Dollar, visto que chegava a oferecer duzentos mil-réis de gratificação a
quem apresentasse a galga. Conseqüentemente resolveu restituí-la, com bastante
mágoa do coração. Chegou a hesitar por alguns instantes; mas afinal venceram os
sentimentos de probidade e compaixão, que eram o apanágio daquela alma. E,
como se lhe custasse despedir-se do animal, ainda recente na casa, dispôs-se a
levá-lo ele mesmo, e para esse fim preparou-se. Almoçou, e depois de averiguar
bem se Miss Dollar havia feito a mesma operação, saíram ambos de casa com
direção a Matacavalos.
Naquele tempo ainda o barão do Amazonas não tinha salvo a
independência das repúblicas platinas, mediante a vitória de Riachuelo, nome
com que depois a câmara municipal crismou a rua de Matacavalos. Vigorava,
portanto, o nome tradicional da rua, que não queria dizer coisa nenhuma de jeito.
A casa que tinha o número indicado no anúncio era de bonita aparência e
indicava certa abastança nos haveres de quem lá morasse. Antes mesmo que
Mendonça batesse palmas no corredor, já Miss Dollar, reconhecendo os pátrios
lares, começava a pular de contente e a soltar uns sons alegres e guturais que, se
houvesse entre os cães literatura, deviam ser um hino de ação de graças.
Veio um moleque saber quem estava; Mendonça disse que vinha restituir
a galga fugitiva. Expansão do rosto do moleque, que correu a anunciar a boa
nova. Miss Dollar, aproveitando uma fresta, precipitou-se pelas escadas acima.
Dispunha-se Mendonça a descer, pois estava cumprida a sua tarefa, quando o
moleque voltou dizendo-lhe que subisse e entrasse para a sala.
Na sala não havia ninguém. Algumas pessoas, que têm salas
elegantemente dispostas, costumam deixar tempo de serem estas admiradas pelas


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visitas, antes de as virem cumprimentar. É possível que esse fosse o costume dos
donos daquela casa, mas desta vez não se cuidou em semelhante coisa, porque
mal o médico entrou pela porta do corredor surgiu de outra interior uma velha
com Miss Dollar nos braços e a alegria no rosto.
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- Queira ter a bondade de sentar-se, disse ela designando uma cadeira a
Mendonça.
- A minha demora é pequena, disse o médico sentando-se. Vim trazer-lhe
a cadelinha que está comigo desde ontem...
- Não imagina que desassossego causou cá em casa a ausência de Miss
Dollar...
- Imagino, minha senhora; eu também sou apreciador de cães, e se me
faltasse um sentiria profundamente. A sua Miss Dollar...
- Perdão! interrompeu a velha; minha não; Miss Dollar não é minha, é de
minha sobrinha.
- Ah!...
- Ela aí vem.
Mendonça levantou-se justamente quando entrava na sala a sobrinha em
questão. Era uma moça que representava vinte e oito anos, no pleno
desenvolvimento da sua beleza, uma dessas mulheres que anunciam velhice
tardia e imponente. O vestido de seda escura dava singular realce à cor
imensamente branca da sua pele. Era roçagante o vestido, o que lhe aumentava a
majestade do porte e da estatura. O corpinho do vestido cobria-lhe todo o colo;
mas adivinhava-se por baixo da seda um belo tronco de mármore modelado por
escultor divino. Os cabelos castanhos e naturalmente ondeados estavam
penteados com essa simplicidade caseira, que é a melhor de todas as modas
conhecidas; ornavam-lhe graciosamente a fronte como uma coroa doada pela
natureza. A extrema brancura da pele não tinha o menor tom cor-de-rosa que lhe
fizesse harmonia e contraste. A boca era pequena, e tinha uma certa expressão
imperiosa. Mas a grande distinção daquele rosto, aquilo que mais prendia os
olhos, eram os olhos; imaginem duas esmeraldas nadando em leite.
Mendonça nunca vira olhos verdes em toda a sua vida; disseram-lhe que
existiam olhos verdes, ele sabia de cor uns versos célebres de Gonçalves Dias;
mas até então os olhos verdes eram para ele a mesma coisa que a fênix dos
antigos. Um dia, conversando com uns amigos a propósito disto, afirmava que se
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alguma vez encontrasse um par de olhos verdes fugiria deles com terror.
- Por quê? perguntou-lhe um dos circunstantes admirado.
- A cor verde é a cor do mar, respondeu Mendonça; evito as tempestades
de um; evitarei as tempestades dos outros.
Eu deixo ao critério do leitor esta singularidade de Mendonça, que de
mais a mais é preciosa, no sentido de Molière.
III
Mendonça cumprimentou respeitosamente a recém-chegada, e esta, com
um gesto, convidou-o a sentar-se outra vez.
- Agradeço-lhe infinitamente o ter-me restituído este pobre animal, que
me merece grande estima, disse Margarida sentando-se.
- E eu dou graças a Deus por tê-lo achado; podia ter caído em mãos que o
não restituíssem.
Margarida fez um gesto a Miss Dollar, e a cadelinha, saltando do regaço


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da velha, foi ter com Margarida; levantou as patas dianteiras e pôs-lhas sobre os
joelhos; Margarida e Miss Dollar trocaram um longo olhar de afeto. Durante esse
tempo uma das mãos da moça brincava com uma das orelhas da galga, e dava
assim lugar a que Mendonça admirasse os seus belíssimos dedos armados com
unhas agudíssimas.
Mas, conquanto Mendonça tivesse sumo prazer em estar ali, reparou que
era esquisita e humilhante a sua demora. Pareceria estar esperando a gratificação.
Para escapar a essa interpretação desairosa, sacrificou o prazer da conversa e a
contemplação da moça; levantou-se dizendo:
- A minha missão está cumprida...
- Mas... interrompeu a velha.
Mendonça compreendeu a ameaça da interrupção da velha.
- A alegria, disse ele, que restituí a esta casa é a maior recompensa que
eu podia ambicionar. Agora peço-lhes licença...
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As duas senhoras compreenderam a intenção de Mendonça; a moça
pagou-lhe a cortesia com um sorriso; e a velha, reunindo no pulso quantas forças
ainda lhe restavam pelo corpo todo, apertou com amizade a mão do rapaz.
Mendonça saiu impressionado pela interessante Margarida. Notava-lhe
principalmente, além da beleza, que era de primeira água, certa severidade triste
no olhar e nos modos. Se aquilo era caráter da moça, dava-se bem com a índole
do médico; se era resultado de algum episódio da vida, era uma página do
romance que devia ser decifrada por olhos hábeis. A falar verdade, o único
defeito que Mendonça lhe achou foi a cor dos olhos, não porque a cor fosse feia,
mas porque ele tinha prevenção contra os olhos verdes. A prevenção, cumpre
dizê-lo, era mais literária que outra coisa; Mendonça apegava-se à frase que uma
vez proferira, e foi acima citada, e a frase é que lhe produziu a prevenção. Não
mo acusem de chofre; Mendonça era homem inteligente, instruído e dotado de
bom senso; tinha, além disso, grande tendência para as afeições românticas; mas
apesar disso lá tinha calcanhar o nosso Aquiles. Era homem como os outros;
outros Aquiles andam por aí que são da cabeça aos pés um imenso calcanhar. O
ponto vulnerável de Mendonça era esse; o amor de uma frase era capaz de
violentar-lhe afetos; sacrificava uma situação a um período arredondado.
Referindo a um amigo o episódio da galga e a entrevista com Margarida,
Mendonça disse que poderia vir a gostar dela se não tivesse olhos verdes. O
amigo riu com certo ar de sarcasmo.
- Mas, doutor, disse-lhe ele, não compreendo essa prevenção; eu ouço até
dizer que os olhos verdes são de ordinário núncios de boa alma. Além de que, a
cor dos olhos não vale nada, a questão é a expressão deles. Podem ser azuis como
o céu e pérfidos como o mar.
A observação deste amigo anônimo tinha a vantagem de ser tão poética
como a de Mendonça. Por isso abalou profundamente o ânimo do médico. Não
ficou este como o asno de Buridan entre a selha d’água e a quarta de cevada; o
asno hesitaria, Mendonça não hesitou. Acudiu-lhe de pronto a lição do casuísta
Sanchez, e das duas opiniões tomou a que lhe pareceu provável.
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Algum leitor grave achará pueril esta circunstância dos olhos verdes e
esta controvérsia sobre a qualidade provável deles. Provará com isso que tem
pouca prática do mundo. Os almanachs pitorescos citam até à saciedade mil
excentricidades e senões dos grandes varões que a humanidade admira, já por


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instruídos nas letras, já por valentes nas armas; e nem por isso deixamos de
admirar esses mesmos varões. Não queira o leitor abrir uma exceção só para
encaixar nela o nosso doutor. Aceitemo-lo com os seus ridículos; quem os não
tem? O ridículo é uma espécie de lastro da alma quando ela entra no mar da vida;
algumas fazem toda a navegação sem outra espécie de carregamento.
Para compensar essas fraquezas, já disse que Mendonça tinha qualidades
não vulgares. Adotando a opinião que lhe pareceu mais provável, que foi a do
amigo, Mendonça disse consigo que nas mãos de Margarida estava talvez a
chave do seu futuro. Ideou nesse sentido um plano de felicidade; uma casa num
ermo, olhando para o mar do lado do ocidente, a fim de poder assistir ao
espetáculo do pôr-do-sol. Margarida e ele, unidos pelo amor e pela Igreja,
beberiam ali, gota a gota, a taça inteira da celeste felicidade. O sonho de
Mendonça continha outras particularidades que seria ocioso mencionar aqui.
Mendonça pensou nisto alguns dias; chegou a passar algumas vezes por
Matacavalos; mas tão infeliz que nunca viu Margarida nem a tia; afinal desistiu
da empresa e voltou aos cães.
A coleção de cães era uma verdadeira galeria de homens ilustres. O mais
estimado deles chamava-se Diógenes; havia um galgo que acudia ao nome de
César; um cão d’água que se chamava Nelson; Cornélia chamava-se uma
cadelinha rateira, e Calígula um enorme cão de fila, vera efígie do grande
monstro que a sociedade romana produziu. Quando se achava entre toda essa
gente, ilustre por diferentes títulos, dizia Mendonça que entrava na história; era
assim que se esquecia do resto do mundo.
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IV
Achava-se Mendonça uma vez à porta do Carceller, onde acabava de
tomar sorvete em companhia de um indivíduo, amigo dele, quando viu passar um
carro, e dentro do carro duas senhoras que lhe pareceram as senhoras de
Matacavalos. Mendonça fez um movimento de espanto que não escapou ao
amigo.
- Que foi? perguntou-lhe este.
- Nada; pareceu-me conhecer aquelas senhoras. Viste-as, Andrade?
- Não.
O carro entrara na rua do Ouvidor; os dois subiram pela mesma rua.
Logo acima da rua da Quitanda, parara o carro à porta de uma loja, e as senhoras
apearam-se e entraram. Mendonça não as viu sair; mas viu o carro e suspeitou
que fosse o mesmo. Apressou o passo sem dizer nada a Andrade, que fez o
mesmo, movido por essa natural curiosidade que sente um homem quando
percebe algum segredo oculto.
Poucos instantes depois estavam à porta da loja; Mendonça verificou que
eram as duas senhoras de Matacavalos. Entrou afoito, com ar de quem ia comprar
alguma coisa, e aproximou-se das senhoras. A primeira que o conheceu foi a tia.
Mendonça cumprimentou-as respeitosamente. Elas receberam o cumprimento
com afabilidade. Ao pé de Margarida estava Miss Dollar, que, por esse admirável
faro que a natureza concedeu aos cães e aos cortesãos da fortuna, deu dois
enormes saltos de alegria apenas viu Mendonça, chegando a tocar-lhe o
estômago com as patas dianteiras.
- Parece que Miss Dollar ficou com boas recordações suas, disse D.
Antônia (assim se chamava a tia de Margarida).
- Creio que sim, respondeu Mendonça brincando com a galga e olhando


