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sexta-feira, 10 de março de 2017

Casa Velha - Machado de Assis


Casa Velha - Machado de Assis



Casa Velha é um romance de Machado de Assis, publicado em folhetins na revista carioca A Estação, de janeiro de 1885 a fevereiro de 1886. A primeira edição saiu em livro somente em 1943, graças aos esforços da crítica literária Lúcia Miguel Pereira. A edição contou com introdução crítica da estudiosa e ilustrações de Santa Rosa. Embora tenha sido publicado na fase dita realista do autor, supõe-se que Machado de Assis tenha aproveitado material não-publicado de sua fase romântica. A obra permaneceu no esquecimento durante décadas, até ser resgatada por John Gledson, em "Machado de Assis - ficção e história".

(SEGUE ABAIXO ESTA OBRA COMPLETA)


CASA VELHA - MACHADO DE ASSIS


       CAPITULO I
        
        ANTES E DEPOIS DA MISSA
        
        Aqui está o que contava, há muitos anos, um velho cônego da Capela Imperial:
        
        -Não desejo ao meu maior inimigo o que me aconteceu no mês de abril de 1839. 
Tinha-me dado na cabeça escrever uma obra política, a história do reinado de D. Pedro I. Até 
então esperdiçara algum talento em décimas e sonetos, muitos artigos de periódicos, e alguns 
sermões, que cedia a outros, depois que reconheci que não tinha os dons indispensáveis ao 
púlpito. No mês de agosto de 1838 li as Memórias que outro padre, Luís Gonçalves dos 
Santos, o Padre Perereca chamado, escreveu do tempo do rei, e foi esse livro que me meteu 
em brios. Achei-o seguramente medíocre, e quis mostrar que um membro da igreja brasileira 
podia fazer cousa melhor.
        
        Comecei logo a recolher os materiais necessários, jornais, debates, documentos 
públicos, e a tomar notas de toda a parte e de tudo. No meado de fevereiro, disseram-me 
que, em certa casa da cidade, acharia, além de livros, que poderia consultar, muitos papéis 
manuscritos, alguns reservados, naturalmente importantes, porque o dono da casa, falecido 
desde muitos anos, havia sido ministro de Estado. Compreende-se que esta notícia me 
aguçasse a curiosidade. A casa, que tinha capela para uso da família e dos moradores 
próximos, tinha também um padre contratado para dizer missa aos domingos, e confessar 
pela quaresma: era o Rev. Mascarenhas. Fui ter com ele para que me alcançasse da viúva a 
permissão de ver os papéis.
        
        - Não sei se lhe consentirá isso, disse-me ele; mas vou ver.
        
        - Por que não há de consentir? E claro que não me utilizarei senão do que for 
possível, e com autorização dela.
        
        - Pois sim, mas é que livros e papéis estão lá em grande respeito. Não se mexe em 
nada que foi do marido, por uma espécie de veneração, que a boa senhora conserva e 
sempre conservará. Mas enfim vou ver, e far-se-á o que for possível.
        
        Mascarenhas trouxe-me a resposta dez dias depois. A viúva começou recusando; 
mas o padre instou, expôs o que era, disse-lhe que nada perdia o devido respeito à memória 
do marido consentindo que alguém folheasse uma parte da biblioteca e do arquivo, uma 
parte apenas; e afinal conseguiu, depois de longa resistência, que me apresentasse lá. Não 
me demorei muito em usar do favor; e no domingo próximo acompanhei o Padre 
Mascarenhas.
        
        A casa, cujo lagar e direção não é preciso dizer, tinha entre o povo o nome de Casa 
Velha, e era o realmente: datava dos fins do outro século. Era uma edificação sólida e vasta, 
gosto severo, nua de adornos. Eu, desde criança, conhecia-lhe a parte exterior, a grande 
varanda da frente, os dous portões enormes, um especial às pessoas da família e às visitas, e 
outro destinado ao serviço, às cargas que iam e vinham, às seges, ao gado que saía a pastar. 
Além dessas duas entradas, havia, do lado oposto, onde ficava a capela, um caminho que 
dava acesso às pessoas da vizinhança, que ali iam ouvir missa aos domingos, ou rezar a 
ladainha aos sábados.
        
        Foi por esse caminho que chegamos à casa, às sete horas e poucos minutos. 
Entramos na capela, após um raio de sol, que brincava no azulejo da parede interior onde 
estavam representados vários passos da Escritura. A capela era pequena, mas muito bem 
tratada. Ao rés-do-chão, à esquerda, perto do altar, uma tribuna servia privativamente à dona 
da casa, e às senhoras da família ou hóspedas,  que entravam pelo interior; os homens, os 
fâmulos e vizinhos ocupavam o corpo da igreja. Foi o que me disse o Padre Mascarenhas 
explicando tudo. Chamou-me a atenção para os castiçais de prata, para as toalhas finas e 
alvíssimas, para o chão em que não havia uma palha.
        
        - Todos os paramentos são assim, concluiu ele. E este confessionário? Pequeno, 
mas um primor.
        
        Não havia coro nem orgão. Já disse que a capela era pequena; em certos dias, a 
concorrência à missa era tal que até na soleira da porta vinham ajoelhar-se fiéis. 
Mascarenhas faz-me notar à esquerda da capela o lagar em que estava sepultado o 
ex-ministro. Tinha-o conhecido, pouco antes de 1831, e contou-me algumas 
particularidades interessantes; falou-me também da piedade e saudade da viúva, da 
veneração em que tinha a memória dele, das relíquias que guardava, das alusões freqüentes 
na conversação.
        
        - Lá verá na biblioteca o retrato dele, disse-me.
        
        Começaram a entrar na igreja algumas pessoas da vizinhança, em geral pobres, de 
todas as idades e cores. Dos homens alguns, depois de persignados e rezados, saíam, outra 
vez, para esperar fora, conversando, a hora da missa. Vinham também escravos da casa. Um 
destes era o próprio sacristão; tinha a seu cargo, não só a guarda e asseio da cabela, mas 
também ajudava a missa, e, salvo a prosódia latina' com muita perfeição. Fomos achá-lo 
diante de uma grande cômoda de jacarandá antigo, com argolas de prata nos gavetões, 
concluindo os arranjos preparatórios. Na sacristia, entrou logo depois um moço de vinte 
anos mais ou menos, simpático, fisionomia meiga e franca, a quem o Padre Mascarenhas me 
apresentou; era o filho da dona da casa, Félix.
        
        -Já sei, disse ele sorrindo, mamãe me falou de V. Revma. Vem ver o arquivo de 
papai?
        
        Confiei-lhe rapidamente a minha idéia, e ele ouviu-me com interesse. Enquanto 
falávamos vieram outros homens de dentro, um sobrinho do dono da casa, Eduardo, 
também de vinte anos, um velho parente, Coronel Raimundo, e uns dous ou três hóspedes. 
Félix apresentou-me a todos, e, durante alguns minutos, fui naturalmente objeto de grande 
curiosidade. Mascarenhas, paramentado e de pé, com o cotovelo na borda da cômoda, ia 
dizendo alguma cousa, pouca; ouvia mais do que falava, com um sorriso antecipado nos 
lábios, voltando a cabeça a miúdo para um ou outro. Félix tratava-o com benevolência e até 
deferência; pareceu-me inteligente, lhano e modesto. Os outros apenas faziam coro. O 
coronel não fazia nada mais que confessar que tinha fome; acordara cedo e não tomara café.
        
        - Parece que são horas, disse Félix; e, depois de ir à porta da capela:-Mamãe já 
está na tribuna. Vamos?
        
        Fomos. Na tribuna estavam quatro senhoras, duas idosas e duas moças. 
Cumprimentei-as de longe, e, sem mais encará-las, percebi que tratavam de mim, falando 
umas às outras. Felizmente o padre entrou daí a três minutos, ajoelhamo-nos todos, e 
seguiu-se a missa que, por fortuna do coronel, foi engrolada. Quando acabou, Félix foi 
beijar a mão à mãe e à outra senhora idosa, tia dele; levou-me e apresentou-me ali mesmo a 
ambas. Não falamos do meu projeto; tão-somente a dona da casa disse-me delicadamente:
        
        -Está entendido que V. Revma. faz-nos a honra de almoçar conosco?
        
        Inclinei-me afirmativamente. Não me lembrou sequer acrescentar que a honra era 
toda minha.
        
        A verdade é que me sentia tolhido. Casa, hábitos, pessoas davam-me ares de outro 
tempo, exalavam um cheiro de vida clássica. Não era raro o uso de capela particular; o que 
me pareceu único foi a disposição daquela, a tribuna de família, a sepultura do chefe, ali 
mesmo, ao pé dos seus, fazendo lembrar as primitivas sociedades em que florescia a religião 
doméstica e o culto privado dos mortos. Logo que as senhoras saíram da tribuna, por uma 
porta interior, voltamos à sacristia, onde o Padre Mascarenhas esperava com o coronel e os 
outros. Da porta da sacristia, passando por um saguão, descemos dous degraus para um 
pátio, vasto, calçado de cantaria, com uma cisterna no meio. De um lado e outro corria um 
avarandado, ficando à esquerda alguns quartos, e à direita a cozinha e a copa. Pretas e 
moleques espiavam-me, curiosos, e creio que sem espanto, porque naturalmente a minha 
visita era desde alguns dias a preocupação de todos. Com efeito, a casa era uma espécie de 
vila ou fazenda, onde os dias, ao contrário de um rifão peregrino, pareciam-se uns com os 
outros; as pessoas eram as mesmas, nada quebrava a uniformidade das cousas, tudo quieto 
e patriarcal.
        
        D. Antônia governava esse pequeno mundo com muita discrição, brandura e 
justiça. Nascera dona de casa; no próprio tempo em que a vida política do marido, e a 
entrada deste nos conselhos de Pedro I podiam tirá-la do recesso e da obscuridade, só a custo 
e raramente os deixou. Assim é que, em todo o ministério do marido.apenas duas vezes foi 
ao paço. Era filha de Minas Gerais, mas foi criada no Rio de Janeiro, naquela mesma Casa 
Velha, onde casou, onde perdeu o marido e onde lhe nasceram os filhos,-Félix, e uma 
menina que morreu com três anos. A casa fora construída pelo avô, em 1780, voltando da 
Europa, donde trouxe idéias de solar e costumes fidalgos; e foi ele, e parece que também a 
filha, mãe de D. Antônia,  quem deu a esta a pontazinha de orgulho, que se lhe podia notar, 
e quebrava a unidade da índole desta senhora, essencialmente chã. Inferi isso de algumas 
anedotas que ela me contou de ambos, no tempo do rei. D. Antônia era antes baixa que alta, 
magra, muito bem composta, vestida com singeleza e austeridade; devia ter quarenta e seis a 
quarenta e oito anos.
        
        Poucos minutos depois estávamos almoçando. O coronel, que afirmava, rindo, ter 
um buraco de palmo no estômago, nem por isso comeu muito, e durante os primeiros 
minutos, não disse nada; olhava para mim, obliquamente, e, se dizia alguma cousa, era 
baixinho, às duas moças, filhas dele; mas desforrou-se para o fim, e não conversava mal. 
Félix, eu e o Padre Mascarenhas falávamos de política, do ministério e dos sucessos do Sul. 
Notei desde logo, no filho do ministro, a qualidade de saber escutar, e de dissentir parecendo 
aceitar o conceito alheio, de tal modo que, às vezes, a gente recebia a opinião devolvida por 
ele, e supunha ser a mesma que emitira. Outra cousa que me chamou a atenção foi que a 
mãe, percebendo o prazer com que eu falava ao filho, parecia encantada e orgulhosa. 
Compreendi que ela herdara as naturais esperanças do pai, e rodobrei de atenção com o 
filho. Fi-lo sem esforço; mas pode ser também que entrasse por alguma cousa, naquilo, a 
necessidade de captar toda a afeição da casa. por motivo do meu projeto.
        
        Foi só depois do almoço que falamos do projeto. Passamos à varanda, que 
comunicava com a sala de jantar, e dava para um grande terreiro; era toda ladrilhada, e tinha 
o tecto sustentado por grossas colunas de cantaria. D. Antônia chamou-me, sentei-me ao pé 
dela, com o Padre Mascarenhas.
        
        - Reverendíssimo, a casa está às suas ordens, disse-me ela. Fiz o que o Sr. Padre 
Mascarenhas me pediu, e a muito custo, não porque o não julgue pessoa capaz, mas porque 
os livros e papéis de meu marido ninguém mexe neles.
        
        - Creia que agradeço muito...
        
        - Pode agradecer, interrompeu ela sorrindo; não faria isto a outra pessoa. Precisa 
ver tudo?
        
        - Não posso dizer se tudo; depois de um rápido exame, saberei mais ou menos o 
que preciso. E V. Ex.ª também há de ser um livro para mim, e o melhor livro, o mais íntimo. 
. .
        
        - Como ?
        
        - Espero que me conte algumas cousas, que hão de ter ficado escondidas. As 
histórias fazem-se em parte com as noticias pessoais. V. Ex.ª, esposa de ministro. . .
        
        D. Antônia deu de ombros.
        
        - Ah! eu nunca entendi de política; nunca me meti nessas cousas.
        
        - Tudo pode ser política, minha senhora; uma anedota, um dito, qualquer cousa 
de nada, pode valer muito.
        
        Foi neste ponto que ela me disse o que acima referi; vivia em casa, pouco saía, e só 
foi ao paço duas vezes. Confessou até que da primeira vez teve muito medo, e só o perdeu 
por se lembrar a tempo de um dito do avô.
        
        - Saí de casa tremendo. Era dia de gala, ia trajada à corte; pelas portinholas do 
coche via muita gente olhando parada. Mas quando me lembrava que tinha de cumprimentar 
o imperador e a imperatriz, confesso que o coração me batia muito. Ao descer do coche, o 
medo cresceu, e ainda mais quando subi as escadas do paço. De repente, lembrou-me um 
dito de meu avô. Meu avô, quando aqui chegou o rei, levou-me a ver as festas da cidade, e, 
como eu, ainda mocinha, impressionada, lhe dissesse que tinha medo de encarar o rei, se ele 
aparecesse na rua, olhou para mim, e disse com um modo muito sério que ele tinha às vezes: 
"Menina, uma Quintanilha não trame nunca!" Foi o que fiz, lembrou-me que uma 
Quintanilha não tremia, e, sem tremer, cumprimentei Suas Majestades.
        
        Rimo-nos todos. Eu, pela minha parte, declarei que aceitava a explicação e neo lhe 
pediria nada; e depois falei de outras cousas. Parece que estava de veia, se não é que a 
conversação da viúva me meteu em brios. Veio o filho, veio o cunhado, vieram as moças, e 
posso afirmar que deixei a melhor impressão em todos; foi o que o Padre Mascarenhas me 
confirmou, alguns dias depois, e foi o que notei por mim mesmo.
        
       CAPITULO II
        
        Antes de me despedir deles, fui ver a biblioteca. Era uma vasta sala, dando para a 
chácara, por meio de seis janelas de grade de ferro, abertas de um só lado. Todo o lado 
oposto estava forrado de estantes, pejadas de livros. Estes eram, pela maior parte, antigos, e 
muitos infólio; livros de história, de política, de teologia, alguns de letras e filosofia, não 
raros em latim e italiano. Eu via-os, tirava e abria um ou outro, dizia alguma palavra, que o 
Félix, que ia comigo, ouvia com muito prazer, porque as minhas reflexões redundavam em 
elogio do pai, ao mesmo tempo que lhe davam de mim maior idéia. Esta idéia cresceu ainda, 
quando casualmente dei com os olhos na Storia Fiorentina de Varchi, edição de 1721. 
Confesso que nunca tinha lido esse livro, nem mesmo o li mais tarde; mas um padre italiano, 
que eu visitara no Hospício de Jerusalém, na antiga Rua dos Barbonos, possuía a obra e 
falara-me da última página, que, em alguns exemplares faltava, e tratava do modo 
descomunalmente sacrílego e brutal com que um dos Farneses tratara o bispo de Fano.
        
        - Será o exemplar truncado? disse eu.
        
        - Truncado? repetiu Félix.
        
        - Vamos ver, continuei eu, correndo ao fim. Não, cá está; é o cap. 16 do 1v. XVI. 
Uma cousa indigna: In quest'anno medesimo nacque un caso... Não vale a pena ler; é 
imundo.
        
        Pus o livro no lugar. Sem olhar para o Félix, senti-o subjugado. Nem confesso este 
incidente, que me envergonha, senão porque, além da resolução de dizer tudo, importa 
explicar o poder que desde logo exerci naquela casa, e especialmente no espírito do moço. 
Creram-me naturalmente um sábio, tanto mais digno de admiração, quanto que contava 
apenas trinta e dous anos. A verdade é que era tão-somente um homem lido e curioso. 
Entretanto, como era também discreto, deixei de manifestar um reparo que fiz comigo 
acerca de promiscuidade de cousas religiosas e incrédulas, alguns padres de Igreja não longe 
de Voltaire e Rousseau, e aqui não havia afetar nada, porque os conhecia, não 
integralmente, mas no principal que eles deixaram. Quanto à parte que imediatamente me 
interessava, achei muitas cousas, opúsculos, jornais, livros, relatórios, maços de papéis 
rotulados e postos por odem, em pequenas estantes, e duas grandes caixas que o Félix me 
disse estarem cheias de manuscritos.
        
        Havia ali dous retratos, um do finado ex-ministro, outro de Pedro I. Conquanto a 
luz não fosse boa, achei que o Félix parecia-se muito com o pai, descontada a idade, porque 
o retrato era de 1829, quando o ex-ministro tinha quarenta e quatro anos. A cabeça era 
altiva, o olhar inteligente, a boca voluptuosa; foi a impressão que me deixou o retrato. Félix 
não tinha, porém, a primeira nem a última expressão; a semelhança restringia-se à 
configuraçao do rosto, ao corte e viveza dos olhos.
        
        -Aqui está tudo, disse-me Félix; aquela porta dá para uma saleta, onde poderá 
trabalhar, quando quiser, se não preferir aqui mesmo.
        
