sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Sob o signo do Escorpião - Predadores

SOB O SIGNO DO ESCORPIÃO - Predadores



Eles são dos animais mais antigos que existem na terra. Quase tudo neles é diferente: o modo de atacar, as vítimas, de comer, de reproduzir-se. Seu veneno é poderoso, mas poucos dispõe dele em quantidade suficiente para matar um homem.

São animais de bem pequeno porte: os menores não passam dos 2 centímetros, e os maiores não chegam aos 20. Mas pelo menos no Norte da África, no Oeste mexicano e no sudeste do Brasil eles representam a morte. São os escorpiões, que carregam nas pinças da cauda um veneno que pode ser fatal. Eles se dividem em 1500 espécies, todos apresentando diferenças entre si. Uma delas é fundamental: alguns tem veneno em quantidade suficiente para afetar animais grandes - o homem-, por exemplo. Esse veneno é uma perigosa neurotoxina que, dependendo da quantidade inoculada no corpo da vítima, pode ser fatal.
Para os acidentados por esses escorpiões, a dor é lancinante. Tremores incontroláveis e um típico andar cambaleante são o prenúncio de uma morte que só vai chegar depois de muito sofrimento. O corpo se cobre de suores frios, a face se torna arroxeada e acontecem, então, as derradeiras convulsões. Mas também não é o caso de exagerar o perigo: das 1.500 espécies de escorpiões apenas vinte produzem o veneno em quantidade suficiente para provocar a morte de um homem adulto. Ainda assim, o desenvolvimento do processo dependerá sempre das condições de saúde da vitima e da capacidade do organismo de resistir às toxinas. Isso faz com que esses raros escorpiões sejam especialmente perigosos para as crianças.
Ao contrário das serpentes, que são classificadas em cinco grupos, a partir do tipo de veneno que produzem, os escorpiões perigosos produzem sempre o mesmo tipo, sejam eles do Norte da África, do México ou do Brasil. Convencionou-se chamá-lo neurotóxico porque ele age especialmente sobre o sistema nervoso e a morte é causada por asfixia: os comandos do corpo que controlam a respiração ficam bloqueados. Graças a essa característica, um único soro pode socorrer a vitima da picada de qualquer escorpião e existem mesmo acordos entre os países produtores para que o soro apresente sempre características semelhantes e eficientes em qualquer caso.
A espantosa virulência da picada é apenas uma das muitas particularidades adquiridas por esse animal que vem evoluindo há 400 milhões de anos. Sabe-se que os antepassados dos escorpiões eram maiores. Nesses milhões de anos de evolução, a espécie na verdade mudou pouco externamente e continua capaz de praticar muitas excentricidades. Os atuais escorpiões ainda são animais predominantemente de zonas secas; vivem nos desertos, escondem-se sob as pedras e pedaços de madeira. Mas há os que vivem nas florestas, outros que freqüentam a beira-mar.
É impossível saber desde quando os primitivos escorpiões passaram a contar com glândulas de veneno bem desenvolvidas, associadas ao aguilhão da cauda. Quase nada se sabe da anatomia interna dos pré históricos. Os restos fossilizados daqueles animais mostram apenas os contornos gigantescos de corpos que mediam quase 1 metro de comprimento. O mais antigo de todos foi encontrado na ilha de Gotland, território sueco bem no meio do mar Báltico, mas dele só foram recuperados alguns poucos fragmentos. Paradoxalmente, hoje não há escorpiões na Escandinávia em geral, e na Suécia em particular.
O maior escorpião que existe atualmente é o Pandinus imperator que vive na África Equatorial. Sua couraça negra e luzidia mede quase 20 centímetros e brilha à noite, como uma lembrança inquietante dos seus antepassados gigantes. O que mais impressiona no imperator é a corpulência. Seus palpos -as garras dianteiras- parecem as duas tenazes de um lagostim. A força de seus músculos é surpreendente. Aprisioná-lo entre as pontes de uma pinça é uma experiência inesquecível: as garras do animal dão a impressão de estar "mastigando" o aço.
Tamanho, força, agilidade, veneno. São as armas do imperator. Tudo Isso é descarregado sobre a vítima, tão logo ela seja encontrada. O gigante se alimenta de ratos, baratas, lagartixas. Embora não seja capaz de causar dano sequer a uma criança o veneno está dimensionado para paralisar apenas essas pequenas vítimas que constituem sua refeição , o imperator provoca verdadeiro pânico entre os nativos da região. Quando é localizado numa aldeia, é impiedosamente morto a pauladas e sempre queimado, pois os nativos acreditam que, depois de morto, seu corpo irá se fragmentar em dezenas de novos escorpiões, menores, que logo crescerão para invadir a aldeia.
Parece uma tolice. No entanto, na raiz de qualquer lenda há sempre um fato real, embora mal interpretado. Nesta também. As fêmeas dos escorpiões - todos os escorpiões, não apenas o imperator não botam ovos. Os filhotes vão sendo paridos já com a aparência de pequenos escorpiões que vão se juntando às dezenas sobre o dorso da mãe. Nesse período, que dura até duas semanas, eles permanecem imóveis e vão utilizando as reservas de alimento feitas enquanto estavam no ovo. Se uma fêmea do imperator carregando os filhotes for descoberta pelos nativos, ela realmente espalhará boa quantidade de pequenos escorpiões, ao ser morta a pauladas dando a nítida impressão de que se transformou neles, magicamente. A lenda, portanto, tem sua explicação lógica.
Outro erro de interpretação do comportamento dos escorpiões fez surgir a lenda de que, em situações extremas, quando não têm como escapar ao fogo, eles se suicidam. Nos povoados mexicanos as crianças costumam brincar com o perigosíssimo Centruroides noxius, um pequeno escorpião amarelo, colocando-o no meio de um círculo de fogo. Elas se divertem vendo o desespero do animal, os golpes a esmo que ele desfere em todas as direções, vibrando o aguilhão tanto sobre o solo quanto sobre o próprio dorso. Quando o animal finalmente morre, por efeito do calor escorpiões não resistem às altas temperaturas-, a gurizada jura que assistiu a um suicídio.
Bobagem. Mesmo que quisesse, o escorpião não conseguiria suicidar-se. Seu aguilhão não tem força suficiente para poder perfurar sua carapaça, e mesmo que conseguisse isso, seria inútil: o escorpião é naturalmente imune a seu próprio veneno. Mas outra lenda que corre sobre eles - a dos casais em dança noturna- não é lenda, é pura realidade. É claro que não se trata exatamente de um baile, nem eles estão se divertindo: é uma estratégia de seus mecanismos de reprodução, dos mais engenhosos que a natureza já produziu.
Os machos não possuem pênis. Assim, o encontro sexual de macho e fêmea ocorre de forma pouco convencional. A manobra começa com o macho entrelaçando suas garras nas da fêmea e arrastando-a para o que se pode considerar um longo passeio. O trajeto, cheio de vai-e-vem, se estende por algumas dezenas de metros. De repente, o macho se detém e dispara pela parte inferior do abdômem dois minúsculos bastonetes que se grudam no terreno, em posição vertical. Em seguida, o macho puxa a companheira, fazendo-a deslizar de barriga sobre eles. Nesse momento acontece a fecundação, pois o ápice de cada bastonete é um pequeno reservatório de sêmen, que entra em contato com a abertura genital da fêmea. Então. se o macho insistir em ficar por ali, apreciando o resultado de sua virilidade, vai se dar muito mal: a fêmea poderá matá-lo e transformá-lo em comida.
Comida, por sinal, é outro capítulo muito especial na vida dos escorpiões. Exclusivamente carnívoros, alimentam-se de insetos e pequenos invertebrados, podendo, algumas espécies, atacar um rato ou outro pequeno vertebrado. São capazes de passar longos períodos sem nenhuma alimentação, certamente devido ao fato de que sua habilidade para capturar presas é limitada. Eles esperam pacientemente, até perceber a proximidade de alguma vítima. Mas, se esta consegue escapar ao primeiro bote, não será perseguida.
Quando capturada, a vitima será firmemente segura pelas pinças dianteiras; se for grande, capaz de escapar, será então ferroada e paralisada pelo veneno. Mas comer é que são elas. Escorpiões não dispõem de mandíbulas convencionais como os outros bichos. O processo varia muito de espécie a espécie, mas de modo geral as partes mais macias da presa são trituradas por um par de quelíceras, liquefeitas e empurradas para dentro do estômago. O corpo da vitima, aos poucos, vai sendo reduzido à massa dos materiais que o escorpião não consegue digerir e então é simplesmente jogado fora.
Tudo isso configura um processo extremamente demorado. Em compensação, depois de uma refeição dessas o escorpião pode passar um longo período sem precisar outra vez de comida. Sua sobrevivência em face de toda essa frugalidade, não parece nem remotamente ameaçada. Os cientistas fixam o surgimento dos mais longínquos antepassados do homem em algum ponto há 1 milhão de anos; sendo assim. escorpiões são pelo menos quatrocentas vezes mais antigos, e eles já passaram por sucessivas catástrofes planetárias - períodos glaciais, vulcanismos intensos. inundações de continentes inteiros. Passaram por tudo airosamente, e ai estão. belos e fagueiros, dando nome a uma constelação da Via Láctea, e até reverenciados em alguns ramos do misticismo, como, por exemplo, a Astrologia. Não é a toa que cientistas chegam a acreditar que, na hipótese de uma catástrofe nuclear, suficientemente devastadora para inviabilizar as formas de vida mais sofisticadas, os escorpiões seriam uns dos raros sobreviventes. Continuariam a vagar sobre a terra calcinada (para eles um verdadeiro paraíso) num estranho paradoxo: encarados pelo homem como símbolo da morte, seriam então os únicos representantes da vida no planeta.

Os brasileiros mortíferos

Todos os escorpiões são peçonhentos, isto é, produzem veneno e são capazes de inoculá-lo na vítima. No Brasil, duas espécies devem ser temidas, porque tem veneno em quantidade suficiente para matar um homem. Um é o serrulatus, assim chamado por causa da pequena serra que tem na cauda. Ele é amarelo. Seu rival é o bahiensis, com nome derivado do local onde foi descoberto, a Bahia. É marrom-escuro. Ambos pertencem ao gênero Tytius, mas o amarelo é capaz de injetar o dobro da peçonha durante uma picada.
O soro contra picadas de escorpião é produzido pelo Instituto Butantã, em São Paulo, e serve para as duas espécies. A produção do soro começa pela extração da peçonha por meio de um pequeno choque elétrico, que não traumatiza o escorpião. Assim, ele pode fornecer peçonha de três em três semanas. Gota a gota, a peçonha de centenas de escorpiões é acumulada na concavidade de um vidro de relógio e levada a um dessecador a vácuo. Só depois de seca irá produzir o soro, mediante a hiperimunização de cavalos.
Os cavalos recebem doses progressivamente maiores de peçonha. ate que seu soro sanguíneo apresente certo potencial de imunidade. Então o sangue é colhido e o soro é separado, para chegar ao produto final, embalado em ampolas de 5 mililitros. As glândulas de peçonha dos escorpiões mortos também são aproveitadas. Seis mil glândulas (cada escorpião tem duas) fornecem 2,5 gramas de peçonha seca, quantidade que serve para a primeira hiperimunização de um cavalo. Cada cavalo permite, em média, a fabricação de 250 ampolas de soro.
Em cada acidente grave com escorpiões são utilizados quatro ampolas injetadas na veia. A dor da picada pode ser controlada com a imersão do membro atingido em água quente, por ação local de novocaína ou ainda por aplicação endovenosa de gluconato de cálcio a 10%. Antes do atendimento médico e da utilização do soro, a região da picada deve ser resfriada com aplicações de compressas geladas. Isso evitará que a peçonha se espalhe com rapidez pelo corpo.
O bahiensis pode ser encontrado desde a Bahia e Mato Grosso até o Rio Grande do Sul. O serralatus se limita aos Estados de Minas Gerais, Espirito Santo, Rio de Janeiro e São Paulo.