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para Margarida.
Justamente nesse momento entrou Andrade.
- Só agora as reconheci, disse ele dirigindo-se às senhoras.
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Andrade apertou a mão das duas senhoras, ou antes apertou a mão de
Antônia e os dedos de Margarida.
Mendonça não contava com este incidente, e alegrou-se com ele por ter à
mão o meio de tornar íntimas as relações superficiais que tinha com a família.
- Seria bom, disse ele a Andrade, que me apresentasses a estas senhoras.
- Pois não as conheces? perguntou Andrade estupefato.
- Conhece-nos sem nos conhecer, respondeu sorrindo a velha tia; por ora
quem o apresentou foi Miss Dollar.
Antônia referiu a Andrade a perda e o achado da cadelinha.
- Pois, nesse caso, respondeu Andrade, apresento-o já.
Feita a apresentação oficial, o caixeiro trouxe a Margarida os objetos que
ela havia comprado, e as duas senhoras despediram-se dos rapazes pedindo-lhes
que as fossem ver.
Não citei nenhuma palavra de Margarida no diálogo acima transcrito,
porque, a falar verdade, a moça só proferiu duas palavras a cada um dos rapazes.
- Passe bem, disse-lhes ela dando as pontas dos dedos e saindo para
entrar no carro.
Ficando sós, saíram também os dois rapazes e seguiram pela rua do
Ouvidor acima, ambos calados. Mendonça pensava em Margarida; Andrade
pensava nos meios de entrar na confidência de Mendonça. A vaidade tem mil
formas de manifestar-se, como o fabuloso Proteu. A vaidade de Andrade era ser
confidente dos outros; parecia-lhe assim obter da confiança aquilo que só
alcançava da indiscrição. Não lhe foi difícil apanhar o segredo de Mendonça;
antes de chegar à esquina da rua dos Ourives já Andrade sabia de tudo.
- Compreende agora, disse Mendonça, que eu preciso ir à casa dela;
tenho necessidade de vê-la; quero ver se consigo...
Mendonça estacou.
- Acaba! disse Andrade; se consegues ser amado. Por que não? Mas
desde já te digo que não será fácil.
- Por quê?
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- Margarida tem rejeitado cinco casamentos.
- Naturalmente não amava os pretendentes, disse Mendonça com o ar de
um geômetra que acha uma solução.
- Amava apaixonadamente o primeiro, respondeu Andrade, e não era
indiferente ao último.
- Houve naturalmente intriga.
- Também não. Admiras-te? É o que me acontece. É uma rapariga
esquisita. Se te achas com força de ser o Colombo daquele mundo, lança-te ao
mar com a armada; mas toma cuidado com a revolta das paixões, que são os
ferozes marujos destas navegações de descoberta.
Entusiasmado com esta alusão, histórica debaixo da forma de alegoria,
Andrade olhou para Mendonça, que, desta vez entregue ao pensamento da moça,
não atendeu à frase do amigo. Andrade contentou-se com o seu próprio sufrágio,
e sorriu com o mesmo ar de satisfação que deve ter um poeta quando escreve o
último verso de um poema.


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V
Dias depois, Andrade e Mendonça foram à casa de Margarida, e lá
passaram meia hora em conversa cerimoniosa. As visitas repetiram-se; eram
porém mais freqüentes da parte de Mendonça que de Andrade. D. Antônia
mostrou-se mais familiar que Margarida; só depois de algum tempo Margarida
desceu do Olimpo do silêncio em que habitualmente se encerrara.
Era difícil deixar de o fazer. Mendonça, conquanto não fosse dado à
convivência das salas, era um cavalheiro próprio para entreter duas senhoras que
pareciam mortalmente aborrecidas. O médico sabia piano e tocava
agradavelmente; a sua conversa era animada; sabia esses mil nadas que entretêm
geralmente as senhoras quando elas não gostam ou não podem entrar no terreno
elevado da arte, da história e da filosofia. Não foi difícil ao rapaz estabelecer
intimidade com a família.
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Posteriormente às primeiras visitas, soube Mendonça, por via de
Andrade, que Margarida era viúva. Mendonça não reprimiu o gesto de espanto.
- Mas tu falaste de um modo que parecias tratar de uma solteira, disse ele
ao amigo.
- É verdade que não me expliquei bem; os casamentos recusados foram
todos propostos depois da viuvez.
- Há que tempo está viúva?
- Há três anos.
- Tudo se explica, disse Mendonça depois de algum silêncio; quer ficar
fiel à sepultura; é uma Artemisa do século.
Andrade era céptico a respeito de Artemisas; sorriu à observação do
amigo, e, como este insistisse, replicou:
- Mas se eu já te disse que ela amava apaixonadamente o primeiro
pretendente e não era indiferente ao último.
- Então, não compreendo.
- Nem eu.
Mendonça desde esse momento tratou de cortejar assiduamente a viúva;
Margarida recebeu os primeiros olhares de Mendonça com um ar de tão supremo
desdém, que o rapaz esteve quase a abandonar a empresa; mas, a viúva, ao
mesmo tempo que parecia recusar amor, não lhe recusava estima, e tratava-o com
a maior meiguice deste mundo sempre que ele a olhava como toda a gente.
Amor repelido é amor multiplicado. Cada repulsa de Margarida
aumentava a paixão de Mendonça. Nem já lhe mereciam atenção o feroz
Calígula, nem o elegante Júlio César. Os dois escravos de Mendonça começaram
a notar a profunda diferença que havia entre os hábitos de hoje e os de outro
tempo. Supuseram logo que alguma coisa o preocupava. Convenceram-se disso
quando Mendonça, entrando uma vez em casa, deu com a ponta do botim no
focinho de Cornélia, na ocasião em que esta interessante cadelinha, mãe de dois
Gracos rateiros, festejava a chegada do doutor.
Andrade não foi insensível aos sofrimentos do amigo e procurou
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consolá-lo. Toda a consolação nestes casos é tão desejada quanto inútil;
Mendonça ouvia as palavras de Andrade e confiava-lhe todas as suas penas.
Andrade lembrou a Mendonça um excelente meio de fazer cessar a paixão: era
ausentar-se da casa. A isto respondeu Mendonça citando La Rochefoucauld:
“A ausência diminui as paixões medíocres e aumenta as grandes, como o


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vento apaga as velas a atiça as fogueiras.”
A citação teve o mérito de tapar a boca de Andrade, que acreditava tanto
na constância como nas Artemisas, mas que não queria contrariar a autoridade do
moralista, nem a resolução de Mendonça.
VI
Correram assim três meses. A corte de Mendonça não adiantava um
passo; mas a viúva nunca deixou de ser amável com ele. Era isto o que
principalmente retinha o médico aos pés da insensível viúva; não o abandonava a
esperança de vencê-la.
Algum leitor conspícuo desejaria antes que Mendonça não fosse tão
assíduo na casa de uma senhora exposta às calúnias do mundo. Pensou nisso o
médico e consolou a consciência com a presença de um indivíduo, até aqui não
nomeado por motivo de sua nulidade, e que era nada menos que o filho da Sra.
D. Antônia e a menina dos seus olhos. Chamava-se Jorge esse rapaz, que gastava
duzentos mil-réis por mês, sem os ganhar, graças à longanimidade da mãe.
Freqüentava as casas dos cabeleireiros, onde gastava mais tempo que uma
Romana da decadência às mãos das suas servas latinas. Não perdia representação
de importância no Alcazar; montava bons cavalos, e enriquecia com despesas
extraordinárias as algibeiras de algumas damas célebres e de vários parasitas
obscuros. Calçava luvas da letra E e botas nº 36, duas qualidades que lançava à
cara de todos os seus amigos que não desciam do nº 40 e da letra H. A presença
deste gentil pimpolho, achava Mendonça que salvava a situação. Mendonça
queria dar esta satisfação ao mundo, isto é, à opinião dos ociosos da cidade. Mas
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bastaria isso para tapar a boca aos ociosos?
Margarida parecia indiferente às interpretações do mundo como à
assiduidade do rapaz. Seria ela tão indiferente a tudo mais neste mundo? Não;
amava a mãe, tinha um capricho por Miss Dollar, gostava da boa música, e lia
romances. Vestia-se bem, sem ser rigorista em matéria de moda; não valsava;
quando muito dançava alguma quadrilha nos saraus a que era convidada. Não
falava muito, mas exprimia-se bem. Tinha o gesto gracioso e animado, mas sem
pretensão nem faceirice.
Quando Mendonça aparecia lá, Margarida recebia-o com visível
contentamento. O médico iludia-se sempre, apesar de já acostumado a essas
manifestações. Com efeito, Margarida gostava imenso da presença do rapaz, mas
não parecia dar-lhe uma importância que lisonjeasse o coração dele. Gostava de o
ver como se gosta de ver um dia bonito, sem morrer de amores pelo sol.
Não era possível sofrer por muito tempo a posição em que se achava o
médico. Uma noite, por um esforço de que antes disso se não julgaria capaz,
Mendonça dirigiu a Margarida esta pergunta indiscreta:
- Foi feliz com seu marido?
Margarida franziu a testa com espanto e cravou os olhos nos do médico,
que pareciam continuar mudamente a pergunta.
- Fui, disse ela no fim de alguns instantes.
Mendonça não disse palavra; não contava com aquela resposta. Confiava
demais na intimidade que reinava entre ambos; e queria descobrir por algum
modo a causa da insensibilidade da viúva. Falhou o cálculo; Margarida tornou-se
séria durante algum tempo; a chegada de D. Antônia salvou uma situação
esquerda para Mendonça. Pouco depois Margarida voltava às boas, e a conversa
tornou-se animada e íntima como sempre. A chegada de Jorge levou a animação


