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sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Incansáveis Operários de Metal - Robótica


INCANSÁVEIS OPERÁRIOS DE METAL - Robótica



Cada vez mais versáteis e inteligentes, os robôs ocupam espaço nas fábricas e em postos de trabalho inacessíveis ao homem, como o fundo do mar

O homem é o mais eficiente e mais versátil animal já inventado pela natureza. Capaz de converter em força de trabalho até 20% das calorias que consome - contra apenas 10% do segundo colocado nessa categoria, o cavalo -, o organismo humano, além disso, retém o bom desempenho nas mais diversas circunstâncias, dos desertos ardentes aos pólos gelados. Mas talvez nem precise fazer isso por muito mais tempo. pois vem se encarregando de criar trabalhadores ainda melhores, os robôs. Equipados com tecnologia cada vez mais sofisticada, os novos operários enfrentam, incansáveis e sempre disponíveis, as tarefas complicadas, estressantes ou perigosas que o homem, por diversos motivos, não pode ou não deve encarar. Eles prometem, por exemplo, revolucionar a exploração do fundo do mar, que se quer transformar num permanente canteiro de obras e de pesquisas, ocupado por milhares de robôs submarinos. "Será como nos dias do Velho Oeste", entusiasma-se o empresário americano Graham Hawkes. Fundador da firma Deep Ocean Engineering, ele conta ao jornal The New York Times que está preparado para produzir e vender máquinas especializadas em serviços nas profundezas.Algumas delas já estão trabalhando em verdadeiras expedições caça-tesouros cujo objetivo é recuperar objetos valiosos que, no passado, tenham afundado com navios, aviões ou mesmo mísseis. Ainda mais promissores, no entanto, são os robôs empregados na indústria petrolífera Não é preciso ir longe para descobrir o motivo. Basta visitar os poços que a Petrobrás perfura em alto-mar, junto à costa do Rio de Janeiro. Obrigada a realizar suas atividades no leito oceânico, em profundidades que vão até os 1 000 metros, a empresa já não pode prescindir da mão-de-obra dos robôs. O maior deles atende pelo nome de Triton. Baixinho e atarracado - tem 1,32 metro de altura, 1,20 de largura e 1,42 de comprimento -, pesa 1,9 tonelada e é capaz de carregar 227 quilos de equipamentos em seus braços. A escuridão impenetrável, reinante abaixo dos 200 metros, é um problema sério, mas contornável. O Triton enxerga, antes de mais nada, por meio de duas câmaras de televisão - uma em cores e outra em preto-e-branco - e para isso tem que iluminar os objetos com quatro lâmpadas de 250 watts cada uma. Esses instrumentos, no entanto, só são eficazes quando estão bem próximos de seu alvo. "A mais de 5 metros do objetivo, o robô está completamente perdido", aponta o engenheiro mecânico José Antônio Galarza. A saída, então, é apelar para o sonar, um olho que vê o som - trata-se de um aparelho que emite ondas sonoras contra um obstáculo e, em seguida, capta os sinais refletidos por ele. De acordo com esse eco, pode desenhar as formas que encontra pela frente. Os mesmos instrumentos equipam o Scorpio, outro funcionário exemplar da Petrobrás.A diferença é que o Triton é um pouco mais forte, pois tem um motor de 50 HP, que Ihe permite enfrentar correntezas de até 3 nós, cerca de 5,5 quilômetros por hora. Já o Scorpio, com uma potência de 40 HP, não se arrisca quando o mar exige velocidade acima dos 2,5 nós. Idiossincrasias à parte, ambos conhecem bem os serviços de rotina nas grandes plataformas, como controlar o fluxo de combustível nos oleodutos abrindo e fechando suas válvulas. Ou então, fazer reparos gerais, como apertar parafusos, carregar e fixar hastes metálicas, ou desenrolar cabos elétricos e hidráulicos no leito oceânico."Teoricamente, eles podem fazer tudo o que um homem faz", explica o engenheiro eletrônico Antônio Cláudio Sant´anna. É claro que certas comparações são muito desfavoráveis. O braço mais forte do Scorpio, por exemplo, consegue realizar, no máximo, cinco