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segunda-feira, 19 de junho de 2017

Contos Fluminenses - Parte 3 de 4 - Machado de Assis


Contos Fluminenses - Parte 3 de 4 - Machado de Assis




Machado de Assis - CONTOS FLUMINENSES


- Infelizmente é verdade!
Seguiu-se algum tempo de silêncio.
- Tudo está arranjado, pensou Vasconcelos.


Augusta rompeu o silêncio.
- Mas, disse ela, se a nossa fortuna está abalada, creio que o senhor tem
coisa melhor para fazer do que estar conversando; é reconstruí-la.
Vasconcelos fez com a cabeça um movimento de espanto, e como se
fosse aquilo uma pergunta, Augusta apressou-se a responder:
- Não se admire disto; creio que o seu dever é reconstruir a fortuna.
- Não me admira esse dever; admira-me que mo lembres por esse modo.
Dir-se-ia que a culpa é minha...
- Bom! disse Augusta, vais dizer que fui eu...
- A culpa, se culpa há, é de nós ambos.
- Por quê? é também minha?
- Também. As tuas despesas loucas contribuíram em grande parte para
este resultado; eu nada te recusei nem recuso, e é nisso que sou culpado. Se é isso
que me lanças em rosto, aceito.


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Augusta levantou os ombros com um gesto de despeito; e deitou a
Vasconcelos um olhar de tamanho desdém que bastaria para intentar uma ação de
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divórcio.
Vasconcelos viu o movimento e o olhar.
- O amor do luxo e do supérfluo, disse ele, há de sempre produzir estas
conseqüências. São terríveis, mas explicáveis. Para conjurá-las era preciso viver
com moderação. Nunca pensaste nisso. No fim de seis meses de casada entraste a
viver no turbilhão da moda, e o pequeno regato das despesas tornou-se um rio
imenso de desperdícios. Sabes o que me disse uma vez meu irmão? Disse-me que
a idéia de mandar Adelaide para a roça foi-te sugerida pela necessidade de viver
sem cuidados de natureza alguma.
Augusta tinha-se levantado, e deu alguns passos; estava trêmula e pálida.
Vasconcelos ia por diante nas suas recriminações, quando a mulher o
interrompeu, dizendo:
- Mas por que motivo não impediu o senhor essas despesas que eu fazia?
- Queria a paz doméstica.
- Não! clamou ela; o senhor queria ter por sua parte uma vida livre e
independente; vendo que eu me entregava a essas despesas, imaginou comprar a
minha tolerância com a sua tolerância. Eis o único motivo; a sua vida não será
igual à minha, mas é pior... Se eu fazia despesas em casa o senhor as fazia na
rua... É inútil negar, porque eu sei tudo; conheço, de nome, as rivais que
sucessivamente o senhor me deu, e nunca lhe disse uma única palavra, nem agora
lho censuro, porque seria inútil e tarde.
A situação tinha mudado. Vasconcelos começara constituindo-se juiz, e
passara a ser co-réu. Negar era impossível; discutir era arriscado e inútil. Preferiu
sofismar.
- Dado que fosse assim (e eu não discuto esse ponto), em todo caso a
culpa será de nós ambos, e não vejo razão para que ma lances em rosto. Devo
reparar a fortuna, concordo; há um meio, e é este: o casamento de Adelaide com
o Gomes.
- Não, disse Augusta.
- Bem; seremos pobres, ficaremos piores do que estamos agora;
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venderemos tudo...
- Perdão, disse Augusta, eu não sei por que razão não há de o senhor, que
é forte, e tem a maior parte no desastre, empregar esforços para a reconstrução da
fortuna destruída.
- É trabalho longo; e daqui até lá a vida continua e gasta-se. O meio, já
lho disse, é este: casar Adelaide com o Gomes.
- Não quero! disse Augusta, não consinto em semelhante casamento.
Vasconcelos ia responder, mas Augusta, logo depois de proferir estas
palavras, tinha saído precipitadamente do gabinete.
Vasconcelos saiu alguns minutos depois.
VI
Lourenço não teve conhecimento da cena entre o irmão e a cunhada, e
depois da teima de Vasconcelos resolveu nada mais dizer; entretanto, como
queria muito à sobrinha, e não queria vê-la entregue a um homem de costumes
que ele reprovava, Lourenço esperou que a situação tomasse caráter mais
decisivo para assumir mais ativo papel.


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Mas, a fim de não perder tempo, e poder usar alguma arma poderosa,
Lourenço tratou de instaurar uma pesquisa mediante a qual pudesse colher
informações minuciosas acerca de Gomes.
Este cuidava que o casamento era coisa decidida, e não perdia um só dia
na conquista de Adelaide.
Notou, porém, que Augusta tornava-se mais fria e indiferente, sem causa
que ele conhecesse, e entrou-lhe no espírito a suspeita de que viesse dali alguma
oposição.
Quanto a Vasconcelos, desanimado pela cena da toilette, esperou
melhores dias, e contou sobretudo com o império da necessidade.
Um dia, porém, exatamente quarenta e oito horas depois da grande
discussão com Augusta, Vasconcelos fez dentro de si esta pergunta:
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- Augusta recusa a mão de Adelaide para o Gomes; por quê?
De pergunta em pergunta, de dedução em dedução, abriu-se no espírito
de Vasconcelos campo para uma suspeita dolorosa.
- Amá-lo-á ela? perguntou ele a si próprio.
Depois, como se o abismo atraísse o abismo, e uma suspeita reclamasse
outra, Vasconcelos perguntou:
- Ter-se-iam eles amado algum tempo?
Pela primeira vez, Vasconcelos sentiu morder-lhe no coração a serpe do
ciúme.
Do ciúme digo eu, por eufemismo; não sei se aquilo era ciúme; era amorpróprio
ofendido.
As suspeitas de Vasconcelos teriam razão?
Devo dizer a verdade: não tinham. Augusta era vaidosa, mas era fiel ao
infiel marido; e isso por dois motivos: um de consciência, outro de
temperamento. Ainda que ela não estivesse convencida do seu dever de esposa, é
certo que nunca trairia o juramento conjugal. Não era feita para as paixões, a não
serem as paixões ridículas que a vaidade impõe. Ela amava antes de tudo a sua
própria beleza; o seu melhor amigo era o que dissesse que ela era mais bela entre
as mulheres; mas se lhe dava a sua amizade, não lhe daria nunca o coração; isso a
salvava.
A verdade é esta; mas quem o diria a Vasconcelos? Uma vez suspeitoso
de que a sua honra estava afetada, Vasconcelos começou a recapitular toda a sua
vida. Gomes freqüentava a sua casa há seis anos, e tinha nela plena liberdade. A
traição era fácil. Vasconcelos entrou a recordar as palavras, os gestos, os olhares,
tudo que antes lhe foi indiferente, e que naquele momento tomava um caráter
suspeitoso.
Dois dias andou Vasconcelos cheio deste pensamento. Não saía de casa.
Quando Gomes chegava, Vasconcelos observava a mulher com desusada
persistência; à própria frieza com que ela recebia o rapaz era aos olhos do marido
uma prova do delito.
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Estava nisto, quando na manhã do terceiro dia (Vasconcelos já se
levantava cedo) entrou-lhe no gabinete o irmão, sempre com o ar selvagem do
costume.
A presença de Lourenço inspirou a Vasconcelos a idéia de contar-lhe
tudo.
Lourenço era um homem de bom senso, e em caso de necessidade era um


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apoio.
O irmão ouviu tudo quanto Vasconcelos contou, e concluindo este,
rompeu o seu silêncio com estas palavras:
- Tudo isso é uma tolice; se tua mulher recusa o casamento, será por
qualquer outro motivo que não esse.
- Mas é o casamento com o Gomes que ela recusa.
- Sim, porque lhe falaste no Gomes; fala-lhe em outro, talvez recuse do
mesmo modo. Há de haver outro motivo; talvez Adelaide lhe contasse, talvez lhe
pedisse para opor-se, porque tua filha não ama o rapaz, e não pode casar com ele.
- Não casará...
- Não só por isso, mas até porque...
- Acaba.
- Até porque este casamento é uma especulação do Gomes.
- Uma especulação? perguntou Vasconcelos.
- Igual à tua, disse Lourenço. Tu dás-lhe a filha com os olhos na fortuna
dele; ele aceita-a com os olhos na tua fortuna...
- Mas ele possui...
- Não possui nada; está arruinado como tu. Indaguei e soube da verdade.
Quer naturalmente continuar a mesma vida dissipada que teve até hoje, e a tua
fortuna é um meio...
- Estás certo disso?
- Certíssimo!...
Vasconcelos ficou aterrado. No meio de todas as suspeitas, ainda lhe
restava a esperança de ver a sua honra salva, e realizado aquele negócio que lhe
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daria uma excelente situação.
Mas a revelação de Lourenço matou-o.
- Se queres uma prova, manda chamá-lo, e dize-lhe que estás pobre, e por
isso lhe recusas a filha; observa-o bem, e verás o efeito que as tuas palavras lhe
hão de produzir.
Não foi preciso mandar chamar o pretendente. Daí a uma hora
apresentou-se ele em casa de Vasconcelos.
Vasconcelos mandou-o subir ao gabinete.
VII
Logo depois dos primeiros cumprimentos Vasconcelos disse:
- Ia mandar chamar-te.
- Ah! para quê? perguntou Gomes.
- Para conversarmos acerca do... casamento.
- Ah! há algum obstáculo?
- Conversemos.
Gomes tornou-se mais sério; entrevia alguma dificuldade grande.
Vasconcelos tomou a palavra.
- Há circunstâncias, disse ele, que devem ser bem definidas, para que se
possa compreender bem...
- É a minha opinião.
- Amas minha filha?
- Quantas vezes queres que to diga?
- O teu amor está acima de todas as circunstâncias?...
- De todas, salvo aquelas que entenderem com a felicidade dela.
- Devemos ser francos; além de amigo que sempre foste, és agora quase


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meu filho... A discrição entre nós seria indiscreta...
- Sem dúvida! respondeu Gomes.
- Vim a saber que os meus negócios param mal; as despesas que fiz
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alteraram profundamente a economia da minha vida, de modo que eu não te
minto dizendo que estou pobre.
Gomes reprimiu uma careta.
- Adelaide, continuou Vasconcelos, não tem fortuna, não terá mesmo
dote; é apenas uma mulher que eu te dou. O que te afianço é que é um anjo, e que
há de ser excelente esposa.
Vasconcelos calou-se, e o seu olhar cravado no rapaz parecia querer
arrancar-lhe das feições as impressões da alma.
Gomes devia responder; mas durante alguns minutos houve entre ambos
um profundo silêncio.
Enfim o pretendente tomou a palavra.
- Aprecio, disse ele, a tua franqueza, e usarei de franqueza igual.
- Não peço outra coisa...
- Não foi por certo o dinheiro que me inspirou este amor; creio que me
farás a justiça de crer que eu estou acima dessas considerações. Além de que, no
dia em que eu te pedi a querida do meu coração, acreditava estar rico.
- Acreditavas?
- Escuta. Só ontem é que o meu procurador me comunicou o estado dos
meus negócios.
- Mau?
- Se fosse isso apenas! Mas imagina que há seis meses estou vivendo
pelos esforços inauditos que o meu procurador fez para apurar algum dinheiro,
pois que ele não tinha ânimo de dizer-me a verdade. Ontem soube tudo!
- Ah!
- Calcula qual é o desespero de um homem que acredita estar bem, e
reconhece um dia que não tem nada!
- Imagino por mim!
- Entrei alegre aqui, porque a alegria que eu ainda tenho reside nesta
casa; mas a verdade é que estou à beira de um abismo. A sorte castigou-nos a um
tempo...
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Depois desta narração, que Vasconcelos ouviu sem pestanejar, Gomes
entrou no ponto mais difícil da questão.
- Aprecio a tua franqueza, e aceito a tua filha sem fortuna; também eu
não tenho, mas ainda me restam forças para trabalhar.
- Aceitas?
- Escuta. Aceito D. Adelaide, mediante uma condição; é que ela queira
esperar algum tempo, a fim de que eu comece a minha vida. Pretendo ir ao
governo e pedir um lugar qualquer, se é que ainda me lembro do que aprendi na
escola... Apenas tenha começado a vida, cá virei buscá-la. Queres?
- Se ela consentir, disse Vasconcelos abraçando esta tábua de salvação, é
coisa decidida.
Gomes continuou:
- Bem, falarás nisso amanhã, e mandar-me-ás resposta. Ah! se eu tivesse
ainda a minha fortuna! Era agora que eu queria provar-te a minha estima!
- Bem, ficamos nisto.