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da conversa a proporções maiores; D. Antônia, com olhos e ouvidos de mãe,
achava que o filho era o rapaz mais engraçado deste mundo; mas a verdade é que
não havia em toda a cristandade espírito mais frívolo. A mãe ria-se de tudo
quanto o filho dizia; o filho enchia, só ele, a conversa, referindo anedotas e
17
reproduzindo ditos e sestros do Alcazar. Mendonça via todas essas feições do
rapaz, e aturava-o com resignação evangélica.
A entrada de Jorge, animando a conversa, acelerou as horas; às dez
retirou-se o médico, acompanhado pelo filho de D. Antônia, que ia cear.
Mendonça recusou o convite que Jorge lhe fez, e despediu-se dele na rua do
Conde, esquina da do Lavradio.
Nessa mesma noite resolveu Mendonça dar um golpe decisivo; resolveu
escrever uma carta a Margarida. Era temerário para quem conhecesse o caráter da
viúva; mas, com os precedentes já mencionados, era loucura. Entretanto, não
hesitou o médico em empregar a carta, confiando que no papel diria as coisas de
muito melhor maneira que de boca. A carta foi escrita com febril impaciência; no
dia seguinte, logo depois de almoçar, Mendonça meteu a carta dentro de um
volume de George Sand, mandou-o pelo moleque a Margarida.
A viúva rompeu a capa de papel que embrulhava o volume, e pôs o livro
sobre a mesa da sala; meia hora depois voltou e pegou no livro para ler. Apenas o
abriu, caiu-lhe a carta aos pés. Abriu-a e leu o seguinte:
“Qualquer que seja a causa da sua esquivança, respeito-a, não me insurjo
contra ela. Mas, se não me é dado insurgir-me, não me será lícito queixar-me? Há
de ter compreendido o meu amor, do mesmo modo que tenho compreendido a
sua indiferença; mas, por maior que seja essa indiferença, está longe de ombrear
com o amor profundo e imperioso que se apossou de meu coração quando eu
mais longe me cuidava destas paixões dos primeiros anos. Não lhe contarei as
insônias e as lágrimas, as esperanças e os desencantos, páginas tristes deste livro
que o destino põe nas mãos do homem para que duas almas o leiam. É-lhe
indiferente isso.
“Não ouso interrogá-la sobre a esquivança que tem mostrado em relação
a mim; mas por que motivo se estende essa esquivança a tantos mais? Na idade
das paixões férvidas, ornada pelo céu com uma beleza rara, por que motivo quer
esconder-se ao mundo e defraudar a natureza e o coração de seus incontestáveis
direitos? Perdoe-me a audácia da pergunta; acho-me diante de um enigma que o
18
meu coração desejaria decifrar. Penso às vezes que alguma grande dor a
atormenta, e quisera ser o médico do seu coração; ambicionava, confesso,
restaurar-lhe alguma ilusão perdida. Parece que não há ofensa nesta ambição.
“Se, porém, essa esquivança denota simplesmente um sentimento de
orgulho legítimo, perdoe-me se ousei escrever-lhe quando seus olhos
expressamente mo proibiram. Rasgue a carta que não pode valer-lhe uma
recordação, nem representar uma arma.”
A carta era toda de reflexão; a frase fria e medida não exprimia o fogo do
sentimento. Não terá, porém, escapado ao leitor a sinceridade e a simplicidade
com que Mendonça pedia uma explicação que Margarida provavelmente não
podia dar.
Quando Mendonça disse a Andrade haver escrito a Margarida, o amigo
do médico entrou a rir despregadamente.
- Fiz mal? perguntou Mendonça.


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- Estragaste tudo. Os outros pretendentes começaram também por carta;
foi justamente a certidão de óbito do amor.
- Paciência, se acontecer o mesmo, disse Mendonça levantando os
ombros com aparente indiferença; mas eu desejava que não estivesses sempre a
falar nos pretendentes; eu não sou pretendente no sentido desses.
- Não querias casar com ela?
- Sem dúvida, se fosse possível, respondeu Mendonça.
- Pois era justamente o que os outros queriam; casar-te-ias e entrarias na
mansa posse dos bens que lhe couberam em partilha e que sobem a muito mais
de cem contos. Meu rico, se falo em pretendentes não é por te ofender, porque
um dos quatro pretendentes despedidos fui eu.
- Tu?
- É verdade; mas descansa, não fui o primeiro, nem ao menos o último.
- Escreveste?
- Como os outros; como eles, não obtive resposta; isto é, obtive uma:
devolveu-me a carta. Portanto, já que lhe escreveste, espera o resto; verás se o
19
que te digo é ou não exato. Estás perdido, Mendonça; fizeste muito mal.
Andrade tinha esta feição característica de não omitir nenhuma das cores
sombrias de uma situação, com o pretexto de que aos amigos se deve a verdade.
Desenhado o quadro, despediu-se de Mendonça, e foi adiante.
Mendonça foi para casa, onde passou a noite em claro.
VII
Enganara-se Andrade; a viúva respondeu à carta do médico. A carta dela
limitou-se a isto:
“Perdôo-lhe tudo; não lhe perdoarei se me escrever outra vez. A minha
esquivança não tem nenhuma causa; é questão de temperamento”.
O sentido da carta era ainda mais lacônico do que a expressão.
Mendonça leu-a muitas vezes, a ver se a completava; mas foi trabalho perdido.
Uma coisa concluiu ele logo; era que havia coisa oculta que arredava Margarida
do casamento; depois concluiu outra, era que Margarida ainda lhe perdoaria
segunda carta se lha escrevesse.
A primeira vez que Mendonça foi a Matacavalos achou-se embaraçado
sobre a maneira por que falaria a Margarida; a viúva tirou-o do embaraço,
tratando-o como se nada houvesse entre ambos. Mendonça não teve ocasião de
aludir às cartas por causa da presença de D. Antônia, mas estimou isso mesmo,
porque não sabia o que lhe diria caso viessem a ficar sós os dois.
Dias depois, Mendonça escreveu segunda carta à viúva e mandou-lha
pelo mesmo canal da outra. A carta foi-lhe devolvida sem resposta. Mendonça
arrependeu-se de ter abusado da ordem da moça, e resolveu, uma vez por todas,
não voltar à casa de Matacavalos. Nem tinha ânimo de lá aparecer, nem julgava
conveniente estar junto de uma pessoa a quem amava sem esperança.
Ao cabo de um mês não tinha perdido uma partícula sequer do
sentimento que nutria pela viúva. Amava-a com o mesmíssimo ardor. A
ausência, como ele pensara, aumentou-lhe o amor, como o vento ateia um
20
incêndio. Debalde lia ou buscava distrair-se na vida agitada do Rio de Janeiro;
entrou a escrever um estudo sobre a teoria do ouvido, mas a pena escapava-se-lhe
para o coração, e saiu o escrito com uma mistura de nervos e sentimentos. Estava
então na sua maior nomeada o romance de Pelletan sobre a vida de Jesus;


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Mendonça encheu o gabinete com todos os folhetos publicados de parte a parte, e
entrou a estudar profundamente o misterioso drama da Judéia. Fez quanto pôde
para absorver o espírito e esquecer a esquiva Margarida; era-lhe impossível.
Um dia de manhã apareceu-lhe em casa o filho de D. Antônia; traziamno
dois motivos: perguntar-lhe por que não ia a Matacavalos, e mostrar-lhe umas
calças novas. Mendonça aprovou as calças, e desculpou como pôde a ausência,
dizendo que andava atarefado. Jorge não era alma que compreendesse a verdade
escondida por baixo de uma palavra indiferente; vendo Mendonça mergulhado
no meio de uma chusma de livros e folhetos, perguntou-lhe se estava estudando
para ser deputado. Jorge cuidava que se estudava para ser deputado!
- Não, respondeu Mendonça.
- É verdade que a prima também lá anda com livros, e não creio que
pretende ir à câmara.
- Ah! sua prima?
- Não imagina; não faz outra coisa. Fecha-se no quarto, e passa os dias
inteiros a ler.
Informado por Jorge, Mendonça supôs que Margarida era nada menos
que uma mulher de letras, alguma modesta poetisa, que esquecia o amor dos
homens nos braços das musas. A suposição era gratuita e filha mesmo de um
espírito cego pelo amor como o de Mendonça. Há várias razões para ler muito
sem ter comércio com as musas.
- Note que a prima nunca leu tanto; agora é que lhe deu para isso, disse
Jorge tirando da charuteira um magnífico havana do valor de três tostões, e
oferecendo outro a Mendonça. Fume isto, continuou ele, fume e diga-me se há
ninguém como o Bernardo para ter charutos bons.
Gastos os charutos, Jorge despediu-se do médico, levando a promessa de
21
que este iria à casa de D. Antônia o mais cedo que pudesse.
No fim de quinze dias Mendonça voltou a Matacavalos.
Encontrou na sala Andrade e D. Antônia, que o receberam com aleluias.
Mendonça parecia com efeito ressurgir de um túmulo; tinha emagrecido e
empalidecido. A melancolia dava-lhe ao rosto maior expressão de abatimento.
Alegou trabalhos extraordinários, e entrou a conversar alegremente como dantes.
Mas essa alegria, como se compreende, era toda forçada. No fim de um quarto de
hora a tristeza apossou-se-lhe outra vez do rosto. Durante esse tempo, Margarida
não apareceu na sala; Mendonça, que até então não perguntara por ela, não sei
por que razão, vendo que ela não aparecia, perguntou se estava doente. D.
Antônia respondeu-lhe que Margarida estava um pouco incomodada.
O incômodo de Margarida durou uns três dias; era uma simples dor de
cabeça, que o primo atribuiu à aturada leitura.
No fim de alguns dias mais, D. Antônia foi surpreendida com uma
lembrança de Margarida; a viúva queria ir viver na roça algum tempo.
- Aborrece-te a cidade? perguntou a boa velha.
- Alguma coisa, respondeu Margarida; queria ir viver uns dois meses na
roça.
D. Antônia não podia recusar nada à sobrinha; concordou em ir para a
roça; e começaram os preparativos. Mendonça soube da mudança no Rocio,
andando a passear de noite; disse-lho Jorge na ocasião de ir para o Alcazar. Para
o rapaz era uma fortuna aquela mudança, porque suprimia-lhe a única obrigação
que ainda tinha neste mundo, que era a de ir jantar com a mãe.


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Não achou Mendonça nada que admirar na resolução; as resoluções de
Margarida começavam a parecer-lhe simplicidades.
Quando voltou para casa encontrou um bilhete de D. Antônia concebido
nestes termos:
“Temos de ir para fora alguns meses; espero que não nos deixe sem
despedir-se de nós. A partida é sábado; e eu quero incumbi-lo de uma coisa.”
Mendonça tomou chá, e dispôs-se a dormir. Não pôde. Quis ler; estava
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incapaz disso. Era cedo; saiu. Insensivelmente dirigiu os passos para
Matacavalos. A casa de D. Antônia estava fechada e silenciosa; evidentemente
estavam já dormindo. Mendonça passou adiante, e parou junto da grade do
jardim adjacente à casa. De fora podia ver a janela do quarto de Margarida,
pouco elevada, e dando para o jardim. Havia luz dentro; naturalmente Margarida
estava acordada. Mendonça deu mais alguns passos; a porta do jardim estava
aberta. Mendonça sentiu pulsar-lhe o coração com força desconhecida. Surgiulhe
no espírito uma suspeita. Não há coração confiante que não tenha
desfalecimentos destes; além de que, seria errada a suspeita? Mendonça,
entretanto, não tinha nenhum direito à viúva; fora repelido categoricamente. Se
havia algum dever da parte dele, era a retirada e o silêncio.
Mendonça quis conservar-se no limite que lhe estava marcado; a porta
aberta do jardim podia ser esquecimento da parte dos fâmulos. O médico refletiu
bem que aquilo tudo era fortuito, e fazendo um esforço afastou-se do lugar.
Adiante parou e refletiu; havia um demônio que o impelia por aquela porta
dentro. Mendonça voltou, e entrou com precaução.
Apenas dera alguns passos surgiu-lhe em frente Miss Dollar latindo;
parece que a galga saíra de casa sem ser pressentida; Mendonça amimou-a e a
cadelinha parece que reconheceu o médico, porque trocou os latidos em festas.
Na parede do quarto de Margarida desenhou-se uma sombra de mulher; era a
viúva que chegava à janela para ver a causa do ruído. Mendonça coseu-se como
pôde com uns arbustos que ficavam junto da grade; não vendo ninguém,
Margarida voltou para dentro.
Passados alguns minutos, Mendonça saiu do lugar em que se achava e
dirigiu-se para o lado da janela da viúva. Acompanhava-o Miss Dollar. Do
jardim não podia olhar, ainda que fosse mais alto, para o aposento da moça. A
cadelinha apenas chegou àquele ponto, subiu ligeira uma escada de pedra que
comunicava o jardim com a casa; a porta do quarto de Margarida ficava
justamente no corredor que se seguia à escada; a porta estava aberta. O rapaz
imitou a cadelinha; subiu os seis degraus de pedra vagarosamente; quando pôs o
23
pé no último ouviu Miss Dollar pulando no quarto e vindo latir à porta, como que
avisando a Margarida de que se aproximava um estranho.
Mendonça deu mais um passo. Mas nesse momento atravessou o jardim
um escravo que acudia ao latido da cadelinha; o escravo examinou o jardim, e
não vendo ninguém retirou-se. Margarida foi à janela e perguntou o que era; o
escravo explicou-lho e tranqüilizou-a dizendo que não havia ninguém.
Justamente quando ela saía da janela aparecia à porta a figura de
Mendonça. Margarida estremeceu por um abalo nervoso; ficou mais pálida do
que era; depois concentrando nos olhos toda a soma de indignação que pode
conter um coração, perguntou-lhe com voz trêmula:
- Que quer aqui?


