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sábado, 8 de abril de 2023

Pesquisador quer estabelecer novo recorde ao viver 100 dias embaixo d'água

Pesquisador quer estabelecer novo recorde ao viver 100 dias embaixo d'água 

Objetivo de Joe Dituri é estudar como o corpo humano responde à exposição prolongada a pressões extremas.

domingo, 12 de janeiro de 2020

Pesquisa que criou bebês com genes manipulados pode ter causado mutações indesejadas

Pesquisa que criou bebês com genes manipulados pode ter causado mutações indesejadas


Em 2018, o controverso cientista chinês He Jiankui estampou as manchetes ao anunciar a criação dos primeiros bebês geneticamente manipulados do mundo. 

segunda-feira, 5 de março de 2018

Pesquisador propõe uma teoria para o perfeito alinhamento das Pirâmides de Gizé


Pesquisador propõe uma teoria para o perfeito alinhamento das Pirâmides de Gizé


O incrível apuro técnico com o qual foram construídas as Pirâmides de Gizé, no Egito, continua surpreendendo os cientistas. 

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Sakharov - dos Átomos aos homens


SAKHAROV - DOS ÁTOMOS AOS HOMENS



O cientista soviético que encarnou a consciência moral de seu país, na defesa dos direitos humanos, foi também um mestre da Física. Ele antecipou em um quarto de século as mais avançadas teorias sobre a matéria e o Universo.

A coragem política e a integridade do físico soviético Andrei Sakharov, falecido no fim do ano passado fizeram dele o campeão da luta pelos direitos humanos em seu país. A tenacidade com que resistiu a toda sorte de provações, como os sete anos de confinamento numa cidade proibida a estrangeiros, a 400 quilômetros de Moscou, ajudou a transformá-lo numa das mais respeitadas autoridades morais do mundo contemporâneo. Paradoxalmente, o renome do ativista e pensador ainda hoje impede que se enxergue o gênio científico, à altura dos maiores criadores do século. Seu feito mais divulgado foi o de ter resolvido um formidável problema de ordem prática - projetar a bomba de hidrogênio soviética. Mas as páginas menos conhecidas da obra de Sakharov incluem investigações de grande originalidade, relacionadas com a origem da matéria e do Universo.

Formuladas inicialmente há 25 anos, suas idéias acabaram antecipando teorias as mais avançadas, como as que se propõem a unificar as forças fundamentais da natureza-o Santo Graal das pesquisas de ponta em Física. Além disso, foi o precursor dos reatores de fusão nuclear. Sua primeira proeza teórica foi explicar, em 1966, por que não existem estrelas e planetas de antimatéria. Uma espécie de antípoda dos átomos comuns, a antimatéria já era produzida com certa facilidade nos laboratórios - por que então não se podia encontrá-la na natureza? Sakharov sugeriu que, num passado remotíssimo, matéria e antimatéria se aniquilaram mutuamente na que terá sido a maior hecatombe da história universal. A antimatéria foi consumida por completo desaparecendo do Cosmo. Restou um espantoso, embora ínfimo, resíduo de matéria comum, equivalente a 0,5 bilionésimo da massa original do Universo. Todas as galáxias, estrelas e planetas existentes, sustentou Sakharov, teriam sido recicladas a partir desse resíduo primordial. Mas e esse misterioso resíduo, por que sobreviveu? Porque, antes do holocausto cósmico, respondeu o físico, matéria e antimatéria sofreram a ação de um processo que os cientistas não haviam concebido-a desintegração dos prótons, com a diferença de que os prótons de antimatéria se desintegravam um nada mais depressa do que os de matéria. Resultado: em dado instante da gênese do Universo, pressupôs Sakharov a partir de cálculos de apropriada complexidade, para cada bilhão 3 de antiprótons havia um bilhão e um; próton. Hoje, os físicos estão convencidos de que as coisas realmente se passaram assim. Um dos motivos pelos quais esse trabalho de gigante permaneceu à sombra foram as muitas atribulações da vida do cientista.

Desde o nascimento, em 1921, quatro anos depois do terremoto da Revolução comunista, Sakharov cresceu numa cidade, Moscou, onde se respirava uma atmosfera de constante agitação, com todas as tragédias e as esperanças que tais acontecimentos suscitam. Filho de uma bem-sucedida família kulturny, como dizem os russos de pessoas que apreciam a cultura, passou a infância, em clima de relativa tranqüilidade para a época e recebeu uma sólida formação básica. Aos 4 anos, já tentava ler por conta própria, mas só foi freqüentar a escola aos 12. Aprendia em casa com a ajuda do pai, Dimitri, professor de Física e autor de livros didáticos e de divulgação científica, e da mãe, Ekaterina, professora universitária de Ginástica.

O jovem Andrei lia-lia muito. Desde Os três mosqueteiros, de Alexandre Dumas, a Fausto, de Goethe e a Hamlet, de Shakespeare. Mas gostava especialmente da ficção científica de Júlio Verne, da qual diria mais tarde tratar-se de "um tributo ao engenho humano e ao poder da ciência". Esses anos felizes desabaram com a Segunda Guerra Mundial. Recém-formado, já casado (com a química Klava Vikhereva) e pai de Tânia, sua primeira filha-o casal teve outra menina e um menino-, sofreu com a fome que devastava o país invadido em 1941. Não tinha sequer residência certa: os bombardeios alemães haviam destruído a casa onde ainda vivia com os pais. A própria Universidade de Moscou, onde obtivera o diploma de físico em 1942, teve de ser evacuada e transferida para Ashkhabad, capital da desértica, remota República Turcomana, na Ásia Central.

