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domingo, 10 de janeiro de 2021

Os momentos históricos de Maradona, dentro e fora dos gramados

 Os momentos históricos de Maradona, dentro e fora dos gramados

Diego Maradona fez história dentro e fora dos gramados. 

sexta-feira, 4 de maio de 2018

As maiores goleadas da história das Copas do Mundo - Futebol


As maiores goleadas da história das Copas do Mundo - Futebol


A derrota retumbante do Brasil, anfitrião da última Copa da FIFA, que perdeu para a Alemanha de 7 a 1, é atualmente a goleada mais relembrada das Copas. No entanto, não é a única.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Entregamos a Copa de 1998 ???

ENTREGAMOS A COPA de 1998 ???



Se há uma conspiração capaz de arregimentar um número incrível de crentes é a de que o Brasil entregou a Copa do Mundo de 1998 - para ganhar a de 2002? Talvez? O fato é que o mundo futebolístico foi tomado de surpresa quando, pouco antes da final entre Brasil e França, no dia 12 de julho, foi divulgada a notícia de que o craque Ronaldo não iria jogar. Logo depois circulou a informação de que, cinco horas antes da partida, o "Fenômeno" teria sofrido uma convulsão. Por isso, o reserva Edmundo jogaria no seu lugar. No último instante, Ronaldo foi escalado e a seleção do Brasil, talvez assustada com toda a confusão, entrou irreconhecível em campo. A França enfiou 3 a 0, com extrema facilidade, e conquistou a Copa.

Ronaldo teria sido escalado na subida do vestiário para o gramado. O capitão Dunga bateu o pé e exigiu que a seleção não fosse modificada novamente em cima da hora e que Edmundo jogasse. Zagallo explicou a Ronaldo que já havia mudado a tática da equipe e também que, àquela altura, a imprensa já tinha recebido a folha de escalação. O ex-goleiro Gilmar Rinaldi, observador da seleção em 1998, contou o fato ao presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), Ricardo Teixeira, que imediatamente ordenou que, se Ronaldo estivesse bem, deveria jogar. E assim foi feito. Ronaldo jogou, ou melhor, fez volume em campo durante os 90 minutos.

No Brasil, logo correu o boato de que a CBF e a Nike (patrocinadora da seleção) tinham vendido o jogo. Uma suspeita compreensível. A seleção perdera com facilidade nunca vista. Apesar de a França contar com bons jogadores, como Zinedine Zidane, o elenco brasileiro era superior. No embalo, surgiu todo tipo de teoria conspiratória. Boatos diziam que o contrato entre a Nike e a CBF estipulava que Ronaldo tinha de disputar todos os jogos do certame. A Nike teria forçado sua escalação, abalando o resto do time e causado a derrota.

Outro boato da época dizia que o Brasil tinha entregado o título para, em troca, sediar uma das próximas Copas. Outra tese, absurda, dizia que Ronaldo havia sido envenenado pelo cozinheiro francês da concentração. A história oficial atesta que a convulsão foi provocada por uma injeção de xilocaína (um analgésico) no joelho de Ronaldo e que a decisão de escalá-lo foi exclusiva do técnico Zagallo.

Mas todas essas suspeitas só surgiram porque o futebol virou um negócio milionário, atraindo investidores poderosos - e toda sorte de interesses. Para o jornalista inglês David A. Yallop, autor do livro Como Eles Roubaram o Jogo, o culpado pela transformação do futebol em negócio tem nome e sobrenome: João Havelange, o brasileiro que comandou o futebol mundial por 24 anos. No livro, Yallop expõe vários argumentos que colocam em xeque a lisura dos resultados de alguns jogos decisivos da Copa do Mundo. Mostra também como as conspirações e os interesses comerciais tomaram conta do esporte mais popular do planeta. Conspirações que, segundo Yallop, aumentaram sobretudo com a eleição de Havelange à presidência da Fifa, 1974, quando venceu o inglês Stanley Rous numa eleição marcada por denúncias de compra de votos. A seguir, algumas histórias suspeitas citadas no livro de Yallop.