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Foi nesse momento, e só então, que Mendonça reconheceu toda a
baixeza de seu procedimento, ou para falar mais acertadamente, toda a
alucinação do seu espírito. Pareceu-lhe ver em Margarida a figura da sua
consciência, a exprobrar-lhe tamanha indignidade. O pobre rapaz não procurou
desculpar-se; sua resposta foi singela e verdadeira.
- Sei que cometi um ato infame, disse ele; não tinha razão para isso;
estava louco; agora conheço a extensão do mal. Não lhe peço que me desculpe,
D. Margarida; não mereço perdão; mereço desprezo; adeus!
- Compreendo, senhor, disse Margarida; quer obrigar-me pela força do
descrédito quando me não pode obrigar pelo coração. Não é de cavalheiro.
- Oh! isso... juro-lhe que não foi tal o meu pensamento...
Margarida caiu numa cadeira parecendo chorar. Mendonça deu um passo
para entrar, visto que até então não saíra da porta; Margarida levantou os olhos
cobertos de lágrimas, e com um gesto imperioso mostrou-lhe que saísse.
Mendonça obedeceu; nem um nem outro dormiram nessa noite. Ambos
curvavam-se ao peso da vergonha: mas, por honra de Mendonça, a dele era maior
que a dela; e a dor de uma não ombreava com o remorso de outro.
24
VIII
No dia seguinte estava Mendonça em casa fumando charutos sobre
charutos, recurso das grandes ocasiões, quando parou à porta dele um carro,
apeando-se pouco depois a mãe de Jorge. A visita pareceu de mau agouro ao
médico. Mas apenas a velha entrou, dissipou-lhe o receio.
- Creio, disse D. Antônia, que a minha idade permite visitar um homem
solteiro.
Mendonça procurou sorrir ouvindo este gracejo; mas não pôde.
Convidou a boa senhora a sentar-se, e sentou-se ele também esperando que ela
lhe explicasse a causa da visita.
- Escrevi-lhe ontem, disse ela, para que fosse ver-me hoje; preferi vir cá,
receando que por qualquer motivo não fosse a Matacavalos.
- Queria então incumbir-me?
- De coisa nenhuma, respondeu a velha sorrindo; incumbir disse-lhe eu,
como diria qualquer outra coisa indiferente; quero informá-lo.
- Ah! de quê?
- Sabe quem ficou hoje de cama?
- D. Margarida?
- É verdade; amanheceu um pouco doente; diz que passou a noite mal.
Eu creio que sei a razão, acrescentou D. Antônia rindo maliciosamente para
Mendonça.
- Qual será então a razão? perguntou o médico.
- Pois não percebe?
- Não.
- Margarida ama-o.
Mendonça levantou-se da cadeira como por uma mola. A declaração da
tia da viúva era tão inesperada que o rapaz cuidou de estar sonhando.
- Ama-o, repetiu D. Antônia.
- Não creio, respondeu Mendonça depois de algum silêncio; há de ser
25
engano seu.
- Engano! disse a velha.


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D. Antônia contou a Mendonça que, curiosa por saber a causa das
vigílias de Margarida, descobrira no quarto dela um diário de impressões, escrito
por ela, à imitação de não sei quantas heroínas de romances; aí lera a verdade que
lhe acabava de dizer.
- Mas se me ama, observou Mendonça sentindo entrar-lhe n’alma um
mundo de esperanças, se me ama, por que recusa o meu coração?
- O diário explica isso mesmo; eu lhe digo. Margarida foi infeliz no
casamento; o marido teve unicamente em vista gozar da riqueza dela; Margarida
adquiriu a certeza de que nunca será amada por si, mas pelos cabedais que
possui; atribui o seu amor à cobiça. Está convencido?
Mendonça começou a protestar.
- É inútil, disse D. Antônia, eu creio na sinceridade do seu afeto; já de há
muito percebi isso mesmo; mas como convencer um coração desconfiado?
- Não sei.
- Nem eu, disse a velha; mas para isso é que eu vim cá; peço-lhe que veja
se pode fazer com que a minha Margarida torne a ser feliz, se lhe influi a crença
no amor que lhe tem.
- Acho que é impossível...
Mendonça lembrou-se de contar a D. Antônia a cena da véspera; mas
arrependeu-se a tempo.
D. Antônia saiu pouco depois.
A situação de Mendonça, ao passo que se tornara mais clara, estava mais
difícil que dantes. Era possível tentar alguma coisa antes da cena do quarto; mas
depois, achava Mendonça impossível conseguir nada.
A doença de Margarida durou dois dias, no fim dos quais levantou-se a
viúva um pouco abatida, e a primeira coisa que fez foi escrever a Mendonça
pedindo-lhe que fosse lá à casa.
Mendonça admirou-se bastante do convite, e obedeceu de pronto.
26
- Depois do que se deu há três dias, disse-lhe Margarida, compreende o
senhor que eu não posso ficar debaixo da ação da maledicência... Diz que me
ama; pois bem, o nosso casamento é inevitável.
Inevitável! amargou esta palavra ao médico, que aliás não podia recusar
uma reparação. Lembrava-se ao mesmo tempo que era amado; e conquanto a
idéia lhe sorrisse ao espírito, outra vinha dissipar esse instantâneo prazer, e era a
suspeita que Margarida nutria a seu respeito.
- Estou às suas ordens, respondeu ele.
Admirou-se D. Antônia da presteza do casamento quando Margarida lho
anunciou nesse mesmo dia. Supôs que fosse milagre do rapaz. Pelo tempo
adiante reparou que os noivos tinham cara mais de enterro que de casamento.
Interrogou a sobrinha a esse respeito; obteve uma resposta evasiva.
Foi modesta e reservada a cerimônia do casamento. Andrade serviu de
padrinho, D. Antônia de madrinha; Jorge falou no Alcazar a um padre, seu
amigo, para celebrar o ato.
D. Antônia quis que os noivos ficassem residindo em casa com ela.
Quando Mendonça se achou a sós com Margarida, disse-lhe:
- Casei-me para salvar-lhe a reputação; não quero obrigar pela fatalidade
das coisas um coração que me não pertence. Ter-me-á por seu amigo; até
amanhã.
Saiu Mendonça depois deste speech, deixando Margarida suspensa entre


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o conceito que fazia dele e a impressão das suas palavras agora.
Não havia posição mais singular do que a destes noivos separados por
uma quimera. O mais belo dia da vida tornava-se para eles um dia de desgraça e
de solidão; a formalidade do casamento foi simplesmente o prelúdio do mais
completo divórcio. Menos ceticismo da parte de Margarida, mais cavalheirismo
da parte do rapaz teriam poupado o desenlace sombrio da comédia do coração.
Vale mais imaginar que descrever as torturas daquela primeira noite de noivado.
Mas aquilo que o espírito do homem não vence, há de vencê-lo o tempo,
a quem cabe final razão. O tempo convenceu Margarida de que a sua suspeita era
27
gratuita; e, coincidindo com ele o coração, veio a tornar-se efetivo o casamento
apenas celebrado.
Andrade ignorou estas coisas; cada vez que encontrava Mendonça
chamava-lhe Colombo do amor; tinha Andrade a mania de todo o sujeito a quem
as idéias ocorrem trimestralmente; apenas pilhada alguma de jeito repetia-a até a
saciedade.
Os dois esposos são ainda noivos e prometem sê-lo até a morte. Andrade
meteu-se na diplomacia e promete ser um dos luzeiros da nossa representação
internacional. Jorge continua a ser um bom pândego; D. Antônia prepara-se para
despedir-se do mundo.
Quanto a Miss Dollar, causa indireta de todos estes acontecimentos,
saindo um dia à rua foi pisada por um carro; faleceu pouco depois. Margarida
não pôde reter algumas lágrimas pela nobre cadelinha; foi o corpo enterrado na
chácara, à sombra de uma laranjeira; cobre a sepultura uma lápide com esta
simples inscrição:
A MISS DOLLAR
28

**************************************************************************************************************

LUIZ SOARES
I
Trocar o dia pela noite, dizia Luiz Soares, é restaurar o império da
natureza corrigindo a obra da sociedade. O calor do sol está dizendo aos homens
que vão descansar e dormir, ao passo que a frescura relativa da noite é a
verdadeira estação em que se deve viver. Livre em todas as minhas ações, não
quero sujeitar-me à lei absurda que a sociedade me impõe: velarei de noite,
dormirei de dia.
Contrariamente a vários ministérios, Soares cumpria este programa com
um escrúpulo digno de uma grande consciência. A aurora para ele era o
crepúsculo, o crepúsculo era a aurora. Dormia doze horas consecutivas durante o
dia, quer dizer das seis da manhã às seis da tarde. Almoçava às sete e jantava às
duas da madrugada. Não ceava. A sua ceia limitava-se a uma xícara de chocolate
que o criado lhe dava às cinco horas da manhã quando ele entrava para casa.
29
Soares engolia o chocolate, fumava dois charutos, fazia alguns trocadilhos com o
criado, lia uma página de algum romance, e deitava-se.
Não lia jornais. Achava que um jornal era a coisa mais inútil deste
mundo, depois da câmara dos deputados, das obras dos poetas e das missas. Não
quer isto dizer que Soares fosse ateu em religião, política e poesia. Não. Soares