A carreira de Sakharov começaria bem longe dos meios acadêmicos. Seus talentos seriam aproveitados (escassamente) numa metalúrgica militar em Ulianovsk, às margens do Rio Volga, a quase 1000 quilômetros de Moscou. "Trabalhávamos em dois turnos de onze horas diárias, sete dias por semana", conta Sakharov em suas memórias, publicadas há poucos meses. Embora tivesse formalmente as funções de engenheiro, nos primeiros meses o físico exerceu uma variedade de tarefas, desde lenhador a chefe de turma na linha de produção. Mesmo assim, sonhava com altas Matemáticas. Enquanto picava repolho, por exemplo, imaginava uma lei capaz de dar conta da forma das fatias cortadas. À noite, sacrificava o pouco tempo de descanso para estudar Física teórica. Querendo exercitar o espírito  inventivo naquelas duras condições, acabou criando quatro novos aparelhos destinados a aprimorar o controle de qualidade na metalúrgica.

Alto, magro, sempre curvado, o que o fazia parecer mais velho, sabia ser educado e paciente apesar das ásperas circunstâncias. Dessa experiência provavelmente reteve um hábito "que me ajudava a pensar", como explicaria: lavar a própria louça depois das refeições, algo que, na radicalmente machista sociedade soviética, ainda é tarefa exclusiva de mulher, mesmo que ela ostente mais títulos acadêmicos que o marido. Passado algum tempo, Sakharov recebeu uma tarefa mais adequada às suas aptidões: pesquisador no laboratório da fábrica. Ali conheceu a mulher com quem voltaria casado a Moscou em 1944. Mas só começou a melhorar de vida cerca de dois anos mais tarde, quando conseguiu um lugar no Instituto de Física da Academia de Ciências, uma das importantes instituições soviéticas de pesquisa. Ali, há trinta anos, antes de qualquer outro país, começou-se a investigar o laser.

Sakharov pôde, finalmente, estabelecer residência e dedicar-se a estudos de alto nível. Ainda estava dando os primeiros passos nesse novo patamar quando o físico Igor Tamm (Prêmio Nobel em 1958 por sua teoria sobre um novo tipo de radiação, descoberta, por sinal, na URSS) convidou-o a trabalhar no projeto da bomba de hidrogênio. À medida que se ampliava a guerra fria entre Estados Unidos e União Soviética, Washington e Moscou aceleravam as pesquisas com armas nucleares. Quatro anos depois das bombas A que os americanos lançaram sobre o Japão em 1945, os soviéticos testaram com êxito um artefato semelhante. Mas o alvo das duas superpotências era já mais ambicioso: a bomba H.

A corrida armamentista acabou sendo decisiva para a trajetória de Sakharov-primeiro, como cientista, depois, como dissidente. Ele passou quase vinte anos praticamente confinado numa instalação secreta, embora próxima da capital, muitas vezes isolado da própria família. Sua tarefa era digna dos cérebros mais bem dotados: decifrar os enigmas da fusão termonuclear, a fonte de energia das estrelas-e também das bombas de hidrogênio. Ele estava, portanto, junto do primeiríssimo time científico da URSS, no qual se destacavam pesquisadores como o astrofísico Iacov Zeldovich.

Milhares de vezes mais violenta, a fusão é o oposto da fusão, cujo domínio tornou possível tanto a bomba A como as usinas nucleares para a produção de eletricidade. Nestas, quebram-se átomos pesados, como os de urânio, para aproveitar a energia que os mantinha unidos. Durante a fusão, ocorre o contrário: dois átomos leves, como os de hidrogênio, são comprimidos até seus núcleos se fundirem num só. O processo é mais violento porque os átomos resistem à fusão e, quando cedem, libertam vastas quantidades de energia.

Sabe-se pouco do projeto da bomba H soviética. Mas tem-se como certo que a chave para o seu funcionamento foi uma descoberta de Sakharov, ainda em 1948, até hoje mantida em segredo. Segundo ele mesmo relataria, sem entrar em detalhes, em poucos dias "a misteriosa fonte de energia das estrelas estava ao alcance das minhas mãos". Seu papel crucial na operação foi atestado pelas congratulações especiais que recebeu do governo soviético no mesmo dia em que a bomba explodiu, 12 de agosto de 1953. (A primeira bomba H americana havia sido detonada em novembro de 1952.) Alguns meses depois, com a idade de 32 anos, tornou-se o mais jovem membro do Olimpo intelectual do país-a Academia de Ciências da União Soviética. Nem esta, nem outras honrarias, porém, perturbaram seu modo de ser. Continuou a vestir-se modestamente e até o fim da vida habitou em Moscou um pequeno apartamento de dois quartos, um dos quais usava como escritório. O governo deu-lhe de presente uma dacha (casa de campo) e pagou-lhe altos salários. No fim dos anos 60, seu saldo bancário equivalia a 150 000 dólares-uma fortuna, para a época e para o país. Doou tudo a instituições de pesquisa e tratamento de câncer em seguida à morte prematura da mulher, com menos de 50 anos, vítima da doença.

