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segunda-feira, 19 de junho de 2017

Contos Fluminenses - Parte 4 de 4 - Machado de Assis


Contos Fluminenses - Parte 4 de 4 - Machado de Assis


Machado de Assis - CONTOS FLUMINENSES

(PARTE FINAL DO LIVRO NO TEXTO ABAIXO)



- Merecia castigo...
- Merecia. Queres tu castigá-lo?
Emília fez um gesto de desdém e disse:
- Não vale a pena.
- Mas tu castigaste o outro.
- Sim... mas não vale a pena.
- Dissimulada!
- Por que dizes isso?
- Porque já te vejo meio tentada a uma nova vingança...
- Eu? Ora qual!
- Que tem? Não é crime...
- Não é, decerto; mas... veremos.
- Ah! serás capaz?
- Capaz? disse Emília com um gesto de orgulho ofendido.
- Beijar-te-á ele a ponta do sapato?
Emília ficou silenciosa por alguns momentos; depois apontando com o
leque para a botina que lhe calçava o pé, disse:
- E hão de ser estes.
Emília e Adelaide se dirigiram para o lado em que se achavam os
homens. Tito, que parecia conversar intimamente com Azevedo, interrompeu a
conversa para dar atenção às senhoras. Diogo continuava mergulhado na sua
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meditação.
- Então o que é isso, Sr. Diogo? perguntou Tito. Está meditando?
- Ah! perdão, estava distraído!
- Coitado! disse Tito baixo a Azevedo.
Depois, voltando-se para as senhoras:
- Não as incomoda o charuto?
- Não senhor, disse Emília.
- Então, posso continuar a fumar?
- Pode, disse Adelaide.
- É um mau vício, mas é o meu único vício. Quando fumo parece que
aspiro a eternidade. Enlevo-me todo e mudo de ser. Divina invenção!
- Dizem que é excelente para os desgostos amorosos, disse Emília com
intenção.
- Isso não sei. Mas não é só isto. Depois da invenção do fumo não há
solidão possível. É a melhor companhia deste mundo. Demais, o charuto é um
verdadeiro Memento homo: convertendo-se pouco a pouco em cinzas, vai
lembrando ao homem o fim real e infalível de todas as coisas: é o aviso
filosófico, é a sentença fúnebre que nos acompanha em toda a parte. Já é um
grande progresso... Mas estou eu a aborrecer com uma dissertação tão pesada.
Hão de desculpar... que foi descuido. Ora, a falar a verdade, eu já vou
desconfiando; Vossa Excelência olha com olhos tão singulares...
Emília, a quem era dirigida a palavra, respondeu:
- Não sei se são singulares, mas são os meus.
- Penso que não são os do costume. Está talvez Vossa Excelência a dizer
consigo que eu sou um esquisito, um singular, um...
- Um vaidoso, é verdade.
- Sétimo mandamento: não levantar falsos testemunhos.
- Falsos, diz o mandamento.


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- Não me dirá em que sou eu vaidoso?
- Ah! a isso não respondo eu.
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- Por que não quer?
- Porque... não sei. É uma coisa que se sente, mas que se não pode
descobrir. Respira-lhe a vaidade em tudo: no olhar, na palavra, no gesto... mas
não se atina com a verdadeira origem de tal doença.
- É pena. Eu tinha grande prazer em ouvir da sua boca o diagnóstico da
minha doença. Em compensação pode ouvir da minha o diagnóstico da sua... A
sua doença é... Digo?
- Pode dizer.
- É um despeitozinho.
- Deveras?
- Vamos ver isso, disse Azevedo rindo-se.
Tito continuou:
- Despeito pelo que eu disse há pouco.
- Puro engano! disse Emília rindo-se.
- É com toda a certeza. Mas é tudo gratuito. Eu não tenho culpa de coisa
alguma. A natureza é que me fez assim.
- Só a natureza?
- E um tanto de estudo. Ora vou expor-lhe as minhas razões. Veja se
posso amar ou pretender: primeiro, não sou bonito...
- Oh!... disse Emília.
- Agradeço o protesto, mas continuo na mesma opinião: não sou bonito,
não sou...
- Oh!... disse Adelaide.
- Segundo: não sou curioso, e o amor, se o reduzirmos às suas
verdadeiras proporções, não passa de uma curiosidade; terceiro: não sou
paciente, e nas conquistas amorosas a paciência é a principal virtude; quarto,
finalmente: não sou idiota, porque, se com todos estes defeitos pretendesse amar,
mostraria a maior falta de razão. Aqui está o que eu sou por natural e por
indústria.
- Emília, parece que é sincero.
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- Acreditas?
- Sincero como a verdade, disse Tito.
- Em último caso, seja ou não seja sincero, que tenho eu com isso?
- Eu creio que nada, disse Tito.
II
No dia seguinte àquele em que se passaram as cenas descritas no capítulo
anterior, entendeu o céu que devia regar com as suas lágrimas o solo da formosa
Petrópolis.
Tito, que destinava esse dia a ver toda a cidade, foi obrigado a conservarse
em casa. Era um amigo que não incomodava, porque quando era de mais sabia
escapar-se discretamente, e quando o não era, tornava-se o mais delicioso dos
companheiros.
Tito sabia juntar muita jovialidade a muita delicadeza; sabia fazer rir sem
saltar fora das conveniências. Acrescia que, voltando de uma longa e pitoresca
viagem, trazia as algibeiras da memória (deixem passar a frase) cheias de vivas
reminiscências. Tinha feito uma viagem de poeta e não de peralvilho. Soube ver


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e sabia contar. Estas duas qualidades, indispensáveis ao viajante, por desgraça
são as mais raras. A maioria das pessoas que viajam nem sabem ver, nem sabem
contar.
Tito tinha andado por todas as repúblicas do mar Pacífico, tinha vivido
no México e em alguns estados americanos. Tinha depois ido à Europa no
paquete da linha de New York. Viu Londres e Paris. Foi à Espanha, onde viveu a
vida de Almaviva, dando serenatas às janelas das Rosinas de hoje. Trouxe de lá
alguns leques e mantilhas. Passou à Itália e levantou o espírito à altura das
recordações da arte clássica. Viu a sombra de Dante nas ruas de Florença; viu as
almas dos doges pairando saudosas sobre as águas viúvas do mar Adriático; a
terra de Rafael, de Virgílio e Miguel Ângelo foi para ele uma fonte viva de
recordações do passado e de impressões para o futuro. Foi à Grécia, onde soube
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evocar o espírito das gerações extintas que deram ao gênio da arte e da poesia um
fulgor que atravessou as sombras dos séculos.
Viajou ainda mais o nosso herói, e tudo viu com olhos de quem sabe ver
e tudo contava com alma de quem sabe contar. Azevedo e Adelaide passavam
horas esquecidas.
- Do amor, dizia ele, eu só sei que é uma palavra de quatro letras, um
tanto eufônica, é verdade, mas núncia de lutas e desgraças. Os bons amores são
cheios de felicidade, porque têm a virtude de não alçarem olhos para as estrelas
do céu; contentam-se com ceias à meia-noite e alguns passeios a cavalo ou por
mar.
Esta era a linguagem constante de Tito. Exprimia ela a verdade, ou era
uma linguagem de convenção? Todos acreditavam que a verdade estava na
primeira hipótese, até porque essa era de acordo com o espírito jovial e folgazão
de Tito.
No primeiro dia da residência de Tito em Petrópolis, a chuva, como disse
acima, impediu que os diversos personagens desta história se encontrassem. Cada
qual ficou na sua casa. Mas o dia imediato foi mais benigno; Tito aproveitou o
bom tempo para ir ver a risonha cidade da serra. Azevedo e Adelaide quiseram
acompanhá-lo; mandaram aparelhar três ginetes próprios para o ligeiro passeio.
Na volta foram visitar Emília. Durou poucos minutos a visita. A bela
viúva recebeu-os com graça e cortesia de princesa. Era a primeira vez que Tito lá
ia; e fosse por isso, ou por outra circunstância, foi ele quem mereceu as
principais atenções da dona da casa.
Diogo, que então fazia a sua centésima declaração de amor a Emília, e a
quem Emília acabava de oferecer uma chávena de chá, não viu com bons olhos a
demasiada atenção que o viajante merecia da dama dos seus pensamentos. Essa,
e talvez outras circunstâncias, faziam com que o velho Adônis assistisse à
conversação com a cara fechada.
À despedida Emília ofereceu a casa a Tito, com a declaração de que teria
a mesma satisfação em recebê-lo muitas vezes. Tito aceitou cavalheiramente o
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oferecimento; feito o que, saíram todos.
Cinco dias depois desta visita Emília foi à casa de Adelaide. Tito não
estava presente; andava a passeio. Azevedo tinha saído para um negócio, mas
voltou daí a alguns minutos. Quando, depois de uma hora de conversa, Emília já
de pé preparava-se para voltar à casa, entrou Tito.
- Ia sair quando entrou, disse Emília. Parece que nos contrariamos em


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tudo.
- Não é por minha vontade, respondeu Tito; pelo contrário, meu desejo é
não contrariar pessoa alguma, e portanto não contrariar Vossa Excelência.
- Não parece.
- Por quê?
Emília sorriu e disse com uma inflexão de censura:
- Sabe que me daria prazer se se utilizasse do oferecimento de minha
casa; ainda se não utilizou. Foi esquecimento?
- Foi.
- É muito amável...
- Sou muito franco. Eu sei que Vossa Excelência preferia uma delicada
mentira; mas eu não conheço nada mais delicado que a verdade.
Emília sorriu.
Nesse momento entrou Diogo.
- Ia sair, D. Emília? perguntou ele.
- Esperava o seu braço.
- Aqui o tem.
Emília despediu-se de Azevedo e de Adelaide. Quanto a Tito, no
momento em que ele se curvava respeitosamente, Emília disse-lhe com a maior
placidez da alma:
- Há alguém tão delicado como a verdade: é o Sr. Diogo. Espero dizer o
mesmo...
- De mim? interrompeu Tito. Amanhã mesmo.
Emília saiu pelo braço de Diogo.
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No dia seguinte, com efeito, Tito foi à casa de Emília. Ela o esperava
com certa impaciência. Como não soubesse a hora em que ele devia apresentar-se
lá, a bela viúva esperou-o a todos os momentos, desde manhã. Só ao cair da tarde
é que Tito dignou-se aparecer.
Emília morava com uma tia velha. Era uma boa senhora, amiga da
sobrinha, e inteiramente escrava da sua vontade. Isto quer dizer que não havia em
Emília o menor receio que a boa tia não assinasse de antemão.
Na sala em que Tito foi recebido não estava ninguém. Ele teve portanto
tempo de sobra para examiná-la à vontade. Era uma sala pequena, mas mobiliada
e adornada com gosto. Móveis leves, elegantes e ricos; quatro finíssimas
estatuetas, copiadas de Pradier, um piano de Erard, tudo disposto e arranjado com
vida.
Tito gastou o primeiro quarto de hora no exame da sala e dos objetos que
a enchiam. Esse exame devia influir muito no estudo que ele quisesse fazer do
espírito da moça. Dize-me como moras, dir-te-ei quem és.
Mas o primeiro quarto de hora correu sem que aparecesse vivalma, nem
que se ouvisse rumor de natureza alguma. Tito começou a impacientar-se. Já
sabemos que espírito brusco era ele, apesar da suprema delicadeza que todos lhe
reconheciam. Parece, porém, que a sua rudeza, quase sempre exercida contra
Emília, era antes estudada que natural. O que é certo é que no fim de meia hora,
aborrecido pela demora, Tito murmurou consigo:
- Quer tomar desforra!
E tomando o chapéu que havia posto numa cadeira ia dirigindo-se para a
porta quando ouviu um farfalhar de sedas. Voltou a cabeça; Emília entrava.
- Fugia?