O CASO MANÉ

"Garrincha ser expulso de campo por agredir um adversário parecia tão absurdo quanto São Francisco de Assis disputar um concurso de tiros aos pombos ou Branca de Neve ser apedrejada por discriminar anões. Mas foi o que aconteceu pelas semifinais da Copa de 62, durante Brasil e Chile." Assim o escritor Ruy Castro, no livro Estrela Solitária, Um Brasileiro Chamado Garrincha, descreve a personalidade dócil de Mané Garrincha. Mas, naquele jogo, Mané não agüentou as botinadas do zagueiro chileno Eladio Rojas e revidou, dando um pequeno tostão nas nádegas do adversário. O bandeirinha uruguaio Esteban Marino achou aquele ato de Garrincha uma agressão despropositada e o denunciou ao juiz peruano Arturo Yamazaki, que expulsou o brasileiro. Embora não estivesse prevista a suspensão automática, os membros da comissão disciplinar da Fifa iriam se reunir no dia seguinte para julgar o caso, com base no relatório do árbitro. Pelo estardalhaço feito pela imprensa chilena, Garrincha fatalmente ficaria fora da final.

Imediatamente, os brasileiros e, principalmente, João Havelange, então presidente da Confederação Brasileira dos Desportos (CBD), começaram a tramar para que Garrincha jogasse a final da Copa, pois o Brasil já estava desfalcado de Pelé, que se contundira no início da competição. Segundo os conspirólogos, antes da reunião que decidiria a questão disciplinar, chegou ao Chile, vindo do Rio de janeiro, uma valise cheia de dinheiro. O presidente do Peru, Manuel Prado y Ugarteche, atendendo a pedidos de políticos brasileiros, pediu ao árbitro peruano que não acusasse Garrincha na súmula. O bandeirinha Esteban Marino, por sua vez, tomou um chá de sumiço. Resultado: Yamazaki escreveu na súmula que não vira a agressão de Garrincha, e o craque foi liberado para jogar a final contra os tchecos. E o Brasil voltou do Chile com a taça de bicampeão do mundo.

COPA DE 78

A Copa do Mundo de 1978, na Argentina, aconteceu logo depois de o país sofrer um golpe militar. Os hermanos precisavam ganhar a Copa de qualquer maneira, para melhorar sua imagem no exterior, abalada por causa da ditadura. Além disso, o futebol era a válvula de escape para que o povo esquecesse os assassinatos e desaparecimentos dos que se opunham ao governo do general Jorge Videla. A comissão organizadora da Copa era encabeçada pelo general Carlos Omar Actis, uma figura respeitada em seu país. O mesmo não se podia dizer do vice-presidente da comissão, o capitão Carlos Lacoste, um homem ambicioso que queria construir novos estádios e adotar o sistema de transmissão de TV em cores.

O general Actis sabia que o país não podia arcar com as idéias megalômanas de Lacoste. Mas, a caminho de uma entrevista coletiva, em que explicaria seus planos para a Copa de 78, Actis foi assassinado. Lacoste então foi nomeado presidente da comissão organizadora e fez o que queria. Construiu três novos estádios e, para a alegria dos patrocinadores, a transmissão dos jogos para o resto do mundo foi feita em cores.

No campo, a Argentina mostrou que não estava com essa bola toda. Nas semifinais, os anfitriões caíram num grupo difícil, com Brasil, Polônia e Peru. Brasileiros e argentinos estavam empatados em número de pontos. Só uma das seleções chegaria à final. Na última rodada dessa fase, o Brasil jogaria contra a Polônia, enquanto a Argentina enfrentaria o Peru. Espertamente, Lacoste marcou o jogo dos brasileiros para tarde e o dos argentinos para a noite. Assim, os hermanos entrariam em campo já sabendo do resultado que precisariam para disputar a final.

O Brasil cumpriu seu papel e bateu a Polônia por 3 x 1. A Argentina teria que vencer o Peru por no mínimo quatro gols de diferença. Não seria uma tarefa fácil, já que, na fase de classificação, o time peruano havia terminado seu grupo em primeiro lugar. Segundo os conspirólogos, a ordem para que o resultado fosse manipulado partiu do general Videla e foi prontamente atendida por Lacoste. O fato é que os peruanos entraram em campo com quatro reservas inexperientes, um zagueiro escalado no ataque e o goleiro argentino naturalizado peruano (!).

O resultado não poderia ser outro: a Argentina meteu 6 x 0 no Peru e eliminou o Brasil no saldo de gols. Na final, derrotou a Holanda por 3 X 1 e conquistou seu primeiro título mundial. Lacoste, por sua vez, tornou-se vice-presidente da Fifa e amigo de Havelange.