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- Espero a tua resposta.
E despediram-se.
Vasconcelos ficou fazendo esta reflexão:
- De tudo quanto ele disse só acredito que já não tem nada. Mas é inútil
esperar: duro com duro não faz bom muro.
Pela sua parte Gomes desceu a escada dizendo consigo:
- O que acho singular é que estando pobre viesse dizer-mo assim tão
antecipadamente quando eu estava caído. Mas esperarás debalde: duas metades
de cavalo não fazem um cavalo.
Vasconcelos desceu.
A sua intenção era comunicar a Augusta o resultado da conversa com o
pretendente. Uma coisa, porém, o embaraçava: era a insistência de Augusta em
não consentir no casamento de Adelaide, sem dar nenhuma razão da recusa.
Ia pensando nisto, quando, ao atravessar a sala de espera, ouviu vozes na
sala de visitas.
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Era Augusta que conversava com Carlota.
Ia entrar quando estas palavras lhe chegaram ao ouvido:
- Mas Adelaide é muito criança.
Era a voz de Augusta.
- Criança! disse Carlota.
- Sim; não está em idade de casar.
- Mas eu no teu caso não punha embargos ao casamento, ainda que fosse
daqui a alguns meses, porque o Gomes não me parece mau rapaz...
- Não é; mas enfim eu não quero que Adelaide se case.
Vasconcelos colou o ouvido à fechadura, e temia perder uma só palavra
do diálogo.
- O que eu não compreendo, disse Carlota, é a tua insistência. Mais tarde
ou mais cedo Adelaide há de vir a casar-se.
- Oh! o mais tarde possível, disse Augusta.
Houve um silêncio.
Vasconcelos estava impaciente.
- Ah! continuou Augusta, se soubesses o terror que me dá a idéia do
casamento de Adelaide.
- Por que, meu Deus?
- Por que, Carlota? Tu pensas em tudo, menos numa coisa. Eu tenho
medo por causa dos filhos dela que serão meus netos! A idéia de ser avó é
horrível, Carlota.
Vasconcelos respirou, e abriu a porta.
- Ah! disse Augusta.
Vasconcelos cumprimentou Carlota, e apenas esta saiu, voltou-se para a
mulher, e disse:
- Ouvi a tua conversa com aquela mulher...
- Não era segredo; mas... que ouviste?
Vasconcelos respondeu sorrindo:
- Ouvi a causa dos teus terrores. Não cuidei nunca que o amor da própria
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beleza pudesse levar a tamanho egoísmo. O casamento com o Gomes não se
realiza; mas se Adelaide amar alguém, não sei como lhe recusaremos o nosso
consentimento...


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- Até lá... esperemos, respondeu Augusta.
A conversa parou nisto; porque aqueles dois consortes distanciavam-se
muito; um tinha a cabeça nos prazeres ruidosos da mocidade, ao passo que a
outra meditava exclusivamente em si.
No dia seguinte Gomes recebeu uma carta de Vasconcelos concebida
nestes termos:
«Meu Gomes. - Ocorre uma circunstância inesperada; é que Adelaide
não quer casar. Gastei a minha lógica, mas não alcancei convencê-la. Teu
Vasconcelos.»
Gomes dobrou a carta e acendeu com ela um charuto, e começou a fumar
fazendo esta reflexão profunda:
- Onde acharei eu uma herdeira que me queira por marido?
Se alguém souber avise-o em tempo.
Depois do que acabamos de contar, Vasconcelos e Gomes encontram-se
às vezes na rua ou no Alcazar; conversam, fumam, dão o braço um ao outro,
exatamente como dois amigos, que nunca foram, ou como dois velhacos que são.
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CONFISSÕES DE UMA VIUVA MOÇA
I
Há dois anos tomei uma resolução singular: fui residir em Petrópolis em
pleno mês de junho. Esta resolução abriu largo campo às conjecturas. Tu mesma,
nas cartas que me escreveste para aqui, deitaste o espírito a adivinhar e figuraste
mil razões, cada qual mais absurda.
A estas cartas, em que a tua solicitude traía a um tempo dois sentimentos,
a afeição da amiga e a curiosidade de mulher, a essas cartas não respondi e nem
podia responder. Não era oportuno abrir-te o meu coração nem desfiar-te a série
de motivos que me arredou da Corte, onde as óperas do teatro Lírico, as tuas
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partidas e os serões familiares do primo Barroso deviam distrair-me da recente
viuvez.
Esta circunstância de viuvez recente acreditavam muitos que fosse o
único motivo da minha fuga. Era a versão menos equívoca. Deixei-a passar como
todas as outras e conservei-me em Petrópolis.
Logo no verão seguinte vieste com teu marido para cá, disposta a não
voltar para a corte sem levar o segredo que eu teimava em não revelar. A palavra
não fez mais do que a carta. Fui discreta como um túmulo, indecifrável como a
Esfinge. Depuseste as armas e partiste.
Desde então não me trataste senão por tua Esfinge.
Era Esfinge, era. E se, como Édipo, tivesses respondido ao meu enigma a
palavra «homem» descobririas o meu segredo, e desfarias o meu encanto.
Mas não antecipemos os acontecimentos, como se diz nos romances.
É tempo de contar-te este episódio da minha vida.
Quero fazê-lo por cartas e não por boca. Talvez corasse de ti. Deste
modo o coração abre-se melhor e a vergonha não vem tolher a palavra nos lábios.
Repara que eu não falo em lágrimas, o que é um sintoma de que a paz voltou ao
meu espírito.
As minhas cartas irão de oito em oito dias, de maneira que a narrativa


[Linha 3350 de 6063 - Parte 3 de 4]


pode fazer-te o efeito de um folhetim de periódico semanal.
Dou-te a minha palavra de que hás de gostar e aprender.
E oito dias depois da minha última carta irei abraçar-te, beijar-te,
agradecer-te. Tenho necessidade de viver. Estes dois anos são nulos na conta de
minha vida: foram dois anos de tédio, de desespero íntimo, de orgulho abatido,
de amor abafado.
Lia, é verdade. Mas só o tempo, a ausência, a idéia do meu coração
enganado, da minha dignidade ofendida, puderam trazer-me a calma necessária, a
calma de hoje.
E sabe que não ganhei só isto. Ganhei conhecer um homem cujo retrato
trago no espírito e que me parece singularmente parecido com outros muitos. Já
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não é pouco; e a lição há de servir-me, como a ti, como às nossas amigas
inexperientes. Mostra-lhes estas cartas; são folhas de um roteiro que se eu tivera
antes, talvez, não houvesse perdido uma ilusão e dois anos de vida.
Devo terminar esta. É o prefácio do meu romance, estudo, conto, o que
quiseres. Não questiono sobre a designação, nem consulto para isso os mestres
d'arte.
Estudo ou romance, isto é simplesmente um livro de verdades, um
episódio singelamente contado, na confabulação íntima dos espíritos, na plena
confiança de dois corações que se estimam e se merecem.
Adeus.
II
Era no tempo de meu marido.
A Corte estava então animada e não tinha esta cruel monotonia que eu
sinto aqui através das tuas cartas e dos jornais de que sou assinante.
Minha casa era um ponto de reunião de alguns rapazes conversados e
algumas moças elegantes. Eu, rainha eleita pelo voto universal... de minha casa,
presidia os serões familiares. Fora de casa, tínhamos os teatros animados, as
partidas das amigas, mil outras distrações que davam à minha vida certas alegrias
exteriores em falta das íntimas, que são as únicas verdadeiras e fecundas.
Se eu não era feliz, vivia alegre.
E aqui vai o começo do meu romance.
Um dia meu marido pediu-me como obséquio especial que eu não fosse
à noite ao teatro Lírico. Dizia ele que não podia acompanhar-me por ser véspera
de saída de paquete.
Era razoável o pedido.
Não sei, porém, que espírito mau sussurrou-me ao ouvido e eu respondi
peremptoriamente que havia de ir ao teatro, e com ele. Insistiu no pedido, insisti
na recusa. Pouco bastou para que eu julgasse a minha honra empenhada naquilo.
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Hoje vejo que era a minha vaidade ou o meu destino.
Eu tinha certa superioridade sobre o espírito de meu marido. O meu tom
imperioso não admitia recusa; meu marido cedeu a despeito de tudo, e à noite
fomos ao teatro Lírico.
Havia pouca gente e os cantores estavam endefluxados. No fim do
primeiro ato meu marido, com um sorriso vingativo, disse-me estas palavras
rindo-se:
- Estimei isto.
- Isto? perguntei eu franzindo a testa.


