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sábado, 15 de abril de 2017

Casa de Pensão - Parte 2 de 5 - Aluísio Azevedo


Casa de Pensão - Parte 2 de 5 - Aluísio Azevedo




      Quando recebeu a notícia de que a sua especulação  falhara, estava no quarto, não  
conseguiu sair do lugar em que se achava. Uma onda  vermelha subira-lhe à cabeça :os objetos 
principiaram a dançar-lhe em torno dos olhos; o chão fugia-lhe debaixo dos  pés. Tentou ainda 
dar alguns passos, mas cambaleou e caiu afinal sobre as pernas embambecidas, - como uma 
trouxa.
      Morreu no dia seguinte.
      

                                                                                      * * *  

    
     
      A família ficou pobre. Foi  preciso vender o melhor de dois prédios que  restavam, para 
saldar as dívidas do defunto.
      A viúva principiou então a tomar encomendas de costura e de engomagem.
      Isso, porém  não bastava; era necessário, a todo o transe, que o menino continuasse  nos 
estudos.    Em tal aperto, lembrou-se a pobre mãe de admitir hóspedes; a  casa que ficou tinha 
bastante  cômodos e prestava-se admiravelmente para a coisa.
      Vieram os primeiros inquilinos; arranjaram-se fregueses para o almoço e o jantar, e o 
órfão prosseguiu nas sua aulas.
      Dentro de pouco tempo, o sobrado da viúva de Lourenço era a mais estimada e popular 
casa de pensão do Rio de Janeiro.
      Foi nela que Janjão se fez homem. Aí o viram bacharelar-se e aí se matriculou na Escola 
Central. A irmão respeitava-o como a um pai.
      Amélia, por conseguinte, cresceu em uma  casa de pensão. Cresceu no meio da egoística 
indiferença de vários hóspedes, vendo e ouvindo todos os dias  novas caras e novas opiniões, 
absorvendo o que apanhava da conversa de caixeiros e estudantes irresponsáveis; afeita a comer 
em mesa-redonda, a sentir perto de si , ao seu lado, na intimidade doméstica, - homens 
estranhos, que se não preocupavam com lhe aparecer em mangas de camisa, chinelas e peito nu. 
      Ainda assim deram-lhe mestres. Aprendera a ler e a escrever, tocava já o seu bocado de 
piano e,   - se Deus não mandasse o contrário-  havia de ir muito mais longe.
      Um novo desastre veio, porém, alterar todos esses planos: a viúva de Lourenço, depois 
de dois meses de cama , sucumbiu a uma pneumonia.
      João Coqueiro estava então no segundo ano da Politécnica; Amélia a fazer-se mulher por 
um daqueles dias; parentes - não os tinham ... capitais - ainda menos...Como pois sustentar a 
casa de pensão? ...Oh!    Era preciso despedir os hóspedes, alugar o prédio, abandonar estudos 
e obter um emprego. 
      Arranjou-o de fato - na estrada de ferro de Pedro II. Coqueiro dissolveu logo a casa de 
pensão e foi mais a irmã residir em companhia de uma francesa, muito antiga no Brasil e que 
durante longo tempo se mostrou amiga íntima da defunta. 
      Chamava-se  Mme. Brizard.
      Era mulher de cinqüenta anos, viúva de um afamado hoteleiro, que lhe deixara muitas 
saudades e dúzia e meia de apólices da dívida publica.
      
      
                                                                                 * * * 
      
      Estava ainda bem disposta, apesar da  idade. Gorda, mas elegante e com uns vestígios 
assaz pronunciados de antigas formosura, .Tinha os olhos azuis e os cabelos pretos, no tipo 
peculiar ao meio-dia  da França. Carne opulenta e quadril vigoroso.
      Notava-se-lhe a boca, com um desses lábios superiores que formam como que duas 
camadas; o que aliás não obstava a que  Mme. Brizard tivesse um sorriso gracioso, e ainda 


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tirasse partido da brancura privilegiada de seus dentes. Mas a sua riqueza e a sua vaidade era o 
pescoço, um grande pescoço pálido, cheio de ondulações macias e fartas.
      Nascera em Marselha.
      Depois de certa idade tornara-se muito caída para o romantismo; desde então apreciava 
uma noite de luar; dava-se à leitura prolongada de poetas tristes; fazia-se mais infeliz do que era 
de fato, e contava a todos a sua história. - _Um romance!
      "Aos quinze anos saíra da família pelo braço de um diplomata russo, que a idolatrava;-  
ia casada. O russo tresandava a genebra e rescendia a sarro de cachimbo; ela abominou-o logo, 
abominou-o entre uma enorme corte de adoradores fascinados por sua beleza e sequiosos por 
um de seus sorrisos; era, porém, honesta: - conservou-se pura e fiel ao marido."
      Mme. Brizard, quando chegava a este ponto do romance, abaixava os olhos, levando 
lentamente o leque à boca para disfarçar um suspiro.
      "Enviuvou aos vinte anos; o russo não lhe deixara filhos;-  voltou à família. Aí lhe 
apareceu então Mr. Brizard, homem de talento, político e escritor, grande republicano. A subida 
de Luís Felipe ao trono atirou com ele ao Brasil, onde se fez hoteleiro.
      Tiveram aqui três filhos: duas mulheres e um homem. Este era o último e  muito se 
distanciava das irmãs em idade; quando lhe faltou o pai tinha apenas sete anos.
      A filha mais velha representava a glória da família: unira-se a um ministro 
plenipotenciário; a outra, coitada, não casou mal, porém  com a  morte  do  marido, e  de  
um  filhinho  que  lhe   ficara,
      tornou-se muito nervosa, histérica, e até, meio pateta; agora vivia e mais o irmão em 
companhia da mãe"
      
                                                                                    * * * .
      
      
      
      Nessas condições, a proposta de João Coqueiro pareceu vantajosa a Mme. Brizard. - Ele 
que trouxesse a irmã a bela Amelita, e tudo se arranjaria prelo melhor.
      Juntaram-se Mme. Brizard revelou pronto interesse pelos dois hóspedes, principalmente 
pelo  "Coqueirinho" como lhe chamavam em família. Fazia-se mito carinhosa com ele, queria 
ser a sua "segunda mãe", apreciava-lhe o talento, e andava a mostrar os versos do rapaz a todas 
as pessoas que apareciam à noite, para as torradas.
      Reuniam-se em volta da mesa de jantar; iam buscar o loto e jogavam. Coqueiro lia a um 
canto, ou ficava no quarto, a cachimbar soturnamente, olhando o fumo e cismando na vida.
      Mme. Brizard fazia perfeitamente as honras da casa; dava-se por mulher de muito 
espírito e de uma educação peregrina. Se havia então alguém que a visitasse pela primeira vez - a 
coisa ia mais longe. Desenfiava os seus melhores ditos, contava como por incidente, as suas 
anedotas de mais efeito, falava gravemente de sua filha casada com o ministro e exibia todos os 
seus conhecimentos literários.
      Que os tina, inegavelmente. Lamartine lá estava  no quarto dela ,sobre o velador, 
encadernado com esmero. Mas não desdenhava os poetas  brasileiros e lia  Camões. Uma sua 
amiga, muito chegada, dizia que lhe ouvira páginas inéditas de um livro sobre o Brasil, - livro 
para fazer "sensação"!
      Mme. Brizard confirmava este boato, sorrindo com modéstia.
      João Coqueiro, esse, não sorria,. Ao contrário, parecia cada vez mais triste; passava 
tempos sem aparecer a ninguém, depois que largava o trabalho. Por mais de uma vez houver que 
lhe visse lágrimas nos olhos.
      A francesa, que se achava  então no seu período mais agudo de sentimentalismo, 
respeitava muito as melancolias do pobre moço, falava a respeito dele com a voz baixa, cheia de 