MARADONA

Depois de encantar o mundo em 1986, liderando os argentinos no bicampeonato mundial no México, e também decepcionar muitos fãs em 1991, ao ser pego no exame antidoping por uso de cocaína, Maradona foi anistiado pela Fifa e começou a preparar-se para a Copa dos Estados Unidos, em 1994. Submeteu-se a uma rigorosa dieta e renasceu do inferno. Logo no primeiro jogo, ele mostrou a que veio: comandou os argentinos na goleada de 4 x 0 sobre os gregos. Contra os nigerianos, novo show de Maradona: 2 x 1 para a Argentina, e o mundo começou a temer os hermanos. Mas, no exame antidoping, foi detectada em sua urina uma substância chamada efedrina, medicamento usado para redução de peso e que atua também como estimulante. Maradona jurou inocência, mas pegou uma suspensão de 15 meses. Sua carreira tinha chegado ao fim.

E mais uma tese conspiratória veio à tona. Uma das versões diz que a Fifa queria que o astro argentino jogasse na Copa dos Estados Unidos para atrair público. Por essa razão, a entidade havia prometido a Maradona imunidade nos testes de presença de drogas. O jogador então se esforçou para perder peso e chegou em forma à Copa. Porém, poucos acreditavam que ele conseguisse voltar a jogar tão bem como antes. A Fifa entrou em pânico. Afinal, Maradona só tinha que participar da Copa, não precisava vencê-la. E deu no que deu: o craque foi flagrado no exame antidoping e, sem o seu melhor jogador, a seleção argentina perdeu suas duas partidas seguintes, para a Bulgária e a Romênia. O resto é história. Sem um adversário à altura, o apenas razoável time do Brasil abriu caminho até a final contra a Itália. E aí foi só correr para o abraço.
É tetra! É tetra!

Eu acredito!

"Não concordo basicamente com duas coisas do livro Como Eles Roubaram o Jogo, do David Yallop. Uma, técnica: ele chupou uma matéria da Playboy brasileira sobre o Havelange, sem citar a fonte e o autor, Roberto José Pereira. E tem uma visão sobre a corrupção no futebol que exime os ingleses, o que é uma bobagem. O que ele conta é verdade, muitas artimanhas realmente aconteceram, mas é parcial em relação aos seus conterrâneos. Infelizmente, o processo eleitoral continua na mesma. Compram-se votos sem a menor cerimônia. E o poder está nas mãos desses homens que, como gostam de dizer em seu estatuto, estão lá ‘para o bem do jogo’, mesmo que, para isso, tenham que roubá-lo primeiro."
Juca Kfouri é jornalista

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Como o futebol explica o mundo - Conflitos

COMO O FUTEBOL EXPLICA O MUNDO - Conflitos



O Brasil foi jogar bola no Haiti e isso não teve nada a ver com preparação para a próxima Copa. Quem estava em campo era a diplomacia. Para comprovar, basta ver a cobertura da televisão: em vez da Fifa, era a ONU que aparecia nas imagens. No lugar do centroavante, era o presidente do país que atraía a atenção dos repórteres. Não foi a primeira nem será a última vez que futebol e política se misturaram.

É por causa dessa proximidade que alguns estudiosos olham para o gramado e enxergam um retrato perfeito da sociedade. A bola está na moda entre os analistas políticos.

Se você nunca tinha pensado que 22 jogadores em campo podem resumir o mundo, deve estar com uma dúvida: por que justamente o futebol, e não o cinema ou a literatura? "A arte sempre será produto da imaginação de uma pessoa. O futebol é parte da comunidade, da economia, da estrutura política. É um microcosmo singular", diz o jornalista americano Franklin Foer, autor de How Soccer Explains the World ("Como o Futebol Explica o Mundo", sem tradução para o português). Não apenas singular, mas global. É o esporte mais popular do planeta. Uma fama, aliás, que tem razões pouco esportivas. "O futebol nasceu na Inglaterra numa época em que os ingleses tinham um império e viajavam por muitos países. Ferroviários levaram a bola para a América do Sul, petroleiros para o Oriente Médio", afirma Foer.