[Linha 3400 de 6063 - Parte 3 de 4]


- Este espetáculo deplorável. Fizeste da vinda hoje ao teatro um capítulo
de honra; estimo ver que o espetáculo não correspondeu à tua expectativa.
- Pelo contrário, acho magnífico.
- Está bom.
Deves compreender que eu tinha interesse em me não dar por vencida;
mas acreditas facilmente que no fundo eu estava perfeitamente aborrecida do
espetáculo e da noite.
Meu marido, que não ousava retorquir, calou-se com ar de vencido, e
adiantando-se um pouco à frente do camarote percorreu com binóculo as linhas
dos poucos camarotes fronteiros em que havia gente.
Eu recuei a minha cadeira, e, encostada à divisão do camarote, olhava
para o corredor vendo a gente que passava.
No corredor, exatamente em frente à porta do nosso camarote, estava um
sujeito encostado, fumando e com os olhos fitos em mim. Não reparei ao
princípio, mas a insistência obrigou-me a isso. Olhei para ele a ver se era algum
conhecido nosso que esperava ser descoberto a fim de vir então cumprimentarnos.
A intimidade podia explicar este brinco. Mas não conheci.
Depois de alguns segundos, vendo que ele não tirava os olhos de mim,
desviei os meus e cravei-os no pano da boca e na platéia.
Meu marido, tendo acabado o exame dos camarotes, deu-me o binóculo e
sentou-se ao fundo diante de mim.
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Trocamos algumas palavras.
No fim de um quarto de hora a orquestra começou os prelúdios para o
segundo ato. Levantei-me, meu marido aproximou a cadeira para a frente, e nesse
ínterim lancei um olhar furtivo para o corredor.
O homem estava lá.
Disse a meu marido que fechasse a porta.
Começou o segundo ato.
Então, por um espírito de curiosidade, procurei ver se o meu observador
entrava para as cadeiras. Queria conhecê-lo melhor no meio da multidão.
Mas, ou porque não entrasse, ou porque eu não tivesse reparado bem, o
que é certo é que o não vi.
Correu o segundo ato mais aborrecido do que o primeiro.
No intervalo recuei de novo a cadeira, e meu marido, a pretexto de que
fazia calor, abriu a porta do camarote.
Lancei um olhar para o corredor.
Não vi ninguém; mas daí a poucos minutos chegou o mesmo indivíduo,
colocando-se no mesmo lugar, e fitou em mim os mesmos olhos impertinentes.
Somos todas vaidosas da nossa beleza e desejamos que o mundo inteiro
nos admire. É por isso que muitas vezes temos a indiscrição de admirar a corte
mais ou menos arriscada de um homem. Há, porém, uma maneira de fazê-la que
nos irrita e nos assusta; irrita-nos por impertinente, assusta-nos por perigosa. É o
que se dava naquele caso.
O meu admirador insistia de modo tal que me levava a um dilema: ou ele
era vítima de uma paixão louca, ou possuía a audácia mais desfaçada. Em
qualquer dos casos não era conveniente que eu animasse as suas adorações.
Fiz estas reflexões enquanto decorria o tempo do intervalo. Ia começar o
terceiro ato. Esperei que o mudo perseguidor se retirasse e disse a meu marido:
- Vamos?


[Linha 3450 de 6063 - Parte 3 de 4]


- Ah!
- Tenho sono simplesmente; mas o espetáculo está magnífico.
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Meu marido ousou exprimir um sofisma.
- Se está magnífico como te faz sono?
Não lhe dei resposta.
Saímos.
No corredor encontramos a família do Azevedo que voltava de uma
visita a um camarote conhecido. Demorei-me um pouco para abraçar as senhoras.
Disse-lhes que tinha uma dor de cabeça e que me retirava por isso.
Chegamos à porta da rua dos Ciganos.
Aí esperei o carro por alguns minutos.
Quem me havia de aparecer ali, encostado ao portal fronteiro?
O misterioso.
Enraiveci.
Cobri o rosto o mais que pude com o meu capuz e esperei o carro, que
chegou logo.
O misterioso lá ficou tão insensível e tão mudo como o portal a que
estava encostado.
Durante a viagem a idéia daquele incidente não me saiu da cabeça. Fui
despertada da minha distração quando o carro parou à porta da casa, em
Matacavalos.
Fiquei envergonhada de mim mesma e decidi não pensar mais no que se
havia passado.
Mas acreditarás tu, Carlota? Dormi meia hora mais tarde do que
supunha, tanto a minha imaginação teimava em reproduzir o corredor, o portal, e
o meu admirador platônico.
No dia seguinte pensei menos. No fim de oito dias tinha-me varrido do
espírito aquela cena, e eu dava graças a Deus por haver-me salvo de uma
preocupação que podia ser-me fatal.
Quis acompanhar o auxílio divino, resolvendo não ir ao teatro durante
algum tempo.
Sujeitei-me à vida íntima e limitei-me à distração das reuniões à noite.
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Entretanto estava próximo o dia dos anos da tua filhinha. Lembrei-me
que para tomar parte na tua festa de família, tinha começado um mês antes um
trabalhozinho. Cumpria rematá-lo.
Uma quinta-feira de manhã mandei vir os preparos da obra e ia continuála,
quando descobri dentre uma meada de lã um invólucro azul fechando uma
carta.
Estranhei aquilo. A carta não tinha indicação. Estava colada e parecia
esperar que a abrisse a pessoa a quem era endereçada. Quem seria? Seria meu
marido? Acostumada a abrir todas as cartas que lhe eram dirigidas, não hesitei.
Rompi o invólucro e descobri o papel cor-de-rosa que vinha dentro.
Dizia a carta:
«Não se surpreenda, Eugênia; este meio é o do desespero, este desespero
é o do amor. Amo-a e muito. Até certo tempo procurei fugir-lhe e abafar este
sentimento; não posso mais. Não me viu no teatro Lírico? Era uma força oculta e
interior que me levava ali. Desde então não a vi mais. Quando a verei? Não a
veja embora, paciência; mas que o seu coração palpite por mim um minuto em


[Linha 3500 de 6063 - Parte 3 de 4]


cada dia, é quanto basta a um amor que não busca nem as venturas do gozo, nem
as galas da publicidade. Se a ofendo, perdoe um pecador; se pode amar-me, façame
um deus.»
Li esta carta com a mão trêmula e os olhos anuviados; e ainda durante
alguns minutos depois não sabia o que era de mim.
Cruzavam-se e confundiam-se mil idéias na minha cabeça, como estes
pássaros negros que perpassam em bandos no céu nas horas próximas da
tempestade.
Seria o amor que movera a mão daquele incógnito? Seria simplesmente
aquilo um meio de sedutor calculado? Eu lançava um olhar vago em derredor e
temia ver entrar meu marido.
Tinha o papel diante de mim e aquelas letras misteriosas pareciam-me
outros tantos olhos de uma serpente infernal. Com um movimento nervoso e
involuntário amarrotei a carta nas mãos.
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Se Eva tivesse feito outro tanto à cabeça da serpente que a tentava não
houvera pecado. Eu não podia estar certa do mesmo resultado, porque esta que
me aparecia ali e cuja cabeça eu esmagava, podia, como a hidra de Lerna, brotar
muitas outras cabeças.
Não cuides que eu fazia então esta dupla evocação bíblica e pagã.
Naquele momento, não refletia, desvairava; só muito tempo depois pude ligar
duas idéias.
Dois sentimentos atuavam em mim: primeiramente, uma espécie de
terror que infundia o abismo, abismo profundo que eu pressentia atrás daquela
carta; depois uma vergonha amarga de ver que eu não estava tão alta na
consideração daquele desconhecido, que pudesse demovê-lo do meio que
empregou.
Quando o meu espírito se acalmou é que eu pude fazer a reflexão que
devia acudir-me desde o princípio. Quem poria ali aquela carta? Meu primeiro
movimento foi para chamar todos os meus fâmulos. Mas deteve-me logo a idéia
de que por uma simples interrogação nada poderia colher e ficava divulgado o
achado da carta. De que valia isto?
Não chamei ninguém.
Entretanto, dizia eu comigo, a empresa foi audaz; podia falhar a cada
trâmite; que móvel impeliu aquele homem a dar este passo? Seria amor, ou
sedução?
Voltando a este dilema, meu espírito, apesar dos perigos, comprazia-se
em aceitar a primeira hipótese: era a que respeitava a minha consideração de
mulher casada e a minha vaidade de mulher formosa.
Quis adivinhar lendo a carta de novo: li-a, não uma, mas duas, três, cinco
vezes.
Uma curiosidade indiscreta prendia-me àquele papel. Fiz um esforço e
resolvi aniquilá-lo, protestando que ao segundo caso nenhum escravo ou criado
me ficaria em casa.
Atravessei a sala com o papel na mão, dirigi-me para o meu gabinete,
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onde acendi uma vela e queimei aquela carta que me queimava as mãos e a
cabeça.
Quando a última faísca do papel enegreceu e voou, senti passos atrás de
mim. Era meu marido.


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Tive um movimento espontâneo: atirei-me em seus braços.
Ele abraçou-me com certo espanto.
E quando o meu abraço se prolongava senti que ele me repelia com
brandura dizendo-me:
- Está bom, olha que me afogas!
Recuei.
Entristeceu-me ver aquele homem, que podia e devia salvar-me, não
compreender, por instinto ao menos, que se eu o abraçava tão estreitamente era
como se me agarrasse à idéia do dever.
Mas este sentimento que me apertava o coração passou um momento
para dar lugar a um sentimento de medo. As cinzas da carta ainda estavam no
chão, a vela conservava-se acesa em pleno dia; era bastante para que ele me
interrogasse.
Nem por curiosidade o fez!
Deu dois passos no gabinete e saiu.
Senti uma lágrima rolar-me pela face. Não era a primeira lágrima de
amargura. Seria a primeira advertência do pecado?
III
Decorreu um mês.
Não houve durante esse tempo mudança alguma em casa. Nenhuma carta
apareceu mais, e a minha vigilância, que era extrema, tornou-se de todo inútil.
Não me podia esquecer o incidente da carta. Se fosse só isto! As
primeiras palavras voltavam-me incessantemente à memória; depois, as outras, as
outras, todas. Eu tinha a carta de cor!
123
Lembras-te? Uma das minhas vaidades era ter a memória feliz. Até neste
dote era castigada. Aquelas palavras atordoavam-me, faziam-me arder a cabeça.
Por quê? Ah! Carlota! é que eu achava nelas um encanto indefinível, encanto
doloroso, porque era acompanhado de um remorso, mas encanto de que eu me
não podia libertar.
Não era o coração que se empenhava, era a imaginação. A imaginação
perdia-me; a luta do dever e da imaginação é cruel e perigosa para os espíritos
fracos. Eu era fraca. O mistério fascinava a minha fantasia.
Enfim os dias e as diversões puderam desviar o meu espírito daquele
pensamento único. No fim de um mês, se eu não tinha esquecido inteiramente o
misterioso e a carta dele, estava, todavia, bastante calma para rir de mim e dos
meus temores.
Na noite de uma quinta-feira, achavam-se algumas pessoas em minha
casa, e muitas das minhas amigas, menos tu. Meu marido não tinha voltado, e a
ausência dele não era notada nem sentida, visto que, apesar de franco cavalheiro
como era, não tinha o dom particular de um conviva para tais reuniões.
Tinha-se cantado, tocado, conversado; reinava em todos a mais franca e
expansiva alegria; o tio da Amélia Azevedo fazia rir a todos com as suas
excentricidades; a Amélia arrebatava bravos a todos com as notas da sua
garganta celeste; estávamos em um intervalo, esperando a hora do chá.
Anunciou-se meu marido.
Não vinha só. Vinha ao lado dele um homem alto, magro, elegante. Não
pude conhecê-lo. Meu marido adiantou-se, e no meio do silêncio geral veio
apresentar-mo.
Ouvi de meu marido que o nosso conviva chamava-se Emílio ***.