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um acatamento religioso. Só lhe  passava pelo quarto na pontinha dos pés, e, quando o triste 
hóspede saía  para o emprego, ela  corria  a lhe arrumar a mesa, com desvelo, ordenando os 
livros, reunindo os papéis esparsos, lendo, sobre a pasta, os versos começados na véspera.
      Uma tarde, acharam-se os dois um defronte do outro, assentados sozinhos na varanda 
da sala de jantar, que dava para um lugar plantado de bananeiras. O sol descia lentamente no 
horizonte por uma escadaria de fogo; as cigarras estridulavam no fundo da chácara; a noite ia 
emanando.
      Coqueiro olhava à toa para isso, absorto e mudo; depois suspirou e escondeu o rosto nas 
mãos.    Mme. Brizard passou-lhe um braço no ombro.
      - Coqueirinho! que é isso?...
      Queria saber o motivos daquelas tristezas. Começou a interrogá-lo, com a voz untuosa, 
cheia de amor.
      Ele então falou abertamente de suas aspirações, de seus estudos interrompidos, de sua 
incompatibilidade com o emprego que exercia.
      - Sou muito caipora! Exclamava. - Sou muito caipora!
      E chorava.
      Mme. Brizard procurou consolá-lo, falou do futuro,, lembrou a idade de coqueiro e 
aconselhou-o a que não desanimasse.
      Foi daí que lhes veio a idéia de casamento. 
      Mme.  Brizard era muito mais velha do que ele, mas,  talvez, por isso mesmo, fosse a 
esposa que melhor lhe convinha.
      - Ah! ela estava no caso de fazê-lo feliz, porque o amava! Oh!  Se o amava! Seria talvez 
uma loucura; talvez viessem a censurá-la; - ela mesma não sabia explicar o que aquilo era, como 
aquilo acontecera! Mas, dava a sua palavra de honra, jurava pela memória de seu pai-  em como 
nunca sentira por ninguém o que então sentia por Coqueiro! Ah! sabia perfeitamente que bem 
poucos compreenderiam a sua paixão! Sabia que muitos haveriam de ridicularizá-la, haveriam de 
escarnece-la; ela própria, até ali, nunca imaginara que se pudesse amar tanto!... Durante a sua 
vida , nunca se sentiu possuída por uma idéia , tão escrava, tão vencida, como naquele instante! 
Contudo, se desejava o casamento não era decerto pelo fato de possuir um homem. - _ Oh,  
não !- deixava isso para as almas grosseiras... e Coqueiro bem sabia o quanto seu coração tinha 
de espiritual e de puro!... Desejava aquele enlace para licitamente [pode aplicar todo o seu 
esforço, toda a sua coragem, todas as sua diligências, na conquista de um bom futuro para o 
esposo. Queria casar-se, porque entendia que isso se tornava necessário à felicidade de 
Coqueiro. Toda a sua vida, todos os seus  recursos dela, seriam empregados para o mesmo fim: 
- facultar ao marido os meios de estudar, os meios de crescer, desenvolver-se, luzir. Alcançasse 
ele um nome,  uma posição brilhante, uma atitude gloriosa, e tudo o mais lhe seria indiferente. 
Que lhe importava o resto?... Se ela, porventura, fosse esquecida, fosse  desprezada, se viesse  
mesmo a falecer daí a pouco tempo - que valia tudo isso, se o objeto de seus extremos era ditoso 
e vivia cercado de admiração e aplauso?...
      E Mme. Brizard , depois de lhe falar na posteridade e depois de convencer ao Coqueiro 
de que aquele casamento era um dever sagrado, pois  que não realizá-lo eqüivalia a privar o 
Brasil de uma de suas glórias futuras e ao século um de seus vultos talvez mais grandiosos, 
Mme. Brizard, depois disso, entrou nos pormenores de seu plano.
      - Uma  vez casados, ressuscitariam  a antiga casa de pensão. Ela dispunha  de algum 
dinheiro; o outro dispunha de um prédio: - era restaurá-lo e dar começo à vida! Coqueiro 
abandonaria o emprego e voltava de novo aos estudos;" ela encarregava-se da gerência da casa 
e, nesse ponto, deitando de parte a modéstia,  supunha-se mais habilitada que ninguém. 
      Até já tinha projetos, já tinha asa suas idéias sobre a instalação da casa!...Sentia-se de 
disposta a trabalhar por vinte!...Coqueiro havia de ver! Seu estabelecimento seria uma casa de 
pensão modelo! Coisa para dar "uma fortuna e render à  Amelinha um bom casamento._ Um 


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casamentão!" Ah!    Ela , a francesa, sabia perfeitamente como  tudo isso se arranjava no 
Brasil.
      E concluiu , jurando inda uma vez, que-  para si não queria nada! Que só desejava a 
felicidade do Coqueiro e de sua irmã dele.
      Era assim que entendia o amor!
      Três meses depois estavam casados.
      Boquejou-se alegremente sobre isso na Escola Politécnica . Os amigos do Coqueiro 
acharam ocasião de rir, e a tal mulher do ministro plenipotenciário, a gloria da família, escreveu 
à mãe uma carta carregada de recriminações, declarando que nunca lhe perdoaria semelhante 
loucura.-    Loucura , de que para o futuro haveria  Mme.  Brizard de se arrepender muito  
seriamente.
      Os recém-casados fecharem , porém ,ouvidos a tais palavras e cuidaram de ir pondo em 
prática os seus novos planos de vida
      Meteram mãos à obra. Coqueiro deixou o emprego, contratou um empreiteiro para 
restaurar o seu velho prédio da Rua do Resende, e a casa de pensão de Mme. Brizard ( como 
teimosamente insistiam em lhe chamar a mulher ) surgiu ameaçadora, escancarando para a 
população do Rio de Janeiro a sua boca de monstro.
      
      V I
      
      Foi justamente três anos depois disso que Amâncio  chegou ao Rio  de Janeiro.
      A casa de Mme. Brizard  estava então no seu apogeu; de todos os lados choviam 
hóspedes, entre os quais se notavam pessoas de importância. Pelo tempo das câmaras 
reuniam-se ali alguns deputados da província, homens sérios, em geral gordos, o ar discreto, um 
sorriso infantil à superfície dos lábios e um fraseado imaginoso, cheio de poesia. Fazia-se  
política no salão, depois da comida, em chinelas de tapete, ao remansado soprar do fumo da 
Bahia.
      A dona da casa gozava para eles de muita consideração; só um ou outro, mais atirado à 
pilhéria, ousava atribuir a algum dos seus  "nobres colegas "os sorrisos de Mme. Brizard.
      Outros entusiasmavam-se por ela.
      - Não! diziam. - Aquela mulher devia ter sido um pancadão no seu tempo! Tudo que era 
pescoço e ombros ainda se podia ver! Quem dera a muitas novas  um colo daqueles!
      De uma feita , um deputado de Minas, criatura baixa, socada, rosto curto, poucas 
palavras e muita barba, empalmou-lhe a cintura, quando a pilhou sozinha na sala de jantar.
      A francesa abaixou os olhos, afastou-se dignamente e foi logo dizer ao marido que era 
necessário pôr aquele homem na rua.
      - O Moura! Por quê ?
      - Não te posso dizer por que...mas afianço que o Moura não nos convém!...
      - Fez-te alguma?
      - Faltou-me ao respeito!
      - Hein?!
      - Agarrou-me a cintura e ter-me-ia beijado o pescoço ,se eu lho permitisse.
      Esta última parte da queixa fazia mais honra ao espírito inventivo de Mme. Brizard do 
que ao seu espírito de verdade; ela, porém,  não resistia ao gostinho de falar no seu  rico 
pescoço, sempre que se oferecia a ocasião.
      E o Moura  teria posto os ossos na rua, se a própria Mme. Brizard não intercedesse por 
ele no dia seguinte,  alegando que o pobre homem havia na véspera carregado um pouco mais 
no virgem.
      Também foi só. Nunca mais, que constasse palpitou ali sombra de escândalo, e a famosa 
casa de pensão continuava a sustentar a melhor aparência deste mundo. Até se dizia à boca 