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era apenas indiferente. Olhava para todas as grandes coisas com a mesma cara
com que via uma mulher feia. Podia vir a ser um grande perverso; até então era
apenas uma grande inutilidade.
Graças a uma boa fortuna que lhe deixara o pai, Soares podia gozar a
vida que levava, esquivando-se a todo o gênero de trabalho e entregue somente
aos instintos da sua natureza e aos caprichos do seu coração. Coração é talvez
demais. Era duvidoso que Soares o tivesse. Ele mesmo o dizia. Quando alguma
dama lhe pedia que ele a amasse, Soares respondia:
- Minha rica pequena, eu nasci com a grande vantagem de não ter coisa
nenhuma dentro do peito nem dentro da cabeça. Isso que chamam juízo e
sentimento são para mim verdadeiros mistérios. Não os compreendo porque os
não sinto.
Soares acrescentava que a fortuna suplantara a natureza, deitando-lhe no
berço em que nasceu uma boa soma de contos de réis. Mas esquecia que a
fortuna, apesar de generosa, é exigente, e quer da parte dos seus afilhados algum
esforço próprio. A fortuna não é Danaide. Quando vê que um tonel esgota a água
que se lhe põe dentro vai levar os seus cântaros a outra parte. Soares não pensava
nisto. Cuidava que os seus bens eram renascentes como as cabeças da hidra
antiga. Gastava às mãos largas; e os contos de réis, tão dificilmente acumulados
por seu pai, escapavam-se-lhe das mãos como pássaros sequiosos por gozarem
do ar livre.
Achou-se, portanto, pobre quando menos o esperava. Um dia de manhã,
quer dizer às ave-marias, os olhos de Soares viram escritas as palavras fatídicas
do festim babilônico. Era uma carta que o criado lhe entregara dizendo que o
banqueiro de Soares a havia deixado à meia-noite. O criado falava como o amo
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vivia: ao meio-dia chamava meia-noite.
- Já te disse, respondeu Soares, que eu só recebo cartas dos meus amigos,
ou então...
- De alguma rapariga, bem sei. É por isso que lhe não tenho dado as
cartas que o banqueiro tem trazido há um mês. Hoje, porém, o homem disse que
era indispensável que lhe eu desse esta.
Soares sentou-se na cama, e perguntou ao criado meio alegre e meio
zangado:
- Então tu és criado dele ou meu?
- Meu amo, o banqueiro disse que se trata de um grande perigo.
- Que perigo?
- Não sei.
- Deixa ver a carta.
O criado entregou-lhe a carta.
Soares abriu-a e leu-a duas vezes. Dizia a carta que o rapaz não possuía
mais que seis contos de réis. Para Soares seis contos de réis eram menos que seis
vinténs.
Pela primeira vez na sua vida Soares sentiu uma grande comoção. A
idéia de não ter dinheiro nunca lhe havia acudido ao espírito; não imaginava que
um dia se achasse na posição de qualquer outro homem que precisava de
trabalhar.
Almoçou sem vontade e saiu. Foi ao Alcazar. Os amigos acharam-no
triste; perguntaram-lhe se era alguma mágoa de amor. Soares respondeu que
estava doente. As Laís da localidade acharam que era de bom gosto ficarem


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tristes também. A consternação foi geral.
Um dos seus amigos, José Pires, propôs um passeio a Botafogo para
distrair as melancolias de Soares. O rapaz aceitou. Mas o passeio a Botafogo era
tão comum que não podia distraí-lo. Lembraram-se de ir ao Corcovado, idéia que
foi aceita e executada imediatamente.
Mas que há que possa distrair um rapaz nas condições de Soares? A
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viagem ao Corcovado apenas lhe produziu uma grande fadiga, aliás útil, porque,
na volta, dormiu o rapaz a sono solto.
Quando acordou mandou dizer ao Pires que viesse falar-lhe
imediatamente. Daí a uma hora parava um cano à porta: era o Pires que chegava,
mas acompanhado de uma rapariga morena que respondia ao nome de Vitória.
Entraram os dois pela sala de Soares com a franqueza e o estrépito naturais entre
pessoas de família.
- Não está doente? perguntou Vitória ao dono da casa.
- Não, respondeu este; mas por que veio você?
- É boa! disse José Pires; veio porque é a minha xícara inseparável...
Querias falar-me em particular?
- Queria.
- Pois falemos aí em qualquer canto; Vitória fica na sala vendo os álbuns.
- Nada, interrompeu a moça; nesse caso vou-me embora. É melhor; só
imponho uma condição: é que ambos hão de ir depois lá para casa; temos ceata.
- Valeu! disse Pires.
Vitória saiu; os dois rapazes ficaram sós.
Pires era o tipo do bisbilhoteiro e leviano. Em lhe cheirando novidade
preparava-se para instruir-se de tudo. Lisonjeava-o a confiança de Soares, e
adivinhava que o rapaz ia comunicar-lhe alguma coisa importante. Para isso
assumiu um ar condigno com a situação. Sentou-se comodamente em uma
cadeira de braços; pôs o castão da bengala na boca e começou o ataque com estas
palavras:
- Estamos sós; que me queres?
Soares confiou-lhe tudo; leu-lhe a carta do banqueiro; mostrou-lhe em
toda a nudez a sua miséria. Disse-lhe que naquela situação não via solução
possível, e confessou ingenuamente que a idéia do suicídio o havia alimentado
durante longas horas.
- Um suicídio! exclamou Pires; estás doido.
- Doido! respondeu Soares; entretanto não vejo outra saída neste beco.
32
Demais, é apenas meio suicídio, porque a pobreza já é meia morte.
- Convenho que a pobreza não é coisa agradável, e até acho...
Pires interrompeu-se; uma idéia súbita atravessara-lhe o espírito: a idéia
de que Soares acabasse a conferência por pedir-lhe dinheiro. Pires tinha um
preceito na sua vida: era não emprestar dinheiro aos amigos. Não se empresta
sangue, dizia ele.
Soares não reparou na frase cortada do amigo, e disse:
- Viver pobre depois de ter sido rico... é impossível.
- Nesse caso que me queres tu? perguntou Pires, a quem pareceu que era
bom atacar o touro de frente.
- Um conselho.
- Inútil conselho, pois que já tens uma idéia fixa.


[Linha 900 de 6063 - Parte 1 de 4]


- Talvez. Entretanto confesso que não se deixa a vida com facilidade, e
má ou boa, sempre custa morrer. Por outro lado, ostentar a minha miséria diante
das pessoas que me viram rico é uma humilhação que eu não aceito. Que farias tu
no meu lugar?
- Homem, respondeu Pires, há muitos meios...
- Venha um.
- Primeiro meio. Vai para New York e procura uma fortuna.
- Não me convém; nesse caso fico no Rio de Janeiro.
- Segundo meio. Arranja um casamento rico.
- É bom de dizer. Onde está esse casamento?
- Procura. Não tens uma prima que gosta de ti?
- Creio que já não gosta; e demais não é rica; tem apenas trinta contos;
despesa de um ano.
- É um bom princípio de vida.
- Nada; outro meio.
- Terceiro meio, e o melhor. Vai à casa de teu tio, angaria-lhe a estima,
dize que estás arrependido da vida passada, aceita um emprego, enfim vê se te
constituis seu herdeiro universal.
33
Soares não respondeu; a idéia pareceu-lhe boa.
- Aposto que te agrada o terceiro meio? perguntou Pires rindo.
- Não é mau. Aceito; e bem sei que é difícil e demorado; mas eu não
tenho muitos à escolha.
- Ainda bem, disse Pires levantando-se. Agora o que se quer é algum
juízo. Há de custar-te o sacrifício, mas lembra-te que é o meio único de teres
dentro de pouco tempo uma fortuna. Teu tio é um homem achacado de moléstias;
qualquer dia bate a bota. Aproveita o tempo. E agora vamos à ceia da Vitória.
- Não vou, disse Soares; quero acostumar-me desde já a viver vida nova.
- Bem; adeus.
- Olha; confiei-te isto a ti só; guarda-me segredo.
- Sou um túmulo, respondeu Pires descendo a escada.
Mas no dia seguinte já os rapazes e raparigas sabiam que Soares ia fazerse
anacoreta... por não ter dinheiro nenhum. O próprio Soares reconheceu isto no
rosto dos amigos. Todos pareciam dizer-lhe: É pena! que pândego vamos nós
perder!
Pires nunca mais o visitou.
II
O tio de Soares chamava-se major Luís da Cunha Vilela, e era com efeito
um homem já velho e adoentado. Contudo não se podia dizer que morreria cedo.
O major Vilela observava um rigoroso regime que lhe ia entretendo a vida. Tinha
uns bons sessenta anos. Era um velho alegre e severo ao mesmo tempo. Gostava
de rir, mas era implacável com os maus costumes. Constitucional por
necessidade, era no fundo de sua alma absolutista. Chorava pela sociedade
antiga; criticava constantemente a nova. Enfim foi o último homem que
abandonou a cabeleira de rabicho.
Vivia o major Vilela em Catumbi, acompanhado de sua sobrinha
Adelaide, e mais uma velha parenta. A sua vida era patriarcal. Importando-se
34
pouco ou nada com o que ia por fora, o major entregava-se todo ao cuidado de
sua casa, aonde poucos amigos e algumas famílias da vizinhança o iam ver, e


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passar as noites com ele. O major conservava sempre a mesma alegria, ainda nas
ocasiões em que o reumatismo o prostrava. Os reumáticos dificilmente
acreditarão nisto; mas eu posso afirmar que era verdade.
Foi num dia de manhã, felizmente um dia em que o major não sentia o
menor achaque, e ria e brincava com as duas parentas, que Soares apareceu em
Catumbi à porta do tio.
Quando o major recebeu o cartão com o nome do sobrinho, supôs que
era alguma caçoada. Podia contar com todos em casa, menos o sobrinho. Fazia já
dois anos que o não via, e entre a última e a penúltima vez tinha mediado ano e
meio. Mas o moleque disse-lhe tão seriamente que o nhonhô Luís estava na sala
de espera, que o velho acabou por acreditar.
- Que te parece, Adelaide?
A moça não respondeu.
O velho foi à sala de visitas.
Soares tinha pensado no meio de aparecer ao tio. Ajoelhar-se era
dramático demais; cair-lhe nos braços exigia certo impulso íntimo que ele não
tinha; além de que, Soares vexava-se de ter ou fingir uma comoção. Lembrou-se
de começar uma conversação alheia ao fim que o levava lá, e acabar por
confessar-se disposto a arrepiar carreira. Mas este meio tinha o inconveniente de
fazer preceder a reconciliação por um sermão, que o rapaz dispensava. Ainda não
se resolvera a aceitar um dos muitos meios que lhe vieram à idéia, quando o
major apareceu à porta da sala.
O major parou à porta sem dizer palavra e lançou sobre o sobrinho um
olhar severo e interrogador.
Soares hesitou um instante; mas como a situação podia prolongar-se em
benefício seu, o rapaz seguiu um movimento natural: foi ao tio e estendeu-lhe a
mão.
- Meu tio, disse ele, não precisa dizer mais nada; o seu olhar diz-me tudo.
35
Fui pecador e arrependo-me. Aqui estou.
O major estendeu-lhe a mão, que o rapaz beijou com o respeito de que
era suscetível.
Depois encaminhou-se para uma cadeira e sentou-se; o rapaz ficou de pé.
- Se o teu arrependimento é sincero, abro-te a minha porta e o meu
coração. Se não é sincero podes ir embora; há muito tempo que não freqüento a
casa da ópera: não gosto de comediantes.
Soares protestou que era sincero. Disse que fora dissipado e doido, mas
que aos trinta anos era justo ter juízo. Reconhecia agora que o tio sempre tivera
razão. Supôs ao princípio que eram simples rabugices de velho, e mais nada; mas
não era natural esta leviandade num rapaz educado no vício? Felizmente corrigiase
a tempo. O que ele agora queria era entrar em bom viver, e começava por
aceitar um emprego público que o obrigasse a trabalhar e fazer-se sério. Tratavase
de ganhar uma posição.
Ouvindo o discurso de que fiz o extrato acima, o major procurava
adivinhar o fundo do pensamento de Soares. Seria ele sincero? O velho concluiu
que o sobrinho falava com a alma nas mãos. A sua ilusão chegou ao ponto de
ver-lhe uma lágrima nos olhos, lágrima que não apareceu, nem mesmo fingida.
Quando Soares acabou, o major estendeu-lhe a mão e apertou a que o
rapaz lhe estendeu também.
- Creio, Luiz. Ainda bem que te arrependeste a tempo. Isso que vivias