movimentos diferentes, como erguer-se, girar, dobrar e assim por diante. O outro braço, chamado manipulador, é um pouco mais fraco e um pouco mais ágil, pois faz até sete movimentos diferentes. Mas, mesmo assim, fica muito aquém do braço humano, que detém a marca insuperável - pelo menos por enquanto - de 27 tipos de movimentos. Por outro lado, nenhum homem é capaz de trabalhar eficientemente a cerca de 300 metros de profundidade.Nesse caso, os robôs saem-se bem melhor que os operários, conforme se viu num teste efetuado pela Petrobrás. A experiência consistiu em fixar uma das chamadas árvores de natal", apelido que se dá ao complicado conjunto de válvulas usado para abrir e fechar os poços submarinos. Embora dois mergulhadores humanos trabalhassem nada menos que quatro horas e meia para terminar o serviço, o Scorpio, sozinho, aprontou tudo em 35 minutos. "Fez mais depressa e mais bem feito", resume Carlos Vilarinho da Costa, especialista em robótica da empresa. O teste dá uma idéia das limitações do corpo humano e, por extensão, ilustra o grande potencial do trabalho com robôs. Os poços da Petrobrás já estão no nível dos 1 000 metros, e é provável que se vá ainda mais longe Mas a marca de 320 metros é considerada como o limite de resistência dos mergulhadores, pois a pressão torna-se equivalente a 30 quilos sobre cada centímetro quadrado do seu corpo. Para evitar problemas, eles têm que ser preparados, antes da descida, durante onze longos dias Mesmo assim, não podem demorar no fundo mais que oito horas e, depois de voltar à tona, levam mais dez dias recuperando-se. As máquinas, em vez disso, são tão insensíveis à pressão da água quanto às reivindicações salariais.Podem, portanto, ampliar a exploração racional nas imensas, e ainda desconhecidas, planícies submarinas. "Mais de 90% do leito oceânico já estão acessíveis aos robôs", opina o especialista americano Robert Wernli. Ele deve saber, pois é um dos dirigentes do Centro de Pesquisas Oceânicas, da Marinha dos Estados Unidos, cujos estudos começaram ainda nos anos 60. Em 1965, um dos aparelhos projetados no Centro desceu a 26 metros e, de lá, trouxe para a superfície velhas peças de artilharia afundadas.Um ano mais tarde, o mesmo engenho realizou a proeza de recuperar uma bomba atômica que, por acidente, havia caído sob 77 metros de água, na costa da Espanha. Hoje, acreditam os pesquisadores, há pelo menos 600 robôs capazes de cumprir a mesma missão e com muito mais facilidade. Muitos deles podem mergulhar mais de 1000 metros e, além de capturar objetos, podem ainda fazer perfurações no subsolo, soldar metais ou cortar cabos. Em outras palavras, as máquinas tomaram-se mais versáteis e mais inteligentes. Isso se deve, em grande parte, aos circuitos eletrônicos acoplados às suas engrenagens. Assim, por meio de comandos mais simples, foi possível obter maior ganho de força nos braços-guindastes e de agilidade nos braços manipuladores. Outra novidade importante foram os novos materiais, como o kevlar, um plástico que tem a resistência do aço; ou o titânio, um metal forte e muito leve, que dificilmente se deixa corroer pelo sal. Os robôs que operam no Brasil empregam algo diferente - uma notável resina recheada de minúsculas esferas ocas de vidro, chamada espuma sintática. As esferas têm apenas 1 milímetro de diâmetro e, em grande quantidade, parecem um talco muito fino, cuja função é tornar mais leves as peças construídas com ela. Desse modo, pode-se contrabalançar o peso das partes de metal, que são os músculos da máquina.Afinal, enquanto fazem suas tarefas, os robôs submarinos têm que flutuar e nadar, ao contrário de seus primos da indústria, que são fixos. Essa habilidade sofisticou-se muito quando entraram em funcionamento as fibras óticas, ampliando os canais de comunicação entre o fundo mar e a superfície. São acondicionadas dentro do mesmo cabo que os operadores empregam para dirigir e acionar os robôs. A diferença é que, em vez de comandos