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cheia que, por mais de uma vez, já se hospedaram verdadeiras celebridades,  e eram todos de 
acordo que no Rio de Janeiro ninguém fazia espetadas de camarão tão saborosas como as da 
simpática irmãzinha do João Coqueiro, a Amelita. Uma verdadeira especialidade. Constava  até 
que vinha gente de longe ao cheiro daqueles camarões.
            A  casa  tinha  dois  andares  e  uma boa  chácara no fundo.  O salão de visitas 
era  no   primeiro.
      -  Mobília antiga, um tanto mesclada; ao centro, grande lustre de cristal, coberto de filó 
amarelo; três largas janelas de sacada, guarnecida de cortinas brancas, davam para a rua; do lado 
oposto, um enorme espelho de moldura dourada e gasta inclinava-se pomposamente sobre um 
sofá de molas; em uma das paredes laterais, um detestável retrato em óleo de Mme. Brizard, 
vinte anos mais moça, olhava sorrindo para um velho piano, que lhe ficava fronteiro; por cima 
dos consolos vasos bonitos de louça da Índia, cheios de areia até à boca.
            Imediato à sala, com uma janela igual àquelas outras, havia uma gabinete, 
comprido e muito estreito, onde Coqueiro tinha a sua biblioteca e a sua banca de estudo. Via-se 
aí uma pasta cheia de papéis, um tinteiro e um depósito de fumo, representando o busto de um 
barbadinho; ao fundo, uma conversadeira de palhinha, encostada à parede, por debaixo de um 
pequeno caixilho de madeira com o retrato de Victor Hugo em gravura.
            Seguia-se o aposento de Mme. Brizard e mais do marido, onde também dormia o 
menino César, que teria então doze anos; logo depois estava o quarto de Amelinha e da tal 
viúva histérica, Leonie, a quem a família só tratava  por  "Nini".
            Vinha depois a grande sala de jantar, forrada de papel alegre; nas paredes 
distanciavam-se pequenos cromos  amarelados, representando marujos de chapéu- de- palha, 
tomando genebra, e assuntos de conventos, - frades muito nédios e vermelhos refestelados à 
mesa ou a brincarem com mulheres suspeitas. Um  guarda-louça expunha, por detrás das 
vidraças, os aparelhos de porcelana e os cristais; defronte - um aparador cheio de garrafas, ao 
lado de outro em que estavam os moringues.
            Ainda havia um corredor, a despensa, a cozinha, uma escada que conduzia 'a 
chácara, outra ao segundo andar, e mais três alcovas para hóspedes, todas do mesmo  tamanho 
e numeradas.
            A numeração dos quartos principiava aí nesses três par continuar em cima. Em 
cima é que estava o grande recurso da casa, porque Mme. Brizard dividira   todo o segundo 
pavimento em oito cubículos iguais; ficando  quatro de cada lado e o corredor no centro. Os da 
frente davam janelas para a rua e os do fundo para a chácara. As paredes divisórias eram de 
madeira e forradas de papel nacional.
      
      
      * * *
      
       
      João Coqueiro, quando saiu do Hotel dos Príncipes na manhã do almoço, ia preocupado; 
o Simões, que caminhava à sua esquerda um pouco sacudido pelos vinhos, em vão tentou, 
repetidas vezes, puxá-lo à palestra; o outro respondia apenas por monossílabos e, na primeira 
esquina, despediu-se e correu logo para casa.
      Ao chegar foi direito à mulher, dizendo-lhe em voz baixa, antes de mais nada:
      - Olha  cá, Loló...
      E encaminhou-se para o quarto. Mme. Brizard largou o que tinha entre as mãos e segui-o 
atentamente.
      - Sabes? Disse ele, sem transição, assentando-se ao rebordo da cama. - É preciso 
arranjarmos  cômodo para um rapaz que há de vir por  aí Domingo.
      - Um rapaz! Mas tu sabes perfeitamente que os quartos acham-se todos ocupados. Se 


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tivesses prevenido... o n° 2 ainda ontem estava vazio...Mas quem é? 
      - Há de se arranjar, seja lá como for! Disse o Coqueiro.
      - Mas quem é?...insistiu Mme. Brizard.
      - É um achado precioso! Ainda não há dois meses que chegou do Norte, anda às 
apalpadelas! Estivemos a conversar por muito tempo: - é filho único e tem a herdar uma fortuna! 
Ah! Não imaginas: só pela morte da avó, que é muito velha, creio que a coisa vai para além de 
quatrocentos contos!...
      Mme. Brizard escutava, sem despregar os olhos de um ponto, os pés cruzados e com 
uma das mãos apoiando-se no espaldar da cama.
      -  Ora , continuou o outro gravemente. -  Nós temos de pensar no futuro de Amelinha... 
ela entrou já nos vinte e  três !... se não abrirmos os olhos... adeus casamento!
      -  Mas daí ... perguntou  a mulher, fugindo a participar da confiança que o marido 
revelava naquele plano.
      -   Daí -  é que tenho cá um palpite! explicou ele. -  Não conheces  o Amâncio!... A 
gente leva-o  para onde quiser!... Um  simplório , mas o que se pode chamar um simplório!
      Mme Brizard fez um gesto de dúvida.
      -  Afianço-te ,  volveu  Coqueiro, -  que , se o metermos em casa e se conduzirmos o 
negócio com um certo jeito, não lhe dou três meses de solteiro!
      
                                                                                  * * *
      
      
      Nessa mesma tarde Mme Brizard entendeu-se com a cunhada. Falou-lhe sutilmente no 
"futuro", disse-lhe que "uma menina pobre, fosse quanto fosse bonita, só com muita habilidade 
e alguma esperteza poderia apanhar um marido rico". 
      E tocando lhe intencionalmente  no queixo: 
      -  Anda lá , minha sonsa, que sabes disso tão bem  como eu!...
      Amélia riu, concentrou-se um instante e prometeu fazer o que estivesse no seu alcance, 
para agradar ao tal sujeitinho.
      Ardia, com efeito por achar marido, por se tornar dona de casa. A posição subordinada 
de menina solteira não se compadecia com a sua idade e com as desenvolturas  do seu espírito. 
Graças  ao  meio em que se desenvolveu, sabia perfeitamente o que era pão e o que era queijo;  
por conseguinte as precauções e as reservas, que o  irmão tomava para com ela, faziam-na sorrir.
      Às vezes tinha vontade de acabar com isso. "Que diabo significavam tais cautelas?...Se a 
supunham uma toleirona, enganavam-se - ela era muito capaz de os enfiar a todos pelo ouvido 
de uma agulha!"
      - Agora,  por exemplo, neste caso do tal  Amâncio, que custava ao Coqueiro explicar-se 
com ela francamente?...Por que razão, se ele precisava de seu auxílio, não a procurou e não lhe 
disse às claras:  "Fulana, Domingo vem aqui um rapaz, nestas e nestas condições; vê se o 
cativas, porque ali está o noivo que te convém!" Mas, não senhor! - meteu-se nas encolhas e 
entregou tudo nas mãos da mulher!
      - Ora! Disse consigo a rapariga. - Isto até nem sei que me parece! Ou bem que somos, ou 
bem que não somos!...Se Janjão queria alguma coisa de mim, era falar com franqueza e deixar-se 
de recadinhos  por detrás da cortina!
      E Amélia, quanto mais refletia no caso, tanto mais se revoltava contra a reserva do 
irmão:
      - Ele já a devia conhecer melhor! Pelo menos já devia saber que aquela que ali estava era 
incapaz de cair em qualquer asneira; aquela não "dava ponto sem nó ".Outra que fosse, quanto 
mais    - ela, que conhecia os homens, como quem conhece a palma das próprias mãos ! - Ela, 
que viu de perto, com os seus olhos de virgem, toda a sorte de tipos!-  ela, que lhes conhecia as 


