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sábado, 15 de abril de 2017

Casa de Pensão - Parte 1 de 5 - Aluísio Azevedo


Casa de Pensão - Parte 1 de 5 - Aluísio Azevedo



Casa de Pensão é um livro de estilo naturalista escrito por Aluísio Azevedo em 1884. Narrado em terceira pessoa, Casa de Pensão inicia com a chegada do jovem maranhense Amâncio ao Rio De Janeiro, que para ali se muda no intuito de estudar medicina na Corte. Chegando à cidade, Amâncio procura o Sr. Luís Campos, comerciante, amigo de seu pai, que lhe oferece pouso no interior. O Sr. Campos era casado com D. Maria Hortênsia, que não se mostra muito a vontade com a chegada do menino à sua casa, mas que acaba aceitando a decisão do marido.

(SEGUE ABAIXO A OBRA COMPLETA DIVIDIDA EM 5 POSTAGENS)



Casa de Pensão
Aluízio de Azevedo

I
 Desconfia de todo aquele que se arreceia da verdade.


       Seriam onze horas da manhã.
       O Campos, segundo o costume, acabava de descer do almoço e, a pena atrás da  
orelha, o lenço por dentro do colarinho, dispunha-se a prosseguir no trabalho interrompido
pouco antes. Entrou no seu escritório e foi sentar-se à secretária.
      Defronte dele, com uma gravidade oficial, empilhavam-se grandes livros de escrituração
mercantil. Ao lado, uma prensa de copiar, um copo d água, sujo de pó, e um pincel chato; mais
adiante, sobre um mocho de madeira preta, muito alto, via-se o Diário deitado de costas e
aberto de par em par.
      Tratava-se de fazer a correspondência para o Norte. Mal, porém, dava começo a uma
nova carta, lançando cuidadosamente no papel a sua bonita letra, desenhada e grande, quando
foi interrompido por um rapaz, que da porta do escritório lhe perguntou se podia falar com o Sr.
Luís Batista de Campos.
      - Tenha a bondade de entrar, disse este.
      O rapaz aproximou-se das grades de cedro polido, que o separavam do comerciante.
      Era de vinte anos, tipo do Norte, franzino, amornado, pescoço estreito, cabelos crespos e
olhos vivos e penetrantes, se bem que alterados  por um leve estrabismo.
      Vestia casimira clara, tinha um alfinete de esmeralda na camisa, um brilhante na mão
esquerda e um grossa cadeia de ouro sobre o ventre. Ao pés, coagidos em apertados sapatinhos
de verniz, desapareciam-lhe casquilhamente nas amplas bainhas da calça.
      - Que deseja o senhor, perguntou o Campos, metendo de novo a pena atrás da orelha e
pousando um pedaço de papel mata-borrão sobre o trabalho.
      O moço avançou dois passos, com ar muito acanhado; o chapéu. de pêlo seguro por
ambas as mãos; a bengala debaixo do braço.
      - Desejo entregar esta carta, disse, cada vez mais atrapalhado com o seu chapéu e a sua
bengala, sem conseguir tirar  da algibeira um grosso maço de papéis que levava.
      Não havia onde pôr o maldito chapéu, e a bengala tinha-lhe já caído no chão, quando o
Campos foi em seu socorro.
      -  Cheguei hoje do Maranhão, acrescentou o provinciano, sacando as cartas finalmente.
      As últimas palavras do moço pareciam interessar deveras o negociante, porque este, logo
que as ouviu, passou a considerá-lo da cabeça aos pés, e exclamou depois:
      - Ora espere...O senhor é o Amâncio !
      O outro sorriu, e , entregando-lhe a carta, pediu-lhe com um gesto que a lesse.
      Não foi preciso romper o sobrescrito, porque vinha aberta.
      - É de meu pai...disse Amâncio.
      - Ah! é do velho Vasconcelos ?...Como vai ele ?
      - Assim, assim...O que o atrapalha  mais é o reumatismo. Agora está em uso da
Salça-e-caroba , do Holanda.
      - Coitado!  lamentou o Campos com um suspiro. - Ele sofre há tanto tempo!...
      E passou  a  ler a carta, depois de dar uma cadeira a Amâncio, que já estava para dentro


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das grades.
      - Pois , sim, senhor ! disse ao terminar a  leitura . - Está o meu amigo na Corte, e homem
! Como corre o tempo !...
      Amâncio tornou a sorrir.
      - Parece que ainda foi outro dia que o vi, deste tamanho, a brincar no armazém do seu
pai.
      E mostrou com a mão aberta o tamanho de Amâncio naquela época.
      - Foi há seis anos, observou o moço, limpando o suor que lhe corria abundantemente
pelo rosto.
      Fez-se uma  pequena pausa  e em seguida o Campos falou do muito que devia ao
falecido irmão e sócio do velho Vasconcelos; citou os obséquios que lhe merecera; disse que
encontrara nele  "um segundo pai "e terminou perguntando quais eram as intenções de
Amâncio na Corte. -  Se vinha estudar ou empregar-se.
      - Estudar ! acudiu o provinciano.
      Queria ver se era possível matricular-se esse ano na Escola de Medicina .Não negava que
se havia demorado um  pouquito  nos  preparatórios...mas seria dele a culpa ?... Só com umas
sezões que apanhara na fazenda da avó, perdera  três anos.
      Campos escutava-o com atenção. Depois lhe perguntou, se já havia almoçado.
      Amâncio disse que sim, por  cerimônia.
      - Venha  então jantar conosco; precisamos conversar mais à vontade .Quero
apresentá-lo à minha gente.
      O rapaz concordou, mas ainda tinha que entregar várias cartas e varias encomendas que
trouxera. O  Campos talvez conhecesse os destinatários.
      Mostrou-lhe as cartas ; eram quase todas de recomendação.
      - O melhor é tomar um carro, aconselhou o negociante. - Olhe, vou dar-lhe um moço, aí
de casa, para o guiar.
      E, pelo acústico , que havia a um canto do escritório, chamou um caixeiro.
      Daí a pouco, Amâncio saía, acompanhado por  este, prometendo voltar para o jantar.
      A casa  de  Luís  Campos  era  na  Rua  Direita. Um desses casarões do tempo
antigo, quadrados e sem gosto, cujo ar severo e recolhido está a dizer no seu silêncio os rigores
do velho comércio português.
      Compunha-se do vasto armazém ao rés-do-chão, e mais dois andares ; no primeiro dos
quais estava o escritório e à noite aboletavam-se os caixeiros, e no segundo morava o negociante
com  a mulher -  D.  Maria Hortênsia, e  uma cunhada-  D. Carlotinha.
       A mesa era no andar de cima .Faziam-se duas : uma para o dono da casa ,a família, o
guarda-livros e hóspedes, se os havia, o que era freqüente ;e a outra só para os caixeiros, que
subiam ao número de cinco ou seis.
      Apesar de inteligente e de brasileiro, Campos nunca logrou espantar de  sua casa o ar
triste que a ensombrecia. À mesa, quando raramente se palestrava, era sempre com muita reserva
;não havia risadas expansivas, nem livres exclamações de alegria. Os hóspedes, pobre gente de
província, faziam uma cerimônia espessa ; o guarda-livros poucas vezes  arriscava a sua anedota
e, só se determinava a isso, tendo de antemão escolhido um assunto discreto e conveniente.
      Campos não apertava a bolsa em questões de comida  :queria mesa farta ;quatro pratos
ao almoço, café e leite à discrição ; ao jantar seis , sopa e vinho .Os  caixeiros falavam com
orgulho dessa generosidade e faziam em geral boa ausência do patrão, que, entretanto, fora
sempre de uma sobriedade  rara :comia pouco, bebia ainda menos e não conhecia os vícios
senão de nome.
      Aos domingos, e às  vezes mesmo em dias de semana, aparecia para o jantar um ou
outro estudante  comprovinciano do Campos ou   algum freguês do interior, que estivesse de
passagem na Corte e a  quem lhe convinha agradar.


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      Luís Campos  era homem ativo, caprichoso no serviço de que ser encarregava e
extremamente suscetível em pontos de honra ; quer se tratasse de sua individualidade privada,
que de  sua  responsabilidade comercial.
      Não descia nunca ao armazém, ou simplesmente ao escritório, sem estar bem limpo e
preparado. Caprichava no asseio do corpo :as unhas, os cabelos e os dentes mereciam-lhe bons
desvelos   e  atenções.
      Entre os companheiros, passava por homem de vistas largas e espírito adiantado ; nos
dias de descanso dava-se todo ao Figuier, ao Flammarion e ao Júlio  Verne, outras vezes,
poucas, atirava-se à literatura ; mas os verdadeiros mestres aborreciam-no e entreturbavam-no
com os rigorismos da forma.
      - È um bom tipo ! diziam  os estudantes à volta do jantar, e seguinte domingo lá
estavam de novo. O "bom tipo" tratava-os muito bem, levava-os com a família para a sala,
oferecia-lhes charutos, cerveja, e nunca exigia que lhe restituíssem os livros que lhes emprestava.
       Quanto à sua vida comercial, pouco se tem a dizer. Até aos dezoito anos, Campos
estivera no Maranhão, para onde fora em pequeno de sua província natal, o Ceará. No
Maranhão fez os primeiros estudos e deu os primeiros passos no comércio, pela mão de um
velho negociante, amigo de seu pai.
            Esse velho foi seu protetor e o seu guia ;só com a morte dele se passou o Campos
para o Rio de Janeiro, onde, graças ainda a certas relações da  família de seu benfeitor,
consegui arranjar-se logo, como ajudante de guarda-livros, em uma casa de comissões. Desta
saiu para outra, melhorando sempre de fortuna, até que afinal o admitiram, como gerente, no
armazém de uns tais Garcia, Costa  &  Cia.
            O Garcia morreu, Campos passou a ser interessado na casa ;depois morreu o Costa,
e Campos chamou um sócio de fora, um capitalista, e ficou sendo a principal figura da firma.
      Por esse tempo encontrou  D. Maria  Hortênsia, menina de boa família, sofrivelmente
ajuizada e com dote. Pouco  levou a pedi-la e a casar-se.
      Nunca se arrependera de semelhante passo. Hortênsia saíra uma excelente dona -de-
casa, muito arranjadinha, muito amiga de poupar, muito presa aos interesses de seu marido, e
limpa, "limpa ,que fazia gosto!"
      O segundo andar vivia, pois, num brinco ; nem um escarro seco no chão. Os móveis
luziam, como se tivessem chegado na véspera da casa do marceneiro ;as roupas da cama  eram
de uma     brancura   fresca e cheirosa ;não havia teias de aranha nos tetos ou nos candeeiros e
os globos de vidro não apresentavam sequer a nódoa de uma mosca.
      E Campos sentia-se bem no meio dessa ordem, desse método. Procurava  todos  os dias
enriquecer os trens de sua casa, já comprando  umas jardineiras, que lhe chamaram a atenção
em tal rua ; já trazendo uma estatueta, um quadro, uma nova máquina de fazer sorvetes , ou um
sistema aperfeiçoado para esta ou aquela utilidade doméstica.
      Gostava que em sua casa houvesse um pouco de tudo. Não  aparecia  por aí qualquer
novidade ,qualquer novo aparelho de bater ovos, gelar vinho, regar plantas, que o Campos não
fosse um dos primeiros a experimentar.
         A mulher, às vezes, já se ria, quando ele entrava da rua abraçado a um embrulho.
      - Que foi que se inventou ?...perguntava com uma pontinha de mofa.
      O marido não fazia esperar a justificação    do seu novo aparelho, e, tal interesse punha
em  jogo ,que parecia tratar de uma obra própria, de cujo sucesso dependesse a sua felicidade.
E, logo que encontrasse algum amigo,  não deixava de falar nisso ;gabava-se da compra que
fizera, encarecia a utilidade do objeto e aconselhava a todos que comprassem um igual.
      Campos, depois do casamento, principiou a prosperar de um modo assombroso ;dentro
de três anos era, o que vimos, - rico, muito acreditado e seguro na praça.
      E, contudo, não tinha mais do que trinta e seis anos de idade.
      - É um felizardo ! resmungavam os colegas, com olhar fito.


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      - É um felizardo !Quem o viu, como eu, há tão pouco tempo !...
      - Mas sempre teve boa cabeça !...
      - São fortunas, homem !Outros  há por aí , que fazem o dobro e não conseguem a
metade !
      - Não ! ele merece, coitado ! É muito  bom  moço, muito expedito e trabalhador !
      - Homem! Todos nós somos bons !...O que lhe afianço é que nunca em minha vida
consegui  pôr de   parte  um bocado de dinheiro !
      E o caso era que o Campos ,ou devido à fortuna  ou ao bom tino para ao negócios,
prosperava sempre.
     
                                                                                  * *  *
     
      Às quatro da tarde apareceu de novo Amâncio.
      Vinha esbaforido. O dia estava  horrível de calor. Campos foi recebê-lo com muito
agrado.
      - Então ?disse-lhe. Está livre das cartas ?
      - Qual ! respondeu o moço. - tenho ainda cinco para entregar...Uma estafa ! No
Maranhão nunca senti tanto calor !...
      - Falta de hábito ! observou o outro. Daqui a dias verá que isto é muito mais fresco !
      - Estou desta forma !...queixava-se Amâncio, quase sem fôlego, a mostrar o colarinho
desfeito e os      punhos encardidos.
      - Suba, volveu o Campos, empurrando-o brandamente .-  tome  qualquer coisa. Vá
entrando sem cerimônia.
      E, já na escada do segundo andar, perguntou de súbito :- É verdade !e a  sua bagagem
?...
      - Está tudo na Coroa de Ouro. Hospedei-me lá.
      - Bem.
      E  subiram.
      Amâncio deixou-se ficar na sala de visita; o outro correu a prevenir a mulher.
      - Neném !disse ele. Sabes ? hoje temos ao jantar um moço que chegou do  Norte, um
estudante. É preciso oferecer-lhe a casa.
      Hortênsia respondeu com um gesto de má vontade.
      - Não ! replicou o negociante. É uma questão de gratidão !...Devo muitos obséquios  à
família deste rapaz ! Lembras-te daquele velho, de que te falei, aquele que foi que me deu a
mão lá no Norte ?...Pois este é o sobrinho, é filho do Vasconcelos. Não nos ficaria bem
recebê-lo assim ,sem mais nem menos !...
      - Mas, Lulu, isto de meter estudantes em casa é o diabo !Dizem que é uma gente tão
esbodegada !
      -  Ora ,coitado !ele até me parece meio tolo ! Além disso, não seria o primeiro
hóspede!...
      - Queres  agora comparar  um estudante com aqueles tipos  de Minas que se hospedam
aqui !...
      - Mas se estou dizendo que o rapaz até parece tolo...
      - Manhas, homem ! Todos eles parecem muito inocentes, e depois...Enfim, tu farás o que
entenderes !... Só te previno de que esta gente é muito reparadeira !
      - Não há de ser tanto assim!...
      E Campos voltou à sala.
      Amâncio soprava, estendido em uma cadeira de balanço, a abanar-se com o lenço.
      - Muito calor, hein? perguntou o  Campos, entrando.
      - Está horroroso, disse aquele.


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      E resfolegou com mais força.
      - Venha  antes para este  lado. Aqui para a sala de jantar é mais fresco. Venha ! Eu vou
dar-lhe        um paletó de brim.
      Amâncio esquivava-se, fazendo cerimônia ; mas o outro, com o segredo da hospitalidade
que em geral possui o cearense, obrigou-o a entrar para um quarto e mudar de roupa.
      O jantar, como sempre, correu frio e contrafeito. Amâncio não tinha apetite, porque
pouco  antes comera mães-bentas em um café ;Campos, porém, desfazia-se e empregava todos
os meios de lhe ser agradável.
      - Vá, mais uma fatia de pudim, insistia ele a tentá-lo.
      - Não, não é possível, respondia o hóspede, limpando sempre o rosto com o lenço.
      À sobremesa falou-se no velho Vasconcelos e mais no irmão. O negociante lembrou
ainda  as obrigações que devia à família de Amâncio, citou pormenores de sua vida no
Maranhão ; elogiou muito a província ;disse que havia lá mais sociabilidade que no Rio de
Janeiro , e acabou brindando a memória de seu benfeitor , de seu segundo pai.
      Maria  Hortênsia parecia tomar parte no reconhecimento do marido e, sempre que se
dirigia ao estudante, tinha nos lábios um sorriso de amabilidade.
      Carlotinha não dera uma palavra durante o jantar. Comia vergada sobre o seu prato e só
ergueu a cabeça na ocasião de deixar a mesa.
      Amâncio, todavia, não a perdera de vista.
      Às sete horas da  tarde, quando se despediu, estava já combinado  que no dia seguinte
ele voltaria com as malas, para hospedar-se em casa do Campos.
      - É melhor...disse este -  é muito melhor !Ali o senhor  não pode estar bem ;sempre é
vida de hotel ! Venha para cá ;faça de conta que minha família é a sua.
      Amâncio prometeu, e saiu, reconsiderando pelo caminho todas as impressões desse dia.
      Mais tarde, deitado na cama do  Coroa de Ouro, com o corpo moído, o  espírito
saturado de sensações, procurava recapitular o que tinha a fazer no dia seguinte ; e, bocejando,
via de olhos fechados, o vulto amoroso de Hortênsia a sorrir para ele, estendendo-lhe no ar os
belos braços, palpitantes e carnudos .
     