        Já disse que saí de lá encantado, e que os deixei igualmente encantados comigo. 
Comecei os meus trabalhos de investigação três dias depois. Só então revelei a Monsenhor 
Queirós, meu velho mestre, o projeto que tinha de escrever uma história do Primeiro 
Reinado. E revelei-lho com o único fim de lhe contar as impressões que trouxera da Casa 
Velha, e confiar as minhas esperanças de algum achado de valor político. Monsenhor 
Queirós abanou a cabeça, desconsolado. Era um bom filho da Igreja, que me faz o que sou, 
menos a tendência política, apesar de que no tempo em que ele floresceu muitos servidores 
da Igreja também o eram do Estado. Não aprovou a idéia: mas não gastou tempo em tentar 
dissuadir-me. "Conquanto,  disse-me ele, que você não prejudique sua mãe, que é a Igreja. O 
Estado é um padrasto."
        
        A meu cunhado e minha irmã, que sabiam do projeto, apenas contei o que se 
passara na Casa Velha; ficaram contentes, e minha irmã pediu-me que a levasse lá, alguma 
vez, para conhecer a casa e a família.
        
        Na quarta-feira comecei a pesquisa. Vi então que era mais fácil projetá-la, pedi-la e 
obtê-la, que realmente executá-la. Quando me achei na biblioteca e no gabinete contíguo, 
com os livros e papéis à minha disposição, senti-me constrangido, sem saber por onde 
começasse. Não era uma casa pública, arquivo ou biblioteca, era um lugar onde, no que 
tocava a papéis e manuscritos, podia dar com alguma cousa privada e doméstica. Para 
melhor haver-me, pedi ao Félix que me auxiliasse, disse-lhe até com franqueza, a causa do 
meu acanhamento. Ele respondeu. polidamente, que tudo estava em boas mãos. Insistindo 
eu, consentiu em servir-me (palavras suas) de sacristão; pedia, porém, licença naquele dia 
porque tinha de sair; e, na seguinte semana, desde terça-feira até sábado, estaria na roga. 
Voltaria sábado à noite, e daí até o fim, estava às minhas ordens. Aceitei este convênio.
        
        Ocupei os primeiros dias na leitura de gazetas e opúsculos. Conhecia alguns deles, 
outros não, e não eram estes os menos interessantes. Logo no dia seguinte, Félix 
acompanhou-me nesse trabalho, e daí em diante até seguir para a roga. Eu, em geral chegava 
às dez horas, conversava um pouco com o dona da casa, as sobrinhas e o coronel; o primo 
Eduardo retirara-se para S. Paulo. Falávamos das cousas do dia, e poucos minutos depois, 
nunca mais de meia hora, recolhia-me à biblioteca com o filho do ex-ministro. As duas 
horas, em ponto, era o jantar. No primeiro dia recusei, mas a dona da casa declarou-me que 
era a condição do obséquio prestado. Ou jantaria com eles, ou retirava-me a licença. Tudo 
isso com tão boa cara que era impossível teimar na recusa. Jantava. Entre três e quatro horas 
descansava um pouco, e depois continuava o trabalho até anoitecer.
        
        Um dia, quando ainda o Félix estava na roga, D. Antônia foi ter comigo, com o 
pretexto de ver o meu trabalho, que lhe não interessava nada. Na véspera, ao jantar, 
disse-lhe que estimava muito ver as terras da Europa, especialmente França e Itália, e talvez 
ali fosse daí a meses. D. Antônia, entrando na biblioteca, logo depois de algumas palavras 
insignificantes, guiou a conversa para a viagem, e acabou pedindo que persuadisse o filho a 
ir comigo.
        
        - Eu, minha senhora?
        
        - Não se admire do pedido; eu já reparei, apesar do pouco tempo, que Vossa 
Reverendíssima e ele gostam muito um do outro, e sei que se lhe disser isso, com vontade ele 
cede.
        
        -Não creio que tenha mais força que sua mãe. Já lhe tem lembrado isso?
        
        - Já, respondeu D. Antônia com uma entonação demorada que exprimia longas 
instâncias sem efeito.
        
        E logo depois com um modo alegre:
        
        - As mães como eu não podem com os filhos. O meu foi criado com muito amor 
e bastante fraqueza. Tenho-lhe pedido mais de uma vez; ele recusa sempre dizendo que não 
quer separar-se de mim. Mentira! A verdade é que ele não quer sair daqui. Não tem 
ambições, faz estudos incompletos, não lhe importa nada. Há uns parentes nossos em 
Portugal. Já lhe disse que fosse visitá-los, que eles desejavam vê-lo, e que fosse depois à 
Espanha e França e outros lugares. José Bonifácio lá esteve e contava cousas muito 
interessantes. Sabe o que ele me responde? Que tem medo do mar; ou então repete que não 
quer separar-se de mim.
        
        - E não acha que esta segunda razão é a verdadeira?
        
        D. Antônia olhou para o chão, e disse com voz sumida:
        
        -Pode ser.
        
        - Se é a verdadeira, haveria um meio de conciliar tudo, era irem ambos, e eu com 
ambos, e para mim seria um imenso prazer.
        
        - Eu?
        
        - Pois então?
        
        - Eu? Deixar esta casa? Vossa Reverendíssima está caçoando. Daqui para a cova. 
Não fui quando era moça, e agora que estou velha é que hei de meter-me em folias... Ele 
sim, que é rapaz,-e precisa...
        
        Tive uma suspeita súbita:
        
        -Minha senhora, dar-se-á que ele padeça de alguma moléstia que...
        
        - Não, não, graças a Deus! Digo que precisa, porque é rapaz, e meu avô dizia que, 
para ser homem completo, é preciso ver aquelas cousas por lá. E só por isso. Não, não tem 
moléstia nenhuma; é um rapaz forte.
        
        Era impossível, ou, pelo menos, indelicado tentar obter a razão secreta deste 
pedido, se havia alguma, como me pareceu. Pus termo à conversação dizendo que ia 
convidar o rapaz. D. Antônia agradeceu-me, declarou que não, me havia de arrepender do 
companheiro, e fez grandes elogios do filho. Quis falar de outras cousas; ela, porem, 
teimava no assunto da viagem, para familiarizar-mos com a idéia, e moralmente 
constranger-me a realizá-la. No dia seguinte voltou à biblioteca, mas com outro pretexto: 
veio mostrar-me uma boceta de rapé, que fora do marido, e que era, realmente, uma 
perfeição. Não tive dúvida em dizer-lhe isto mesmo, e ela acabou pedindo-me que a 
aceitasse como lembrança do finado. Aceitei-a constrangido; falamos ainda da viagem, duas 
palavras apenas, e fiquei só.
        
        Não estava contente comigo. Tinha-me deixado resvalar a uma promessa 
inconsiderada, cuja execução parecia complicar-se de circunstâncias estranhas e obscuras, 
provavelmente sérias. As instâncias de D. Antônia, as razões dados, as reticências, e 
finalmente aquele mimo, sem outro motivo mais que cativar-me e obrigar-me, tudo isso 
dava que cismar. Na noite desse dia fui à casa do Padre Mascarenhas para sondá-lo; 
perguntei-lhe se sabia alguma cousa do rapaz, se era peralta, se tinha irregularidades na vida. 
Mascarenhas não sabia nada.
        
        - Até aqui suponho que é um modelo de sossego e seriedade, concluiu ele. 
Verdade seja que só vou lá aos domingos.
        
        - Mas pelos domingos tiram-se os dias santos, repliquei rindo.
        
        Félix voltou da roga dous dias depois, num sábado. No domingo não fui lá. Na 
segunda-feira, falei-lhe da viagem que ia fazer, e do desejo que tinha de o levar comigo; 
respondeu que seria para ele um grande prazer, se pudesse acompanhar-me, mas não podia. 
Teimei, pedi-lhe razões, falei com tal interesse, que ele, desconfiado, fitou-me os olhos, e 
disse:
        
        - Foi mamãe que lhe pediu.
        
        - Não digo que não; foi ela mesma. Tinha-lhe dito que tencionava ir à Europa, 
daqui a alguns meses, e ela então falou-me do senhor e das vezes que já lhe tem aconselhado 
uma viagem. Que admira?
        
        Félix conservou os olhos espetados em mim, como se quisesse descer ao fundo da 
minha consciência. Ao cabo de alguns instantes respondeu secamente:
        
        -Nada: não posso ir.
        
        -Por quê?
        
        Aqui teve ele um gesto quase imperceptível de orgulho molestado; achou 
naturalmente esquisita a curiosidade de um estranho. Mas, ou fosse da índole dele, ou do 
meu caráter sacerdotal, vi desaparecer-lhe logo esse pequeno assomo; Félix sorriu e 
confessou que não podia separar-se da mãe. Eu, a rigor, não devia dizer mais nada, e 
encerrar-me no exame dos papéis; mas a maldita curiosidade picava-me de esporas, e ainda 
repliquei alguma cousa; ponderei-lhe que o sentimento era digno e justo, mas que, tendo de 
viver com os homens, devia começar por ver os homens, e não restringir-se à vida simples e 
emparedada da família. Demais, o contacto de outras civilizações necessariamente nos daria 
têmpera ao espírito. Escutou calado, mas sem atenção fixa, e quando acabei, declarou 
ultimando tudo:
        
        -Bem, pode ser que me resolva; veremos. Não vai já? Então depois falaremos 
disto; pode ser... E o seu trabalho, está adiantado?
        
        Não insisti, nem voltei ao assunto, apesar da mãe, que me falou algumas vezes 
dele. Pareceu-me que o melhor de tudo era acelerar a conclusão do trabalho, e despregar-me 
de uma intimidade que podia trazer complicações ou desgostos. As horas que então passei 
foram das melhores, regulares e tranqüilas, ajustadas a minha índole quieta e eclesiástica. 
Chegava cedo, conversava alguns minutos, e recolhia-me à biblioteca até a hora de jantar, 
que não passava das duas. O café ia à grande varanda, que ficava entre a sala de jantar e o 
terreiro das casuarinas, assim chamado, por ter um lindo renque dessas árvores, e eu 
retirava-me antes do pôr do sol. Félix ajudava-me grande parte do tempo. Tinha todas as 
horas livres, e quando não me ajudava é porque saira a caçar, ou estava lendo, ou teria ido à 
cidade a passeio ou a negócio de a passeio ou a negócio de casa. 
        
        Vai senão quando, um dia, estando só na biblioteca ouvi rumor do lado de fora. Era 
a princípio um chiar de carro de bois, de que não fiz caso, por já o ter ouvido de outras 
vezes; devia ser um dos dons carros que traziam da roga para a Casa Velha, uma ou duas 
vezes por mês, fruta e legumes. Mas logo depois ouvi outro rodar, que me pareceu de sege, 
vozes trocadas e como que um encontrão dos dous veículos. Fui à janela; era isso mesmo. 
Uma sege, que entrara depois do carro de bois, foi a este no momento em que ele, para lhe 
dar passagem, torcia o caminho; o boleeiro não pôde conter logo as bestas, nem o carro fugir 
a tempo, mas não houve outra conseqüência além da vozeria. Quando eu cheguei à janela já 
o carro acabava de passar, e a sege galgou logo os poucos passos que a separavam da porta 
que ficava justamente por baixo de minha janela. Entretanto. não foi tão pouco o tempo que 
eu não visse aparecer, entre as cortinas entreabertas da sege, a carinha alegre e ridente de 
uma moça que parecia mofar do perigo. Olhava, ria e falava para dentro da sege. Não lhe vi 
mais do que a cara, e um pouco do pescoço, mas dai a nada, parando a sege à porta, as duas 
cortinas de couro foram corridas para cada lado, e ela e outra desceram rapidamente, e 
entraram em casa. "Hão de ser visitas", pensei comigo.
        
        Voltei para o trabalho; eram onze horas e meia. Perto de uma, entrou na biblioteca 
o filho de D. Antônia; vinha da praça, aonde fora cedo, para tratar de um negócio do tio 
coronel. Estava singularmente alegre, expansivo, fazendo-me perguntas e não atendendo, 
ou atendendo mal às respostas. Não me lembraria disto agora, nem nunca mais, se não se 
tivesse ligado aos acontecimentos próximos, como veremos. A prova de que não dei então 
grande importância ao estado do espírito dele, é que daí a pouco quase que não lhe 
respondia nada, e continuava a ver os papéis. Folheava justamente um maço de cópias 
relativas à Cisplatina, e preferia o silêncio a qualquer assunto de conversa. Félix demorou-se 
pouco, saiu, mas tornou antes das duas horas, e achou-me concluindo o trabalho do dia, para 
acudir ao jantar. Daí a pouco estávamos à mesa.
        
        Era costume de D. Antônia vir para a mesa acompanhando a irmã (a senhora idosa 
que achei na tribuna da capela, no primeiro dia em que ali foi), e assim o fez agora, com a 
diferença que outra senhora a acompanhava também. Disseram-me que era amiga da 
família, e chamava-se Mafalda. Logo que nos sentamos, D. Antônia perguntou à hóspeda:
        
        - Onde está Lalau?
        
        - Onde há de estar! talvez brincando com o pavão. Mas, não faz mal, sinhá D. 
Antônia, vamos jantando; ela pode ser que nem tenha vontade de comer: antes de vir comeu 
um pires de melado com farinha.
        
        - A sege chegou muito tarde? perguntou Félix à hóspeda.
        
        - Não, senhor; ainda esperou por nós.
        
        - Seu irmão está bom?
        
        - Está; minha cunhada é que anda um pouco adoentada. Depois da erisipela que 
teve pelo natal, nunca ficou boa de todo.
        
        Creio que disseram ainda outras cousas; mas não me interessando nada, nem a 
conversação, nem a hóspeda, que era uma pessoa vulgar, fiz o que costumo fazer em tais 
casos: deixei-me estar comigo. Já tinha compreendido que a hóspeda era uma das que 
chegaram na sege, que a outra devia ser a mocinha, cuja cara vi entre as cortinas, e 
finalmente que. alguma intimidade haveria entre tal gente e aquela casa, visto que, contra a 
ordem severa desta, Lalau andava atrás do pavão, em vez de estar à mesa conosco. Mas, em 
resumo, tudo isso era bem pouco para quem tinha na cabeça a história de um imperador.
        
        Lalau não se demorou muito. Chegou entre o primeiro e o segundo prato. Vinha um 
pouco esbaforida, voando-lhe os cabelos, que eram curtinhos e em cachos, e quando D. 
Antônia lhe perguntou se não estava cansada de travessuras, Lalau ia responder alguma 
cousa, mas deu comigo, e ficou calada; D. Antônia, que reparou nisso, voltou-se para mim.
        
        -Reverendíssimo, é preciso confessar esta pequena e dar-lhe uma penitência para 
ver se toma júizo. Olhe que voltou há pouco e já anda naquele estado. Vem cá, Lalau.
        
        Lalau aproximou-se de D. Antônia, que lhe compôs o cabeção do vestido; depois 
foi sentar-se defronte de mim, ao pé da outra hóspeda. Realmente, era uma criatura 
adorável, espigadinha, não mais de dezessete anos, dotada de um par de olhos, como nunca 
mais vi outros, claros e vivos, rindo muito por eles, quando não ria com a boca; mas se o riso 
vinha juntamente de ambas as partes, então é certo que a fisionomia humana confirmava 
com a angélica, e toda a inocência e toda alegria que há no céu pareciam falar por ela aos 
homens. Pode ser que isto pareça exagerado a uns e vago a outros, mas não acho do 
momento um modo melhor de traduzir a sensação que essa menina produziu em mim. 
Contemplei-a alguns instantes com infinito prazer. Fiei-m e do caráter de padre para 
saborear toda a espiritualidade daquele rosto comprido e fresco, talhado com graça, como o 
resto da pessoa. Não digo que todas as linhas fossem corretas, mas a alma corrigia tudo.
        
        Chamava-se Cláudia; Lalau era o nome doméstico. Não tendo pai nem mãe, vivia 
em casa de uma tia. Quase se pode dizer que nasceu na Casa Velha, onde os pais estiveram 
muito tempo como agregados, e aonde iam passar dias e semanas. O pai, Romão Soares, 
exercia um oficio mecânico, e antes pertencera à guarda de cavalaria de polícia; a mãe, 
Benedita Soares, era filha de um escrivão da roga, e, segundo me disse a própria D. Antônia, 
foi uma das mais bonitas mulheres que ela conheceu desde o tempo do rei.
        
        Lalau, se não nasceu ali, ali foi criada e tratada sempre, ela como a mãe, no mesmo 
pé de outras relações; eram menos agregadas que hóspedas. Daí a intimidade desta mocinha, 
que chegava a infringir a ordem austera da casa, não indo para a mesa com a dona dela. 
Lalau andava na própria sege de D. Antônia, vivia do que esta lhe dava, e não lhe dava 
pouco; em compensação, amava sinceramente a casa e a família. Tendo ficado órfã desde 
1831, D. Antônia cuidou de lhe completar a educação; sabia ler e escrever, coser e bordar; 
aprendia agora a fazer crivo e renda.
        
        Foi D. Antônia quem me deu essas noticias, naquela mesma tarde, ao café, 
acrescentando que achava bom casá-la quanto antes; tinha a responsabilidade do seu 
destino, e receava que lhe acontecesse o mesmo que com outra agregada, seduzida por um 
saltimbanco em 1835.
        
        Nisto a menina veio a nós, olhando muito para mim. Estávamos na varanda.
        
        - Vou confessá-la, disse-lhe eu; mas olhe lá se me nega algum pecado.
        
        - Que pecado, meu Deus! Cruz! Eu não tenho pecado. Nhãtônia é que anda 
inventando essas cousas. Eu, pecado?
        
        -E as travessuras? perguntei-lhe. Olhe, ainda hoje, quando estava quase a suceder 
um desastre na estrada, entre o carro de bois e a sege em que a senhora vinha, a senhora, em 
vez de ficar séria e pensar em Deus, enfiou a cabeça por entre as cortinas para fora, rindo 
como uma criança.
        
        -Que é ela senão criança? ponderou D. Antônia.
        
        Lalau olhou espantada.
        
        - Onde estava o senhor padre? Estava no céu, espiando.
        
        - Ora! diga onde estava.
        
        - Já disse: estava no céu.
        
        - Adeus! diga onde estava!
        
        - Lalau! que modos são esses? repreendeu D. Antônia.
        