No Saara, atrás de Escorpiões

O autor deste artigo viajou mais de mil quilômetros, pelo deserto do Saara, a serviço da Universidade de Tenerife (ilhas Canárias). Sua tarefa principal era capturar animais venenosos para a Universidade. Ele aprendeu a montar em camelos e integrou-se a uma expedição militar que patrulhava a região. Eis um breve relato dessa aventura.
Em todos os dialetos falados na região ocidental do Saara só há um nome para escorpião: ElAkram, isto é, O Escorpião. Para mim, O Escorpião só podia ser um animal, 0 Androctonus australis É a espécie mais venenosa do mundo, capaz de matar um homem em menos de quatro horas e um cachorro em pouco mais de cinco minutos. A distribuição geográfica do australis é extremamente irregular. Ainda que no mapa do Saara ele recubra de maneira uniforme o extremo Noroeste do continente africano, quando se está lá, no deserto, as coisas ficam bem diferentes. Em pleno território do australis existem milhares de quilômetros quadrados totalmente desprovidos de animais ou plantas. A única possibiIidade de se achar um reduto de seres vivos, ali, é quando se encontra... um cadáver. A carcaça ressecada de um camelo morto abriga e alimenta muitos insetos; atrás deles vêm seus perseguidores, os escorpiões.
Nosso encontro com o australis foi numa espécie de cemitério de camelos, um local onde foram possivelmente sacrificados-havia meses- os animais doentes ou velhos demais, antes da partida de uma tribo nômade. Numa área de poucas dezenas de metros quadrados, entre pedras, objetos abandonados e cadáveres em decomposição, foram capturados quase cem escorpiões. Oito eram da espécie Androctonus australis. Depois de apanhados com pinças e acomodados separadamente em recipientes de plástico. eles não me pareciam mais tão dignos do temor que causam aos homens do deserto. Aqueles animais me fascinavam por outra razão: era impossível deixar de imaginá-los em suas fantásticas peregrinações noturnas pelo deserto; dezenas de milhas rastreando, apenas com o sentido do olfato, o cadáver distante de um camelo.

De Antenas Ligadas - Rádio Frequência

DE ANTENAS LIGADAS - Radio Frequência



As parabólicas estão provocando uma revolução nas comunicações. Permitindo captar emissões de TV do mundo inteiro, abrem espaço a mudanças culturais capazes de influir profundamente no perfil das sociedades do futuro.

No início da década de 60, quando nascia o programa espacial americano, rastrear satélites em órbita da Terra era uma atividade especializada, restrita a um seleto grupo de funcionários da NASA. Dificilmente alguém poderia imaginar na época que, menos de vinte anos mais tarde, milhões de pessoas espalhadas pelo mundo iriam transformar essa atividade numa rotina doméstica. Eis ai um dos efeitos mais notáveis da revolução nas comunicações, que imprimiu sua marca portentosa na vida do planeta neste fim de século. De fato, a disseminação das antenas parabólicas, que permitem captar em casa uma variedade estonteante de emissões de televisão de muitas partes do globo, representa um salto de proporções grandiosas na relação do homem comum com um dos mais glamourosos produtos da tecnologia contemporânea. O potencial de mudanças sociais e de comportamento que disso deverá resultar mal pode ser imaginado a esta altura, mas alguns indícios não deixam margem a dúvidas -sem falar na transformação por que já começam a passar os próprios televisores.
As primeiras antenas parabólicas domésticas começaram a chegar aos lares americanos em 1975. Hoje, nos Estados Unidos, são mais de 10 milhões de unidades instaladas nos tetos de prédios e casas, proporcionando a seus usuários o privilégio de acompanhar o que vai pelo mundo das imagens no mesmo instante em que entram no ar. A febre contagiou Europa e Ásia e, guardadas as proporções tende a se reproduzir no Brasil.
Aqui, á parabólica começou a ser comercializada há menos de cinco anos. Os primeiros clientes foram hotéis e grandes empresas. Hoje, calcula-se em cerca de 20 mil o número de antenas em funcionamento no país. Como resultado, já existe um respeitável público que se mantém informado vendo todas as noites, além (ou em vez) do Jornal Nacional da TV Globo, o noticiário das grandes redes dos Estados Unidos. "Nossa expectativa é que até o final de 1989 estejam em operação 100 mil antenas", diz Roberto Pedroso, dono de uma loja do ramo em São Paulo.
Quando você liga o aparelho de TV e tecla o canal de determinada emissora, a imagem que chega ao receptor foi gerada nos estúdios daquela estação e transportada por cabos para uma torre de transmissão que emite ondas eletromagnéticas. Tais ondas viajam pelo ar à velocidade da luz em linha reta e alcançam outra torre. Esta, por sua vez, retransmite as ondas para a antena de TV comum que está ligada ao aparelho de televisão. Ao percorrer essa trajetória, as ondas de televisão ficam sujeitas a todo tipo de interferência, desde a montanha no meio do caminho até a vibração do motor de um carro passando na rua.
Quando um aparelho de TV está ligado a uma antena parabólica e ela está voltada para a órbita de determinado satélite, é como se uma verdadeira avenida se abrisse para as ondas. Elas partem da estação rumo ao espaço, atingindo o satélite que as reflete para a Terra, onde são colhidas pelo prato da antena parabólica. Essa trajetória, naturalmente, está livre de interferências. Obtém-se, dessa forma, mais nitidez na imagem e no som. Tal vantagem, porém, nem sempre é o principal motivo que leva alguém a adquirir uma parabólica. A televisão a cabo, que trafega pelos fios, como um telefonema, por exemplo, propicia ganhos muito maiores em qualidade de imagem, pois o sinal segue diretamente do estúdio ao aparelho de TV, sem intermediações de qualquer espécie. Se assim é, o que teria levado milhões de telespectadores a instalar uma parabólica em casa? Ao que tudo indica, a resposta está mais perto da cultura do que da técnica.
Para o escritor americano Alvin Toffler, autor de O choque do futuro e A terceira onda, o homem do final do século XX está criando o que ele denomina infosfera, isto é, independente de fronteiras, nacionalidades ou correntes políticas, número crescente de habitantes do planeta Terra está se aproximando via informação. Saber o que está acontecendo a todo o momento pelo mundo afora passou a fazer parte do ato de viver nas sociedades modernas. Para os setores mais dinâmicos das populações dos países avançados, já não basta ler nos jornais o que aconteceu no dia anterior- nem tampouco acompanhar pela TV à noite os fatos ocorridos horas antes. No mundo cada vez mais integrado pela informática e pelas telecomunicações, se as cotações da Bolsa de Valores de Nova York caem drasticamente às 11h30 da manhã, os investidores em Londres ou Tóquio precisam saber disso na hora para reagir imediatamente à novidade.
Cultural no sentido estrito da palavra é o interesse por programas especiais, que só podem ser apreciados enquanto acontecem por meio de uma parabólica, como a apresentação do Balé Bolshoi em Mascou ou a cobertura ao vivo dos Jogos Olímpicos de Inverno em Calgary, no Canadá. As redes nacionais de televisão, cujos programas são vistos por dezenas de milhões de pessoas, procuram definir sua programação diária de modo a satisfazer a grande massa do público. Como é sabido, isso muitas vezes limita o alcance e a qualidade dos programas, sobretudo na área da informação. Assim, os eventos internacionais passam por vários filtros, ou edições, como se diz, para que o produto final seja assimilável pelo maior número de telespectadores. Para quem esse padrão é insuficiente, nada melhor do que poder buscar a versão original, graças à transmissão via satélite captada por uma parabólico.
A utilização de antenas parabólicas em nível doméstico no Brasil só ganhou impulso após o lançamento do satélite Brasilsat 1, em 1983. Hoje, os usuários brasileiros têm condições de captar programas de oito países -Argentina, Chile, Colômbia, Cuba, Estados Unidos, França, Grã-Bretanha e URSS. O campeão de audiência , é o canal das Forças Armadas dos Estados Unidos, que retransmite 24 horas por dia o melhor da programação das redes americanas. As imagens chegam de onze satélites geoestacionários, que estão em órbita da Terra a aproximadamente 36 mil quilômetros de altura, no chamado cinturão de Clarke. O nome é uma homenagem ao escritor inglês de ficção científica Arthur Clarke. Ele foi o primeiro a calcular, em 1945, a altura certa em que um satélite acompanharia o movimento de rotação do planeta e por isso pareceria estacionado sobre uma região.
Para captar com a parabólica os sinais transmitidos por um satélite, o usuário rastreia o espaço acionando o motor que movimenta a antena, ligado a um controle remoto. As imagens captadas pela antena são transmitidas para o aparelho de TV através de um receiver-aparelho que transcodifica o sinal das televisões estrangeiras para a nossa televisão. O meio de transporte das imagens via satélite são as microondas-ondas eletromagnéticas, que se fossem visíveis se pareceriam com os círculos concêntricos que se formam quando atiramos uma pedra num lago. A freqüência com a qual as microondas são emitidas determina a sua potência de alcance. A modulação da onda forma o código de informações que ela transmite.
Dessa forma, a imagem captada pela lente de uma câmara de TV é transformada em modulações de ondas eletromagnéticas, que se propagam pelo ar .O trabalho do receptor de são é converter essas ondas em sinais de imagem que serão projetados na pequena tela. Para que uma parabólica possa captar os sinais retransmitidos por um satélite, ela precisa estar localizada dentro da faixa de alcance desse mesmo satélite. Assim se explica por que apenas onze, entre as dezenas de satélites de telecomunicações que estão em órbita, alcançam as antenas no Brasil. Uma trasmissão do Japão só chega até aqui se dois satélites estiverem envolvidos na operação. As imagens do Grande Prêmio do Japão de Fórmula 1, por exemplo, são enviadas para um satélite que está acima do arquipélago japonês. Este, por sua vez, retransmite os sinais para outro, localizado no espaço próximo ao território brasileiro.
As antenas parabólicas são feitas de alumínio ou fibra de vidro, com diâmetros que variam dos 4 aos 6 metros. As menores só conseguem captar sinais gerados no território nacional; já as maiores alcançam as transmissões internacionais. Parecem pratos gigantes ou guarda-chuvas abertos de cabeça para baixo. A forma tem uma função: as microondas que atingem os pratos são refletidas para seu centro por efeito da curvatura geométrica da antena. Na ponta da haste presa no centro do prato há um componente eletrônico chamado alimentador, que como o próprio nome diz, alimenta aparelho de TV das microondas vindas do satélite.
Um sistema de captação de satélite brasileiro-que se compõe da ante na propriamente dita, de receptor cabos, conectores e instalação-ter um custo aproximado de 280 OTN (Cz$ 229 600 em março). Já um sistema para captação de televisões estrangeiras está em torno de 750 OTNs (Cz$ 615 000).
Na França e no Japão testa-se atualmente uma antena plana no lugar da forma parabólico. Nesse modelo, toda a antena é formada por microcircuito impressos, que transformam automaticamente as microondas em sinais a serem enviados ao aparelho de TV. A concorrência entre as grandes indústrias do Japão, Europa e Estados Unidos está produzindo também outros avanços tecnológicos. E o caso da microantena, de apenas meio metro de diâmetro, mas tão potente quanto uma oito vezes maior. Antenas parabólicas desse tipo, já em experiência, fixadas na janela de casa, podem captar sinais emitidos por satélites com poder de retransmissão cada vez maior. Parabólicas ou planas, grandes ou pequenas, tais antenas vão povoar cada vez mais a paisagem da civilização.