Havia enfrentado a tarefa de fazer a bomba com o genuíno entusiasmo de um cientista diante dos desafios da natureza. Não era para menos. A física das explosões nucleares era vista então, como um paraíso para os teóricos. Ela Ihes permitiria, pela primeira vez, equacionar o comportamento da matéria quando sua temperatura alcança milhões de graus centígrados. Além da bomba, os fenômenos nesse campo levariam também aos primeiros reatores de fusão. Eldorado das fontes de energia do futuro, essas máquinas, seguras e limpas, consumiriam o combustível mais abundante do planeta-a água. Todos os três modelos em desenvolvimento no mundo foram sugeridos em primeiro lugar por Sakharov, no início dos anos 50. O problema desses projetos consiste em forçar os átomos a se unir. Nas estrelas, o próprio peso das camadas externas esmaga a matéria subjacente até ocorrer a fusão. Como alternativa, o cientista inventou uma espécie de torniquete magnético de nome tokamak (sigla em russo de "câmara magnética toroidal" ). A idéia básica do físico era privar os átomos dos seus elétrons para torná-los suscetíveis à ação de grandes ímãs. Estes poderiam então confiná- los num espaço cada vez mais apertado de modo a obrigar seus núcleos à fusão.

O tokamak dominou largamente as pesquisas na áreas em muitos países. A Universidade de São Paulo, por exemplo, tem um desses equipamentos. Mas os dois outros sistemas imaginados por Sakharov também se difundiram amplamente nos últimos anos. Um deles lança mão de raios laser para comprimir os átomos. O outro emprega a fusão a frio, mas é diferente das propostas que têm provocado intensa polêmica-e muitos narizes torcidos-nesse campo: sugere substituir os elétrons dos átomos por uma partícula semelhante, porém mais exótica e mais pesada, chamada múon. Em combinação com o trítio e o deutério, átomos semelhante aos do hidrogênio, o múon forma um átomo 200 vezes menor que os originais. Dessa maneira, aproxima os núcleos atômicos e tende a propiciar a fusão sem necessidade de pressões e temperaturas elevadas. Esse trabalho revelou o empenho de Sakharov em desviar a energia nuclear das aplicações puramente militares. O cientista preocupara-se desde o início com os resíduos tóxicos das bombas-a poeira radioativa que deixava à superfície do planeta um persistente legado de morte. Cedo ou tarde, segundo as suas contas, 10 000 pessoas morreriam em decorrência de uma explosão de um artefato de 1 megaton, equivalente a 1 milhão de toneladas de dinamite. Como o poder total das bombas detonadas até 1957 já alcançava 50 megatons, 500 000 pessoas estavam seriamente ameaçadas. Moscou alardeava a possibilidade de construir bombas de 100 megatons cada e Washington certamente não ficaria atrás. Obstinadamente. como seria a marca de seu comportamento nos embates futuros. Sakharov enfrentou de peito aberto a resistência dos próprios pares e dos dirigentes soviéticos, convencidos de que só uma nítida superioridade nuclear dissuadiria os americanos de atacar a URSS. Menos testes e sempre subterrâneos-eis a palavra de ordem do cientista.

Cada vez mais atritado com o Kremlin, deixou de trabalhar com os militares e voltou ao Instituto de Física, em 1965. Logo em seguida à morte da mulher, em 1968, ligou-se à médica de origem judaica Elena Bonner, uma experiente ativista em favor dos direitos civis. A despeito da viagem sem volta que tinha começado a empreender ao território da política, Sakharov aprofundou sem cessar a investigação do mundo físico. Havia iniciado pela fusão, que se passa no interior dos núcleos atômicos, em espaços da ordem de 1 quadrilionésimo de milímetro. Mais tarde, pesquisou a desintegração do próton, que ocorre numa escala um bilhão de vezes menor que a do núcleo atômico-algo que se pode expressar em fórmulas, mas está definitivamente fora do alcance da compreensão humana e, na natureza, só poderia ser observado na explosão primordial que deu origem ao Universo.

A partir de 1975, passou a perseguir um objetivo ainda mais ambicioso: reescrever as equações de Einstein sobre a gravitação. Sakharov sugeriu serem elas conseqüência dos pressupostos da Física Quântica-uma idéia que traumatizaria o velho Einstein, para quem, como se sabe, a gravitação era o fenômeno fundamental do comportamento da matéria. A empreitada de Sakharov se assemelhou ao esforço teórico do físico inglês Stephen Hawking em relação aos buracos negros-ambos radicados na fronteira mais avançada do conhecimento humano sobre o Universo. As elocubrações de Sakharov prometiam resultados cada vez mais estimulantes. Mas ele não teve tempo de alcançar esse objetivo que a outros poderia parecer tão inacessível a ponto de fazê-los arrepiar carreira a meio caminho. Aos 68 anos, foi impedido de avançar: o coração o matou durante o sono na noite de 14 dezembro de 1989.

O que mais surpreende no percurso político de Andrei Dimitrievich Sakharov não é a transformação do criador da bomba H soviética, portador da condecoração de Herói do Trabalho Socialista, em inimigo do regime. O que chama a atenção são os longos anos durante os quais, mesmo sem ter sido membro do Partido Comunista, ele deu o melhor de si ao sistema que viria a abominar. "Eu estava a par dos crimes horríveis que se cometeram", admitiria. Três tios e um primo do cientista morreram, em circunstâncias diversas, enquanto estavam presos por alegados delitos políticos. Apesar de tudo, como reconheceria honestamente, "eu me dava por satisfeito absorvendo a ideologia comunista sem questioná-la". Um ano antes de ser convidado a participar do projeto da bomba, a KGB, a polícia secreta soviética, quis que sua mulher espionasse o que ele fazia. Tendo ela se recusado, o casal foi expulso do apartamento onde morava.