      II
     
     
      No dia seguinte mudava-se Amâncio para a casa do Campos. Seria por pouco tempo, -
até que descobrisse um  "cômodo definitivo".
      Deixou com algum pesar o hotel. Aquela vida boêmia, com os seus almoços em
mesa-redonda, o seu quartinho,  uma janela sobre os telhados, e a plena liberdade de estar
como bem entendesse, tinha para ele um sedutor encanto de novidade.
      Nunca saíra do Maranhão ;vira de longe a Corte através do prisma fantasmagórico de
seus sonhos. O  Rio de Janeiro afigurava-se-lhe um Paris de Alexandre Dumas ou de Paulo de
Kock, um Paris cheio de canções de amor, um Paris de estudantes e costureiras, no qual podia
ele  à vontade correr as suas aventuras, sem fazer escândalo como no diabo da província.
       Há muito tempo ardia de impaciência por tal viagem : pensara nisso todos os dias;
fizera cálculos, imaginara futuras felicidades. Queria teatros bufos, ceias ruidosas ao lado de
francesas, passeios fora de horas, a carro, pelos arrabaldes. Seu espírito, excessivamente
romântico, como o de todo maranhense nessas condições, pedia uma grande  cidade, velha,
cheia ruas tenebrosas, cheia de mistérios, de hotéis, de casas de jogo, de lugares  suspeitos e de
mulheres caprichosas :fidalgas encantadoras e libertinas, capazes de tudo, por um momento de
gozo. E   Amâncio  sentia  necessidade de dar começo àquela existência que encontrara nas
páginas de mil romances. Todo ele reclamava amores perigosos, segredos de alcova e loucuras
de paixão.


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      Entretanto, o seu tipo franzino, meio imberbe, meio ingênuo, dizia justamente o
contrário.  Ninguém, contemplando aquele insignificante rosto moreno, um tanto chupado,
aqueles pômulos salientes, aqueles olhos negros, de uma vivacidade quase infantil, aquela boca
estreita, guarnecida de bons  dentes, claros e alinhados, ninguém acreditaria que ali estivesse
um sonhador , um sensual um louco.
      Sua pequena testa, curta e sem espinhas, margeada de cabelos crespos, não denunciava o
que naquela cabeça havia de voluptuoso e ruim. Seu todo acanhado, fraco e modesto não
deixava transparecer a brutalidade daquele temperamento cálido e desensofrido.
       Amâncio fora muito mal-educado pelo pai, português antigo e austero, desses que
confundem o respeito com o terror.  Em pequeno levou muita bordoada ; tinha um medo
horroroso de  Vasconcelos; fugia dele como de um inimigo, e ficava todo frio e a tremer
quando lhe ouvia a voz ou lhe sentia os passos. Se acaso algumas vezes se mostrava dócil  e
amoroso, era sempre por conveniência : habituou-se a fingir desde esse tempo.
      Sua  mãe, D. Ângela, uma santa de cabelos brancos e rosto  de moça, não raro se
voltava contra o marido e apadrinhava o filho. Amâncio agarrava-se-lhe à saias, fora de si,
sufocado de soluços.
      Aos sete anos entrou para a escola. Que horror !
      O mestre, um tal Antônio Pires, homem grosseiro, bruto, de cabelo duro e olhos de
touro, batia nas crianças por gosto, por um hábito do ofício. Na aula  só falava a berrar, como se
dirigisse uma boiada. Tinha as mãos grossas, a voz áspera, a catadura selvagem ; e quando metia
para  dentro  um pouco mais de vinho, ficava pior.
      Amâncio, já na Corte, só de pensar no bruto, ainda sentia  os calafrios dos outros
tempos, e com eles vagos desejos de vingança. Um  malquerer doentio invadia-lhe o coração,
sempre que se lembrava  do mestre e do pai. Envolvia-os  no mesmo ressentimento, no mesmo
ódio surdo e inconfessável.
      Todos os pequenos da aula tinham birra do Pires. Nele enxergavam o carrasco, o tirano,
o inimigo e não o mestre ; mas, visto que qualquer manifestação de  antipatia redundava
fatalmente em castigo, as pobres crianças fingiam-se satisfeitas ;riam muito quando o beberrão
dizia alguma chalaça  e afinal, coitadas ! iam-se habitualmente ao servilismo e à mentira.
      Os pais ignorantes, viciados pelos costumes bárbaros do Brasil, atrofiados pelo hábito de
lidar com escravos, entendiam que aquele animal era o único professor capaz de  "endireitar os
filhos".
     
       Elogiavam-lhe a rispidez, recomendavam-lhe sempre que  "não passasse a mão" pela
cabeça dos rapazes e que, quando  fosse preciso, "dobrasse por conta dele a dose de bolos".
      Ângela, porém, não era dessa opinião :não podia admitir que seu querido filho, aquela
criaturinha fraca, delicada, um mimo de inocência e de graça, um anjinho, que ela afagara com
tanta ternura e com tanto amor, que ela podia dizer criada com os seus beijos -  fosse lá apanhar
palmatoadas de um brutalhão daquela ordem "Ora ! isso não tinha jeito ! "
      Mas o Vasconcelos saltava-lhe logo em cima : Que deixasse lá o pequeno com o
mestre!...  Mais tarde ele havia de agradecer aquelas palmatoadas !
      Assim não sucedeu. Amâncio alimentou sempre contra o Pires o mesmo  ódio e a
mesma repugnância. Verdade é que também fora sempre  tido e havido pelo pior dos meninos
da aula, pelo mais atrevido e insubordinado. Adquiriu tal fama com o seguinte fato :
      Havia na escola um rapazito, implicante  e levado dos diabos, que se assentava  ao lado
dele e com quem  vivia sempre de turra.
      Um dia pegaram-se mais seriamente .Amâncio teria então oito anos. Estava a coisa ainda
em palavras, quando entrou o professor, e os dois contendores tomaram à pressa os seus
competentes lugares.
      Fez-se respeito. Todos os meninos começaram a estudar em voz alta, com afetação. Mas,


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de repente, ouviu-se o estalo de uma bofetada.
      Houve rumor. O Pires levantou-se, tocou uma campainha, que usava para esses casos, e
sindicou do fato.
      Amâncio foi o único acusado.
      - Sr. Vasconcelos !- gritou o mestre - porque espancou o senhor aquele menino ?
      Amâncio respondera  humildemente que o menino insultara sua mãe .
      - É mentira ! protestou o novo acusado.
      Amâncio repetiu o insulto que recebera. Toda a escola     rebentou em gargalhadas.
      - Cale-se, atrevido !berrou o professor encolerizado, a tocar a campainha.-  Mariola!
Dizer tal coisa em pleno recinto de aula !
      E, puxando a pura força o delinqüente para junto de si, ferrou-lhe meias dúzia de
palmatoadas.  Amâncio, logo que se viu livre, fez um gesto de raiva.
      - Ah ! ele é isso?! Exclamou o professor. - Tens gênio, tratante ?! Ora espera ! isso tira-se
!
      E voltando-se para o rapazito que levou a bofetada, entregou-lhe a férula e disse-lhe que
aplicasse outras tantas palmatoadas em Amâncio.
      Este declarou fortemente que se não submetia ao castigo. O professor quis submetê-lo à
força; Amâncio não abriu as mãos. Os dedos pareciam colados contra a palma.
      O professor, então, desesperado com semelhante contrariedade, muito nervoso, deixou
escapar a mesma frase que pouco antes provocara tudo aquilo.
      Amâncio recuou dois passos e soltou uma nova bofetada, mas agora na cara do próprio
mestre.   Em seguida deitou a fugir, correndo.
      Um  " Oh  "formidável encheu a sala . O Pires, rubro de cólera, ordenou que
prendessem o atrevido. A aula ergueu-se em peso, com grande desordem. Caíram bancos e
derramaram-se tinteiros. Todos os meninos abraçaram sem hesitar a causa do mestre, e Amâncio
foi agarrado no corredor quando ia alcançar a rua.
      Mas, quatro pontapés puseram em fugida os dois primeiros rapazes que lhe lançaram os
dedos.   Dois outros acudiram logo e o seguraram de novo, depois vieram mais três, mais oito,
vinte, até que todos os quarenta ou cinqüenta  estudantes o levaram à presença  do Pires,
alegres, vitoriosos, risonhos, como se houvessem alcançado uma glória.
      Amâncio sofreu novo castigo ;serviu de escárnio aos seus condiscípulos e, quando
chegou à casa, o pai, informado do que sucedera na escola, deu-lhe ainda uma boa sova e
obrigou-o a pedir perdão, de joelhos, ao professor e ao menino da bofetada
      Desde esse instante, todo o sentimento de justiça e de honra que Amâncio  possuía,
transformou-se em ódio sistemático pelos seus semelhantes. Ficou fazendo  um triste juízo dos
homens.
      - Pois se até seu próprio pai, diretamente ofendido na questão, abraçara a causa do mais
forte!....
      Só  Ângela, sua adorada, sua santa mãe, à noite, ao beijá-lo antes de dormir, depois de
lhe perguntar  se ficara  muito magoado com o castigo, segredara-lhe entre lágrimas que  "ele
fizera muito bem ..."  
      Como  aquele ,outros fatos se deram na meninice de Amâncio. Todas as vezes que lhe
aparecia um ímpeto de coragem, sempre que lhe assistia um assomo de dignidade, sempre que
pretendia repelir uma afronta ,castigar um insulto, o pai ou o professor caía-lhe em cima,
abafando-lhe os impulsos pundonorosos.
      Ficou medroso e descarado.
      No fim de algum tempo já podiam na escola , insultar a mãe quantas vezes quisessem,
que ele não se abalaria ;podiam lançar-lhe em rosto as ofensas que entendessem porque ele se
conservaria impassível. Temia  as  conseqüências  de desafronta.  "  Estava  domesticado"
,segundo a frase do Pires.


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      Todavia, esses pequenos episódios da infância, tão insignificantes na aparência,
decretaram a direção que devia tomar o caráter de Amâncio. Desde logo habituou-se a fazer
uma falsa idéia dos seus semelhantes ;julgou os homens por seu pai, seu professor e seus
condiscípulos. - E abominou-os. Principiou a aborrecê-los secretamente, por uma fatalidade do
ressentimento; principiou a desconfiar de todos, a prevenir-se contra tudo, a disfarçar, a fingir
que era o que exigiam brutalmente que ele fosse.
      Nunca lhe deram liberdade de espécie alguma :Se lhe vinha uma idéia própria e desejava
pô-la em prática, perguntavam-lhe "a quem vira ele fazer semelhante asneira ?
      Convenceram-no de que só devemos praticar aquilo que os outros já praticaram.
Opunham-lhe sempre o exemplo das pessoas mais velhas ;exigiam que ele procedesse com o
mesmo discernimento de que dispunham seus pais.
      E os rebentões da individualidade, e o que pudesse haver de original no seu caráter e na
sua inteligência , tudo se foi mirrando e falecendo, como os renovos de uma planta, que
regassem diariamente com água morna.
      À mesa devia ter a sisudez de um homem. Se lhe apetecia rir, cantar, conversar,
gritavam-lhe logo : "Tenha modo, menino! Esteja quieto ! comporte-se!"
      E  Amâncio, com medo da bordoada, fazia-se grave, e cada vez ia-se tornando mais
hipócrita e reservado. Sabia afetar seriedade, quando tinha vontade de rir; sabia mostrar-se
alegre, quando estava triste; calar-se, tendo alguma recriminação a fazer; e , na igreja, ao lado da
família, sabia fingir que rezava e sabia  agüentar  por  mais de uma hora a máscara de um
devoto.
      Como o pai o queria inocente e dócil, ele afetava grande toleima, fazia-se muito ingênuo,
muito admirado das cosas mais simples.
      - É uma menina!...dizia a mãe ,convicta -  Amancinho  tem já dez anos e conserva a
candura de um anjo !
      Vasconcelos nunca o puxava para junto de si, nem conversava com ele, nem o
interrogava ;e, quando a infeliz criança, justamente na idade em que a inteligência se desabotoa,
ávida de fecundação, fazia qualquer pergunta, respondiam-lhe com um berro : " Não seja
bisbilhoteiro, menino!"
      Amâncio emudecia e abaixava os olhos, mas, logo que o perdiam de vista, ia escutar e
espreitar pelas portas.
      Com semelhante esterco, não podia desabrochar e melhor no seu temperamento o leite
escravo, que lhe deu a mamar uma preta  da casa.
      Diziam que era uma excelente escrava : tinha muito boas maneiras ;não respingava aos
brancos, não era respondona :aturava o maior castigo, sem dizer uma palavra mais áspera, sem
fazer um gesto mais desabrido. Enquanto o chicote lhe cantava nas costas, ela gemia apenas e
deixava que as lágrimas lhe corressem silenciosamente pelas faces.
      Além disso - forte, rija para o trabalho. Poderia nesse tempo valer bem um conto de réis.
      Vasconcelos a comprara , todavia, muito em conta, " uma verdadeira pechincha !"
porque o demônio da negra estava então que não valia duas patacas ;mas o senhor a metera em
casa, dera-lhe algumas garrafadas de laranja-da-terra, e a preta em breve começou a deitar corpo
e a indireitar, que era aquilo que se podia ver !
      O médico, porém, não ia muito em que a deixassem amamentar o pequeno.
      - Esta mulher tem reuma no sangue ...dizia ele - e o menino pode vir a sofrer no futuro.
      Vasconcelos sacudiu os ombros e não quis outra ama.  
      - O doutor que se deixasse de partes !
      A negra tomou muita afeição  à  cria. Desvelava por elas noites consecutivas e, tão
carinhosa, tão solícita se mostrou, que o senhor, quando o filho deixou a mama, consentiu em
passar-lhe a carta de alforria por seiscentos mil-réis, que ela ajuntara durante quinze anos. Mas a
preta não abandonou a casa  de seus brancos  e continuou a servir, como dantes ;menos ,está


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claro, no que dizia respeito aos castigos, porque a desgraçada, além  de forra ia já caindo na
idade.
      Amâncio dera-lhe bastante  que fazer. Fora um menino levado da breca ;só não chorava
enquanto dormia e, quando se punha a espernear, não havia meio de contê-lo.
      Era muito feio em pequeno. Um nariz disforme, uma boca sem lábios e dois rasgões no
lugar dos olhos. Não tinha um fio de cabelo e estava sempre a fazer caretas.
            A princípio - muito achacado de feridas, coitadinho! Os pés frios, o ventre duro  
constantemente.
            Levou muito para andar e  custou-lhe a balbuciar as primeiras palavras :Ângela
adorava-o  com entusiasmo do primeiro parto ;por duas  vezes supôs vê-lo morto e deu
promessas aos santos da sua devoção.
            Conseguiram fazê-lo viver,  mas sempre fraquinho, anêmico, muito propenso aos
ingurgitamentos escrofulosos.
      Quando acabou as primeiras letras, não era, entretanto, dos rapazes mais débeis da aula
do  Pires. Para  isso contribuíram em grande parte uns passeios que costumava dar, pelas férias
,à fazenda  de sua  avó materna, em São Bento.
      Esses  passeios representavam   para Amâncio  a melhor época do ano. A avó, uma
velha quase analfabeta, supersticiosa e devota, permitia-lhe todas as vontades e babava-se de
amores por ele. O rapaz escondia-lhe o cachimbo, pisava-lhe os canteiros da horta, divertia-se
em quebrar a pedradas as lamparinas dos santos, suspensas na capela, e, à vezes, quando não
estava de boa maré, atirava com os pratos nos escravos que serviam à mesa.
      A avó ralhava , mas não podia conter o riso .O netinho era o seu encanto, o fraco de sua
velhice; só um pedido daquele diabrete faria suspender o castigo dos negros e desviar do
serviço da roças algum dos moleques - para ir brincar com Nhozinho. Estava sempre a dizer
que se queixava ao genro e que o devolvia para a cidade ;mas, no ano seguinte, se Amâncio não
aparecia logo no começo das férias, choviam os recados da velha em casa de Vasconcelos,
rogando que lhe mandassem o neto.
      - Mande ! mande o  pequeno !aconselhava o médico.
      E lá ia  Amâncio.
      Só aos doze anos fez o seu exame de português na aula do Pires.
      Houve muita formalidade. A congregação era presidida pelo Sotero dos Reis ;havia
vinte e tantos examinandos. Amâncio tremia naqueles apuros. Não tinha em si a menor
confiança.
      Foi, contudo, " aprovado plenamente" .Mas não sabia nada, quase que não sabia ler. Da
gramática apenas lhe ficaram de cor algumas regras, sem que ele compreendesse patavina do
que elas definiam. O Pires nunca explicava :- se o pequeno tinha a lição de memória, passava
outra, e, se não tinha, dava-lhe algumas palmatoadas e dizia-lhe que trouxesse a mesma para o
dia seguinte.
      Mas, enfim, estava habilitado a entrar para o Liceu onde iria cursar as aulas de francês e
geografia.
      O Liceu, que bom !-   Oh ! Aí não havia castigos, não havia as pequenas misérias
aterradoras da escola !Não poderia faltar  às aulas , é certo ! mas, em todo o caso, estudaria
quando bem entendesse e, lá uma vez por outra, havia de  "fazer a sua parede".
      E, só com pensar nisso, só com se lembrar de que já não estava  ao alcance das garras do
maldito Pires, o coração lhe saltava por dentro, tomado de uma alegria nervosa.
     