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manhas, que sabia das lábias empregadas pelos velhacos para obter   o que desejavam e o modo 
pelo qual ser portam depois de servidos!_ Ela! tinha graça!
      - Ela, que até ali dera as melhores provas de sagacidade e de esperteza; já 
"convencendo" tal freguês remisso que não queria pagar, nem a mão de Deus Padre, o aluguel 
do quarto pelo preço cobrado; já respondendo a tal credor, que, em tal época, veio receber tal 
conta; já sofismando tal compromisso; já resolvendo tal aperto, uma vez em que nem a própria 
Mme. Brizard sabia que fazer! E ainda a suporiam criança?...ainda teriam medo de qualquer 
asneira  sua parte?...Pois então que se  lembrassem da questão do Pereirinha!
      O Pereirinha foi um dos primeiros hóspedes do Coqueiro. Rapaz bonito, perfumado, 
muito prosa. Amélia representava para ele a mesma inocência em pessoa, só lhe falava de olhos 
baixos, voz sumida, o ar todo candura e vexame. Pereirinha jurava-lhe uma paixão sem bordas, 
fazia-lhe versos, tocava-lhe nos pés por baixo da mesa, e, depois do jantar, quando os mais se 
alheavam no egoísmo da saciedade, ele a fitava tristemente, pedindo, com os olhos fosse lá o 
que fosse. Pois bem, ela a tudo isso correspondia com muito agrado, submetia-se 
resignadamente a todos esses requisitos do namoro vulgar, mas...um belo dia em que o pedaço 
de asno do Pereirinha quis ir adiante, Amélia aconselhou-o  sorrindo a que primeiro a fosse 
pedir em casamento ao irmão.
      E, quando se convenceu de que o tipo não queria casar, disse-lhe abertamente: " Ora, 
meu amigo, outro ofício!"
      E Coqueiro sabia de tudo isso, tão bem como a própria  Amélia - para que pois aqueles 
escrúpulos ridículos e amoladores?.
      
      * * *
      
      
      Só à noite,, à acostumada palestra em torno da mesa de jantar, lembraram-se de que o 
dia seguinte era de grande gala.
      - Ó  diabo! considerou Coqueiro.-  E eu que podia Ter dito ao Amâncio para vir 
amanhã! Escusávamos de esperar até domingo.
      - Ora, senhores! Onde diabo tinha a cabeça!...
      - Queres saber de uma coisa? Disse, tomando a mulher de parte. - Vai tu e mais 
Amelinha arranjar o gabinete, que eu escrevo uma carta ao nosso homem; pode ser que amanhã 
mesmo o tenhamos por cá. Anda, vai! O segredo das grandes coisas está às vezes nesta 
pequenas deliberações!
      E, enquanto Mme. Brizard aprontava com Amélia o gabinete, escreveu ele a carta que 
Amâncio encontrou sobre a cômoda.
      Não descansaram mais um instante. Desde pela manhã do dia seguinte andava a casa em 
grande alvoroço. Foi preciso varrer, escovar, remover do gabinete os móveis que o 
atravancavam. Preparou-se uma bela caminha, coberta de lençóis claros e cheirosos; estendeu-se 
um tapete no chão; colocou-se a um canto o lavatório, encheu-se o jarro que ficou dentro da 
bacia, ao lado das toalha. E feito isto, puseram-se todos à espera de Amâncio.
      Ele, até aquelas horas, não havia declarado por escrito se iria  ou não, logo - era provável 
que fosse.
      E com efeito, pela volta do meio-dia, um tílburi parou à porta, e Amâncio, muito 
intrigado com a numeração das casa, entrou no corredor, a olhar para todos os lados. 
      Um moleque, que ficara de alcatéia à espera dele, correu logo ao primeiro andar, 
gritando que "o moço já estava aí"
      - Cala a boca, diabo! Respondeu Mme. Brizard em voz abafada e discreta. 
      Coqueiro ergueu-se prontamente do lugar onde se achava e atirou-se com espalhafato 
para o corredor, alegre e expansivo, como se recebera, depois de longa ausência, um velho 


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amigo da infância.
      - Bravo! Exclamava, sacudindo os braços e correndo ao encontro de Amâncio. - Bravo! 
Assim é que entendo os amigos! Não te perdoaria se faltasses!
      E com muita festa ,a apressá-lo:
      - Vem entrando para a sala de jantar! Estás em   tua casa! Entra! Entra!
      Amâncio deixava-se conduzir, em silêncio. Já não tinha o mesmo tipo mal ajeitado com 
que se apresentara ao Campos; agora, um terno de casimira cinzenta, comprado nessa mesma 
manhã a um alfaiate da Rua do Ouvidor. Dava-lhe ares domingueiros de janotismo. Vinha de 
barba feita, as unhas limpas, os dentes cintilantes, o cabelo dividido ao meio, formando sobre a 
testa duas grandes pastas lustrosas e do feitio de uma borboleta de asas abertas. Os olhos não 
denunciavam os incômodos da véspera, e de todo ele respirava um cheiro ativo de sândalo
      - Estimei bem que me escrevesses... disse atravessando o corredor, ao lado do Coqueiro. 
Não tinha para onde ir hoje. O Campos está de passeio com a família lá para o tal  Jardim 
Botânico..
      - Pois eu estimei ainda mais que viesses. Entra!
      Penetraram na sala de jantar. Estava tudo bem arrumado e muito limpo; não se podia 
desejar melhor aspecto de felicidade caseira; em tudo - a mesma aparência austera e calma de 
uma velha paz inquebrantável e honesta. Mme. Brizard, assentada à cabeceira da mesa, parecia 
ler atentamente um livro que tinha aberto defronte dos olhos; mais adiante trabalhava Amelinha 
em uma máquina de costura, a cabeça vergada, os olhos baixos, numa expressão tranqüila de 
inocência.
      Logo que Amâncio apareceu na varanda, Mme. Brizard desviou os olhos do livro, 
deixou cair as lunetas do nariz e foi recebê-lo solicitamente; a outra limitou-se a cumprimentá-lo 
com um modesto e gracioso movimento de cabeça.
      - O Dr. Amâncio de Vasconcelos! Gritou o Coqueiro, empurrando o colega para junto 
das senhoras. E acrescentou, designando-as: - Minha mulher e minha irmã...O amigo já sabe que 
são duas criadas que  aqui tem às suas ordens!
      Amâncio agradecia, desfazendo-se em reverências e apertando as mãos de ambas, todo 
vergado para a frente, as faces incendiadas pela comoção daquela primeira visita.
      - Põe-te à vontade, filho! Disse-lhe o Coqueiro, em ar quase de censura. - Olha uma 
cadeira. Senta-te!
      E tirando-lhe a bengala e o chapéu : - Aqui estás em tua casa! Minha gente não é de 
cerimônias!
      Entretanto Mme. Brizard o tomava a si com perguntas: - Há quanto tempo havia 
chegado;  de que província era filho; se tinha saudades da família; se gostava do Rio de 
Janeiro; que tal achava as fluminenses, e se já estava embeiçado por alguma.
      E vinham os risos exagerados e sem pretexto, de quando se deseja agradar as visitas. 
      O provinciano respondia a tudo, inclinando a cabeça, procurando armar bem a frase e 
fazendo esforços para se mostrar de boa educação. Ia-lhe já fugindo o primitivo acanhamento e 
as palavras acudiam-lhe à ponta da língua, sonoras e fáceis.
      - Não tenho desgostado da Corte, dizia a brincar com a sua medalha da corrente, -  mas, 
confesso, esperava melhor...Lá de fora, sabe V. Ex.ª a coisa parece outra! Fala-se tanto do  
Rio!...Pintam-no tão grande, tão  bonito, que o pobre provinciano, ao chegar aqui, logo sofre 
uma terrível decepção!...Pelo menos comigo foi assim!
      - O Sr. Vasconcelos já visitou os arrabaldes?...perguntou Mme. Brizard muito 
delicadamente.
      - Ainda não, minha senhora. Apenas fui a Botafogo, de passagem, para entregar uma 
carta; mas tenciono percorrê-los todos, na primeira ocasião.
      E Amâncio olhava a espaços para Amélia, que parecia muito preocupada com o trabalho.
      Pois suspenda esse juízo a respeito do Rio, até que conheça os arrabaldes, acrescentou a 