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- É verdade.
- Perdoe a demora.
- Não há que perdoar; não podia vir, era natural que fosse por algum
motivo sério. Quanto a mim não tenho igualmente de que pedir perdão. Esperei,
estava cansado, voltaria em outra ocasião. Tudo isto é natural.
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Emília ofereceu uma cadeira a Tito e sentou-se num sofá.
- Realmente, disse ela acomodando o balão, o Sr. Tito é um homem
original.
- É a minha glória. Não imagina como eu aborreço as cópias. Fazer o que
muita gente faz, que mérito há nisso? Não nasci para esses trabalhos de imitação.
- Já uma coisa fez como muita gente.
- Qual foi?
- Prometeu-me ontem esta visita e veio cumprir a promessa.
- Ah! minha senhora, não lance isto à conta das minhas virtudes. Podia
não vir; vim, não foi vontade, foi... acaso.
- Em todo caso, agradeço-lhe.
- É o meio de me fechar a sua porta.
- Por quê?
- Porque eu não me dou com esses agradecimentos; nem creio mesmo
que eles possam acrescentar nada à minha admiração pela pessoa de Vossa
Excelência. Fui visitar muitas vezes as estátuas dos museus da Europa, mas se
elas se lembrassem de me agradecer um dia, dou-lhe a minha palavra que não
voltava lá.
A estas palavras seguiu-se um silêncio de alguns segundos.
Emília foi quem falou primeiro.
- Há muito tempo que se dá com o marido de Adelaide?
- Desde criança, respondeu Tito.
- Ah! foi criança?
- Ainda hoje sou.
- É exatamente o tempo das minhas relações com Adelaide. Nunca me
arrependi.
- Nem eu.
- Houve um tempo, prosseguiu Emília, em que estivemos separadas; mas
isso não trouxe mudança alguma às nossas relações. Foi no tempo do meu
primeiro casamento.
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- Ah! foi casada duas vezes?
- Em dois anos.
- E por que enviuvou da primeira?
- Porque meu marido morreu, disse Emília rindo-se.
- Mas eu pergunto outra coisa. Por que se fez viúva, mesmo depois da
morte de seu primeiro marido? Creio que poderia continuar casada.
- De que modo? perguntou Emília com espanto.
- Ficando mulher do finado. Se o amor acaba na sepultura acho que não
vale a pena procurá-lo neste mundo.
- Realmente o Sr. Tito é um espírito fora do comum.
- Um tanto.
- É preciso que o seja para desconhecer que a nossa vida não importa
essas exigências da eterna fidelidade. E demais, pode-se conservar a lembrança


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dos que morrem sem renunciar às condições da nossa existência. Agora é que eu
lhe pergunto por que me olha com olhos tão singulares?...
- Não sei se são singulares, mas são os meus.
- Então, acha que eu cometi uma bigamia?
- Eu não acho nada. Ora, deixe-me dizer-lhe a última razão da minha
incapacidade para os amores.
- Sou toda ouvidos.
- Eu não creio na fidelidade.
- Em absoluto?
- Em absoluto.
- Muito obrigada.
- Ah! eu sei que isto não é delicado; mas em primeiro lugar, eu tenho a
coragem das minhas opiniões, e em segundo foi Vossa Excelência quem me
provocou. É infelizmente verdade, eu não creio nos amores leais e eternos. Quero
fazê-la minha confidente. Houve um dia em que eu tentei amar; concentrei todas
as forças vivas do meu coração; dispus-me a reunir o meu orgulho e a minha
ilusão na cabeça do objeto amado. Que lição mestra! O objeto amado, depois de
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me alimentar as esperanças, casou-se com outro que não era nem mais bonito,
nem mais amante.
- Que prova isso? perguntou a viúva.
- Prova que me aconteceu o que pode acontecer e acontece diariamente
aos outros.
- Ora...
- Há de me perdoar, mas eu creio que é uma coisa já metida na massa do
sangue.
- Não diga isso. É certo que podem acontecer casos desses; mas serão
todos assim? Não admite uma exceção? Aprofunde mais os corações alheios se
quiser encontrar a verdade... e há de encontrar.
- Qual! disse Tito abaixando a cabeça e batendo com a bengala na ponta
do pé.
- Posso afirmá-lo, disse Emília.
- Duvido.
- Tenho pena de uma criatura assim, continuou a viúva. Não conhecer o
amor é não conhecer a vida! Há nada igual à união de duas almas que se adoram?
Desde que o amor entra no coração, tudo se transforma, tudo muda, a noite
parece dia, a dor assemelha-se ao prazer... Se não conhece nada disto, pode
morrer, porque é o mais infeliz dos homens.
- Tenho lido isso nos livros, mas ainda não me convenci...
- Já reparou na minha sala?
- Já vi alguma coisa.
- Reparou naquela gravura?
Tito olhou para a gravura que a viúva lhe indicava.
- Se me não engano, disse ele, aquilo é o Amor domando as feras.
- Veja e convença-se.
- Com a opinião do desenhista? perguntou Tito. Não é possível. Tenho
visto gravuras vivas. Tenho servido de alvo a muitas setas; crivam-me todo, mas
eu tenho a fortaleza de São Sebastião; afronto, não me curvo.
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- Que orgulho!


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- O que pode fazer dobrar uma altivez destas? A beleza? Nem Cleópatra.
A castidade? Nem Susana. Resuma, se quiser, todas as qualidades em uma só
criatura, e eu não mudarei... É isto e nada mais.
Emília levantou-se e dirigiu-se para o piano.
- Não aborrece a música? perguntou ela abrindo o piano.
- Adoro-a, respondeu o moço sem se mover; agora quanto aos
executantes só gosto dos bons. Os maus dão-me ímpetos de enforcá-los.
Emília executou ao piano os prelúdios de uma sinfonia. Tito ouvia-a com
a mais profunda atenção. Realmente a bela viúva tocava divinamente.
- Então, disse ela levantando-se, devo ser enforcada?
- Deve ser coroada. Toca perfeitamente.
- Outro ponto em que não é original. Toda a gente me diz isso.
- Ah! eu também não nego a luz do sol.
Neste momento entrou na sala a tia de Emília. Esta apresentou-lhe Tito.
A conversa tomou então um tom pessoal e reservado; durou pouco, aliás, porque
Tito, travando repentinamente do chapéu, declarou que tinha que fazer.
- Até quando?
- Até sempre.
Despediu-se e saiu.
Emília ainda o acompanhou com os olhos por algum tempo, da janela da
casa. Mas Tito, como se o caso não fosse com ele, seguiu sem olhar para trás.
Mas, exatamente no momento em que Emília voltava para dentro, Tito
encontrava o velho Diogo.
Diogo ia na direção da casa da viúva. Tinha um ar pensativo. Tão
distraído ia que chegou quase a esbarrar com Tito.
- Onde vai tão distraído? perguntou Tito.
- Ah! é o senhor? Vem da casa de D. Emília?
- Venho.
- Eu para lá vou. Coitada! há de estar muito impaciente com a minha
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demora...
- Não está, não senhor, respondeu Tito com o maior sangue-frio.
Diogo lançou-lhe um olhar de despeito.
A isso seguiu-se um silêncio de alguns minutos, durante o qual Diogo
brincava com a corrente do relógio, e Tito lançava ao ar novelos de fumaça de
um primoroso havana. Um desses novelos foi desenrolar-se na cara de Diogo. O
velho tossiu e disse a Tito:
- Apre lá, Sr. Tito! É demais!
- O quê, meu caro senhor? perguntou o rapaz.
- Até a fumaça!
- Foi sem reparar. Mas eu não compreendo as suas palavras...
- Eu me faço explicar, disse o velho tomando um ar risonho. Dê-me o
seu braço...
- Pois não!
E os dois seguiram conversando como dois amigos velhos.
- Estou pronto a ouvir a sua explicação.
- Lá vai. Sabe o que eu quero? É que seja franco. Não ignora que eu
suspiro aos pés da viúva. Peço-lhe que não discuta o fato, admita-o
simplesmente. Até aqui tudo ia caminhando bem, quando o senhor chegou a
Petrópolis.


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- Mas...
- Ouça-me silenciosamente. Chegou o senhor a Petrópolis, e sem que eu
lhe tivesse feito mal algum, entendeu de si para si que me havia de tirar do lance.
Desde então começou a corte...
- Meu caro Sr. Diogo, tudo isso é uma fantasia. Eu não faço a corte a D.
Emília, nem pretendo fazer-lha. Vê-me acaso freqüentar a casa dela?
- Acaba de sair de lá.
- É a primeira vez que a visito.
- Quem sabe?
- Demais, ainda ontem não ouviu em casa de Azevedo as expressões com
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que ela se despediu de mim? Não são de mulher que...
- Ah! isso não prova nada. As mulheres, e sobretudo aquela, nem sempre
dizem o que sentem...
- Então acha que aquela sente alguma coisa por mim?...
- Se não fosse isso, não lhe falaria.
- Ah! ora eis aí uma novidade.
- Suspeito apenas. Ela só me fala do senhor; indaga-me vinte vezes por
dia de sua pessoa, dos seus hábitos, do seu passado e das suas opiniões... Eu,
como há de acreditar, respondo a tudo que não sei, mas vou criando um ódio ao
senhor, do qual não me poderá jamais criminar.
- É culpa minha se ela gosta de mim? Ora, vá descansado, Sr. Diogo.
Nem ela gosta de mim, nem eu gosto dela. Trabalhe desassombradamente e seja
feliz.
- Feliz! se eu pudesse ser! Mas não... não creio; a felicidade não se fez
para mim. Olhe, Sr. Tito, amo aquela mulher como se pode amar a vida. Um
olhar dela vale mais para mim que um ano de glórias e de felicidade. É por ela
que eu tenho deixado os meus negócios à toa. Não viu outro dia que uma carta
me chegou às mãos, cuja leitura me fez entristecer? Perdi uma causa. Tudo por
quê? Por ela!
- Mas ela não lhe dá esperanças?
- Eu sei o que é aquela moça! Ora trata-me de modo que eu vou ao
sétimo céu; ora é tal a sua indiferença que me atira ao inferno. Hoje um sorriso,
amanhã um gesto de desdém. Ralha-me de não visitá-la; vou visitá-la, ocupa-se
tanto de mim como de Ganimedes; Ganimedes é o nome de um cãozinho felpudo
que eu lhe dei. Importa-se tanto comigo como com o cachorro... É de propósito.
É um enigma aquela moça.
- Pois não serei eu quem o decifre, Sr. Diogo. Desejo-lhe muita
felicidade. Adeus.
E os dois separaram-se. Diogo seguiu para a casa de Emília, Tito para a
casa de Azevedo.
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Tito acabava de saber que a viúva pensava nele; todavia, isso não lhe
dera o menor abalo. Por quê? É o que saberemos mais adiante. O que é preciso
dizer desde já, é que as mesmas suspeitas despertadas no espírito de Diogo, tivera
a mulher de Azevedo. A intimidade de Emília dava lugar a uma franca
interrogação e a uma confissão franca. Adelaide, no dia seguinte àquele em que
se passou a cena que referi acima, disse a Emília o que pensava.
A resposta da viúva foi uma risada.
- Não te compreendo, disse a mulher de Azevedo.