      * * *
     
      O Vasconcelos quis festejar o exame do filho, com um jantar oferecido aos senhores
examinadores e aos velhos amigos da família.


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      À noite houve dança. Amâncio convidou os companheiros do ano ;compareceram
somente os pobres, - os que não  tinham em casa também a sua  festa.
      O pai, por instâncias de  Ângela, fizera-lhe  presente de um relógio com a competente
cadeia  tudo  de ouro. A avó, que se abalara da fazenda pra assistir ao regozijo do seu querido
mimalho , trouxera-lhe  um moleque , o Sabino.
      Amâncio, todo cheio de si, a rever-se na sua corrente e a consultar  as horas de vez em
quando, foi nesse dia o alvo de mil felicitações, de mil brindes e de mil abraços.
      Alguns amigo do pai profetizavam nele uma glória da pátria e diziam que o João
Lisboa, o Galvão e outros não tinham tido melhor princípio.
      Lembraram-se todas as partidas engraçadas de Amâncio, vieram à baila os repentes
felizes que o diabrete tivera até aí. Na cozinha, a mãe  preta , a ama, contava às parceiras  as
travessuras do menino e, com olhos embaciados de ternura, com uma espécie de orgulho
amoroso, referia sorrindo os trabalhos que lhe dera ele,  as noites que ela desvelara.
      - Já em pequeno, diziam - era muito sabido, muito esperto !enganava os mais velhos
;tinha lábias, como ninguém, para conseguir as coisas, e sabia empregar mil artimanhas para
obter o que desejava! - Não !definitivamente não havia outro !
      Ângela, a um canto da varanda, assentada entre as suas visitas, seguia o filho com um
olhar temperado de mágoa e doçura.
      - O que lhe estaria reservado?...o que o esperaria no futuro ?...cismava  a boa senhora,
meneando tristemente a cabeça - Oh!  Às vezes cria-se um filho com tanto amor, com tantas
lágrima , para depois vê-lo  andar por aí aos trambolhões, nesse mundo de Cristo !...E a idéia de
que, talvez, nem sempre o teria perto de si, que  nem sempre o poderia obrigar a mudar a
camisa, quando estivesse suado ;obrigá-lo a tomar o remédio, quando estivesse doente
;obrigá-lo a comer, a dormir com regularidade ;a evitar, enfim tudo que pudesse-lhe  prejudicar
a saúde ;oh ! a idéia de tudo isso lhe ent6rava no coração, como um sopro gelado, e fazia tremer
a pobre mãe.
      - Ai ! ai ! disse ela.
      - Que suspiros são esses, D. Ângela? perguntou o Dr. Silveira, que estava ao seu lado.
Homem íntimo da casa e figura conhecida na política da terra.
      - Malucando cá comigo,. respondeu a senhora .E como o outro estranhasse a resposta:-
Quem tem filho,  tem cuidados ,senhor doutor !...
      - Oh ! Oh! Exclamou este, com um gesto autorizado, abrindo muito a boca  e os olhos. -
A quem o diz, Sra. D. Ângela, a quem o diz !...Só eu sei o que me custam esses quatro pecados
que aí tenho!...
      E para provar que dizia a verdade, teria falado nos seus cabelos  brancos, se não os
pintasse.
      - Quando  Ângela se afligia  daquele modo, sendo rica ;quanto mais ele-  pobre
jurisconsulto, com  pequenos vencimentos e uma família enorme !...
      - Ah! Os tempos vão muito maus...
      Puseram-se logo a falar na ruindade dos tempos. " Estava  tudo  pela hora da morte! -
Comia-se dinheiro ! "
      Mas o Silveira voltara-se rapidamente, para dar atenção a Amâncio, que acabava de
aproximar-se, em silêncio, com ar presumido de quem tinha consciência de que toda aquela
festa lhe pertencia.
      - Então, meu estudante !- disse o jurisconsulto, empinando a cabeça - Já escolheu a
carreira que deseja seguir ?
      - Marinha, respondeu Amâncio secamente.
      A farda seduzia-o. Nada conhecia  " tão bonito" como um oficial de marinha.
      A mãe riu-se com aquela resposta, e olhou em torno de si, chamando a atenção dos mais
para o desembaraço do filho.


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      À meia-noite foram todos de novo para a mesa. O Vasconcelos era muito rigoroso
quando recebia gente em casa ;queria que houvesse toda a fartura de vinhos e comida. Os
brindes reapareceram. Abriram-se as garrafas de Moscato  d'Asti, Chateau Yquem e
Champagne.
      Conversou-se a respeito dos vinhos de  Vasconcelos. " O  Maranhão  era
incontestavelmente uma das províncias onde melhor se bebia !"
      Do meio para o fim da ceia, Amâncio sentiu-se outro.
      Em uma ocasião, que o pai se afastara da mesa, ele pediu um brinde e cumprimentou  as
"pessoas presentes".
      Este fato causou delírios. O próprio pai não se pôde conter e disse entredentes,  a rir :
      - Ora o rapaz saiu-me vivo !
      Ângela abraçou o filho, chorando de comovida.
      - Que lhe disse eu ?...resmungou delicadamente o Silveira ao ouvido dela - Este menino
promete !Dêem-lhe asas e hão de ver ...dêem-lhe  asas !...
      Amâncio foi coberto de ovações. Batiam-lhe no copo, faziam-lhe saúdes. Ele a todos
respondia, rindo e bebendo.
      Daí a uma hora recolheram-no à cama da mãe, porque lhe aparecera  uma aflição na
boca do estômago ;mas vomitou logo e adormeceu depois , completamente  aliviado.
      Foi a sua primeira bebedeira.
     
                                                                                * * *
     
      Aos quatorze anos prestou exame de francês e geografia e matriculo-se nas aulas de
gramática geral e inglês.
      Já eram válidos, felizmente, os exames do Liceu do Maranhão, e com  as cartas que daí
houvesse, podia entrar nas academias da Corte.
      Amâncio, de[pois da escola do Pires, nunca mais voltou a passar férias na fazenda da
avó.       Preferia ficar na cidade :tinha namoros, gostava loucamente de dançar, já fumava, e
já fazia pândegas grossas com os colegas do Liceu.
      Como o pai não lhe dava liberdade , nem dinheiro, e como exigia que ele às nove horas
da noite se recolhesse a casa, Amâncio arranjava com a mãe os cobres que podia e, quando a
família já estava dormindo, evadia-se pelos fundos do quintal. Era Sabino quem  lhe abria e
fechava o portão.
      O moleque gostava muito dessas patuscadas. O senhor - moço levava-o à vezes em sua
companhia. Amigos esperavam por eles lá  fora, reuniam-se ; tinham um farnel de sardinhas,
pão, queijo, charutos e vinho. Era pagodear até pela madrugada !
      Se havia  chinfrim - entravam, ou então iam tomar banho no Apicum ou cear ao
Caminho Grande. Em noites  de luar faziam serenatas ;aparecia sempre alguém que tocasse
violão ou flauta ou soubesse cantar chulas e modinhas. Aos sábados o passeio era maior; no dia
seguinte Amâncio estava a cair de cansaço, aborrecido, necessitando de repouso.
      Mas não deixava de  ir. - Era tão bom passear pela rua , quando toda a população
dormia; fumar, quando tinha certeza de que nenhum dos amigos de seu pai o pilharia com o
charuto no queixo ;era tão bom beber pela garrafa, comer ao relento e perseguir ima ou outra
mulher, que encontrassem desgarrada, a vagar pelos becos mal iluminados da cidade !
      Tudo isso lhe sorria por um prisma voluptuoso e romanesco.
      Às  vezes entrava em casa ao amanhecer. Não podia dormir logo ;vinha excitado,
sacudido pelas impressões  e pela bebedeira da noite. Atirava-se à rede, com uma vertigem
impotente de conceber poesias byronianas, escrever coisas no gênero de Álvares de Azevedo,
cantar orgias, extravagâncias, delírios.
      E afinal adormecia, lendo Mademoiselle de Maupuin, Olympia de Clèves ou Confession


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d'un enfant du  siècle.
      Não penetrava  bem na intenção deste último livro, mas tinha-o em grande conta e, visto
conhecer a biografia de Musset, embriagava-se com essa leitura; ficava a sonhar fantasias
estranhas, amores céticos, viagens misteriosas e paixões indefinidas.
      As criadas da casa ou as mulatinhas da vizinhança já o enfaravam :era preciso descobrir
amores mais finos, mais dignos, que, nem só lhe contentassem a carne, como igualmente lhe
socorressem  as ânsias da imaginação.
      Por esse tempo leu a Graziella e  o Raphael de  Lamartine  .Ficou possuído de uma
grande tristeza ;as lágrimas saltaram-lhe sobre as páginas do livro. Sentiu necessidade de amar
por aquele processo, mergulhar  na poesia ,esquecer-se de tudo o que o cercava, para viver
mentalmente nas praias de  Nápoles, ou nas ilhas adoráveis da Sicília, cujos nomes sonoros e
musicais lhe chegavam ao coração como  o efeito  de uma saudade ,amarga e doce, de uma
nostalgia inefável, profunda, sem contornos, que o atraía para outro mundo desconhecido, para
uma existência , que lhe acenava de longe, a puxá-lo com todos os tentáculos de seu mistério e
da sua irresistível melancolia.
      Uma ocasião, deitado ao pé da janela de seu quarto, pensava em "Graziella".
      A tarde precipitava-se no crepúsculo e enchia a natureza de tons plangentes e doloridos.
A um canto da rua um italiano tocava uma peça no seu realejo. Era a Marselhesa.
      Amâncio conhecia algumas passagens da revolução  de França :lera os Girondinos de
Lamartine. E a reminiscência do sentimentalismo enfático dessa obra, coada pela retórica
poderosa da música de Lisle , trouxe-lhe aos nervos um sobressalto muito mais veemente que
das outras vezes.
      Julgou-se infeliz, sacrificado nas suas aspirações, no seu ideal. Precisava viver, gozar sem
limites!...Não ali, perto da família, estudando miseráveis lições do Liceu, mas além, muito além,
onde não fosse conhecido , onde tudo para ele apresentasse surpresas de que sua imaginação
mal podia delinear.
      Por isto estimou deveras ter de seguir para o Rio de Janeiro. A Corte era "um Paris",
diziam na província, e ele, por conseguinte, havia de lá encontrar boas aventuras, cenas
imprevistas, impressões novas, e amores, -  oh ! amores principalmente !
      E, com efeito, desde que pôs o pé a bordo, principiou a gozar de novidade, produzida
no seu espírito pela viagem.
      A circunstância de achar-se  em um paquete, sozinho, ouvindo o ronrom monótono da
máquina e sentindo, como nos romances, as vozes misteriosa dos elementos sussurrarem à volta
de seus ouvidos - encantava-o .Prestava muita atenção aos mais pequeninos episódios de bordo
:olhava interessado para a grossa figura dos marinheiros que baldeavam pela manhã o
tombadilho, a dançar com a vassoura aos pés; estudava o tipo  dos outros passageiros,
procurando  descobrir  em cada qual um personagem de seus livros favoritos; ao abrir e fechar
das portas dos camarotes, espiava sempre, e às vezes lobrigava de relance, ao fundo do beliche,
uma figura pálida , ofegante, toda descomposta na imprudência do enjôo.
      Ele é que nunca enjoava. À noite ia fumar  para a tolda, estendido sobre um banco, as
pernas cruzadas, os olhos perdidos pelo oceano.
      Vinham-lhe então as nostalgias da província; o coração dilatava-se por um sentimento
morno de saudade. Via  defronte de si o vulto carinhoso de sua mãe, a chorar, com o rosto
escondido no lenço, o corpo sacudido pelos soluços.
      Quanto não  custou à pobre mulher separar-se do filho ?...Que violência  não foi preciso
para lho arrancarem dos braços !foi como se pela Segunda vez lho tirassem a ferro  das
entranhas.
      Antes mesmo da partida de Amâncio, muito sofrera a mísera com a idéia daquela
separação.      Pensava  nisso a todo instante, sem se poder capacitar  de que ele devia ir,
atirado a bordo de um vapor, tão sozinho, tão em risco de perigos. "Oh ! era muito duro !Era