Cinema em casa

O aparelho de televisão mudou. Sua forma está diferente, seus recursos são mais variados. O próximo passo é exibir uma imagem impecável -- um desafio que pode significar mudanças em todo o sistema de transmissão.
Aos poucos, sem que os telespectadores se dêem conta, a televisão está passando por uma verdadeira cirurgia plástica. O velho tubo de imagem dos aparelhos convencionais caminha rápido para a aposentadoria. Será substituído pela tela plana de cristal liquido, colocada sobre a parede como um quadro. Além disso, o som está se tornando estereofônico- já é possível diferenciar na TV graves e agudos e distinguir os diversos instrumentos de uma orquestra. Mas o melhor de tudo é outra novidade: a qualidade da imagem também está para mudar.
Quando o chamado sistema de alta definição (HDTV, na sigla em inglês), inventado pelos japoneses em 1980, se espalhar pelo planeta, a televisão só perderá para o cinema no quesito tamanho. Então, os telespectadores poderão se deliciar com exibições de alta qualidade de superproduções cinematográficas que perdem muitos de seus encantos nos receptores de hoje. Mas a cirurgia plástica do velho aparelho esbarra num desafio: como melhorar a imagem que o telespectador recebe em casa sem mudar os próprios equipamentos das emissoras?
Na teoria parece simples. A imagem da televisão no sistema alemão PAL-M, como o usado pelos brasileiros, é formada por 525 linhas horizontais paralelas. Bastaria então que os engenheiros descobrissem uma forma de aumentar o número dessas linhas, diminuindo o espaço entre elas, para que a imagem ganhasse mais nitidez. Mas não é bem assim: para que o aparelho receba esses sinais adicionais, sem outras alterações, as emissoras teriam de ampliar sua banda de transmissão-algo como a Globo ocupar também o espaço por onde trafegam os sinais emitidos pela Manchete, TVS, Record e Bandeirantes.
Para evitar tamanhas colisões, recorreu-se aos satélites, que transmitem em freqüências mais altas. Em 1986, a estação Nippon Hoshio Kiokai (NHK), de Tóquio, começou a transmitir, via satélite, imagens pelo sistema Japan Hi Vision, de 1 125 linhas, para receptores especiais desenvolvidos pela indústria eletrônica japonesa. O resultado são imagens tão nítidas e cores tão fiéis como as de um filme de 35 milímetros. Além disso, como a tela dos aparelhos experimentais é retangular a proporção é de três de altura por cinco de largura, em vez dos atuais 3 x 4-, as imagens de alta definição são proporcionais às do cinema. Nada daqueles cortes nos cantos que muitas vezes comem o melhor de uma cena na telinha.
Aliás, a imagem produzida pela nova TV é tão boa que até o cinema já se curva diante dela: os efeitos especiais dos filmes Guerra nas estrelas, de George Lucas, e Caçadores da arca perdida, de Steven Spielberg, foram gravados em HDTV e depois editados junto com as cenas registradas em película normal.
Japoneses, americanos e europeus concordaram em trabalhar juntos para conseguir um padrão técnico de TV de alta definição que, de um lado, seja compatível com a maioria dos receptores existentes no mercado e, de outro, livre as emissoras dos formidáveis investimentos necessários à substituição de seus equipamentos.
Ao mesmo tempo, a indústria eletrônica dedica-se a oferecer aos telespectadores inovações que dispensem mudanças drásticas na ponta da emissão. O receptor digital, por exemplo, consegue o máximo de eficiência no velho limite das 525 linhas. Ao contrário dos modelos analógicos tradicionais-em que cada sinal corresponde a uma voltagem -, os digitais podem exibir imagens em câmara lenta, permitem sintonizar até cinco canais ao mesmo tempo (naturalmente, com quatro imagens mudas) em partes diferentes da tela e até congelar imagens durante a transmissão.
Ao pressionar uma tecla do televisor digital, o telespectador vê uma pequena janela aparecer no canto da tela-do tamanho de 1/4 ou 1/16 do vídeo. Embora não emita som, essa janela pode ser congelada, ou exibir imagens transmitidas por um aparelho de videocassete ou ainda por uma câmara de segurança instalada na entrada da casa. Ao receber os sinais eletromagnéticos das emissoras e transformá-los em dígitos de computador, o aparelho corrige automaticamente eventuais defeitos da emissão. Assim, ao receber uma imagem dupla-o chamado fantasma-, o circuito eletrônico envia à tela apenas os sinais originais que fazem a imagem mais forte-e cancela os mais fracos.
Da mesma forma, se uma interferência na transmissão afetar o colorido da TV, um circuito compara duas linhas de cores diferentes, uma ao lado da outra, e tira a média. Essa linha média intercalada entre as duas originais atenua as diferenças. Os televisores digitais ainda não estão a venda no Brasil. "As peças teriam de ser importadas, o que encareceria demais o aparelho", explica Flávio Pena, subgerente de produtos da National-Panasonic.
Durante o 1º Vídeo Trade Show. realizado no início de março em São Paulo, os visitantes puderam ver- com o auxílio de óculos especiais- um modelo de videodisco em três dimensões, desenvolvido pela Sharp.
Nos antigos filmes em 3-D, cada olho vê apenas uma imagem. O cérebro percebe o relevo pela convergência de duas imagens. De seu lado, a National-Panasonic desenvolveu um aparelho com imagens de alta definição-produzidas pela superposição dos sinais de cinco câmaras que podem ser vistas em três dimensões, sem que se tenha de usar óculos especiais. Contudo, essa nova maravilha ainda está muito longe das lojas de eletrodomésticos.
Minúsculos como relógios ou gigantescos como o Jumbotron, exibido em I985 na Feira de Ciências de Tsukuba. no Japão, os modelos de aparelhos de TV não deixam de inovar. Mas até a próxima década, prevê o engenheiro paulista Herbe Zambrone Júnior, que há onze anos trabalha com telecomunicações, "as grandes mudanças estarão nascendo nos departamentos de pesquisas das indústrias". Sentado em sua poltrona favorita, em frente à telinha de TV, o telespectador não se beneficiará a curto prazo da revolução em marcha nos aparelhos. Mas, quando menos perceber, a telinha terá mudado e ele estará assistindo a cinema em casa.

A tecnologia muda a imagem da aldeia global

Quando o astronauta americano Neil Armstrong pisou pela primeira vez o solo lunar, em julho de 1969, milhões de pessoas em todo o mundo acompanharam a proeza ao vivo em seus televisores. Isso parecia coroar as conhecidas teorias do canadense Marshall McLuhan (1911-1980), segundo as quais o planeta caminhava rápido para se tornar uma aldeia global, em que, de um pólo a outro, gostos, hábitos e idéias seriam cada vez mais parecidos-e todos induzidos pela onipresente TV.
Passados quase vinte anos, as tecnologias das telecomunicações que se desenvolveram ao longo desse período, como a TV por cabo e as antenas parabólicas de uso doméstico, tendem a desenhar um cenário que ao mesmo tempo reforça e desmente as previsões de McLuhan. Reforça na medida em que as novas técnicas ampliam o lugar da tela de TV na vida de cada um e, com isso, a dependência das pessoas em face dela. Desmente, porém, na medida em que tais avanços tecnológicos aumentam o leque de emissões à disposição do espectador. Com isso, pode diminuir a dependência do público em relação às grandes redes.
"No futuro, as redes irão buscar seu público nas classes C e D, abrindo espaço para o surgimento de sistemas de TV para platéias mais sofisticadas, com maior liberdade de criação", afirma o professor Ciro Marcondes, da Escola de Comunicações da USP. Mas a "segmentação da sociedade informatizada", como dizem os especialistas, coexistirá por muito tempo ainda como modelo tradicional, em que poucos (as redes) falam para muitos (a massa do público). Mesmo assim, no entanto, o acesso de um número crescente de pessoas às parabólicas multiplica o repertório de escolhas e acaba afetando a própria atitude do espectador diante da TV.
Três experiências já permitem espiar o futuro. Numa cidade-satélite de Quioto, no Japão, em Biarritz, na França, e em Columbus, nos Estados Unidos, domicílios estão interligados por cabos de fibras Óticas, conectadas simultaneamente a canais de TV. Esses canais oferecem programas bem distintos, pelos quais o espectador paga uma taxa mensal. "Dois vizinhos poderão passar anos sem assistir ao mesmo programa, a não ser as noticias dos telejornais", imagina Walter Clark, ex-diretor da TV Globo e um dos papas da televisão brasileira.
Nesse tipo de sociedade, a tela de televisão será um meio pelo qual as pessoas vão se comunicar entre si, receber informações de bancos de dados, fazer compras, movimentar suas finanças particulares e assistir a seus espetáculos preferidos. Diz Ethevaldo Siqueira, jornalista especializado em telecomunicações: "A tela de TV se transformará numa ferramenta sem a qual será muito difícil viver em sociedade".

Descida aos porões do Planeta.

DESCIDA AOS PORÕES DO PLANETA



É mais fácil ir à Lua do que chegar com uma sonda ao centro da Terra. As perfurações são lentas, caras e complicadas. Apesar disso, sabe-se cada vez mais o que existe e o que acontece debaixo dos nossos pés.