[Linha 4950 de 6063 - Parte 4 de 4]


- É simples, disse a viúva. Julgas-me capaz de apaixonar-me pelo amigo
de teu marido? Enganas-te. Não, eu não o amo. Somente, como te disse no dia
em que o vi aqui pela primeira vez, empenho-me em tê-lo a meus pés. Se bem
me recordo foste tu mesma quem me deu o conselho. Aceitei-o. Hei de vingar o
nosso sexo. É um pouco de vaidade minha, embora; mas eu creio que aquilo que
nenhuma fez, fá-lo-ei eu.
- Ah! cruelzinha! É isso?
- Nem mais, nem menos.
- Achas possível?
- Por que não?
- Reflete que a derrota será dupla...
- Será, mas não há de haver.
Esta conversa foi interrompida por Azevedo. Um sinal de Emília fez
calar Adelaide. Ficou convencionado que nem mesmo Azevedo saberia de coisa
alguma. E, com efeito, Adelaide nada comunicou a seu marido.
III
Tinham-se passado oito dias depois do que acabo de narrar.
Tito, como o temos visto até aqui, estava no terreno do primeiro dia.
Passeava, lia, conversava e parecia inteiramente alheio aos planos que se
tramavam em roda dele. Durante esse tempo foi apenas duas vezes à casa de
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Emília, uma com a família de Azevedo, outra com Diogo. Nestas visitas era
sempre o mesmo, frio, indiferente, impassível. Não havia olhar, por mais sedutor
e significativo, que o abalasse; nem a idéia de que andava no pensamento da
viúva era capaz de animá-lo.
- Por que, ao menos, se não é capaz de amar, não procura entreter um
desses namoros de sala, que tanto lisonjeiam a vaidade dos homens?
Esta pergunta era feita por Emília a si mesma, sob a impressão da
estranheza que lhe causava a indiferença do rapaz. Ela não compreendia que Tito
pudesse conservar-se de gelo diante dos seus encantos. Mas infelizmente era
assim.
Cansada de trabalhar em vão, a viúva determinou dar um golpe mais
decisivo. Encaminhou a conversa para as doçuras do casamento e lamentou o
estado de sua viuvez. O casal Azevedo era para ela o tipo da perfeita felicidade
conjugal. Apresentava-o aos olhos de Tito como um incentivo para quem queria
ser venturoso na terra. Nada, nem a tese, nem a hipótese, nada moveu a frieza de
Tito.
Emília jogava um jogo perigoso. Era preciso decidir entre os seus
desejos de vingar o sexo e as conveniências da sua posição; mas ela era de um
caráter imperioso; respeitava muito os princípios de sua moral severa, mas não
acatava do mesmo modo as conveniências de que a sociedade cercava essa
moral. A vaidade impunha-se no espírito dela, com força prodigiosa. Assim que a
bela viúva foi usando todos os meios que era lícito empregar para fazer apaixonar
Tito.
Mas, apaixonado ele, o que faria ela? A pergunta é ociosa; desde que ela
o tivesse aos pés, trataria de conservá-lo aí fazendo parelha ao velho Diogo. Era
o melhor troféu que uma beleza altiva pode ambicionar.
Uma manhã, oito dias depois das cenas referidas no capítulo anterior,
apareceu Diogo em casa de Azevedo. Tinham aí acabado de almoçar; Azevedo
subira para o gabinete, a fim de aviar alguma correspondência para a corte;


[Linha 5000 de 6063 - Parte 4 de 4]


Adelaide achava-se na sala do pavimento térreo.
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Diogo entrou com uma cara contristada, como nunca se lhe vira.
Adelaide correu para ele.
- Que é isso? perguntou ela.
- Ah! minha senhora... sou o mais infeliz dos homens!
- Por quê? Venha sentar-se...
Diogo sentou-se, ou antes deixou-se cair na cadeira que Adelaide lhe
ofereceu. Esta tomou lugar ao pé dele, animou-o a contar as suas mágoas.
- Então que há?
- Duas desgraças, respondeu ele. A primeira em forma de sentença. Perdi
mais uma demanda. É uma desgraça isto, mas não é nada...
- Pois há maior?...
- Há. A segunda desgraça foi em forma de carta.
- De carta? perguntou Adelaide.
- De carta. Veja isto.
Diogo tirou da carteira uma cartinha cor-de-rosa, cheirando à essência de
magnólia.
Adelaide leu a carta para si.
Quando ela acabou, perguntou-lhe o velho:
- Que me diz a isto?
- Não compreendo, respondeu Adelaide.
- Esta carta é dela.
- Sim, e depois?
- É para ele.
- Ele quem?
- Ele! o diabo! o meu rival! o Tito!
- Ah!
- Dizer-lhe o que senti quando apanhei esta carta, é impossível. Nunca
tremi na minha vida! Mas quando li isto, não sei que vertigem se apoderou de
mim. Ando tonto! A cada passo como que desmaio... Ah!
- Ânimo! disse Adelaide.
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- É isto mesmo que eu vinha buscar... é uma consolação, uma animação.
Soube que estava aqui e estimei achá-la só... Ah! quanto sinto que o estimável
seu marido esteja vivo... porque a melhor consolação era aceitar V. Ex. um
coração tão mal compreendido.
- Felizmente ele está vivo.
Diogo soltou um suspiro e disse:
- Felizmente!
E depois de um silêncio continuou:
- Tive duas idéias: uma foi o desprezo; mas desprezá-los é pô-los em
maior liberdade e ralar-me de dor e de vergonha; a segunda foi o duelo... é
melhor... eu mato... ou...
- Deixe-se disso.
- É indispensável que um de nós seja riscado do número dos vivos.
- Pode ser engano...
- Mas não é engano, é certeza.
- Certeza de quê?
Diogo abriu o bilhete e disse:


[Linha 5050 de 6063 - Parte 4 de 4]


- Ora, ouça: «Se ainda não me compreendeu é bem curto de penetração.
Tire a máscara e eu me explicarei. Esta noite tomo chá sozinha. O importuno
Diogo não me incomodará com as suas tolices. Dê-me a felicidade de vê-lo e
admirá-lo.- Emília.»
- Mas que é isto?
- Que é isto? Ah! se fosse mais do que isto já eu estava morto! Pude
pilhar a carta, e a tal entrevista não se deu...
- Quando foi escrita a carta?
- Ontem.
- Tranqüilize-se. É capaz de guardar um segredo? O que lhe vou dizer é
grave. Mas só a sua aflição me faz falar. Posso afirmar-lhe que esta carta é uma
pura caçoada. Trata-se de vingar o nosso sexo ultrajado; trata-se de fazer com
que Tito se apaixone... nada mais.
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Diogo estremeceu de alegria.
- Sim? perguntou ele.
- É pura verdade. Mas veja lá, isto é segredo. Se lho descobri foi por vêlo
aflito. Não nos comprometa.
- Isso é sério? insistiu Diogo.
- Como quer que lho diga?
- Ah! que peso me tirou! Pode estar certa de que o segredo caiu num
poço. Oh! muito me hei de rir... muito me hei de rir... Que boa inspiração tive em
vir falar-lhe! Diga-me, posso dizer a D. Emília que sei tudo?
- Não!
- É então melhor que não me dê por achado...
- Sim.
- Muito bem!
Dizendo estas palavras o velho Diogo esfregava as mãos e piscava os
olhos. Estava radiante. Quê! ver o suposto rival sendo vítima dos laços da viúva!
Que glória! que felicidade!
Nisto estava quando à porta do interior apareceu Tito. Acabava de
levantar-se da cama.
- Bom dia, D. Adelaide, disse ele dirigindo-se para a mulher de Azevedo.
Depois sentando-se e voltando a cara para Diogo:
- Bom dia, disse. Está hoje alegre... Tirou a sorte grande?
- A sorte grande? perguntou Diogo. Tirei... tirei...
- Dormiu bem? perguntou Adelaide a Tito.
- Como um justo que sou. Tive sonhos cor-de-rosas: sonhei com o Sr.
Diogo.
- Ah! sonhou comigo? murmurou entre dentes o velho namorado.
Coitado! tenho pena dele!
- Mas onde está Azevedo? perguntou Tito a Adelaide.
- Anda de passeio.
- Já?
173
- Pois então. Onze horas.
- Onze horas! É verdade, acordei muito tarde. Tinha duas visitas para
fazer: uma a D. Emília...
- Ah! disse Diogo.
- De que se espanta, meu caro?


[Linha 5100 de 6063 - Parte 4 de 4]


- De nada! de nada!
- Bom; vou mandar pôr o seu almoço, disse Adelaide.
Os dois ficaram sós. Tito acendeu um cigarro de palha; Diogo afetava
grande distração, mas olhava sorrateiramente para o moço. Este, apenas soltou
duas fumaças, voltou-se para o velho e disse:
- Como vão os seus amores?
- Que amores?
- Os seus, a Emília... Já lhe fez compreender toda a imensidade da paixão
que o devora?
- Qual... Preciso de algumas lições... Se mas quisesse dar?
- Eu? Está sonhando!
- Ah! eu sei que o senhor é forte... É modesto, mas é forte... e até
fortíssimo! Ora, eu sou realmente um aprendiz... Tive há pouco a idéia de
desafiá-lo.
- A mim?
- É verdade, mas foi uma loucura de que me arrependi...
- Além de que não é uso em nosso país...
- Em toda a parte é uso vingar a honra.
- Bravo, D. Quixote!
- Ora, eu acreditava-me ofendido na honra.
- Por mim?
- Mas emendei a mão; reparei que era antes eu quem ofendia
pretendendo lutar com um mestre, eu simples aprendiz...
- Mestre de quê?
- Dos amores! Oh! eu sei que é mestre...
174
- Deixe-se disso... eu não sou nada... o Sr. Diogo, sim; o senhor vale um
urso, vale mesmo dois. Como havia de eu... Ora!... Aposto que teve ciúmes?
- Exatamente.
- Mas era preciso não me conhecer; não sabe das minhas idéias?
- Homem, às vezes é pior.
- Pior, como?
- As mulheres não deixam uma afronta sem castigo... As suas idéias são
afrontosas... Qual será o castigo? Paro aqui... paro aqui...
- Onde vai?
- Vou sair. Adeus. Não se lembre mais da minha desastrada idéia do
duelo...
- Que está acabado... Ah! o senhor escapou de boa!
- De quê?
- De morrer. Eu enfiava-lhe a espada por esse abdome... com um gosto...
com um gosto só comparável ao que tenho de abraçá-lo vivo e são!
Diogo riu-se com um riso amarelo.
- Obrigado, obrigado. Até logo!
- Venha cá, onde vai? Não se despede de D. Adelaide?
- Eu já volto, disse Diogo travando do chapéu e saindo precipitadamente.
Tito ainda o acompanhou com os olhos.
- Este sujeito, disse o moço consigo quando se viu só, não tem nada de
original. Aquela opinião a respeito das mulheres não é dele... Melhor... já se
conspira; é o que me convém. Hás de vir! hás de vir!
Um criado alemão veio anunciar a Tito que o almoço estava preparado.