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muito duro ! ..." Mas      Vasconcelos  opunha-lhe argumentos terríveis : - O rapaz precisava
fazer carreira, Ter uma  posição ! Não  seria agarrado às saias da mãe  que iria pra diante !Há
muito mais tempo  devia Ter seguido - o filho de fulano  fora aos quinze anos ; o de beltrano
com   vinte e três , e  Amâncio já tinha vinte. Ia tarde !  Ângela  que se deixasse de pieguices.
Justamente por estimá-lo é que devia ser a primeira a querer que ele fosse, que se instruísse, que
se fizesse homem ! Além disso  o rapaz a poderia visitar pelas férias, nem sempre, mas de doeis
em dois anos.
      Ângela parecia resignar-se com as palavras de Vasconcelos ;fazia-se forte :jurava que  "
não era egoísta "  que "  não seria capaz de cortar a carreira de seu   filho"  ; mal, porém o
marido lhe dava as  costas, voltava-lhe a fraqueza  :vinham-lhe as lágrimas, tornavam as
agonias. Por  vezes, no meio do jantar, enquanto os outros riam e conversavam, ela, que até aí
estivera a pensar, abria numa explosão de soluços e retirava-se para o quarto, aflita,
envergonhada de não poder dominar aquele desespero. Outras vezes acordava por alta noite, a
gritar, a debater-se, a reclamar o filho, a disputá-lo contra os fantasmas do pesadelo.
      No dia da viagem não se pôde levantar da cama, tinha febre, vertigens ; a cabeça
andava-lhe à roda. E não queria mais ninguém perto de si, além do filho, só ele ! "Não a
privassem de Amâncio ao menos naquele dia ! "E tomava-o nos braços, procurava agasalhá-lo
ao colo, como fazia dantes, quando ele  era  pequenino. Afagava-lhe a cabeça beijava-lhe de
novo as mãos, os olhos, o pescoço, envolvia-o todo em mimos, como, se, na santa loucura de
seu amor, imaginasse que eles lhe preservariam o filho contra os escolhos da jornada e contra os
futuros perigos que o ameaçavam.
      - Minha pobre mãe !...suspirava Amâncio no tombadilho, derramando o olhar lacrimoso
pela inconstante planície das águas. - Minha pobre mãe!...
      E vinham-lhe  então fundas saudades de sua terra, de sua casa e de seus parentes. As
palavras de Ângela palpitavam-lhe em torno  da cabeça, com uma expressão de beijos
estalados. Lembrava-se dos últimos conselhos que ela lhe dera, das suas recomendações, das
suas pequeninas previdências; de tudo isso, porém, o que mais lhe ficara grudado à memória foi
o que lhe disse a boa velha muito em particular, a respeito de dinheiro. "Se não te chegar a
mesada, ou se te vierem a faltar os recursos, escreve-me logo duas linhas, que eu te mandarei o
que precisares. Mas não convém que teu pai saiba disso..."
      Para as primeiras despesas na Corte e  para  os gastos nas províncias, juntou ao que dera  
Vasconcelos ao filho, mais quinhentos mil-réis ;não achava bom, entretanto, que Amâncio
saltasse em todos os portos. " Era muito arriscado !Ele não se deveria expor de semelhante
forma !"
      E a lembrança do dinheiro puxou logo outros consigo e arremessou-o no frívolo terreno
de seus devaneios tolos e voluptuosos. Vieram as recordações ;começou a desenfiar
mentalmente o rosário dos amores que acumulara dos quinze anos até ali.
      Era um rosário extravagante ;havia contas de todos os matizes e de todos os feitios.
      Entre elas, porém, só três se destacavam, três belas contas de marfim :- a filha mais velha
do Costa Lobo, a mulher de um comendador , amigo de seu pai, e uma viúva de um oficial do
Exército.
      E só. Todas as outras suas conquistas não valiam nada ;de algumas tinha, contudo, bem
boas recordações: a Francisca  de Vila do Paço. Por exemplo, - uma caboclinha, que se
apaixonou por ele e vinha persegui-lo até a cidade ;uma espanhola, mulher de um tipo barbado e
calvo, que andava a mostrar figuras de cera pelas províncias do Norte, uma senhora gorda,
Amasiada com um boticário, da qual elogiavam muito as virtudes, mas que um dia atirou-se
brutalmente sobre Amâncio , dizendo que o amava e trincando-lhe os beiços. E como estas,
outras e outras recordações foram-se enfiando e desenfiando pelo espírito sensual e mesquinho
do vaidoso, até deixá-lo mergulhado na apatia dos entes sem ideais e sem aspirações.
      Mas, já não queria pensar nesses amores da província ;tudo isso agora se lhe afigurava


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ridículo e acanhado. A Corte , sim! é que lhe havia  de proporcionar boas conquistas. " Ia
principiar a vida!"
      E, nessa disposição chegou ao Rio de Janeiro.
     
      I I I
     
      Estava hospedado há dois dias em casa do Campos; esse tempo levara ele a entregar
cartas  e encomendas. À noite, fatigado e entorpecido pelo calor, mal tinha ânimo para dar uma
vista de olhos pelas ruas da cidade.
      Entretanto, a vida externa o atraía de um modo desabrido; estalava  por  cair no meio
desse formigueiro, desse bulício vertiginoso, cuja vibração lhe chegava aos ouvidos, como os
ecos longínquos de uma saturnal. Queria ver de perto o que vinha a ser  essa grande Corte, de
que tanto  lhe falavam ;ouvira contar maravilhas a respeito das cortesãs cínicas e formosas,
ceias pela madrugada, passeios ao Jardim Botânico, em carros descobertos, o champanha ao
lado, o cocheiro bêbado; - e tudo isso o atraía em silêncio, e tudo isso o fascinava, o visgava
com o domínio secreto  de um vício antigo.
      - Mas, por onde havia de principiar ?...Não tinha relações, não tinha amigos que o
encaminhassem ! Além disso, o Campos estava sempre a  lhe moer o juízo com as matrículas,
com a entrada na academia, com o inferno de obrigações a cumprir, cada qual mais pesada, mais
antipática, mais insuportável !
      - Olhe , seu Amâncio, que o tempo não espicha -  encolhe !...É bom ir cuidando disso!...
Repetia-lhe  negociante, fazendo ar sério e comprometido. - Veja agora se vai perder o ano !
Veja se quer  arranjar por aí um par de botas !...
      Amâncio fingia-se logo muito preocupado com os estudos e falava calorosamente  na
matrícula.
      Mexa-se então, homem de Deus! Bradava o outro. -  Os dias estão correndo.                                                                                                                                                                                                                                
      Afinal, graças aos esforços de  Campos, consegui matricular-se na academia, duas
semanas depois de Ter chegado ao Rio de Janeiro.
      O medo às matemáticas levara-o a desistir da Marinha e agarrar-se à Medicina, como
quem se agarra a uma tábua de salvação ; pois o Direito, se bem que,  para ele, fosse de todas a
mais risonha, não lhe servia igualmente, visto que Amâncio não estava disposto a deixar a Corte
e ir ser estudante  na província.
      A medicina, contudo longe de seduzi-lo, causava-lhe um tédio atroz. Seu temperamento
aventuroso e frívolo não  se conciliava com as frias verdades da cirurgia e com as pacientes
investigações da  terapêutica. Pressentia claramente que nunca daria um bom médico, que
jamais teria amor às sua profissão.
      Esteve a desistir logo nos primeiros dias de aula : o cheiro nauseabundo do anfiteatro da
escola, o aspecto  nojento dos cadáveres, as maçantes   lições de  Química, Física e Botânica,
as troças dos veteranos, a descrição minuciosa e fatigante da osteologia, a  cara insociável dos
explicadores; tudo isso o fazia vacilar ;tudo isso lhe punha  no coração  um duro sentimento de
má vontade, uma antipatia angustiosa, um não querer doloroso e taciturno.
      Às vezes, no entanto, pretendia reagir :atirava-se ao Baunis Bouchard   e  ao  Vale,
disposto a ler durante horas consecutivas ,disposto a prestar atenção, a compreender ; mal,
porém, ele se entregava aos compêndios, o pensamento, pé ante pé, ia-se escapando da leitura,
fugia sorrateiramente pela janela, ganhava a rua, e prendia-se ao primeiro frufru da saia que
encontrasse.
      E Amâncio continuava a ler a estranha tecnologia da ciência, a repetir maquinalmente,
de cor, os caracteres distintivos das vértebras, ou a cismar abstrato nas propriedades do cloro e
do bromo, sem todavia conseguir que patavina daquilo lhe ficasse na cabeça.
      - Não haver uma academia de Direito no Rio de Janeiro !lamentava ele, bocejando, a


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olhar vagamente a sua enfiada de vértebras, que havia comprado no dia anterior.
      Porque, no fim de contas, tudo que cheirasse a ciência de observação o enfastiava :
"Deixassem lá , que a tal osteologia e a tal Química nada ficavam a dever às matemáticas !..."
      Ah !  o Direito, o Direito é  que , incontestavelmente, devia  ser a sua carreia.
Preferia-o por achá-lo menos áspero, mais tangível, mais dócil, que outra qualquer matéria. E
esse mesmo...Valha-me  Deus ! tinha ainda contra si o diabo do latim, que era bastante para o
tornar difícil.
      E lembrar-se Amâncio de que havia por aí criaturas tão dotadas de paciência, tão
resignadas, tão perseverantes, que se votavam de corpo e alma ao cultivo das artes !...das artes,
que, segundo várias opiniões, exigiam ainda mais constância e mais firmeza do que as ciências
!...Com efeito,! Era preciso Ter muita coragem, muito heroísmo, porque as tais belas-artes, no
Brasil, nem sequer ofereciam posição social, nem davam sequer um titulozinho de doutor !
      - Qual! Não seria com ele !...Fosse gastando quem melhor quisesse a existência na
concepção de um bom quadro, de uma boa estátua, de uma ópera genial ou de um bom livro de
literatura, que ele ficava cá de fora - para apreciar. O mais que podia fazer, era - aplaudir;
aplaudir e pagar ! - E já não fazia pouco !...
      Isso justamente ouviu, por mais de uma vez, da boca de seu pai .O velho .Vasconcelos
nunca tomou a sério os artistas "Uns pedaço-d'asnos!" qualificava  ele, e, de uma feita em que
o Franco de Sá lhe comunicou os seus projetos de estudar pintura na Europa, o negociante fez
uma careta e exclamou, batendo-lhe no ombro: "Homem, seu Sazinho !não seria eu que lhe
aconselhasse semelhante cabeçada. .porque, meu amigo, isto de artes é uma cadelagem! Procure
meios de obter cobres, e o senhor terá à sua disposição os artistas que  quiser !"
      - E nisto tinha o velho toda a razão, pensava  Amâncio. Acho apenas que devia estender
a sua teoria até o estudo de certas ciências...como a Medicina...Sim ! porque , afinal, com o
dinheiro  também obtemos os médicos de que precisamos, e não vale a pena, por conseguinte,
gramar seis anos de academia e curtir as maçadas que estou suportando, sabe Deus como !
      - Mas ,neste caso, a questão muda muito de figura  !dizia-lhe em resposta uma voz que
vinha de dentro de seu próprio raciocínio Não se trata aqui  de fazer um "médico", trata-se  de
fazer um "doutor", seja ele do que bem quiser !Não se trata de ganhar uma "profissão", trata-se
de obter um "título". Tu não precisas de meios de vida, precisas é de uma posição na sociedade.
      - Visto isso, porém, objetava Amâncio, - quero crer que o mais acertado seria comprar
uma carta na Bélgica ou na Alemanha ,e mandar ao diabo, uma vez por todas, aquela peste de
Medicina !
      Ora, Medicina, Medicina servia para algum moço pobre que precisasse viver da clínica;
ele não estava nessa circunstâncias. Era rico ! só com o que lhe tocava  por parte materna, podia
passar o resto da vida sem se fatigar !...Por que, pois, sofrer aquelas apoquentações do estudo ?
Por que razão havia de ficar preso aos livros, entre quatro paredes, quando dispunha de todos os
elementos para estar lá fora , em liberdade, a se divertir e a gozar ?!...
      Mais uma idéia sustinha-lhe o vôo do pensamento ;o vulto angélico de sua mãe vinha
colocar-se defronte dele, abrindo os braços, como se o quisesse proteger de um abismo.
      Ah!  quanto empenho não fazia a pobre velha em vê-lo formado às direitas, numa
faculdade do Brasil ! ...    Vê-lo doutor !...
      - Doutor, hein?! repetia Amâncio, meio animado com o prestígio que ao nome lhe daria o
título.
      E ligava-os mentalmente, para ver o efeito que juntos produziam :
      - Doutor Amâncio ! Doutor Amâncio de Vasconcelos ! Não fica mal ! não fica !A mãe
tinha razão : - Era preciso ser doutor !...
      E quanto ao gosto, que prazer, não sentiria  nisso a querida velha !...Oh ! ele agora
pensava em Ângela com muito mais ternura ;nela resumia toda a família e tudo que houvesse de
bom no seu passado. Só com  a ausência pôde avaliar o muito que a respeitava e o muito que a


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estremecia. Ele, que não chorara ao despedir-se da mãe; ele, que, algumas vezes chegou até a se
aborrecer de seus desvelos e da insistência de seus carinhos -   agora  não  a podia ter na
memória, sem ficar com  coração opresso e os olhos relentados  de pranto. Pungia-lhe a
consciência  uma espécie de remorso por não se ter mostrado mais afetuoso e mais amigo,
enquanto a possuiu perto de si, por não ter melhor aproveitado essa ocasião para deixar bem
patente  que sabia ser  "bom  filho".
      E punha-se então a mentalizar planos de melhor conduta para quando voltasse ao lado
de Ângela; considerava os mimos que teria com ela, os afagos  que lhe havia de dispensar, os
beijos que lhe havia de pedir.
      - Ah ! Se naquele  momento ele a tivesse ali , o que não lhe diria !
      E, por uma necessidade urgente de expansão, levantou-se da cadeira em que estava e
correu à secretária , disposto a escrever uma carta, longa, a sua mãe. Precisava  queixar-se do
isolamento em que vivia, contar-lhe as suas tristezas; as suas contrariedades, justamente com o
fazia dantes, em pequeno, ao voltar da aula do Pires. Sua alma  tornava atrás , fazia-se infantil,
muito criança, muito ingênua e carecida de amparo.
      A mãe, enquanto esteve ao lado dele, foi sempre um coração aberto para lhe receber as
lágrimas e os queixumes.
      Também , só elas, só as mães, podem servir a tão delicado mister. O  que se lança ao
peito da amante desde logo arde e se evapora, porque aí o fogo é por demais intenso; o que se
atira ao  de um estranho gela-se de pronto na indiferença e na aridez; mas, tudo aquilo que um
filho semeia  no coração materno -  brota, floreja e produz consolações. Neste não há chama
que devore, nem, frio que enregele, mas um doce amornecer, suave e fecundo, como a trepidez
de um seio intumescido e ressumbrante de leite.
      E  escreveu : "Mamãe "
      Hesitou logo. Aquele modo de tratar não lhe pareceu conveniente; queria uma carta de
efeito, com estilo, uma carta a primor, que desse idéia de seu talento e ao mesmo tempo de sua
afeição :
     
      "Minha querida mãe.
      Eis-me na grande Corte, que aliás me parece estúpida e acanhada por achar-me longe
de vossemecê..."
      Vinham, em seguida, muitos protestos de amor filial e depois uma extensa descrição da
cidade, a qual ocupava duas laudas da carta . Na terceira  escreveu o seguinte:
      " Desde que vim daí, o Sabino só me tem dado maçadas; a bordo vivia a brigar com os
outros criados; aqui nunca me aparece; sai pela manhã e já faz muito quando volta  à noite.
Pilhou-se sem castigo e abusa desse modo. Ainda não lhe consegui arranjar a matrícula no
Tesouro e nem sei como isso se obtém; o Campos é que há de ver.
      " Como sabe, há mês e meio que me acho hospedado em cada deste. Aqui nada me
falta, é certo, mas igualmente nada me satisfaz, porque estou muito isolado e aborrecido. A
família é atenciosa  o quanto pode ser comigo; eu, porém , apesar disso , não deixo de ser para
eles um estranho e , como tal, apenas recebo cortesias e hospitalidade. D. Maria Hortênsia é
amável, mas por uma simples questão de delicadeza; da irmã, D. Carlotinha, nem é bom falar
!Esta, se já me dispensou duas palavras, foi o máximo, parece até  que tem medo de olhar para
mim ;talvez com receio de desagradar ao guarda-livros, que, pelos modos, é lá o seu namorado.
Do que não resta dúvida é que o tal guarda-livros é de todos o mais antipático e difícil de
suportar. Um hipócrita !Está sempre com a carinha  n' água e já, por várias vezes, se tem
querido meter  a espirituoso cá para o meu lado. - São ditinhos, indiretas de instante a instante.
Eu, qualquer dia destes, o chamo à ordem! Ainda não há uma semana, veja isto! fui a um
espetáculo dramático no São Pedro de Alcântara e à volta, quando cheguei à casa, quis acender
a vela para estudar. Quem disse?...o fogo não se comunicava ao pavio. Verifico :- no lugar da