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não era vida nem morte; a vida é mais digna e a morte mais tranqüila do que a
existência que malbarataste. Entras agora em casa como um filho pródigo. Terás
o melhor lugar à mesa. Esta família é a mesma família.
O major continuou por este tom; Soares ouviu a pé quedo o discurso do
tio. Dizia consigo que era a amostra da pena que ia sofrer, e um grande desconto
dos seus pecados.
O major acabou levando o rapaz para dentro, onde os esperava o almoço.
Na sala de jantar estavam Adelaide e a velha parenta. A Sra. Antônia de
Moura Vilela recebeu Soares com grandes exclamações que envergonharam
36
sinceramente o rapaz. Quanto a Adelaide, apenas o cumprimentou sem olhar para
ele; Soares retribuiu o cumprimento.
O major reparou na frieza; mas parece que sabia alguma coisa, porque
apenas deu uma risadinha amarela, coisa que lhe era peculiar.
Sentaram-se à mesa, e o almoço correu entre as pilhérias do major, as
recriminações da Sra. Antônia, as explicações do rapaz e o silêncio de Adelaide.
Quando o almoço acabou, o major disse ao sobrinho que fumasse, concessão
enorme que o rapaz a custo aceitou. As duas senhoras saíram; ficaram os dois à
mesa.
- Estás então disposto a trabalhar?
- Estou, meu tio.
- Bem; vou ver se te arranjo um emprego. Que emprego preferes?
- O que quiser, meu tio, contanto que eu trabalhe.
- Bem. Levarás amanhã, uma carta minha a um dos ministros. Deus
queira que possas obter o emprego sem dificuldade. Quero ver-te trabalhador e
sério; quero ver-te homem. As dissipações não produzem nada, a não ser dívidas
e desgostos... Tens dívidas?
- Nenhuma, respondeu Soares.
Soares mentia. Tinha uma dívida de alfaiate, relativamente pequena;
queria pagá-la sem que o tio soubesse.
No dia seguinte o major escreveu a carta prometida, que o sobrinho
levou ao ministro; e tão feliz foi, que daí a um mês estava empregado em uma
secretaria com um bom ordenado.
Cumpre fazer justiça ao rapaz. O sacrifício que fez de transformar os
seus hábitos de vida foi enorme, e a julgá-lo pelos seus antecedentes, ninguém o
julgara capaz de tal. Mas o desejo de perpetuar uma vida de dissipação pode
explicar a mudança e o sacrifício. Aquilo na existência de Soares não passava de
um parênteses mais ou menos extenso. Almejava por fechá-lo e continuar o
período como havia começado, isto é, vivendo com Aspásia e pagodeando com
Alcibíades.
37
O tio não desconfiava de nada; mas temia que o rapaz fosse novamente
tentado à fuga, ou porque o seduzisse a lembrança das dissipações antigas, ou
porque o aborrecesse a monotonia e a fadiga do trabalho. Com o fim de impedir
o desastre, lembrou-se de inspirar-lhe ambição política. Pensava o major que a
política seria um remédio decisivo para aquele doente, como se não fosse
conhecido que os louros de Lovelace e os de Turgot andam muita vez na mesma
cabeça.
Soares não desanimou o major. Disse que era natural acabar a sua
existência na política, e chegou a dizer que algumas vezes sonhara com uma


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cadeira no parlamento.
- Pois eu verei se te posso arranjar isto, respondeu o tio. O que é preciso
é que estudes a ciência da política, a história do nosso parlamento e do nosso
governo; e principalmente é preciso que continues a ser o que és hoje: um rapaz
sério.
Se bem o dizia o major, melhor o fazia Soares, que desde então meteu-se
com os livros e lia com afinco as discussões das câmaras.
Soares não morava com o tio, mas passava lá todo o tempo que lhe
sobrava do trabalho, e voltava para casa depois do chá, que era patriarcal, e bem
diferente das ceatas do antigo tempo.
Não afirmo que entre as duas fases da existência de Luís Soares não
houvesse algum elo de união, e que o emigrante das terras de Gnido não fizesse
de quando em quando alguma excursão à pátria. Em todo o caso essas excursões
eram tão secretas que ninguém sabia delas, nem talvez os habitantes das referidas
terras, com exceção dos poucos escolhidos para receberem o expatriado. O caso
era singular, porque naquele país não se reconhece o cidadão naturalizado
estrangeiro, ao contrário da Inglaterra, que não dá aos súditos da rainha o direito
de escolherem outra pátria.
Soares encontrava-se de quando em quando com Pires. O confidente do
convertido manifestava a sua amizade antiga oferecendo-lhe um charuto de
Havana e contando-lhe algumas boas fortunas havidas nas campanhas do amor,
38
em que o alarve supunha ser consumado general.
Havia já cinco meses que o sobrinho do major Vilela se achava
empregado, e ainda os chefes da repartição não tinham tido um só motivo de
queixa contra ele. A dedicação era digna de melhor causa. Exteriormente via-se
em Luís Soares um monge; raspando-se um pouco achava-se o diabo.
Ora, o diabo viu de longe uma conquista...
III
A prima Adelaide tinha vinte e quatro anos, e a sua beleza, no pleno
desenvolvimento da sua mocidade, tinha em si o condão de fazer morrer de
amores. Era alta e bem proporcionada; tinha uma cabeça modelada pelo tipo
antigo; a testa era espaçosa e alta, os olhos rasgados e negros, o nariz levemente
aquilino. Quem a contemplava durante alguns momentos sentia que ela tinha
todas as energias, a das paixões e a da vontade.
Há de lembrar-se o leitor do frio cumprimento trocado entre Adelaide e
seu primo; também se há de lembrar que Soares disse ao amigo Pires ter sido
amado por sua prima. Ligam-se estas duas coisas. A frieza de Adelaide resultava
de uma lembrança que era dolorosa para a moça; Adelaide amara o primo, não
com um simples amor de primos, que em geral resulta da convivência e não de
uma súbita atração. Amara-o com todo o vigor e calor de sua alma; mas já então
o rapaz iniciava os seus passos em outras regiões e ficou indiferente aos afetos da
moça. Um amigo que sabia do segredo perguntou-lhe um dia por que razão não
se casava com Adelaide, ao que o rapaz respondeu friamente:
- Quem tem a minha fortuna não se casa; mas se se casa é sempre com
quem tenha mais. Os bens de Adelaide são a quinta parte dos meus; para ela é
negócio da China; para mim é um mau negócio.
O amigo que ouvira esta resposta não deixou de dar uma prova da sua
afeição ao rapaz indo contar tudo à moça. O golpe foi tremendo, não tanto pela
certeza que lhe dava de não ser amada, como pela circunstância de nem ao menos


[Linha 1100 de 6063 - Parte 1 de 4]


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ficar-lhe o direito de estima. A confissão de Soares era um corpo de delito. O
confidente oficioso esperava talvez colher os despojos da derrota; mas Adelaide
tão depressa ouviu a delação como desprezou o delator.
O incidente não passou disto.
Quando Soares voltou à casa do tio, a moça achou-se em dolorosa
situação; era obrigada a conviver com um homem ao qual nem podia dar apreço.
Pela sua parte, o rapaz também se achava acanhado, não porque lhe doessem as
palavras que dissera um dia, mas por causa do tio, que ignorava tudo. Não
ignorava; o moço é que o supunha. O major soube da paixão de Adelaide e soube
também da repulsa que tivera no coração do rapaz. Talvez não soubesse das
palavras textuais repetidas à moça pelo amigo de Soares; mas se não conhecia o
texto, conhecia o espírito; sabia que, pelo motivo de ser amado, o rapaz entrara a
aborrecer a prima, e que esta, vendo-se repelida, entrara a aborrecer o rapaz. O
major supôs até durante algum tempo que a ausência de Soares tinha por motivo
a presença da moça em casa.
Adelaide era filha de um irmão do major, homem muito rico e
igualmente excêntrico, que morrera havia dez anos deixando a moça entregue aos
cuidados do irmão. Como o pai de Adelaide fizera muitas viagens, parece que
gastou nelas a maior parte da sua fortuna. Quando morreu apenas coube a
Adelaide, filha única, cerca de trinta contos, que o tio conservou intatos para
serem o dote da pupila.
Soares houve-se como pode na singular situação em que se achava. Não
conversava com a prima; apenas trocava com ela as palavras estritamente
necessárias para não chamar a atenção do tio. A moça fazia o mesmo.
Mas quem pode ter mão ao coração? A prima de Luís Soares sentiu que
pouco a pouco lhe ia renascendo o antigo afeto. Procurou combatê-lo
sinceramente; mas não se impede o crescimento de uma planta senão arrancandolhe
as raízes. As raízes existiam ainda. Apesar dos esforços da moça o amor veio
pouco a pouco invadindo o lugar do ódio, e se até então o suplício era grande,
agora era enorme. Travara-se uma luta entre o orgulho e o amor. A moça sofreu
40
consigo; não articulou uma palavra.
Luiz Soares reparava que quando os seus dedos tocavam os da prima,
esta experimentava uma grande emoção: corava e empalidecia. Era um grande
navegador aquele rapaz nos mares do amor: conhecia-lhe a alma e a tempestade.
Convenceu-se de que a prima o amava outra vez. A descoberta não o alegrou;
pelo contrário, foi-lhe motivo de grande irritação. Receava que o tio, descobrindo
o sentimento da sobrinha, propusesse o casamento ao rapaz; e recusá-lo não seria
comprometer no futuro a esperada herança? A herança sem o casamento era o
ideal do moço. Dar-me asas, pensava ele, atando-me os pés, é o mesmo que
condenar-me à prisão. É o destino do papagaio doméstico; não aspiro a tê-lo.
Realizaram-se as previsões do rapaz. O major descobriu a causa da
tristeza da moça e resolveu pôr termo àquela situação propondo ao sobrinho o
casamento.
Soares não podia recusar abertamente sem comprometer o edifício da sua
fortuna.
- Este casamento, disse-lhe o tio, é complemento da minha felicidade. De
um só lance reuno duas pessoas que tanto estimo, e morro tranqüilo sem levar
nenhum pesar para outro mundo. Estou que aceitarás.