[Linha 5150 de 6063 - Parte 4 de 4]


Tito ia entrando quando assomou à porta a figura de Azevedo.
- Ora, graças a Deus! O meu amigo não se levanta com o sol. Estás com
olhos de quem acaba de dormir.
- É verdade, e vou almoçar.
Dirigiram-se os dois para dentro, onde a mesa estava posta à espera de
Tito.
175
- Almoças outra vez? perguntou Tito.
- Não.
- Pois então vais ver como se come.
Tito sentou-se à mesa; Azevedo estirou-se num sofá.
- Onde foste? perguntou Tito.
- Fui passear... Compreendi que é preciso ver e admirar o que é
indiferente, para apreciar e ver melhor aquilo que faz a felicidade íntima do
coração.
- Ah! sim? Bem vês que até a felicidade por igual fatiga! Afinal sempre a
razão do meu lado.
- Talvez. Apesar de tudo, quer-me parecer que já intentas entrar na
família dos casados.
- Eu?
- Tu, sim.
- Por quê?
- Mas, dize, é ou não verdade?
- Qual verdade!
- O que sei, é que uma destas tardes em que adormeceste lendo, não sei
que livro, ouvi-te pronunciar em sonhos, com a maior ternura, o nome de Emília.
- Deveras? perguntou Tito mastigando.
- É exato. Concluí que se sonhavas com ela é que a tinhas no
pensamento, e se a tinhas no pensamento é que a amavas.
- Concluíste mal.
- Mal?
- Concluíste como um marido de cinco meses. Que prova um sonho?
- Prova muito!
- Não prova nada! Pareces velha supersticiosa...
- Mas enfim, alguma coisa há por força... Serás capaz de me dizeres o
que é?
- Homem, podia dizer-te alguma coisa se não fosses casado...
176
- Que tem que eu seja casado?
- Tem tudo. Seria indiscreto sem querer e até sem saber. À noite, entre
um beijo e um bocejo, o marido e a mulher abrem um para o outro a bolsa das
confidências. Sem pensares, podes deitar tudo a perder.
- Não digas isso. Vamos lá. Há novidade?
- Não há nada.
- Confirmas as minhas suspeitas. Gostas da Emília.
- Ódio não lhe tenho, é verdade.
- Gostas. E ela merece. É uma boa senhora, de não vulgar beleza,
possuindo as melhores qualidades. Talvez preferisses que não fosse viúva?...
- Sim; é natural que se embale dez vezes por dia na lembrança dos dois
maridos que já exportou para o outro mundo... à espera de exportar o terceiro...


[Linha 5200 de 6063 - Parte 4 de 4]


- Não é dessas...
- Afianças?
- Quase que posso afiançar.
- Ah! meu amigo, disse Tito levantando-se da mesa e indo acender um
charuto, toma o conselho de um tolo: nunca afiances nada, principalmente em
tais assuntos. Entre a prudência discreta, e a cuja confiança não é lícito duvidar, a
escolha está decidida nos próprios termos da primeira. O que podes tu afiançar a
respeito de Emília? Não a conheces melhor do que eu. Há quinze dias que nos
conhecemos, e eu já lhe leio no interior; estou longe de atribuir-lhe maus
sentimentos, mas tenho a certeza de que não possui as raríssimas qualidades que
são necessárias à exceção. Que sabes tu?
- Realmente, eu não sei nada.
- Não sabes nada! disse Tito consigo.
- Falo pelas minhas impressões. Parecia-me que um casamento entre
vocês ambos não vinha fora de propósito.
- Se me falas outra vez em casamento, saio.
- Pois só a palavra?
- A palavra, a idéia, tudo.
177
- Entretanto, admiras e aplaudes o meu casamento...
- Ah! eu aplaudo nos outros muitas coisas de que não sou capaz de usar.
Depende da vocação...
Adelaide apareceu à porta da sala de jantar. A conversa cessou entre os
dois rapazes.
- Trago-lhes uma notícia.
- Que notícia? perguntaram-lhe os dois.
- Recebi um bilhete de Emília... Pede-nos que vamos lá amanhã,
porque...
- Por quê? perguntou Azevedo.
- Talvez dentro de oito dias se retire para a cidade.
- Ah! disse Tito com a maior indiferença deste mundo.
- Apronta as tuas malas, disse Azevedo a Tito.
- Por quê?
- Não segues os passos da deusa?
- Não zombes, cruel amigo! Quando não...
- Anda lá...
Adelaide sorriu ouvindo estas palavras.
Daí a meia hora Tito subiu para o gabinete em que Azevedo tinha os
livros. Ia, dizia, ler as Confissões de Santo Agostinho.
- Que repentina viagem é esta? perguntou Azevedo à sua mulher.
- Tens muito empenho em saber?
- Tenho.
- Pois bem. Olha que é segredo. Eu não sei positivamente, mas creio que
é uma estratégia.
- Estratégia? Não entendo.
- Eu te digo. Trata-se de prender o Tito.
- Prender?
- Estás hoje tão bronco! Prender pelos laços do amor...
- Ah!
178


[Linha 5250 de 6063 - Parte 4 de 4]


- Emília julgou que deve fazê-lo. É só para brincar. No dia em que ele se
declarar vencido fica ela vingada do que ele disse contra o sexo.
- Não está mau... E tu entras nesta estratégia...
- Como conselheira.
- Trama-se então contra um amigo, um alter ego.
- Tá, tá, tá. Cala a boca. Não vás fazer abortar o plano.
Azevedo riu-se a bandeiras despregadas. No fundo achava engraçada a
punição premeditada ao pobre Tito.
A visita que Tito disse ter de fazer à viúva naquele dia, não se realizou.
Diogo, que apenas saíra da casa de Azevedo, ciente das intenções da
viúva, fora para casa desta esperar o rapaz, embalde lá esteve durante o dia,
embalde jantou, embalde aborreceu a tarde inteira tanto a Emília como à tia; Tito
não apareceu.
Mas, à noite, à hora em que Diogo, já vexado de tanta demora na casa da
moça, tratava de sair, anunciou-se a chegada de Tito.
Emília estremeceu; mas esse movimento escapou a Diogo.
Tito entrou na sala onde se achavam Emília, a tia, e Diogo.
- Não contava com a sua visita, disse a viúva.
- Eu sou assim; apareço quando não me esperam. Sou como a morte e a
sorte grande.
- Agora é a sorte grande, disse Emília.
- Que número é o seu bilhete, minha senhora?
- Número doze, isto é, doze horas que tenho tido o prazer de ter hoje aqui
o Sr. Diogo...
- Doze horas! exclamou Tito voltando-se para o velho.
- Sem que ainda o nosso bom amigo nos contasse uma história...
- Doze horas! repetiu Tito.
- Que admira, meu caro senhor? perguntou Diogo.
- Acho um pouco estirado...
- As horas contam-se quando são aborrecidas... Peço para me retirar...
179
E dizendo isto, Diogo travou do chapéu para sair lançando um olhar de
despeito e ciúme para a viúva.
- Que é isso? perguntou esta. Onde vai?
- Dou asas às horas, respondeu Diogo ao ouvido de Emília; vão correr
depressa agora.
- Perdôo-lhe e peço que se sente.
Diogo sentou-se.
A tia de Emília pediu licença para retirar-se alguns minutos.
Ficaram os três.
- Mas então, disse Tito, nem ao menos uma história contou?
- Nenhuma.
Emília lançou um olhar a Diogo como para tranqüilizá-lo. Este, mais
calmo então, lembrou-se do que Adelaide lhe havia dito, e voltou às boas.
- Afinal de contas, disse ele consigo, o caçoado é ele. Eu sou apenas o
meio de prendê-lo... Contribuamos para que se lhe tire a proa.
- Nenhuma história, continuou Emília.
- Pois olhe, eu sei muitas, disse Diogo com intenção.
- Conte uma de tantas que sabe, disse Tito.
- Nada! Por que não conta o senhor?


[Linha 5300 de 6063 - Parte 4 de 4]


- Se faz empenho...
- Muito... muito, disse Diogo piscando os olhos. Conte lá, por exemplo, a
história do taboqueado, a história das imposturas do amor, a história dos
viajantes encouraçados; vá, vá.
- Não, vou contar a história de um homem e de um macaco.
- Oh! disse a viúva.
- É muito interessante, disse Tito. Ora, ouçam...
- Perdão, interrompeu Emília, será depois do chá.
- Pois sim.
Daí a pouco servia-se o chá aos três. Findo ele, Tito tomou a palavra e
começou a história:
180
História de um homem e de um macaco
“Não longe da vila ***, no interior do Brasil, morava há uns vinte anos
um homem de trinta e cinco anos, cuja vida misteriosa era o objeto das conversas
das vilas próximas e o objeto do terror que experimentavam os viajantes que
passavam na estrada a dois passos da casa.
A própria casa era já de causar apreensões ao espírito menos timorato.
Vista de longe nem parecia casa, tão baixinha era. Mas quem se aproximasse
conheceria aquela construção singular. Metade do edifício estava ao nível do
chão e metade abaixo da terra. Era entretanto uma casa solidamente construída.
Não tinha porta nem janelas. Tinha um vão quadrado que servia ao mesmo tempo
de janela e de porta. Era por ali que o misterioso morador entrava e saía.
Pouca gente o via sair, não só porque ele raras vezes o fazia, como
porque o fazia em horas impróprias. Era nas horas da lua cheia que o solitário
deixava a residência para ir passear nos arredores. Levava sempre consigo um
grande macaco, que acudia pelo nome de Calígula.
O macaco e o homem, o homem e o macaco, eram dois amigos
inseparáveis, dentro e fora de casa, na lua nova.
Mil visões corriam a respeito deste misterioso solitário.
A mais geral é que era um feiticeiro. Havia uma que o dava por doido;
outra por simplesmente atacado de misantropia.
Esta última versão tinha por si duas circunstâncias: a primeira era não
constar nada de positivo que fizesse reconhecer no homem hábitos de feiticeiro
ou alienado; a segunda era a amizade que ele parecia votar ao macaco e o horror
com que fugia ao olhar dos homens. Quando a gente se aborrece dos homens
toma sempre a afeição dos animais, que têm a vantagem de não discorrer, nem
intrigar.
O misterioso... É preciso dar-lhe um nome: chamemo-lo Daniel. Daniel
preferia o macaco, e não falava a mais homem algum. Algumas vezes os
viajantes que passavam pela estrada ouviam partir de dentro da casa gritos do
181
macaco e do homem; era o homem que afagava o macaco.
Como se alimentavam aquelas duas criaturas? Houve quem visse um dia
de manhã abrir-se a porta, sair o macaco e voltar pouco depois com um embrulho
na boca. O tropeiro que presenciava esta cena quis descobrir onde ia o macaco
buscar aquele embrulho que levava sem dúvida os alimentos dos dois solitários.
Na manhã seguinte introduziu-se no mato; o macaco chegou à hora do costume, e
dirigiu-se para um tronco de árvore; havia sobre esse tronco um grande galho,
que o bicho atirou ao chão. Depois, introduzindo as mãos no interior do velho