[Linha 3600 de 6063 - Parte 3 de 4]


Fixei nele um olhar e retive um grito.
Era ele!
O meu grito foi substituído por um gesto de surpresa. Ninguém percebeu.
Ele pareceu perceber menos que ninguém. Tinha os olhos fixos em mim, e com
um gesto gracioso dirigiu-me algumas palavras de lisonjeira cortesia.
124
Respondi como pude.
Seguiram-se as apresentações, e durante dez minutos houve um silêncio
de acanhamento em todos.
Os olhos voltavam-se todos para o recém-chegado. Eu também voltei os
meus e pude reparar naquela figura em que tudo estava disposto para atrair as
atenções: cabeça formosa e altiva, olhar profundo e magnético, maneiras
elegantes e delicadas, certo ar distinto e próprio que fazia contraste com o ar
afetado e prosaicamente medido dos outros rapazes.
Este exame de minha parte foi rápido. Eu não podia, nem me convinha
encontrar o olhar de Emílio. Tornei a abaixar os olhos e esperei ansiosa que a
conversação voltasse de novo ao seu curso.
Meu marido encarregou-se de dar o tom. Infelizmente era ainda o novo
conviva o motivo da conversa geral.
Soubemos então que Emílio era um provinciano filho de pais opulentos,
que recebera uma esmerada educação na Europa, onde não houve um só recanto
que não visitasse.
Voltara há pouco tempo ao Brasil, e antes de ir para a província tinha
determinado passar algum tempo no Rio de Janeiro.
Foi tudo quanto soubemos. Vieram as mil perguntas sobre as viagens de
Emílio, e este, com a mais amável solicitude, satisfazia a curiosidade geral.
Só eu não era curiosa. É que não podia articular palavra. Pedia
interiormente a explicação deste romance misterioso, começado em um corredor
do teatro, continuado em uma carta anônima e na apresentação em minha casa
por intermédio do meu próprio marido.
De quando em quando levantava os olhos para Emílio e achava-o calmo
e frio, respondendo polidamente às interrogações dos outros e narrando ele
próprio, com uma graça modesta e natural, alguma das suas aventuras de viagem.
Ocorreu-me uma idéia. Seria realmente ele o misterioso do teatro e da
carta? Pareceu-me ao princípio que sim, mas eu podia ter-me enganado; eu não
tinha as feições do outro bem presentes à memória; parecia-me que as duas
125
criaturas eram uma e a mesma; mas não podia explicar-se o engano por uma
semelhança miraculosa?
De reflexão em reflexão, foi-me correndo o tempo, e eu assistia à
conversa de todos como se não estivesse presente. Veio a hora do chá. Depois
cantou-se e tocou-se ainda. Emílio ouvia tudo com atenção religiosa e mostravase
tão apreciador de gosto como era conversador discreto e pertinente.
No fim da noite tinha cativado a todos. Meu marido, sobretudo, estava
radiante. Via-se que ele se considerava feliz por ter feito a descoberta de mais um
amigo para si e um companheiro para as nossas reuniões de família.
Emílio saiu prometendo voltar algumas vezes.
Quando eu me achei a sós com meu marido, perguntei-lhe:
- Donde conheces este homem?
- É uma pérola, não é? Foi-me apresentado no escritório há dias;


[Linha 3650 de 6063 - Parte 3 de 4]


simpatizei logo; parece ser dotado de boa alma, é vivo de espírito e discreto
como o bom senso. Não há ninguém que não goste dele...
E como eu o ouvisse séria e calada, meu marido interrompeu-se e
perguntou-me:
- Fiz mal em trazê-lo aqui?
- Mal, por quê? perguntei eu.
- Por coisa nenhuma. Que mal havia de ser? É um homem distinto...
Pus termo ao novo louvor do rapaz, chamando um escravo para dar
algumas ordens.
E retirei-me ao meu quarto.
O sono dessa noite não foi o sono dos justos, podes crer. O que me
irritava era a preocupação constante em que eu andava depois destes
acontecimentos. Já eu não podia fugir inteiramente a essa preocupação: era
involuntária, subjugava-me, arrastava-me. Era a curiosidade do coração, esse
primeiro sinal das tempestades em que sucumbe a nossa vida e o nosso futuro.
Parece que aquele homem lia na minha alma e sabia apresentar-se no
momento mais próprio a ocupar-me a imaginação como uma figura poética e
126
imponente. Tu, que o conheceste depois, dize-me se, dadas as circunstâncias
anteriores, não era para produzir esta impressão no espírito de uma mulher como
eu!
Como eu, repito. Minhas circunstâncias eram especiais; se não o
soubeste nunca, suspeitaste-o ao menos.
Se meu marido tivesse em mim uma mulher, e se eu tivesse nele um
marido, minha salvação era certa. Mas não era assim. Entramos no nosso lar
nupcial como dois viajantes estranhos em uma hospedaria, e aos quais a
calamidade do tempo e a hora avançada da noite obrigam a aceitar pousada sob o
teto do mesmo aposento.
Meu casamento foi resultado de um cálculo e de uma conveniência. Não
inculpo meus pais. Eles cuidavam fazer-me feliz e morreram na convicção de que
o era.
Eu podia, apesar de tudo, encontrar no marido que me davam um objeto
de felicidade para todos os meus dias. Bastava para isso que meu marido visse
em mim uma alma companheira da sua alma, um coração sócio do seu coração.
Não se dava isto; meu marido entendia o casamento ao modo da maior parte da
gente; via nele a obediência às palavras do Senhor no Gênesis.
Fora disso, fazia-me cercar de certa consideração e dormia tranqüilo na
convicção de que havia cumprido o seu dever.
O dever! esta era a minha tábua de salvação. Eu sabia que as paixões não
eram soberanas e que a nossa vontade pode triunfar delas. A este respeito eu
tinha em mim forças bastantes para repelir idéias más. Mas não era o presente
que me abafava e atemorizava; era o futuro. Até então aquele romance influía no
meu espírito pela circunstância do mistério em que vinha envolto; a realidade
havia de abrir-me os olhos; consolava-me a esperança de que eu triunfaria de um
amor culpado. Mas, poderia nesse futuro, cuja proximidade eu não calculava,
resistir convenientemente à paixão e salvar intactas a minha consideração e a
minha consciência? Esta era a questão.
Ora, no meio destas oscilações, eu não via a mão do meu marido
127
estender-se para salvar-me. Pelo contrário, quando na ocasião de queimar a carta,


[Linha 3700 de 6063 - Parte 3 de 4]


atirava-me a ele, lembras-te que ele me repeliu com uma palavra de enfado.
Isto pensei, isto senti, na longa noite que se seguiu à apresentação de
Emílio.
No dia seguinte estava fatigada de espírito; mas, ou fosse calma ou fosse
prostração, senti que os pensamentos dolorosos que me haviam torturado durante
a noite esvaeceram-se à luz da manhã, como verdadeiras aves da noite e da
solidão.
Então abriu-se ao meu espírito um raio de luz. Era a repetição do mesmo
pensamento que me voltava no meio das preocupações daqueles últimos dias.
Por que temer? dizia eu comigo. Sou uma triste medrosa; e fatigo-me em
criar montanhas para cair extenuada no meio da planície. Eia! nenhum obstáculo
se opõe ao meu caminho de mulher virtuosa e considerada. Este homem, se é o
mesmo, não passa de um mau leitor de romances realistas. O mistério é que lhe
dá algum valor; visto de mais perto há de ser vulgar ou hediondo.
IV
Não te quero fatigar com a narração minuciosa e diária de todos os
acontecimentos.
Emílio continuou a freqüentar a nossa casa, mostrando sempre a mesma
delicadeza e gravidade, e encantando a todos por suas maneiras distintas sem
afetação, amáveis sem fingimento.
Não sei por que meu marido revelava-se cada vez mais amigo de Emílio.
Este conseguira despertar nele um entusiasmo novo para mim e para todos. Que
capricho era esse da natureza?
Muitas vezes interroguei meu marido acerca desta amizade tão súbita e
tão estrepitosa; quis até inventar suspeitas no espírito dele; meu marido era
inabalável.
- Que queres? respondia-me ele. Não sei por que simpatizo
128
extraordinariamente com este rapaz. Sinto que é uma bela pessoa, e eu não posso
dissimular o entusiasmo de que me possuo quando estou perto dele.
- Mas sem conhecê-lo... objetava eu.
- Ora essa! Tenho as melhores informações; e demais, vê-se logo que é
uma pessoa distinta...
- As maneiras enganam muitas vezes.
- Conhece-se...
Confesso, minha amiga, que eu podia impor a meu marido o afastamento
de Emílio; mas quando esta idéia me vinha à cabeça, não sei por que ria-me dos
meus temores e declarava-me com forças de resistir a tudo o que pudesse
sobrevir.
Demais, o procedimento de Emílio autorizava-me a desarmar. Ele era
para mim de um respeito inalterável, tratava-me como a todas as outras, sem
deixar entrever a menor intenção oculta, o menor pensamento reservado.
Sucedeu o que era natural. Diante de tal procedimento não me ficava
bem proceder com rigor e responder com a indiferença à amabilidade.
As coisas marchavam de tal modo que eu cheguei a persuadir-me de que
tudo o que sucedera antes não tinha relação alguma com aquele rapaz, e que não
havia entre ambos mais do que um fenômeno da semelhança, o que aliás eu não
podia afirmar, porque, como te disse já, não pudera reparar bem no homem do
teatro.
Aconteceu que dentro de pouco tempo estávamos na maior intimidade, e


[Linha 3750 de 6063 - Parte 3 de 4]


eu era para ele o mesmo que todas as outras: admiradora e admirada.
Das reuniões passou Emílio às simples visitas de dia, nas horas em que
meu marido estava presente, e mais tarde, mesmo quando ele se achava ausente.
Meu marido de ordinário era quem o trazia. Emílio vinha então no seu
carrinho que ele próprio dirigia, com a maior graça e elegância. Demorava-se
horas e horas em nossa casa, tocando piano ou conversando.
A primeira vez que o recebi só, confesso que estremeci; mas foi um susto
pueril; Emílio procedeu sempre do modo mais indiferente em relação às minhas
129
suspeitas. Nesse dia, se algumas suspeitas me ficaram, desvaneceram-se todas.
Nisto passaram-se dois meses.
Um dia, era de tarde, eu estava só; esperava-te para irmos visitar teu pai
enfermo. Parou um carro à porta. Mandei ver. Era Emílio.
Recebi-o como de costume.
Disse-lhe que íamos visitar um doente, e ele quis logo sair. Disse-lhe que
ficasse até a tua chegada. Ficou como se outro motivo o detivesse além de um
dever de cortesia.
Passou-se meia hora.
Nossa conversa foi sobre assuntos indiferentes.
Em um dos intervalos da conversa Emílio levantou-se e foi à janela. Eu
levantei-me igualmente para ir ao piano buscar um leque. Voltando para o sofá
reparei pelo espelho que Emílio me olhava com um olhar estranho. Era uma
transfiguração. Parecia que naquele olhar estava concentrada toda a alma dele.
Estremeci.
Todavia fiz um esforço sobre mim e fui sentar-me, então mais séria que
nunca.
Emílio encaminhou-se para mim.
Olhei para ele.
Era o mesmo olhar.
Baixei os meus olhos.
- Assustou-se? perguntou-me ele.
Não respondi nada. Mas comecei a tremer de novo e parecia-me que o
coração me queria pular fora do peito.
É que naquelas palavras havia a mesma expressão do olhar; as palavras
faziam-me o efeito das palavras da carta.
- Assustou-se? repetiu ele.
- De quê? perguntei eu procurando rir para não dar maior gravidade à
situação.
- Pareceu-me.
130
Houve um silêncio.
- D. Eugênia, disse ele sentando-se; não quero por mais tempo ocultar o
segredo que faz o tormento da minha vida. Fora um sacrifício inútil. Feliz ou
infeliz, prefiro a certeza da minha situação. D. Eugênia, eu amo-a.
Não te posso descrever como fiquei ouvindo estas palavras. Senti que
empalidecia; minhas mãos estavam geladas. Quis falar: não pude.
Emílio continuou:
- Oh! eu bem sei a que me exponho. Vejo como este amor é culpado.
Mas que quer? É fatalidade. Andei tantas léguas, passei à ilharga de tantas
belezas, sem que o meu coração pulsasse. Estava-me reservada a ventura rara ou