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dona da casa.-  Só por eles se poderá julgar do quanto é bela e grandiosa esta cidade! Oh! A 
natureza do Brasil! Não há coisa nenhuma que se lhe possa comparar!...
      E fitando-o, depois de um gesto de entusiasmo: - Para um espírito contemplativo e 
apaixonado, essa esplêndida natureza vale por todas as maravilhas da Europa!
      - V. Ex.ª parece gostar muito do Brasil...
      - Habituei-me a isso com o meu segundo marido...ele era louco por este país! Quantas 
vezes, depois que caiu doente e que os médicos lhe recomendaram que viajasse, quantas vezes 
não o aconselhei a que liquidasse aqui os seus negócios e fôssemos viver para a Europa...Já não 
havia sombra de perseguição política, (porque foi uma perseguição política que o atirou ao Brasil 
), não havia razões por conseguinte para não voltar à pátria, não havia razões para se deixar 
morrer aqui, como morreu!...Pois bem; sabe o senhor o que ele me respondia sempre?  Dizia-me: 
"Bebê".(era assim que me tratava.) "Bebê, compreendes um homem apaixonado por uma 
mulher, a ponto de não a poder deixar um só instante? Compreendes um escravo, um cão?... 
assim sou eu por esta natureza. Não a posso abandonar! - estou apaixonado, louco!" 
Entretanto,-  veja o Dr.! -  Hipólito, aqui, nunca foi devidamente apreciado e compreendido; 
nunca recebeu a mais insignificante prova de gratidão do governo deste País, que ele idolatrava 
daquele modo! Trabalhou muito para o Brasil, e de graça! Estão aí as empresas, os jornais, as 
sociedade que fundou! Pois o governo, -  nem uma palavra, nem uma consideração, nem um 
"muito obrigado!" Se o pobre homem não tivesse posto de parte algum dinheiro, ficava eu na 
miséria, perfeitamente na miséria!
      Amâncio principiava a desconfiar que aquela francesa era nada menos que um 
formidável "cacete".
      - Uma verdadeira paixão!...insistiu ela. -  Uma paixão que o prendia aqui! Porque, 
senhores, Hipólito, se quisesse, podia representar um invejável papel na Europa! Tinha lá o seu 
lugar seguro, e...Foi interrompida pelo César que entrara de carreira, mas estacara de repente ao 
dar com Amâncio. Coqueiro havia se afastado para mandar servir alguma coisa.
      - Este é o meu César, meu último filho, elucidou Mme. Brizard. E gritou logo: -  Vem 
cá,      César! Vem falar com este moço!
      César aproximou-se, vagarosamente, com o silêncio de quem observa um estranho. - 
Lindo menino! Considerou Amâncio, puxando-o para junto de si.
      - E não calcula o senhor que talento ! afirmou a mãe, em voz baixa e grave, estendendo a 
cabeça para o lado da visita :Uma coisa extraordinária!
      - Já fez uma poesia ! acrescentou João Coqueiro, que, nessa ocasião, junto ao aparador, 
enchia copos de cerveja. 
      - Mas, coitado! prossegui Mme. Brizard -  não se pode puxar por ele; sofre muito do 
peito ! O médico recomendou que não o fatigassem por ora; é preciso esperar que ele se 
desenvolva mais um pouco.
      - É pena ! disse Amâncio com tristeza, afagando a cabeça de César.
      - Nunca vi uma criatura para aprender as coisas com tanta facilidade ! Nada vê , nada 
ouve, que não decore logo ! que não  repita  - tintim por tintim !
      -  Sim?... perguntou Amâncio , com um gesto cerimonioso de pasmo.
      - E então para a música?...Aprendeu a escala em um dia! E já toca variações de 
piano...tudo de ouvido!
      - É admirável! Repetia Amâncio, para dizer alguma coisa. Deve estar muito adiantado 
nos estudos!...- Ah! estaria decerto, se pudesse estudar, mas, coitado, ainda não sabe ler!
      - Ah! fez Amâncio, sem achar uma palavra.
      - Mas, também, quando principiar...
      - Irá longe ! concluiu Amâncio, satisfeito por ter enfim uma frase. - Deve ir muito longe!
      E afiançava que, pela fisionomia de César, logo se lhe adivinhava a inteligência.
      - Esta fonte não engana ! Dizia a suspender-lhe o cabelo da testa. - E é travesso?...