[Linha 5350 de 6063 - Parte 4 de 4]


tronco, tirou um embrulho igual ao da véspera e partiu.
O tropeiro persignou-se, e tão apreensivo ficou com a cena que acabava
de presenciar que não a contou a ninguém.
Durava esta existência três anos.
Durante esse tempo o homem não envelhecera. Era o mesmo que no
primeiro dia. Longas barbas ruivas e cabelos grandes caídos para trás. Usava um
grande casaco de baeta, tanto no inverno, como no verão. Calçava botas e não
usava chapéu.
Era impossível aos passageiros e aos moradores das vizinhanças penetrar
na casa do solitário. Não o será decerto para nós, minha bela senhora, e meu caro
amigo.
A casa divide-se em duas salas e um quarto. Uma sala é para jantar; a
outra é... a de visitas. O quarto é ocupado pelos dois moradores, Daniel e
Calígula.
As duas salas são de iguais dimensões; o quarto é uma metade da sala. A
mobília da primeira sala compõe-se de dois sujos bancos encostados à parede,
uma mesa baixa no centro. O chão é assoalhado. Pendem das paredes dois
retratos: um de moça, outro de velho. A moça é uma figura angélica e deliciosa.
O velho inspirava respeito e admiração. Das outras duas paredes pendem, de um
lado uma faca de cabo de marfim, e do outro uma mão de defunto, amarela e
seca.
A sala de jantar tem apenas uma mesa e dois bancos.
182
A mobília do quarto resume-se num grabato em que dorme Daniel.
Calígula estende-se no chão, junto à cabeceira do dono.
Tal é a mobília da casa.
A casa, que de fora parece não ter capacidade suficiente para conter um
homem em pé, é contudo suficiente, visto estar, como disse, entranhada no chão.
Que vida terão passado aí dentro o macaco e o homem, no espaço de três
anos? Não saberei dizê-lo.
Quando Calígula traz de manhã o embrulho, Daniel divide a comida em
duas porções, uma para o almoço, outra para o jantar. Depois homem e macaco
sentam-se em face um do outro na sala de jantar e comem irmãmente as duas
refeições.
Quando chega a lua cheia saem os dois solitários, como já disse, todas as
noites, até a época em que a lua passa a ser minguante. Saem às dez horas, pouco
mais ou menos, e voltam pouco mais ou menos às duas horas da madrugada.
Quando entram Daniel tira a mão do finado que pende da parede e dá com ela
duas bofetadas em si próprio. Feito isto, vai deitar-se; Calígula acompanha-o.
Uma noite, era no mês de junho, época de lua cheia, Daniel preparou-se
para sair. Calígula deu um pulo e saltou à estrada. Daniel fechou a porta, e lá se
foi com o macaco estrada acima.
A lua, inteiramente cheia, projetava os seus reflexos pálidos e
melancólicos na vasta floresta que cobria colinas próximas, e clareava toda a
vasta campina que rodeava a casa.
Só se ouvia ao longe o murmúrio de uma cachoeira, e ao perto o piar de
algumas corujas, e o chilrar de uma infinidade de grilos espalhados na planície.
Daniel caminhava pausadamente, levando um pau debaixo do braço, e
acompanhado do macaco, que saltava do chão aos ombros de Daniel e dos
ombros de Daniel para o chão.


[Linha 5400 de 6063 - Parte 4 de 4]


Mesmo sem a forma lúgubre que tinha aquele lugar por causa da
residência do solitário, qualquer pessoa que encontrasse àquela hora Daniel e o
macaco corria risco de morrer de medo. Daniel, extremamente magro e alto,
183
tinha em si um ar lúgubre. Os cabelos da barba e da cabeça, crescidos em
abundância, faziam a sua cabeça ainda maior do que era. Sem chapéu era uma
cabeça verdadeiramente satânica.
Calígula, que nos outros dias era um macaco ordinário, tomava, naquelas
horas de passeio noturno, um ar tão lúgubre e tão misterioso como o de Daniel.
Havia já uma hora que os dois solitários tinham saído de casa. A casa
ficara já um pouco longe. Nada mais natural do que chegar a polícia nessa
ocasião, tomar a entrada da casa e reconhecer o mistério. Mas a polícia, apesar
dos meios que tinha à sua disposição, não se animava a investigar o mistério que
o povo reputava diabólico. Também a polícia é humana, e nada do que é humano
lhe é desconhecido.
Havia uma hora, disse eu, que os dois passeadores tinham saído de casa.
Começavam então a subir uma pequena colina...»
Tito foi interrompido por um bocejo do velho Diogo.
- Quer dormir? perguntou o rapaz.
- É o que vou fazer.
- Mas a história?
- A história é muito divertida. Até aqui só temos visto duas coisas, um
homem e um macaco; perdão... temos mais dois, um macaco e um homem. É
muito divertida! Mas, para variar, o homem vai sair e fica o macaco.
Dizendo estas palavras com uma raiva cômica, Diogo travou do chapéu e
saiu.
Tito soltou uma gargalhada.
- Mas vamos ao fim da história...
- Que fim, minha senhora? Eu já estava em talas por não saber como
continuar... Era um meio de servi-la. Vejo que é um velho aborrecido...
- Não é, está enganado.
- Ah! não?
- Divirto-me com ele. O que não impede que a presença do senhor me dê
184
infinito prazer...
- V. Ex. disse agora uma falsidade.
- Qual foi?
- Disse que lhe era agradável a minha conversa. Ora, isso é falso como
tudo quanto é falso...
- Quer um elogio?
- Não, falo franco. Eu nem sei como Vossa Excelência me atura;
desabrido, maçante, chocarreiro, sem fé em coisa alguma, sou um conversador
muito pouco digno de ser desejado. É preciso ter uma grande soma de bondade
para ter expressões tão benévolas... tão amigas...
- Deixe esse ar de mofa, e...
- Mofa, minha senhora?
- Ontem eu e minha tia tomamos chá sozinhas! sozinhas!...
- Ah!
- Contava que o senhor viesse aborrecer-se uma hora conosco...
- Qual aborrecer... Eu lhe digo: o culpado foi o Ernesto.


[Linha 5450 de 6063 - Parte 4 de 4]


- Ah! foi ele?
- É verdade; deu comigo aí em casa de uns amigos, éramos quatro ao
todo, rolou a conversa sobre o voltarete e acabamos por formar mesa. Ah! mas
foi uma noite completa! Aconteceu-me o que me acontece sempre: ganhei!
- Está bom.
- Pois olhe, ainda assim eu não jogava com pixotes; eram mestres de
primeira força: um principalmente; até às onze horas a fortuna pareceu
desfavorecer-me, mas dessa hora em diante desandou a roda para eles e eu
comecei a assombrar... pode ficar certa de que os assombrei. Ah! é que eu tenho
diploma... mas que é isso, está chorando?
Emília tinha com efeito o lenço nos olhos. Chorava? É certo que quando
tirou o lenço dos olhos, tinha-os úmidos. Voltou-se contra a luz e disse ao moço:
- Qual... pode continuar.
- Não há mais nada; foi só isto, disse Tito.
185
- Estimo que a noite lhe corresse feliz...
- Alguma coisa...
- Mas a uma carta responde-se; por que não respondeu à minha? disse a
viúva.
- À sua qual?
- A carta que lhe escrevi pedindo que viesse tomar chá conosco?
- Não me lembro.
- Não se lembra?
- Ou, se recebi essa carta, foi em ocasião que a não pude ler, e então
esqueci, esqueci-a em algum lugar...
- É possível: mas é a última vez...
- Não me convida mais para tomar chá?
- Não. Pode arriscar-se a perder distrações melhores.
- Isso não digo: a senhora trata bem a gente, e em sua casa passam-se
bem as horas... Isto é com franqueza. Mas então tomou chá sozinha? E o Diogo?
- Descartei-me dele. Acha que ele seja divertido?
- Parece que sim... É um homem delicado; um tanto dado às paixões, é
verdade, mas sendo esse um defeito comum, acho que nele não é muito digno de
censura.
- O Diogo está vingado.
- De quê, minha senhora?
Emília olhou fixamente para Tito e disse:
- De nada!
E levantando-se dirigiu-se para o piano.
- Vou tocar, disse ela; não o aborrece?
- De modo nenhum.
Emília começou a tocar; mas era uma música tão triste que infundia certa
melancolia no espírito do moço. Este, depois de algum tempo, interrompeu com
estas palavras:
- Que música triste!
186
- Traduzo a minha alma, disse a viúva.
- Anda triste?
- Que lhe importam as minhas tristezas?
- Tem razão, não me importam nada. Em todo o caso não é comigo?


[Linha 5500 de 6063 - Parte 4 de 4]


Emília levantou-se e foi para ele.
- Acha que lhe hei de perdoar a desfeita que me fez? disse ela.
- Que desfeita, minha senhora?
- A desfeita de não vir ao meu convite!
- Mas eu já lhe expliquei...
- Paciência! O que sinto é que também nesse voltarete estivesse o marido
de Adelaide.
- Ele retirou-se às dez horas, e entrou um parceiro novo, que não era de
todo mau.
- Pobre Adelaide!
- Mas se eu lhe digo que ele se retirou às dez horas...
- Não devia ter ido. Devia pertencer sempre à sua mulher. Sei que estou
falando a um descrido; não pode calcular a felicidade e os deveres do lar
doméstico. Viverem duas criaturas uma para outra, confundidas, unificadas;
pensar, aspirar, sonhar a mesma coisa; limitar o horizonte nos lhos de cada uma,
sem outra ambição, sem inveja de mais nada. Sabe o que é isto?
- Sei... É o casamento por fora.
- Conheço alguém que lhe provava aquilo tudo...
- Deveras? Quem é essa fênix?
- Se lho disser, há de mofar; não digo.
- Qual mofar! Diga lá, eu sou curioso.
- Não acredita que haja alguém que possa amá-lo?
- Pode ser...
- Não acredita que alguém, por despeito, por outra coisa que seja, tire da
originalidade do seu espírito os influxos de um amor verdadeiro, mui diverso do
amor ordinário dos salões; um amor capaz de sacrifício, capaz de tudo? Não
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acredita!
- Se me afirma, acredito; mas...
- Existe a pessoa e o amor.
- São então duas fênix.
- Não zombe. Existem... Procure...
- Ah! isso há de ser mais difícil: não tenho tempo. E supondo que
achasse, de que me servia? Para mim é perfeitamente inútil. Isso é bom para
outros; para o Diogo, por exemplo...
- Para o Diogo?
A bela viúva pareceu ter um assomo de cólera. Depois de um silêncio
disse:
- Adeus! Desculpe, estou incomodada.
- Então, até amanhã!
Dizendo o que, Tito apertou a mão de Emília e saiu tão alegre e
descuidoso como se saísse de um jantar de anos.
Emília, apenas ficou só, caiu numa cadeira e cobriu o rosto.
Estava nessa posição havia cinco minutos, quando assomou à porta a
figura do velho Diogo.
O rumor que o velho fez entrando despertou a viúva.
- Ainda aqui!
- É verdade, minha senhora, disse Diogo aproximando-se, é verdade.
Ainda aqui, por minha infelicidade...
- Não entendo...