        A moça calou-se aborrecida; eu é que fui em auxilio dela, e contei-lhe que estava à 
janela da biblioteca, quando ela chegara. D. Antônia já sabia tudo, pois ali um 
acontecimento de nada ou quase nada era matéria de longas conversações. Não obstante. a 
mocinha referiu ainda o que se passara e as suas sensações alegres. Confessou que não tinha 
medo de nada, e até que queria ver um desastre para compreender bem o que era. Como a 
conversação dela era a troncos, interrompeu-se para perguntar-me se era eu quem iria agora 
dizer missa lá em casa, em vez do Padre Mascarenhas. Respondi-lhe que não, quis saber o 
que estava fazendo na biblioteca. Disse-lhe que fazia crivo. Ela pareceu gostar da resposta; 
creio que achou entre os nossos espíritos algum ponto de contacto.
        
        A verdade é que, no dia seguinte, vendo-me entrar e ir para a biblioteca, ali foi ter 
comigo, ansiosa de saber o que eu estava fazendo. Como lhe dissesse que examinava uns 
papéis, ouviu-me atenta, pagou curiosa de algumas notas, e dirigiu-me várias perguntas; mas 
deixou logo tudo para contemplar a biblioteca, peça que raramente se abria. Conhecia os 
retratos, distinguiu-os logo; ainda assim parecia tomar gosto em vê-los, principalmente o do 
ex-ministro; quis saber se ela o conhecia; respondeu-me que sim, que era um bonito homem, 
e fardado então parecia um rei. Seguiu-se um grande silêncio, durante o qual ela olhou para 
o retrato, e eu para ela, e que se quebrou com esta frase murmurada pela moça, entre si e 
Deus:
        
        -Muito parecido...
        
        -Parecido com quem? perguntei.
        
        Lalau estremeceu e olhou para mim, envergonhada. Não era preciso mais; 
adivinhei tudo. Infelizmente tudo não era ainda tudo.
        
       CAPÍTULO III
        
        Amor non improbatur, escreveu o meu grande Santo Agostinho. A questão para 
ele, como para mim, é que as criaturas sejam amadas e amem em Deus. Assim, quando 
desconfiei, por aquele gesto, que esta moça e Félix eram namorados, não os condenei por 
isso, e para dizer tudo, confesso que tive um grande contentamento. Não sei bem explicá-lo; 
mas é certo que, sendo ali estranho, e vendo esta moça pela primeira vez, a impressão que 
recebi foi como se tratasse de amigos velhos. Pode ser que a simpatia da minha natureza 
explique tudo; pode ser também que esta moça, assim como fascinara o Félix para o amor, 
acabasse de fascinar-me para a amizade. Uma ou outra cousa, à escolha, a verdade é que 
fiquei satisfeito e os aprovei comigo.
        
        Entretanto, adverti que da parte dele não vira nada, nem à mesa, nem na varanda, 
nada que mostrasse igual afeição. Dar-se-ia que só ela o amasse, não ele a ela? A hipótese 
afligiu-me. Achava-os tão ajustados um ao outro, que não acabarem ligados parecia-me uma 
violação da lei divina. Tais eram as reflexões que vim fazendo, quando dali voltei nesse dia, 
e para quem andava à cata de documentos políticos, não é de crer que semelhante 
preocupação fosse de grande peso; mas nem a alma de um homem é tão estreita que não 
caibam nela cousas contrárias nem eu era tão historiador como presumira. Não escrevi a 
história que esperava; a que de lá trouxe é esta.
        
        Não me foi difícil averiguar que o Félix amava a pequena. Logo nos primeiros dias 
pareceu-me outro, mais prazenteiro, e à mesa ou fora dela, pude apanhar alguns olhares, que 
diziam muito. Observei também que essa moça, tão criança, era inteiramente mulher quando 
os olhos dela encontravam os dele, como se o amor fosse a puberdade do espírito, e mais 
notei que, se toda a gente a tratava de um modo afetuoso, mas superior, ele tinha para com 
ela atenção e respeito.
        
        Já então não ia eu ali todos os dias, mas três ou quatro vezes por semana. A dona da 
casa, posto que sempre afável, recebia a impressão natural da assiduidade, que vulgariza 
tudo. Os dous, não; o Félix vinha muitas vezes esperar-me a distância da casa, e na casa, ao 
portão, ou na varanda, achava sempre a mocinha, rindo pela boca e pelos olhos. É bem 
possível que eu fosse para eles como o traço de pena que liga duas palavras; é certo, porém, 
que gostavam de mim. Eu, entre ambos, com- a minha batina (deixem-me confessar esta 
vaidade) tinha uns ares do bispo Cirilo entre Eudoro e Cimódoce.
        
        Há de parecer singular que não me lembrasse logo do pedido de D. Antônia para 
que o filho me acompanhasse à Europa, e o não ligasse a este amor nascente: lembrei-me 
depois. A princípio, vendo a afeição com que ela tratava a mocinha, cuidei que os aprovava. 
Mais tarde, quando me recordei do pedido, acreditei que esse amor era para ela o remédio ao 
mal secreto do filho, se algum havia, que me não quisera revelar.
        
        Durante os primeiros dias, depois da chegada de Lalau, nada aconteceu que mereça 
a pena contar aqui. Félix acompanhava-me no trabalho, mas interrompidamente,. e as vezes, 
se saía a algum negócio da casa, só nos víamos à mesa do jantar. Lalau não ia à biblioteca; 
um dia, porem, atreveu-se a entrar às escondidas, e foi ter comigo. Suspendi o trabalho, e 
conversamos perto de meia hora, sobre uma infinidade de cousas, presentes e passadas. Era 
mais de onze horas; o dia estava quente, o ar parado, a casa silenciosa; salvo um ou outro 
mugido, ao longe, ou algum canto de passarinho. Eu, com os estudos clássicos que tivera, e 
a grande tendência idealista, dava a tudo a cor das minhas reminiscências e da minha índole, 
acrescendo que a própria realidade externa,- antiquada e solene nos móveis e nos 
livros,-recente e graciosa em Lalau,-era propícia a transfiguração.
        
        Deixei-me ir ao sabor do momento. Notem bem que ela às vezes, ouvia mal, ou não 
sabia ouvir absolutamente, mas com os olhos vagos, pensando em outra cousa. Outras vezes 
interrompia-me para fazer um reparo inútil. Já disse também que tinha a conversação 
trancada e salteada Com tudo isso, era interessante falar-lhe, e principalmente ouvi-la. Sabia, 
no meio das puerilidades freqüentes da palavra, não destoar nunca da consideração que me 
devia; e tanto era curiosa como franca.
        
        -Teve medo? disse ela.
        
        -Como é que a senhora entrou?
        
        -Entrando; vi o senhor aqui, e vim muito devagar, pensando que não chegasse ao 
fim da sala, sem que o senhor me ouvisse, mas não ouvi nada, todo embebido no que está 
escrevendo. O que é?
        
        - Cousas sérias.
        
        -Nhãtônia disse que o senhor está aqui fazendo umas notas políticas para pôr 
num livro.
        
        - Então se sabia como e que me perguntou?
        
        Lalau encolheu os ombros.
        
        - Fez mal, disse eu. Olhe que eu sou padre, posso pregar-lhe um sermão.
        
        -O senhor prega sermões? por que não vem pregar aqui, na quaresma? Eu gosto 
muito de sermões. No ano passado, ouvi dous, na igreja da Lapa, muito bonitos. Não me 
lembra o nome do padre. Eu, se fosse padre, havia de pregar também. Só não gosto dos 
latinórios; não entendo.
        
        Falou assim, a troncos, uns bons cinco minutos; eu deixei-a ir, olhando só, vivendo 
daquela vida que jorrava dela, cristalina e fresca. No fim, Lalau sentou-se, mas não se 
conservou sentada mais de dous minutos, levantou-se outra vez para ir à janela, e tornou 
dentro para mirar os livros. Achou-os grandes demais; admirava como havia quem tivesse a 
paciência de os ler. E depois alguns eram tão velhos!
        
        - Que tem que sejam velhos? retorqui. Deus é velho, e é a melhor leitura que há.
        
        Lalau olhou espantada para mim. Provavelmente era a primeira vez que ouvia uma 
figura daquelas, e faz-lhe impressão. Teimou depois que os livros velhos pareciam-se com o 
antigo capelão da casa, o antecessor do Padre Mascarenhas, que andava sempre com a 
batina empoeirada, e tinha a cara feita de rugas. Conseguintemente vieram histórias do 
capelão. Em nenhuma delas, nem de outras entrava o Félix; exclusão que podia ser natural, 
mas que me não pareceu casual. Como eu lhe dissesse que não se deve mofar dos padres, ela 
ficou muito séria e atenta; depois rompeu, rindo:
        
        -Mas não é do senhor.
        
        - De mim ou de outro, é a mesma cousa.
        
        -Ora, mas o outro era tão feio, tão lambuzão. . .
        
        Disse-lhe, com as palavras que podia, que o padre é padre, qualquer que seja a 
aparência. Enquanto lhe lava, ela dava alguns passos de um lado para outro, cuido que para 
sentir o tapete debaixo dos pos; não o havia senão ali e na sala de visitas, fechada sempre. 
De quando em quando parava e olhava de cima as figuras desbotadas no chão; outras vezes 
deixava escorregar o pé, de propósito. Tinha o rasgo pueril de achar prazer em qualquer 
cousa.
        
        - Está bom, está bom, disse-me ela finalmente, não precisa brigar comigo; não 
falo mais do capelão. Pode continuar o seu trabalho, vou-me embora.
        
        -Não é preciso ir embora.
        
        - Muito obrigada! Quer que fique olhando para as paredes, enquanto o senhor 
trabalha. . .
        
        -Mas se eu não estou trabalhando! Olhe, se quer que eu não faça nada, sente-se 
um pouco, mas sente-se de uma vez.
        
        Lalau sentou-se. A cadeira em que se sentou era uma velha cadeira de espaldar de 
couro lavrado, e pés em arco. Dali, olhava para fora, e o sol, entrando pela janela, vinha 
morrer-lhe aos pés. Para não estar em completo sossego, começou a brincar com os dedos; 
mas cessou logo, quando lhe perguntei, à queima-roupa, se se lembrava da mãe. As feições 
da moça perderam instantaneamente o ar alegre e descuidado; tudo o que havia nelas frívolo 
converteu-se em gravidade e com postura, e a criança desapareceu, para só deixar a mulher 
com a sua saudade filial.
        
        Respondeu-me com uma pergunta. Como podia esquecê-la? Sim, senhor, 
lembrava-se dela, e muito, e rezava por ela todas as noites para que Deus lhe desse o céu. E 
com certeza estava no céu. Era boa como eu não podia imaginar, e ninguém foi nunca tão 
amiga dela, como a defunta. Não negava que Nhãtônia lhe queria muito, e tinha provas 
disso, e assim também as mais pessoas de casa; mas a mãe era outra cousa. A mãe morria por 
ela, e quase se pode dizer que foi assim mesmo, porque apanhou uma constipação, estando 
a tratá-la de uma febre, e ficou com uma tosse que nunca mais a deixou. O doutor negou, 
disse que a morte foi de outra cousa; ela, porém, desconfiou sempre que a doença da mãe 
começou dali. Tão boa que nem quis que ela a visse morrer, para não padecer mais do que 
padecia. Não pôde vê-la morrer, viu-a depois de morta, tão bonita! tão serena! parecia viva!
        
        Aqui levou os dedos aos olhos; eu levantei-me e disse-lhe que mudássemos de 
conversa, que a mãe estava no céu, e que a vontade de Deus era mais que tudo. Lalau 
escutou-me com os olhos parados,-ela que os trazia como um casal de borboletas,-e 
depois de alguns instantes de silêncio, continuou a falar da mãe, mas já não da morte. senão 
da vida, e particularmente da beleza. Não, eu não podia imaginar como a mãe era bonita; até 
parava gente na rua para vê-la. E descreveu-a toda, como podia, mostrando bem que as 
graças físicas da mãe, aos olhos dela, eram ainda uma qualidade moral, uma feição, alguma 
cousa especial e genuína que não possuíram nunca as outras mães.
        
        - Deus que a chamou para si, disse-lhe eu, lá sabe por que é que o fez. Agora 
tratemos dos vivos. Ela está no céu, a senhora está aqui, ao pé de pessoas que a estimam. . .
        
        - Oh! eu dava tudo para tê-la ao pé de mim, na nossa casinha da Cidade Nova! A 
casa era isto,-continuou ela levantando as mãos abertas, diante do rosto, e marcando assim 
o tamanho de um palmo,-ainda me lembro bem, era nada, quase nada,-não tinha lá 
tapetes nem dourados, mas mamãe era tão boa! tão boa! Coitada de mamãe!
        
        - Olhe o sol! disse eu procurando desviar-lhe a atenção.
        
        Com efeito, o sol, que ia subindo, começava a lamber-lhe a barra do vestido. Lalau 
olhou para o chão, quis recuar a cadeira, mas sentindo-a pesada, levantou-se e veio ter 
comigo; pedindo-me desculpa de tanta cousa que dissera, e não interessava a ninguém; e não 
me deu tempo de replicar, porque acrescentou logo outro pedido: - que não contasse nada 
a Nhãtônia.
        
        - Por quê?
        
        - Ela pode acreditar que eu disse isto, por não estar bem aqui, e eu estou muito 
bem aqui, muito bem.
        
        Quis retê-la, mas a palavra não alcançou nada, e eu não podia pegar-lhe nas mãos. 
Deixei-a ir, e voltei às minha notas. Elas é que não voltaram a mim, por mais que tentasse 
buscá-las e transcrevê-las.
        
        Lalau ainda tornou à sala, daí a três ou quatro minutos, para reiterar o último 
pedido; prometi-lhe tudo o que quis. Depois, fitando-me bem, acrescentou que eu era padre, 
e não podia rir dela nem faltar à minha palavra.
        
        - Rir? disse eu em tom de censura.
        
        - Não se zangue comigo, acudiu sorrindo; digo isto porque sou muito medrosa e 
desconfiada.
        
        E, rápida, como passarinho, deixou-me outra vez só. Desta vez não tornei às notas; 
fiquei passeando na longa sala, custeando as estantes, detendo-me para mirar os livros, mas 
realmente pensando em Lalau. A simpatia que me arrastava para ela complicava-se agora de 
veneração, diante daquela explosão de sensibilidade, que estava longe de esperar da parte de 
uma criatura tão travessa e pueril. Achei nessa saudade da mãe, tão viva, após longos anos, 
um documento de grande valor moral, pois a afeição que ali lhe mostravam, e o próprio 
contacto da opulência podiam naturalmente tê-la amortecido ou substituído. Nada disso; 
Lalau daria tudo para viver ao pé da mãe! Tudo? Pensei também no silêncio que me 
recomendou, medrosa de que a achassem ingrata, e este rasgo não me pareceu menos 
valioso que o outro; era claro que ela compreendia as induções possíveis de uma dor que 
persiste, a despeito dos carinhos com que cuidavam tê-la eliminado, e queria poupar aos 
seus benfeitores o amargor de crer que empregavam mal o beneficio.
        
        Pouco depois chegou o Félix. Veio falar-me, disse-me que tinha uma boa notícia, 
que ia mudar de roupa e voltava. Vinte minutos depois estava outra vez comigo, e 
confiava-me o plano de fazer-se eleger deputado.
        
        - Até agora não tinha resolvido nada, mas acho que devo fazê-lo. Sigo a carreira 
de papai. Que lhe parece. Reverendíssimo?
        
        - Parece-me bem. Todas as carreiras são boas, exceto a do pecado. Também eu 
algum tempo, andei com fumaças de entrar na Câmara; mas não tinha recursos nem alianças 
políticas; desisti do emprego. E assim foi bom. Sou antes especulativo que ativo; gosto de 
escrever política, não de fazer política. Cada qual como Deus o fez. O senhor, se sair a seu 
pai, é que há de ser ativo, e bem ativo. A cousa é para breve?
        
        Não me respondeu nada; tinha os olhos fora dali. Mas logo depois, advertido pelo 
silêncio:
        
        - O quê? Ah! não é para já; estou arranjando as cousas. Estive com alguns amigos 
de papel, e parece que há furo. Como sabe há muitos desgostos contra o Regente. . . Se o 
imperador já tivesse a idade de constituição é que era bom; ia-se embora o Regente e o resto. 
. . Pois é verdade, creio que sim. . . Entretanto, nunca tinha pensado nisto seriamente; mas as 
cousas são assim mesmo. . . Que acha?
        
        - Acho que fez bem.
        
        - Em todo o caso, peco-lhe segredo; não diga nada a mamãe.
        
        - Crê que ela se oponha?
        
        -Não; mas. . . pode ser que não se alcance nada, e para lhe não dar uma esperança 
que pode falhar... E só isto.
        
        Era plausível a explicação; prometi-lhe não dizer nada. Creio que falamos ainda de 
política, e da política daqueles últimos dez anos, que não era pouca nem plácida. Félix não 
tinha certamente um plano de idéias, e apreciações originais; através das palavras dele, 
apalpava eu as fórmulas e os juízos do círculo ou das pessoas com quem ele lidava para o 
fim de encetar a carreira. Agora, a particularidade dele era a clareza e retidão de espírito 
precisas para só recolher do que ouvia a parte sã e justa, ou, pelo menos, a porção moderada. 
Nunca andaria nos extremos, qualquer que fosse o seu partido.
        
        -Trabalhou muito hoje? perguntou-me ele quando nos preparávamos para jantar.
        
        - Pouco; tive uma visita.
        
        - Mamãe?
        
        - Não; outra pessoa, Lalau, não é assim que lhe chamam? Esteve aqui uma meia 
hora. Podia estar três ou quatro horas que eu não dava por isso. Muito engraçada!
        
        -Mamãe gosta muito dela, disse ele.
        
        - Todos devam gostar dela; não é só engraçada, é boa, tem muito bom coração. 
Digo-lhe que pus de lado o Imperador, os Andradas, os Sete de Abril, pus tudo de lado para 
ouvi-la falar. Tem cousas de criança, mas não é criança.
        
        - Muito inteligente, não acha?
        
        -Muito.
        
        -De que falaram?
        
        - De mil cousas, talvez duas mil; com ela é difícil contar os assuntos; vai de um 
para outro com tal rapidez que, se a gente não toma cuidado, cai no caminho. Sabe que idéia 
tive aqui, olhando para ela?
        