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torcida  haviam posto um prego ;fiquei com os dedos queimados. E esta graça não foi de outro
senão o tal cara de  mono !
      " Já me lembrou mudar-me ;o Campos, porém, acha que o não devo fazer enquanto não
descobrir por aí um bom cômodo, em alguma casa de pensão."
      E no mesmo teor ia por diante , até encher duas folhas de papel marca pequena.
Amâncio narrava à mãe todos os seus passos e todos os seus desgostos, sem lhe confessar,
todavia, que o principal motivo  daquele descontentamento estavas em não poder recolher de
noite às horas que entendesse; em Ter por único companheiro de passeios o Luís Campos, cuja
sobriedade nos gestos e costumes, discrição nos termos, cujo aspecto repreensivo e pedagógico,
de mentor, faziam-no já perfeitamente insuportável aos  olhos do estudante.
      -  Ora  adeus !considerava este, deveras enfiado. - Não foi para a me fazer santo, que
vim ao Rio de Janeiro !
      Boas !Podia lá estar disposto a sofrer aquele ele maçante do Campos !...Mas também
não seria muito divertido andar sozinho pela cidade, a trocar  pernas, sem um companheiro,
sem um amigo. Além disso temia do seu provincialismo, receava "fazer figura triste"; ainda não
conhecia o preço     das coisa  e o nome das ruas. No Maranhão falavam com tanto assombro
dos gatunos da Corte! _os tais capoeiras! E Amâncio sobressaltava-se pensando num encontro
desagradável, em que lhe cambiassem o dinheiro e as jóias por uma navalhada.
      Seu maior desejo era Ter ali um dos amigos da província, a quem confiasse as impressões
recebidas e com quem pudesse conversar livremente, à franca , sem medir palavras, nem tomar
as enfadonhas reservas e composturas, que lhe impunha a censória presença do negociante.
      Por isso, numa ocasião , em que atravessava  pela manhã o Beco do Cotovelo, sentiu
grande alegria ao dar cara a cara com o  Paiva Rocha. O Paiva  era seu comprovinciano e fora
seu condiscípulo; pertenceram à mesma turma de exames na aula do Pires e matricularam-se
juntos no Liceu. Mas, enquanto o filho do Vasconcelos estudou as três primeiras matérias, o
outro fez todos os preparatórios.
      Abraçaram-se. Houve exclamações de parte a parte.
      - Ora o Paiva !disse Amâncio afinal, encarando o amigo com um olhar muito satisfeito. -
Não te fazia aqui na Corte !
      - Estou na Politécnica.
      - Ah! exclamou Amâncio ,com interesse. - Que ano ?
      - Terceiro.
      - Bom. Estás quase livre !-
      - Qual! resmungou o Paiva, mascando o cigarro. -  tenho ainda muito que aturar!
      E passaram então a falar de estudos. Amâncio fazia recriminações: "Só encontrara
dificuldades".  Disse a sua antipatia pelas ciências práticas ;queixou-se de alguns veteranos, que
por serem mais antigos na escola, se julgavam com direito de maltratar os outros. "Era estúpido!
simplesmente estúpido!"
      - Tradições ! respondeu o Paiva, com a indiferença de quem não preocupam tais
bagatelas.     - Isso há de acabar...A natureza não dá saltos !      
      Amâncio, como qualquer provinciano que ainda não tivesse ocasião de apreciar o Rio de
Janeiro,, julgava-se tão desiludido a respeito dele, quanto a respeito de estudos.
      - Sempre imaginei que fosse outra coisa !...disse. - A tal Rua do Ouvidor, por exemplo!...
      Paiva já não o ouvia, era todo atenção para um cartaz de teatro, que um sujeito pregava
na parede defronte.
      Amâncio prosseguiu, declarando que, até ali, nada encontrara de extraordinário na
Corte.
      - Com franqueza - _antes o Maranhão ! Com franqueza que antes ! Não
achas?...perguntou.
      - É ! respondeu o outro, distraído.


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      Mas Amâncio precisava desabafar e não se contentou com aquela resposta. Insistiu na
pergunta; chamou a atenção do Paiva, agarrando-se-lhe à gola esgarçada do fraque.
      - Não, filho, deixa-te disso, retorquiu o  interrogado. - A Corte sempre é Corte!...
      - Ora qual !
      - É porque ainda não estás acostumado, ainda não conheces o Rio! Hás de ver depois !...
      Amâncio duvidava.
      - Verás ! repetia o Paiva.-  Daqui a um ou dois anos é que te quero ouvir.
      E passaram de novo a falar de estudos, matrícula e de exames.
      Paiva bocejou; o outro estava  "caceteando'' .Quis safar-se.
      - Espera ! implorou Amâncio, apoderando-se-lhe de novo da gola do fraque  - Espera!
      Onde vais tu ?... Conversa mais um pouco! suplicava ele com a voz infeliz de quem pede
uma esmola. Não te vás ainda ! Que pressa !
      Paiva tinha de ir almoçar com um amigo. Estava muito ocupado! "Naquele dia não
dispunha de um momento seu" Depois ,depois se encontrariam !
      - Não!  Vem cá! Espera!
      O Paiva levantou as sobrancelhas, impacientando-se.
      - Mas, vem cá, dize-me uma coisa: o que é que tanto tens hoje a fazer?...inquiriu o outro.
      - Filho, questões de interesse! respondeu aquele, procurando abreviar explicações.
Veio-lhe,  porém, um ímpeto de raiva e começou a falar alto sobre dinheiro; havia brigado na
véspera  com o seu correspondente.
      - Um burro! exclamava,-  um vinagre! Imagina tu que o malvado sabe perfeitamente que
não tenho ninguém por mim aqui no Rio, e põe-se com dúvidas para me dar a mesada! ...Como
se aquele dinheiro lhe saísse do bolso! Diabo da peste!
      - Ele  então não te quis dar a mesada ?...perguntou Amâncio muito espantado.
      - É o costume aqui !retrucou o Paiva desabridamente.-  Eles julgam que nos fazem
grande obséquio em dar-nos aquilo que nos pertence!
      E, olhando para Amâncio com os olhos apertados:
      - Mas também, filho, disse-lhe meia dúzia de desaforos, como ele nunca ouviu em sua
vida! Cão!
      E expôs a descompostura por inteiro, na qual as palavras galego ,ladrão, cachorro
entravam repetidas vezes.
      - De sorte que, terminou o estudante mais tranqüilo, como se houvesse despejado um
peso nas  costas,-  não tenho lá ido ! Questão de capricho, sabes ? olha, estou assim !
      E bateu nas algibeiras.
      - Isso arranja-se ...disse Amâncio timidamente, receoso de humilhar o colega. E depois,
com um  vislumbre: Vamos almoçar a um hotel ?!
      O Paiva concordou, sacudindo os ombros. E, como Amâncio perguntasse onde deviam
ir, começou a citar os melhores hotéis; já sem deixar transparecer o menor indício de pressa.
      Fazia-se grande conhecedor da Corte, muito carioca, saboreando muito voluptuosamente
o efeito de pasmaceira,  que a sua superioridade causava no amigo. Deu-se logo ares de
cicerone ;
      mostrou-se habituadíssimo com tudo aquilo que pudesse causar admiração a um
provinciano recém-chegado; fingiu desdém por umas tantas coisas, que à primeira vista
pareciam boas e falou de outras, menos conhecidas, com entusiasmo, com interesse pessoal e
com orgulho.
      Amâncio escutava-o em recolhido silêncio, mas, como estivesse a cair de apetite, voltou
logo à idéia do almoço: lembrou que poderiam ir ao Coroa de Ouro.
      Paiva fitou-o espantado, e espocou depois uma risada falsa:
      - Aquela era mesma de quem vinha do Norte! Almoçar no Coroa de Ouro Vade retro !
      Amâncio não teve ânimo de defender a sua proposta, e seguiu o companheiro que pusera


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a andar com ímpeto.
      Entram na Rua do Carmo, atravessaram a de  São José e, ao caírem na da Assembléia,
Paiva, que ia a pensar, voltou-se de súbito para Amâncio e perguntou-lhe decisivamente :
      - Tu queres almoçar bem ?!
      E feriu a última palavra.
      - É ! respondeu o outro.
      - Pois então vamos ao Hotel dos Príncipes !
      E seguiram pela Rua Sete de Setembro até o Rocio.
     
                                                                              * * *
     
      Ao penetrarem no largo, uma menina italiana, de alguns dez anos de idade, toda vestida
de luto, morena, o ar suplicantemente risonho e cheio de miséria ,abraçou-se às pernas de
Amâncio, pedindo-lhe dinheiro - para levar à mãe que estava em casa morrendo de fome.
      - Sai ! gritou-lhe o Paiva, procurando arredá-la.
      Mas a pequena ajoelhou-se, sem largar as pernas do calouro, de uma de cujas mãos já se
tinha apoderado e cobria de beijos
      - Então, papai! papaizinho bonito ! uma esmolinha, sim?...dizia ela, voltando para o
moço seus belos olhos de crianças, rindo com uns dentes muito brancos que se lhe destacavam
vivamente da cor morena do rosto.
      - Coitadinha ! lamentou  Amâncio, fazendo-lhe uma festa no queixo e procurando
dinheiro na algibeira das calças..
      Puxou um maço grosso de cédulas.
      - Não sejas tolo! gritou-lhe o companheiro. - Isto é especulação de algum vadio! Vestem
por aí essas bichinhas de luto e mandam-nas perseguir a humanidade! É uma esperteza, não
sejas tolo !
      A pequena lançou ao Paiva um gesto de raiva e sorriu para Amâncio, suplicando.
      - Em todo o caso faz dó, coitada! murmurou este, dando-lhe uma cédula de dois
mil-réis.
      A italianinha agarrou-se ao dinheiro e olhou surpresa para o calouro. Depois beijou-lhe
novamente as mãos, e fugiu, atirando-lhe beijos.
      - Coitada ! repetiu ele.
      - Ainda está muito peludo! resmungou o Paiva.-  Olha que isto por cá não é o
Maranhão!
      E pôs-se logo a falar nas especulações  do Rio de Janeiro. Contou fatos horrorosos  de
cinismo e gatunagem. "Amâncio que se acautelasse: no caminho em que ia, lhe haviam de
arrancar até os olhos.-  Ali, a  ciência de cada um consistia em fazer com que o dinheiro
passasse das algibeiras dos outros para as  próprias algibeiras". Estava indignado ! "Não podia,
a sangue -frio, ver assim se atirar à rua - dois mil-réis !Ah! se o outro soubesse quanto o
dinheiro custava a ganhar, não teria as mãos tão rotas !"
      E mostrava-se extremamente empenhado nos interesses do  colega :   dava-lhe  
conselhos ;
      havia de abrir-lhe os olhos, indicar-lhe o verdadeiro caminho a segui. " Não !Que ele não
era desses, que só querem  desfrutar !... Quando  simpatizava  com  um  rapaz,  sabia  ser
amigo !
      Amâncio o veria no futuro!...
      - Olha ! segredou-lhe ,passando-lhe um braço nas costas, - Hás de encontrar por aí muito
artista !Acautela-te, filho !acautela-te, que os cabras sabem levar água ao seu moinho !Digo-te
isto, porque te estimo, porque sou teu amigo, percebes ?
      Amâncio percebia e jurava ser muito grato àquela dedicação. Tiveram . porém, de


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interromper o diálogo :dois outros estudantes acabavam de parar defronte deles.
      Eram amigos do Paiva. Houve logo novas exclamações e cumprimentos rasgados.
      - Meus senhores, exclamou aquele. apresentando Amâncio. O nosso colega, Amâncio de
Vasconcelos, estudante de medicina. Escuso dizer que é muito talentoso e um caráter excelente.
      Os dois  apertaram a mão de Amâncio com solenidade, e afiançaram que tinham imenso
gosto em conhecê-lo.
      - João Coqueiro e Salustiano Simões !nomeou o Paiva, indicando os dois. - São ambos
da Politécnica E acrescentou em voz baixa, ao ouvido de Amâncio, mas de modo que fosse
ouvido por todos:
      - Muito distintos !...
      O Coqueiro observava em silêncio o novo colega ;enquanto o Paiva e o Salustiano
reatavam um velho colóquio, interrompido à última vez que estiveram juntos; saiu do seu
recolhimento para indagar de que província era Amâncio, como ia-se dando nos estudos e onde
estava hospedado. Entretanto, o Simões afrouxava lentamente na conversa com o outro e caía
aos poucos na sua habitual concentração; já respondia apenas por monossílabos e só despregava
o cigarro dos dentes para bocejar. Afinal, sem conter a impaciência, quis dissolver o grupo; mas
Amâncio tolheu-lhe a idéia perguntando-lhe e mais ao Coqueiro se já tinham almoçado e, visto
que não, pediu-lhes que lhe fizessem companhia.
      Aceitaram, depois de alguma resistência por parte do último; e os quatro rapazes
seguiram imediatamente caminho do hotel, a rir e dar de língua, como se fossem  todos amigos
de muito tempo.
      Paiva Rocha pediu um gabinete particular e aí se instalou com os outros.
      Amâncio estava maravilhado. O aspecto daquelas salas afestoadas, cheias de espelhos,
de cortinas e douraduras , no gênero pretensioso dos hotéis,  ar parisiense dos criados, vestidos
de preto e avental   branco; a cor estridente do gabinete; o perfume das flores que guarneciam
jarras de proporções luxuosas; o alvoroço palavroso e alegre dos que faziam a sobremesa; o
crepitar do riso das mulheres, cujos penteadores branquejavam sobre o escuro dos tapetes; a
reverberação dos cristais; a expectativa de um bom almoço, que seria devorado com apetite, e
finalmente a circunstância de que Amâncio, havia muito não gozava uma pândega; tudo isso lhe
refrescava o humor e o fazia feliz naquele momento
      - Garçon! Gritou o Paiva, entrando no gabinete com um ar sem - cerimônia.-  La carte !
      O criado disparou.
      - Tu falas francês ?...inquiriu Amâncio, já com admiração na voz.
      - Ora ! respondeu o Paiva, levantando os ombros. Aqui na Corte será difícil encontrar
alguém que não fale francês!...
      - Pois eu ainda não sei...disse aquele tristemente..
      - Questão de prática! observou o outro.
      Coqueiro, que acabava nesse momento de entrar no gabinete, conversando com Simões,
propôs que se despissem os paletós.
      Principiaram a comer.
      O Paiva encarregara-se do menu. Estava radiante; parecia empenhado na direção do
almoço, como se tratasse de um trabalho difícil  e glorioso. Escolhia pratos  esquisitos e
determinava os vinhos que os deviam acompanhar.
      - Este Paiva é terrível para um menu! observou o Simões em ar de troças.
      - Não! disse aquele. - Não admito que ninguém dirija um almoço melhor do que eu!
      - Sim, considerou o Coqueiro - mas vais ver por que preço sai tudo isso !...
      - Não faz mal !...apressou-se Amâncio a declarar.-  Sinto-me tão bem entre os
senhores...há tanto tempo não tinha um momento livre, que...
      - Bem, de acordo, respondeu Coqueiro - mas é preciso deixar esse tratamento de
"senhor".