Tais partículas de terror policial não diminuíram porém o entusiasmo com que aceitou a empreitada. Sakharov era movido na época por vastas emoções e pensamentos imperfeitos: a oportunidade de escalar o Everest da nova Física atômica, a convicção de que as armas termonucleares iriam assegurar a paz no mundo, o orgulho nacionalista de estar engajado num combate científico com os Estados Unidos-em suma, a mentalidade típica da guerra fria, a que tampouco estiveram imunes muitos cientistas americanos. Talvez por isso guardasse para si fosse lá o que Ihe pudessem provocar os fatos da vida na URSS daqueles anos de stalinismo, desde a obrigação de submeter à censura prévia artigos para publicações científicas até algo incomparavelmente pior-os trabalhos forçados.

Com efeito, a "Instalação", o conjunto secreto de laboratórios, campos de provas e alojamentos onde trabalharia dezoito anos na pesquisa de armas nucleares, tinha sido construída por presos de um campo vizinho. "Todas as manhãs, longas colunas cinzentas de homens vestindo jaquetas forradas, cães de guarda nos calcanhares, passavam por nossas janelas", conta em suas memórias. Não obstante, quando Stálin morreu, em 1953, Sakharov escreveu à mulher: "Estou sob o impacto da morte de um grande homem. Penso na sua humanidade". O cientista iria se envergonhar dessas palavras, porém jamais conseguiria explicá-las satisfatoriamente a si mesmo. As primeiras sementes de descontentamento foram plantadas por seus conhecimentos científicos sobre os efeitos da radioatividade e pela consciência moral que o problema Ihe despertava. Cada vez mais contrário aos testes atômicos na atmosfera, suas opiniões levaram-no a um curso de colisão com o governo soviético. Em 1961, por exemplo, ouviu do líder Nikita Kruschev, numa solenidade, que estava "enfiando o nariz onde não devia". Desde então, embora nada Ihe sucedesse pessoalmente, sua distância do regime só faria aumentar-dessa vez por outros motivos. De um lado, sob Leonid Brejnev, o Kremlin voltou a tratar com dureza os intelectuais dissidentes. De outro, o cientista passara a encarar o mundo com novos olhos.

O resultado foi o manifesto Reflexões sobre o progresso, a coexistência pacífica e a liberdade intelectual, escrito nos primeiros meses de 1968. Logo publicado no exterior, o texto faria Sakharov famoso internacionalmente e representaria o penúltimo passo da caminhada rumo à ruptura com o sistema. Nele, condenou a intolerância e o dogmatismo, advogou a democracia e o pluralismo político. O documento não poderia ter sido mais pertinente: a 21 de agosto daquele ano, tropas soviéticas entraram em Praga para depor o governo que tentava implantar na Checoslováquia o "socialismo de face humana". Era o que faltava para Sakharov, definitivamente desiludido, voltar-se plenamente à causa dos direitos humanos -e pagar caro por isso.

A passagem do campo da reflexão política para a ação em defesa dos perseguidos do regime foi franqueada também por seu convívio com a militante Elena Bonner, com quem se casaria em 1972. As pressões sobre o cientista-ativista cresceriam na mesma medida de seu engajamento. Em 1975, contemplado com o Prêmio Nobel da Paz, proibiram-no de ir a Oslo, na Noruega, para receber a honraria, entregue afinal a Elena. O pior, no entanto, estava por vir: a invasão do Afeganistão em fins de 1979, inaugurou o mais sofrido período de sua vida, que incluiria até duas greves de fome. Despojado de seus títulos, Sakharov foi confinado em 1980 na cidade de Górki. Ali ficou até a antevéspera de Natal de 1986, sempre sob estrita vigilância da KGB que fazia o possível para infernizar-lhe a vida, a ponto de roubar (mais de uma vez) os manuscritos de suas memórias. Foi Gorbachev quem acabou com o exílio do casal. "Volte a seu trabalho patriótico", instou o dirigente soviético, ao telefonar a Sakharov para informá-lo de que podia regressar a Moscou.

Embora manifestasse apoio às reformas da perestroika e considerasse Gorbachev um "líder inteligente", tinha uma noção diferente deste do que deveria ser um trabalho patriótico. Na URSS e no exterior, seus pronunciamentos contra o regime soviético não se alteraram. Eleito para o Congresso dos Deputados do Povo, em 1988, juntou-se ao time de parlamentares que, sob a inócua designação de Grupo Inter-regional, formou-se com a intenção de ser o embrião de um novo partido, tornando-se seu principal membro. Sakharov, sabe-se, era muito mais do que isso. E a simples verdade é que sua morte empobreceu, além da ciência, a vida política na União Soviética.

A crise chega à ciência

O sistema científico que produziu um Andrei Sakharov coexiste com um paradoxo que pode ser apresentado em números como convém ao assunto. De cada quatro cientistas do mundo, por exemplo, um é soviético. Mas os americanos ficaram com 137 dos 370 prêmios Nobel já conferidos; os soviéticos, com apenas dez. Proporcionalmente às respectivas populações, no entanto, a URSS diploma todo ano duas vezes mais universitários do que os Estados Unidos. É claro que só a quantidade de troféus não mede o valor real do saber produzido num pais, assim como o grande número de pesquisadores não é em si sinônimo de boa pesquisa.