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- Aceito, meu tio; mas observo que o casamento assenta no amor, e eu
não amo minha prima.
- Bem; hás de amá-la; casa-te primeiro...
- Não desejo expô-la a uma desilusão.
- Qual desilusão! disse o major sorrindo. Gosto de ouvir-te falar essa
linguagem poética, mas casamento não é poesia. É verdade que é bom que duas
pessoas antes de se casarem se tenham já alguma estima mútua. Isso creio que
tens. Lá fogos ardentes, meu rico sobrinho, são coisas que ficam bem em verso, e
mesmo em prosa; mas na vida, que não é prosa nem verso, o casamento apenas
exige certa conformidade de gênio, de educação e de estima.
- Meu tio sabe que eu não me recuso a uma ordem sua.
- Ordem, não! Não te ordeno, proponho. Dizes que não amas tua prima;
41
pois bem, faze por isso, e daqui a algum tempo casem-se que me darão gosto. O
que eu quero é que seja cedo, porque não estou longe de dar à casca.
O rapaz disse que sim. Adiou a dificuldade não podendo resolvê-la. O
major ficou satisfeito com o arranjo e consolou a sobrinha com a promessa de
que podia casar-se um dia com o primo. Era a primeira vez que o velho tocava
em semelhante assunto, e Adelaide não dissimulou o seu espanto, espanto que
lisonjeou profundamente a perspicácia do major.
- Ah! tu pensas, disse ele, que eu por ser velho já perdi os olhos do
coração? Vejo tudo, Adelaide; vejo aquilo mesmo que se quer esconder.
A moça não pôde reter algumas lágrimas, e como o velho a consolasse
dando-lhe esperanças, ela respondeu abanando a cabeça:
- Esperanças, nenhuma!
- Descansa em mim! disse o major.
Conquanto a dedicação do tio fosse toda espontânea e filha do amor que
votava à sobrinha, esta compreendeu que semelhante intervenção podia fazer
supor ao primo que ela esmolava os afetos do seu coração.
Aqui falou o orgulho da mulher, que preferia o sofrimento à humilhação.
Quando ela expôs estas objeções ao tio, o major sorriu-se afavelmente e procurou
acalmar a suscetibilidade da moça.
Passaram-se alguns dias sem mais incidente; o rapaz estava no gozo da
dilação que lhe dera o tio. Adelaide readquiriu o seu ar frio e indiferente. Soares
compreendia o motivo, e àquela manifestação do orgulho respondia com um
sorriso. Duas vezes notou Adelaide essa expressão de desdém da parte do primo.
Que mais precisava para reconhecer que o rapaz sentia por ela a mesma
indiferença de outro tempo? Acrescia que sempre que os dois se encontravam
sós, Soares era o primeiro que se afastava dela. Era o mesmo homem.
- Não me ama, não me amará nunca! dizia a moça consigo.
42
IV
Um dia de manhã o major Vilela recebeu a seguinte carta:
«Meu valente major.- Cheguei da Bahia hoje mesmo, e lá irei de tarde
para ver-te e abraçar-te. Prepara um jantar. Creio que me não hás de receber
como qualquer indivíduo. Não esqueças o vatapá.- Teu amigo, Anselmo.»
- Bravo! disse o major. Temos cá o Anselmo; prima Antônia, mande
fazer um bom vatapá.
O Anselmo que chegara da Bahia chamava-se Anselmo Barroso de
Vasconcelos. Era um fazendeiro rico, e veterano da independência. Com os seus


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setenta e oito anos ainda se mostrava rijo e capaz de grandes feitos. Tinha sido
íntimo amigo do pai de Adelaide, que o apresentou ao major, vindo a ficar amigo
deste depois que o outro morrera. Anselmo acompanhou o amigo até os seus
últimos instantes; e chorou a perda como se fora seu próprio irmão. As lágrimas
cimentaram a amizade entre ele e o major.
De tarde apareceu Anselmo galhofeiro e vivo como se começasse para
ele uma nova mocidade. Abraçou a todos; deu um beijo em Adelaide, a quem
felicitou pelo desenvolvimento das suas graças.
- Não se ria de mim, disse-lhe ele, eu fui o maior amigo de seu pai. Pobre
amigo! morreu nos meus braços.
Soares, que sofria com a monotonia da vida que levava em casa do tio,
alegrou-se com a presença do galhofeiro ancião, que era um verdadeiro fogo de
artifício. Anselmo é que pareceu não simpatizar com o sobrinho do major.
Quando o major ouviu isto, disse:
- Sinto muito, porque Soares é um rapaz sério.
- Creio que é sério demais. Rapaz que não ri...
Não sei que incidente interrompeu a frase do fazendeiro.
Depois do jantar Anselmo disse ao major:
- Quantos são amanhã?
- Quinze.
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- De que mês?
- É boa! de dezembro.
- Bem; amanhã 15 de dezembro preciso ter uma conferência contigo e
teus parentes. Se o vapor se demora um dia em caminho pregava-me uma boa
peça.
No dia seguinte verificou-se a conferência pedida por Anselmo. Estavam
presentes o major, Soares, Adelaide e D. Antônia, únicos parentes do finado.
- Faz hoje dez anos que faleceu o pai desta menina, disse Anselmo
apontando para Adelaide. Como sabem, o Dr. Bento Varela foi o meu melhor
amigo, e eu tenho consciência de haver correspondido à sua afeição até aos
últimos instantes. Sabem que ele era um gênio excêntrico; toda a sua vida foi
uma grande originalidade. Ideava vinte projetos, qual mais grandioso, qual mais
impossível, sem chegar ao cabo de nenhum, porque o seu espírito criador tão
depressa compunha uma coisa como entrava a planear outra.
- É verdade, interrompeu o major.
- O Bento morreu nos meus braços, e como derradeira prova da sua
amizade confiou-me um papel com a declaração de que eu só o abrisse em
presença dos seus parentes dez anos depois de sua morte. No caso de eu morrer
os meus herdeiros assumiriam essa obrigação; em falta deles, o major, a Sra. D.
Adelaide, enfim qualquer pessoa que por laço de sangue estivesse ligada a ele.
Enfim, se ninguém houvesse na classe mencionada, ficava incumbido um
tabelião. Tudo isto havia eu declarado em testamento, que vou reformar. O papel
a que me refiro, tenho aqui no bolso.
Houve um movimento de curiosidade.
Anselmo tirou do bolso uma carta fechada com lacre preto.
- É este, disse ele. Está intacto. Não conheço o texto; mas posso mais ou
menos saber o que está dentro por circunstâncias que vou referir.
Redobrou a atenção geral.
- Antes de morrer, continuou Anselmo, o meu querido amigo entregoume


[Linha 1250 de 6063 - Parte 1 de 4]


uma parte da sua fortuna, quero dizer a maior parte, porque a menina recebeu
44
apenas trinta contos. Eu recebi dele trezentos contos, que guardei até hoje intatos,
e que devo restituir segundo as indicações desta carta.
A um movimento de espanto em todos seguiu-se um movimento de
ansiedade. Qual seria a vontade misteriosa do pai de Adelaide? D. Antônia
lembrou-se que em rapariga fora namorada do defunto, e por um momento
lisonjeou-se com a idéia de que o velho maníaco se houvesse lembrado dela às
portas da morte.
- Nisto reconheço eu o mano Bento, disse o major tomando uma pitada;
era o homem dos mistérios, das surpresas e das idéias extravagantes, seja dito
sem agravo aos seus pecados, se é que os teve...
Anselmo tinha aberto a carta. Todos prestaram ouvidos. O veterano leu o
seguinte:
«Meu bom e estimadíssimo Anselmo. - Quero que me prestes o último
favor. Tens contigo a maior parte da minha fortuna, e eu diria a melhor se tivesse
de aludir à minha querida filha Adelaide. Guarda esses trezentos contos até daqui
a dez anos, e ao terminar o prazo, lê esta carta diante dos meus parentes.
Se nessa época a minha filha Adelaide for viva e casada entrega-lhe a
fortuna. Se não estiver casada, entrega-lha também, mas com uma condição: é
que se case com o sobrinho Luiz Soares, filho de minha irmã Luiza; quero-lhe
muito, e apesar de ser rico, desejo que entre na posse da fortuna com minha filha.
No caso em que esta se recuse a esta condição, fica tu com a fortuna toda.»
Quando Anselmo acabou de ler esta carta seguiu-se um silêncio de
surpresa geral, de que partilhava o próprio veterano, alheio até então ao conteúdo
da carta.
Soares tinha os olhos em Adelaide; esta tinha-os no chão.
Como o silêncio se prolongasse, Anselmo resolveu rompê-lo.
- Ignorava, como todos, disse ele, o que esta carta contém; felizmente
chega ela a tempo de se realizar a última vontade do meu finado amigo.
- Sem dúvida nenhuma, disse o major.
Ouvindo isto, a moça levantou insensivelmente os olhos para o primo, e
45
os dela encontraram-se com os dele. Os dele transbordavam de contentamento e
ternura; a moça fitou-os durante alguns instantes. Um sorriso, já não zombeteiro,
passou pelos lábios do rapaz. A moça sorriu também; mas que sorriso! Jamais
uma rainha sorriu com tamanho desdém às zumbaias de um cortesão.
Anselmo levantou-se.
- Agora que estão cientes, disse ele aos dois primos, espero que
resolvam, e como o resultado não pode ser duvidoso, desde já os felicito.
Entretanto, hão de dar-me licença, que tenho de ir a outras partes.
Com a saída de Anselmo dispersara-se a reunião. Adelaide foi para o seu
quarto com a velha parenta. O tio e o sobrinho ficaram na sala.
- Luiz, disse o primeiro, és o homem mais feliz do mundo.
- Parece-lhe, meu tio? disse o moço procurando disfarçar a sua alegria.
- És. Tens uma moça que te ama loucamente. De repente cai-lhe nas
mãos uma fortuna inesperada; e essa fortuna só pode havê-la com a condição de
se casar contigo. Até os mortos trabalham a teu favor.
- Afirmo-lhe, meu tio, que a fortuna não pesa nada nestes casos, e se eu
assentar em casar com a prima será por outro motivo.