[Linha 3800 de 6063 - Parte 3 de 4]


o tremendo infortúnio de ser amado ou desprezado pela senhora. Curvo-me ao
destino. Qualquer que seja a resposta que eu possa obter, não recuso, aceito. Que
me responde?
Enquanto ele falava, eu podia, ouvindo-lhe as palavras, reunir algumas
idéias. Quando ele acabou levantei os olhos e disse:
- Que resposta espera de mim?
- Qualquer.
- Só pode esperar uma...
- Não me ama?
- Não! Nem posso e nem amo, nem amaria se pudesse ou quisesse... Peço
que se retire.
E levantei-me.
Emílio levantou-se.
- Retiro-me, disse ele; e parto com o inferno no coração.
Levantei os ombros em sinal de indiferença.
- Oh! eu bem sei que isso lhe é indiferente. É isso o que eu mais sinto. Eu
preferia o ódio; o ódio, sim; mas a indiferença, acredite, é o pior castigo. Mas eu
o recebo resignado. Tamanho crime deve ter tamanha pena.
E tomando o chapéu chegou-se a mim de novo.
Eu recuei dois passos.
131
- Oh! não tenha medo. Causo-lhe medo?
- Medo? retorqui eu com altivez.
- Asco? perguntou ele.
- Talvez... murmurei.
- Uma única resposta, tornou Emílio; conserva aquela carta?
- Ah! disse eu. Era o autor da carta?
- Era. E aquele misterioso do corredor do teatro Lírico. Era eu. A carta?
- Queimei-a.
- Preveniu o meu pensamento.
E cumprimentando-me friamente dirigiu-se para a porta. Quase a chegar
à porta senti que ele vacilava e levava a mão ao peito.
Tive um momento de piedade. Mas era necessário que ele se fosse, quer
sofresse quer não. Todavia, dei um passo para ele e perguntei-lhe de longe:
- Quer dar-me uma resposta?
Ele parou e voltou-se.
- Pois não!
- Como é que para praticar o que praticou fingiu-se amigo de meu
marido?
- Foi um ato indigno, eu sei; mas o meu amor é daqueles que não recuam
ante a indignidade. É o único que eu compreendo. Mas, perdão; não quero
enfadá-la mais. Adeus! Para sempre!
E saiu.
Pareceu-me ouvir um soluço.
Fui sentar-me no sofá. Daí a pouco ouvi o rodar do carro.
O tempo que mediou entre a partida dele e a tua chegada não sei como se
passou. No lugar em que fiquei aí me achaste.
Até então eu não tinha visto o amor senão nos livros. Aquele homem
parecia-me realizar o amor que eu sonhara e vira descrito. A idéia de que o
coração de Emílio sangrava naquele momento despertou em mim um sentimento


[Linha 3850 de 6063 - Parte 3 de 4]


vivo de piedade. A piedade foi um primeiro passo.
132
- Quem sabe, dizia eu comigo mesma, o que ele está agora sofrendo? E
que culpa é a dele, afinal de contas? Ama-me, disse-mo: o amor foi mais forte do
que a razão; não viu que eu era sagrada para ele; revelou-se. Ama, é a sua
desculpa.
Depois repassava na memória todas as palavras dele e procurava
recordar-me do tom em que ele as proferira. Lembrava-me também do que eu
dissera e o tom com que respondera às suas confissões.
Fui talvez severa demais. Podia manter a minha dignidade sem abrir-lhe
uma chaga no coração. Se eu falasse com mais brandura podia adquirir dele o
respeito e a veneração. Agora há de amar-me ainda, mas não se recordará do que
se passou sem um sentimento de amargura.
Estava nestas reflexões quando entraste.
Lembras-te que me achaste triste e perguntaste a causa disso. Nada te
respondi. Fomos à casa da tua tia, sem que eu nada mudasse do ar que tinha
antes.
À noite quando meu marido me perguntou por Emílio, respondi sem
saber o que respondia:
- Não veio cá hoje.
- Deveras? disse ele. Então está doente.
- Não sei.
- Lá vou amanhã.
- Lá onde?
- À casa dele.
- Para quê?
- Talvez esteja doente.
- Não creio; esperemos até ver...
Passei uma noite angustiosa. A idéia de Emílio perturbava-me o sono.
Afigurava-se-me que ele estaria àquela hora chorando lágrimas de sangue no
desespero do amor não aceito.
Era piedade? Era amor?
133
Carlota, era uma e outra coisa. Que podia ser mais? Eu tinha posto o pé
em uma senda fatal; uma força me atraía. Eu fraca, podendo ser forte. Não me
inculpo senão a mim.
Até domingo.
V
Na tarde seguinte, quando meu marido voltou perguntei por Emílio.
- Não o procurei, respondeu-me ele; tomei o conselho; se não vier hoje,
sim.
Passou-se, pois, um dia sem ter notícias dele.
No dia seguinte, não tendo aparecido, meu marido foi lá.
Serei franca contigo, eu mesma lembrei isso a meu marido.
Esperei ansiosa a resposta.
Meu marido voltou pela tarde. Tinha um certo ar triste. Perguntei o que
havia.
- Não sei. Fui encontrar com o rapaz de cama. Disse-me que era uma
ligeira constipação; mas eu creio que não é isso só...
- Que será então? perguntei eu, fitando um olhar em meu marido.


[Linha 3900 de 6063 - Parte 3 de 4]


- Alguma coisa mais. O rapaz falou-me em embarcar para o norte. Está
triste, distraído, preocupado. Ao mesmo tempo que manifesta a esperança de ver
os pais, revela receios de não tornar a vê-los. Tem idéias de morrer na viagem.
Não sei que lhe aconteceu, mas foi alguma coisa. Talvez...
- Talvez?
- Talvez alguma perda de dinheiro.
Esta resposta transtornou o meu espírito. Posso afirmar-te que esta
resposta entrou por muito nos acontecimentos posteriores.
Depois de algum silêncio perguntei:
- Mas que pretendes fazer?
- Abrir-me com ele. Perguntar o que é, e acudir-lhe se for possível. Em
134
qualquer caso não o deixarei partir. Que achas?
- Acho que sim.
Tudo o que ia acontecendo contribuía poderosamente para tornar a idéia
de Emílio cada vez mais presente à minha memória, e, é com dor que o confesso,
não pensava já nele sem pulsações do coração.
Na noite do dia seguinte estávamos reunidas algumas pessoas. Eu não
dava grande vida à reunião. Estava triste e desconsolada. Estava com raiva de
mim própria. Fazia-me algoz de Emílio e doía-me a idéia de que ele padecesse
ainda mais por mim.
Mas, seriam nove horas, quando meu marido apareceu trazendo Emílio
pelo braço.
Houve um movimento geral de surpresa.
Realmente porque Emílio não aparecia alguns dias já todos começavam a
perguntar por ele; depois, porque o pobre moço vinha pálido de cera.
Não te direi o que se passou nessa noite. Emílio parecia sofrer, não
estava alegre como dantes; ao contrário, era naquela noite de uma taciturnidade,
de uma tristeza que incomodava a todos, mas que me mortificava atrozmente, a
mim que me fazia causa das suas dores.
Pude falar-lhe em uma ocasião, a alguma distância das outras pessoas.
- Desculpe-me, disse-lhe eu, se alguma palavra dura lhe disse
compreenda a minha posição. Ouvindo bruscamente o que me disse não pude
pensar no que dizia. Sei que sofreu; peço-lhe que não sofra mais, que esqueça...
- Obrigado, murmurou ele.
- Meu marido falou-me de projetos seus...
- De voltar à minha província, é verdade.
- Mas doente...
- Esta doença há de passar.
E dizendo isto lançou-me um olhar tão sinistro que eu tive medo.
- Passar? passar como?
- De algum modo.
135
- Não diga isso...
- Que me resta mais na terra?
E voltou os olhos para enxugar uma lágrima.
- Que é isso? disse eu. Está chorando?
- As últimas lágrimas.
- Oh! se soubesse como me faz sofrer! Não chore; eu lho peço. Peço-lhe
mais. Peço-lhe que viva.


[Linha 3950 de 6063 - Parte 3 de 4]


- Oh!
- Ordeno-lhe.
- Ordena-me? E se eu não obedecer? Se eu não puder?... Acredita que se
possa viver com um espinho no coração?
Isto que te escrevo é feio. A maneira por que ele falava é que era
apaixonada, dolorosa, comovente. Eu ouvia sem saber de mim. Aproximavam-se
algumas pessoas. Quis pôr termo à conversa e disse-lhe:
- Ama-me? disse eu. Só o amor pode ordenar? Pois é o amor que lhe
ordena que viva!
Emílio fez um gesto de alegria. Levantei-me para ir falar às pessoas que
se aproximavam.
- Obrigado, murmurou-me ele aos ouvidos.
Quando, no fim do serão, Emílio se despediu de mim, dizendo-me, com
um olhar em que a gratidão e o amor irradiavam juntos: - Até amanhã! - não sei
que sentimento de confusão e de amor, de remorso e de ternura se apoderou de
mim.
- Bem; Emílio está mais alegre, dizia-me meu marido.
Eu olhei para ele sem saber o que responder.
Depois retirei-me precipitadamente. Parecia-me que via nele a imagem
da minha consciência.
No dia seguinte recebi de Emílio esta carta:
«Eugênia. Obrigado. Torno-me à vida, e à senhora o devo. Obrigado! fez
de um cadáver um homem, faça agora de um homem um deus. Ânimo! Ânimo!»
136
Li esta carta, reli, e... dir-to-ei, Carlota? beijei-a. Beijei-a repetidas vezes
com alma, com paixão, com delírio. Eu amava! eu amava!
Então houve em mim a mesma luta, mas estava mudada a situação dos
meus sentimentos. Antes era o coração que fugia à razão, agora a razão fugia ao
coração.
Era um crime, eu bem o via, bem o sentia; mas não sei qual era a minha
fatalidade, qual era a minha natureza; eu achava nas delícias do crime desculpa
ao meu erro, e procurava com isso legitimar a minha paixão.
Quando meu marido se achava perto de mim eu me sentia melhor e mais
corajosa...
Paro aqui desta vez. Sinto uma opressão no peito. É a recordação de
todos estes acontecimentos.
Até domingo.
VI
Seguiram-se alguns dias às cenas que eu te contei na minha carta
passada.
Ativou-se entre mim e Emílio uma correspondência. No fim de quinze
dias eu só vivia do pensamento dele.
Ninguém dos que freqüentavam a nossa casa, nem mesmo tu, pôde
descobrir este amor. Éramos dois namorados discretos ao último ponto.
É certo que muitas vezes me perguntavam por que é que eu me distraía
tanto e andava tão melancólica; isto chamava-me à vida real e eu mudava logo de
parecer.
Meu marido sobretudo parecia sofrer com as minhas tristezas.
A sua solicitude, confesso, incomodava-me. Muitas vezes lhe respondia
mal, não já porque eu o odiasse, mas porque de todos era ele o único a quem eu