        -Que foi?
        
        -Casá-la.
        
        -Casá-la? perguntou ele vivamente.
        
        -Casá-la eu mesmo;-ser eu o padre que a unisse ao escolhido do seu coração, 
quando ela o tivesse. . .
        
        Félix não disse nada, sorriu acanhadamente, e, pela primeira vez, suspeitei que as 
intenções do rapaz podiam ser mui outras das que lhe supunha até então, que haveria nele, 
porventura em vez de um marido, um sedutor. Não alcanço exprimir como me doeu esta 
suposição. Ia tanto para a moça, que era já como se fosse minha irmã, o meu próprio sangue, 
que um estranho ia corromper e prostituir. Quis continuar a falar, para escrutar-lhe bem a 
alma; não pude, ele esquivou-se, e fiquei outra vez só. Nesse dia retirei-me um pouco mais 
cedo. D. Antônia achou-me preocupado, eu disse-lhe que tinha dor de cabeça.
        
        As pessoas de meu temperamento entender-me-ão. Bastou que uma idéia se me 
afigurasse possível para que eu a acreditasse certa. Vi a menina perdida. Não houvera ali 
uma agregada, seduzida em 1835, por um saltimbanco, como me dissera D. Antônia? Agora 
não seria um saltimbanco, mas o próprio filho da dona da casa. E assim explicou-se-me a 
teima de D. Antônia em arredar o filho do Rio de Janeiro, comparada com a afeição que 
tinha à menina. Refleti na distancia social que os separava; Lalau era admitida na intimidade 
da família, mas o rapaz, filho de ministro e aspirante a ministro, e mais que tudo filho de 
casa-grande, tendo herdado o sangue do bisavô, tão orgulhoso nas veias da mãe, 
reservar-se-ia para algum casamento de outra laia. Como, porém, ela era bonita, e a natureza 
tem leis diferentes da sociedade, e não menos imperiosas, Félix achara um modo de 
conciliar umas e outras, amando sem casar.
        
        Tudo isso que fica aí em resumo, foram as minhas reflexões do resto do dia, e de 
uma parte da noite. Estava irritado contra o rapaz, temia por ela, e não atinava com o que 
cumpria fazer. Pareceu-me até que não devia fazer nada, ninguém me dava direito de 
presumir intenções e intervir nos negócios particulares de uma família que, de mais a mais, 
enchia-me de obséquios. Isto era verdade; mas, como eu quero dizer tudo, direi um segredo 
de consciência. Entre a verdade daquele conceito e o impulso de meu próprio coração, 
introduzi um princípio religioso, e disse a mim mesmo que era a caridade que me obrigava, 
que no Evangelho acharia um motivo anterior e superior a todas as convenções humanas. 
Esta dissimulação de mim para mim podia calá-la agora, que os acontecimentos lá vão, mas 
não daria uma parte da história que estou narrando, nem a explicaria bem.
        
        Lalau não me saía da cabeça: as palavras dela, suas maneiras, ingenuidade e 
lágrimas acudiram-me em tropel à memória, e davam-me força para tentar dominar a 
situação e desviar o curso dos acontecimentos. No dia seguinte de manhã quis rir de mim 
mesmo e dos meus planos de D. Quixote, remédio heróico, porque é tal a risada do apupo 
que ninguém a tolera ainda em si mesmo; mas não consegui nada. A consciência ficou séria, 
e a contração do riso desmanchou-se diante da sua impassibilidade. Compus cinco ou seis 
planos diferentes, alguns absurdos. O melhor deles era avisar a tia da menina; mas rejeitei-o 
logo por achá-lo odioso. Em verdade, ia dissolver laços íntimos, a título de uma suspeita, que 
apenas podia explicar a mim mesmo. E, se era odioso, não era menos imprudente; podia 
supor-se que eu cedia a um sentimento pessoal e reprovado. Rejeitei da vista esta segunda 
razão, mas atirei-me à primeira, e dei de mão ao plano.
        
        O melhor de tudo, refleti finalmente, é observar e fazer o que puder, segundo as 
circunstâncias, mas de modo que evite estralada.
        
        Tinha de ir almoçar com um padre italiano, no Hospício de Jerusalém, o mesmo 
que me falara da obra florentina, e me dera ocasião de brilhar na Casa Velha. Fui almoçar; 
no fim do almoço, apareceu lá um recém-chegado, um missionário que vinha das partes da 
China e do Japão, e trazia muitas relíquias preciosas. Convidaram-me a vê-las. O 
missionário era lento na ação e derramado nas palavras, de modo que despendemos naquilo 
um tempo infinito, e saí de lá tão tarde que não pude ir nesse dia à Casa Velha. De noite, 
constipei-me, apanhei uma febre, e fiquei cinco dias de cama.
        

       CAPITULO IV
        
         Estava prestes a deixar a cama, quando o Félix me apareceu em casa, pedindo 
desculpa de não ter vindo mais cedo, porque só na véspera soubera da minha doença. 
Trouxe-me visitas da mãe e de Lalau.
        
        - Isto não é nada, disse-lhe eu; e se quer que lhe confesse, até foi bom adoecer 
para descansar um pouco.
        
        - Virgem Maria! Não diga isso.
        
        - Digo, digo. E não só para descansar, mas até para refletir. Doente, que não lê 
nem conversa, nem faz nada, pensa. Eu vivo só, com o preto que o senhor viu. Vem aqui um 
ou outro amigo, raro; passo as horas solitárias, olhando para as paredes, e a cabeça...
        
        - A culpa é sua, interrompeu-me ele; podia ter ido para a nossa casa, logo que se 
sentiu incomodado. É o que devia ter feito. Não imagina mamãe como ficou cuidadosa, 
quando soube que o senhor estava de cama. Queria que eu viesse ontem mesmo, de noite, 
visitá-lo: eu é que disse que podia estar acomodado, e a visita seria antes uma importunação. 
E a sua amiguinha!
        
        - Lalau?
        
        - Ficou branca como uma cera, quando ouviu a notícia; e pediu-me muito que lhe 
trouxesse lembranças dela, que lhe desse conselho de não fazer imprudências,  de não 
apanhar chuva, nem ar, nem nada, para não recair, que as recaídas são piores... Veja lá; se, 
em vez de se meter na cama, aqui em casa, tivesse ido para a nossa Casa Velha, lá teria duas 
enfermeiras de truz, e um leitor, como eu, nada para lhe ler tudo o que quisesse.
        
        -Obrigado, obrigado; agradeço a todos, tanto a elas como ao senhor. Ficará para a 
outra moléstia. E, na verdade, é possível que então não pensasse em nada. . .
        
        - Justo.
        
        - . . . Nem em ninguém. Ah! então Lalau disse isso? Foi exatamente nela que 
estive pensando.
        
        -Como assim?
        
        Ouvi passos e vozes na sala; era o meu preto que trazia um padre a visitar-me. 
Noutra ocasião, é possível que Félix se despedisse e cedesse o lugar ao padre; mas a 
curiosidade valeu aqui ainda mais do que a afeição, e ele ficou. O padre esteve poucos 
minutos, dez ou vinte, neo me lembra, dando-me algumas notícias eclesiásticas, contando 
anedotas de sacristia, que o Félix escutou com grande interesse, talvez aparente, para 
justificar a demora. Afinal, saiu, e ficamos outra vez sós. Não lhe falei logo de Lalau; foi ele 
mesmo que, depois de alguns farrapos de conversação, ditos soltos, reparos sem valor, me 
perguntou o que é que pensara dela. Eu, que os espreitava de longe, acudi à pergunta.
        
        - Estive pensando que essa moça é superior à sua condição, disse eu. A Senhora 
D. Antônia falou-me de outra agregada que, há quatro anos, foi ali seduzida por um 
saltimbanco. Não creio que esta faça a mesma cousa, porque, apesar da idade e do ar pueril, 
acho-lhe muito juízo; creio antes que escolherá marido, e viverá honestamente. Mas é aqui 0 
ponto. O marido que ela escolher pode bem ser da mesma condição que ela, mas muito 
inferior moralmente, e será um mau casamento.
        
        Félix dividia os olhos entre mim e a ponta do sapato. Quando acabei, achou-me 
razão.
        
        - Não lhe parece? perguntei.
        
        -Decerto.
        
        - Bem sei que é esquisito meter-me assim em cousas alheias...
        
        - Nada é alheio para um bom padre como o senhor, disse ele com gravidade.
        
        - Obrigado. Confesso-lhe, porém, que essa moça excitou a minha piedade. Já lhe 
disse: tem cousas de criança, mas não é criança. Entregá-la a um homem vulgar, que não a 
entenda, é fazê-la padecer. Não sei se a Senhora D. Antônia fez bem em apurar tanto a 
educação que lhe deu, e os hábitos em que a faz educar; não porque ela não se acomode a 
tudo, como um bom coração que é, mas porque, apesar disso, há de custar-lhe muito baixar 
a outra vida. Olhe que não é censurar...
        
        - Pelo amor de Deus! sei o que é. Pensa que eu não estou com a sua opinião? 
Estou e muito. Mamãe é que pode ser que não esteja conosco. Já tem pensado em várias 
pessoas, segundo me consta, e de uma delas chegou a falar-me; era o Vitorino, filho do 
segeiro que nos conserta as carruagens. Ora veja!
        
        --Não conheço o Vitorino.
        
        - Mas pode imaginá-lo.
        
        Olhei para ele um instante. Pareceu-me que estava de boa-fé; mas era possível que 
não, e cumpria arrancar-lhe a verdade. Inclinei-me, e disse que já tinha um noivo em vista, 
muito superior ao Vitorino.
        
        -Quem? perguntou ele inquieto.
        
        - O senhor.
        
        Félix teve um sobressalto, e ficou muito vermelho.
        
        - Desculpe-me se lhe digo isto, mas é a minha opinião, e não vale mais que 
opinião. Há grande diferença social entre um e outro, mas a natureza, assim como a 
sociedade a corrige, também às vezes corrige a sociedade. Compensações que Deus dá. 
Acho-os dignos um do outro; os sentimentos dela e os seus são da mesma espécie. Ela é 
inteligente, e o que lhe poderia faltar em educação já sua mãe lho deu. Teria alguma dúvida 
em casar com ela?
        
        Félix estendeu-me a mão.
        
        -Não lhe nego nada, o senhor já adivinhou tudo, disse ele. E continuou, depois de 
haver-me apertado a mão: Que dúvida poderia ter? Ela merece um bom marido, e eu acho 
que não seria de todo mau. Resta ainda um ponto.
        
        -Que ponto?
        
        Hesitou um instante, bateu com a mão nos joelhos duas ou três vezes, olhando para 
mim, como querendo adivinhar as minhas intenções.
        
        - Resta mamãe, disse finalmente.
        
        -Opõe-se?
        
        -Creio que sim.
        
        -Mas não é certo.
        
        -Há de ser certo. Digo-lhe tudo, como se falasse a um amigo velho de nossa casa. 
Mamãe percebeu, como o senhor, que nós gostamos um do outro, e opõe-se. Não o disse 
ainda francamente, mas sinto que, em caso nenhum, consentirá no nosso casamento. Esse 
Vitorino é um candidato inventado para separá-la de mim; e assim outros em que sei que já 
pensou. Estou que Lalau resistirá, mas temo que não seja por muito tempo. . . Não se lembra 
que mamãe já lhe pediu uma vez para levar-me à Europa? Era com o mesmo fim de 
afastar-me, distrair-me, e casá-la.
        
        -Acha isso?
        
        -Com certeza.
        
        -Como explica então que ela continue a ter tanto amor à pequena?
        
        - O senhor não conhece mamãe. E um coração de pomba, e gosta dela como se 
fosse sua filha. Mas coração é uma cousa, e cabeça é outra. Mamãe é muito orgulhosa em 
cousas de família. Seria capaz de velar uma semana ou duas, à cabeceira de Lalau, se a visse 
doente; mas não consentiria em casá-la comigo. São cousas diferentes.
        
        - Devia ser isso mesmo, repliquei alguns instantes depois. E murmurei baixinho 
as palavras que ela ouvira ao avô, no tempo do rei e repetira mais tarde no paço: "Uma 
Quintanilha não trame nunca!"
        
        -Nem treme, nem desce, concluiu o rapaz sorrindo. ~ o sentimento de mamãe.
        
        - Seja como for, nada está perdido; cuido que arranjaremos tudo. Deixe o negócio 
por minha conta.
        
        Tinha o plano feito. Se houvesse reconhecido que as intenções dele eram impuras, 
ajudaria a mãe e trataria de casar a menina com outro. Sabendo que não, ia ter com a mãe 
para arrancar-lhe o consentimento em favor do filho. Três dias depois, voltando à Casa 
Velha, achei nos olhos de Lalau alguma cousa mais particular que a alegria da amiga, achei 
a comoção da namorada. Era natural que ele lhe tivesse contado a minha promessa. Não lho 
perguntei; mas disse-lhe rindo que parecia ter visto passarinho verde. Toda a alma subiu-lhe 
ao rosto, e a moca respondeu com ingenuidade, apertando-me a mão:
        
        -Vi.
        
        Não explico a sensação que tive; lembra-me que foi de incômodo. Essa palavra 
súbita, cordial e franca, encerrando todas as energias do amor, lacerou-me as orelhas como 
uma sílaba aguda que era. Que outra esperava, e que outra queria' senão essa? Não a pedira, 
não vinha interceder por um e por outro? Criatura espiritual e neutra, cabia-me tão-somente 
alegrar-me com a declaração da moça, aprová-la, e santificá-la ante Deus e os homens. Que 
incômodo era então esse? que sentimento espúrio vinha mesclar-se à minha caridade? Que 
contradição? que mistério? Todas essas interrogações surgiram do fundo de minha 
consciência, não assim formuladas, com a sintaxe da reflexão remota e fria, mas sem liame 
algum, vagas, tortas e obscuras.
        
        Já se terá entendido a realidade. Também eu amava a menina. Como era padre, e 
nada me fazia pensar em semelhante cousa, o amor insinuou-se-me no coração à maneira 
das cobras, e só lhe senti a presença pela dentada de ciúme.
        
        A confissão dele não me faz mal; a dela é que me doeu e me descobriu a mim 
mesmo. Deste modo, a causa íntima da proteção que eu dava à pobre moça era, sem o saber, 
um sentimento especial. Onde eles viam um simples protetor gratuito existia um homem que, 
impedido de a amar na terra, procurava ao menos fazê-la feliz com outro. A consciência 
vaga de um tal estado deu-me ainda mais força para tentar tudo.

       CAPITULO V
        
        Falei a dona Antônia no dia seguinte. Estava disposto a pedir-lhe uma conversação 
particular; mas foi ela mesma que veio ter comigo, dizendo que durante a minha moléstia 
tinha acabado umas alfaias, e queria ouvir a minha opinião; estavam na sacristia. Enquanto 
atravessávamos a sala e um dos corredores que ficavam ao lado do pátio central, ia-lhe eu 
falando, sem que ela me prestasse grande atenção. Subimos os três degraus que davam para 
uma vasta sala calçada de pedra, e abobadada. Ao fundo havia uma grande porta, que 
levava ao terreiro e à chácara; à direita ficava a da sacristia, à esquerda outra, destinada a um 
ou mais aposentos, não sei bem.
        
        Naquela sala achamos Lalau e o sineiro, este sentado, ela de pé.
        
        O sineiro era um preto velho e doudo. Não fazia mais que tocar o sino da capela, 
para a missa, aos domingos. O resto do tempo vivia calado ou resmungando. Ninguém lhe 
falava, embora fosse manso. Lalau era a única, entre todos, parentes, agregados ou fâmulos, 
que ia conversar com ele, interrogá-lo, escutá-lo, pedir-lhe histórias. E ele contava-lhe 
histórias -muito compridas, sem sentido algumas, outras quase sem nexo, raminiscências 
vagas e embrulhadas, ou sugestões do delírio.
        
        Era curioso vê-los. Lalau perdia a inquietação; ficava séria e tranqüila, durante dez, 
quinze, vinte minutos, a escutá-lo. O Gira (nunca lhe conheci outro nome) alegrava-se ao 
vê-la. Com a razão, perdera a convivência dos mais. Vivia entregue aos pensamentos 
solitários, mergulhado na inconsciência e na solidão. A moça representava aos olhos dele 
alguma cousa mais do que uma simples criatura, era a sociedade humana, e uma sombra de 
sombra da consciência antiga. Ela, que o sentia, dava-lhe essa curta emersão do abismo, e 
uma ou duas vezes por semana ia conversar com ele.
        
        D. Antônia parou. Não contava com a moca ali, ao pé da porta da sacristia, e queria 
falar-me em particular, como se vai ver. Compreendi-o logo pelo desagrado do gesto, como 
já suspeitara alguma cousa ao vê-la preocupada. No momento em que chegávamos' Lalau 
perguntava ao Gira:
        
        - E depois, e depois?
        
        - Depois, o rei pegou gavião, e gavião cantou.
        
        - Gavião canta?
        
        - Gavião? Uê, gente! Gavião cantou: Calunga, mussanga, monandenguê. . . 
Calunga, mussanga, monandenguê... Calunga...
        
        E o preto dava ao corpo umas sacudidelas para acompanhar a toada africana. Olhei 
para Lalau. Ela, que ria de tudo, não se ria daquilo, parecia ter no rosto uma expressão de 
grande piedade. Voltei-me para D. Antônia; esta, depois de hesitar um pouco, deliberou 
entrar na sacristia, cuja porta estava aberta. Lalau tinha-nos visto, sorriu para nós e 
continuou o falar com o Gira. D. Antônia e eu entramos.
        
        Sobre a cômoda da sacristia estavam as tais alfaias. D. Antônia disse ao preto 
sacristão, que fosse ajudar a descarregar o carro que chegara da roga, e lá a esperasse.
        
        Ficamos sós; mostrou-me duas alvas e duas sobrepelizes; depois, sem transição, 
disse-me que precisava de mim para um grande obséquio. Soube na véspera que o filho 
andava com idéias de ser deputado; pedia-me duas cousas, a primeira é que o dissuadisse.
        
        -Mas por quê? disse-lhe eu. A política foi a carreira do pai, é a carreira principal 
no Brasil. . .
        