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      Mme. Brizard soltou uma exclamação: - Não lhe falassem nisso! Só ela sabia o capetinha 
que ali estava!
      César abaixou o rosto com uma risada, e Amâncio declarou que " a travessura era própria 
daquela idade!"
      E, porque o moleque se aproximava com uma bandeja na mão, cheia de copos, ergueu-se 
para oferecer um a Mme. Brizard e outro a Amélia..
      -  Muito  agradecida, disse esta, sorrindo. - Sou um pouco nervosa; a cerveja faz-me 
mal. 
      - Ah! V.Ex.ª é nervosa?
      - Um pouco. E quem neste mundo não sofre mais ou menos dos nervos?... 
      E riu de todo, mostrando a sua dentadura provocadora.
      Amâncio considerou intimamente que a achava deliciosa. - Um mimo!
      E, de fato, Amélia nesse dia estava encantadora. Vestia fustão branco, sarapintado de 
pequeninas flores cor -de- rosa. O cabelo , denso e castanho, prendia-se-lhe no toutiço por um 
laço de seda azul, formando um grande molho flutuante, que lhe caía elegantemente sobre as 
costas O vestido curto, muito cosido ao corpo, enluvava-lhe as formas, dando-lhe um ar esperto 
de menina que volta do colégio a passar férias com a família.
      Era muito bem feita de quadris e de ombros. Espartilhada, como estava naquele 
momento, a voltas enérgica da cintura e a suave protuberância dos seios produziam nos sentidos 
de quem a contemplava de perto uma deliciosa impressão artística.
      Sentia-se-lhe dentro das mangas do vestido a trêmula carnadura dos braços; e os pulsos 
apareciam nus muito brancos, chamalotados de veiazinhas sutis, que se prolongavam serpeando. 
Tinha as mãos finas e bem tratadas, os dedos longos e roliços, a palma cor- de - rosa e s a unhas 
curvas como um bico de papagaio. 
      Sem ser verdadeiramente bonita de rosto, era muito simpática e graciosa. Tez macia de 
uma palidez fresca de camélia ; olhos escuros, um pouco preguiçosos, bem guarnecidos e 
penetrantes; nariz curto, um nadinha arrebitado, beiços polpudos e viçosos, à maneira de uma 
fruta que provoca o apetite e dá vontade de morder,. Usava o cabelo cofiado em franjas sobre a 
testa, e, quando queria ver ao longe, tinha de costume apertar as pálpebras e abrir ligeiramente a 
boca.
      Amâncio, bebendo aos goles distraídos a sua cerveja nacional, via e sentia tudo isso, e, 
sem perceber, deixava-se tomar das graças de Amélia. Já lhe preava a carne o mordente calor 
daquele corpo; já o invadiam o perfume sombroso daquele cabelo e a luz embriagadora daqueles 
olhos; já o enleava e cingia a doce sensibilidade elástica daquela voz , quebrada, curva, cheia de 
ondulações, como a cauda crespa de uma cobra.
      E, enquanto palavreava abstraído com Mme. Brizard e com o Coqueiro, percebia que 
alguma coisa se apoderava dele, que alguma coisa lhe penetrava familiarmente pelos sentidos e 
aí se derramava e distendia, à semelhança de um polvo que alonga sensualmente os seus 
langorosos tentáculos. E, sempre dominado pelos encantos da rapariga, alheava-se de tudo o 
que não fosse ela; queria ouvir o que lhe diziam os outros, prestar-lhes atenção, mas o 
pensamento libertava-se à força e corria a lançar-se aos pés de Amélia, procurando enroscar-se 
por ela, à feição do tênue vapor do incenso, quando vai subindo e espiralando, abraçado a uma 
coluna de mármore.
      Coqueiro fazia não dar por isso e, ao topar com os olhos da mulher, entre eles corria um 
raio de satisfação, mais ligeiro que um telegrama.
      Amâncio, entretanto, quase nada conversou com Amélia; apenas trocaram palavras frias 
de assuntos sem interesse. Mas seus olhares também se encontravam no ar, e logo se 
entrelaçavam, prendiam-se e confundiam-se no calor do mesmo desejo.
      Naquela mulher havia incontestavelmente o que quer que fosse, difícil de determinar, 
que, não obstante, se entranhava pela gente e, uma vez dentro, crescia e alastrava. O seu modo 


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de falar, as reticências de seus sorrisos, o langor pudico e ao mesmo tempo voluptuoso de seus 
olhos que espiavam, inquietos, através do franjado das pestanas; a doçura dos seus movimentos 
ofídios e preguiçosos, o cheiro de seu corpo; tudo que vinha dela zumbia em torno dos sentidos, 
como uma revoada das cantáridas.
      Os instintos mal-educados de Amâncio latejavam.
      Vinham-lhe preocupações. Começava a imaginar como seria a sua existência naquela 
casa, se ele, porventura, resolvesse a mudança; calculava situações: encont4ros inesperados com 
Amélia nos corredores desertos; manhãs frias de chuva, em que fosse preciso gazear as aulas e 
deixar-se ficar ali a "prosar" naquela varanda, ao lado dela, a encher o tempo, a dizer "tolices".
      - Que tal seria tudo isso?...Seria tão bom que valeria a pena suportar as caceteações de 
Mme. Brizard e sofrer a convivência do tal Coqueiro?...Seria tão bom que mereceria a renúncia 
de sua liberdade, tão sacrificada ali quanto em casa do Campos? Não! não valia a pena!... Mas... 
Amélia?... 
      quem sabe lá o que daria de si aquele ladrãozinho?...
      E, pensando deste modo, ergueu-se disposto a acompanhar Coqueiro, que insistia em lhe 
mostrar a casa.
      Principiaram pela chácara.
      - Olha. Isto aqui é como vês!... dizia o proprietário. - Boa sombra, caramanchões de 
maracujá, flores, sossego!...Bom lugar para estudo! E vai até o fundo. Vem ver!
      Amâncio obedecia calado. 
      - Parece que se está na roça!... acrescentou o outro. - De manhã é um chilrear de 
passarinhos, que até aborrece! Quando aqui não houver fresco, não o encontrarás em parte 
alguma! Cá está o terraço-  Sobe!
      Subiram três degraus de pedra e cal. 
      - Vês?!... exclamou Coqueiro, parando em meio do pequeno quadrado de velhos tijolos. 
E, depois, com as pernas abertas e um braço estendido:
      - Creio que não se pode desejar melhor!
      Desceram, em seguida, para visitar o banheiro, o tanque, o repuxo e outras comodidades 
que havia no quintal, e a cada uma dessas coisas - novas exclamações e novos elogios.
      Subiram outra vez ao primeiro andar , pela cozinha. Um preto, de avental e boné de 
linho branco, à moda  dos cozinheiros franceses, trabalhava ao fogão. Coqueiro exigiu que o 
amigo olhasse para aquele asseio; atentasse para a nitidez das caçarolas de metal areado , para a 
limpeza das panelas, para a fartura de água na pia. 
      - A Madame, dizia ele a rir-se, com ar interessado de que deseja convencer, -  a  
Madame traz isto num brinco! Pode-se comer no chão!
      E continuaram a revista da casa. Amâncio, porém, ia distraído, tinha a cabeça cheia de 
Amélia. 
      - Que dentes! Pensavas, - e que cintura !,  que olhos!...
      - É excelente! Segredou-lhe o Coqueiro, pondo mistério na voz. - Um serviço admirável!
      - Hein?!  Exclamou o provinciano, voltando-se rapidamente para o colega. 
      - Cozinheiros daquela ordem encontram-se poucos no Rio! Respondeu este ainda em 
segredo. 
      - Ah! o cozinheiro...disse Amâncio. - Divino! Acrescentou o outro. 
      E mudando logo o tom :
      - Cá está a despensa. Compramos tudo em porção, do mais caro, mas também podes ver 
a fazenda! Tudo de primeira! Ah! Eu cá sou assim, - um monstro! Meus hóspedes não se podem 
queixar! 
      E destapava vivamente a lata das farinhas e dos feijões, mostrava o vinho engarrafado 
em casa, as mantas de carne-seca ressumbrando sal , o arroz ,o café, e o resto.
      Tudo de primeira! - repetia com entonações mercantis, a passar ao colega um punhado 