[Linha 4000 de 6063 - Parte 3 de 4]


não quisera ouvir destas interrogações.
Um dia voltando para casa à tarde chegou-se ele a mim e disse:
137
- Eugênia, tenho uma notícia a dar-te.
- Qual?
- E que te há de agradar muito.
- Vejamos qual é.
- É um passeio.
- Aonde?
- A idéia foi minha. Já fui ao Emílio e ele aplaudiu muito. O passeio deve
ser domingo à Gávea; iremos daqui muito cedinho. Tudo isto, é preciso notar,
não está decidido. Depende de ti. O que dizes?
- Aprovo a idéia.
- Muito bem. A Carlota pode ir.
- E deve ir, acrescentei eu; e algumas outras amigas.
Pouco depois recebias tu e outras um bilhete de convite para o passeio.
Lembras-te que lá fomos. O que não sabes é que nesse passeio, a favor
da confusão e a distração geral, houve entre mim e Emílio um diálogo que foi
para mim a primeira amargura de amor.
- Eugênia, dizia ele dando-me o braço, estás certa de que me amas?
- Estou.
- Pois bem. O que te peço, nem sou eu que te peço, é o meu coração, é o
teu coração que te pedem, um movimento nobre e capaz de nos engrandecer aos
nossos próprios olhos. Não haverá um recanto no mundo em que possamos viver,
longe de todos e perto do céu?
- Fugir?
- Sim!
- Oh! isso nunca!
- Não me amas.
- Amo, sim; é já um crime, não quero ir além.
- Recusas a felicidade?
- Recuso a desonra.
- Não me amas.
138
- Oh! meu Deus, como respondê-lo? Amo, sim; mas desejo ficar a seus
olhos a mesma mulher, amorosa é verdade, mas até certo ponto... pura.
- O amor que calcula, não é amor.
Não respondi. Emílio disse estas palavras com uma expressão tal de
desdém e com uma intenção de ferir-me que eu senti o coração bater-me
apressado, e subir-me o sangue ao rosto.
O passeio acabou mal.
Esta cena tornou Emílio frio para mim; eu sofria com isso; procurei
torná-lo ao estado anterior; mas não consegui.
Um dia em que nos achávamos a sós, disse-lhe:
- Emílio, se eu amanhã te acompanhasse, o que farias?
- Cumpria essa ordem divina.
- Mas depois?
- Depois? perguntou Emílio com ar de quem estranhava a pergunta.
- Sim, depois, continuei eu; depois quando o tempo volvesse não me
havias de olhar com desprezo?


[Linha 4050 de 6063 - Parte 3 de 4]


- Desprezo? Não vejo...
- Como não? Que te mereceria eu depois?
- Oh! esse sacrifício seria feito por minha causa, eu fora covarde se te
lançasse isso em rosto.
- Di-lo-ias no teu íntimo.
- Juro que não.
- Pois a meus olhos é assim; eu nunca me perdoaria esse erro.
Emílio pôs o rosto nas mãos e pareceu chorar. Eu que até ali falava com
esforço, fui a ele e tirei-lhe o rosto das mãos.
- Que é isto? disse eu. Não vês que me fazes chorar também?
Ele olhou para mim com os olhos rasos de lágrimas. Eu tinha os meus
úmidos.
- Adeus, disse ele repentinamente. Vou partir.
E deu um passo para a porta.
139
- Se me prometes viver, disse-lhe, parte; se tens alguma idéia sinistra,
fica.
Não sei o que viu ele no meu olhar, mas tomando a mão que eu lhe
estendia beijou-a repetidas vezes (eram os primeiros beijos) e disse-me com
fogo:
- Fico, Eugênia!
Ouvimos um ruído fora. Mandei ver. Era meu marido que chegava
enfermo. Tinha tido um ataque no escritório. Tornara a si, mas achava-se mal.
Alguns amigos o trouxeram dentro de um carro.
Corri para a porta. Meu marido vinha pálido e desfeito. Mal podia andar
ajudado pelos amigos.
Fiquei desesperada, não cuidei de mais coisa alguma. O médico que
acompanhara meu marido mandou logo fazer algumas aplicações de remédios.
Eu estava impaciente; perguntava a todos se meu marido estava salvo.
Todos me tranqüilizavam.
Emílio mostrou-se pesaroso com o acontecimento. Foi a meu marido e
apertou-lhe a mão.
Quando Emílio quis sair, meu marido disse-lhe:
- Olhe, sei que não pode estar aqui sempre; peço-lhe, porém, que venha,
se puder, todos os dias.
- Pois não, disse Emílio.
E saiu.
Meu marido passou mal o resto daquele dia e a noite. Eu não dormi.
Passei a noite no quarto.
No dia seguinte estava exausta. Tantas comoções diversas e uma vigília
tão longa deixaram-me prostrada: cedi à força maior. Mandei chamar a prima
Elvira e fui deitar-me.
Fecho esta carta neste ponto. Pouco falta para chegar ao termo da minha
triste narração.
Até domingo.
140
VII
A moléstia de meu marido durou poucos dias. De dia para dia agravavase.
No fim de oito dias os médicos desenganaram o doente.
Quando recebi esta fatal nova fiquei como louca. Era meu marido,


[Linha 4100 de 6063 - Parte 3 de 4]


Carlota, e apesar de tudo eu não podia esquecer que ele tinha sido companheiro
da minha vida e a idéia salvadora nos desvios do meu espírito.
Emílio achou-me num estado de desespero. Procurou consolar-me. Eu
não lhe ocultei que esta morte era um golpe profundo para mim.
Uma noite estávamos juntos todos, eu, a prima Elvira, uma parenta de
meu marido e Emílio. Fazíamos companhia ao doente. Este, depois de um longo
silêncio, voltou-se para mim e disse-me:
- A tua mão.
E apertando-me a mão com uma energia suprema, voltou-se para a
parede.
Expirou.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Passaram-se quatro meses depois dos fatos que te contei. Emílio
acompanhou-me na dor e foi dos mais assíduos em todas as cerimônias fúnebres
que se fizeram ao meu finado marido.
Todavia, as visitas começaram a escassear. Era, parecia-me, por motivo
de uma delicadeza natural.
No fim do prazo de que te falei, soube, por boca de um dos amigos de
meu marido, que Emílio ia partir. Não pude crer. Escrevi-lhe uma carta.
Eu amava-o então, como dantes, mais ainda agora que estava livre.
Dizia a carta:
«Emílio. Constou-me que ias partir. Será possível? Eu mesma não posso
acreditar nos meus ouvidos! Bem sabes que eu te amo. Não é tempo de coroar
nossos votos; mas não faltará muito para que o mundo nos releve uma união que
141
o amor nos impõe. Vem tu mesmo responder-me por boca. Tua Eugênia.»
Emílio veio em pessoa. Asseverou-me que, se ia partir, era por negócio
de pouco tempo, mas que voltaria logo. A viagem devia ter lugar daí a oito dias.
Pedi-lhe que jurasse o que dizia, e ele jurou.
Deixei-o partir.
Daí a quatro dias recebia eu a seguinte carta dele:
«Menti, Eugênia; vou partir já. Menti ainda, eu não volto. Não volto
porque não posso. Uma união contigo seria para mim o ideal da felicidade se eu
não fosse homem de hábitos opostos ao casamento. Adeus. Desculpa-me, e reza
para que eu faça boa viagem. Adeus. Emílio.»
Avalias facilmente como fiquei depois de ler esta carta. Era um castelo
que se desmoronava. Em troca do meu amor, do meu primeiro amor, recebia
deste modo a ingratidão e o desprezo. Era justo: aquele amor culpado não podia
ter bom fim; eu fui castigada pelas conseqüências mesmo do meu crime.
Mas, perguntava eu, como é que este homem, que parecia amar-me tanto,
recusou aquela de cuja honestidade podia estar certo, visto que pôde opor uma
resistência aos desejos de seu coração? Isto me pareceu um mistério. Hoje vejo
que não era; Emílio era um sedutor vulgar e só se diferençava dos outros em ter
um pouco mais de habilidade que eles.
Tal é a minha história. Imagina o que sofri nestes dois anos. Mas o
tempo é um grande médico: estou curada.
O amor ofendido e o remorso de haver de algum modo traído a confiança
de meu esposo fizeram-me doer muito. Mas eu creio que caro paguei o meu
crime e acho-me reabilitada perante a minha consciência.
Achar-me-ei perante Deus?


[Linha 4150 de 6063 - Parte 3 de 4]


E tu? É o que me hás de explicar amanhã; vinte e quatro horas depois de
partir esta carta eu serei contigo.
Adeus!
142
**************************************************************************************************************


LINHA RETA E LINHA CURVA
I
Era em Petrópolis, no ano de 186... Já se vê que a minha história não data
de longe. É tomada dos anais contemporâneos e dos costumes atuais. Talvez
algum dos leitores conheça até as personagens que vão figurar neste pequeno
quadro. Não será raro que, encontrando uma delas amanhã, Azevedo, por
exemplo, um dos meus leitores exclame:
- Ah! cá vi uma história em que se falou de ti. Não te tratou mal o autor.
Mas a semelhança era tamanha, houve tão pouco cuidado em disfarçar a
fisionomia, que eu, à proporção que voltava a página, dizia comigo: É o
Azevedo, não há dúvida.
Feliz Azevedo! A hora em que começa essa narrativa é ele um marido
143
feliz, inteiramente feliz. Casado de fresco, possuindo por mulher a mais formosa
dama da sociedade, e a melhor alma que ainda se encarnou ao sol da América,
dono de algumas propriedades bem situadas e perfeitamente rendosas, acatado,
querido, descansado, tal é o nosso Azevedo, a quem por cúmulo de ventura
coroam os mais belos vinte e seis anos.
Deu-lhe a fortuna um emprego suave: não fazer nada. Possui um diploma
de bacharel em direito; mas esse diploma nunca lhe serviu; existe guardado no
fundo da lata clássica em que o trouxe da faculdade de São Paulo. De quando em
quando Azevedo faz uma visita ao diploma, aliás ganho legitimamente, mas é
para não o ver mais senão daí a longo tempo. Não é um diploma, é uma relíquia.
Quando Azevedo saiu da faculdade de São Paulo e voltou para a fazenda
da província de Minas Gerais, tinha um projeto: ir à Europa. No fim de alguns
meses o pai consentiu na viagem, e Azevedo preparou-se para realizá-la. Chegou
à corte no propósito firme de tomar lugar no primeiro paquete que saísse; mas
nem tudo depende da vontade do homem. Azevedo foi a um baile antes de partir;
aí estava armada uma rede em que ele devia ser colhido. Que rede! Vinte anos,
uma figura delicada, esbelta, franzina, uma dessas figuras vaporosas que parecem
desfazer-se ao primeiro raio do sol. Azevedo não foi senhor de si: apaixonou-se;
daí a um mês casou-se, e daí a oito dias partiu para Petrópolis.
Que casa encerraria aquele casal tão belo, tão amante e tão feliz? Não
podia ser mais própria a casa escolhida; era um edifício leve, delgado, elegante,
mais de recreio que de morada; um verdadeiro ninho para aquelas duas pombas
fugitivas.
A nossa história começa exatamente três meses depois da ida para
Petrópolis. Azevedo e a mulher amavam-se ainda como no primeiro dia. O amor
tomava então uma força maior e nova; é que... devo dizê-lo, ó casais de três
meses? é que apontava no horizonte o primeiro filho. Também a terra e o céu se
alegram quando aponta no horizonte o primeiro raio do sol. A figura não vem
aqui por simples ornato de estilo; é uma dedução lógica: a mulher de Azevedo
chamava-se Adelaide.