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      Entre  rapazes não deve haver cerimônias, mal-entendidos; somos colegas, temos de ser
amigos, por conseguinte  tratemo-nos  desde  já  por  "tu "!  Não  és  da  mesma  opinião,
ó  Paiva ?
      - In totum!  respondeu este, abraçando Amâncio  pela  cintura. - Nós cá somos
camaradas velhos! vem de longe!
      E parecia querer provar que seus direitos sobre o comprovinciano eram muito mais
legítimos que os dos outros dois; que Amâncio lhe pertencia quase exclusivamente, como um
tesouro, como uma fortuna que se traz do berço. E, para deixar isso bem patente, fazia-se muito
íntimo com ele: batia-lhe nas pernas; evocava recordações; lembrava-lhes as correrias das
província:
      - Ah ! Nós éramos muito  camaradas ! Lembras-te Amâncio daquele passeio que
fizemos ao Portinho ?...
      - Em que o Malheiros tomou uma bebedeira de charuto, perguntou o interrogado a rir. -
Naquele dia do barulho no Liceu; quando o Chico moleque foi expulso !...
      - É  verdade!  que  fim  levou  esse  rapaz! Quis  saber o Paiva. - Era um bom tipo.
Inteligente!
      - Morreu, coitado! de bexigas. Ultimamente estava no comércio.
      - E aquele pequeno, o ...
      - Qual ?
      - Aquele bonito, de cabelos grandes ...ora, como se chamava ele? ... o ...
      - Ah ! exclamou Amâncio, soltando uma risada - o Dominguinhos ?
      - Isso ! isso! Dominguinhos justamente ! Que fim levou ?
      - Não sei, não! Creio que seguiu  para Manaus com a família. Um bobo ! Lembras-te da
troça que lhe fizemos no convento?...
      E os dois riram-se muito com a mesma idéia.
      Simões, que até ali parecia pouco disposto à pândega, foi-se animando na proporção das
garrafas  que se enxugavam. O almoço aquecia. João Coqueiro propôs um brinde a Amâncio e
declarou, depois de lhe fazer muitos elogios, que folgaria imenso com ser recebido no rol de
seus amigos.
      Amâncio abraçou-o e prometeu que o iria  visitar no primeiro Domingo.
      - Vá feito ! sustentou o Coqueiro. Ali não há cerimônia, minha família é muito despida
dessa coisas.
      - Ah ! mora com a família ? interrogou o provinciano.
      - Sou casado, respondeu o outro.-  Isso, porém ,nada quer dizer. Apareça.
      Ficou decidido que Amâncio iria sem falta no próximo Domingo.
      Simões principiou então a falar sobre o casamento ;daí passou às mulheres: descreveu a
sua indiferença  por  elas.  Só  lhes  conhecia  dois  gêneros :  "a  mulher  cínica  e a
mulher  hipócrita".
      Paiva Rocha protestava: - Havia muita mulher honesta, verdadeiros anjos de virtude ! E
que deixassem de falar ! em certas ocasiões uma  boa rapariga tinha o seu cabimento ! Sim
!Quem não gostava da estética ?...
      Amâncio era da mesma opinião, e queixou-se de sua infelicidade no Rio a esse respeito.
      - Ainda é cedo ! elucidou o Salustiano .- Quando te começarem as aventuras, hás de ver
o quer vai por essa sociedade !
      - Não é tanto assim! opôs o Coqueiro.-  Vocês são todos homens dos extremos!
      E voltando-se confidencialmente para Amâncio :
      - O doutor, decerto, encontrará uma mulher perigosa, de quem deve fugir como o diabo
da
      cruz; mas terá também ocasião de ver algumas raparigas bem educadas, honestas e
inteligentes. Não as vá procurar na alta sociedade, não ,que aí se escondem as piores! mas


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indague-as por baixo, na mediocracia, que as há de descobrir. E olhe, se quer aceitar um
conselho de amigo, case-se! Não há melhor vidinha! Estou casado há três anos e ainda não tive
um segundo de arrependimento !...Ao menos conserva-se a saúde, desenvolve-se o espírito  e
trabalha-se mais ...O método, homem ! o método é o segredo da existência !
      E, puxando a cadeira par mais perto de Amâncio,  falou-lhe em voz baixa. Que no Rio
de Janeiro era preciso ter um amigo sincero, não que  "primasse nos menus ", mas que fosse
capaz, que tivesse imputabilidade moral ! - Amâncio estava defronte de duas estradas; uma que
conduzia à verdadeira felicidade e outra que conduzia à desordem, ao vício e à completa
desmoralização!  Que se   não  deixasse levar pelos pândegos !... (E olhava à esconsa os dois
outros companheiros. ) Aquilo era gente sem nada a perder!... Amâncio, enfim, que aparecesse
no Domingo e teriam ocasião de falar mais de espaço. Não deixasse de ir: havia muito que dizer
e conversar.
      Amâncio prometeu de novo.
      O almoço chegara ao ponto em que todos os comensais falam todos ao mesmo tempo e
em voz alta. Havia agitação; afogueavam-se as faces ao reflexo vermelho das paredes do
gabinete. Simões discutia com o Paiva a incompetência dos professores da Politécnica.
      - Uma súcia ! uma cambada ! sintetizava ele. -  Se fosse preciso despedir dali os que não
prestam, não ficaria nenhum!
      O outro protestava, gritando e batendo punhadas sobre a mesa. Havia já dois copos
quebrados.
      O criado trouxera a sobremesa, - uma salada russa.
      Paiva pediu gelados e quis que lhe dessem uma omelette au rhum. "Não podia passar
sem isso ao almoço!"
      Suavam.
      Amâncio tornava-se expansivo: falou de seus amores na província; contou as suas
intenções  a respeito da mulher do Campos.
      - Ela parece que o que tem é medo. dizia.-  Mas eu sou perseverante ! Espero !
      - Menino, segredou-lhe o Paiva. - Vai aproveitando, porque é isso o que se leva deste
mundo!
      - E o    mais são histórias !...concluiu o filho de Vasconcelos.
      E fazia-se muito fino, perigoso, e continuava a parolar com embófia, loquaz um pouco
sacudido pelo almoço.
      Coqueiro estudava-o de socapa, a seguir-lhe os gestos, a  fariscar-lhe as intenções. Dos
quatro era o único que não estava tonto: seus olhos, pequenos e de cor duvidosa, conservavam a
mesma penetração e a mesma fixidez incisiva de ave de rapina; sua boca estreita, bem
guarnecida  e quase sem lábios, tinha o mesmo riso arqueado, mal seguro e frio, de quem escuta
e observa.
      Era de altura regular, compleição ética, rosto comprido, de um moreno embaciado,
pouca barba, pescoço magro , nariz agudo, mãos pálidas e secas, voz doce e cabelo muito
crespo, de colorido incerto, entre castanho e fulvo. Tinha vinte e sete anos, mas aparentava,
quando muito, vinte e dois.
      O Paiva erguera-se para fazer um bestialógico, e soltava de enfiada frases sonoras e ocas
de sentido: ouvia-se falar em  "gazofiláceos, camelos da Patagônia e constelações híbridas do
mapa-múndi". Simões, o macambúzio, derreara a cadeira contra a parede e jazia a palitar a boca,
estendido para trás, em uma posição de homem farto: barriga ao vento, braços moles e um olhar
muito pando, que se lhe entornava por todo o rosto em sorrisos de preguiça. Amâncio reatava a
sua conversa com o Coqueiro
      - É como lhe digo, recapitulava este. - Aquilo não é um hotel, é uma -  casa de família
!Não temos hóspedes, temos amigos! Minha mulher é quem toma conta  de tudo!...E dando à
voz um tom grave :- Ela é muito asseada, muito exigente em questões de comida! Você não


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imagina !...Ao almoço temos três pratos, a escolher, leite, chá ou café, e vinho ;pelo almoço
pode calcular o que não será o jantar !- E depois é preciso observar a qualidade dos gêneros
!...enfim, só mesmo você  indo ver !
      Amâncio  reprometia.
      - Fica-se muito melhor em uma casa de família, continuava o outro. A vida em hotel ou a
vida em república é o diabo: estraga-se tudo, - o estômago, o caráter, a bolsa ;ao passo que ali
você tem o seu banho frio pela manhã, torradas à noite e, se cair doente ( o que lhe não desejo ),
há quem o trate, quem lhe prepare um remédio, um caldo, um suadouro, um escalda-pés...Olhe !
até, se você quiser eu...
      Mas a porta abriu-se com violento  empuxão , e uma mulher loura, gorda, vestida de
seda amarela, precipitou-se no gabinete, espavorida, a soltar gritos. Vinha-lhe no encalço um
sujeito idoso, cheio de corpo, o chapéu a ré, o olhar desvairado e convulso.
      - Podes ir para onde quiseres, que eu não te deixo ! berrava ele em fúria, a dardejar o
guarda-chuva sobre as costas da perseguida;  esta corria de um lado para outro, procurando
escapar-lhe, mas o sujeito agarrou-a pelos cabelos e consegui trazê-la contra si, levando os dois
aos trambolhões tudo o que encontravam no caminho.
      Em menos de um segundo era completa a desordem no gabinete. Caíram cadeiras; a
mesa estremeceu com um encontrão, e a saleira e duas garrafas perderam o equilíbrio e
tombaram, varrendo copos e esmagando pratos. O tal guarda -chuva havia num dos golpes
espatifado os globos do candeeiro, e um dos fragmentos do vidro fora de encontro ao espelho e
o fizera em pedaços.
      - Isto não tem jeito !Gritou o Paiva ao homem. - O senhor faz mal em invadir desta
forma um gabinete ocupado!
      Mas o invasor já não ouvia coisa alguma e acabava de sair aos pescoções  com a sujeita.
      Paiva atirou-se-lhe à pista, armado de uma garrafa. O gerente do hotel apareceu, porém,
cortando-lhe o passo e pedindo-lhe, por amor de Deus que não fizesse caso, que deixasse lá os
dois se esbordoarem à vontade !
      - Era o costume ! Acabariam por entender-se perfeitamente!.
      - O senhor  então acha que  isto é razoável ?!  perguntou o Paiva  furioso.
      - Não, decerto !
      E o gerente dava aos rapazes toda a razão: Deviam estar maçados, mas que tivessem
paciência! que desculpassem! Não fora possível evitar tão grande sensaboria: O Brás, em
questões de mulheres, perdia sempre a cabeças! E ele não sabia que diabo de rabicho tinha o
basbaque pelo demônio da Rita Baiana, que, de vez em quando, era aquilo !
      - Pois que se vá enrabichar para o diabo que o carregue !
      - Decerto, decerto ! apoiava o gerente , procurando acalmar o estudante.
      - Ajuste as contas onde quiser, menos nos gabinetes ocupados pelos outros ! Arre !
      - É exato ! Os senhores têm todo o direito, mas por quem são, não façam caso ! Não
façam      caso.
            - E esta ! insistia o Paiva.-  Pois se a gente paga muito mais para ficar em
liberdade, como   diabo há de se admitir isto ?!...
      - Tem toda a razão !Tem toda a razão !...repetia o gerente, erguendo as cadeiras e
apanhando  do tapete os cacos de vidro.
      Só  então intervieram os outros rapazes. Amâncio, até aí, parecia colado à cadeira
.Estava lívido e as pernas tremiam-lhe.
      O gerente ia responder a  todos, quando a porta se tornou a abrir, e o Brás, ainda
transformado pela comoção da briga, ofegante e pálido, quase  sem poder falar, entrou,
dizendo, - que ia pedir desculpa da grosseria por ele praticada  há pouco.
      - Mas estava possesso! justificava-se ele. - Aquela não-sei-que-diga lhe fazia perder as
estribeiras ! Que o desculpassem, porque um homem em certas ocasiões nem se podia conter!


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Uma mulher, com quem já havia gasto para mais de dez  contos  de réis!...exclamava ele fora
de si. Uma mulher que erguera da lama podia assim dizer! Uma desgraçada que antes de o
conhecer, não podia ir a parte alguma por não Ter um vestido capaz!...Uma miserável, que
dantes, para matar a fome, precisava aviar encomendas de costura e se andar alugando na casa
de modistas!...Era duro! Pois não achavam ?!
      Os estudantes meneavam a cabeça ,afirmativamente.
      - Ah ! continuou o Brás.-  Aquelas contas tinham-se de ajustar na primeira ocasião em
que ele a encontrasse com o tal troca-tintas ! Ah ! Já  não podia ! Era demais ! U !
      E passeava no gabinete, a empurrar com o pé os cacos esquecidos no chão, e a sorver o
ar em grandes haustos, consoladamente, como se acabasse de alijar um peso da consciências.
      As palavras do Brás tranqüilizaram os rapazes, cuja embriaguez parecia ter fugido com o
susto. O Simões chegou mesmo a rir do fato, jactando-se mais uma vez da sua eterna
indiferença pelas mulheres. - Com ele é que nunca haveria de suceder semelhante
coisa!...afirmava.
      Amâncio convidou o Brás a beber, e vazou-lhe vinho num copo.
      - Aquela descarada! resmungava o ciumento, examinando uma arranhadura que vinha de
descobrir na mão direita. - Ela, porém, comigo está iludida !- ou me anda muito direitinha ou há
de me ficar debaixo dos pés ! Pedaço de uma ingrata !
      E, voltando-se para o gerente que acabava de entrar;
      - O sujeitinho foi-se, hein ?
      - Ora !...respondeu aquele com um riso servil. - Ganhou logo a rua e...por aqui é o
caminho! Ela é que pelos modos, ficou bem convidada! Meteu-se no quarto a chorar.
      - Pois que chore na cama que é lugar quente!  Não fosse ordinária!  Faça lá o que bem
entender, mas,  com os diabos!  não  enquanto  estiver  comigo!  Vá  divertir-se  com  o
boi !  Sebo!
      E passado logo em seguida pra um tom de voz calma e amiga. disse baixo ao gerente :
      - Veja de quanto foi o prejuízo e faça uma conta a parte.
      Pediu ainda uma vez desculpa aos rapazes, afiançou que eles tinham um criado na
Ladeira da Glória, número tantos, e saiu, sempre às voltas com a sua arranhadura da mão
direita.
      Amâncio quis condenar o fato, mas o Paiva observou-lhe que aquilo se dava todos os
dias no Rio de Janeiro.
      - Eu já não estranho ! disse. - Falta de educação !...
      - Bem, meus senhores, são horas de eu me ir também chegando, advertiu Coqueiro,
erguendo-se enfiando o paletó.
      O Simões fez igual movimento e declarou que o acompanhava.
      - Então, que é isto já? Exclamou Amâncio, querendo detê-los.
      - É. Está se fazendo tarde, respondeu Coqueiro, a consultar o relógio. - Três horas.
      - Impossível !negou Amâncio.
      - Era exato.
      E Coqueiro, já de chapéu na cabeça e guarda-chuva debaixo do braço, apertou-lhe a mão
com as duas, dizendo que folgava em extremo haver travado relações com ele e que o esperava,
sem falta, no Domingo. Simões fez igualmente as suas despedidas, e os dois saíram a conversar
sobre o quanto poderia custar a Amâncio aquele almoço.
      - Também, que diabo, ficamos nós fazendo aqui? lembrou o Paiva, quando se viu a  sós
com o amigo. - Paga isso e vamo-nos embora. Queres tu ir até lá a casa ?...
      - Mas eu já estou a tanto tempo na rua ...considerou Amâncio.
      - E o que tem isso ?!...Deves contas de ti a alguém ?!Ora essa !
      - É  que o Campos pode reparar !...
      - Pois que repare! Manda plantar batatas ao tal de Campos! Tu não és nenhum caixeiro


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dele...Eu, no teu caso, nem ficava ali mais um dia !Que necessidade tens agora de passar às
sopas de um negociante, e sujeitares-te a regulamentos comerciais ? É de mau gosto estar
hospedado em casa de negócio!  Olha!  Se quiseres, muda-te  lá para a república. Sempre é
outra coisa morar com rapazes! Aprende-se!
      O criado, a quem já tinham pedido a conta, entrou com uma pequena salva na mão e foi,
instintivamente, depô-la em frente de Amâncio.
      - Espere, disse este, tirando dinheiro do bolso. E entregou-lhe uma nota de cem mil
-réis.
      O moço saiu correndo.
      - Quanto foi ? desejou saber o Paiva.
      Oitenta e cinco mil-réis, respondeu o outro.
      - Oitenta e cinco mil-réis ! Oh! Que grande ladroeira !
      E logo que o criado voltou com o troco:
      - Homem, faça o favor de dizer em que se gastou aqui oitenta e cinco mil-réis !...Salvo se
vossemecês metem também na conta o que quebrou o Brás !
      - Não senhor! Eu só cobrei os copos, que já estavam partidos antes do rolo.
      - Que enorme ladroeira ! insistia o Paiva, a sacudir a cabeça.
      - Deixa lá ! aconselhou Amâncio, puxando-o para fora.
      Precisava andar e tomar fresco . Aquele gabinete era um forno - sentia-se mal.
      - É que não posso ver extorquir desta forma  o  dinheiro  a  ninguém!  disse o Paiva
indignado.
      E  principiou a fazer as contas pelo que se lembrava de ter vindo à mesa.
      Amâncio o puxou de novo :
      - Deixa lá isso ,homem !
      - Nada ! Pelo menos  hei de vingar-me  aqui em alguma coisa !
      O criado havia saído. Paiva Rocha principiou a derramar o resto das garrafas no
açucareiro, a emporcalhar o damasco da cortina e a cuspir dentro das chávenas.
      Amâncio ria-se formalmente, mas, no íntimo aborrecido:
      -  Agora  podemos ir ! disse afinal o outro. - Ao menos deixo-lhe um  prejuízo !
      E ainda meteu no bolso um paliteiro e duas colheres.
      - Lá na república, precisava-se daqueles objetos ! acrescentou rindo. Já na rua,  Amâncio
reparou que a cabeça lhe estava muito pesada e queixou-se de suores frios. Paiva chamou um
carro , e, uma vez  dentro com o colega, mandou tocar par a Rua de Mata- Cavalos.
      - Esqueceste aquilo de que falamos?  perguntou em viagem ao companheiro.
      Amâncio já não se lembrava.
      Paiva respondeu, fazendo um sinal com os dedos .
      - Ah ! Quanto  Queres ?
      - Dá cá uns cinqüenta ou sessenta...depois tos pagarei.
      - Pois não! gaguejou Amâncio, passando-lhe três notas de vinte mil-réis.
     