        -Vá que seja; mas, Reverendíssimo, ele não tem jeito para a política.
        
        - Quem lhe disse que não? Pode ser que tenha. No trabalho é que se conhece o 
trabalhador; em todo caso,-deixe-me falar com franqueza-acho bom da sua parte que 
procure empregar a atividade em alguma cousa exterior.
        
        D. Antônia sentou-se, e apontou-me para outra cadeira. Ficamos ambos ao pé de 
uma larga janela, que dava para o terreiro. Sentada, declarou que concordava comigo na 
necessidade que apontara, mas ia então ao segundo obséquio, que não era novo; é que o 
levasse para a Europa. Depois da Europa, com mais alguns anos e experiência das cousas, 
pode ser que viesse a ser útil ao seu país...
        
        Interrompi-a nesse ponto. Ela esperou; eu, depois de fitá-la por alguns instantes, 
disse-lhe que a viagem, com efeito, podia ser útil, mas que os costumes do moço eram tão 
caseiros que dificilmente se ajustariam às peregrinações; salvo se adotássemos um 
meio-termo: enviá-lo casado.
        
        - Não se arranja uma noiva com um simples baú de viagem, disse ela.
        
        - Está arranjada.
        
        D. Antônia estremeceu.
        
        - Está aqui perto; é a sua boa amiga e pupila.
        
        
        
        - Quem? Lalau? Está caçoando. Lalau e meu filho? Vossa Reverendíssima está 
brincando comigo. Não vê que não é possível? Casá-los assim como um remédio? Falemos 
de outra cousa.
        
        - Não, minha senhora, falemos disto mesmo.
        
        D. Antônia, que dirigira os olhos para outro lado, quando preferiu as últimas 
palavras, levantou a cabeça de súbito, ao ouvir o que lhe disse. Creio que, depois da morte 
do marido, era a primeira pessoa que lhe fazia frente. Olhou-me espantada. Estava tão 
acostumada a governar ali, naquele mundo insulado, sem contraste nem advertência, que 
não podia crer em seus ouvidos. O Padre Mascarenhas dissera-lhe uma vez, ao almoço, que 
ela era a imperatriz da Casa Velha, e D. Antônia sorriu lisonjeada, com a idéia de ser 
imperatriz em algum ponto da terra. Não batia com o cetro em ninguém, mas estimava saber 
que lho reconheciam.
        
        Pela minha parte, curvei-me respeitoso, mas insisti que falássemos daquele mesmo 
assunto, para resolvê-lo de uma vez.
        
        -Resolver o quê? perguntou ela alçando desdenhosamente o lábio superior.
        
        -Não percamos tempo em dizer cousas sabidas de nós ambos, continuei. Eles 
gostam um do outro. Esta é a verdade pura. Resta saber se poderão casar, e é aqui que não 
acho nem presumo nenhuma razão que se oponha. Não falo de seu filho, que é um moço 
digno a todos os respeitos. Falemos dela. Diga-me o que é que lhe acha?
        
        Não quis responder; eu continuei o que dizia, lembrei a educação que ela lhe dera, 
o amor que lhe tinha, e principalmente falei das virtudes da moça, da delicadeza dos seus 
sentimentos, e da distinção natural, que supria o nascimento. Perguntei-lhe se, em verdade, 
acreditava que o Vitorino, filho do segeiro... D. Antônia estremeceu.
        
        -Vejo que está informado de tudo, disse ela depois de um breve instante de 
silêncio. Conspiram contra mim. Bem; que quer de mim Vossa Reverendíssima? Que meu 
filho case com Lalau? Não pode ser.
        
        - E por que não pode ser?
        
        -Realmente, não sei que idéias entraram por aqui depois de 31. São ainda 
lembranças do Padre Feijó. Parece mesmo achaque de padres. Quer ouvir por que razão não 
podem casar? porque não podem. Não lhe nego nada a respeito dela; é muito boa menina, 
dei-lhe a educação que pude, não sei se mais do que convinha, mas, enfim, está criada e 
pronta para fazer a felicidade de algum homem. Que mais há de ser? Nós não vivamos no 
mundo da lua, Reverendíssimo. Meu filho é meu filho, e, além desta razão, que é forte, 
precisa de alguma aliança de família. Isto não é novela de príncipes que acabam casando 
com roceiras, ou de princesas encantadas. Faça-me o favor de dizer com que cara daria eu 
semelhante notícia aos nossos parentes de Minas e de S. Paulo?
        
        -Pode ser que a senhora tenha razão; é achaque de padre, é achaque até de Nosso 
Senhor Jesus Cristo, que nasceu nas palhas.. .
        
        -Sim, senhor; mas nesse caso que mal há em casar com o Vitorino? Filho de 
segeiro não é gente? Diga-me! Para que ela case com meu filho, Nosso Senhor nasceu nas 
palhas; mas para que case com o Vitorino, já não é a mesma cousa... Diga-me!
        
        -Mas, Senhora D: Antônia. . .
        
        -Qual! disse ela levantando-se, e indo até à porta que dava para a capela, e depois 
à outra de entrada da sacristia; espiou se nos ouviram, e voltou.
        

Casa Velha - Machado de Assis - Capa 2

        
        Voltando, deu alguns passos sem dizer nada, indo e vindo, desde a porta até à 
parede do fundo, onde pendia uma imagem de Nossa Senhora, com uma coroa de ouro na 
cabeça, e estrelas de ouro no manto. D. Antônia fitou durante alguns momentos a imagem 
como para defender-se a si mesma. A Virgem coroada, rainha e triunfante, era para ela a 
legítima deidade católica, não a Virgem foragida e caída nas palhas de um estábulo. Estava 
como até então não a tinha visto. Geralmente, era plácida, e alguma vez impassível; agora, 
porem, mostrava-se ríspida e inquieta, como se a natureza rompesse as malhas do costume. 
A pupila abrasava-se de uma flama nova; os movimentos eram súbitos e não sei se 
desconcertados entre si. Eu, da minha cadeira, ia-a acompanhando com os olhos, a princípio 
arrependido de ter falado, mas vencendo logo depois esse sentimento de desanimo, e 
disposto a ir ao fim. Ao cabo de poucos minutos, D. Antônia parou diante de mim.- Quis 
levantar-me; ela pôs-me a mão no ombro, para que ficasse, e abanou a cabeça com um ar de 
censura amiga.
        
        - Para que me falou nisso? pergunta logo depois com doçura. Conheço que fala 
por ser amigo de um e de outro, e da nossa casa. . .
        
        -Pode crer, pode crer.
        
        -Creio, sim. Então eu não vejo as cousas? Tenho notado que é amigo nosso. Ela 
principalmente, parece tê-lo enfeitiçado. . . Não precisa ficar vermelho; as moças também 
enfeitiçam os padres quando querem que eles as casem com os escolhidos do coração delas. 
Que ela merece, é verdade; mas daí a casar é muito. Venha cá, prosseguiu ela sentando-se, 
vamos fazer um acordo. Eu cedo alguma cousa, o senhor cede também, e acharemos um 
modo de combinar tudo. Confesso-lhe um pecado. A escolha do Vitorino era filha de um 
mau sentimento; era um modo, não só de os separar, mas até de a castigar um pouco. 
Perdoe-me, Reverendíssimo; cedi ao meu orgulho ofendido. Mas deixemos o Vitorino; 
convenho que não é digno dela. E bom rapaz, mas não está no mesmo grau de educação que 
dei a Lalau. Vamos a outro; podemos arranjar-lhe empregado do foro, ou mesmo pessoa de 
negócio... Em todo caso, não seja contra mim; ajude-me antes a arranjar esta dificuldade que 
surgiu aqui em casa . . .
        
        - Desde quando?
        
        -Sei lá! desde meses. Desconfiei que se namoravam, e tenho feito o que posso, 
mas vejo que não posso muito.
        
        - Entretanto, continua a recebê-la.
        
        - Sim, para vigiá-la. Antes a quero aqui que fora daqui.
        
        - Não é então porque a estima?
        
        - E também porque a estimo. Infelizmente, porque a estimo. Quem lhe disse que 
não gosto dela, e muito? Mas meu filho é outra cousa; entrar na família é que não.
        
        D. Antônia, tirou o lenço do bolso, para esfregar as mãos, tornou a guardá-lo, e 
reclinou-se na cadeira, enquanto eu lhe fui respondendo. Conquanto fosse muito mais baixa 
que eu, dera um jeito tão superior na cabeça que parecia olhar de cima.
        
        Fui respondendo o que podia e cabia, com boas palavras, mostrando em primeiro 
lugar a inconveniência de os deixar namorados e separados: era fazê-los pecar ou padecer. 
Disse-lhe que o filho era tenaz, que a moça provavelmente não teimaria em desposá-lo, 
sabendo que era desagradável à sua benfeitora, mas também podia dar-se que o desdém a 
irritasse, e que a certeza de dominar o coração de Félix lhe sugerisse a idéia de o roubar à 
mãe. Acrescia a educação, ponto em que insisti, a educação e a vida que levava, e que lhe 
tornariam doloroso passar às mãos de criatura inferior. Finalmente,-e aqui sorri para lhe 
pedir perdão, - finalmente, era mulher, e a vaidade, insuportável nos homens, era na 
mulher um pecado tanto pior quanto lhe ficava bem; Lalau não seria uma exceção do sexo. 
Herdar com o marido o prestígio de que gozava a Casa Velha acabaria por lhe dar força e 
fazê-la lutar. Aqui parei; D. Antônia não me respondeu nada, olhava para o chão.
        
        Como estávamos de costas para a janela, e ficássemos calados algum tempo, 
fomos acordados do silêncio pela voz de Lalau que vinha do lado do terreiro. Voltamos a 
cabeça; vimos a moça repreendendo a dous moleques, crias da casa, que puxavam pela 
casaca ao sineiro, uma velha casaca que o Félix lhe dera alguns dias antes. O sineiro, 
resmungando sempre, atravessou o terreiro, tomou à direita para o lado da frente da capela, 
e desapareceu: Lalau pegou na gola da camisa de uma das crias e na orelha da outra, e 
impediu que elas fossem atrás do pobre-diabo.
        
        Olhei para D. Antônia, a fim de ver que impressão lhe dera o ato da moça. Mal 
começava a fitá-la, reparei que franzia a testa, não sei até se empalidecia; tornando a olhar 
para fora, tive explicação do abalo. Vi o filho de D. Antônia ao pé da moça; acabava de 
chegar ao grupo. Lalau explicava-lhe naturalmente a ocorrência; Félix escutava calado, 
sorrindo, gostando de vê-la assim compassiva, e afinal, quando ela acabou, inclinou-se para 
dizer alguma cousa aos moleques. Vimo-o depois pegar em um destes, e aproximá-lo de si, 
enquanto a moça ficou com o segundo; e, posto esse pretexto entre eles, começaram a falar 
baixinho.
        
        D. Antônia recuou depressa, para que não a vissem. Creio que era a primeira vez 
que eles lhe apresentavam semelhante quadro. Recuou levantando-se, e foi para o lado da 
cômoda; eu continuei a observá-los. Não se podia ouvir-lhes nada, mas era claro que 
falavam de si mesmos. As vezes a boca interrompia os salmos, que ia dizendo, para deixar a 
antífona aos olhos; logo depois recitava o cântico. Era a eterna aleluia dos namorados.
        
        Violentei-me, não tirei a vista do grupo; precisava matar em mim mesmo, pela 
contemplação objetiva da desesperança, qualquer má sugestão da carne. Olhei para os dous, 
adivinhei o que estariam dizendo, e, pior ainda, o que estariam calando, e que se lhes podia 
ler no rosto e nas maneiras. Lalau era agora mulher apenas, sem nenhuma das cousas de 
criança que a caracterizavam na vida de todas as horas. Com as mãos no ombro do moleque, 
ora fitava os olhos na carapinha deste, ouvindo somente as palavras de Félix; ora erguia-os 
para o moço, a fim de o mirar calada ou falando. Ele é que olhava sempre para ela atento e 
fixo.
        
        Entretanto, D. Antônia aproximara-se outra vez da janela, por trás de mim, e de 
mais longe, confiada na obscuridade da sacristia. Voltei-me e disse-lhe que a nossa 
espionagem era de direito divino, que o próprio céu nos aparelhara aquela indiscrição. D. 
Antônia, em geral avessa às subtilezas do pensamento, menos que nunca podia agora 
penetrá-las; pode ser até que nem me ouvisse. Continuou a olhar para os dous, ansiosa de os 
perceber, aterrada de os adivinhar.
        
        - Uma cousa há de conceder, disse-lhe eu, há de conceder que eles parecem ter 
nascido um para o outro. Olhe como se falam. Veja os modos dela, a dignidade, e ao mesmo 
tempo a doçura; ele parece até que quer fazer esquecer que é o herdeiro da casa. Não sei até 
se lhe diga uma cousa; digo se me consentir. . .
        
        D. Antônia voltou os olhos a mim com um ar interrogativo e complacente.
        
        - Digo-lhe que, se alguém trocasse os papéis, e a desse como sua filha, e a ele 
como o advogado da casa, ninguém poria nenhuma objeção.
        
        D. Antônia afastou-se da janela, sem dizer nada; depois tornou a ela, curiosa, 
interrogando a fisionomia dos dous. No fim de alguns minutos, não tendo esquecido as 
minhas últimas palavras, redargüiu com ironia e tristeza:
        
        - Advogado? Creio que é muito; diga logo cocheiro.
        
        Fiz um gesto de pesar. E pedi-lhe que me desculpasse o estilo pinturesco da 
conversação; não queria dizer senão que a dignidade da moça fá-la-ia supor dona da casa, 
ao passo que as maneiras respeitosas dele, que tão bem lhe iam, poderiam fazê-lo crer outra 
cousa; mas outra cousa educada, notasse bem. D. Antônia ouvia-me distraída e inquieta, 
olhando para fora e para dentro; e quando afinal os dous separaram-se, indo ele para o lado 
da frente da capela, que comunicava com o caminho público, e ela para a parte oposta, a fim 
de entrar em casa, D. Antônia sentou-se na cadeira em que estivera antes, e respirou à larga. 
Abanou a cabeça duas ou três vezes, e disse-me sem olhar para mim:
        
        - Não tenho de que me queixar; a culpa é toda minha.
        
        De repente, voltou a cabeça para 0 meu lado e fitou-me. Tinha as feições um tanto 
alteradas, como que iluminadas, e esperei que me dissesse alguma cousa, mas não disse. 
Olhou, olhou, recompôs a fisionomia e levantou-se.
        
        - Vamos.
        
        Não obedeci logo; imaginei que ela acabava de achar algum estratagema para 
cumprir a sua vontade, e confessei-lho sem rebuço, porque a situação não comportava já 
dissimular. D. Antônia respondeu que não, não achara nem buscará nada, e convidou-me a 
sair. Insisti no receio, acrescentando que, se cogitava dar um golpe, melhor seria avisar-me, 
para que os dissuadisse, e não fossem eles apanhados de supetão. D. Antônia ouviu sem 
interromper, e não replicou logo, mas daí a alguns segundos, com palavras não claras e 
seguidas, senão ínvias e dúbias. Contava comigo ao lado dela, desde que soubesse a 
verdade. . . mas que a apoiasse já. . . depois.. . então. . .
        
        - A verdade? repeti eu. Que verdade?
        
        -Vamos embora.
        
        -Diga-me tudo, a ocasião é única, estamos perto de Deus. . .
        
        D. Antônia estremeceu ouvindo esta palavra, e deuse pressa em sair da sacristia; 
levantei-me e saí também. Achei-a a dous passos da porta, disse-me que ia ver os aposentos 
fronteiros, porque contava com hóspedes da roga, e foi andando; eu desci os degraus de 
pedra, atravessei o pátio da cisterna, e recolhi-me à biblioteca. Recolhi-me alvoroçado. Que 
verdade seria aquela, anunciada a fugir, tal verdade que me faria trocar de papel, desde que 
eu a conhecesse? Cumpria arrancar-lha, e a melhor ocasião ia perdida.
        
       CAPÍTULO VI
        
        No dia seguinte  fui mais cedo para a Casa Velha, a fim de chegar antes dos 
hóspedes que D. Antônia esperava da roga, mas já os achei lá; tinham chegado na véspera, 
às ave-marias. Um deles, o Coronel Raimundo, estava na varanda da frente, conheceu-me 
logo, e veio a mim para saber como ia a história de Pedro I. Sem esperar pela resposta, disse 
que podia dar-me boas informações. Conhecera muito o imperador. Assistira à dissolução 
da Constituinte, por sinal que estava nas galerias, durante a
        
        sessão permanente, e ouviu os discursos do Montezuma e dos outros, comendo 
pão e queijo, à noite, comprados na Rua da Cadeia; uma noite dos diabos.
        
        - Vossa Reverendíssima vai escrever tudo? -Tudo o que souber.
        
        - Pois eu lhe darei alguma cousa.
        
        Começamos a passear ao longo da varanda grande. Egoísmo de letrado! A 
esperança de alguns documentos e anedotas para o meu livro pôs de lado a principal questão 
daqueles dias; entreguei-me à conversação do coronel. Já sabemos que era parente da casa; 
era irmão de um cunhado do marido de D. Antônia, e fora muito amigo e familiar dele. 
Falamos cerca de meia hora; contou-me muita cousa do tempo, algumas delas arrancadas 
por mim, porque ele nem sempre via a utilidade de um episódio.
        
        -Oh! isso não tem interesse!
        
        -Mas diga, diga, pode ser, insistia eu.
        
        Então ele contava o que era, uma visita, uma conversa, um dito, que eu recolhia de 
cabeça, para transpô-lo ao papel, como fiz algumas horas depois. Raimundo foi-se sentindo 
lisonjeado com a idéia de que eu ia imprimir o que me estava contando, e desceu a minúcias 
insignificantes, casos velhos, e finalmente às anedotas dele mesmo, e às partes da sua vida 
militar.
        
        - Nhãtônia, disse ele vendo entrar a parenta na varanda, este seu padre sabe onde 
tem a cabeça.
        
        D. Antônia fez um gesto afirmativo e seco, mas logo depois, para me não molestar, 
redargüiu sorrindo que sim, que tanto sabia onde tinha a cabeça como o coração. Lalau e as 
duas filhas do coronel vieram de fora, veio de dentro uma senhora idosa, arrastando um 
pouco os pés, e dando o braço a uma moça alta e fina.
        