[Linha 4200 de 6063 - Parte 3 de 4]


144
Era, pois, em Petrópolis, numa tarde de dezembro de 186... Azevedo e
Adelaide estavam no jardim que ficava em frente da casa onde ocultavam a sua
felicidade. Azevedo lia alto; Adelaide ouvia-o ler, mas como se ouve um eco do
coração, tanto a voz do marido e as palavras da obra correspondiam ao
sentimento interior da moça.
No fim de algum tempo Azevedo deteve-se e perguntou:
- Queres que paremos aqui?
- Como quiseres, disse Adelaide.
- É melhor, disse Azevedo fechando o livro. As coisas boas não se
gozam de uma assentada. Guardemos um pouco para a noite. Demais, era já
tempo que eu passasse do idílio escrito para o idílio vivo. Deixa-me olhar para ti.
Adelaide olhou para ele e disse:
- Parece que começamos a lua-de-mel.
- Parece e é, acrescentou Azevedo; e se o casamento não fosse
eternamente isto, o que poderia ser? A ligação de duas existências para meditar
discretamente na melhor maneira de comer o maxixe e o repolho? Ora, pelo amor
de Deus! Eu penso que o casamento deve ser um namoro eterno. Não pensas
como eu?
- Sinto, disse Adelaide.
- Sentes, é quanto basta.
- Mas que as mulheres sintam é natural; os homens...
- Os homens, são homens.
- O que nas mulheres é sentimento, nos homens é pieguice; desde
pequena me dizem isto.
- Enganam-te desde pequena, disse Azevedo rindo.
- Antes isso!
- É a verdade. E desconfia sempre dos que mais falam, sejam homens ou
mulheres. Tens perto um exemplo. A Emília fala muito da sua isenção. Quantas
vezes se casou? Até aqui duas, e está nos vinte e cinco anos. Era melhor calar-se
mais e casar-se menos.
145
- Mas nela é brincadeira, disse Adelaide.
- Pois não. O que não é brincadeira é que os três meses do nosso
casamento parecem-me três minutos...
- Três meses! exclamou Adelaide.
- Como foge o tempo! disse Azevedo.
- Dirás sempre o mesmo? perguntou Adelaide com um gesto de
incredulidade.
Azevedo abraçou-a e perguntou:
- Duvidas?
- Receio. É tão bom ser feliz!
- Sê-lo-ás sempre e do mesmo modo. De outro não entendo eu.
Neste momento ouviram os dois uma voz que partia da porta do jardim.
- O que é que não entendes? dizia essa voz.
Olharam.
À porta do jardim estava um homem alto, bem parecido, trajando com
elegância, luvas cor de palha, chicotinho na mão.
Azevedo pareceu ao princípio não conhecê-lo. Adelaide olhava para um
e para outro sem compreender nada. Tudo isto, porém, não passou de um minuto;


[Linha 4250 de 6063 - Parte 3 de 4]


no fim dele Azevedo exclamou:
- É o Tito! Entra, Tito!
Tito entrou galhardamente no jardim; abraçou Azevedo e fez um
cumprimento gracioso a Adelaide.
- É minha mulher, disse Azevedo apresentando Adelaide ao recémchegado.
- Já o suspeitava, respondeu Tito; e aproveito a ocasião para dar-te os
meus parabéns.
- Recebeste a nossa carta de participação?
- Em Valparaíso.
- Anda sentar-te e conta-me a tua viagem.
- Isso é longo, disse Tito sentando-se. O que te posso contar é que
146
desembarquei ontem no Rio. Tratei de indagar a tua morada. Disseram-me que
estavas temporariamente em Petrópolis. Descansei, mas logo hoje tomei a barca
da Prainha e aqui estou. Eu já suspeitava que com o teu espírito de poeta irias
esconder a tua felicidade em algum recanto do mundo. Com efeito, isto é
verdadeiramente uma nesga do paraíso. Jardim, caramanchões, uma casa leve e
elegante, um livro. Bravo! Marília de Dirceu... É completo! Tityre, tu patolæ.
Caio no meio de um idílio. Pastorinha, onde está o cajado?
Adelaide ri às gargalhadas.
Tito continua:
- Ri mesmo como uma pastorinha alegre. E tu, Teócrito, que fazes?
Deixas correr os dias como as águas do Paraíba? Feliz criatura!
- Sempre o mesmo! disse Azevedo.
- O mesmo doido? Acha que ele tem razão, minha senhora?
- Acho, se o não ofendo...
- Qual ofender! Se eu até me honro com isso; sou um doido inofensivo,
isso é verdade. Mas é que realmente são felizes como poucos. Há quantos meses
se casaram?
- Três meses faz domingo, respondeu Adelaide.
- Disse há pouco que me pareciam três minutos, acrescentou Azevedo.
Tito olhou para ambos e disse sorrindo:
- Três meses, três minutos! Eis toda a verdade da vida. Se os pusessem
sobre uma grelha, como São Lourenço, cinco minutos eram cinco meses. E ainda
se fala em tempo! Há lá tempo! O tempo está nas nossas impressões. Há meses
para os infelizes e minutos para os venturosos!
- Mas que ventura! exclama Azevedo.
- Completa não? Imaginação! Marido de um serafim, nas graças e no
coração, não reparei que estava aqui... mas não precisa corar!... Disto me há de
ouvir vinte vezes por dia; o que penso, digo. Como não te hão de invejar os
nossos amigos!
- Isso não sei.
147
- Pudera! Encafuado neste desvão do mundo, de nada podes saber. E
fazes bem. Isto de ser feliz à vista de todos é repartir a felicidade. Ora, para
respeitar o princípio devo ir-me já embora...
Dizendo isto, Tito levantou-se.
- Deixa-te disso: fica conosco.
- Os verdadeiros amigos também são a felicidade, disse Adelaide.
- Ah!


[Linha 4300 de 6063 - Parte 3 de 4]


- É até bom que aprendas em nossa escola a ciência do casamento,
acrescentou Azevedo.
- Para quê? perguntou Tito meneando o chicotinho.
- Para te casares.
- Hum!... fez Tito.
- Não pretende? perguntou Adelaide.
- Estás ainda o mesmo que em outro tempo?
- O mesmíssimo, respondeu Tito.
Adelaide fez um gesto de curiosidade e perguntou:
- Tem horror ao casamento?
- Não tenho vocação, respondeu Tito. É puramente um caso de vocação.
Quem a não tiver não se meta nisso, que é perder o tempo e o sossego. Desde
muito tempo estou convencido disto.
- Ainda te não bateu a hora.
- Nem bate, disse Tito.
- Mas, se bem me lembro, disse Azevedo oferecendo-lhe um charuto,
houve um dia em que fugiste às teorias do costume: andavas então apaixonado...
- Apaixonado, é engano. Houve um dia em que a Providência trouxe uma
confirmação aos meus instintos solitários. Meti-me a pretender uma senhora...
- É verdade: foi um caso engraçado.
- Como foi o caso? perguntou Adelaide.
- O Tito viu em um baile uma rapariga. No dia seguinte apresenta-se em
casa dela, e, sem mais nem menos, pede-lhe a mão. Ela responde... que te
148
respondeu?
- Respondeu por escrito que eu era um tolo e me deixasse daquilo. Não
disse positivamente tolo, mas vinha a dar na mesma. É preciso confessar que
semelhante resposta não era própria. Voltei atrás e nunca mais amei.
- Mas amou naquela ocasião? perguntou Adelaide.
- Não sei se era amor, respondeu Tito, era uma coisa... Mas note, isto foi
há uns bons cinco anos. Daí para cá ninguém mais me fez bater o coração.
- Pior para ti.
- Eu sei! disse Tito levantando os ombros. Se não tenho os gozos íntimos
do amor, não tenho nem os dissabores, nem os desenganos. É já uma grande
fortuna!
- No verdadeiro amor não há nada disso, disse sentenciosamente a
mulher de Azevedo.
- Não há? Deixemos o assunto; eu podia fazer um discurso a propósito,
mas prefiro...
- Ficar conosco, Azevedo atalhou-o. Está sabido.
- Não tenho essa intenção.
- Mas tenho eu. Hás de ficar.
- Mas se eu já mandei o criado tomar alojamento no hotel de Bragança...
- Pois manda contra-ordem. Fica comigo.
- Insisto em não perturbar a tua paz.
- Deixa-te disso.
- Fique! disse Adelaide.
- Ficarei.
- E amanhã, continuou Adelaide, depois de ter descansado, há de nos
dizer qual é o segredo da isenção de que tanto se ufana.