     
      I V
      Amâncio chegou à  república  muito indisposto.
      Quase que não dava conta  dos quatro lances de escada, que a  precediam.
      Também foi só chegar e atirar-se à primeira cama, gemendo e resbunando  ao peso de
uma grande aflição. Estava mais branco do que a cal da parede; o suor escorria-lhe por todo o
corpo; respirava com dificuldade;  a abrir a boca e a retorcer os olhos.
      -  Então! disse  o Paiva, batendo-lhe no ombro.
      -  Mal!  respondeu  Amâncio , sem levantar a cabeça, que deixara cair sobre o peito. E
com um gesto pediu água.


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      -  Isso passa! afiançou o  colega, entregando-lhe o púcaro  cheio. Estás  é  com um
formidável  pifão.
      E riu-se.
      -  Eu quero vomitar ! exclamou Vasconcelos, apressado pela agonia,  e mal teve tempo
de erguer o rosto.
      -  És um fracalhão! Ponderou o companheiro, amparando-o pela testa. -  Que diabo!
Quem não pode com o tempo não inventa modas!
      -  Amâncio não respondia: Os engulhos vinham-lhe  uns sobre os outros.
      -  Ai! ai!  gemia  oprimido .
      -  Ora que tipo! disse o Paiva , atirando-o sobre os travesseiros.-  Vê se consegues
dormir! Isto não é nada!
      E narrou um caso idêntico,  que experimentara.
      Amâncio sentia-se um pouco mais aliviado, continuava, porém, a suar frio; tinha a
cabeça completamente ensopada e não dispunha de forças para coisa alguma. Os olhos
fechavam-se-lhe com um entorpecimento pesado de sono. Pediu mais água. E, depois de a
tomar , deu a entender que era preciso que o despissem e descalçassem .
      Paiva entrou a tirar-lhe a roupa, safou-lhe com dificuldade as botinas , porque as meias
estavam suadas.
      Amâncio, muito prostrado,  mole, a virar-se de uma para outra banda, aiava sempre. A
final sossegou, parecia adormecido; mas, ergueu-se logo, com ímpeto, e começou a vomitar de
novo, sem dizer palavras.
      -  Que pifão!  reconsiderava  o colega, encarando-o com as mãos cruzadas atrás.
      -  Homem! Vê -se lhe dás um pouco de amônia! lembrou  do fundo do quarto uma voz
arrastada e um pouco fanhosa.
      Só então Amâncio percebeu que ali, a seis ou sete passos distante dele, estava um rapaz
magro , muito amarelo, em  ceroulas  e corpo nu, estendido numa cama, a ler, todo
preocupado, um grosso volume que tinha sobre o estômago. Parecia deveras  ferrado no seu
estudo, porque até aí  não dera fé do que se lhe passava em derredor.
      -  Olha! disse ao  Paiva.-  Creio  que está  acolá , sobre a banca, por detrás do Comte.
É um frasquinho quadrado, com rolha de vidro.
      Dito isto, recolheu-se de novo à leitura, como se nada houvesse  sucedido.
      Amâncio  serenou de todo com algumas gotas de amoníaco em um copo d'água , e
afinal pegou no sono profundamente.
      Só acordou no dia seguinte, quando o sol já entrava pela única janela do quarto.
      Sentia a  boca amarga e o corpo moído. Assentou-se na cama e circunvagou em torno os
olhos  assombrados, com a estranheza de um doido ao recuperar o entendimento.
      O sujeito magro da véspera lá estava no mesmo  sítio; agora , porém dormia,
amortalhado a custo num insuficiente pedaço de chita vermelha.
      Do lado oposto, no chão, sobre um lençol encardido e cheio de nódoas, a cabeça
pousada num jogo de dicionários latinos, jazia o Paiva, a sono solto, apenas resguardado por um
colete de flanela. Mais adiante, em uma cama estreita de lona, viam-se dois moços, ressonando
de costas um para o outro, com as nucas unidas, a disputarem silenciosamente  o mesmo
travesseiro.
      O quarto respirava todo um ar triste de desmazelo e boêmia. Fazia  má impressão  estar
ali: o vômito de Amâncio secava-se no chão, azedando a ambiente; a louça, que servira ao
último jantar, ainda coberta de gordura  coalhada, aparecia dentro de uma lata abominável,
cheia de contusões e comida de ferrugem. Uma banquinha , encostada à parede, dizia com o seu
frio  aspecto  desarranjado que alguém estivera aí a trabalhar durante a noite, até que se
extinguira a vela, cujas últimas gotas de estearina se derramavam melancolicamente pelas bordas
de um frasco vazio de xarope Larose, que lhe fizera as vezes de castiçal. Num dos cantos


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amontoava-se  roupa suja; em outro repousava uma máquina de fazer café, ao lado de uma
garrafa de espírito de vinho. Nas cabeceiras das três camas e ao comprido das paredes, sobre
jornais velhos e desbotados, dependuravam-se calças e fraques de casimira: em uma das
ombreiras da janela  havia umas lunetas de ouro, cuidadosamente suspensas de um prego. Por
aqui e por ali pontas esmagadas  de cigarro e cuspalhadas ressequidas. No meio do soalho, com
o gargalo decepado, luzia uma garrafa.
      A luz franca e penetrante da manhã  dava a tudo isso um relevo ainda mais duro e
repulsivo: o coração de Amâncio ficou vexado e corrido,  como se todos os ângulos daquela
imundície  o espetassem a um só tempo. Ergueu -se cautelosamente, para não acordar os
outros, e foi à janela. O vasto panorama lá  de fora estremulhou-lhe os sentidos com o seu
aspecto.
      A república era muito no alto, sobre três andares, dominando uma grande extensão.
Viam-se de cima as casa acavaladas uma pelas outras, formando ruas, contornando praças. As
chaminés  principiavam a fumar; deslizavam as carrocinhas multicores dos padeiros; as vacas de
leite caminhavam com o seu  passo vagaroso, parando à porta dos fregueses, tilintando o
chocalho ; os quiosques vendiam café a homens de jaqueta e chapéu desabado; cruzavam-se na
rua os libertinos retardios com os operários que  se levantavam para a obrigação; ouvia-se o
ruído estalado dos carros d'água, o rodar monótono dos bondes. Mais para além pressentiam-se
cordilheiras, graduando planos esfumados de neblina. O horizonte  rasgava-se à luz do sol, num
deslumbramento de cores siderais. E lá muito ao longe, quase a perder de vista , reverbava a
baía, laminando as águas na praia.
      Embaixo, na área da casa, uma ilhoa, de braços nus, a cabeça embrulhada em um lenço
de ramagens, lavava a um tanque de cimento romano; um homem, em mangas de camisa, varria
as pedras do chão, cantarolando com os dentes cerrados, para não deixar cair a ponta do
cigarro. Numa janela, um sujeito, de óculos azuis, areava  os dentes e com a boca atirava
duchas sobre um papagaio, cuja gaiola pousava no balcão. Dentro de um cercado cacarejavam
galinhas, mariscando na terra;  e o homem do lixo entrava e saia, familiarmente, com o seu gigo
às costas.
      Um relógio da vizinhança bateu seis horas.
      Amâncio reparou que estava com muita sede, mas não descobria a talha d'água. Afinal
encontrou-a, num sótão que havia ao lado do quarto e onde só se entrava vergando o corpo.
      Bebeu até  à saciedade.
      Depois lavou o rosto e a boca. E, com a idéia de sair antes que os mais acordassem,
vestiu-se apressado, contou  o dinheiro que lhe restava, lamentando interiormente o que na
véspera esbanjara; viu no chão uma escova de fato, apanhou-a, escovou a roupa, e, todo cautela
e ponta de pé, abriu a porta e ganhou a escada.
      Entre o primeiro e o segundo andar encontrou uma rapariguita de alguns dezesseis anos,
que subia com dois copos de leite, um em cada mão, fazendo mil esforços para não os entornar.
Ao ver Amâncio ela emperrou, cosendo -se à parede, a fim de lhe dar passagem, e olhou-o de
esguelha, com medo de afastar a vista dos copos.
      Era bonitinha,  corada, os cabelos castanhos apanhados na nuca.  Parecia portuguesa.
      Amâncio  ao passar por ela, estacou também, à fitá-la. De repente  lançou-lhe as mãos.
      A pequena, muito contrariada fez uma cara de raiva e gritou-  que a soltasse!  que não
fosse atrevido!
      E desviava o corpo, querendo defender-se mas sem se descuidar dos copos.
      -  Mau ! mau !  siga o seu caminho e deixe os outros em paz!
      Amâncio não fez caso e conseguiu beijá-la à pura força. Derramaram-se algumas gotas
de leite.
      -  Maus raios te partam!  clamou a rapariga,  assim que o viu pelas costas.-  Peste ruim
de um estudante!


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      * * *
     
      A peste ruim do estudante saiu, e só interrompeu a caminhada para entrar num
botequim, onde  pediu café. Então, defronte do espelho, pôde admirar o belo estado em que se
achava.
       -  Como diabo havia de apresentar-se  naquele gosto em casa do Campos?... Também
que triste idéia a sua - de se enterrar numa casa comercial?  Não! Com certeza estava mal
hospedado... nem lhe convinha permanecer ali ! -  Oh ! Bastava já de ser governado, de ser
vigiado a todo instante !          -  Já era tempo de gozar um pouco de liberdade.
      E, enquanto sorvia  compassadamente o café, recapitulava na memória todo o seu
passado de terror e submissão: -  Antes de entrar para a escola de primeiras letras, nunca lhe
deixaram transpor a porta da rua ou  a porta do quintal;   os outros meninos de sua idade
tinham licença para empinar papagaios, brincar entrudo, queimar fogos pelo tempo de São
Pedro; - ele  não! depois caiu nas garras do professor, -  aquela fera! Nunca saia de casa,  sem
levar atrás de si um escravo para o vigiar, para impedi-lo de fazer travessuras e obrigá-lo a
caminhar com modo, direito, sério como homem.  Afinal escapou ao professor, sim! mas
continuou sob a dura vigilância do pai, do tio e das tias;  todos rondavam;  todos o traziam
"num cortado".  Só na fazenda da avó conseguia desfrutar alguma liberdade, mas essa mesma
não era completa e, ai! durava tão pouco tempo!...
      Agora compreendia a razão pela qual, no mês  de férias que passava aí, se tornava tão
maligno, -  é que naturalmente queria desforrar o resto do ano, que levava coagido em casado
pai. De sua infância eram aqueles meses privilegiados  a coisa única que lhe merecia verdadeira
saudade;  ao mais estrangulavam tristes reminiscências de castigos, de sustos, apoquentações
de todo o gênero.
      A própria idéias de sua mãe nunca lhe vinha  só; havia sempre ao lado  da venerada
imagem alguma recordação enfadonha e constrangedora.-  As poucas vezes em que estavam
juntos, o pai chegava no melhor da intimidade e Ângela se retraía, cortando em meio as carícias
do filho, como se as recebera de um amante, em plena ilegalidade do adultério.
      E a memória desses beijos a furto e medrosos, a  memória desses carinhos cheios de
sobressalto, relembravam-lhe as vezes que ele em pequeno se metia no quarto dos engomados,
de camaradagem   com as mulatas da casa que aí trabalhavam conjuntamente.
      Era quase sempre pelo intervalo das aulas, ao meio-dia, quando o calor quebrava o corpo
e punha nos sentidos uma pasmaceira voluptuosa.
      Em casa do velho Vasconcelos havia, segundo o costume da província, grande número
de criadas; só no "quarto da goma", como lá se diz, reuniam-se quatro ou cinco. Umas
costuravam; outras faziam renda, assentadas no chão, defronte da almofadas de bilros; outras,
vergadas sobre a "tábua de engomar",  passavam roupa a ferro.
      Amâncio ,quando criança, gostava de se meter com elas, participar de suas conversas
picadas de brejeirice, e deixar correr o tempo, deitado  sobre saias, amolentando-se  ao calor
penetrante das raparigas, a ouvir, num  êxtase mofino, o que elas entre si cochichavam com
risadinhas estaladas à socapa. Por outro lado, as mulatas folgavam em tê-lo perto de si,
achavam-no vivo e atilado, provocavam-lhe ditos de graça, mexiam com ele, faziam-lhe
perguntas maliciosas, só para  " ver o que o demônio do menino respondia" .E, logo que
Amâncio dava a réplica, piscando os olhos e mostrando a ponta da língua, caíam todas num
ataque de riso , a olharem umas para as outras com intenção.
      De resto, ninguém melhor do que ele para subtrair da despensa um punhado de açúcar
ou de farinha, sem que Ângela desse por isso.
      - O demoninho era levado!
      E assim se foi tornando mulherengo, fraldeiro, amigo de saias.


[Linha 1400 de 8244 - Parte 1 de 5]


      A mãe, quando ouvia da varanda as risadas da criadagem, gritava jogo pelo filho.
      - Já vou mamãe ! respondia Amâncio.
      Lá estava o diabrete do menino às voltas com as raparigas no quarto da goma! Oh! que
birra tinha  ela disso!...
      Mas Amâncio não se corrigia. É que ali ao menos não chegaria o pai.
      As vezes ,quando ia passear à casa de alguma família conhecida, arranjava-se com as
moças, gostava de acompanha-las por toda parte, fazendo-se muito  dócil e amigo de servir.
Como era ainda perfeitamente criança e bonitinho, elas lhe faziam festa e  davam-lhe doces,
figurinos de papel recortado e caixinhas vazias. Algumas lhe perguntavam brincando se ele as
queria para mulher, se queria "ser seu noivo".   Amâncio respondia que sim com um arrepio.    
E daí a pouco ficavam as moças muito surpreendidas quando o demônio do menino lhes saltava
ao colo e principiava a beijar-lhes sofregamente o pescoço e os cabelos ou a meter-lhes a língua
pelos ouvidos.
      - Credo ! disse uma delas em situação idêntica..-  Que menino ! Vá para longe com as
suas brincadeiras.   !
      Outras, porém, lhe achavam muita graça e eram as primeira s a puxar por ele.
      De todos os brinquedos o que Amâncio mais  estimava era o de  "fazer casa".  A casa
fazia-se sempre debaixo de uma mesa, com um lençol em volta, figurando as paredes. Uma de
suas primas, filha do protetor de Campos, ou alguma menina que estivesse passando o dia com
ele, representava de mulher; Amâncio de marido. A menina ficava debaixo da mesa, enquanto
ele andava por fora, "a ganhar a vida " até que se recolhia também a casa, levando compras e
preparos para o almoço.     Amarravam um lenço em duas pernas da mesa, fingindo rede, e aí
metiam uma boneca, que era o filho.
      Gostava infinitamente dessa brincadeira. Mas um belo dia veio abaixo o lençol que
servia de parede, e desde então Ângela não consentiu que o filho se divertisse a fazer casa.
      Muitos anos depois, aos quinze anos, notou-se incomodado por um padecimento
estranho. Não disse nada à família e procurou um homem que havia na província com grande
habilidade para curar moléstias, viessem elas até do mau-olhado e do feitiço.
      Santo homem ! O mal do nosso estudante desapareceu como por milagre; o que, aliás,
não impediu que tivesse daí a pouco de voltar à cama, debaixo de um novo e mais formidável
carregamento que o ia varrendo ao cemitério.. Foram esses três  anos de sezões a que se referia,
quando pela primeira vez falou ao Campos.
      E Amâncio ,quanto mais rememorava tudo isso, quanto mais remexia no cinzeiro  do
passado, tanto mais impacientes lhe rosnavam os sentidos e tanto mais desabrida lhe vinha a
necessidade de gozar, de viver em liberdade, de recuperar o tempo que levou sopeado e preso.
      -  Enfim ! concluiu ele, erguendo-se distraído e abandonando  o café - a casa do
Campos não me convém ! não me convém de forma alguma!
      Mas a idéia de Hortênsia, que, para se apresentar, só esperava o termo daquelas
considerações, invadiu-lhe o espírito e foi a pouco e pouco se estendendo e se esticando por
todo ele, até ocupá-lo inteiramente com a sua imagem branca e palpitante, como uma bela
mulher que desperta e, entre voluptuosos  espreguiçamentos ,  alonga pela cama os seus
membros entorpecidos de sono.
      E ele, quando deu por si, estava a fazer conjeturas sobre o amor de Hortênsia :
      - Seria ardente ou calmo?  Meigo ou arrebatado? Que atitude tomaria a bela mulher
nos momentos supremos de ventura? Quais seriam  as suas palavras, as frases do seu delírio?...
      E, aguilhoado pelos sentidos, perdia-se em cálculos infames, em degradantes suposições;
tentando, embalde, adivinhar-lhe os pensamentos, penetrar-lhe nos escaninhos do coração e
devassar-lhe todos os segredos do corpo.
      - Oh! Como seria ?...
      E seu desejo vil começava a despi-la, peça por peça, até deixá-la completamente nua.