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de feijões. - Tudo de primeira!
      - Ë exato, resmungou Amâncio, sem ver. 
      Isto agora são quartos de hóspedes, enunciou Coqueiro seguindo adiante.  - Aqui 
embaixo só temos três. Neste, disse mostrando o n° 1, está o Dr.  Tavares, um advogado de 
mão-cheia; caráter muito sério!
      No segundo declarou que  morava o  Fontes:
      - Não era mau sujeito, coitado! Fora infeliz nos negócios: quebrara havia dos anos e 
ainda não tinha conseguido levantar a cabeça.
      E abafando a voz: 
      - Dizem que ficou arranjado...não sei!...Paga pontualmente as suas despesas, mas é um  
"unha-de-fome", regateia muito, chora-  vintém por vintém-  o dinheiro que lhe sai das mãos! 
Está sempre com uma cara muito agoniada, sempre se queixando. E agora, vão ver : furão como 
ele só; especula com tudo; tem o quarto cheio de fazendas, fitas e tetéias de armarinho; vende 
essas miudezas pelas casas particulares, e dizem que faz negócio. A mulher, uma francesa coxa, 
é empregada na Notre Dame e só vem a casa para dormir.
      E, indicando o n° 3 :
      - Aqui é o Piloto.
      - Que Piloto? Perguntou logo Amâncio. 
      - O Piloto, homem! Aquele repórter da Gazeta !
      Amâncio não conhecia.
      -  Ora quem não conhece o Piloto! Um rapaz tão popular. Um que anda sempre ligeiro,  
olhando para os lados, como um calango. Não conheces?! 
      Amâncio disse que sabia quem era, -  para acabar com aquilo.
      -  Bom hospede! Acrescentou o outro. -  Também só aparece à noite; não incomoda 
pessoa alguma.
      -  Bem.... disse Amâncio com bocejo. São horas de ir-me  chegando.
      -  Que?! Bradou Coqueiro.-  Tu jantas conosco! Minha gente conta contigo... não te 
dispensamos! E , demais, quero mostrar-te o resto da casa. Vem cá ao segundo andar.
      O provinciano lembrou timidamente que isso podia ficar para outra ocasião; mas o 
Coqueiro respondeu puxando-o  pelo braço na direção da escada:
      -  Venha para cá !  Não seja preguiçoso! 
      Depois de subir, acharam-se em um corredor estreito e oprimido pelo teto. Ao fundo 
uma janela de grades verdes coava tristemente  a luz que vinha de fora. Lia-se nas portas em 
algarismos azuis, pintados sobre um pequeno círculo branco, os números de  4 e 11.
      -  Aquilo tinha aspectos de casa de saúde... pensou Amâncio, com tédio.-  Não devia 
ser muito agradável morar ali. Todos os quartos, entretanto, estavam tomados.
      Coqueiro principiou logo, em voz soturna, a denunciar os competentes moradores:-  N°4 
-  O Campelo,  um esquisitão, porém  bom sujeito,  do comércio; não comia na casa senão aos  
domingos e isso mesmo só de  manhã. N.° 5 - o Paula Mendes e a mulher; casal de artistas, 
davam lições e concertos de piano e rabeca;  muito conhecidos  na Corte. N.° 6- Um  
guarda-livros; bom moço, tinha o quarto sempre asseadinho e à noite, quando voltava do 
trabalho, estudava clarinete. O N.° 7 era de um pobre rapaz português; doente: vivia 
embrulhado em uma manta de lã, por cima do sobretudo, e saía todas as manhãs a passeio para 
as bandas da Tijuca.
      A porta do N.° 8 estava aberta e Amâncio viu de relance, a cauda de uma saia  que 
fugia para o interior do quarto. E logo uma voz aflautada, de mulher, gritou:
      -  Cora! Fecha essa porta. 
      -  É uma tal Lúcia Pereira...  segredou o Coqueiro-  mora ai com o marido, um tipo!
      Estavam na casa há muito pouco tempo. Coqueiro não podia dizer ainda que tais seriam, 
porque só formava o seu juízo depois de paga a primeira conta.


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      O N° 9 era do Melinho -  uma pérola! Empregado na Caixa de Amortização; não comia 
em casa; mas, as vezes, trazia frutas cristalizadas  para Mme. Brizard e Amelinha. Belo moço!
      Coqueiro não se lembrava como era ao certo o nome do sujeito que ocupava o N° 10 : 
"Lamentosa  ou Latembrosa, uma coisa por ai assim!" ele tinha  o nome escrito lá embaixo.-  
Mas que homem fino! Delicadíssimo! Um verdadeiro gentleman! E tocava violão com muito 
talento.
      .
      O n.° 11,que ficava justamente encostado à janela do corredor, pertencia a um excelente 
médico, o Dr. Correia; estava, porém ,quase sempre fechado, visto que o doutor só se utilizava 
do quarto para certos trabalhos e certos estudos, que, por causa das crianças, não podia fazer em 
casa da família. Vinha às  vezes com freqüência e às vezes não aparecia durante um mês inteiro; 
mas pagava sempre e bem.
      Esse quarto, como o outro que ficava na extremidade oposta do corredor, tinha saída 
para a chácara.
      Amâncio propôs ao Coqueiro que descessem por aí.
      - De sorte que, foi-lhe dizendo este pela escada,-  à mesa só temos diariamente os 
seguintes:  Dr. Tavares, o Paula  Mendes e a mulher, a Lúcia e o marido, e o tal sujeito de 
nome esquisito. Só! Aos domingos, então, fica-se em completa liberdade, porque jantam fora 
quase todos. - Vês, pois, que em parte alguma estarias melhor do que aqui!...
      - Mas, filho, observou Amâncio - teus quartos estão todos ocupados!...
      O outro respondeu com um risinho. E, depois de ligeiro silêncio, passando-lhe um braço 
nas costas::
      - Tu, aqui, não quero que sejas um hóspede, mas um amigo, um colega, um filho da 
família, uma espécie de meu irmão, compreendes? São dessas coisas que se não explicam - 
questão de simpatia! Conhecemo-nos de ontem e é como se tivéssemos sido criados juntos; em 
mim podes contar com um amigo para a vida e para a morte!
      E, estacando defronte de Amâncio, olhou para ele muito sério, dizendo em tom grave:
      - E acredita que isto em mim é raro! Pergunta aí aos meus colegas se sou de muitas 
amizades; todos eles te dirão que ninguém há mais concentrado e metido consigo. Mas, quando 
simpatizo deveras com uma pessoa é assim, como vês,   trago-a para o seio de minha família e 
trato-a como irmão!
      E, descaindo no tom primitivo da conversa:
      - Se ficares aqui, como  espero, verás com o tempo as sinceridade do que te estou 
dizendo! É que gostei de ti, acabou-se.
      Amâncio jurava corresponder àquela amizade, mas, no íntimo, ria-se do Coqueiro, que 
agora lhe parecia tolo, e cujo casamento com a francesa velhusca o tornava, a seus olhos, cada 
vez mais ridículo.
      Ao passarem pelo salão concordaram que aquilo era  um excelente lugar para uma  "boa 
prosa".
      Amâncio teria tudo isso às suas ordens; podia dispor!...acrescentou o outro. E, abrindo 
cuidadosamente a porta do gabinete que ficava ao lado, disse, com a entonação de um guarda 
de museu que vai mostra uma raridade:
      - Eis o ninho que te destino! É o lugar mais catita de toda a casa: isto, porém, não quer 
dizer que os outros cômodos não estejam à tua disposição!...Se, mais tarde, te apetecer trocar de 
quarto...
      E, logo que entraram, foi-lhe mostrando a caminha cheirosa, o pequeno lavatório de 
pedra-mármore; fê-lo notar  o bom estado da cômoda, a elegância do velador, o artístico das 
escarradeiras.
      - E, ali, o grande mestre! Clamou com ênfase, apontando para a gravura da parede.
      - "Victor Hugo" , leu Amâncio debaixo do retrato-  Bom poeta! Acrescentou.


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      - Creio que não ficarás mal , hein ?...disse o outro.
      - Ah! não! respondeu o provinciano, assentado-se fatigado em uma cadeira. E o preço?
      - Ah! Isso depois ...minha mulher é quem sabe dessas coisas, mas não havemos de 
brigar!...
      E riu. 
      - Ficas aqui muito bem! Serás tratado como um filho; quando precisares de qualquer 
cuidado, numa moléstia, numa dor de cabeça, hás de ver que te não faltará nada! Além disso-  
podes entrar e sair à vontade, livremente, às horas que entenderes; se gostas de teu chazinho à 
noite, com torradas, hás de encontrá-lo, abafado, à tua espera sobre aquela mesa...De manhã, se 
quiseres o café na cama, também terás o teu café e quando estiveres aborrecido do quarto, tens 
o salão, tens a sala de jantar, a chácara, o jardim; finalmente tens tudo às tuas ordens!
      -  Agora,  quanto a certas visitas...concluiu João Coqueiro, fazendo-se muito sisudo e 
abaixando a voz, - isso, filho, tem paciência...Lá fora o que quiseres, mas daquela porta para 
dentro...
      - Decerto! Apressou-se a declarar o outro, com escrúpulo.
      - Sim! Sabes que isto é uma casa de família e, para a boa moral...
      - Mas certamente, certamente! Repetiu Amâncio. 
      E acendeu um cigarro.
      