Mas não vá confundir o papel do esporte. Ele faz entender, mas não muda o mundo. "Não se trata de uma força revolucionária capaz de transformar uma nação. É apenas um enorme espelho que reflete a sociedade em que vivemos", diz Simon Kuper, autor de Football against the Enemy ("Futebol contra o Inimigo", sem versão brasileira). A bola está em jogo: nas próximas páginas, você vai ver como o futebol explica...

A Reforma rotestante
Na Escócia, quando Glasgow Rangers e Celtic se enfrentam, estão dando continuidade a uma rivalidade que começou antes de o futebol existir. Mais exatamente no século 16, quando a Reforma protestante varreu o país matando católicos. Muitos morreram. Os que sobraram passaram o tempo acalentando a fidelidade ao papa, o sonho de independência e, mais tarde, o amor ao Celtic. Do outro lado da cidade, os protestantes se aliaram à monarquia inglesa e fundaram o Rangers - em que, até 1989, católico nenhum podia entrar.

Se rivalidade pode ser medida, Rangers e Celtic fazem o clássico de maior rivalidade do mundo. O ódio mortal desafia todos os intelectuais que afirmam que a civilização aplaca a barbárie e dissemina a tolerância. Glasgow é uma cidade rica, culturalmente criativa, politicamente liberal. E mesmo assim algumas de suas figuras mais proeminentes são capazes de ir ao estádio cantar hinos como "estamos mergulhados até o joelho em seu sangue".

Católicos e protestantes se matando parece coisa da Irlanda do Norte, você deve pensar. Acontece que por lá não há mais espaço para esse tipo de convivência. O católico Belfast Celtic fechou suas portas em 1949, após uma partida em que a briga das arquibancadas chegou ao gramado e jogadores foram espancados. Com a ajuda da polícia. Pela paz da nação, deixaram o futebol de lado.

A guerra Iugusláva
Quando o juiz apitou o início de Dínamo Zagreb versus Estrela Vermelha, em 1990, começou uma guerra sangrenta. Naquele dia, a união de repúblicas que formava a Iugoslávia foi sepultada.

O visitante Estrela Vermelha vinha de Belgrado, na Sérvia, capital iugoslava. O Dínamo era de Zagreb, da separatista Croácia. E os torcedores estavam lá para protestar: o estádio se transformara num caldeirão nacionalista. Quando a briga começou, um helicóptero teve de resgatar do campo os jogadores do Estrela Vermelha. Os croatas haviam estocado pedras para o ataque. As grades que separavam as torcidas desapareceram - foram dissolvidas com ácido. Os sérvios não recuaram. Pela primeira vez em 50 anos a Iugoslávia vivia um confronto étnico. Para os que defendiam um conflito armado, era a gota d’água.

Futebol e guerra não se separariam mais. E no centro desse casamento estava o Estrela Vermelha. O chefe das torcidas organizadas era um sujeito conhecido como Arkan, que mais tarde seria apontado como um dos maiores criminosos de guerra da Iugoslávia. Arkan recrutava torcedores mais violentos para atuar como paramilitares na Bósnia - entre os atrativos, ele oferecia visitas de jogadores do Estrela Vermelha para combatentes feridos. Estima-se que esses torcedores-soldados tenham matado cerca de 2 mil pessoas. A maioria civis. Quase todos com requintes de crueldade.

O Irã
Não há solo tão fértil para o florescimento de teorias conspiratórias como o do Oriente Médio. Uma delas diz que o governo do Irã sabota a seleção de futebol. Faltam evidências para acreditar na tese. Mas que os chefes muçulmanos torcem contra, isso eles torcem. E com motivo.

A rixa começou quando o regime do xá Reza Pahlevi fez do esporte um sinônimo de modernidade. Mesquitas eram confiscadas e davam lugar a campinhos. O xá era fanático pelo Taj, de Teerã. Sua esposa, pelo rival Persépolis.

Ao tomarem o poder, em 1979, fundamentalistas tentaram cooptar o esporte, cercando o campo com placas "publicitárias" anti-Israel e Estados Unidos. Não deu certo, e o futebol tornou-se símbolo da resistência. "No estádio você pode gritar contra o regime. É o único lugar livre. Focos oposicionistas nascem lá", diz Simon Kuper. Jovens tomam a arquibancada para pedir reformas. Pior: atletas como Beckham, cabeludo, tatuado e mulherengo, vendem um estilo de vida que influencia adolescentes e assombra religiosos. Pior ainda: se a seleção vai bem, a euforia toma conta do país e faz até as mulheres exigirem participar da festa, aos gritos de "não fazemos parte desse país?". É muita subversão para um aiatolá só.