No passado, o peso da ciência soviética era maior-outra face do mesmo paradoxo. Nas décadas de 30 e 40, apesar do terror stalinista e do horror da guerra, os soviéticos foram os primeiros a estudar a fonte de energia das estrelas; a origem dos átomos químicos durante o nascimento do Universo; os raios laser; os reatores de fusão nuclear; a ação da eletricidade nos metais, base para a futura invenção do computador; e o fenômeno da supercondutividade, que permite transmitir corrente elétrica sem perda de energia. Pesquisas de vanguarda foram conduzidas por cientistas de renome mundial do quilate do físico Lev Landau, falecido em 1968, do químico Nicolai Semenov ou do matemático Izrail Gelfand.

Atualmente, os mais conhecidos pesquisadores soviéticos são homens já de alguma idade. O próprio Sakharov foi um exemplo disso, assim como o seu amigo, Iacov Zeldovich, um dos grandes mestres da Astrofísica, e o físico Piotr Kapitsa, um dos criadores dos veículos espaciais soviéticos. A URSS ficou nitidamente atrás do Japão e dos Estados Unidos em áreas criticas de ciência e tecnologia como Informática, Telecomunicações e Engenharia Genética. A perda de vigor da ciência soviética acabaria espelhando a crise geral do país-algo que Sakharov não se cansou de denunciar.

Uma pessoa obsessiva

Por José Goldemberg

Tive o primeiro contato pessoal com Andrei Sakharov em janeiro de 1988, em Moscou, durante a instalação do Comitê para a Segurança e o Desenvolvimento Mundial, integrado por cientistas de vários países. Aguardei o encontro com emoção, mas minhas relações com ele foram sempre muito difíceis. Um grande cientista, Sakharov era também um homem obsessivo. Dentro do comitê, por exemplo, preocupava-se o tempo todo com os direitos civis do povo armênio. Mas não achava igualmente importante defender os direitos civis dos povos da América Central. Também fiquei chocado com sua posição em favor de Edward Teller, que dirigiu a construção da bomba de hidrogênio americana, nos anos 50. Na época, Teller enfrentou a oposição de Robert Oppenheimer, que propunha retardar ar a produção da bomba H. Sakharov acreditava que Oppenheimer estava errado. Mas, para derrotá-lo, Teller denunciou-o como comunista numa época de caça às bruxas nos Estados Unidos. Uma atitude indefensável, na minha opinião.

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

O Fator Acaso - Ciência


O FATOR ACASO - Ciência


Muitas descobertas e invenções acontecem por acidente: sem querer, o pesquisador encontra a solução que não estava nem procurando. Isso tem um nome peculiar - serendipidade: 