        - Ande para aqui, baronesa, disse-lhe D. Antônia.
        
        Apresentaram-me às suas damas. Soube que a baronesa era avó da moça que a 
acompanhava. Eram esperadas do Pati do Alferes dez ou doze dias depois; mas vieram antes 
para assistir à festa da Glória. Foi o que me constou ali mesmo pela conversação dos 
primeiros minutos. A baronesa sentara-se de costas para uma das colunas, na cadeira rasa 
que lhe deram, ajudada pela neta, que a acomodou minuciosamente. Observei-a por alguns 
instantes. Os dous cachos brancos e grossos, pelas faces abaixo, eram da mesma cor da 
touca de cambraia e rendas, os olhos eram castanhos e não inteiramente apagados; lá tinham 
seus momentos de fulgor, principalmente se ela falava em política.
        
        - Sinhazinha, o livro? perguntou ela à neta.
        
        -Está aqui, vovó.
        
        -E o mesmo da outra vez, Nhãtania?
        
        Era a mesma novela que lera quando ali esteve um ano antes, e queria reler agora: 
era o Saint Clair das lhas ou os Desterrados na Ilha da Barra. Meteu a mão no bolso e tirou os 
óculos, depois a caixa de rapé, e pôs tudo no regaço. Raimundo, passeando a mão pela 
barba, disse rindo:
        
        -Bem, as senhoras vão conversar e nós vamos a um solo. Valeu, 
Reverendíssimo?
        
        Fiz um gesto de complacência.
        
        -Félix é um parceirão, e Nhãtônia também; mas vamos só os três. Nunca jogou 
com o Félix? Vai ver o que ele é, fino como trinta diabos; lá na roga dá pancada em todo 
mundo. Aquilo sai ao pai. Se algum dia entrar na Câmara, creia que há de fazer um figurão, 
como o pai, e talvez mais. E olhe que acho tudo pouco para dar em terra com a tal Regência 
do Sr. Pedro de Araújo Lima. . .
        
        -Lá vem o coronel com as suas idéias extravagantes, acudiu a velha baronesa 
abrindo a caixa de rapé, e oferecendo-me  uma pitada, que recusei. Acha que o Araújo Lima 
vai mal? Preferia o seu amigo Feijó?
        
        Raimundo replicou, ela treplicou, enquanto eu voltava a atenção para Sinhazinha, 
que, depois de ter acomodado a avó, fora sentar-se com as outras moças.
        
        Sinhazinha era o oposto de Lalau. Maneiras pausadas, atitudes longamente quietas; 
não tinha nos olhos a mesma vida derramada que abrangia todas as cousas e recantos, como 
os olhos da outra. Bonita era, e a elevação do talhe delgado dava-lhe um ar superior a todas 
as demais senhoras ali presentes, que eram medianas ou baixinhas, com exceção de Lalau, 
que ainda assim era menos alta que ela. Mas essa mesma superioridade era diminuída pela 
modéstia da pessoa, cujo acanhamento, se era natural, aperfeiçoara-se na roga. Não olhou 
para mim quando chegou, nem ainda depois de sentar-se. Usava as pálpebras caídas, ou, 
quando muito, levantava-as para fitar só a pessoa com quem ia falando. Como o pescoço era 
um tantinho alto demais, e a cabeça vivia erecta, aquele gesto podia parecer afetação. Os 
cabelos eram o encanto da avó, que dizia que a neta era a sua alemã, porque eles tendiam a 
ruivo; mas, além de ruivos, eram crespos, e, penteados e atados ao desdém, davam-lhe muita 
graça.
        
        Gastei nesse exame não mais de dous a três minutos. Depois, indo a compará-la 
melhor com Lalau, vi que esta fazia igual exame sorrateiramente. Não era a primeira vez que 
a via, era a segunda ou terceira, desde que Sinhazinha perdera o pai e a mãe e viera do Rio 
Grande do Sul para a fazenda da avó; não a viu no ano anterior, quando ela ali esteve. e 
cuido que lhe achava alguma diferença para melhor.
        
        - Reverendíssimo, vamos? disse-me o coronel, acabando de replicar à baronesa.
        
        - Lá, já. Onde está o parceiro?
        
        - Havemos de achá-lo. Nhãtônia, ele terá saído?
        
        D. Antônia respondeu negativamente. Estaria vendo as bastas, que vieram da roga, 
ou o cavalo que comprara na véspera. E descreveu o cavalo, a pedido do coronel, 
chegando-se ao mesmo tempo para o lado da Sinhazinha. Chegando a esta parou, pôs-lhe 
uma das mãos na cabeça, e com a outra levantou-lhe o queixo, para mirá-la de cima.
        
        - Ai, Nhãtônia! disse a moca. Está me afogando.
        
        D. Antônia fez-lhe uma careta de escárnio, inclinou-se e beijou-lhe a testa com 
tanta ternura, que me deu ciúmes pela outra. E sentou-se entre elas todas, e todas lhe fizeram 
grande festa. Raimundo calara-se para mirar a cena, porque ele queria muito às filhas, e 
gostava devê-las acariciadas também. Nisto ouvimos passos na sala contígua, e daí a nada 
entrava na varanda o filho de D. Antônia.
        
        - Ora, viva! bradou o coronel. Estávamos à espera de você para um solo.
        
        - Vá, vá, acudiu a baronesa, levantando os olhos do livro. O coronel está ansioso 
por jogar, e é uma fortuna, porque veio da roga insuportável, e não me deixa ler... Então 
você comprou um cavalo?
        
        Curtos eventos, palavras sem interesse, ou apenas curiosas que me não 
consolavam da interrupção a que era obrigado no cometimento voluntário que empreendera; 
mas naquele dia não foi essa a minha pior impressão. Fomos dali para a mesa do jogo, em 
uma sala que ficava do outro lado, ao pé da alcova do Félix. O coronel, contando os tentos, 
disse-nos que a baronesa estava com idéias de casar com a neta, conquanto ainda não tivesse 
noivo; era uma idéia. Parece que sentia-se fraca, receava morrer sem vê-la casada; foi o que 
ele ouviu dizer aos Rosários de Iguaçu, que eram muito da intimidade dela, e até parentes. 
Depois, rindo para o Félix.
        
        - Ali está um bom arranjo para você.
        
        -Ora! rosnou o rapaz.
        
        - Ora quê? retorquiu o coronel encarando-o, enquanto baralhava e dava as cartas. 
Repito que era um bom arranjo; eu acho-a bem bonita, acho-a mesmo (tape os ouvidos, 
Reverendíssimo!) acho-a um peixão. O pai educou-a muito bem; e depois duas fazendas, 
pode-se até dizer três, mas uma delas tem andado para trás. Duas grandes fazendas, com 
setecentas cabeças, ou mais; terra de primeira qualidade; muita prata... Não há outro 
herdeiro . . .
        
        - Solo! interrompeu o moço.
        
        Ambos passamos; ele jogou e perdeu. Não tinha jogo, foi um modo de interromper 
o discurso do parente. Mas o coronel era daqueles que não esquecem nada, e daí a pouco 
tornou ao assunto, para dizer que ele, apesar de achacado, se a moça quisesse, tomá-la-ia por 
esposa; e logo rejeitou a idéia. Não, não podia ser, estava um cangalho velho, não era mais 
quem dantes fora, no tempo do rei, e ainda depois. E vinha já uma aventura de 1815, quando 
o parente, em respeito a mim, disse-lhe que jogasse ou íamos embora.. .
        
        Pela minha parte, estava aborrecido. A opinião do coronel, relativamente à 
conveniência de casar o parente com Sinhazinha, e as mostras de ternura de D. Antônia para 
com esta, fizeram-me crer que podia haver alguma cousa em esboço; mas, ainda que nada 
houvesse, Raimundo, expansivo como era, chegaria a insinuá-lo à parente. Era uma solução. 
Ignoro se Félix também desconfiava a mesma cousa; é, todavia, certo que jogou distraído e 
calado,- durante alguns minutos,-o que faz com que o coronel nos dissesse de repente 
que estávamos no mundo da lua, que não viera da roga para ficar casmurro, e que, ou 
jogássemos ou ele ia às francesas da Rua do Ouvidor.
        
        Ainda uma vez, Félix atalhou a imaginação libertina do tio. Para desviá-lo dali, 
falou de outros atrativos, de um prestidigitador célebre cujo nome enchia então a cidade, e 
que inteiramente me esqueceu, de bailes de máscaras e teatros. Contou-lhe o enredo dos 
dramas que andavam então em cena, e aludiu a certa farsa, que divertira muito o coronel, na 
última vez que viera da roga. Raimundo tinha a alma ingenuamente crédula para as ficções 
da poesia; ouvia-as como quem ouve a noticia de uma facada. Não era mau homem, e era 
excelente pai; disse logo que não perderia nada, e levaria ao teatro as suas candongas. Assim 
chamava às filhas.
        
        Jogamos até perto da hora de jantar. Enquanto eles iam à cavalariça, ver os animais 
chegados, dirigi-me para a sala principal, onde achei D. Mafalda, a tia da Lalau, que vinha 
buscá-la para ir com ela às novenas da Glória; a moça voltaria depois da festa. Pareceu-me 
que Lalau ia obedecer constrangido; e, por outro lado, não ouvi nenhuma objeção da parte 
de D. Antônia. Só estavam as três; as hóspedas da roga tinham-se recolhido por alguns 
instantes. Raimundo e Félix entraram pouco depois, o primeiro convidando-me a ir passear 
com ele e o sobrinho, a cavalo.
        
        - Mas, se eu não sei montar. . .
        
        - Não diga isso! Então vamos nós dous continuou voltando-se para o sobrinho. 
Vai Nhãtônia...
        
        - Eu não.
        
        - . . . Vai Sinhazinha. Sinhazinha é cavaleira de traz.
        
        Outra vez este nome! A gente como eu, quando receia alguma cousa, faz derivar ou 
afluir para ela os mais alheios incidentes e as mais casuais circunstâncias. Fui acreditando 
que o coronel era efetivamente um desbravador, e a temer que o Félix não resistisse por 
muito tempo à oferta de uma noiva distinta e graciosa, e da riqueza que viria com ela. Olhei 
para ele; vi-o falando com a tia de Lalau.
        
        - Valeu? perguntou-lhe o coronel de longe.
        
        - Hoje, não. Bem, amanhã, depois do almoço.
        
        - A senhora não perde as novenas da Glória, disse Félix a Mafalda.
        
        - É minha devoção antiga; e gosto de ir com Lalau, por causa da mãe, que também 
era muito devota de Nossa Senhora da Glória. Lembra-se, Nhãtônia? Mas deixe estar, no dia 
16 estamos cá.
        
        - Não, interrompeu Félix, venham jantar no dia da Glória; venham de manhã. 
Temos missa na capela, e que diferença há entre a missa cantada e a rezada? Não é, 
Reverendíssimo?
        
        Fiz um gesto de assentimento. D. Antônia, porem, mordeu o lábio inferior, e não 
teve tempo de intervir, porque a tia da moça concordou logo em trazê-la no dia 15 de manhã. 
Lalau agradeceu-lhe com os olhos. Não obstante a disposição do moço, fiquei receoso. Ao 
jantar, acharam-me preocupado; respondi somente que eram remorsos de ter gasto o melhor 
do dia ao jogo, em vez de ficar ao trabalho, e anunciei a D. Antônia que, em breve tempo, 
teria concluído as pesquisas. Caindo a tarde, Lalau e a tia despediram-se, e eu ofereci-me 
para acompanhá-las. Não era preciso: D. Antônia mandara aprontar a sege.
        
        - Nhãtônia quer dar-se sempre a esses incômodos, disse agradecendo Mafalda.
        
        - Eu não, redargüiu D. Antônia rindo, as incomodadas são as bastas.
        
        A sege, em vez de as tomar ao pé da porta que ficava por baixo da sala dos livros, 
veio recebê-las diante da varanda, onde nos achávamos todos. O constrangimento de Lalau 
era já manifesto. Se preferia a mãe a tudo, como me dissera uma vez, cuido que preferia D. 
Antônia e a Casa Velha à companhia da tia; acrescia agora a presença de hóspedes, a 
variedade de vida que eles traziam à Casa Velha; finalmente, pode ser também, sem 
afirmá-lo, que tivesse receios idênticos aos meus. Despediu-se penosamente. D. Antônia, 
embora lhe fosse adversa, é certo que ainda a amava, deu-lhe a mão a beijar, e, vendo-a ir, 
puxou-a para si, e beijou-a na cara uma e muitas vezes.
        
        - Cuidado, nada de travessuras! disse-lhe.
        
        Tia e sobrinha desceram os degraus da varanda, e quando eu ia ajudá-las a entrar na 
sege, atravessou-me o filho da dona da casa, que deu a mão a uma e outra, cheio de respeito 
e graça.
        
        - Adeus, Nhãtônia! disse a moça metendo a cabeça entre as cortinas de couro da 
sege, e fechando-as, depois de dizer-me adeus com os olhos.
        
        EU, que estava no topo da escada, correspondi-lhe igualmente com os olhos, e 
voltei para as outras pessoas, enquanto a sege ia andando, e o moço subia os degraus.
        
        - Nhãtônia, disse o coronel rindo, este seu filho dava para camarista do paço.
        
        D. Antônia, escandalizada, tinha entre as sobrancelhas uma ruga, e olhou sombria 
para o filho. Quero crer que este incidente foi a gota que fez entornar do espírito de D. 
Antônia a singular determinação que vou dizer.
        
        
       CAPITULO VII
       
        Era na  varanda na manhã seguinte. Quando ali cheguei, dei com D. Antônia só, 
passeando de um para outro lado; a baronesa recolhera-se, e os outros tinham saído a cavalo, 
depois de alguma espera para que eu os visse; mas cheguei tarde; por que é que não fui mais 
cedo?
        
        - Não pude: estive sabendo as más notícias que vieram do Sul.
        
        - Sim? perguntou ela.
        
        Contei-lhe o que havia, acerca da rebelião; mas os olhos dela, despidos de 
curiosidade, vagavam sem ver, e, logo que o percebi. parei subitamente. Ela, depois de 
alguma pausa:
        
        - Ah! então os rebeldes...
        
        Repetiu a palavra, murmurou outras, mas sem poder vinculá-las entre si, nem 
dar-lhes o calor que só o real interesse possui. Tinha outra rebelião em casa, e, para ela, a 
crise doméstica valia mais que a pública. E natural, pensei comigo; e tratei de ir aos meus 
papéis. Ao pedir-lhe licença, vi-a olhar para mim, calada, e reter-me pelo pulso.
        
        - lá? disse finalmente.
        
        - Vou ao trabalho.
        
        D. Antônia hesitou um pouco; depois, resoluta:
        
        -Ouça-me!
        
        Respondi que estava às suas ordens, e esperei.
        
        D. Antônia passou a mão pelos olhos, sacudiu a cabeça, e perguntou-me se não 
suspeitava alguma causa absoluta de impedimento entre o filho e Lalau.
        
        -Causa absoluta?
        
        - Sim, murmurou ela, a medo, baixando e erguendo os cílios, como 
envergonhada.
        
        Confesso que a suspeita de que Lalau era filha dela acudiu-me ao espírito, mas 
varri-a logo por absurda; adverti que ela o diria antes à própria moça do que a nenhum 
homem, ainda que padre. Não, não era isso. Mas então o que era? Tive outra suspeita, e 
pedi-lhe que me dissesse, que me explicasse...
        
        - Está explicado.
        
        - Seu marido. . . ?
        
        D. Antônia fez um gesto afirmativo, e desviou os olhos. Tinha a cara que era um 
lacre. Quis ir para dentro, mas recuou, deu alguns passos até o fim da varanda, voltou, e foi 
sentar-se na cadeira que ficava mais perto, entre duas portas; apoiou os braços nos joelhos, 
a cabeça nas mãos, e deixou-se estar. Eu, espantado, não achava nada que dissesse, nada, 
cousa nenhuma; olhava para 0 ladrilho, à toa; e assim ficamos por um longo trato de tempo. 
Acordou-nos um moleque, vindo pedir uma chave à senhora, que lhe deu o molho delas, e 
ficou ainda sentada, mas sem pousar a cabeça nas mãos. A expressão do rosto não era 
propriamente de tristeza ou de resignação, mas de constrangimento, e pode ser também que 
de ansiedade; e não fiz logo esse reparo, mas depois, recapitulando as palavras e os gestos. 
Fosse como fosse, não me passou pela idéia que aquele impedimento moral e canônico 
podia ser um simples recurso de ocasião.
        
        
        
        Caminhei para ela, estendi-lhe as mãos, ela deu-me as suas, e apertando-lhas, 
disse-lhe que não devia ter ajuntado à fatalidade do nascimento o favor das circunstâncias; 
não devia tê-los levado, pelo descuido, ao ponto em que estavam, para agora separá-los 
irremediavelmente. D. Antônia murmurou algumas palavras de explicação: -acanhamento, 
confiança, esperança, a idéia de casá-la com outro, a de mandar o filho à Europa.. . As mãos 
tremiam-lhe um pouco; e, talvez por tê-lo sentido, puxou-as e cruzou os braços.
        
        - Bem, disse-lhe eu, agora é separá-los.
        
        -Custa-me muito, porque eu gosto dela. Eduquei-a como filha.
        
        -E urgente separá-los.
        
        -Aqui é que Vossa Reverendíssima podia prestar-me um grande obséquio. Não 
me atrevo a fazer nada; não sei mesmo o que poderia fazer. Vossa Reverendíssima, que os 
estima, e creio que me estima também, é que acharia algum arranjo. Meu filho está resolvido 
a ir por diante; mas a sua intervenção. . . Posso contar com ela?
        
        -Tem sido excessiva a minha intervenção. Vim receber um obséquio, e acho-me 
no meio de um drama. Era melhor que me tivesse limitado a recolher papéis.
        
        -Não diga mais nada; acabou-se. Demais, um padre não se pode arrepender do 
beneficio que tentou fazer. A intenção era generosa; mas o que lá vai, lá vai. Agora é dar-nos 
remédio. Será tão egoísta que me não ajude? Não tenho outra pessoa; o coronel é um 
estonteado... E depois, por mim só, não faço nada... Ajude-me.
        