Os comunistas
Como quase tudo no mundo comunista, o futebol soviético era infestado pela burocracia. A cada clube correspondia uma parte do poder: o CSKA pertencia ao Exército, o Dínamo Moscou à KGB, o Lokomotiv, adivinhem, era dos ferroviários. Só o Spartak Moscou não era de ninguém. Quer dizer, pertencia a um louco chamado Nikolai Starostin, que por conta da ousadia de possuir um time foi defenestrado para a Sibéria.

Na ditadura soviética, torcer era um ato político. Foi nos estádios, durante jogos do Yerevan Ararat ou do Dínamo Tblisi, que países como Armênia e Geórgia começaram suas lutas pela independência. Starostin, no entanto, fundou seu time não para bajular oficiais do governo, mas para agradar fãs de futebol. A massa adorou. O governo nem tanto. Quando o Spartak foi bicampeão em 1938 e 1939, deram um jeito de condenar o cartola a dez anos no gulag stalinista - onde, ironicamente, era disputado pelos chefes dos campos para ser técnico do time. Enquanto isso, na capital, o regime iniciou seu expurgo da história. O rosto e o nome de Starostin sumiram de fotos e registros oficiais. O tratamento clássico destinado aos inimigos do comunismo.

Na Alemanha Oriental, o queridinho do governo era o Dínamo, de Berlim. Assim como grande parte dos clubes de mesmo nome na Cortina de Ferro, o Dínamo era o time da polícia secreta. Não é surpresa, portanto, que tenha ganhado dez títulos nacionais seguidos nos anos 70 e 80. "Nos regimes comunistas, todo dinheiro ia para a capital. E essa política incluía também o futebol", diz Simon Kuper. O clube vivia um paradoxo: provavelmente era ao mesmo tempo o clube mais vitorioso e o mais odiado do mundo. Quando não estava dando pitacos no time, sua diretoria se reunia na cúpula da Stasi, como era conhecida a brutal polícia secreta alemã. Sendo assim, berlinense que gostava de futebol odiava o Dínamo e sonhava em reencontrar o Hertha Berlim, o time que ficara do lado ocidental da cidade quando o muro foi erguido. No primeiro jogo após a unificação da Alemanha, o estádio do Hertha recebeu 59 mil torcedores - num jogo da segunda divisão. Então os alto-falantes agradeceram a presença do corpo de diretores do Dínamo Berli. Houve revolta nas arquibancadas. No jogo seguinte, o público pagante não passou de 16 mil pessoas.

Collor e Lazzaroni
O técnico Sebastião Lazzaroni e o presidente Fernando Collor têm em comum mais do que terem sido escorraçados de seus cargos. Talvez você tenha esquecido, mas o Brasil foi eliminado da Copa sob a tutela de Lazzaroni, em 1990. Mesmo ano em que Collor assumiu a Presidência. Além de contemporâneos, eles foram ícones de uma onda que varreu o país na virada da década: a febre dos importados.

Era uma fase em que idolatrávamos o que vinha de fora - a solução dos problemas estava no exterior. Convenhamos que motivos existiam: com o mercado fechado aos importados, a indústria estava obsoleta e pouco competitiva. A seleção, por sua vez, completava 20 anos de murros em ponta de faca. Tudo que o estilo "futebol-arte" nos rendera tinha sido uma coleção de frustrações em Copas.

Collor e Lazzaroni bancaram o risco. Enquanto o presidente prometia revolucionar a economia com tecnologia estrangeira, o treinador se inspirou numa tática européia, colocou um líbero em campo e a seleção jogou na retranca. "Essa modernização pretendia transformar o Brasil numa espécie de Alemanha", escreveu Kuper. Não foi à toa que o treinador virou motivo de chacota. Economia germânica era um belo objetivo. Mas espelhar-se no futebol alemão não dá para desculpar.

Hooligans e a globalização
Os leitores mais antigos deverão se lembrar do Chelsea como o clube da torcida mais violenta do mundo. Seus seguidores eram os hooligans dos hooligans - tatuados, bêbados e brigões. Para os mais jovens, o Chelsea é um clube moderninho. O primeiro a escalar 11 gringos num jogo do campeonato inglês. E o primeiro a ter como dono um russo magnata do petróleo. "Mais que qualquer outro clube no mundo, o Chelsea foi transformado pela globalização", diz Franklin Foer.