Thomas Alva Edison (1847-1931), o mais prolífico dos inventores, com 1903 patentes  em seu nome, tinha uma visão desconcertante da genialidade. "Ela é 1% inspiração e 99% transpiração", dizia, numa frase que ficou famosa, o incansável experimentador que deu ao mundo a lâmpada elétrica e o fonógrafo, para mencionar apenas suas invenções mais populares. Mas o que fazia Edison transpirar? Segundo uma versão, a surdez parcial de que ele padecia "influenciou fortemente sua conduta e carreira, criando motivações para muitas de suas invenções", como assegura a veneranda Enciclopédia Britânica. O exemplo de Edison mostra como podem ser tortuosos os caminhos da criação na ciência e na tecnologia. A coleção de anedotas em torno das grandes descobertas e inovações científicas sugere à primeira vista que o processo é completamente casual e caótico e, sendo único em cada caso, não forneceria uma fórmula segura para entendê-lo e praticá-lo.
A rigor, não é bem assim, mas o célebre episódio envolvendo o alemão Friedrich August Kekulé (1829-1896) parece talhado sob medida para sustentar aquela idéia. Considerado o pai da Química Orgânica estrutural, ele andava atormentado com a estrutura do benzeno, molécula-chave dos compostos orgânicos. Os cientistas não conseguiam imaginar como seis carbonos e seis hidrogênios podiam fazer uma ligação estável formando uma molécula, porque achavam que os átomos se ligavam numa espécie de fila indiana. Um dia Kekulé foi acordado no momento em que sonhava com uma serpente que engolia a própria cauda. Sigmund Freud (1856-1939), criador da Psicanálise e do conceito de símbolo fálico, pensaria em outra coisa, mas Kekulé viu prontamente que o sonho continha a solução do problema que o afligia: em vez de fila indiana, uma molécula em forma de anel fechado.
A Química está repleta de acidentes que resultaram em grandes achados. Um dos mais notáveis acaba de completar cinqüenta anos. No dia 15 de maio de 1940, as lojas de Nova York foram invadidas por multidões femininas ávidas pela primeira compra de meias de náilon - 4 milhões de pares foram vendidos em poucas horas. No entanto, esse nunca por demais louvado aperfeiçoamento da anatomia feminina, com certeza o maior em toda a história do Homo sapiens sapiens, nasceu do acaso. O náilon era apenas um dos inumeráveis polímeros testados pela Du Pont, posto de lado, sem ser patenteado, por ter um ponto de fusão baixo. O químico Julian Hill, brincando com esse rejeito industrial, enfiou um bastão de vidro no composto e, ao retirá-lo, notou que se formavam fiapos muito delgados que secavam com a aparência de fios de seda. No processo de espichamento a frio, formavam polímeros - uma cadeia molecular longa, linear e resistente como as fibras naturais produzidas em escassa quantidade pelo bicho-da-seda.
Outras vezes pesquisadores descobriram coisas completamente diferentes do que buscavam. O inventor americano John Wesley Hyatt (1837-1920) perseguia febrilmente uma maneira de fazer bolas de bilhar sintéticas, para substituir o produto fabricado com o caro marfim. Ele chegou a uma bola muito boa, à base de nitrato de celulose, polpa de papel e serragem, que tinha porém um inconveniente desagradável: tacadas mais certeiras faziam explodir o nitrato, um dos componentes da dinamite. Isso eventualmente poderia tornar o jogo mais excitante, mas os apreciadores do esporte não gostaram e a bola de Hyatt foi um fracasso. Ele não desistiu. Patenteou o celulóide, o tipo de plástico que acabou se tornando matéria-prima milionária para a confecção de colarinhos, canetas, pentes, embalagens de toda natureza e substrato de filmes.
Um livro publicado em 1989 nos Estados Unidos, Serendipity - Accidental discoveries in science ("Serendipidade - descobertas acidentais na ciência", ainda não editado no Brasil), de autoria de Royston M. Roberts professor de Química na Universidade do Texas, arrola centenas desses achados casuais. A palavra serendipidade não consta dos dicionários da língua portuguesa. Vem do árabe Sarandib, antigo nome da Ilha do Ceilão, atual Sri Lanka. O termo foi empregado pela primeira vez pelo escritor inglês Horace Walpole (1717-1797) para designar o dom de achar coisas valiosas ou agradáveis não procuradas. Numa carta, Walpole comentou um conto de fadas persa, "Os três príncipes de Serendip", no qual eles "estavam sempre realizando alguma descoberta, por acidente ou sagacidade, de coisas das quais não estavam em busca". Daí, cunhou serendipity para expressar essas felizes descobertas.
Mas, ao mencionar a sagacidade como um dos caminhos para a descoberta, Walpole ilumina um pouco mais a questão, mostrando que a invenção nunca é puramente acidental e caótica. Como Louis Pasteur (1822-1895), o inventor da pasteurização e da vacina anti-rábica, disse certa vez, "o acaso só favorece a mente preparada". Ou seja, qualquer um pode sonhar com cobras (e aproveitar a deixa para jogar no bicho), mas na mente preparada do químico Kekulé pode-se dizer que o sonho já continha a metáfora da solução que ele tanto procurava. O estalo que teve ao despertar consistiu em decifrar a mensagem que ele próprio havia escrito. O argumento de Pasteur vale também para o leigo que espichasse o náilon gosmento - nunca iria perceber a utilidade da coisa.
"As idéias não caem do céu como se viessem do nada", observa a professora Amélia Hamburger, do Instituto de Física da Universidade de São Paulo, uma estudiosa da História da Ciência. "É claro que há um componente aleatório no processo de descoberta e as pessoas devem estar atentas a todo instante para reconhecer uma coisa nova", argumenta ela. "Mas, fundamentalmente, tanto na técnica quanto na ciência, é necessário ter uma grande familiaridade com o assunto." Às vezes, coisas prosaicas podem fazer toda a diferença para a mente preparada. Em 1889, os alemães Joseph von Mering e Oscar Minkowski estavam estudando a função do pâncreas na digestão. Tiraram o órgão de um cachorro para ver o que acontecia. O cão, estropiado, continuou vivo, mas os pesquisadores notaram que a quantidade de moscas tinha aumentado muito no laboratório depois da operação. Um enxame delas disputava furiosamente a urina do animal. Em vez de demitir o subalterno que cuidava da higiene do local, a dupla resolveu estudar a urina do bicho e descobriu que ela estava inundada de açúcar, um sinal já conhecido do diabete.
Mering e Minkowski perceberam imediatamente que o pâncreas devia produzir alguma substância controladora do uso do açúcar no organismo. A insulina, que faltava na urina e no metabolismo do cão operado, foi descoberta finalmente em 1921 por Charles Best e Sir Frederick G. Banting, da Universidade de Toronto, Canadá. A descoberta, que melhorou a vida de milhões de diabéticos, poderia ter demorado muito mais se 32 anos antes dois pesquisadores não estivessem atentos para reconhecer uma coisa nova, como diz a professora Amélia - no caso, as moscas que apareceram misteriosamente no laboratório.
O remédio mais popular da História, de seu lado, surgiu de um engano. Por volta de 1870, segundo o autor de Serendipity, o químico Felix Hoffman, da Bayer, estava procurando uma maneira de usar o fenol, um germicida, em infecções. Testou um extrato de uma planta da espécie Spiraea, que continha fenol. Nos primeiros experimentos a pílula de Hoffman não teve a menor utilidade no combate à infecção, mas os pacientes notaram que ela era boa para baixar a febre e para abrandar dores como as causadas pela artrite. A substância ativa do extrato era o ácido acetilsalicílico. Em homenagem à planta, o medicamento foi batizado de aspirina. É bem possível que a cura de muitas doenças esteja dormindo num frasco empoeirado em algum laboratório à espera de um acaso - como o que ocorreu na descoberta da clorpromazina, substância psicoativa que foi testada como anestésico pré-operatório na década de 40.
Os franceses Jean Delay e Pierre Deniker ficaram surpreendidos com a "quietude eufórica" dos pacientes que tomavam a droga e resolveram experimentá-la em maníacos depressivos e esquizofrênicos. Foi uma revolução médica inesperada, acontecida do dia para a noite. A partir de então, pacientes esquizofrênicos, em fase mais branda da doença, puderam deixar os hospitais e levar uma vida quase normal. Essa descoberta que ninguém perseguia levou a outra, igualmente importante. Doses excessivas de clorpromazina, notaram os médicos, provocavam sintomas nítidos do mal de Parkinson, doença que atinge dramaticamente pessoas idosas. Já se sabia que o esquizofrênico tem uma superatividade de dopamina, um neurotransmissor, no cérebro. Se a clorpromazina reduz o efeito da dopamina e se ela provoca sintomas do mal de Parkinson em pessoas normais, então, logicamente, a doença é causada por uma escassez de dopamina. De fato, o uso de L-dopa, um precursor da dopamina,  mostrou-se muito eficaz para minorar o sofrimento da moléstia.
Com o aparecimento dos grandes laboratórios químico-farmacêuticos, acidentes felizes desse tipo começaram a se multiplicar. Em abril de 1957, por exemplo, químicos do laboratório Hoffman-La Roche, na Suíça, receberam a ordem de abandonar as intermináveis experiências com variantes de substâncias químicas formadas por um ou mais anéis de carbono com átomos de nitrogênio. No momento de encerrar a rodada de experiências com tais drogas, um dos pesquisadores lembrou-se de que várias delas, sintetizadas dois anos antes, nunca tinham sido testadas. Daí surgiriam o Librium e o Valium, os tranqüilizantes mais receitados no mundo.
A lista de drogas descobertas dessa maneira é longa e inclui a ciclosporina, testada sem sucesso como anticancerígeno e arquivada por décadas até se mostrar a substância que viabilizou todo um novo capítulo da história da Medicina, como o remédio anti-rejeição que permitiu a rotina atual dos transplantes de órgãos. O AZT, a única droga efetiva até agora contra os sintomas da Aids, também foi um desses felizes equívocos - nos primeiros testes era também um medíocre medicamento anticâncer. Uma importante descoberta pode ficar na obscuridade enquanto ninguém souber direito para que serve. É comum dizer que a necessidade é a mãe da invenção, mas um balanço histórico mostra que nem sempre isso é verdadeiro. Ninguém imagina um grande escritório moderno sem uma copiadora xerox. O americano Chester Carson inventou o processo xerográfico em 1938 e teve de andar seis anos em busca de um financiador. Não achou. Fundou sua própria empresa e somente vinte anos depois viu o invento comercializado.
Uma  descoberta  pode ficar décadas no limbo por uma variedade de motivos. A razão mais citada - e na maioria das vezes falsa - é de que grandes grupos industriais sabotam o aparecimento de novidades. Mas, pelo menos em um caso documentado, isso aconteceu. Em 1933, o americano Edwin Armstrong inventou o rádio de freqüência modulada (FM), que eliminava interferências e permitia a transmissão de sons em alta fidelidade. O dono da RCA Victor, David Sarnoff, amigo pessoal de Armstrong, rechaçou o invento unicamente porque a empresa não estava preparada para mudar seus enormes investimentos em transmissores de amplitude modulada (AM). Pior ainda, depois da Segunda Guerra Mundial as rádios FM começaram a proliferar e Armstrong enrolou-se em prolongadas batalhas judiciárias. Ao fim, as empresas, entre elas a RCA, foram condenadas a pagar-lhe mais de 20 milhões de dólares. Tarde demais porém. De desgosto, Armstrong havia se suicidado em 1954.  