        D. Antônia falava baixinho, com medo de que nos ouvissem; chegou a levantar-se 
e ir espiar a uma das portas, que davam para a sala. Não julguei mal da precaução, que era 
natural; e, quando ela, voltando a mim, parou e interrogou-me de novo, respondi-lhe que 
precisava equilibrar-me primeiro; a revelação atordoara-me. Aqui desviou os olhos.
        
        - Não é sangria desatada, acrescentei. Lalau está fora por alguns dias; pensarei 
lentamente. Que a ajude? Hei de ser obrigado a isso, agora que a situação mudou. Se não dei 
causa ao sentimento que os liga, é certo que o aprovei, e estava pronto a santificá-lo. A 
senhora foi muito imprudente.
        
        - Confesso que foi.
        
        - Vai agora desgraçá-los.
        
        D. Antônia faz com a boca um gesto, que podia parecer meio sorriso, e era 
tão-somente expressão de incredulidade. Traduzido em palavras, quer dizer que não admitia 
que a separação dos dous pudesse trazer-lhes nenhum perpétuo infortúnio. Tendo casado 
por eleição e acordo dos pais, tendo visto casar assim todas as amigas e parentas, D. Antônia 
mal concebia que houvesse, ao pé deste costume, algum outro natural e anterior. Cuidava a 
princípio que a sua vontade bastava a compor as cousas; depois, não logrando mais que 
baralhá-las, cresceu-lhe naturalmente a irritação, e afinal criou medo; mas, supôs sempre 
que o efeito da separação não passaria de algumas lágrimas.
        
        - Amanhã ou depois falaremos, disse-lhe.
        
        Fui dali aos livros. Ao entrar na sala deles, parei diante do retrato do ex-ministro, e 
mirei por alguns instantes aquela boca, que me parecera lasciva, desde que a vi pela primeira 
vez. E disse comigo, olhando para ele:
        
        - Estás morto. Gozaste e descansas; mas eis aqui os frutos podres da 
incontinência; e são teus próprios filhos que vão tragá-los.
        
        Estava irritado, dava-me ímpeto de quebrar alguma cousa. Sentei-me, levantei-me, 
fui à janela e acabei passeando ao longo da sala, com os pensamentos dispersos e confusos. 
Os livros, arranjados nas estantes, olhavam para mim, e talvez comentavam a minha 
agitação com palavras de remoque, dizendo uns aos outros que eles eram a paz e a vida, e 
que eu padecia agora as consequências de os haver deixado, para entrar no conflito das 
cousas. Nem por sombras me acudiu que a revelação de D. Antônia podia não ser 
verdadeira, tão grave era a cousa e tão austera a pessoa. Não adverti sequer na minha 
cumplicidade. Em verdade, eu é que proferi as palavras que ela trazia na mente; se me tenho 
calado, chegaria ela a dizê-las? Pode ser que não; pode ser que lhe faltasse animo para 
mentir. Tocado de malícia, o coração dela achou na minha condescendência um apoio, e 
falou pelo silêncio. Assim vai a vida humana: um nada basta para complicar tudo.
        
        Meia hora depois, ou mais, ouvi rumor do lado de fora, cavalos que chegavam 
lentamente: eram os passeadores. Fui à janela. Uma das filhas do coronel vinha na frente 
com o pai; a outra e Sinhazinha seguiam logo, com o rapaz entre elas. Félix falava a 
Sinhazinha, e esta ouvia-me olhando para ele, direitamente, sem blocos, como na varanda; 
era talvez o cavalo que restituía à rio-grandense a posse de si mesma e a franqueza das 
atitudes. Todo entregue a um acontecimento, subordinei a ele os outros, e concluí da 
familiaridade dos dous que bem podiam vir a amar-se. Sinhazinha escutava com atenção, 
cheia de riso, pescoço teso, segurando as rédeas na mão esquerda, e dando com a ponta do 
chicotinho, ao de leve, na cabeça do cavalo.
        
        -Reverendíssimo, bradou parando embaixo da janela o coronel, os farrapos 
invadiram Santa Catarina, entraram na Laguna, e os legais fugiram. Eu, se fosse o governo, 
mandava fuzilar a todos estes para escarmento. . .
        
        Já os pajens estavam ali, à porta, com bancos para as moças, apearam-se todos e 
subiram. Daí a alguns minutos Raimundo e Félix entravam-me pela sala, arrastando as 
esporas. Raimundo creio que ainda trazia o chicote; não me lembra. Lembra-me que disse ali 
mesmo, agarrando-me nos ombros, uma multidão de cousas duras contra Bento Gonçalves, 
e principalmente contra os ministros, que não prestavam para nada, e deviam sair. O melhor 
de tudo era logo aclamar o imperador. Dessem-lhe cinqüenta homens,-vinte e cinco que 
fossem,-e se ele em duas horas não pusesse o imperador no trono, e os ministros na rua, 
estava pronto a perder a vida e a alma. Uns lesmas! Tudo levantado, tudo sublevado, ao 
Norte e ao Sul. . . Agora parece que iam mandar tropas, e falava-se no General Andréa para 
comandá-las. Tudo remendos. Sangue novo é o que se precisava. . . Parola, muita parola.
        
        Bufava o coronel; o sobrinho para aquietá-lo, metia alguma palavra, de quando em 
quando, mas era o mesmo que nada, se não foi pior. irritado com as interrupções, bradou-lhe 
que, se o pai fosse vivo, as cousas andariam de outro modo.
        
        -Aquele não era paz d'alma, disse o coronel apontando para o retrato. Fosse ele 
vivo! Não era militar, como sabe,-continuou olhando para mim,-mas era homem às 
direitas. Veja-me bem aqueles olhos, e diga-me se ali não há vida e força de vontade. . . Um 
pouco velhacos, é certo, acrescentou galhofeiramente.
        
        - Tio Raimundo! suplicou Félix.
        
        -Velhacos, repito, não digo velhacos para tratantadas, mas para amores; era 
maroto com as mulheres,- prosseguiu rindo e esquecendo inteiramente a rebelião. Eu, 
quando Vossa Reverendíssima mudar de cara, e trouxer outra mais alegre, hei de contar-lhe 
algumas aventuras dele. . . Veja aqueles olhos! E não imagina como era gamenho, 
requebrado...
        
        Félix saiu neste ponto; eu fui sentar-me à escrivaninha; o coronel não continuou o 
assunto, e foi deitar-se. Não me procurou mais até a hora do jantar; naturalmente porque o 
sobrinho o impediu de vir perturbar-me na pesquisa dos papéis, como se eu tivesse papéis na 
cabeça. Maroto com as mulheres. Esta palavra retiniu ali por muito tempo. Maroto com as 
mulheres! Tudo se me afigurava claro e evidente.
        
       CAPITULO VIII
        
        Não podia hesitar muito. Deixei de ir três dias à Casa Velha; fui depois, e convidei 
o Félix a vir jantar comigo no dia seguinte. Jantamos cedo, e fomos dali ao Passeio Público, 
que ficava perto de minha casa. No Passeio, disse-lhe:
        
        -Sabe que sou seu amigo?
        
        -Sei, respondeu ele franzindo a testa.
        
        -Não se aflija; o que lhe vou dizer é antes bem que mal. Sei que estima sua mãe; 
ela o merece, não só por ser mãe, como porque, se alguma cousa faz que parece contrariá-lo, 
não o faz senão em benefício seu e da verdade.
        
        Félix tornou a franzir a testa.
        
        -Adivinho que há alguma cousa difícil de dizer que me há de mortificar. Vamos, 
diga depressa.
        
        -Digo já, ainda que me custe. E creia que me custa, mas é preciso, esqueça aquela 
moça. Não me olhe assim; imagina talvez que estou finalmente nas mãos de sua mãe.
        
        -imagino.
        
        -Antes fosse isso, porque então o senhor não atenderia a um nem a outro, e 
casaria, se lhe conviesse.
        
        - E por que não farei isso mesmo?
        
        - Não pode ser; não pode casar, esqueça-a, esqueça-a de uma vez para sempre. 
Deus é que o não quer, Deus ou o diabo, porque a primeira ação e do diabo; mas esqueça-a 
inteiramente. Seu pai foi um grande culpado. . .
        
        Aqui ele pediu-me, aflito, que lhe contasse tudo. Custou-me, mas revelei-lhe a 
confidência da mãe. A impressão foi profunda e dolorosa, mas o sentimento do pudor e da 
religião pôde serená-la depressa. Quis prolongar a conversação; ele não o quis, não podia, e 
achei natural que não pudesse; pouco falou, distraído ou absorto, e despediu-se dali a alguns 
minutos.
        
        Não foi para casa, como soube depois; foi andar, andar muito, revolvendo na 
memória as duras palavras que lhe disse. Só entrou em casa depois de oito horas da noite, e 
recolheu-se ao quarto. A mãe estava aflita: pressentira a minha revelação, e receou alguma 
imprudência; provavelmente arrependeu-se de tudo; Certo é que, logo que soube da chegada 
do filho, foi ter com ele; Félix não lhe disse nada, mas a expressão do rosto mostrou a D. 
Antônia o estado da alma. Félix queixou-se de dor de cabeça, e ficou só.
        
        Foi ele mesmo que me contou tudo isso, no dia seguinte, indo a minha casa. 
Agradeceu-me ainda uma vez, mas queixou-se do singular silêncio da mãe. Expliquei-lho, a 
meu modo; era natural que lhe custasse a revelação, e não a fizesse antes de tentar qualquer 
outro meio.
        
        -Seja como for, estou curado, disse ele. A noite fez-me bem. O sentimento que 
essa menina me inspirou converteu-se agora em outro, e creia que pela imaginação já me 
acostumei a chamá-la irmã; creia mais que acho nisto um sabor particular, talvez por ser 
filho único.
        
        Apertei-lhe a mão, aprovando. Confesso que esperava menos pronta 
conformidade. Cuidei que tivesse de assistir a muito desespero, e até lágrimas. Tanto 
melhor. Ele, depois de alguns instantes, consultou-me se acharia prudente revelar tudo à 
moça; também eu já tinha pensado nisso, e não resolvera nada. Era difícil; mas não achava 
modo de não ser assim mesmo. Depois de algum exame, assentamos de não dizer nada, 
salvo em último caso.
        
        Os dias que se seguiram foram naturalmente de constrangimento. Os hóspedes de 
D. Antônia notaram alguma cousa na família, que não era habitual; e a baronesa resolveu 
voltar para a fazenda, logo depois da festa da Glória. Sinhazinha é que não sei se reparou em 
alguma cousa; continuava a ter os mesmos modos do primeiro dia. A idéia de casá-la com o 
filho de D. Antônia entrou a parecer-me natural, e até indispensável. Conversei com ela; vi 
que era inteligente, dócil e meiga, ainda que fria; assim parecia, ao menos. Casaria com ele, 
ou com outro, à vontade da avó. No dia 15, devia ir Lalau para a casa, e eu, que o sabia, lá 
não fui, apesar do convite especial que tivera para jantar. Não fui, não tive animo de ver o 
primeiro encontro da alegria expansiva e ruidosa da moça com a frieza e o afastamento do 
rapaz. Deixei de lá ir cinco dias; apareci a 20 de agosto.
        
       CAPITULO IX
        
        No dia 20 achei, com efeito, tudo mudado, Lalau, e triste, Félix retraído e seco. Este 
veio contar-me o que se passara, e acabou dizendo que o estado moral da menina pedia a 
minha intervenção. Pela sua parte não queria mudar de maneiras com ela, para não entreter 
um sentimento condenado; não ousava também dar-lhe notícia da situação nova. Mas eu 
podia fazê-lo, sem constrangimento, e com vantagem para todos.
        
        -Não sei, disse eu depois de alguns instantes de reflexão; não sei. . . Sua mãe?
        
        -Mamãe está perfeitamente bem com ela; parece até que a trata com muito mais 
ternura. Não lhe dizia eu? Mamãe é muito amiga dela.
        
        - Não lhe terá dito nada?
        
        -Creio que não.
        
        E depois de algum silêncio:
        
        - Nem lho diria ela mesma. Há confissões difíceis de fazer a outros, e impossíveis 
a ela; digo fazê-las diretamente à pessoa interessada. Vamos lá; tire-nos desta situação 
duvidosa.
        
        -Bem; verei. Não afirmo nada, verei.
        
        Estávamos na sala dos livros; Lalau apareceu à porta. Parou alguns instantes, 
depois veio afoutamente a mim, expansiva e ruidosa, mas de propósito, por pirraça; verão 
que não me falava com a atenção em mim, mas dispersa, e olhando de modo que pudesse 
apanhar os gestos do rapaz. Este não dizia nada; olhava para os livros. Lalau perguntou-me 
o que era feito de mim, por onde tinha andado, se era ingrato para ela, se esquecia; 
afirmando que também estava disposta a esquecer-me, e já tinha um padre em vista, um 
cônego, tabaquento, muito feio, cabeça grande. Tudo isso era dito por modo que me doía, e 
devia doer a ele também; certo é que ele não se demorou muito na sala; foi até a janela, por 
alguns instantes; depois disse-me que ia ver os cavalos e saiu.
        
        Lalau não pôde mais conter-se; logo que ele saiu, deixou-se cair numa cadeira, ao 
canto da sala, e rompeu em lágrimas. A explosão atordoou-me, corri para ela, peguei-lhe nas 
mãos, ela pagou nas minhas, disse que era desgraçada, que ninguém mais lhe queria, que 
tinha padecido muito naquele dia, muito, muito... Nunca falamos do sentimento que a 
acabrunhava agora; mas não foi preciso começar por nenhuma confissão.
        
        - Não compreendo nada, dizia ela; sei só que sofro, que choro, e que me vou 
embora. Por quê? Sabe que há?
        
        Não lhe dei resposta.
        
        - Ninguém sabe nada, naturalmente, continuou ela. Quem sabe tudo já lá vai 
caminhando para a roça. Devia ser assim mesmo; eu não valho nada, não sou nada, não 
tenho avó baronesa, sou uma agregadazinha.. . Mas então por que enganar-me tanto tempo? 
Para caçoar comigo?
        
        E chorava outra vez, por mais que eu defronte dela, em pé, lhe dissesse que não 
fizesse barulho, que podiam ouvir; ela, porém, durante alguns minutos não atendia a nada. 
Quando cansou de chorar, e enxugou os olhos, estava realmente digna de lástima. A 
expressão agora era só de dor e de abatimento; desaparecera a indignação da moça obscura 
que se vê preterida por outra de melhor posição. Sentei-me ao lado dela, disse-lhe que era 
preciso ter paciência, que os desgostos eram a parte principal da vida; os prazeres eram a 
exceção; disse-lhe tudo o que a religião lhe poderia lembrar para obter que se resignasse. 
Lalau ouvia com os olhos parados, ou olhando vagamente; às vezes interrompia com um 
sorriso. Urgia contar-lhe tudo; mas aqui confesso que não achava palavras. Era grave a 
notícia; o efeito devia ser violento, porque, conquanto ela cuidasse estar abandonada por 
outra, a esperança lá se aninharia nalgum recanto do coração, e nada está perdido enquanto 
o coração espera alguma cousa. Mas a notícia da filiação era decisiva.
        
        Não sabendo como dizê-lo, prossegui na minha exortação vaga. Ela, que a 
princípio ouvia sem interesse, olhou de repente para mim, e perguntou-me se realmente 
estava tudo perdido. Vendo que lhe não dizia nada:
        
        -Diga, por esmola, diga tudo.
        
        - Vamos lá, sossegue...
        
        - Não sossego, diga.
        
        - Enquanto não sossegar não digo nada. Escute, Deus escreve direito por linhas 
tortas. Quem sabe o que estaria no futuro?
        
        -Não entendo; diga.
        
        Em verdade, não se podia ser menos hábil, ou mais atado que eu. Não ousava dizer 
a cousa, e não fazia mais que aguçar o desejo de a ouvir. Lalau instou ainda comigo, 
pegou-me nas mãos, beijou-mas, e esse gesto faz-me mal, muito mal. Ergui-me, dei dous 
passos, e voltei dizendo que, não agora, por estar tão fora de si, mas depois lhe contaria tudo, 
tudo, que era uma cousa grave. . .
        
        - Grave? Diga-me já, já.
        
        E pegou-se a mim, que lhe dissesse tudo, jurava não contar nada a ninguém, se era 
preciso guardar segredo; mas não queria ignorar o que era. Não me dava tempo; se eu abria 
a boca para adiar, interrompia-me que não, que havia de ser logo, logo; e falava-me em 
nome de Deus, de Nossa Senhora, e perguntava-me se era assim que dizia ser padre.
        
        - Promete ouvir-me quieta?
        
        - Prometo, disse ela depressa, ansiosa, pendendo-me dos olhos.
        
        - É bem grave o que lhe vou dizer.
        
        - Mas diga.
        
        Peguei-lhe na mão, e levei-a para defronte do retrato do finado conselheiro. Era 
teatral o gesto, mas tinha a vantagem de me poupar palavras; disse-lhe simplesmente que ali 
estava alguém que não queria: o pai de ambos. Lalau empalideceu, fechou os olhos e ia a 
cair; pude sustê-la a tempo.
        
        Lalau tinha o sentimento das situações graves. Aquela era excepcional. Não me 
disse nada, depois da minha revelação, não me faz pergunta nenhuma; apertou-me a mão e 
saiu.
        
        Dous dias depois foi para casa da tia, a pretexto de não sei que negócio de família, 
mas realmente era uma separação. Fui ali vê-la; achei-a abatida. A tia falou-me em 
particular; perguntou-me se houvera alguma cousa em casa de D. Antônia; a sobrinha, 
interrogada por ela, respondera que não; quis ir à Casa Velha, mas foi a própria sobrinha que 
a dissuadiu, ou antes que lhe impôs que não fosse.
        
        - Não houve nada, foi a sua última palavra. O que há é que é tempo de viver em 
nossa casa, e não na casa dos outros. Estou moça. preciso de cuidar da minha vida.
        
        D.. Mafalda não achava própria esta razão. A sobrinha era tão amiga da Casa 
Velha, e a família de D. Antônia queria-lhe tanto, que não se podia explicar daquele modo 
uma retirada tão repentina. Nunca lhe ouvira o menor projeto a tal respeito. Acresce que, 
desde que viera, andava triste, muito triste...
        