Há mais de um século, o francês Júlio Verne escreveu sua fantástica Viagem ao centro da Terra. Nela, o professor Otto Lindenbrok, mineralogista alemão, e seu sobrinho Axel desceram às profundezas do planeta perdendose em uma interminável cadeia de labirintos e galerias, onde correm rios de forte correnteza e mares subterrâneos. Na verdade, esse cenário não tem nada a ver com o que acontece no interior da Terra. Em 1864, quando Verne escreveu sua história, não se tinha ultrapassado sequer mil metros em direção ao fundo do coração do planeta, a 6 370 quilômetros da superfície.
Ali, a temperatura chega aos 4 mil graus e a pressão ultrapassa 3 milhões de atmosferas - uma atmosfera equivale à pressão exercida por 1 quilo sobre 1 centímetro quadrado. É um mundo infernal, de acesso quase impossível, digno da imaginação de um escritor de ficção científica: a profundidades maiores que algumas poucas dezenas de quilômetros, as altíssimas pressões e temperaturas pulverizariam qualquer sonda por mais resistente que fosse. Mas, afinal, o que existe mesmo lá embaixo? Como é mais fácil subir ao espaço do que descer aos porões do planeta, a ciência tem acumulado uma massa de conhecimentos sobre o sistema solar talvez até maior do que sobre suas camadas mais fundas.
Esse é o desafio para os cientistas que têm os olhos voltados não para o céu, mas para o chão - ou melhor, para o que existe abaixo dele. Embora compacta, a Terra não é um bloco homogêneo; é possível compará-la a uma imensa cebola, onde diversas camadas se sobrepõem. A pele que a recobre sena a crosta terrestre, cuja profundidade varia de cerca de 10 quilômetros nas áreas oceânicas até 70 quilômetros nos continentes. Por ser a camada mais superficial, a crosta naturalmente é a mais simples de ser estudada.
Os fragmentos de rochas recolhidos durante as perfurações são uma preciosa fonte de estudo. Depois da crosta vem a zona de transição para a camada seguinte, o manto, que alcança até 2 900 quilômetros de profundidade. Abaixo do manto está o núcleo, a uma profundidade de 5100 quilômetros. Para perfurar os cinco primeiros quilômetros em direção ao interior da Terra existem equipamentos apropriados. Daí em diante as coisas se complicam. "É difícil manter a sonda na direção correta, as brocas quebram e qualquer operação para recuperar 0 material leva muito tempo", explica o professor Igor Pacca, do Instituto Astronômico e Geofísico da Universidade de São Paulo.
Nesse tipo de exploração, o recorde pertence aos soviéticos. Desde 1970, eles vêm fazendo perfurações na península de Kola, no extremo norte da URSS. Só recentemente chegaram à marca dos 13 quilômetros de profundidade - um simples arranhão na casca do planeta. Segundo o geofísica Pacca, o feito mais importante dos soviéticos até aqui foi não encontrar na parte inferior da crosta uma zona de transição de rochas de granito para rochas de basalto. Até então, os geofísicos acreditavam que essa área existia, tanto que tinham até um nome para ela: descontinuidade de Conrad. "Atingida a profundidade que corresponderia a essa descontinuidade, não se achou basalto", relata o professor Pacca.
Da mesma forma como os astrônomos astrofísicos querem conhecer melhor o que existe, por exemplo, em Marte, o mais ambicioso objetivo dos geofísicos de todo o mundo é conhecer a intimidade do interior da Terra. Por isso, em setembro do ano passado, uma equipe de cientistas iniciou uma perfuração na cidadezinha de Windischeschenbach, no norte da Alemanha Ocidental, que não vai terminar antes do ano 2000. Então, os pesquisadores esperam chegar à meta estabelecida: 14 quilômetros abaixo da superfície. No começo da viagem, vão utilizar os mesmos equipamentos usados em perfurações petrolíferas.
A partir do sexto quilômetro, no entanto, pretendem estrear um motor desenhado especialmente para essa tarefa, cuja novidade é um dispositivo especial que corrigirá automaticamente a direção da sonda ao menor desvio do eixo de perfuração. Se tudo funcionar, os alemães poderão economizar tempo. Além de superpreciso, esse instrumental é basicamente capaz de suportar altíssimas pressões e temperaturas. Quando a broca chegar ao décimo quarto quilômetro, estará submetida à temperatura de 300 graus. Não tendo acesso direto ao interior do planeta. os cientistas sempre precisaram valer-se de informações indiretas. Uma das formas de saber o que há nas camadas internas dessa grande cebola é analisar os fenômenos que nelas ocorrem.
Os terremotos, por exemplo, emitem ondas sísmicas, cuja trajetória e velocidade são minuciosamente estudadas ao se propagarem por toda a Terra. Combinadas com outras informações, essas análises trouxeram importantes descobertas. Assim. o geólogo iugoslavo Andrija Mohorovicic descobriu já em 1909 que entre a crosta e o manto havia uma descontinuidade. Em homenagem ao descobridor. ela foi batizada com o nome de Mohorovicic. Até 1936, supunha-se que o núcleo era fluido Naquele ano porém, a sismóloga dinamarquesa Inge Lehman, hoje com 99 anos, revelou após estudos de ondas sísmicas que o núcleo tinha também uma parte interna sólida.
Para descobrir de que é feito e o que acontece no miolo da grande cebola - o interior do núcleo -, os cientistas levaram em conta o efeito de um fenômeno natural muito estudado desde o século XVI: o campo magnético terrestre. Atualmente, os geofísicos estão convencidos de que ele é gerado no núcleo externo, mediante um processo semelhante ao de um dínamo só que contínua - os dínamos que se conhecem são descontínuos -, onde a energia mecânica se transforma em energia eletromagnética. Essa é uma das razões pelas quais os cientistas supõem que o material do núcleo interno deva ser metálico, pois precisa conduzir eletricidade para fazer funcionar o dínamo.
Tal teoria se encaixa na análise sismológica: a velocidade das ondas de choque que os terremotos produzem ao atravessar o núcleo revela uma densidade que corresponde à do ferro submetido a pressões como as que existem nas regiões centrais do planeta. A esta evidência junta-se o fato de que no Universo conhecido não existe outro material com tais características em quantidade suficiente para constituir uma alternativa. Daí se consolidou a idéia de que o núcleo é feito essencialmente de ferro, embora também existam nele elementos mais leves, como sílicio, enxofre, oxigênio, potássio, entre outros. Sabe-se com certeza que a pressão do material do núcleo aumenta de acordo com a profundidade.
Essa pode ser uma das razões que explicam por que o núcleo externo é líquido enquanto o interno é sólido - a elevadíssima pressão impediria que ele se fundisse. A questão da pressão e da temperatura sempre foi muito discutida, e a cada dia que passa os cientistas conseguem vencer barreiras nas suas experiências a esse respeito. No início de 1987, por exemplo, os pesquisadores do Instituto de Tecnologia da Califórnia conseguiram determinar a temperatura do interior da Terra fazendo a seguinte experiência: primeiro, comprimiram uma amostra de ferro entre dois pequenos cones de diamantes, acionados por uma enorme prensa, até alcançar 1,4 milhão de atmosferas - de acordo com os cientistas, essa seria a pressão na fronteira entre o núcleo externo e o manto.
O segundo passo foi aplicar um raio laser na amostra para aquecer o ferro até o ponto de fusão. Verificou-se então que o metal fundia a 3 500 graus - enquanto sob a pressão atmosférica o ferro funde a 1500 graus. A etapa seguinte foi descobrir a temperatura no limite do núcleo sólido com o liquido, onde a pressão alcança 3,3 milhões de atmosferas - algo como a inimaginável pressão que 3 300 carros exerceriam sobre uma superfície do tamanho de uma unha. Para isso, os cientistas dispararam um projétil movido a hidrogênio contra a amostra, comprimindo-a e aquecendo-a até que atingisse seu ponto de fusão.
Não conseguiram chegar aos 3,3 milhões de atmosferas, mas deduziram que a temperatura, ali no limite entre o núcleo externo e o interno, estaria por volta de 6 300 graus, no âmago do núcleo, seria de 6 600 graus, mais até que na superfície radiante do Sol. Esses novos dados aumentaram em 2 mil graus as estimativas de temperatura que vigoravam até então. Entre os dados obtidas com essas experiências, um em especial se destaca: o possível aumento da influência do núcleo nos processos que ocorrem no manto, que abrange a região que vai da divisa do núcleo externo até a descontinuidade de Mohorovicic. O que os cientistas conhecem sobre o manto baseia-se no material que os vulcões expelem e nas cordilheiras vulcânicas do fundo oceânico, além do estudo de certos meteoritos.
Sabe-se que o manto é composto de silicatos, um material mais leve que a liga de ferro do núcleo e que não aparece de maneira uniforme, pois à medida que a profundidade aumenta o mesmo acontece com a temperatura e a pressão. Por isso, os cientistas dividiram o manto em dois níveis: o inferior e o superior, cada qual composto de minerais diferentes. "Uma camada notável do manto superior é a astemosfera", diz o professor Igor Pacca, "situada a 250 quilômetros de profundidade." Mesmo sólida, possui plasticidade suficiente para permitir o movimento de placas que estão acima dela.
Esse movimento é responsável pela deriva continental, que faz com que os oceanos cresçam e os continentes se afastem cada vez mais uns dos outros. De fato, sem o oceano a separá-las, as costas da África e da América do Sul se encaixariam perfeitamente, como num quebra-cabeça. A teoria da deriva dos continentes foi proposta em 1912 pelo meteorologista alemão Alfred Wegener, mas até os anos 50 ficou à espera de uma explicação. Afinal, qual seria o mecanismo que fazia massas de terra tão imensas se deslocarem? Experiências realizadas já então demonstraram que os sólidos cristalinos fluiam como líquidos quando se encontravam a temperaturas próximas do ponto de fusão.
Isso levou o geofísico holandês Felix Vening-Meinesz a elaborar a teoria de que na astenosfera ocorriam fortes correntes ativadas por diferenças de temperatura: os materiais quentes subiam e os frios desciam. A teoria do geofísico holandês foi reforçada nos anos 60, quando se descobriu que a crosta oceânica se renovava sem cessar com deslocamentos horizontais a partir das cordilheiras vulcânicas do Atlântico. Nesse movimento, elas liberam material quente do manto, e voltam a submergir. Isso ocorre, por exemplo, sob a cordilheira dos Andes. Mas foi só há poucos anos que se comprovou definitivamente a presença dessas correntes e sua influência na deriva dos oceanos.
A moral da história é que, mesmo não sendo possível o acesso direto ao interior da Terra, os avanços tecnológicos têm permitido aos cientistas ampliar os conhecimentos sobre sua estrutura, constituição e evolução - além de compreender melhor os fenômenos que ocorrem na superfície e afetam a vida em todas as suas formas.

Programas de brasileiros

No final de 1987, trinta estudantes freqüentavam o primeiro curso de graduação em Geofísica no Brasil. O curso começou em 1984, na Universidade de São Paulo. Dos vinte alunos que então se matricularam quatro terminaram o curso. Todos já têm emprego garantido: dois ficam no Instituto Astronômico e Geofísico e dois vão para grandes empresas. Afinal, mão-de-obra especializada nessa área é difícil, e empresas como a Petrobrás e a Nuclebrás sempre tiveram de investir alguns anos no treinamento desses profissionais. Eles vinham geralmente de áreas como a Engenharia e a Física e depois se especializavam.
Além das informações que os cientistas obtêm estudando os fenômenos físicos que ocorrem abaixo da superfície, as perfurações são uma rica fonte de dados. Só que exigem avançada tecnologia - e muito dinheiro. Por um motivo e por outro, é difícil ao Brasil lançar-se em experiências de sondagens profundas. Mesmo assim, os brasileiros têm participado de projetos internacionais com o objetivo de pesquisar as peculiaridades geológicos do território.
Eles estão presentes nessas operações desde os anos 70, quando foi lançado o Programa Internacional de Geodinâmica, um portentoso projeto integrado por pesquisadores de mais de cinqüenta países, que estudou principalmente os processos que modelaram a superfície da Terra. Depois, no final de 1980, veio o Programa Internacional de Estudos da Litosfera, que deve se estender pela década de 90. Um de seus coordenadores é o professor Umberto Cordani, diretor do Instituto de Geociências da Universidade de São Paulo. As informações levantadas por programas internacionais como esse não têm interesse exclusivamente acadêmico: servem, por exemplo, para auxiliar prospecções de petróleo na plataforma continental.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Revolução a bordo - Avião A320

REVOLUÇÃO A BORDO - Avião A320



Pilotar o A320 parece tão fácil como brincar de videogame. O mais moderno avião de passageiros do mundo tem controles eletrônicos do nariz até a cauda. Usa compostos de fibra de carbono no lugar de metais. Cada pedaço do aparelho vem de um país diferente da Europa.