[Linha 5550 de 6063 - Parte 4 de 4]


- Não saí para casa. Um demônio oculto me impeliu para cometer um ato
infame. Cometi-o, mas tirei dele um proveito; estou salvo. Sei que me não ama.
- Ouviu?
- Tudo. E percebi.
- Que percebeu, meu caro senhor?
- Percebi que a senhora ama o Tito.
- Ah!
188
- Retiro-me, portanto, mas não quero fazê-lo sem que ao menos fique
sabendo de que saio com ciência de que não sou amado; e que saio antes de me
mandarem embora.
Emília ouviu as palavras de Diogo com a maior tranqüilidade. Enquanto
ele falava teve tempo de refletir no que devia dizer.
Diogo estava já a fazer o seu último cumprimento, quando a viúva lhe
dirigiu a palavra.
- Ouça-me, Sr. Diogo. Ouviu bem, mas percebeu mal. Já que pretende ter
sabido...
- Já sei; vem dizer que há um plano assentado de zombar com aquele
moço...
- Como sabe?
- Disse-mo D. Adelaide.
- É verdade.
- Não creio.
- Por quê?
- Havia lágrimas nas suas palavras. Ouvi-as com a dor n'alma. Se
soubesse como eu sofria!
A bela viúva não pôde deixar de sorrir ao gesto cômico de Diogo.
Depois, como ele parecesse mergulhado em meditação sombria, disse:
- Engana-se, tanto que volto para a cidade.
- Deveras?
- Pois acredita que um homem como aquele possa inspirar qualquer
sentimento sério? Nem por sombras!
Estas palavras foram ditas no tom com que Emília costumava persuadir
aquele eterno namorado. Isso e mais um sorriso, foi quanto bastou para acalmar o
ânimo de Diogo. Daí a alguns minutos estava ele radiante.
- Olhe, e para desenganá-lo de uma vez vou escrever um bilhete ao
Tito...
- Eu mesmo o levarei, disse Diogo louco de contente.
189
- Pois sim!
- Adeus, até amanhã. Tenha sonhos cor-de-rosa, e desculpe os meus
maus modos. Até amanhã.
O velho beijou graciosamente a mão de Emília e saiu.
IV
No dia seguinte, ao meio-dia, Diogo apresentou-se ao Tito, e depois de
falar sobre diferentes coisas, tirou do bolso uma cartinha, que fingira ter
esquecido até então, e a qual mostrava não dar grande apreço.
- Que bomba! disse ele consigo, na ocasião em que Tito rasgou a
sobrecarta.
Eis o que dizia a carta:


[Linha 5600 de 6063 - Parte 4 de 4]


«Dei-lhe o meu coração. Não quis aceitá-lo, desprezou-o mesmo. A sua
bota magoou-o demais para que ele possa palpitar ainda. Está morto. Não o
censuro; não se deve falar de luz aos cegos; a culpada fui eu. Supus que pudesse
dar-lhe uma felicidade, recebendo outra. Enganei-me.
Tem a glória de retirar-se com todas as honras de guerra. Eu é que fico
vencida. Paciência! Pode zombar de mim; não lhe contesto o direito que tem para
isso.
Entretanto, devo dizer-lhe que eu bem o conhecia; nunca lho disse, mas
conhecia-o; desde o dia em que o vi pela primeira vez em casa de Adelaide,
reconheci na sua pessoa o mesmo homem que um dia veio atirar-se aos meus
pés... Era zombaria então, como hoje. Eu já devia conhecê-lo. Caro pago o meu
engano. Adeus, adeus para sempre.»
Lendo esta carta, Tito olhava repetidas vezes para Diogo. Como é que o
velho se prestara àquilo? Era autêntica ou apócrifa a tal carta? Sobre não trazer
assinatura, tinha a letra disfarçada. Seria uma arma de que o velho usara para
descartar-se do rapaz? Mas, se fosse assim, era preciso que ele soubesse do que
190
se passara na véspera.
Tito releu a carta muitas vezes; e, despedindo-se do velho, disse-lhe que
a resposta iria depois.
Diogo retirou-se esfregando as mãos de contente.
É que a carta cuja leitura os leitores fizeram ao mesmo tempo que o
nosso herói não era a que Emília lera a Diogo. Na minuta apresentada ao velho a
viúva declarava simplesmente que se retirava para a corte, e acrescentava que
entre as recordações que levava de Petrópolis figurava Tito, pela figura que ele
havia representado diante dela. Mas essa minuta, por uma destreza puramente
feminina, não foi a que Emília mandou a Tito, como viram os leitores.
À carta de Emília respondeu Tito nos seguintes termos:
«Minha senhora,
Li e reli a sua carta; e não lhe ocultarei o sentimento de pesar que ela me
inspirou. Realmente, minha senhora, é esse o estado do seu coração? Está assim
tão perdido por mim?
Diz Vossa Excelência que eu com a minha bota machuquei o seu
coração. Penaliza-me o fato, sem que eu entretanto o confirme. Não me lembra
até hoje que tivesse feito estrago algum desta natureza. Mas, enfim, Vossa
Excelência o diz, e eu devo crê-lo.
Lendo esta carta Vossa Excelência dirá consigo que eu sou o mais audaz
cavalheiro que ainda pisou a terra de Santa Cruz. Será um engano de observação.
Isto em mim não é audácia, é franqueza. Lastimo que as coisas chegassem a este
ponto, mas não posso dizer-lhe nada mais que a verdade.
Devo confessar que não sei se a carta a que respondo é de Vossa
Excelência. A sua letra, de que eu já vi uma amostra no álbum de D. Adelaide,
não se parece com a da carta; está evidentemente disfarçada; é de qualquer mão.
Demais, não traz assinatura.
Digo isto porque a primeira dúvida que nasceu em meu espírito proveio
do portador escolhido. Pois quê! Vossa Excelência não achou outro senão o
próprio Diogo? Confesso que de tudo o que tenho visto em minha vida, é isto o
191
que mais me faz rir.
Mas eu não devo rir, minha senhora. Vossa Excelência abriu-me o seu


[Linha 5650 de 6063 - Parte 4 de 4]


coração de um modo que inspira antes compaixão. Esta compaixão não lhe é
desairosa, porque não vem por sentido irônico. É pura e sincera. Sinto não poder
dar-lhe essa felicidade que me pede; mas é assim.
Não devo estender-me e, contudo custa-me arrancar a pena de cima do
papel. É que poucos terão a posição que eu ocupo agora, a posição de requestado.
Mas devo acabar e acabo aqui, mandando-lhe os meus pêsames e rogando a Deus
para que encontre um coração menos frio que o meu.
A letra vai disfarçada como a sua, e; como na sua carta, deixo a
assinatura em branco.»
Esta carta foi entregue à viúva na mesma tarde. À noite Azevedo e
Adelaide foram visitá-la. Não puderam dissuadi-la da idéia da viagem para a
Corte. Emília usou mesmo de uma certa reserva para com Adelaide, que não
pôde descobrir os motivos de semelhante procedimento, e retirou-se um tanto
triste.
No dia seguinte, com efeito, Emília e a tia aprontaram-se e saíram para
voltar para a corte.
Diogo ficou em Petrópolis ainda, cuidando em aprontar as malas... Não
queria, dizia ele, que o público, vendo-o partir em companhia das duas senhoras,
supusesse coisas desairosas à viúva.
Todos estes passos admiravam Adelaide, que, como disse, via na
insistência de Emília e nos seus modos reservados um segredo que não
compreendia. Quereria ela por aquele meio de viagem atrair Tito? Nesse caso era
cálculo errado; visto que o rapaz, naquele dia como nos outros, acordou tarde e
almoçou alegremente.
- Sabe, disse Adelaide, que a esta hora deve ter partido para a cidade a
nossa amiga Emília?
- Já tinha ouvido dizer.
192
- Por que será?
- Ah! isso é que eu não sei. Altos segredos do espírito de mulher! Por
que sopra hoje a brisa deste lado e não daquele? Interessa-me tanto saber uma
coisa como outra.
No fim do almoço Tito, como quase sempre, retirou-se para ler durante
duas horas.
Adelaide ia dar algumas ordens quando viu com pasmo entrar-lhe em
casa a viúva, acompanhada de um criado.
- Ah! não partiste? disse Adelaide correndo a abraçá-la.
- Não me vês aqui?
O criado saiu a um sinal de Emília.
- Mas que há? perguntou a mulher de Azevedo, vendo os modos
estranhos da viúva.
- Que há? disse esta. Há o que não prevíamos... És quase minha irmã...
posso falar francamente. Ninguém nos ouve?
- Ernesto está fora e o Tito lá em cima. Mas que ar é esse?
- Adelaide! disse Emília com os olhos rasos de lágrimas, eu o amo!
- Que me dizes?
- Isto mesmo. Amo-o doidamente, perdidamente, completamente.
Procurei até agora vencer esta paixão, mas não pude; e quando, por vãos
preconceitos, tratava de ocultar-lhe o estado do meu coração, não pude, as
palavras saíram-me dos lábios insensivelmente...