elétricos, transportam grande quantidade de sinais eletrônicos, responsáveis pelas imagens de televisão e de sonar.Foram essas tecnologias que, a partir da década de 70, capacitaram os robôs para tarefas pretensiosas, como as que executam nas plataformas de petróleo. Ou as que podem vir a executar, dentro de mais alguns anos, em muitos outros setores. A França, por exemplo, já construiu inúmeros protótipos com o objetivo de recolher minerais raros no leito oceânico. É difícil prever se os robôs avançarão mais velozmente no mar ou nas indústrias de terra firme, nas quais vêm assumindo tarefas tais como apertar parafusos e fazer pontos de solda, num ritmo de milhares de operações ao dia. Desde 1982, por exemplo, eles desembarcaram na linha de produção da Volkswagen, em São Bernardo do Campo, SP, e acabaram tornando-se fundamentais para a empresa.Das 24 máquinas existentes na fábrica, quatro modelos, denominados R30 mais espertos. Dotados de sensores magnéticos e de calor, localizam e soldam com precisão 72 pontos diferentes na carroçaria dos carros Santana, Voyage e Fox. O capricho é tanto, que o R30 não se limita a fazer o serviço: também registra o número e a posição dos pontos de solda. Trata-se de um detalhe decisivo, pois o relatório apresentado por ele - com rigor e rapidez inigualáveis - é aceito no exterior como comprovante de qualidade. Por esse motivo, tornou-se indispensável na montagem de carros para exportação. "É uma garantia de alta homogeneidade de trabalho", confirma o engenheiro de manufatura Carlos Daniel Kibrit.Além disso, acrescenta, a máquina não reclama de insalubridade, não sofre com os acidentes de trabalho e adapta-se de imediato às mudanças, muito comuns nas modernas linhas de montagem. Embora seja cego, surdo e burro - expressão empregada por Kibrit -, o R30 está alterando toda a fábrica, pois permanece fixo em um local. Em vista disso, montou-se um verdadeiro autorama capaz de levar os carros até ele - são correias de transporte automáticas, guiadas por comandos eletrônicos. Toda a precisão é pouca, diante das rapidíssimas reações do robô, cujo cérebro eletrônico capta uma mensagem em apenas meio segundo - e, naturalmente, manda executar as tarefas com presteza equivalente.Cada gesto seu, ao longo da jornada, obedece a uma programação predeterminada, à qual obedecem, também, muitos outros equipamentos à sua volta, em perfeita sincronia. Levando isso em conta, não há como duvidar do sucesso dos novos operários - a Volkswagen, que já possui 24 máquinas, está importando outras catorze, mais sofisticadas, da Alemanha. É certo que, fora da indústria automobilística, a modernização é mais lenta, mas nem por isso deixa de existir. Já no país 48 robôs em atividade nos mais variados ramos de negócio, de acordo com a estimativa de Roberto Camanho, diretor da Sobracon, Sociedade Brasileira de Comando Numérico e Automação Industrial.Camanho diz que também aumenta o número de fabricantes brasileiros. entre os quais destacam-se empresas como a Villares-Hitachi, Metrixer e a Romi. Elas decidiram começar pelos modelos mais simples. Os mais habilidosos robôs da Petrobrás, por exemplo, são estrangeiros - o Triton é americano e o Scorpio, canadense. Seus preços oscilam entre as ponderáveis quantias de 700 000 e 1 milhão de dólares, razão por que não são comprados, mas sim alagados. Os menores, equipados apenas de urna câmara, saem por 1 200 dólares ao dia; os maiores, dotados de braços, por 2 500 dólares.Como exceção, existem nas plataformas duas simpáticas máquinas brasileiras, trabalhando a todo o vapor. Construídas pela firma Consub e batizadas de Tatuí, vêem por meio de câmaras de TV, enfrentam correntes de 2 nós e descem até os 1 000 metros. Estão preparadas para tarefas rotineiras de inspeção ou reparo de cabos. Mais importante que isso, no entanto, é seu papel simbólico, como os primeiros representantes de uma indústria de vanguarda no país. 


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