Qual a diferença entre sentar-se na cabina de comando de um jato capaz de transportar até 180 passageiros e 5,5 toneladas de carga por pelo menos 4 mil quilômetros ( como de Porto Alegre e Natal ou de Manaus e Curitiba) e instala-se diante de uma tela de TV para brincar com um simples aparelho de videogame? Sob um único aspecto, a reposta é - nenhuma. Pois o jato em questão, o Airbus modelo 320, ou A 320 , como é chamado, é o primeiro avião comercial do mundo com um sistema de pilotagem totalmente eletrônico. Por isso, mas não só por isso, esse birreator que deve entrar este mês em operação na Europa inaugura uma nova etapa na arte, ciência e tecnologia de voar - de fato, o A320 é o pioneiro da geração das fantásticas máquinas voadoras que estarão cruzando os céus do planeta na virada do século.
Terceiro filho do consórcio multinacional Airbus Industrie, surgido em 1970, cujos A300 e A310 transportam 200 mil passageiros por dia com uma decolagem a cada 70 segundos pelo mundo afora, incluindo o Brasil, o A320 tem múltipla cidadania - é um pouco francês, um pouco inglês, um pouco alemão e ainda um pouco belga e um pouco espanhol. Ou seja, trata-se de um produto típico da Europa de hoje, onde os sotaques se misturam cada vez mais e as fronteiras importam cada vez menos. Representa a maior revolução na aviação comercial na era do jato desde o aparecimento do supersônico anglo-francês Concorde, na década passada. Mas, ao contrário deste, que já foi descrito como o maior fiasco industrial do Ocidente, o A320 é o aparelho que mais encomendas já teve antes de levantar vôo.
É um troféu da tecnologia. O piloto que toma assento na cabina não lidará com o manche velho de guerra. Em seu lugar, está à sua espera um simples bastão de comando - o side stick controller-, muito semelhante aos controles dos jogos Atari. Localizado não à frente, mas ao lado do painel, o novo sistema dá ao piloto uma visão livre dos instrumentos. Estes, por sua vez, também não são mais aqueles das gerações anteriores - foram redesenhados de forma a eliminar as dúzias de mostradores rotativos que atravancam os painéis dos jatos convencionais. O A320 levou mais longe a inovação experimentada nos A310 fabricados de 1982 em diante. Assim, apresenta apenas seis telas, onde cada informação aparece de maneira clara e em cores vivas.
Além disso, os refinados computadores que governam a aeronave da decolagem ao pouso simplificam de tal forma o trabalho do piloto que lhe permitem funcionar não mais como operador do avião, e sim como monitor do sistema de comando. Ele se decide, com base nas informações à sua frente, por determinada manobra; os computadores conferem se a ordem é adequada e, ao cumpri-la, procuram ainda aperfeiçoar a manobra. No A320, se o piloto e o co-piloto perderem a cabeça, os cérebros eletrônicos conservarão o juízo - e o avião no ar. A eficiência dos sistemas de computação eliminou a figura do engenheiro de bordo, encarregado de controlar o funcionamento dos aparelhos em vôo. No comando do A320, três é demais.
Dois sistemas vigiam o equipamento da aeronave, de olho em qualquer mínima falha. E mais: registrado um defeito, os sistemas emitem automaticamente uma mensagem que alcançará o setor de manutenção da companhia aérea na escala mais próxima, para a preparação do conserto e eventual troca de peças enquanto o avião ainda está nas alturas. Ao pousar, perde-se menos tempo no reparo da avaria, o que é bom para os passageiros e melhor ainda para as contas da empresa. Dinheiro, por sinal, era o que os pessimistas menos esperavam ver entrar nos cofres do consórcio Airbus, quando este se propôs a desafiar os gigantes americanos da indústria aeronáutica Boeing e McDonnell Douglas, oferecendo ao crescente mercado internacional uma alternativa em matéria de aviões wide-body para distâncias curtas e médias, silenciosos e econômicos.
Realmente, não se acreditava que um grupo europeu fosse capaz de derrubar a hegemonia americana, inventando um sucessor para o confiável BAC One-Eleven inglês e o elegantíssimo Caravelle francês, ambos irremediavelmente obsoletos. A idéia de uma associação de vários países para conceber e fabricar um novo tipo de avião parecia absurda. Mas pesquisas competentes de mercado e intensivos investimentos em tecnologia acabaram constituindo uma família de aviões apta a conquistar um lugar nos céus. O A320 é o fecho glorioso dessa aventura.
Ele nasceu como nascem quase todos os aviões comerciais. O primeiro passo foi a formação de um grupo de projetos integrado por executivos e engenheiros da empresa fabricante. No caso da Airbus Industrie, isso significou a participação de representantes dos quatro membros do consórcio - Aerospatiale (França), British Aerospace (Inglaterra), MBB (Alemanha), CASA (Espanha) -e ainda da empresa belga Belairbus, que se associou ao projeto do A320. A tarefa do grupo era estabelecer as medidas vitais do novo produto: tamanho, peso, altura, envergadura e mais uma infinidade de dados técnicos. "Foram meses e meses de cálculos e debates, em que nenhum detalhe pôde ficar de fora", explica Frédéric Ribere, diretor de produção do A320 na Aerospatiale.
Moreno, baixo, dono de um olhar perscrutador e de uma eloqüência pontuada de gessos e sorrisos, Ribere é um dos responsáveis pelo sucesso do A320. Aos 45 anos, 22 dos quais dedicados "quase integralmente" à Aerospatiale, ele viu nascer o Caravelle e o Concorde e foi um dos primeiros a apostar no projeto Airbus. A grande atração que a empreitada exerceu sobre ele provavelmente tem a ver com seu temperamento, que combina determinação e gosto pelo risco. Desde muito jovem, quando praticava vôo a vela e caça submarina, sonhava em construir carros de corrida. "A velocidade é meu fraco" confessa Ribere, que antes de entrar na Aerospatiale fez estágio numa fábrica de motores de Fórmula 1.
Para conceber um avião econômico, o grupo de projetos achou um caminho inovador capaz de reduzir em 18 por cento o peso (logo, também o consumo de combustível) da aeronave: usar materiais compostos de fibra de carbono a fim de substituir, onde fosse possível, as tradicionais estruturas metálicas. Mais leves, mais baratos e de mais fácil manutenção, os compostos de fibra de carbono (material utilizado, por exemplo, em raquetes de tênis) permitiram economizar mais de 600 mil dólares em cada aparelho. Da mesma forma, a substituição do manche pelo side stick controller, além de melhorar a vida do piloto, ajudou a emagrecer o avião.
O manche, é claro, pesa pouco. O que pesa bastante é todo o conjunto de alavancas, barras, porias e engrenagens que compõem o controle mecânico dos aviões - só acionado em casos raros de pane do sistema elétrico. No A32O, o aparato mecânico foi trocado por um afiado sistema de controle eletrônico, chamado FBW, do inglês fly by wire, vôo por cabo, ligado ao side stick por mais de 30 mil fios. Foi outro passo revolucionário. A mudança significou não só um aumento da capacidade do avião equivalente a mais dois passageiros como também uma redução da espessura da fuselagem central, por onde antes passavam as barras.
Tanto melhor para os passageiros: isso permitiu alargar o corredor central do avião e assim eliminar um aborrecimento de todo começo de viagem: a irritante presença do passageiro da primeira fila que bloqueia a passagem durante a eternidade que leva para acomodar seus pertences nos bagageiros superiores. Delineado o projeto base, o calhamaço que o contém embarcou para o chamado escritório de estudos - na verdade, um conglomerado de oficinas, laboratórios e centrais de computação onde o projeto inteiro foi detalhado. A seguir, o A320 foi dividido em cinco fatias principais, cada uma desenvolvida por uma das cinco empresas associadas no projeto.
A British Aerospace, por exemplo, ficou responsável pelas asas. Tecnicamente, não é a parte mais complicada. Mas é a mais importante da carcaça do aparelho. Quando um avião se prepara para pousar, muitos passageiros se espantam ao ver tudo o que sai das asas. Ficariam ainda mais surpresos se soubessem quanta coisa ainda ficou dentro. Os ingleses têm 20 por cento do consórcio Airbus. A francesa Aerospatiale, que tem 37,9 por cento (assim como a alemã MBB), desenvolveu os sistemas de computação, produziu a unidade dianteira da fuselagem, montou e testou o aeronave em vôo. Cada grupo construiu uma exata maquete do avião. Adotando o método proposto pela primeira vez já em 1889 pelo engenheiro Horatio Phillips um pioneiro da aviação inglesa, as maquetes foram testadas num túnel de vento, que reproduz as condições de vôo a grande altitude.
Nessa fase, muita coisa do projeto base foi alterada. Alongaram-se ligeiramente as asas, por exemplo, para ganhar maior autonomia de vôo, com ligeiro sacrifício do limite de velocidade. Uma infinidade de cálculos, ajustes e correções antecedeu o sinal verde para a construção do protótipo, a ser testado em vôo real. Tudo é feito com o auxílio de portentosos computadores, num processo conhecido como computeraided design, mediante o qual, um a um ou em conjunto, os componentes do avião são projetados até o último detalhe em questão de segundos. Não faz muito, na década de 60, os desenhos dos aviões eram produzidos em tamanho real, consumindo centenas de metros de papel e milhares de horas de trabalho.
"Naquela época, os computadores eram utilizados só para grandes cálculos", lembra Jacques Herubel, 52 anos, engenheiro-chefe do grupo de estudos da Aerospatiale, sediada em Toulouse, cidade de 500 mil habitantes no Sul da Franca. Baixo e calvo os pequenos olhos azuis escondidos por óculos de grossas lentes, Herubel parece viver sempre sob grande tensão. No entanto, para os mais de cem engenheiros (a maioria com menos de 40 anos) que trabalham sob sua batuta, ele é um chefe afável e paciente, que mantém com eles uma relação paternal. Pai de quatro filhos - o mais velho, com 23 anos, também engenheiro aeronáutico -, Herubel é igualmente um dos pais do sistema de controle computadorizado do A320.
Formado pela escola do Concorde, cujo desastre comercial é sua maior frustração, Herubel entende de computadores como poucos na Aerospatiale - e detesta calculadoras eletrônicas. "Em vez de exercitar a mente, a informática contribui para atrofiála", queixa-se ele, entre um e outro cálculo na ponta do lápis enquanto não vê a hora de chegar o domingo dia de esfriar a cabeça e exercitar a voz cantando num coral. A maior dificuldade na construção do protótipo é o caráter artesanal da operação. Aliás, na aviação comercial não se fabrica um protótipo, mas vários, para tirar dos testes tudo o que podem dar. Assim também se passou com o A320. E seus testes revelaram um consumo de combustível 62 por cento inferior ao trirreator americano Boeing 727-200.
Antes ainda de receber o certificado oficial de vôo, o A320 começou a ser fabricado em escala - na mais moderna linha de montagem do mundo, com alto nível de automatização, implantada em Toulouse. Na verdade, ele voa antes mesmo de ser montado. As diversas partes do aparelho - fabricadas em lugares tão diferentes como Chester, na Inglaterra; Bremen, na Alemanha; e Sevilha, na Espanha-chegam a Toulouse a bordo de enormes aviões de carga, que os técnicos espanhóis chamam de "pássaros grávidos" e os ingleses super guppies (supercomilões). Quem supervisiona as sete etapas de montagem final do avião é o diretor Jean Béué, funcionário da Aerospatiale desde 1964.
Esse engenheiro de produção de 48 anos já acompanhou a montagem de mais de mil aviões de vários tipos e conhece cada pedacinho do A320 como a palma da mão. Ele só não sabe pilotar - nem é muito chegado a viagens. Passa as férias na casa de campo, onde se dedica de corpo e alma à jardinagem - um hábito um tanto curioso para quem pretendia ser professor de Educação Física e chegou a integrar a equipe campeã nacional de rúgbi na França. O dinamismo com que Béué dirige os 150 engenheiros, técnicos e mecânicos da linha de montagem será ainda mais necessário a partir do próximo ano, quando a Aerospatiale aumentar as instalações para acelerar a entrega do A320. O ritmo de oito aviões prontos por mês - nunca antes alcançado na Europa - foi fixado para dar vazão às encomendas vindas de muitas partes do mundo. (Do Brasil não chegou nenhum pedido.) Pois, mesmo antes de sair do chão, o A320 bateu um recorde: 461 encomendas.

A-320
Os números do superavião

Comprimento: 37,6 metros
Altura: 11,8 metros
Envergadura: 33,9 metros
Altura da cabina: 2,2 metros
Largura da
cabina: 3,7 metros
Capacidade máxima de assentos: 176 passageiros
Configuração normal (duas Classes): 150 passageiros
Peso máximo na decolagem: 72 toneladas
Peso máximo no pouso: 63 toneladas
Capacidade máxima de combustível: 22,9 toneladas
Comprimento de pista para decolagem: 1 433 metros
Comprimento de pista para pouso: 1 341 metros
Velocidade máxima de cruzeiro: 1003 km/h
Velocidade de cruzeiro em longas distâncias: 966 km/h
Autonomia máxima de vôo: 5 500 quilômetros
Preço: 32 milhões de dólares

Técnica nova até nos testes
Antes de ficar livre para voar, uma aeronave deve provar que tudo nela funciona, em centenas de horas de testes? em condições muito mais difíceis do que na vida real. Antes do A32O, nos testes de aviação civil era preciso aguardar a volta do avião, estudar a fita magnética onde os resultados das provas são registrados, conferir o diário de bordo do engenheiro de navegação - e só então analisar os parâmetros medidos durante o vôo. Em Toulouse, isso é história antiga. A fim de ganhar tempo? a Aerospatiale investiu cerca de 10 milhões de dólares numa técnica até então só utilizada em testes de aviões militares: o acompanhamento do vôo por telemetria.
O sistema" que transmite as mensagens em tempo real via satélite, funciona de maneira semelhante ao empregado pela NASA nos testes espaciais. Todas as informações reunidas pelos computadores de bordo são transmitidas para uma central de telemetria, onde são analisadas pelos seis engenheiros e um chefe de escuta. Em Toulouse, esse chefe é Jacques Moncourrier, ex-navegador da Armada francesa, onde serviu por mais de vinte anos. Apaixonado por engenhos mecânicos e eletrônicos desde criança, quando seu brinquedo predileto era desmontar e remontar aparelhos de rádio, Moncourrier não teve dificuldade em instalar o sistema de telemetria na Aerospatiale. Sob sua orientação, a companhia montou um equipamento de visualização gráfica de medidas que pode ser usado mesmo por engenheiros não familiarizados com essa forma de apresentação de dados. "Graças à telemetria", orgulha-se Moncourrier, "a duração dos testes do A320 foi abreviada em três meses."


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Tudo mentira - Comportamento

TUDO MENTIRA - Comportamento



Toda criança aprende que a mentira é um feio pecado. Mas os mesmos adultos que lhe ensinam essa verdade mentem mais do que aceitam confessar. Viver sem mentir parece tão difícil como viver sem respirar.