O problema é que os antigos hooligans parecem perdidos nesse novo mundo de mauricinhos. Ok, estão felizes com o time disputando títulos. Mas vivem protestando com saudades dos "bons e velhos tempos". E, ironia, fazem isso no melhor estilo da economia de mercado: ao redor do estádio surgiu uma indústria de relíquias dos dias "em que o futebol inglês era jogado por ingleses, os torcedores eram iguais e os ingressos eram baratos". Só esquecem que naquela época o time estava na segunda divisão e falido. "Mitificar o passado, mesmo quando ele merece ser esquecido, é típico da globalização", diz Foer. Não é fácil a vida de um hooligan decadente: quanto mais eles rezam, mais vêem globalização.

Madri e Barcerlona
Endereço do Real Madrid: avenida Castellana, mais conhecida como antiga avenida Generalíssimo Franco. Pronto. Para os torcedores do Barcelona, a polêmica acaba aí: está provado que o Real é, foi e sempre será o time do poder. Tanto que construiu seu estádio na rua que homenageia o maior ditador espanhol. E a conseqüência é óbvia: seu principal rival no futebol, o Barcelona, é, foi e sempre será vítima do poder.

Madri é o centro do governo. Barcelona, capital da Catalunha, uma eterna rebelde reivindicando autonomia. A bola não poderia ficar fora da disputa. Oprimidos pela ditadura franquista, que proibiu o uso do idioma e dos símbolos "nacionais", os catalães fizeram do time do Barcelona seu partido político. O fanatismo do próprio Franco pelo Real só ajudou a acirrar os ânimos.

A briga é digna de Atenas versus Esparta. Catalães gostam de se enxergar como cosmopolitas, industriais e amantes da cultura - de lá saíram artistas como Gaudí e Miró. E descrevem seus rivais como um bando de tacanhos e rurais. Para eles, o reflexo dessas diferenças está no gramado. O Real tem futebol burocrático; o Barça, com holandeses e brasileiros no elenco, joga alegre.

Os pigmeus e o fim do apartheid
O futebol era o esporte mais popular entre os negros da África do Sul. Mas, como tudo que acontecia durante o apartheid, os brancos preferiam ter um campeonato só deles - mesmo sendo muito mais pernetas. No gramado, nas arquibancadas, nos clubes sul-africanos, todos tinham a mesma cor de pele.

A preferência monocromática começou a mudar em 1977, quando Saul Sacks, presidente do time de brancos Arcadia Shepherds, resolveu escalar o negro Vincent Julius no ataque do time. Foi uma surpresa - o presidente da federação só ficou sabendo do plano meia hora antes da estréia. Vinte minutos mais tarde, Sacks entrou no vestiário. "Este é Vincent Julius. Ele vai jogar de centroavante hoje", anunciou aos atletas. Prometia ser um baita escândalo. Não foi. Sacks, meio sem querer, havia captado uma nova atmosfera no país. E ouviu do ministro dos Esportes um conselho que parecia impensável. "Una-se aos negros. É esse o futuro do país."

Não foi a única vez que o futebol refletiu o início de mudanças naquela sociedade. Na década de 80, quando a lei ainda separava a população pela cor da pele, já existia uma liga de futebol mista. E, quando o apartheid acabou, a nova seleção, formada por brancos e negros, passou ser o reflexo da unificação do país. "O futebol virou o símbolo de uma África do Sul em que toda a população estava novamente reunida", diz Simon Kuper.
Ainda na África: Roger Milla, o camaronês que brilhou na Copa de 1990 (aquela em que Camarões venceu a Argentina na inesquecível abertura do torneio), era um jogador fracassado que foi convocado para a seleção graças a sua amizade com o presidente do país. Após a competição, ele encerrou a carreira e virou um fracassado com emprego público. Uma de suas principais iniciativas foi organizar um torneio de futebol entre pigmeus para "levantar recurso para saúde e educação". Quando chegaram à capital, os pigmeus foram aprisionados e mal alimentados. "Eles jogam melhor se comerem pouco", explicou um dos responsáveis pelo torneio. Bilheteria do jogo: 50 ingressos vendidos. E o público passou a maior parte do tempo xingando os pigmeus.