[Linha 1300 de 6063 - Parte 1 de 4]


- Bem sei que a riqueza não é essencial; não é. Mas enfim vale alguma
coisa. É melhor ter trezentos contos que trinta; sempre é mais uma cifra. Contudo
não te aconselho que te cases com ela se não tiveres alguma afeição. Nota que eu
não me refiro a essas paixões de que me falaste. Casar mal, apesar da riqueza, é
sempre casar mal.
- Estou convencido disto, meu tio. Por isso ainda não dei a minha
resposta, nem dou por ora. Se eu vier a afeiçoar-me à prima estou pronto a entrar
na posse dessa inesperada riqueza.
Como o leitor terá adivinhado, a resolução do casamento estava
assentada no espírito de Soares. Em vez de esperar a morte do tio, parecia-lhe
melhor entrar desde logo na posse de um excelente pecúlio, o que se lhe
afigurava tanto mais fácil, quanto que era a voz do túmulo que o impunha.
Soares contava também com a profunda veneração de Adelaide por seu
46
pai. Isto, ligado ao amor que a rapariga sentia por ele, devia produzir o desejado
efeito.
Nessa noite o rapaz dormiu pouco. Sonhou com o Oriente. Pintou-lhe a
imaginação um harém rescendente das melhores essências da Arábia, forrado o
chão com tapetes da Pérsia; sobre moles divãs ostentavam-se as mais perfeitas
belezas do mundo. Uma circassiana dançava no meio do salão ao som de um
pandeiro de marfim. Mas um furioso eunuco, precipitando-se na sala com o
iatagã desembainhado, enterrou-o todo no peito de Soares, que acordou com o
pesadelo, e não pôde mais conciliar o sono.
Levantou-se mais cedo e foi passear até chegar a hora do almoço e da
repartição.
V
O plano de Luís Soares estava feito.
Tratava-se de abater as armas pouco a pouco, simulando-se vencido
diante da influência de Adelaide. A circunstância da riqueza tornava necessária
toda a discrição. A transição devia ser lenta. Cumpria ser diplomata.
Os leitores terão visto que, apesar de certa argúcia da parte de Soares,
não tinha ele a perfeita compreensão das coisas, e por outro lado o seu caráter era
indeciso e vário.
Hesitara em casar com Adelaide quando o tio lhe falou nisso, quando era
certo que viria a obter mais tarde a fortuna do major. Dizia então que não tinha
vocação de papagaio. A situação agora era a mesma; aceitava uma fortuna
mediante uma prisão. É verdade que se esta resolução era contrária à primeira,
podia ter como causa o cansaço que lhe ia produzindo a vida que levava. Além
de que, desta vez, a riqueza não se fazia esperar: era entregue logo depois do
consórcio.
- Trezentos contos, pensava o rapaz, é quanto basta para eu ser mais do
que fui. O que não hão de dizer os outros!
47
Antevendo uma felicidade que era certa para ele, Soares começou o
assédio da praça, aliás praça rendida.
Já o rapaz procurava os olhos da prima, já os encontrava, já lhes pedia
aquilo que recusara até então, o amor da moça. Quando, à mesa, as suas mãos se
encontravam, Soares tinha o cuidado de demorar o contato, e se a moça retirava a
sua mão, o rapaz nem por isso desanimava. Quando se encontrava a sós com ela,
não fugia como outrora, antes lhe dirigia alguma palavra, a que Adelaide


[Linha 1350 de 6063 - Parte 1 de 4]


respondia com fria polidez.
- Quer vender o peixe caro, pensava Soares.
Uma vez atreveu-se a mais. Adelaide tocava piano quando ele entrou
sem que ela o visse. Quando a moça acabou, Soares estava por trás dela.
- Que lindo! disse o rapaz; deixe-me beijar-lhe essas mãos inspiradas.
A moça olhou séria para ele, pegou no lenço que pusera sobre o piano, e
saiu sem dizer palavra.
Esta cena mostrou a Soares toda a dificuldade da empresa; mas o rapaz
confiava em si, não porque se reconhecesse capaz de grandes energias, mas por
uma espécie de esperança na sua boa estrela.
- É difícil subir a corrente, disse ele, mas sobe-se. Não se fazem
Alexandres na conquista de praças desarmadas.
Contudo as desilusões iam-se sucedendo, e o rapaz, se o não alentasse a
idéia da riqueza, teria abatido as armas.
Um dia lembrou-se de escrever-lhe uma carta. Lembrou-se de que era
difícil expor-lhe de viva voz tudo quanto sentia; mas que uma carta, por muito
ódio que ela lhe tivesse, sempre seria lida.
Adelaide devolveu a carta pelo moleque da casa que lha havia entregue.
A segunda carta teve a mesma sorte. Quando mandou a terceira, o
moleque não a quis receber.
Luiz Soares teve um instante de desengano. Indiferente à moça, já
começava a odiá-la; se casasse com ela era provável que a tratasse como inimigo
mortal.
48
A situação tornava-se ridícula para ele; ou antes, já o era há muito, mas
Soares só então o compreendeu. Para escapar ao ridículo, resolveu dar um golpe
final, mas grande. Aproveitou a primeira ocasião que pôde, e fez uma declaração
positiva à moça, cheia de súplicas, de suspiros, talvez de lágrimas. Confessou os
seu erros; reconheceu que não a havia compreendido; mas arrependera-se e
confessava tudo. A influência dela acabara por abatê-lo.
- Abatê-lo! disse ela; não compreendo. A que influência alude?
- Bem sabe; à influência da sua beleza, do seu amor... Não suponha que
lhe estou mentindo. Sinto-me hoje tão apaixonado que era capaz de cometer um
crime!
- Um crime?
- Não é crime o suicídio? De que me serviria a vida sem o seu amor?
Vamos, fale!
A moça olhou para ele durante alguns instantes sem dizer palavra.
O rapaz ajoelhou-se.
- Ou seja a morte, ou seja a felicidade, disse ele, quero recebê-la de
joelhos.
Adelaide sorriu e soltou lentamente estas palavras:
- Trezentos contos! É muito dinheiro para comprar um miserável.
E deu-lhe as costas.
Soares ficou petrificado. Durante alguns minutos conservou-se na mesma
posição, com os olhos fitos na moça que se afastava lentamente. O rapaz
dobrava-se ao peso da humilhação. Não previra tão cruel desforra da parte de
Adelaide. Nem uma palavra de ódio, nem um indício de raiva; apenas um calmo
desdém, um desprezo tranqüilo e soberano. Soares sofrera muito quando perdeu a
fortuna; mas agora que o seu orgulho foi humilhado, a sua dor foi infinitamente


[Linha 1400 de 6063 - Parte 1 de 4]


maior.
Pobre rapaz!
A moça foi para dentro. Parece que contava com aquela cena; porque
entrando em casa, foi logo procurar o tio, e declarou-lhe que, apesar de quanto
49
venerava a memória do pai, não podia obedecer-lhe, e desistia do casamento.
- Mas não o amas tu? perguntou-lhe o major.
- Amei-o.
- Amas a outro?
- Não.
- Então explica-te.
Adelaide expôs francamente o procedimento de Soares desde que ali
entrara, a mudança que fizera, a sua ambição, a cena do jardim. O major ouviu
atentamente a moça, procurou desculpar o sobrinho, mas no fundo ele acreditava
que Soares era um mau-caráter.
Este, depois que pôde refrear a sua cólera, entrou em casa e foi despedirse
do tio até o dia seguinte.
Pretextou que tinha um negócio urgente.
VI
Adelaide contou miudamente ao amigo de seu pai os sucessos que a
obrigavam a não preencher a condição da carta póstuma confiada a Anselmo. Em
conseqüência desta recusa, a fortuna devia ficar com Anselmo; a moça
contentava-se com o que tinha.
Não se deu Anselmo por vencido, e antes de aceitar a recusa foi ver se
sondava o espírito de Luiz Soares.
Quando o sobrinho do major viu entrar por casa o fazendeiro suspeitou
que alguma coisa houvesse a respeito do casamento. Anselmo era perspicaz; de
modo que, apesar da aparência de vítima com que Soares lhe aparecera,
compreendeu ele que Adelaide tinha razão.
Assim pois, tudo estava acabado. Anselmo dispôs-se a partir para a
Bahia, e assim o declarou à família do major.
Nas vésperas de partir achavam-se todos juntos na sala de visitas, quando
Anselmo soltou estas palavras:
50
- Major, está ficando melhor e forte; eu creio que uma viagem à Europa
lhe fará bem. Esta moça também gostará de ver a Europa, e creio que a Sra. D.
Antônia, apesar da idade, lá quererá ir. Pela minha parte sacrifico a Bahia e vou
também. Aprovam o conselho?
- Homem, disse o major, é preciso pensar...
- Qual pensar! Se pensarem não embarcarão. Que diz a menina?
- Eu obedeço ao tio, respondeu Adelaide.
- Além de que, disse Anselmo, agora que D. Adelaide está de posse de
uma grande fortuna, há de querer apreciar o que há de bonito nos países
estrangeiros a fim de poder melhor avaliar o que há no nosso...
- Sim, disse o major; mas você fala de grande fortuna...
- Trezentos contos.
- São seus.
- Meus! Então sou algum ratoneiro? Que me importa a mim a fantasia de
um generoso amigo? O dinheiro é desta menina, sua legítima herdeira, e não
meu, que aliás tenho bastante.


[Linha 1450 de 6063 - Parte 1 de 4]


- Isso é bonito, Anselmo!
- Mas o que não seria se não fosse isto?
A viagem à Europa ficou assentada.
Luiz Soares ouviu a conversa toda sem dizer palavra; mas a idéia de que
talvez pudesse ir com o tio sorriu-lhe ao espírito. No dia seguinte teve um
desengano cruel. Disse-lhe o major que, antes de partir, o deixaria recomendado
ao ministro.
Soares procurou ainda ver se alcançava seguir com a família. Era simples
cobiça na fortuna do tio, desejo de ver novas terras, ou impulso de vingança
contra a prima? Era tudo isso, talvez.
À última hora foi-se a derradeira esperança. A família partiu sem ele.
Abandonado, pobre, tendo por única perspectiva o trabalho diário, sem
esperanças no futuro, e além do mais, humilhado e ferido em seu amor-próprio,
Soares tomou a triste resolução dos covardes.
51
Um dia, de noite, o criado ouviu no quarto dele um tiro; correu, achou
um cadáver.
Pires soube na rua da notícia, e correu à casa de Vitória, que encontrou
no toucador.
- Sabes de uma coisa? perguntou ele.
- Não. Que é?
- O Soares matou-se.
- Quando?
- Neste momento.
- Coitado! É sério?
- É sério. Vais sair?
- Vou ao Alcazar.
- Canta-se hoje Barbe-Bleue, não é?
- É.
- Pois eu também vou.
E entrou a cantarolar a canção de Barbe-Bleue.
Luiz Soares não teve outra oração fúnebre dos seus amigos mais íntimos.
52


**************************************************************************************************************
A MULHER DE PRETO
I
A primeira vez que o Dr. Estêvão Soares falou ao deputado Menezes foi
no teatro Lírico no tempo da memorável luta entre lagruístas e chartonistas. Um
amigo comum os apresentou ao outro. No fim da noite separaram-se oferecendo
cada um deles os serviços e trocando os respectivos cartões de visita.
Só dois meses depois encontraram-se outra vez.
Estêvão Soares teve de ir à casa de um ministro de Estado para saber de
uns papéis relativos a um parente da província, e aí encontrou o deputado
53
Menezes, que acabava de ter uma conferência política.
Houve sincero prazer em ambos encontrando-se pela segunda vez; e
Meneses arrancou de Estêvão a promessa de que iria à casa dele daí a poucos
dias.


[Linha 1500 de 6063 - Parte 1 de 4]


O ministro depressa despachou o jovem médico.
Chegando ao corredor, Estêvão foi surpreendido com uma tremenda
bátega d'água, que nesse momento caía, e começava a alagar a rua.
O rapaz olhou a um e outro lado a ver se passava algum veículo vazio,
mas procurou inutilmente; todos que passavam iam ocupados.
Apenas à porta estava um coupé vazio à espera de alguém, que o rapaz
supôs ser o deputado.
Daí a alguns minutos desce com efeito o representante da nação, e
admirou-se de ver o médico ainda à porta.
- Que quer? disse-lhe Estêvão; a chuva impediu-me de sair; aqui fiquei a
ver se passa um tílburi.
- É natural que não passe, e nesse caso ofereço-lhe um lugar no meu
coupé. Venha.
- Perdão; mas é um incômodo...
- Ora, incômodo! é um prazer. Vou deixá-lo em casa. Onde mora?
- Rua da Misericórdia nº ...
- Bem, suba.



Machado de Assis - Escritor



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