Proteção para a invenção

O Brasil foi o quinto país do mundo a adotar um sistema de patentes com o alvará de 1809 de dom João Vl. Mas o reconhecimento formal de um invento data de 1830, com a concessão, autorizada por dom Pedro I, do direito de exclusividade para a fabricação de uma cadeira de rodas a um certo Joaquim Marques de Oliveira. Inventores desde então não faltaram no país, mas na maioria dos casos as idéias tiveram melhor aproveitamento em países mais desenvolvidos. O padre gaúcho Landell de Moura, por exemplo, teria idealizado o primeiro telégrafo sem fio em 1893, três anos antes do italiano Marconi. Outro padre, o paraibano Francisco José de Azevedo, chegou a ganhar uma medalha de ouro na Exposição Nacional do Rio de Janeiro em 1861, para a sua máquina de escrever, mas quem industrializou a inovação foi a Remington americana, em 1873.
A lista é relativamente longa e inclui o padre Bartolomeu de Gusmão, inventor do aeróstato, e, naturalmente, Santos-Dumont com o avião, mas outros levaram a fama. Se os inventos não deram prestígio ao país, o sistema de patentes contribuiu muito para a industrialização. "O Estado tem interesse em democratizar o acesso ao conhecimento. A patente torna público um processo industrial. O inventor tem de redigir sua obra de forma que outra pessoa do ramo possa reproduzir", diz Maria Margarida Mittelbach, diretora de patentes do Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI). "Como recompensa para o inventor revelar seu processo, o Estado Ihe confere o título de propriedade e exclui terceiros do uso de sua invenção sem autorização prévia." O INPI tem um acervo de 18 milhões de patentes, o maior da América Latina, à disposição de quem queira tirar proveito dos conhecimentos acumulados.