Ninguém gosta de admitir esta dura verdade: todos mentem. Seja para agradar a alguém, escapulir de uma encrenca, ser o herói de alguma aventura nunca vivida, levar vantagem na vida. Com suas pernas curtas, a mentira caminha no passo do homem desde que o mundo é mundo - e não dá o menor sinal de perder o fôlego, muito pelo contrário. Todos temos um pouco - ou muito - de Pinocchio. Há milhares de anos, como se estivesse conformado com o fato de que viver sem pregar uma mentirinha e tão impossÍvel como viver sem respirar, o filósofo chinês Confúcio (551-479 a. C. ) recomendava que se apelasse para esse antiqüíssimo recurso apenas quando a verdade prejudicasse uma família ou a nação. É um conselho maroto, como sabem os chefes de clãs e dirigentes políticos para quem nunca foi difícil fazer o que pregava o venerando sábio.
Aristóteles (384-322 a.C), o pensador grego, só aceitava duas maneiras de mentir: diminuindo ou aumentando uma verdade. O teólogo Santo Agostinho, no século IV, resolveu complicar o assunto descrevendo seis tipos diferentes de mentira: a que prejudica alguém, mas é útil a outro; a que prejudica sem beneficiar ninguém; a que se comete pelo prazer de mentir; a que se conta para divertir alguém; a que leva ao erro religioso; e. finalmente, a que ele considerava a "boa" mentira, que salva a vida de uma pessoa. Para as modernas ciências do comportamento, porém seja qual for a história falsa, a realidade é uma só: mentira é aquilo que se queria que fosse verdade.
O ato de mentir, contudo, é menos ou mais tolerado conforme os valores de cada povo e cada época. E até numa mesma sociedade podem coexistir graus diferentes de aceitação (ou repúdio) da mentira, de acordo com as expectativas que cada grupo social pode ter em relação aos demais. Os povos antigos, de maneira geral, condenavam a mentira, mas podiam mudar de idéia a partir do contato com outras culturas. Por exemplo, os povos da velha Índia tinham o preceito de só mentir para salvar um hóspede. No mais, os budistas pregavam que mentir equivalia a matar dez homens. Em tempos recentes, com a chegada dos colonizadores ingleses, a mentira passou a ser aceita com naturalidade pelos indianos, que a ela recorriam até para salvar a própria pele.
Mas, ontem ou hoje, na Índia ou no Brasil, segundo os psicólogos, existe um período da vida em que sempre se mente: a infância. Nela, a mentira é um modo de satisfazer, para si mesmo ou perante os outros, uma necessidade ou alcançar um desejo. Por exemplo, o garoto que diz que seu pai, uma pessoa modesta, é um "grande homem" quer que isso seja verdade. É parte do desenvolvimento psíquico de cada um fazer da mentira uma espécie de varinha mágica.
Também existem as mentiras por motivos óbvios, em que o pequeno mentiroso sacrifica a verdade para proteger-se da esperada punição por um mau desempenho na escola ou uma travessura que custou a vida de um valioso vaso em casa. A criança mente ainda para extravasar agressividade ou vingar-se de alguém: por exemplo, acusa o irmão de uma falta imaginária para vê-lo castigado e assim aplacar o próprio ciúme. Tudo isso, com mais refinamento, os adultos também fazem. Há, porém, uma diferença. "Não existe uma idade exata para parar de mentir. Mas quando se deixa de viver mentindo é sinal de que já se está maduro", acredita a psicóloga paulista Maria Helena de Brito Izzo, que há vinte anos trabalha com crianças.
Se a mentira é tão comum, por que todo pai vira uma fera quando flagra o filho mentindo? "Porque esse mesmo pai, embora também minta na sua vida, não deixa de dar o devido valor à verdade", responde Maria Helena. "Ele quer que o filho faça o certo pelo mesmo motivo que deseja vê-lo o melhor em tudo." A repressão familiar à mentira faz bem: sem ela, explica a psicóloga, não se aprende a lutar pelas coisas que se quer usando meios legítimos, nem se assume o que se faz- enfim, não se cresce. No final das contas, o adulto que mente constantemente é uma criança que só cresceu por fora. Pois então a mentira é prova de que algo vai mal na cabeça do cidadão - e precisa ser tratado.
Por isso mesmo, a mentira é uma das principais manifestações analisadas no divã do psicoterapeuta: os assuntos sobre os quais a pessoa mente fornecem ótimas pistas sobre as áreas mais problemáticas de seu temperamento, aquilo que ela não enfrenta ou quer esconder - de si mesma, para começo de conversa. Não menos importante, porém, é a influência da sociedade. Assim como a censura da família é fundamental para conduzir a criança ao bom caminho da verdade, a forma como a sociedade pune a mentira também é. "Num país como o Brasil, em que a impunidade corre solta, mesmo um adulto pode não ver mal algum em mentir", observa a psicóloga Maria Helena. Ai a mentira muda de figura. Já não se trata da necessidade compulsiva de enganar, típica da pessoa imatura, nem das pequenas inverdades que todos contam, seja por piedade, como dizer a um doente que sua aparência está ótima, seja para poupar-se de uma chateacão, ao mandar dizer que não se está em casa no momento de atender um telefonema.
Quando a mentira passa a fazer parte rotineira do jogo social - uma técnica de ataque e defesa na competição entre as pessoas por mais riqueza, prestigio ou poder, e ainda na guerrilha entre governados e governantes -, é claro sinal de que o pais onde isso acontece não vai bem das pernas. O pior é quando as pessoas mentem e já nem ficam vermelhas - ao contrário, até invocam justificativas para as rasteiras que praticam, como o contribuinte que lesa o físco porque se diz lesado pelo governo que não cumpre o que promete. A mentira envergonhada ainda é uma prova de que se sabe distinguir o certo do errado: assim como a hipocrisia é a homenagem do vício à virtude, ela é uma demonstração indireta do respeito pela verdade. Mesmo o mais descarado dos mentirosos, porém, se entrega - só não o nota quem não quer ou não presta suficiente atenção.
Descontadas as mudanças imperceptíveis diretamente, aquelas captadas somente pelo detector de mentira, o corpo mostra um grande número de sinais de que a verdade está passando longe naquela hora. Sabe-se, por exemplo, que é mais fácil mentir com o rosto do que com as pernas e os pés. Isso mesmo: cientistas descobriram que, pelo fato de todos conhecerem as próprias expressões faciais, de tanto vê-las no espelho, é mais simples controlá-las no momento de mentir. Mas é quase impossível disciplinar pernas e pés - que à sua maneira também "falam", e às vezes bem alto, durante uma conversação. O mentiroso bate os pés, cruza e descruza as pernas. É por isso que em negociações complicadas as pessoas ficam inconscientemente mais à vontade sentadas a mesas que escondem a metade inferior do corpo.
Numa das mais bem trabalhadas pesquisas sobre a mentira e o organismo, cientistas americanos pediram a um grupo de estudantes de enfermagem - uma profissão cujos praticantes são de certo modo treinados para mentir - que dissessem ora a verdade, ora a mentira sobre alguns filmes a que haviam assistido. Enquanto as enfermeiras falavam, uma câmara oculta tratava de flagrar os sinais mentirosos. Um deles é o ato de esconder as mãos, que normalmente se movimentam numa conversação para dar força a uma idéia. Sem perceber o que está fazendo, o mentiroso tende a tirar as mãos de cena, afundando-as nos bolsos, por exemplo, para evitar que desmintam a mentira que sai da boca.
As enfermeiras da pesquisa americana aumentaram a freqüência de autocontatos com o rosto, enquanto mentiam sobre os filmes. Ou seja, começaram a passar a mão pela face, alisar os cabelos, apoiar a mão no queixo. Mas dois gestos se destacaram: o de encobrir parcialmente a boca - nem que apenas por um momento - e o de tocar o nariz. O primeiro, segundo os psicólogos, traduz uma vontade de amordaçar-se, porque ninguém se sente totalmente à vontade ao contar mentiras. Tende a ser um gesto rápido porque exprime um conflito: uma parte do mentiroso não quer amordaçar-se coisa nenhuma - e sim continuar com a sua mentira. Já o toque no nariz tem duas explicações: a primeira seria basicamente a impossibilidade de cobrir a boca - portanto, encontra-se apoio no nariz, que está convenientemente próximo; a segunda explicação refere-se a certas mudanças fisiológicas, nos momentos de tensão, que aumentam a sensibilidade da mucosa nasal. Assim, ao mentir, o nariz coça, embora possa ser uma sensação tão suave que mal se perceba.
Finalmente, as enfermeiras mentirosas se mexiam mais nas cadeiras, como crianças que querem escapar de algum lugar. Na verdade, o que todos querem é escapar desse desconforto psicológico que é enganar o próximo, mesmo quando não se o ama. As crianças podem dizer "sou mentiroso e sou feliz; mais mentiroso é quem me diz". Mas não é verdade: mentira raramente rima com felicidade. Principalmente quando a pessoa se vê forçada a esconder de seu parceiro a realidade. Nas relações amorosas, diz o psicoterapeuta paulista Jacob Pinheiro Goldberg, a mentira costuma ser confundida com a fantasia, pois ambos os processos servem à mesma finalidade: suavizar as situações de tensão.
"Mas, na mentira", explica Goldberg, "existe a intenção de iludir o outro em causa própria, e isso implica lesões e mutilações para o relacionamento. Já a fantasia serve muitas vezes para sustentar a qualidade da relação." A mentira no jogo amoroso também sofre a influência dos costumes da sociedade em que vivem os amantes. Quanto mais tabus houver maior será a tendência para a hipocrisia e o fingimento. Poucas coisas são tão complicadas como o conflito entre a verdade e a mentira numa relação afetiva, e os rios de tinta já gastos pelos psicólogos para explicar a questão não conseguem cobrir suficientemente toda a gama de emoções envolvidas nessas situações.
Há quem vive para mentir e há quem mente para viver - como os que ganha honestamente o pão de cada dia graças ao fingimento, em tempo parcial ou integral. É o caso, por exemplo, dos atores, que fingem ser personagens; dos médicos, que ostentam nas horas mais graves uma calma fictícia; dos diplomatas, que por dever do ofício blefam à mesa de negociações. Os publicitários, cansados de levar a fama de vender mentiras bem embaladas, resolveram há oito anos criar o Conselho Nacional de Auto-Regulamentação Publicitária (Conar), justamente para vigiar anúncios caídos na tentação de vender gato por lebre.
Pois bem: só nos últimos cinco meses do ano passado, o Conselho suspendeu sete campanhas publicitárias por causa das chamadas mensagens enganosas. Isso sem contar as campanhas que sofreram pequenas correções porque não explicavam direito o que estavam vendendo. "O problema desses tempos de crise", comenta Álvaro Moura, do Conar, "é que aumenta o número de produtos, como manuais fantásticos para ter sucesso, figas ecruzes milagrosas, receitas para ganhar na loteria. Está na cara que é mentira. Mas, no desespero, o brasileiro pode acabar acreditando."
As pesquisas indicam que os brasileiros menos acreditados pela população são os políticos. É uma revelação inquietante, sem dúvida, mas não é verdade que isso acontece só no Brasil - e só nos dias de hoje. Afinal, quatro séculos antes de Cristo, na Grécia Antiga, Platão ensinava que "a mentira enfeia a alma, mas é perdoável quando atende a interesses de Estado". Depois, no Renascimento, o italiano Maquiavel escreveria que todos vêem o que o político parece, mas poucos sabem o que ele é realmente. E assim ninguém tanto quanto o político profissional é uma aparência - ainda que a aparência engane.
A mentira se infiltra na História que se aprende nos livros didáticos - e cada país há de ter sua cota de maus tratos à verdade dos acontecimentos históricos. Dom Pedro I, por exemplo, jamais teria bradado "Independência ou morte" às margens do Ipiranga, ao receber a carta que o intimava a voltar a Portugal; teria reagido soltando uns sonoros palavrões. Guardadas as diferenças de tempo, lugar e pessoa, não se tem provas de que Nero tenha mandado incendiar Roma em 64 d.C., mas não há quem não tenha sido ensinado a acreditar em sua culpa.
Nos Estados Unidos, quando se ensina às crianças as virtudes da verdade, é inevitável o exemplo de George Washington: aos 6 anos, confessou ter derrubado a cerejeira favorita do pai, dizendo "não posso mentir". Na verdade, nenhuma de suas biografias confirma o episódio. O nazista Joseph Goebbels, famigerado ministro da Propaganda de Hitler, entrou para a História, entre muitas outras coisas, como tendo dito que "a mentira repetida diversas vezes se torna uma verdade". Nunca se provou que ele tivesse de fato dito isso, pelo menos com essas palavras. Mas tanto já se repetiu a frase que ninguém dirá ser mentira.