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      - Mas não! não havia possibilidade! contrapunha-lhe a razão.-  Tudo aquilo era loucura,
simples loucura! Hortênsia  não podia ser mais séria, mais amiga do marido!  Qual fora a
palavra, o gesto, que lhe dera  a ele o direito de pensar em semelhante coisa?... Sim!  que fizera
a pobre senhora para autorizá-lo a tanto ?...  Onde estava o fundamento daqueles sonhos, pelos
quais   queria trocar a sua liberdade, os seus prazeres, tudo, e ficar encurralado em uma casa
comercial, com obrigação de entrar às tantas, comer às tantas e guardar todas  as conveniências
ao lado de uma gente impossível ?!...Ora !  que se deixasse de asneiras! Não fosse tolo!
      Hortênsia  Campos aparecia-lhe então como em verdade o era: carinhosa e altiva, afável
para todos igualmente, sem dar a nenhum o direito de supor uma preferência. Amâncio já não a
tinha descompostas defronte dos olhos mas respeitosamente restituída ao seu  vestidinho  de
chita, à suas botinas de duraque, quase sem salto, e às tranças honestamente penteadas.
      - Mudava-se !Que  dúvida !Sim !Uma vez que Hortênsia nada mais era do que uma
senhora virtuosa, que diabo ficava ele fazendo ali ?...Não  seria decerto pelos bonitos olhos do
Campos !
     
      * * *
     
      As oito horas, quando entrou em casa tinha já resolvido não ficar ali  nem mais um dia. -
Era fazer as malas e bater quanto antes a bela plumagem !
      Mas também, se por um lado não lhe convinha ficar em  companhia do Campos: por
outro , a idéia de se meter na república do Paiva não o seduzia absolutamente.  Aquela miséria
e aquela desordem lhe causavam repugnância. Queria liberdade, a boêmia ,a pândega-  sim
senhor ! tudo isso, porém, com um certo ar , com uma certa distinção aristocrática. Não admitia
uma cama sem travesseiros, um almoço sem talheres e uma alcova sem espelhos. Desejava a bela
crápula,-  por Deus que desejava !mas não bebendo pela garrafa e dormindo pelo chão de águas
- furtadas ! - Que diabo !- não podia ser tão difícil conciliar as duas  coisas!...
      Pensando deste modo, subiu ao quarto. Sobre a cômoda estava uma carta que lhe era
dirigida; abriu-a logo :
      "Querido  Amâncio.
      Desculpe tratá-lo com esta liberdade; como, porém, já sou seu amigo, não encontro jeito
de lhe falar doutro modo. Ontem, quando combinamos no  Hotel dos Príncipes a sua visita
para Domingo, não me passava pela cabeça que hoje era dia santo e fazíamos melhor em
aproveitá-lo; por conseguinte, se o amigo não tem compromisso, venha passar a tarde conosco,
que nos dará com isso grande prazer. Minha família, depois que lhe falei a seu respeito, está
impaciente para conhecê-lo e desde já fica à  sua espera."
      Assinava "João Coqueiro" e havia o seguinte post-scriptum : "Se não puder vir,
previna-mo por duas palavrinhas; mas venha. Resende  n..."
      Amâncio hesitou em se devia ir ou não. O Coqueiro ,com a sua figurinha de tísico, o seu
rosto chupado e quase verde, os seus olhos pequenos e penetrantes, de uma mobilidade de olho
de pássaro, com a sua boca fria, o seu nariz agudo, o seu todo seco egoísta, desenganado da
vida, não era das coisa que, mais o atraíssem. No entanto, bem  podia ser que ali estivesse o que
ele procurava, - um cômodo limpo, confortável, um pouquinho de luxo, e plena liberdade.
Talvez aceitasse o convite.
      - Esta  gente onde está ?perguntou ,indicando o andar de cima a um caixeiro que lhe
apareceu no  corredor,  com  a  sua  calça  domingueira,  cor  de  alecrim,  o  charuto  ao
canto  da  boca.
      - Foram passear  ao  Jardim  Botânico, respondeu aquele, descendo as escadas.
      - Todos? Ainda interrogou Amâncio.
      - Sim, disse o outro entre os dentes, sem voltar o rosto. E saiu.
         - Está resolvido !pensou o estudante. - Vou à casa do Coqueiro. Ao menos estarei


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entretido durante esse tempo !
      E voltando ao quarto :
      - Não! É que tudo ali em casa do Campos já lhe cheirava mal !..Olhassem para o ar
impertinente com que aquele galeguinho lhe havia falado !...Em tudo o mais era pelo mesmo
teor.      - Uma súcia  d' asnos !
      Começou a vestir-se de mau humor, arremessando a roupa, atirando com as gavetas. O
jarro vazio causou-lhe febre, sentiu venetas de arrojá-lo pela janela ;ao tomar uma toalha do
cabide, porque ela se não desprendesse logo, deu-lhe tal empuxão que a fez em tiras.
      - Um  horror! Resmungava, a vestir-se furioso, sem saber de quê.
      - Um horror !
      E ,quando passou pela porta da rua, teve ímpetos de esbordoar o caixeiro, que nesse dia
estava de plantão.
     
      V
     
      João Coqueiro era fluminense  e fluminense da gema. Nascera na Rua do Parto em uma
das casas de seus pais, quando estes eram ricos.
      Que o foram. Viera-lhes a fortuna do avô materno, um português ambicioso e
econômico, que a conquistara no tráfico dos negros africanos; ao morrer legou à filha, ainda
criança, para cima de quinhentos contos de réis. Esta, mais tarde, foi solicitada em casamento
pelo homem a que pertenceu para sempre, -  Lourenço  Coqueiro, os maiores bigodes que nesse
tempo negrejavam na Corte do Império.
      Lourenço, todavia, era já um destroço quando casou. Do que fora e do que possuíra,
apenas lhe restava, além do bigode, o hábito de não fazer coisa alguma; nos melhores grupos
citava-se, entretanto, o seu ar distinto de fidalgo e falava-se Dom boa vontade de seus dotes
pessoais e do seu belo espírito eternamente galhofeiro.
      O casamento representou para ele  uma tábua de salvação. A mulher adorava-o; tinha-o
na conta de um ente superior; jamais vira homem tão lindo de rosto, tão insinuante no falar, tão
delicado de maneiras.
      Mas, pouco depois de casado, Lourenço  começou a desgostá-la: era um nunca terminar
de festas; a casa vivia num rebuliço constante; os intervalos das pândegas não davam sequer
para a trazer arrumada e limpa. Quando não fossem bailes, eram passeios, piqueniques , manhãs
no campo, dias passados na Tijuca ou no Jardim Botânico. Lourenço, às vezes, voltava ébrio, a
cachimbar no fundo do carro, e a fazer carícias piegas à mulher, que, ao lado, chorava
silenciosamente. Ela, coitada! Tinha muito medo sempre que o via nesse gosto, porque o
demônio do homem dava então para brigar, mexia  com quem passava, metia a bengala nos
cocheiros  e quebrava com os pés tudo que encontrasse no caminho.
      Tiveram o primeiro filho -  Janjão. Criancinha feia,  dessangrada, cheia de asma. Até
aos cinco anos parecia idiota; passava os dias a babar-se debaixo da mesa de jantar, ao pé de um
moleque encarregado de vigiá-lo.
      A  mão desfazia-se em mil cuidadozinhos com a criança; era esta o seu enlevo, a sua
vida.  Mas o pai não estava por isso: -  temia que o rapaz lhe saísse um maricas. Desejava-o -
forte, decidido!
      E, com enormes sobressaltos da mulher, tomava-o pelas perninhas magras e suspendia-o
no ar.
      -  Os homens assim é que se fazem, minha filha! Dizia ele a rolar o pequeno entre as
mãos.
      E não admitia igualmente que o menino tivesse outra cama que não fosse um enxergão.
Não o queria calçado, nem vestido e, em vez de estar ali a babar-se defronte do moleque, seria
muito melhor que fosse correr  para a chácara.


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      -  Ele pode se machucar, Lourenço , cair! Observava a esposa timidamente.
      -  Pois deixa-o cair! Deixa-o machucar-se! Quanto mais trambolhões levar  em pequeno,
melhor depois se agüentará nas pernas !
      -  Mas ele é tão fraquito, coitadinho!
      -  Por isso mesmo! Por isso mesmo precisamos  torná-lo forte! E  previno-te de que já é
mais que tempo de acabar com esse insuportável tratamento  de "Janjão"!  Aqui não há
janjões! Meu filho  chama-se -  João! Tem o nome do avô, um herói, um fidalgo! Não desses
que hoje se fazem  aí a três por dois, mas dos legítimos, dos bons! Entendes tu? -  dos bons!
      E inflamava-se, como sempre que se referia à sua procedência. Vinha, com efeito, de
fidalgos: era sobrinho bastardo de um conde português.
      À mesa exigia que o filho lhe ficasse ao lado e obrigava-o a comer bifes sangrentos e
tomar vinho sem água.
      Um dias a esposa revoltou-se:
      - Pois tu vais dar conhaque ao menino, Lourenço? ! exclamou ela escandalizada.
      -  Deixa-o cá comigo , senhora! Eu sei o que faço!
      -  Olha que isso pode sufocá-lo, homem de Deus !
      -  Qual sufocar o quê ! Por essas e outras  é que, para os estrangeiros, não passamos de
"uns macacos"!
      A mulher que se desse ao trabalho de saber como se fazia na Europa a educação física
das crianças ! Queria que ela visse a criação que tiveram D. Pedro e D. Miguel ! E eram
príncipes ! -  Entendia ? -  eram príncipes legítimos !
      E voltando-se para o filho, gritou, arregalando os olhos e soprando os bigodes, que já
então se faziam cinzentos:
      -  Tu não queres ser um homem forte, João ? !  Queres ser um descendente degenerado
de teus avós ?!
      Janjão olhou o pai com medo, e abriu a  chorar.
      -  Aí tens o que procuravas ! disse a mulher, correndo para junto do filho. -  Assustar
desse modo  a pobre criança !
      Janjão chorava mais.
      -  Isso ! Isso é que o há de pôr  pra  diante! Berrou Lourenço encolerizando-se. Beba já
esse conhaque, menino!
      -  Deixa a criança ! ...suplicava a mãe. -  Olha como treme  o pobrezinho!... o coração
parece que  lhe quer saltar! ...
      -  E tomou-o no colo.
      -  É melhor mesmo que leves daí esse mono ! Rira-mo dos olhos ! Já estou vendo a boa
lesma que isso há de dar!
      -  Mães  ignorantes !..
      Quando Janjão principiou a crescer, o pai levava-o a toda a parte, dava-lhe  charutos,
obrigava-o a tomar cerveja nos cafés.  Foi, porém, uma campanha  conseguir uma vez que o
pequeno se assentasse por dois minutos na dela de um cavalo em que Lourenço havia chegado
do seu passeio favorito a Botafogo.
      Janjão, trêmulo da cabeça aos pés, agarrava-se com ambas as mãos nas crinas do animal
e berrava pela mãe com toda a força de que era capaz. Tiveram de desmontá-lo para não o
verem rebentar ali mesmo .
      -  Ora, como diabo me havia de sair este mono! Lamentava o pai desesperado. -
Ninguém acreditaria  que aquele choramingas era seu filho !
      Não foram mais felizes com as primeiras tentativas  de natação ou as primeiras
experiências de atirar ao alvo: Janjão , só com a vista do  mar ou a presença de um revólver ,
desatava a soluçar e a berrar pela mãe.
      -  Não ! Isso agora hás de Ter paciência! resmungava  Lourenço.


[Linha 1600 de 8244 - Parte 1 de 5]


      -  Tu ao menos ficarás sabendo dar um tiro ! Sou eu quem to assegura!
      E, com muita sutileza, comprou para o filho uma bela pistolinha de brinquedo, que
estalava fulminantes, e depois uma outra, mais séria, que  admitia carga de pólvora.
      Janjão era, porém, cada vez mais refratário  a tudo isso. Preferia ficar a um canto da
sala, entretido a vestir os seus bonecos ou a fazer de cozinheiro. A mãe por esse tempo dava-lhe
uma irmãzinha, que se ficou chamada  Amélia, e desde aí o maior encanto do menino era tomar
conta do caixão em que estava a pequerrucha toda envolvida em panos, e não  consentir que as
moscas lhe pousassem na moleira.
      Um dia, o pai, descendo ao quintal, encontrou-o muito empenhado com o moleque a
armar um oratório. Iam fazer  procissão: o andor e o santo estavam prontos; uma sombrinha,
enfeitada  de franjas, faria as vezes de pálio.
      Lourenço  ficou desesperado, e com dois pontapés reduziu tudo aquilo a frangalhos.
      -  Era o que lhe faltava ! -  que o basbaque do filho, além de tudo, lhe saísse carola!
      E, quando subiu, disse terminantemente  à mulher que não admitia que o filho
corrompesse o espírito com patacoadas daquela ordem.
      - Se me constar, bradou ele ao pequeno,-  que me tornas a fazer igrejinhas, racho-te de
meio a meio, pedaço de uma lesma! Ora vamos a ver! Cai noutra, e terás uma sapeca que te
deixe a paninhos de sal! Experimenta e verás!
      Ele queria lá filhos devotos! Era só o que lhe faltava! Era só! Aquele  menino parecia o
seu castigo! Parecia a sua maldição!
      Aos doze anos Janjão entrou para o internato de Pedro II. A princípio custou-lhe
bastante compreender as lições, mas, como era muito estudioso e muito paciente, os professores
em breve o elogiavam. Tinham - no em boa estima pelo seu espírito católico, pela docilidade de
seu gênio  e pelo irrepreensível de sua conduta. João  Coqueiro, de fato, fora sempre um
menino sossegado, metido consigo, respeitador dos mestres e dos preceitos estabelecidos,
devoto e extremamente cuidadoso de seus livros e de suas obrigações. Ninguém lhe ouvia
palavra mais áspera ou gesto menos conveniente, e às vezes entrava pela hora do recreio
grudado aos livros sem os querer deixar.
      O pai via-o então com orgulho. Profetizava já que ali estivesse um sábio.
      Tirou distinção nos primeiros exames. A mãe quase morre  de alegria. Lourenço  quis
solenizar o acontecimento com um banquete correlativo; mas as suas condições de fortuna já
não eram as mesmas; o dinheiro ia minguando de um modo assustador. Se lhe viesse a falhar
uma especulação, em que se havia lançado ultimamente, como recurso extremo -  Adeus!
estaria  tudo perdido! A ruína seria inevitável!
      Fez-se a festa, não  obstante, e o menino voltou aos estudos.
      Mas Lourenço principiava a sofrer  gravemente de uma lesão cardíaca. Tinha ataques
nervosos, sufocações, e caía de vez em quando em fundas melancolias, durante as quais se
enterrava no quarto, sem poder suportar a presença  de ninguém, muito frenético, cheio de
apreensões, com grande medo de morrer.
      A mulher assustava-se: o marido não lhe parecia o mesmo homem. Estava acabado;
crescera-lhe o ventre, o nariz  tomara uma vermelhidão gordurosa, o cabelo encanecera
totalmente, a cabeça despira-se, a pele do rosto fizera-se opada e suja. Comprazia-se, agora, a ir
à noite pelas igrejas, embrulhado na sua  sobrecasaca russa, apoiando-se à grossa bengala de
cana da Índia, os pés à vontade em sapatos rasos. Ajoelhava-se  a um canto da nave, em cima
das pedras, e aí  permanecia longamente, a ouvir  os sons lamentosos do órgão, com o rosto
descansado sobre as mãos que se cruzavam no castão da bengala.
      Às vezes chorava.
      Seu estômago irritado já não queria os alimentos ; era preciso enganá-lo de instante a
instante com um pouco de noz-vômica ou carbonato de magnésia. Não se lhe podia suportar o
hálito.


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