Afogando em informações

Algumas pessoas têm enorme facilidade de inventar coisas. O difícil, para elas é patentear suas invenções. Todo dia o Escritório de Patentes e Marcas Industriais dos Estados Unidos, o maior do mundo, recebe aproximadamente 12 000 pedidos de patentes, julgados por 3 300 peritos, distribuídos por 2 600 escritórios especializados, da fibra ótica à pescaria. Isso pode parecer muito bom para os amantes do saber, mas na verdade a situação caminha para algo que os especialistas qualificam como a grande inundação do conhecimento. Em menos de cinco anos a quantidade de informações armazenadas em todo o mundo - considerando patentes, trabalhos científicos e dados acumulados - vai ser tão grande que se tornará praticamente impossível manuseá-las.
Para se ter idéia de como evolui o armazenamento de ciência basta lembrar que há 
5 000 anos não existiam livros. Na Idade Média, o poeta Dante Alighieri era considerado um sábio porque tinha uma biblioteca com 1 338 volumes. Hoje, a Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos, a maior do mundo, tem 19 milhões de volumes. O programa espacial, em pouco mais de três décadas, gerou uma quantidade de informação duas vezes maior do que a contida na Biblioteca do Congresso. Nos próximos cinco anos, a contar da entrada em funcionamento do telescópio espacial Hubble e da bateria de satélites do Sistema de Observação da Terra, os coletores automáticos de informação e os sensores dessas naves vão despejar o equivalente a uma Biblioteca do Congresso por dia, em dados para análise.
Os efeitos da inundação já se fazem sentir: a existência do famoso buraco na camada de ozônio sobre a Antártida ficou registrada, incólume, nos bancos de dados do satélite Nimbus 7 durante cinco anos. E as melhores imagens de um grande vulcão extinto em Marte - o Olimpo, o maior do sistema solar - só foram descobertas dez anos depois que a sonda Viking as enviou para a Terra. 

A miragem do moto perpétuo

A descoberta mais ambicionada por inventores desavisados (ou escroques) é a máquina conhecida como moto perpétuo. Ela seria capaz de girar e até de produzir trabalho eternamente de forma gratuita - um sonho que a humanidade persegue há milênios. A história distingue dois tipos de inventores que cultivam esse delírio. Os que desconhecem ingenuamente as implacáveis leis da termodinâmica e os charlatães. O mais notável representante desse último grupo foi sem dúvida John Worrel Keely, um corpulento mecânico da Filadélfia de quase 2 metros de altura que anunciou em 1875 a construção de um moto perpétuo.
Era um motor que acionava um gerador que por sua vez devolvia energia ao motor, com um excesso que aparentemente poderia ser aproveitado. Um complicado labirinto de tubos escondia um intricado sistema de vapor que seria, segundo Keely, o segredo principal. "Um bocado de água tem vapor capaz de produzir força suficiente para mudar a trajetória da Terra", gabava-se ele aos curiosos que pagavam ingresso para ver o que era considerado a oitava maravilha do mundo. Keely arrecadou, até a sua morte, em 1898, nada menos de 1 milhão de dólares. Seu filho e herdeiro pôs tudo a perder ao abrir a casa do pai à visitação pública. No porão descobriu-se um reservatório de ar comprimido, a verdadeira fonte do movimento perpétuo.
A maioria dos caçadores do moto perpétuo, no entanto, eram pessoas ingênuas que acreditavam ser possível enganar a natureza, inspirados principalmente nas idéias do sábio Arquimedes (290 a.C.-212 a.C.) de Siracusa, Sicília. A alavanca e o parafuso, demonstrou ele, são engenhos que transformam uma pequena força numa grande ação. Isso deu origem a uma infinidade de engrenagens megalomaníacas. No século XIII, o arquiteto francês Villard de Honnecourt, por exemplo, fez uma roda com braços dobráveis. À medida que ela girava, os braços de baixo desdobravam-se, ficando maiores, enquanto os de cima dobravam-se, ficando menores. A idéia era produzir um efeito de alavanca em tomo do eixo. No século XVI, o médico inglês Robert Fludd, de resto conhecido por sua paixão pelo ocultismo, fez um moinho em que parte da água derramada voltava ao nível superior por obra e graça de um parafuso.
Não havia até então nenhuma lei física que expressamente proibisse tais coisas, mas é claro que nenhuma dessas engenhocas funcionava. Somente em 1847 o físico alemão Hermann von Helmholtz (1821-1894) enunciaria a primeira lei da Termodinâmica, pela qual a energia é conservada, nunca criada ou destruída. Helmholtz provou ser impossível a água do parafuso de Fludd voltar ao nível de onde caíra sem algum gasto de energia na sua reelevação. Outros tipos de máquina que pretendiam extrair trabalho sem usar diferenças de temperatura foram desmontados pela segunda lei da Termodinâmica formulada pelo francês Sadi Carnot (1796-1832): é impossível pôr um engenho a funcionar apenas extraindo calor do ambiente em que se encontra.
Embora essas máquinas milagrosas estejam desacreditadas desde o longínquo ano de 1775, quando a Academia de Ciências de Paris resolveu não responder à correspondência de candidatos a inventores do moto perpétuo, ainda hoje há quem perca tempo queimando neurônios para obter o milagre. O Escritório de Patentes dos Estados Unidos se recusa a examinar pedidos desse tipo, mas, por um descuido burocrático, registrou  o último em 1974, sob o número 3 934 964. Naturalmente, o invento não funciona. Afinal, pilantras espertos podem burlar leis humanas tomando dinheiro de incautos mediante truques, mas ninguém pode contrariar as leis da natureza, que impedem tirar alguma·coisa do nada.