Mentirosos de mentira

De tanto inventar histórias para distrair seus amigos, o alemão Karl Friedrich Hieronymus, barão de Munchhausen (1720-1797), que serviu como mercenário no exército russo na guerra contra os turcos em 1740, acabou entrando para a História como um grande mentiroso, graças ao livro, por sinal publicado anonimamente em 1785, do escritor alemão Rudolph Erich Raspe (1737-1794). De volta dos campos de batalha, o barão contou, por exemplo, como se safara de um pantano onde caíra: puxando a si mesmo pelos cabelos. Em outra peripécia, salvou-se da morte cavalgando balas de canhão disparadas pelo inimigo. Entre uma aventura e outra, ainda achou tempo para ir à Lua - duas vezes.
Mas não há literatura que não tenha seus campeões da mentira - real ou imaginária. O escritor francês Alphonse Daudet (1840-1897) celebrizou-se graças às aventuras mentirosas de seu personagem Tartarin de Tarascon, um burguês baixinho, com certa tendência à obesidade, que se imaginava um valente herói e saía contando peripécias nunca vividas. No Brasil, o mentiroso Macunaíma, de Mário de Andrade, nem fez questão de se fingir de herói: covarde como só ele e sem nenhum caráter, Macunaíma mentia o tempo inteiro para se safar de qualquer problema - dizer a verdade, aliás, Ihe dava preguiça.
O mentiroso mais conhecido do mundo da ficção foi sem dúvida Pinocchio, o boneco de madeira criado em 1878 pelo escritor italiano Carlo Collodi. Numa tentativa de educá-lo, a fada madrinha de Pinocchio fez com que cada vez que ele mentisse o nariz crescesse. Antes que virasse um Cirano, o boneco acabou desistindo de sua vida de mentiras. Foi, talvez, o único mentiroso da literatura a optar pela verdade - pela boa e simples razão de que a verdade Ihe trazia mais vantagens do que a mentira.


Quando os animais mentem
A mentira, na natureza, é uma arma de sobrevivência. Muitas vezes, na luta contra o predador, a presa só tem chance de escapar se souber mentir bem. E o caso dos camaleões, que, graças à pigmentação especial da pele, se confundem com o ambiente. Ou de certos caranguejos, que vivem com a carapaça coberta por algas ou esponjas. Os insetos são especialistas em se fingir de cortiça ou de gravetos no tronco de árvores. Essas e muitas outras formas de mentira atendem por um único e verdadeiro nome científito - mimetismo.
O fenômeno foi estudado pela primeira vez pelo naturalista inglês Henry Walter Bates (1825-1892), que observou o comportamento das borboletas no vale do rio Amazonas. Ele descobriu uma família de borboletas que conseguia escapar dos pássaros tornando-se parecida na forma e na cor com outra família. cujo sabor não agradava às aves. As borboletas apetitosas tratavam de voar misturadas às outras. Hoje se sabe que os animais memorizam certos padrões de aparência quando associam determinada presa a um gosto nauseante ou à dor. Portanto, mentiroso competente é aquele que consegue assumir uma aparência pouco atrativa para o predador.
Existem, porém, casos de automimetismo: animais que imitam outros da própria espécie. Os zangões, por exemplo, quando estão prestes a ser atacados, voam e zumbem como abelhas, que, como bem sabem os atacantes, têm ferrões para se defender-se a mentira pega, os zangões se salvam. Nem sempre, contudo, é a presa o mentiroso. Isso acontece no caso clássico do lobo em pele de cordeiro, ou seja, o animal que finge ser manso, se aproxima calmamente de outro com ar de quem não quer nada e sai ganhando uma refeição.


Retrato de um mentiroso
Enquanto a boca mente com a maior desenvoltura, a mente se perde entre o que conhece como verdade e o que está sendo afirmado mentirosamente como verdade.
Durante esse pequeno curto-circuito, ocorrem mudanças fisiológicas comuns a todo e qualquer mentiroso: a respiração se interrompe por um segundo e depois volta num ritmo acelerado; o coração também passa a bater rápido e a transpiração aumenta. Como nada disso pode ser percebido diretamente, existe o poligrafo, ou detector de mentira, um aparelho que em contato com o peito, o pescoço e as pontas dos dedos registra em gráficos aquelas manifestações fisiológicas.
Certamente, todos os sintomas citados aparecem no mentiroso. A polêmica, porém, surge ao se levantar a possibilidade de que qualquer pessoa em estado de ansiedade - com problemas familiares, por exemplo - pode apresentar as mesmíssimas características. No Brasil, apenas a polícia de São Paulo usa o detector de mentira. Segundo o delegado Nelson Silveira Guimarães, "apesar da confiança que temos no exame, ele não é considerado prova judicial, mas apenas um indicio que pode influênciar a opinião do juiz". O detector de mentira, diz Guimarães, só não é ainda mais usado porque apenas um em cada dez suspeitos consente em submeter-se ao aparelho. Além disso, enquanto nos Estados Unidos cerca de 10 mil policiais sabem manipular o detector, no Brasil não há mais de uma dúzia de funcionários habilitados.

S.O.S. Ozônio

S.O.S. OZÔNIO



Um buraco na camada de ozônio sobre a Antártida, maior que toda a América do Sul, ameaça o clima do planeta. Tudo indica que o culpado é um produto usado em sprays, geladeiras e embalagens para sanduíches. Apesar das advertências dos cientistas, pouco se faz para acabar com esse grave perigo.

O alarme começou a soar há mais de dez anos e nos últimos meses aumentou de intensidade, causando impacto no mundo inteiro. A camada de ozônio que envolve a Terra como um escudo protetor contra os perigosos raios ultravioleta do Sol diminuiu de 3 a 7 por cento. Mas isso é uma insignificância comparado com o verdadeiro rombo que acontece sobre a Antártida, - alí, todo mês de setembro, no início da primavera, quase a metade da concentração de ozônio é misteriosamente sugada da atmosfera. O fenômeno cíclico deixa a descoberta uma área de 3 milhões de quilômetros quadrados, maior do que toda a América do Sul, ou 15 por cento da superfície do planeta.
Sem o filtro protetor do ozônio, os adoradores do Sol ficarão expostos diretamente a radiação ultravioleta média - aquela do período das 10 às 14 horas, que todo dermatologista adverte, como a mais perigosa para a saúde. Calcula a Academia de Ciências dos Estados Unidos que uma diminuição de 1 por cento da camada de ozônio pode causar 10 mil novos casos de câncer de pele por ano só entre os americanos. As estatísticas brasileiras não são tão precisas. Mas o cancerologista Francisco Belfort, do Hospital A.C. Camargo, em São Paulo, confirma: o número de casos de carcinoma -o tipo mais comum de câncer de pele está aumentando. Dos males este ainda é o menor.
As piores conseqüências da diminuição da camada de ozônio serão sentidas no clima do planeta. O engenheiro alemão naturalizado brasileiro Volker Kirshhoff, chefe do laboratório de ozônio do INPE (Instituto de Pesquisas Espaciais), explica por quê: "Na atmosfera", ele diz. "tudo funciona como um jogo de xadrez. Qualquer movimento de uma das peças pode abalar a posição das outras". Por isso, teme-se que a diminuição de ozônio possa contribuir para um futuro aquecimento da Terra, quando parte da calota polar derreter, causando inundações em outras áreas do planeta. Os cientistas chamam a essa catástrofe "efeito estufa".
Por enquanto, a situação é mais preocupante na Antártida, onde a perda anual de ozônio parece estar atrasando a chegada da primavera. Supõe-se que invernos mais longos tendam a comprometer o ciclo biológico das espécies animais e vegetais da região. Com maior segurança, os cientistas relacionam o déficit periódico de ozônio com a quebra da cadeia alimentar da fauna antártica. No ano passado, um erro atribuído à ministra do Meio Ambiente da Suécia, Birgitta Dahl, assustou os brasileiros.
Ela teria afirmado que o buraco na camada de ozônio cresceu tanto que atingiu o paralelo 16, no hemisfério sul, ou seja, o Sul da África, a maior parte da Austrália e metade da América do Sul. Na verdade, a ministra teria querido dizer paralelo 60, que nem alcança a Argentina. "Por sorte", explica o engenheiro Kirshhoff, "a extensão do buraco no ozônio não aumentou nos últimos dois anos." Pode ser que os seus limites estejam fixados pelas condições peculiares do clima na Antártida. De qualquer forma, há dez anos o INPE faz o monitoramento do ozônio sobre o Brasil por meio de balões e sondas, em operação conjunta com a NASA americana. E até agora não apareceram motivos de inquietação.
Quanto mais os cientistas investigam a causa da diminuição de ozônio na atmosfera, mais certos estão de que o homem, ou melhor, um composto químico chamado clorofluorcarbono, produzido pelo homem, está por trás desse desastre. Não deixa de ser uma ironia. Quando foi criado pelos químicos da General Motors em 1928, o clorofluorcarbono - ou CFC, iniciais dos três elementos que o compõem - parecia a maravilha das maravilhas. Podia ser usado com segurança como spray em inseticidas, produtos de limpeza e tinta, sem o risco de reagir com o conteúdo das latas.
Até o inicio da década de 70, o uso do CFC - também conhecido como Freon, marca do produto fabricado pela Du Pont - cresceu sem barreiras. Dos sprays, passou para os circuitos de refrigeração de geladeiras e aparelhos de ar - condicionado. Depois, tornou-se um dos elementos das fôrmas de plástico poroso usadas para embalar sanduíches, comida congelada e ovos, além de servir como solvente na indústria eletrônica. Não havia por que imaginar que uma matéria-prima tão útil pudesse ser também perigosa.
O primeiro alarme foi acionado em 1974 pelos químicos americanos Sherwood Roland e Mario Molina. Embora inofensivo na Terra - advertiam eles -, o CFC podia ser um veneno na atmosfera. Suas moléculas passavam intactas pela troposfera - a faixa de ar que vai da superfície até cerca de 10 mil metros de altitude, onde ocorrem todas as mudanças de clima do planeta - para desembocar na estratosfera. Ali, os raios ultravioleta do Sol quebrariam as moléculas de CFC e liberariam átomos do gás cloro.

Tudo igual nos céus do Brasil

Uma notícia tranqüilizadora para os brasileiros: a variação da camada de ozônio sobre o pais permanece estável - no máximo, aumenta ou diminui apenas 5 por cento. Pelo menos é o que dizem os instrumentos de medição do INPE. Desde 1978, o instituto acompanha a movimentação do gás na atmosfera. Quase duzentos balões já foram lançados da base da Barreira do Inferno, em Natal. As informações dos balões foram complementadas por foguetes e instrumentos de superfície instalados em Manaus, Belém, Natal, Fortaleza, Cuiabá e São José dos Campos.
Isso é possível graças a um convênio com a NASA, que fornece os equipamentos, inclusive foguetes do tipo Loki e Super-Loki, comparáveis ao Sonda-3, de fabricação nacional. Os americanos estão interessados no estudo do comportamento do ozônio perto do equador, algo até recentemente pouco conhecido. Nos últimos anos, o INPE tem aperfeiçoado suas medições. Começou a observar também o monóxido de carbono, que participa de uma série de reações quírnicas junto com o ozônio. O objetivo, diz Volker Kirshhoff, responsável pelas medições, é controlar os poluentes que podem afetar a vida na Terra.