[Linha 5700 de 6063 - Parte 4 de 4]


- Mas como se deu isto?
- Eu sei! Parece que foi castigo; quis fazer fogo e queimei-me nas
mesmas chamas. Ah! não é de hoje que me sinto assim. Desde que os seus
desdéns em nada cederam, comecei a sentir não sei o quê; ao princípio despeito,
depois um desejo de triunfar, depois uma ambição de ceder tudo, contanto que
tudo ganhasse; afinal não fui senhora de mim. Era eu quem me sentia doidamente
apaixonada e lho manifestava, por gestos, por palavras, por tudo; e mais crescia
nele a indiferença, mais crescia o amor em mim.
193
- Mas estás falando sério?
- Olha antes para mim.
- Quem pensara?...
- A mim própria parece impossível; porém é mais que verdade...
- E ele?...
- Ele disse-me quatro palavras indiferentes, nem sei o que foi, e retirouse.
- Resistirá?
- Não sei.
- Se eu adivinhara isto não te insinuaria naquela malfadada idéia.
- Não me compreendeste. Cuidas que eu deploro o que acontece? Oh!
não! Sinto-me feliz, sinto-me orgulhosa... É um destes amores que brotam por si
para encher a alma de satisfação: devo antes abençoar-te...
- É uma verdadeira paixão... Mas acreditas impossível a conversão dele?
- Não sei; mas seja ou não impossível, não é a conversão que eu peço;
basta-me que seja menos indiferente e mais compassivo.
- Mas que pretendes fazer? perguntou Adelaide sentindo que as lágrimas
também lhe rebentavam dos olhos.
Houve alguns instantes de silêncio.
- Mas o que tu não sabes, continuou Emília, é que ele não é para mim um
simples estranho. Já o conhecia antes de casada. Foi ele quem me pediu em
casamento antes de Rafael...
- Ah!
- Sabias?
- Ele já me havia contado a história, mas não nomeara a santa. Eras tu?
- Era eu. Ambos nos conhecíamos, sem dizermos nada um ao outro...
- Por quê?
A resposta a esta pergunta foi dada pelo próprio Tito, que assomara à
porta do interior. Tendo visto entrar a viúva de uma das janelas, Tito desceu
abaixo a ouvir a conversa dela com Adelaide. A estranheza que lhe causava a
194
volta inesperada de Emília podia desculpar a indiscrição do rapaz.
- Por quê? repetiu ele. É o que lhes vou dizer.
- Mas antes de tudo, disse Adelaide, não sei se sabe que uma indiferença,
tão completa, como a sua, pode ser fatal a quem lhe é menos indiferente?
- Refere-se à sua amiga? perguntou Tito. Eu corto tudo com uma palavra.
E voltando-se para Emília, disse, estendendo-lhe a mão:
- Aceita a minha mão de esposo?
Um grito de alegria suprema ia saindo do peito de Emília; mas não sei se
um resto de orgulho, ou qualquer outro sentimento, converteu essa manifestação
em uma simples palavra, que aliás foi pronunciada com lágrimas na voz:
- Sim! disse ela.


[Linha 5750 de 6063 - Parte 4 de 4]


Tito beijou amorosamente a mão da viúva. Depois acrescentou:
- Mas é preciso medir toda a minha generosidade; eu devia dizer: aceito a
sua mão. Devia ou não devia? Sou um tanto original e gosto de fazer inversão em
tudo.
- Pois sim; mas de um ou de outro modo sou feliz. Contudo um remorso
me surge na consciência. Dou-lhe uma felicidade tão completa como a que
recebo?
- Remorso? se é sujeita aos remorsos deve ter um, mas por motivo
diverso. A senhora está passando neste momento pelas forcas caudinas. Fi-la
sofrer, não? Ouvindo o que vou dizer concordará que eu já antes sofria, e muito
mais.
- Temos romance? perguntou Adelaide a Tito.
- Realidade, minha senhora, respondeu Tito, e realidade em prosa. Um
dia, há já alguns anos, tive eu a felicidade de ver uma senhora, e amei-a. O amor
foi tanto mais indomável quanto que me nasceu de súbito. Era então mais ardente
que hoje, não conhecia muito os usos do mundo. Resolvi declarar-lhe a minha
paixão e pedi-la em casamento. Tive em resposta este bilhete...
- Já sei, disse Emília. Essa senhora fui eu. Estou humilhada; perdão!
- Meu amor lhe perdoa; nunca deixei de amá-la. Eu estava certo de
195
encontrá-la um dia e procedi de modo a fazer-me o desejado.
- Escreva isto e dirão que é um romance, disse alegremente Adelaide.
- A vida não é outra coisa... acrescentou Tito.
Daí a meia hora entrava Azevedo. Admirado da presença de Emília
quando a supunha a rodar no trem de ferro, e mais admirado ainda das maneiras
cordiais por que se tratavam Tito e Emília, o marido de Adelaide inquiriu a causa
disso.
- A causa é simples, respondeu Adelaide; Emília voltou porque vai casarse
com Tito.
Azevedo não se deu por satisfeito; explicaram-lhe tudo.
- Percebo, disse ele. Tito não tendo alcançado nada caminhando em linha
reta, procurou ver se alcançava caminhando por linha curva. Às vezes é o
caminho mais curto.
- Como agora, acrescentou Tito.
Emília jantou em casa de Adelaide. À tarde apareceu ali o velho Diogo,
que ia despedir-se porque devia partir para a Corte no dia seguinte de manhã.
Grande foi a sua admiração quando viu a viúva.
- Voltou?
- É verdade, respondeu Emília rindo.
- Pois eu ia partir, mas já não parto. Ah! recebi uma carta da Europa: foi
o capitão da galera Macedônia que ma trouxe! Chegou o urso!
- Pois vá fazer-lhe companhia, respondeu Tito.
Diogo fez uma careta. Depois, como desejasse saber o motivo da súbita
volta da viúva, esta explicou-lhe que se ia casar com Tito.
Diogo não acreditou.
- É ainda um laço, não? disse ele piscando os olhos.
E não só não acreditou então, como não acreditou daí em diante, apesar
de tudo. Daí a alguns dias partiram todos para a Corte. Diogo ainda se não
convencia de nada. Mas, quando entrando um dia em casa de Emília viu a festa
do noivado, o pobre velho não pôde negar a realidade e sofreu um forte abalo.


[Linha 5800 de 6063 - Parte 4 de 4]


196
Todavia, teve ainda coração para assistir às festas do noivado. Azevedo e a
mulher serviram de testemunhas.
«É preciso confessar, escrevia dois meses depois o feliz noivo ao esposo
de Adelaide; - é preciso confessar que eu entrei num jogo arriscado. Podia
perder; felizmente ganhei.»
197



**************************************************************************************************************FREI SIMÃO
I
Frei Simão era um frade da ordem dos Beneditinos. Tinha, quando
morreu, cinqüenta anos em aparência, mas na realidade trinta e oito. A causa
desta velhice prematura derivava da que o levou ao claustro na idade de trinta
anos, e, tanto quanto se pode saber por uns fragmentos de Memórias que ele
deixou, a causa era justa.
Era frei Simão de caráter taciturno e desconfiado. Passava dias inteiros
na sua cela, donde apenas saía na hora do refeitório e dos ofícios divinos. Não
contava amizade alguma no convento, porque não era possível entreter com ele
os preliminares que fundam e consolidam as afeições.
Em um convento, onde a comunhão das almas deve ser mais pronta e
mais profunda, frei Simão parecia fugir à regra geral. Um dos noviços pôs-lhe
198
alcunha de urso, que lhe ficou, mas só entre os noviços, bem entendido. Os
frades professos, esses, apesar do desgosto que o gênio solitário de frei Simão
lhes inspirava, sentiam por ele certo respeito e veneração.
Um dia anuncia-se que frei Simão adoecera gravemente. Chamaram-se
os socorros e prestou-se ao enfermo todos os cuidados necessários. A moléstia
era mortal: depois de cinco dias frei Simão expirou.
Durante estes cinco dias de moléstia, a cela de frei Simão esteve cheia de
frades. Frei Simão não disse uma palavra durante esses cinco dias; só no último,
quando se aproximava o minuto fatal, sentou-se no leito, fez chamar para mais
perto o abade, e disse-lhe ao ouvido com voz sufocada e em tom estranho:
- Morro odiando a humanidade!
O abade recuou até a parede ao ouvir estas palavras, e no tom em que
foram ditas. Quanto a frei Simão, caiu sobre o travesseiro e passou à eternidade.
Depois de feitas ao irmão finado as honras que se lhe deviam, a
comunidade perguntou ao seu chefe que palavras ouvira tão sinistras que o
assustaram. O abade referiu-as, persignando-se. Mas os frades não viram nessas
palavras senão um segredo do passado, sem dúvida importante, mas não tal que
pudesse lançar o terror no espírito do abade. Este explicou-lhes a idéia que tivera
quando ouviu as palavras de frei Simão, no tom em que foram ditas, e
acompanhadas do olhar com que o fulminou: acreditara que frei Simão estivesse
doido; mais ainda, que tivesse entrado já doido para a ordem. Os hábitos da
solidão e taciturnidade a que se votara o frade pareciam sintomas de uma
alienação mental de caráter brando e pacífico; mas durante oito anos parecia
impossível aos frades que frei Simão não tivesse um dia revelado de modo
positivo a sua loucura; objetaram isso ao abade; mas este persistia na sua crença.
Entretanto procedeu-se ao inventário dos objetos que pertenciam ao


[Linha 5850 de 6063 - Parte 4 de 4]


finado, e entre eles achou-se um rolo de papéis convenientemente enlaçados, com
este rótulo: «Memórias que há de escrever frei Simão de Santa Águeda, frade
beneditino».
Este rolo de papéis foi um grande achado para a comunidade curiosa.
199
Iam finalmente penetrar alguma coisa no véu misterioso que envolvia o passado
de frei Simão, e talvez confirmar as suspeitas do abade.
O rolo foi aberto e lido perante todos.
Eram, pela maior parte, fragmentos incompletos, apontamentos
truncados e notas insuficientes; mas de tudo junto pôde-se colher que realmente
frei Simão estivera louco durante certo tempo.
O autor desta narrativa despreza aquela parte das Memórias que não tiver
absolutamente importância; mas procura aproveitar a que for menos inútil ou
menos obscura.
II
As notas de frei Simão nada dizem do lugar do seu nascimento nem do
nome de seus pais. O que se pôde saber dos seus princípios é que, tendo
concluído os estudos preparatórios, não pôde seguir a carreira das letras, como
desejava, e foi obrigado a entrar como guarda-livros na casa comercial de seu
pai.
Morava então em casa de seu pai uma prima de Simão, órfã de pai e mãe,
que haviam por morte deixado ao pai de Simão o cuidado de a educarem e
manterem. Parece que os cabedais deste deram para isto. Quanto ao pai da prima
órfã, tendo sido rico, perdera tudo ao jogo e nos azares do comércio, ficando
reduzido à última miséria.
A órfã chamava-se Helena; era bela, meiga e extremamente boa. Simão,
que se educara com ela, e juntamente vivia debaixo do mesmo teto, não pôde
resistir às elevadas qualidades e à beleza de sua prima. Amaram-se. Em seus
sonhos de futuro contavam ambos o casamento, coisa que parece o mais natural
do mundo para corações amantes.
Não tardou muito que os pais de Simão descobrissem o amor dos dois.
Ora é preciso dizer, apesar de não haver declaração formal disto nos
apontamentos do frade, é preciso dizer que os referidos pais eram de um egoísmo
200
descomunal. Davam de boa vontade o pão da subsistência a Helena; mas lá casar
o filho com a pobre órfã é que não podiam consentir. Tinham posto a mira em
uma herdeira rica, e dispunham de si para si que o rapaz se casaria com ela.
Uma tarde, como estivesse o rapaz a adiantar a escrituração do livro
mestre, entrou no escritório o pai com ar grave e risonho ao mesmo tempo, e
disse ao filho que largasse o trabalho e o ouvisse. O rapaz obedeceu. O pai falou
assim:
- Vais partir para a província de ***. Preciso mandar umas cartas ao meu
correspondente Amaral, e como sejam elas de grande importância, não quero
confiá-las ao nosso desleixado correio. Queres ir no vapor ou preferes o nosso
brigue?
Esta pergunta era feita com grande tino.
Obrigado a responder-lhe, o velho comerciante não dera lugar a que seu
filho apresentasse objeções.
O rapaz enfiou, abaixou os olhos e respondeu:
- Vou onde meu pai quiser.