[Linha 4350 de 6063 - Parte 3 de 4]


- Não há segredo, disse Tito. O que há é isto: entre um amor que se
oferece e... uma partida de voltarete, não hesito, atiro-me ao voltarete. A
propósito, Ernesto, sabes que encontrei no Chile um famoso parceiro de
voltarete? Fez a casca mais temerária que tenho visto... sabe o que é uma casca,
149
minha senhora?
- Não, respondeu Adelaide.
- Pois eu lhe explico.
Azevedo olhou para fora e disse:
- Aí chega a D. Emília.
Com efeito à porta do jardim parava uma senhora dando o braço a um
velho de cinqüenta anos.
D. Emília era uma moça a que se pode chamar uma bela mulher; era alta
na estatura e altiva no caráter. O amor que pudesse infundir seria por imposição.
De suas maneiras e das suas graças inspirava um não sei quê de rainha que dava
vontade de levá-la a um trono.
Trajava com elegância e simplicidade. Ela tinha essa elegância natural
que é outra elegância diversa da elegância dos enfeites, a propósito da qual já tive
ocasião de escrever esta máxima: «Que há pessoas elegantes, e pessoas
enfeitadas.»
Olhos negros e rasgados, cheios de luz e de grandeza, cabelos castanhos
e abundantes, nariz reto como o de Safo, boca vermelha e breve, faces de cetim,
colo e braços como os das estátuas, tais eram os traços da beleza de Emília.
Quanto ao velho que lhe dava o braço, era, como disse, um homem de
cinqüenta anos. Era o que se chama em português chão e rude, - um velho
gaiteiro. Pintado, espartilhado, via-se nele uma como que ruína do passado
reconstruída por mãos modernas, de modo a ter esse aspecto bastardo que não é
nem a austeridade da velhice, nem a frescura da mocidade. Não havia dúvida de
que o velho devia ter sido um belo rapaz em seus tempos; mas presentemente, se
algumas conquistas tivesse feito, só podia contentar-se com a lembrança delas.
Quando Emília entrou no jardim todos se achavam de pé. A recémchegada
apertou a mão a Azevedo e foi beijar Adelaide. Ia sentar-se na cadeira
que Azevedo lhe oferecera quando reparou em Tito que se achava a um lado.
Os dois cumprimentaram-se, mas com ar diferente. Tito parecia tranqüilo
e friamente polido; mas Emília, depois de cumprimentá-lo, conservou os olhos
150
fitos nele, como que avocando uma memória do passado.
Feitas as apresentações necessárias, e a Diogo Franco (é o nome do velho
braceiro), todos tomaram assentos.
A primeira que falou foi Emília:
- Ainda hoje não vinha se não fosse a obsequiosidade do Sr. Diogo.
Adelaide olhou para o velho e disse:
- O Sr. Diogo é uma maravilha.
Diogo empertigou-se e murmurou com certo tom de modéstia:
- Nem tanto, nem tanto.
- É, é, disse Emília. Não é talvez uma, porém duas maravilhas. Ah! sabes
que me vai fazer um presente?
- Um presente! exclamou Azevedo.
- É verdade, continuou Emília, um presente que mandou vir da Europa e
lá dos confins; recordações das suas viagens de adolescente...


[Linha 4400 de 6063 - Parte 3 de 4]


Diogo estava radiante.
- É uma insignificância, disse ele olhando ternamente para Emília.
- Mas o que é? perguntou Adelaide.
- É... adivinhem? É um urso branco!
- Um urso branco!
- Deveras?
- Está para chegar, mas só ontem é que me deu notícia dele. Que amável
lembrança!
- Um urso! exclamou ainda Azevedo.
Tito inclinou-se ao ouvido do amigo, e disse em voz baixa:
- Com ele fazem dois.
Diogo jubiloso pelo efeito que causava a notícia do presente, mas iludido
no caráter desse efeito, disse:
- Não vale a pena. É um urso que eu mandei vir; é verdade que eu pedi
dos mais belos. Não sabem o que é um urso branco. Imaginem que é todo branco.
- Ah! disse Tito.
151
- É um animal admirável! tornou Diogo.
- Acho que sim, disse Tito. Ora imagina tu o que não será um urso
branco que é todo branco. Que faz este sujeito? perguntou ele em seguida a
Azevedo.
- Namora a Emília; tem cinqüenta contos.
- E ela?
- Não faz caso dele.
- Diz ela?
- E é verdade.
Enquanto os dois trocavam estas palavras, Diogo brincava com os sinetes
do relógio e as duas senhoras conversavam. Depois das últimas palavras entre
Azevedo e Tito, Emília voltou-se para o marido de Adelaide e perguntou:
- Dá-se isto, Sr. Azevedo? Então faz-se anos nesta casa e não me
convidam?
- Mas a chuva? disse Adelaide.
- Ingrata! Bem sabes que não há chuva em casos tais.
- Demais, acrescentou Azevedo, fez-se a festa tão à capucha.
- Fosse como fosse, eu sou de casa.
- É que a lua-de-mel continua apesar de cinco meses, disse Tito.
- Aí vens tu com os teus epigramas, disse Azevedo.
- Ah! isso é mau, Sr. Tito!
- Tito? perguntou Emília a Adelaide em voz baixa.
- Sim.
- D. Emília não sabe ainda quem é o nosso amigo Tito, disse Azevedo.
Eu até tenho medo de dizê-lo.
- Então é muito feio o que tem para dizer?
- Talvez, disse Tito com indiferença.
- Muito feio! exclamou Adelaide.
- O que é então? perguntou Emília.
- É um homem incapaz de amar, continuou Adelaide. Não pode haver
152
maior indiferença para o amor... Em resumo, prefere a um amor... o quê? um
voltarete.


[Linha 4450 de 6063 - Parte 3 de 4]


- Disse-te isso? perguntou Emília.
- E repito, disse Tito. Mas note bem, não por elas, é por mim. Acredito
que todas as mulheres sejam credoras da minha adoração; mas eu é que sou feito
de modo que nada mais lhes posso conceder do que uma estima desinteressada.
Emília olhou para o moço e disse:
- Se não é vaidade, é doença.
- Há de me perdoar, mas eu creio que não é doença nem vaidade. É
natureza: uns aborrecem as laranjas, outros aborrecem os amores; agora se o
aborrecimento vem por causa das cascas, não sei; o que é certo é que é assim.
- É ferino! disse Emília olhando para Adelaide.
- Ferino, eu? disse Tito levantando-se. Sou uma seda, uma dama, um
milagre de brandura... Dói-me, deveras, que eu não possa estar na linha dos
outros homens e não seja, como todos, propenso a receber as impressões
amorosas, mas que quer? a culpa não é minha.
- Anda lá, disse Azevedo, o tempo te há de mudar.
- Mas quando? Tenho vinte e nove anos feitos.
- Já vinte e nove? perguntou Emília.
- Completei-os pela Páscoa.
- Não parece.
- São os seus bons olhos.
A conversa continuou por este modo, até que se anunciou o jantar.
Emília e Diogo tinham jantado, ficaram apenas para fazer companhia ao casal
Azevedo e a Tito, que declarou desde o princípio estar caindo de fome.
A conversa durante o jantar versou sobre coisas indiferentes.
Quando se servia o café apareceu à porta um criado do hotel em que
morava Diogo; trazia uma carta para este, com indicação no sobrescrito de que
era urgente. Diogo recebeu a carta, leu-a e pareceu mudar de cor. Todavia
continuou a tomar parte na conversa geral. Aquela circunstância, porém, deu
153
lugar a que Adelaide perguntasse a Emília:
- Quando te deixará este eterno namorado?
- Eu sei cá! respondeu Emília. Mas afinal de contas, não é mau homem!
Tem aquela mania de me dizer no fim de todas as semanas que nutre por mim
uma ardente paixão.
- Enfim, se não passa de declaração semanal.
- Não passa. Tem a vantagem de ser um braceiro infalível para a rua e
um realejo menos mau dentro de casa. Já me contou umas cinqüenta vezes as
batalhas amorosas em que entrou. Todo o seu desejo é acompanhar-me a uma
viagem à roda do globo. Quando me fala nisto, se é à noite, e é quase sempre à
noite, mando vir o chá, excelente meio de aplacar-lhe os ardores amorosos. Gosta
do chá que se péla. Gosta tanto como de mim! Mas aquela do urso branco? E se
realmente mandou vir um urso?
- Aceita.
- Pois eu hei de sustentar um urso? Não me faltava mais nada!
Adelaide sorriu-se e disse:
- Quer me parecer que acabas por te apaixonar...
- Por quem? Pelo urso?
- Não, pelo Diogo.
Neste momento achavam-se as duas perto de uma janela. Tito
conversava no sofá com Azevedo. Diogo refletia profundamente, estendido numa


[Linha 4500 de 6063 - Parte 3 de 4]


poltrona.
Emília tinha os olhos em Tito. Depois de um silêncio, disse ela para
Adelaide:
- Que achas ao tal amigo do teu marido? Parece um presumido. Nunca se
apaixonou! É crível?
- Talvez seja verdade.
- Não acredito. Pareces criança! Diz aquilo dos dentes para fora...
- É verdade que não tenho maior conhecimento dele...
- Quanto a mim, pareceu-me não ser estranha aquela cara... mas não me
154
lembro!
- Parece ser sincero... mas dizer aquilo é já atrevimento.
- Está claro...
- De que te ris?
- Lembra-me um do mesmo gênero que este, disse Emília. Foi já há
tempos. Andava sempre a gabar-se da sua isenção. Dizia que todas as mulheres
eram para ele vasos da China: admirava-as e nada mais. Coitado! Caiu em menos
de um mês. Adelaide, vi-o beijar-me a ponta dos sapatos... depois do que
desprezei-o.
- Que fizeste?
- Ah! não sei o que fiz. Santa Astúcia foi quem operou o milagre.
Vinguei o sexo e abati um orgulhoso.
- Bem feito!
- Não era menos do que este. Mas falemos de coisas sérias... Recebi as
folhas francesas de modas...
- Que há de novo?
- Muita coisa. Amanhã tas mandarei. Repara em um novo corte de
mangas. É lindíssimo. Já mandei encomendas para a Corte. Em artigos de
passeios há fartura e do melhor.
- Para mim quase que é inútil mandar.
- Por quê?
- Quase nunca saio de casa.
- Nem ao menos irás jantar comigo no dia de ano-bom!
- Oh! com toda a certeza!
- Pois vai... Ah! irá o homem? O Sr. Tito?
- Se estiver cá... e quiseres...
- Pois que vá, não faz mal... saberei contê-lo... Creio que não será sempre
tão... incivil. Nem sei como podes ficar com esse sangue-frio! A mim faz-me mal
aos nervos!
- É-me indiferente.
155
- Mas a injúria ao sexo... não te indigna?
- Pouco.
- És feliz.
- Que queres que eu faça a um homem que diz aquilo? Se não fosse
casada era possível que me indignasse mais. Se fosse livre era provável que lhe
fizesse o que fizeste ao outro. Mas eu não posso cuidar dessas coisas...
- Nem ouvindo a preferência do voltarete? Pôr-nos abaixo da dama de
copas! E o ar com que ele diz aquilo! Que calma, que indiferença!

- É mau! é mau!


CONTINUA NA PARTE 4 NO LINK ABAIXO:
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Contos Fluminenses - Parte 1 de 4:
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Contos Fluminenses - Parte 2 de 4:
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Contos Fluminenses - Parte 3 de 4:
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Contos Fluminenses - Parte 4 de 4:
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05 - Ler Scans e Quadrinhos Digitais - Um mundo DIGITAL - http://bit.ly/2cYfdkS
06 - Poeira das Estrelas - Documentário - http://bit.ly/2eLj1ni
07 - Retrô - Relembre as caixas de videogames e jogos lançados no Brasil - http://bit.ly/2hDNdEi
08 - Cachorro-quente no espetinho - Lanche da tarde - http://bit.ly/2lwFSEJ
09 - Coleção Saiba Mais - Completa - http://bit.ly/2lBVIyO
10 - Compilação de 4226 Postagens - 16/02/2017 - http://bit.ly/2lZYwoQ
11 - Literatura Clássica Brasileira - http://bit.ly/2ne9ngz
12 - As 5564 Cidades do Brasil - http://bit.ly/2mykDTg

http://bit.ly/1zIu2s4

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