        Todas essas reflexões eram justas; entretanto, para que ela não chegasse a ir à Casa 
Velha, disse-lhe que a razão dada por Lalau, se não era sincera, era em todo caso boa. 
Pensava muito bem querendo vir para casa; eram pobres; ela devia acostumar-se à vida 
pobre, e não à outra, que era abundante e larga, e podia criar-lhe hábitos perigosos.
        
        Nada lhe disse a ela mesma, nem era possível; falamos juntos os três na sala de 
visitas, que era também a de trabalho. Lalau procurou disfarçar a tristeza, mas a indiferença 
aparente não chegou a persuadir-me; concluí
        
        que o amor lhe ficara no coração, a despeito do vínculo de sangue, e tive horror à 
natureza. Não foi só a natureza. Continuei a aborrecer a memória do homem, causa de tal 
situação e de tais dores.
        
        Na Casa Velha fui igualmente discreto. D. Antônia não me perguntou o que se 
passara com elas, nem com o filho, e pela minha parte não lhe disse nada. O que ela me 
confiou, dias depois, é que a viagem de Félix à Europa era já desnecessária; cuidava agora 
de casá-lo; falou-me claramente nos seus projetos relativos a Sinhazinha. Parecera-lhe a 
escolha excelente; eu inclinei-me, aprovando.
        
        Passaram-se muitos dias. O meu trabalho estava no fim. Tinha visto e revisto 
muitos papéis e tomara muitas notas. O coronel voltou à Corte no meado de setembro; vinha 
tratar de umas escrituras. Notou a diferença da caça, onde faltava a alegria da moça, e 
sobrava a tristeza ou alguma cousa análoga do sobrinho. Não lhe disse nada; parece que D. 
Antônia também não.
        
        Félix passava uma parte do dia comigo, sempre que eu ali ia; falava-me de alguns 
planos relativamente a indústrias, ou mesmo a lavoura, não me lembra bem; provavelmente, 
era tudo misturado, nada havia nele ainda definido; lembramo-nos que já andara com idéias 
de ser deputado. O que ele queria agora era fazer alguma cousa que o aturdisse, que lhe 
tirasse a dor do recente desastre. Neste sentido, aprovava-lhe tudo.
        
        Pareceu-me que o tempo ia fazendo algum efeito em ambos. Lalau não ria ainda, 
nem tinha a mesma conversação de outrora; começava a apaziguar-se. Ia ali muita vez, às 
tardes; ela agradecia-me evidentemente a fineza. Não só tinha afeição, como achava na 
minha pessoa um pedaço das outras feições, da outra casa e do outro tempo. Demais, era-me 
grata, posto que o destino me tivesse feito portador de más novas, e destruidor de suas mais 
íntimas esperanças.
        
        A idéia de casá-la entrou desde logo no meu espírito; e nesse sentido falei à tia, que 
aprovou tudo, sem adiantar mais nada. Não conhecia o Vitorino, filho do segeiro, e 
perguntei-lhe que tal seria para marido.
        
        - Muito bom, disse-me ela. Rapaz sério, e tem alguma cousa por morte do pai.
        
        - Tem alguma educação?
        
        - Tem. O pai até queria fazê-lo doutor, mas o rapaz é que não quis; disse que se 
contentava com outra cousa; parece que está escrevente de cartório... escrevente não sei 
como se diz... mentado... paramentado . . .
        
        - Juramentado
        
        - Isso mesmo.
        
        -Bem, se puder falar com ela... sem dizer tudo... assim a modo de indagação...
        
        -Verei; deixe estar.
        
        Dias depois, D. Mafalda deu-me conta da incumbência: a sobrinha nem queria 
ouvir falar em casar. Achava o Vitorino muito bom noivo, mas o seu desejo era ficar 
solteira, trabalhar em costura, para ajudar a tia e não depender de ninguém; mas casar nunca.
        
        Esta conversa trouxe-me a idéia de ponderar a D. Antônia que, uma vez que Lalau 
era filha de seu marido, ficava-lhe bem fazer uma pequena doação que a resguardava da 
miséria. D. Antônia aceitou a lembrança sem hesitar. Estava tão contente com o resultado 
obtido, que podia fazê-lo. Confessou-me, porém, que o melhor de tudo seria, feita a doação, 
passados os tempos, e casado o filho, voltar a menina para a Casa Velha. Tinha grandes 
saudades dela; não podia viver muito tempo sem a sua companhia. Repeti a última parte a 
Lalau que a escutou comovida. Creio até que ia a brotar-lhe uma lágrima; mas reprimiu-a 
depressa, e falou de outra cousa.
        
        Era uma terça-feira. Na quarta, devia eu ultimar os meus trabalhos na Casa Velha, 
e restituir os papéis, quando fiz um achado que transtornou tudo.
        

       
       CAPITULO X
        
        Estava recolhendo tudo, quando dei por falta de uma nota tomada naquele dia; não 
era fácil reproduzir a nota, pois não a havia tirado de uma só página nem de um só livro, mas 
de muitos livros diferentes. O caso aborreceu-me; procurei o papel atabalhoadamente; 
depois recomecei com cuidado. Abria os livros com que trabalhara nesse dia, um por um, 
mas não achava nada. Vim achar a nota, depois, ao pé da grade da janela, prestes a cair.
        
        Entre os livros que folheei, procurando, achava-se um relatório manuscrito, que eu 
lera apenas em parte, não o tendo feito na que continha tão-somente a transcrição de 
documentos públicos. Pegando no livro pela lombada, e agitando-o para fazer cair a nota, se 
ali estivesse, vi que efetivamente caía um papelinho.
        
        Vinha dobrado, e vi logo que era por letra do ex-ministro. Podia ser alguma cousa 
interessante, para os meus fins. Era um trecho de bilhete a alguma mulher, cujo nome não 
estava ali, e referia-se a uma criança, com palavras de tristeza. Podiam ser outros amores; 
podiam ser os próprios amores da mãe de Lalau. Hesitei em guardar o papel, e cheguei a 
pô-lo dentro das folhas do relatório; mas tornei a tirá-lo, e guardei-o comigo.
        
        Reli-o em casa; dizia esse trecho do bilhete, que provavelmente nunca foi acabado 
nem remetido:
        
        Tenha confiança em mim, e ouça o que lhe digo. Não faca baralho, sossegue e não 
fale sempre no meu nome. Venha cá o menos que puder; e não pense mais no anjinho. Deus 
é bom.
        
        Não achava nada que me explicasse cousa nenhuma; mas insisti em guardá-lo. De 
noite pensei que o bilhote podia relacionar-se com a família da Lalau; e, como nunca tivesse 
dito à tia desta o motivo que a separara da Casa Velha, resolvi pedir-lhe uma conferência, e 
contá-lo.
        
        Pedi-lhe a conferência no dia seguinte, e obtive-a no outro, muito cedo, enquanto 
Lalau dormia. Não hesitei em ir logo ao fim. Contei-lhe tudo, menos o amor da sobrinha e do 
filho de D. Antônia, que ela, antes, fingia ignorar. D. Mafalda ouviu-me pasmada, curiosa, 
querendo por fim que lhe dissesse se D. Antônia ficara irritada com a descoberta.
        
        -Não, perdoou tudo.
        
        - Então por que houve logo esta separação?
        
        Hesitei na resposta.
        
        - Entendo, disse ela, entendo.
        
        Vi que sabia tudo; mas não se consternou por isso. Ao contrário, disse-me 
alegremente que, se não era mais que essa a causa da separação, tudo estava remediado.
        
        - Conto-lhe tudo, disse-me ela no fim de alguns instantes. Não diria nada em 
outras circunstâncias, nem sei mesmo se diria alguma cousa a outra pessoa.
        
        D. Mafalda confirmou os amores da cunhada; mas o ex-ministro via-a pela 
primeira vez, quando eles vieram da roga, tinha Lalau três meses. Não era absolutamente o 
pai da menina. Compreende-se o meu alvoroço: pedi-lhe todas as circunstâncias de que se 
lembrasse, e ela referiu-as todas. e todas eram a confirmação da notícia que acabava de dar; 
datas, pessoas, acidentes, nada discordava da mesma versão. Ela própria apelou para os 
apontamentos da freguesia onde nascera, a menina, e para as pessoas do lugar, que me 
diriam isto mesmo. Pela minha parte, não queria outra cousa, senão o desaparecimento do 
obstáculo e a felicidade das duas criaturas. De repente, lembrou-me do trecho do bilhete que 
tinha comigo, e disse-lhe que, em todo caso, mal se podia explicar a crença em que estava D. 
Antônia; havia por força uma criança.
        
        -Houve uma criança, interrompeu-me D. Mafalda; mas essa morreu com poucos 
meses.
        
        Tinha o bilhete na algibeira, tirei-o e reli-o; estas palavras confirmavam a versão da 
morte: "não pense mais no anjinho..."
        
        D. Mafalda contou-me então a circunstância do nascimento da criança, que viveu 
apenas quatro meses; depois, referiu-me a longa história da paixão da cunhadas que ela 
descobriu um dia, e que a própria cunhada lhe confiou mais tarde, em ocasião de desespero.
        
        Tudo parecia-lhe claro e definitivo; restava agora repor as cousas no estado 
anterior. Mas, ao pensar nisso, adverti que, transmitida esta versão a D. Antônia, ouviria as 
razões que ela teria para a sua, e combiná-las-ia todas. Fui à Casa Velha, e pedi a D. Antônia 
que me desse também uma conferência particular. Desconfiada, respondeu que sim, e foi na 
sala dos livros, enquanto Félix estava fora, que lhe contei o que acabava de saber.
        
        D. Antônia escutou-me a princípio curiosa, depois ansiosa, e afinal atordoada e 
prostrada. Não compreendi esse efeito; acabei, disse-lhe que a Providência se encarregara de 
levar o fruto do pecado, e nada impedia que o casamento do filho com a moça o fizesse 
esquecer a todos. Mas D. Antônia, agitada, não podia responder seguidamente. Não 
entendendo esse estado, pedi que mo explicasse.
        
        D. Antônia negou-me tudo a princípio, mas acabou confessando o que ninguém 
poderia então supor. Ela ignorava os amores do marido; inventara a filiação de Lalau, com o 
único fim de obstar ao casamento. Confessou tudo, francamente, alvoroçada, sem saber de 
si. Creio que, se repousasse por algumas horas, não me diria nada; mas apanhada de supetão, 
não duvidou expor os seus atos e motivos. A razão é que o golpe recebido fora profundo. 
Vivera na fé do amor conjugal; adorava a memória do marido, como se pode fazer a uma 
santa de devoção íntima. Tinha dele as maiores provas de constante fidelidade. Viúva, mãe 
de um homem, vivia da felicidade extinta e sobreviveste, respeitando morto o mesmo 
homem que amara vivo. E vai agora uma circunstância fortuita mostra-lhe que, inventando, 
acertara por outro modo, e que o que ela considerava puro na terra trouxera em si uma 
impureza.
        
        Logo que a primeira comoção passou, D. Antônia disse-me com muita dignidade 
que o passado estava passado, que se arrependia da invenção, mas enfim estava meia 
punida. Era preciso que o castigo fosse inteiro; e a outra parte dele não era mais que unir os 
deus em casamento. Opôs-se por soberba; agora, por humildade, consentia em tudo.
        
        D. Antônia, dizendo isto, forcejava por não chorar, mas a voz trêmula indicava que 
as lágrimas não tardavam a vir; lágrimas de vencida, duas vezes vencida,- no orgulho e no 
amor. Consolei-a, e pedi-lhe perdão.
        
        - De quê? perguntou ela.
        
        - Do que fiz. Creia que sinto o papel desastrado que o destino me confiou em 
tudo isto. Agora mesmo, quando vinha alegre, supondo consertar todas as cousas, 
conserto-as com lágrimas.
        
        -Não há lágrimas, disse D. Antônia esfregando os olhos.
        
        Daí a nada estava tranqüila, e pedia-me que acabasse tudo. Não podia mais tolerar 
a situação que ela mesma criara; tinha pressa de afogar na afeição sobrevivente algumas 
tristezas novas. Instou comigo para que fosse ter com a moça naquele mesmo dia, ou no 
outro, e que a trouxesse para a Casa Velha, mas depois de saber tudo; pedia também que me 
incumbisse de retificar a revelação feita ao filho. Ela, pela sua parte, não podia entrar em tais 
minúcias; eram-lhe penosas e indecentes. Esta palavra faz-me, creio eu, empalidecer; ela 
apressou-se em explicá-la; não me encarregava de cousa indigna, mas pouco ajustada entre 
um filho e sua mãe. Era só por isso.
        
        Aceitei a explicação e a incumbência. Não me demorei muito em pôr o filho na 
confidência da verdade, contando-lhe os últimos incidentes, e a face nova da situação. Félix 
ouviu-me alvoroçado; não queria crer, inquiria uma e muitas vezes se a verdade era 
realmente esta ou outra, se a tia da moça não se enganara, se a nota achada. . . Mas eu 
interrompi-o confirmando tudo.
        
        -E mamãe?
        
        -Sua mãe?
        
        -Naturalmente, já sabe. . .
        
        Hesitei em dizer-lhe tudo o que se passara entre mim e ela; era revelar-me a 
invenção da mãe, sem necessidade. Respondi-lhe que sabia tudo, porque mo dissera, que 
estava enganada, e estimara o desengano.
        
        Tudo parecia caminhar para a luz, para o esquecimento, e para o amor. Após tantos 
desastres que este negócio me trouxera, ia enfim compor a situação, e tinha pressa de o fazer 
e de os deixar felizes. Restava Lalau; fui lá ter no dia seguinte.
        
        Lalau notou a minha alegria; eu, sem saber por onde começasse, disse-lhe que 
efetivamente tinha uma boa noticia. Que notícia? Contei-lha com as palavras idôneas e 
castas que a situação exigia. Acabei, referi o que se passara com D. Antônia, o pedido desta, 
a esperança de todos. Ela ouviu ansiosa,-a princípio, aflita,-e no fim, quando soube a 
verdade retificada, deixou cair os olhos e não me respondeu.
        
        -Vamos, senhora, disse-lhe; o passado está passado.
        
        Lalau não se moveu. Como eu instasse, abanou a cabeça; instando mais, respondeu 
que não, que nada estava alterado, a situação era a mesma. Espantado da resposta, pedi-lhe 
que ma explicasse; ela pagou da minha mão, e disse-me que não a obrigasse a falar de 
cousas que lhe doíam.
        
        - Que lhe dóem?
        
        - Falemos de outra cousa.
        
        Confesso que fiquei exasperado; levantei-me, mostrei-me aborrecido e ofendido. 
Ela veio a mim, vivamente, pediu-me desculpa de tudo. Não tinha intenção de ofensa, não 
podia tê-la; só podia agradecer tudo o que fizera por ela. Sabia que a estimava muito.
        
        -Mas não compreendo. . .
        
        - Compreende, se quiser.
        
        - Venha explicar-se com a sua velha amiga; ela lhe dirá que estimou muito não ser 
verdadeira a sua primeira suposição.
        
        - Para ela, creio.
        
        - E para todos.
        
        -Para mim, não. Seja como for, não poderia casar-me com o filho do mesmo 
homem que envergonhou minha família. . . Perdão; não falemos nisto.
        
        Olhei assombrado para ela.
        
        -Essa palavra é de orgulho, disse-lhe no fim de alguns instantes.
        
        - Orgulho, não; eu não sei que cousa é orgulho. Sei que nunca estimei tanto a 
ninguém como a minha mãe. Não lhe disse isso mesmo uma vez? Gostava muito de mamãe; 
era para mim na terra como Nossa Senhora no céu. E esta santa tão boa como a outra, esta 
santa é que. . . Não; perdoe-me. Orgulho? Não é orgulho; é vergonha; creia que estou muito 
envergonhada. Sei que era estimada na Casa Velha; e seria ali feliz, se pudesse sê-lo; mas 
não posso, não posso.
        
        -Reflita um pouco.
        
        - Está refletido.
        
        -Reflita ainda uma noite ou duas; virei amanhã ou depois. Repare que a sua 
obstinação pode exprimir, relativamente à memória de sua mãe, uma censura ou uma 
afronta...
        
        Lalau interrompeu-me; não censurava a mãe; amava-a tanto ou mais que dantes. E 
concluiu dizendo que, por favor, não falássemos mais de tal assunto. Respondi-lhe que 
ainda lhe falaria uma vez única; pedi-lhe que refletisse. Contei tudo a D. Mafalda, e 
disse-lhe que na minha ausência, trabalhasse no mesmo sentido que eu.
        
        -Tudo deve voltar ao que era; eles gostam muito um do outro; D. Antônia 
estima-a como filha; o passado é passado. Cuidemos agora do presente e do futuro.
        
        Lalau não cedeu nada à tia, nem a mim. Não cedeu nada ao filho de D. Antônia, 
que a foi visitar, e a quem não pôde ver sem comoção, e grande; mas resistiu. Afinal, oito 
dias depois, D. Antônia mandou aprontar a sege, e foi buscá-la.
        
        - Uma vez aqui, verá que arranjamos tudo, disse-lhe ela.
        
        Entrava já no espírito de D. Antônia um pouco de amor-próprio ofendido com a 
recusa. Lalau parece que a princípio não a quis acompanhar; nunca soube nem deste ponto, 
mas é natural que fosse assim. Consentiu, finalmente, e foi por um só dia; jantou lá e voltou 
às ave-marias.
        
        Voltei à casa delas, e instei novamente, ou só com ela, ou com a tia; ela 
mantinha-se no mesmo pé, e, para o fim, com alguma impaciência. Um dia recebi recado de 
D. Mafalda; corri a ver o que era, disse-me que o filho do segeiro, Vitorino, fora pedi-la em 
casamento, e que a moça, consultada, respondeu que sim. Soube depois que ela mesma o 
incitara a fazê-lo. Compreendi que tudo estava acabado. Félix padeceu muito com esta 
notícia; mas nada há eterno neste mundo, e ele próprio acabou casando com Sinhazinha. Se 
ele e Lalau foram felizes, não sei; mas foram honestos, e basta.


Casa Velha - Machado de Assis - Capa 3





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