[Linha 5900 de 6063 - Parte 4 de 4]


O pai agradeceu mentalmente a submissão do filho, que lhe poupava o
dinheiro da passagem no vapor, e foi muito contente dar parte à mulher de que o
rapaz não fizera objeção alguma.
Nessa noite os dois amantes tiveram ocasião de encontrar-se a sós na sala
de jantar.
Simão contou a Helena o que se passara. Choraram ambos algumas
lágrimas furtivas, e ficaram na esperança de que a viagem fosse de um mês,
quando muito.
À mesa do chá, o pai de Simão conversou sobre a viagem do rapaz, que
devia ser de poucos dias. Isto reanimou as esperanças dos dois amantes. O resto
da noite passou-se em conselhos da parte do velho ao filho sobre a maneira de
portar-se na casa do correspondente. Às dez horas, como de costume, todos se
recolheram aos aposentos.
Os dias passaram-se depressa. Finalmente raiou aquele em que devia
201
partir o brigue. Helena saiu do seu quarto com os olhos vermelhos de chorar.
Interrogada bruscamente pela tia, disse que era uma inflamação adquirida pelo
muito que lera na noite anterior. A tia prescreveu-lhe abstenção da leitura e
banhos de água de malvas.
Quanto ao tio, tendo chamado Simão, entregou-lhe uma carta para o
correspondente, e abraçou-o. A mala e um criado estavam prontos. A despedida
foi triste. Os dois pais sempre choraram alguma coisa, a rapariga muito.
Quanto a Simão, levava os olhos secos e ardentes. Era refratário às
lágrimas; por isso mesmo padecia mais.
O brigue partiu. Simão, enquanto pôde ver terra, não se retirou de cima;
quando finalmente se fecharam de todo as paredes do cárcere que anda, na frase
pitoresca de Ribeyrolles, Simão desceu ao seu camarote, triste e com o coração
apertado. Havia como um pressentimento que lhe dizia interiormente ser
impossível tornar a ver sua prima. Parecia que ia para um degredo.
Chegando ao lugar do seu destino, procurou Simão o correspondente de
seu pai e entregou-lhe a carta. O Sr. Amaral leu a carta, fitou o rapaz, e, depois de
algum silêncio, disse-lhe, volvendo a carta:
- Bem, agora é preciso esperar que eu cumpra esta ordem de seu pai.
Entretanto venha morar para a minha casa.
- Quando poderei voltar? perguntou Simão.
- Em poucos dias, salvo se as coisas se complicarem.
Este salvo, posto na boca de Amaral como incidente, era a oração
principal. A carta do pai de Simão versava assim:
«Meu caro Amaral,
Motivos ponderosos me obrigam a mandar meu filho desta cidade.
Retenha-o por lá como puder. O pretexto da viagem é ter eu necessidade de
ultimar alguns negócios com você, o que dirá ao pequeno, fazendo-lhe sempre
crer que a demora é pouca ou nenhuma. Você, que teve na sua adolescência a
triste idéia de engendrar romances, vá inventando circunstâncias e ocorrências
imprevistas, de modo que o rapaz não me torne cá antes de segunda ordem. Sou,
202
como sempre», etc.
III
Passaram-se dias e dias, e nada de chegar o momento de voltar à casa
paterna. O ex-romancista era na verdade fértil, e não se cansava de inventar


[Linha 5950 de 6063 - Parte 4 de 4]


pretextos que deixavam convencido o pobre rapaz.
Entretanto, como o espírito dos amantes não é menos engenhoso que o
dos romancistas, Simão e Helena acharam um meio de se escreverem, e deste
modo podiam consolar-se da ausência, com presença das letras e do papel. Bem
diz Heloísa que a arte de escrever foi inventada por alguma amante separada do
seu amante. Nestas cartas juravam-se os dois sua eterna fidelidade.
No fim de dois meses de espera baldada e de ativa correspondência, a tia
de Helena surpreendeu uma carta de Simão. Era a vigésima, creio eu. Houve
grande temporal em casa. O tio, que estava no escritório, saiu precipitadamente e
tomou conhecimento do negócio. O resultado foi proscrever de casa tinta, penas
e papel, e instituir vigilância rigorosa sobre a infeliz rapariga.
Começaram pois a escassear as cartas ao pobre deportado. Inquiriu a
causa disto em cartas choradas e compridas; mas como o rigor fiscal da casa de
seu pai adquiria proporções descomunais, acontecia que todas as cartas de Simão
iam parar às mãos do velho, que, depois de apreciar o estilo amoroso de seu
filho, fazia queimar as ardentes epístolas.
Passaram-se dias e meses. Carta de Helena, nenhuma. O correspondente
ia esgotando a veia inventadora, e já não sabia como reter finalmente o rapaz.
Chega uma carta a Simão. Era letra do pai. Só diferençava das outras que
recebia do velho em ser esta mais longa, muito mais longa. O rapaz abriu a carta,
e leu trêmulo e pálido. Contava nesta carta o honrado comerciante que a Helena,
a boa rapariga que ele destinava a ser sua filha casando-se com Simão, a boa
Helena tinha morrido. O velho copiara algum dos últimos necrológios que vira
nos jornais, e ajuntara algumas consolações de casa. A última consolação foi
203
dizer-lhe que embarcasse e fosse ter com ele.
O período final da carta dizia:
«Assim como assim, não se realizam os meus negócios; não te pude
casar com Helena, visto que Deus a levou. Mas volta, filho, vem; poderás
consolar-te casando com outra, a filha do conselheiro ***. Está moça feita e é um
bom partido. Não te desalentas; lembra-te de mim».
O pai de Simão não conhecia bem o amor do filho, nem era grande águia
para avaliá-lo, ainda que o conhecesse. Dores tais não se consolidam com uma
carta nem com um casamento. Era melhor mandá-lo chamar, e depois prepararlhe
a notícia; mas dada assim friamente em uma carta, era expor o rapaz a uma
morte certa.
Ficou Simão vivo em corpo e morto moralmente, tão morto que por sua
própria idéia foi dali procurar uma sepultura. Era melhor dar aqui alguns dos
papéis escritos por Simão relativamente ao que sofreu depois da carta; mas há
muitas falhas, e eu não quero corrigir a exposição ingênua e sincera do frade.
A sepultura que Simão escolheu foi um convento. Respondeu ao pai que
agradecia a filha do conselheiro, mas que daquele dia em diante pertencia ao
serviço de Deus.
O pai ficou maravilhado. Nunca suspeitou que o filho pudesse vir a ter
semelhante resolução. Escreveu às pressas para ver se o desviava da idéia; mas
não pôde conseguir.
Quanto ao correspondente, para quem tudo se embrulhava cada vez mais,
deixou o rapaz seguir para o claustro, disposto a não figurar em um negócio do
qual nada realmente sabia.
IV


[Linha 6000 de 6063 - Parte 4 de 4]


Frei Simão de Santa Águeda foi obrigado a ir à província natal em
missão religiosa, tempos depois dos fatos que acabo de narrar.
Preparou-se e embarcou.
204
A missão não era na capital, mas no interior. Entrando na capital,
pareceu-lhe dever ir visitar seus pais. Estavam mudados física e moralmente. Era
com certeza a dor e o remorso de terem precipitado seu filho à resolução que
tomou. Tinham vendido a casa comercial e viviam de suas rendas.
Receberam o filho com alvoroço e verdadeiro amor. Depois das lágrimas
e das consolações, vieram ao fim da viagem de Simão.
- A que vens tu, meu filho?
- Venho cumprir uma missão do sacerdócio que abracei. Venho pregar,
para que o rebanho do Senhor não se arrede nunca do bom caminho.
- Aqui na capital?
- Não, no interior. Começo pela vila de ***.
Os dois velhos estremeceram; mas Simão nada viu. No dia seguinte
partiu Simão, não sem algumas instâncias de seus pais para que ficasse. Notaram
eles que seu filho nem de leve tocara em Helena. Também eles não quiseram
magoá-lo falando em tal assunto.
Daí a dias, na vila de que falara frei Simão, era um alvoroço para ouvir
as prédicas do missionário.
A velha igreja do lugar estava atopetada de povo.
À hora anunciada, frei Simão subiu ao púlpito e começou o discurso
religioso. Metade do povo saiu aborrecido no meio do sermão. A razão era
simples. Avezado à pintura viva dos caldeirões de Pedro Botelho e outros
pedacinhos de ouro da maioria dos pregadores, o povo não podia ouvir com
prazer a linguagem simples, branda, persuasiva, a que serviam de modelo as
conferências do fundador da nossa religião.
O pregador estava a terminar, quando entrou apressadamente na igreja
um par, marido e mulher: ele, honrado lavrador, meio remediado com o sítio que
possuía e a boa vontade de trabalhar; ela, senhora estimada por suas virtudes,
mas de uma melancolia invencível.
Depois de tomarem água benta, colocaram-se ambos em lugar donde
pudessem ver facilmente o pregador.
205
Ouviu-se então um grito, e todos correram para a recém-chegada, que
acabava de desmaiar. Frei Simão teve de parar o seu discurso, enquanto se punha
termo ao incidente. Mas, por uma aberta que a turba deixava, pôde ele ver o rosto
da desmaiada.
Era Helena.
No manuscrito do frade há uma série de reticências dispostas em oito
linhas. Ele próprio não sabe o que se passou. Mas o que se passou foi que, mal
conhecera Helena, continuou o frade o discurso. Era então outra coisa: era um
discurso sem nexo, sem assunto, um verdadeiro delírio. A consternação foi geral.
V
O delírio de frei Simão durou alguns dias. Graças aos cuidados, pôde
melhorar, e pareceu a todos que estava bom, menos ao médico, que queria
continuar a cura. Mas o frade disse positivamente que se retirava ao convento, e
não houve forças humanas que o detivessem.
O leitor compreende naturalmente que o casamento de Helena fora


[Linha 6050 de 6063 - Parte 4 de 4]


obrigado pelos tios.
A pobre senhora não resistiu à comoção. Dois meses depois morreu,
deixando inconsolável o marido, que a amava com veras.
Frei Simão, recolhido ao convento, tornou-se mais solitário e taciturno.
Restava-lhe ainda um pouco da alienação.
Já conhecemos o acontecimento de sua morte e a impressão que ela
causara ao abade.
A cela de frei Simão de Santa Águeda esteve muito tempo
religiosamente fechada. Só se abriu, algum tempo depois, para dar entrada a um
velho secular, que por esmola alcançou do abade acabar os seus dias na
convivência dos médicos da alma. Era o pai de Simão. A mãe tinha morrido.
Foi crença, nos últimos anos de vida deste velho, que ele não estava
menos doido que frei Simão de Santa Águeda.
206


FIM DA OBRA




Contos Fluminenses - Parte 1 de 4:



Contos Fluminenses - Parte 2 de 4:



Contos Fluminenses - Parte 3 de 4:



Contos Fluminenses - Parte 4 de 4:



Machado de Assis - Escritor



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