O ozônio

uma molécula formada por três átomos de oxigênio (O3), reagiria com o cloro (Cl), formando monóxido de cloro (ClO) e mais oxigênio (O2).
A cadeia de reações químicas não ficaria nisso. O monóxido de cloro combinando-se com o oxigênio deixa novamente livres os átomos de cloro para reagir com o ozônio. Os cientistas que gostam de fazer contas no computador calculam que, por causa desse efeito cascata, cada átomo de cloro destrói 100 mil moléculas de ozônio da atmosfera. Eles ainda alertam para um detalhe importante - o CFC tem uma vida útil de pelo menos 75 anos. Portanto, já houve descarga suficiente do gás na atmosfera para comer o ozônio por quase um século - mesmo que nem um único grama de CFC fosse produzido daqui para a frente.
Pelo menos nos Estados Unidos, o susto com a descoberta dos cientistas foi grande - e a reação não tardou. Em 1978, os americanos trataram de banir o CFC da maior parte dos aerossóis - a exceção foram os remédios, como as bombinhas para asmáticos. Naquela época, os Estados Unidos usavam 470 mil toneladas de CFC em aerossóis e 350 mil em outros produtos. Só que desde então a situação se inverteu: em 1985, os americanos consumiam 235 mil toneladas de CFC em aerossóis e 540 mil toneladas em refrigeração, embalagens etc., ou seja, o banimento adotado dez anos atrás não resolveu grande coisa. Além disso, é claro, os Estados Unidos não são o único pais do mundo a usar produtos em spray.
Em 1979, a Du Pont - uma das maiores fabricantes mundiais de CFC - divulgou um comunicado, no qual dizia que todos os dados relativos à diminuição da camada de ozônio eram apenas projeções de computador baseadas em meras suposições. Foi então que estourou a bomba. Enquanto trabalhavam nas madrugadas gélidas do pólo sul, cientistas do Instituto Britânico de Pesquisas Antárticas descobriram acidentalmente que a concentração de ozônio sobre a região não só era muito mais baixa do que em qualquer lugar da Terra, como também vinha diminuindo a cada ano desde 1977.
A princípio, cientistas da NASA contestaram a informação, mas depois entregaram os pontos. E que o computador que manipulava as informações do satélite meteorológico Nimbus-7 estava programado para não levar em consideração mudanças como as que ocorriam nos céus da Antártida. Repassando todas as fitas gravadas, dessa vez com uma nova programação do computador, os cientistas americanos viram nos monitores surgir sobre o pólo sul uma acusadora mancha negra. Era a prova viva de que, de setembro a novembro, a camada de ozônio sobre a Antártida sofreria uma redução de 30 até 50 por cento. A partir dai, não havia mais dúvida sobre o que estava acontecendo na atmosfera.
Mas, também, como diziam funcionários do governo influenciados pelo lobby dos fabricantes de CFC, não havia certeza absoluta - como de fato não há até hoje - de que o gás era o principal culpado. Afinal, o que se convencionou chamar camada de ozônio é uma faixa de 30 mil metros de espessura, a partir de 15 mil metros acima da superfície terrestre, de um gás tão rarefeito que, se fosse comprimido a pressão e temperatura normais da Terra, formaria uma casquinha de apenas três milímetros. É impossível prever com exatidão o que acontece no seu interior. Ali, qualquer intromissão de gases quase tão perigosos como o CFC - como metano, dióxido de carbono, óxido nítrico - provoca mudanças. Descobriu-se, por exemplo, que o bromo um gás utilizado em extintores de incêndio, produz uma substância chamada halônio, cujo poder de destruição é dez vezes maior que o do CFC.
Se não conhecem detalhes, os cientistas têm uma visão bastante aproximada da vida íntima da atmosfera. Correntes de ar se deslocam dos pólos para o equador a baixa altitude e do equador para os pólos a altitudes mais elevadas, espalhando poluentes a milhares de quilômetros do local de origem. Mas na Antártida isso não ocorre. Durante o inverno, que começa em abril, a região permanece no escuro e os ventos giram em circu-los impenetráveis, que atraem massas de ar de outras partes da Terra com grandes quantidades de substâncias químicas. É o vórtex polar, onde ocorre o buraco na camada de ozônio. Em setembro, com os primeiros raios ultravioleta do Sol, as moléculas de CFC começam a se quebrar, destruindo o ozônio. O buraco só se fecha em novembro, com a renovacão do ar vinda de outras regiões.
Esta pelo menos era a teoria. Restava saber se isso realmente acontecia na prática. Uma expedição tira - teima com 150 cientistas de dezenove organizações de quatro países esteve em setembro último na Antártida para analisar a composição do vórtex polar. A NASA usou na pesquisa dois aviões: um jato DC-8 e um velho ER-2 adaptado dos aviões espiões U-2, como o que a União Soviética abateu em 1960. no mais célebre incidente da guerra fria. Com o que há de mais sofisticado em matéria de equipamentos, os aparelhos desafiaram os ventos do vórtex e, durante seis semanas, espionaram a quantidade de poluentes concentrada em seu interior.
Os resultados confirmaram as expectativas mais pessimistas. A concentração de monóxido de cloro sobre a região é cem vezes maior do que em qualquer outro lugar do globo terrestre. Como diz Volker Kirshhoff, do INPE, um veterano de expedições cientificas à Antártida, "a pesquisa não foi a resposta final, mas uma prova arrasadora de que realmente o CFC está fazendo alguma coisa de errado lá em cima".
A NASA prometeu divulgar este mês novos resultados da expedição - e cientistas europeus bem-informados receiam que a batelada completa de dados contenha conclusões de arrepiar os cabelos. Além disso, a agência americana está programando uma análise do ar na região do pólo norte. onde não parece ocorrer um fenômeno igual ao da Antártida.
Caracterizada a parte que cabe ao CFC nessa agressão à natureza, a lógica mandaria acabar com a produção do gás. Mas nem sempre a lógica dá a última palavra. Há, de um lado, os interesses da indústria. Mas, junto com eles, há o fato não menos real de que a vida das pessoas ficou mais confortável desde o advento dos clorofluorcarbonos. Afinal, ninguém contestará que um inseticida em spray é mais prático do que as velhas bombas de "flit". O caso do ozônio ilustra exemplarmente um dilema dos tempos modernos - como beneficiar-se das conquistas da tecnologia sem pagar o preço de prejuízos às vezes incalculáveis ao ambiente.
Controlar a produção de CFC no mundo, portanto, não é fácil. Os treze maiores fabricantes mundiais - com sede no Japão, Europa e Estados Unidos - assinaram um acordo em janeiro último comprometendo-se a acelerar os testes de identificação da toxicidade do produto e de eventuais substitutos. Mas as empresas não reconhecem como definitivas as evidências contra o CFC.
Para a Du Pont, por exemplo, "não existe nenhuma comprovação cientifica de que a camada de ozônio seja atingida pelo CFC", diz um porta-voz da companhia em São Paulo. Mesmo assim, segundo a fonte, a empresa está desenvolvendo pesquisas em nível mundial para estudar o assunto. De seu lado, a Hoechst do Brasil, que fabrica o CFC sob a marca Frigen, reconhece que há indícios de que o gás esteja afetando o ozônio Um executivo da empresa destaca em todo caso que o consumo 2.no Brasil. 2 ainda é baixo. De fato, enquanto nos países desenvolvidos o consumo é de 1 quilo a 1,3 quilo por habitante por ano, no Brasil esse valor cai para irrisórios 80 gramas.
Em agosto do ano passado, ainda antes portanto da última safra de más noticias vindas da Antártida, a rede de lanchonetes McDonald´s anunciou nos Estados Unidos a intenção de substituir as embalagens de espuma plástica de seus sanduíches por outras que não contivessem clorofluorcarbono. A idéia foi saudada com entusiasmo, mas ainda não se concretizou - as 9 600 lojas da rede em 46 países continuam a usar a embalagem poluidora. Enquanto isso, no Brasil, a Basf, que fabrica o tradicional isopor, usando o inofensivo gás pentano em vez do CFC, desistiu de entrar no mercado de embalagens para sanduíches, aparentemente a fim de não agravar a poluição da atmosfera.
Mas a iniciativa de restringir a produção de clorofluorcarbonos não é discutida só nas empresas. Exatamente há um ano, uma conferência em Genebra, na Suíça, reuniu delegados de 32 países. Eles começaram ali a discutir mecanismos para regular o uso do produto. Foi um primeiro passo - e seus frutos não tardaram. Cinco meses depois, representantes de 24 países, entre os quais Estados Unidos, Japão, Alemanha e França - os maiores produtores -, assinaram em Montreal, no Canadá, o compromisso de reduzir a produção de CFC pela metade até 1999. Mas o documento autoriza nações em desenvolvimento a aumentar o seu uso durante uma década inteira. O resultado final. asseguram os defensores do tratado, será uma redução de 35 por cento no total de CFC na atmosfera até o final do século. Por certo, isso é insuficiente para afugentar de vez o problema.
Sob o ponto de vista técnico, as medidas adotadas em Montreal foram pouco efetivas, critica o engenheiro Kirshhoff, do INPE. "Mas do ponto de vista diplomático serviram como um empurrão inicial. Quem sabe, no futuro, essas medidas não serão ampliadas?"
O Brasil mandou dois diplomatas a Montreal, mas não assinou o protocolo. Em todo caso o Itamaraty vem promovendo consuitas sobre o assunto a diversos órgãos do governo, como o INPE e a Secretaria Especial do Meio Ambiente. Ambos se manifestaram a favor da assinatura do protocolo. Segundo o secretário especial do Meio Ambiente, Roberto Messias Franco, "o uso do CFC nas proporções atuais realmente preocupa, mas posso garantir que a nossa participação ainda é pequena". Ele afirma que os países do Terceiro Mundo são responsáveis por apenas 6 por cento da fabricação internacional - e o Brasil por apenas 1 por cento. Messias Franco disse a SUPERINTERESSANTE que o Brasil assinará o protocolo de Montreal dentro de cinco a seis meses.
Segundo o presidente da Associação Brasileira de Aerossóis, Hugo Chaluleu, "menos de 5 por cento dos sprays produzidos no país usam o CFC. A maior parte dos fabricantes prefere uma mistura de butano e propano como propelente, até porque é muito mais barato". Na opinião de Chaluleu, "o CFC poderia ter sido abolido das latas de spray há muito tempo". Restariam de qualquer forma os aparelhos de refrigeração, onde ainda não foi encontrado um produto adequado para substituir o gás.
Os cientistas mais preocupados com a questão insistem em que ela deve ser resolvida - e imediatamente. "As mudanças ocorridas nos últimos trinta a cinqüenta anos na atmosfera não têm precedentes e a velocidade em que elas acontecem está se acelerando", alerta o cientista americano Gilbert White, da Universidade do Colorado. "É possível que um grande desastre esteja sendo armado. clima da Terra passou por mil mudanças ao longo dos bilhões de anos de sua existência. Mas sempre conseguiu manter o equilibrio - sem o qual o próprio planeta deixaria de abrigar a vida. Ou seja, o clima pode ser comparado a uma máquina que se corrige a si mesma, deixando entrar a quantidade certa de energia solar para harmonizar a temperatura e o desenvolvimento da vida. Mas o homem vem interferindo neste processo. Desde o surgimento do Homo sapiens até os tempos modernos, essa interferência foi desprezível. Nas últimas cinco décadas, porém, a explosão das novas tecnologias tornou a intromissão humana um fato cada vez mais carregado de riscos para a natureza no sentido mais geral. No caso especifico do ozônio. o alcance da ameaça não pode ser subestimado.

ozônio mau
Enquanto na atmosfera o ozônio protege a Terra dos raios ultravioleta do Sol, na superfície é um poluente prejudicial, principalmente para as plantas. O ozônio mau nasce de uma reação da luz solar com o dióxido de nitrogênio das descargas dos automóveis. Nesse jogo entram também os hidrocarbonetos não destruidos no processo de queima do óleo combustível pelas indústrias. Esse ozônio é levado pelos ventos a centenas de milhares de quilômetros de distância.
Medicões realizadas pelo INPE em Natal, no Rio Grande do Norte, revelam que, em certos meses do ano, a concentração do ozônio sobre o Nordeste chega a dobrar. Provavelmente especula o engenheiro Volker Kirshhoff, o fenômeno resulta das queimadas durante a estação seca no Brasil Central.
Quanto maior a quantidade de ozônio na baixa atmosfera, maior também a perda agrícola. Pesquisas realizadas nos Estados Unidos apontam prejuízos enormes dos plantadores de soja, trigo, algodão e amendoim. E que o ozônio inibe a fotossíntese, produzindo lesões nas folhas. Nos animais, provoca irritação e ressecamento das mucosas do aparelho respiratório, além de envelhecimento precoce. Testes já mostraram que, em maiores concentrações, o ozônio destrói proteínas e enzimas.