      
      V I I
      
      Dos  hóspedes de cama e mesa só três compareceram ao jantar, - Lúcia, o marido e o tal 
gentleman de nome difícil. Paula Mendes estava de passeio com a mulher em casa de um artista.
      Amâncio foi apresentado àqueles três pelo João Coqueiro. Trocaram-se bonitas palavras 
de etiqueta; fizeram-se os mentirosos protestos da cortesia e cada um tomou à mesa o seu lugar 
competente. Mme. Brizard, como era de costume, ocupou a cabeceira, defronte de uma pilha 
enorme de pratos fundos, os quais ia enchendo de sopa , um a um, paulatinamente, depois de 
rodar a concha três vezes no fundo da terrina; e, à proporção que os enchia, passava-os ao 
marido que nesse dia lhe ficara à esquerda, visto que a direita, seu lugar favorito, cedera-a ele ao 
novo hóspede. 
      Na ocasião de conferir-lhe semelhante honra, bateu-lhe carinhosamente no ombro e 
disse-lhe baixinho:-  Ficas bem! Ficas junto a Loló!
      Mme. Brizard, que ouvira estas palavras, acrescentou sorrindo:
      - O Sr. Vasconcelos preferia talvez ficar entre as moças...
      - Ó minha senhora!... balbuciou Amâncio, vergando-se para o lado da francesa.-  Estou 
muito bem aqui; não podia desejar melhor vizinhança!...
      E voltou o olhar a sua direita, onde Lúcia acabava de tomar assento.
      Examinou-a logo, à primeira vista, sem o dar a conhecer, e a impressão recebida não foi 
das melhores. Achou-a esquisita, um tanto feia, um ar pretensioso, de doutora.
      Era de estatura regular, tinha as costas arqueadas e os ombros levemente contraídos, 
braços moles, cintura pouco abaixo dos seios, desenhando muito a barriga. Q quando andava, 
principalmente em ocasiões de cerimônia, sacudia o corpo na cadência dos passos e bamboleava 
a cabeça com um movimento de afetada languidez. Muito pálida, olhos grandes e bonitos, 
repuxados para os cantos exteriores, em um feitio acentuado de folhas de roseira; lábios 
descorados e cheios mas graciosos. Nunca se despregava das lunetas, e a forte miopia dava-lhe 
aos olhos uma expressão úmida de choro.
      Em seguida via-se o marido. Um  homenzinho gordo, de barba por fazer e pequeno 
bigode castanho, em parte lourejado pelo fumo. A fronte abria-lhe para o crânio em dois 
semicírculos constituídos na ausência do cabelo. Fisionomia inalterável, de uma tranqüilidade 


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irracional e covarde.. Fechava de vez em quando os olhos, por um sestro antigo, e então parecia 
dormir profundamente.
      Percebia-se que ele e a mulher estiveram, antes de vir para a mesa, empenhados em 
alguma discussão desagradável, porque, mal se furtaram às apresentações e aos cumprimentos 
da chegada, Lúcia pôs-se a falar-lhe em voz baixa, com azedume disfarçado. Ele, porém, não 
dava resposta, e, quando a mulher insistia, cerrava os olhos como se fugira para dentro de si 
mesmo.
      César, ao lado, acompanhava-lhe os movimentos com persistência tão grosseira que a 
outro qualquer constrangeria.
      Defronte perfilava-se o gentleman. Teso, o pescoço imobilizado no rigor de uns grandes 
colarinhos; as sobrancelhas franzidas diplomaticamente; o olhar grave, de que medita coisa de 
alta importâncias; a boca engolida por um farto bigode grisalho; o queixo escanhoado, 
formando largas pregas, sempre que Lambertosa voltava o rosto com amabilidade para 
responder ao que lhe diziam da direita ou da esquerda. Bonita figura, bem apessoado, fronte 
espaçosa, cabelo branco , puxado de trás sobre as orelhas.
      Entre ele e o Coqueiro, Amelinha, cheia de piscos de olhos e de gestozinhos 
passarinheiros, recebia do irmão os pratos de sopa e passava-os adiante.
      - E Nini?...perguntou Mme. Brizard com interesse.
      E, como Amâncio a fitasse, quando lhe ouviu aquela pergunta, ela explicou que Nini era 
uma filha sua, "muito doente, coitadinha...!" E contou logo toda a história da pobre menina - a 
viuvez, a dolorosa morte do filhinho "que lhe havia ficado como extrema consolação", e, afinal, 
falou daquela  "maldita moléstia que sobreviera a tantas calamidades e que parecia disposta a 
não abandonar mais a infeliz".
      - Não dá idéia do que foi! Disse após um suspiro. - Era uma beleza e tinha o gênio mais 
alegre deste mundo! Ah! Está muito mudada! Muito mudada! Impressiona-se com tudo, tem 
exigências pueris, caprichos, coisas de uma verdadeira criança! E ninguém a contraria, que 
aparecem as crises, os ataques! Uma campanha! - Ainda outro dia, porque não lhe deixaram ver 
um desenho que meu marido achou na chácara...
      E, voltando-se rapidamente para Amâncio:
      - O Sr. Vasconcelos não se serve de vinho?...- Um desenho indecente; pois ficou 
prostrada e eu tive sérios receios de a ver perdida para sempre! Desde então está nervosa que se 
lhe não pode dizer nada! É preciso não insistir com ela em coisa alguma: se a chamam duas 
vezes para a mesa, começa a chorar e não vem; se a querem constranger a pôr um vestido 
melhor, um penteado mais decente, são gritos, soluços, repelões, e agarra-se  à cama, que não 
há meio de tirá-la! Eu já não sei que faça!...
      - Por que, Madame, não experimenta os banhos de mar? Perguntou o gentleman, 
limpando energicamente o seu grosso bigode no guardanapo que atara ao pescoço.
      - Qual! Não produzem efeito nenhum! Ela já tomou quarenta seguidos. Acho até que 
ficou   pior.
      É estranho!... volveu o gentleman, franzindo o sobrolho e passando a Lúcia a corbelha 
de farinha. - É estranho porque , segundo Durand Fardel, não há enfermidades nervosas que 
resistam a um bom regime de banhos marítimos; mas aconselha também o uso interno de água 
salada, e prova que a mineralização desta é muito mais rica em cloreto de sódio do que a das 
águas minerais da fonte.
      - Não sei Sr. Lamber...
      Mme. Brizard não se lembrava do nome dele. 
      - Lambertosa, Mme., Lambertosa!
      - Não sei, Sr. Lambertosa, não sei...O caso é Nini não consegue melhorar.  Temos 
experimentado de tudo, tudo!
      E, mudando de tom, bateu no braço de Amâncio, segredando-lhe com um sorriso: 


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      - Não se esqueça de provar daqueles camarões. São especiais!...E descreveu uma 
olhadela entre ele e Amélia.
      - O casamento talvez a restabelecesse!...observou o provinciano, servindo-se dos 
afamados camarões. - Dizem que há muitos exemplos de ...
      Amélia afetou um sobressaltozinho, e olhou para ele, procurando disfarçar o mau efeito 
de sua proposição, citou Le Bom.
      - O doutor acha então que o histerismo se pode curar com o casamento?...perguntou 
Lúcia da direita.
      - Parece, minha senhora, a dar crédito aos fisiologistas...
      A sonoridade desta palavra consolou-o
      - E é exato...confirmou o Pereira, marido de Lúcia. 
      - Tu mesmo entendes disto!...respondeu-lhe a mulher desdenhosamente. 
      O Pereira fechou os olhos e não deu mais palavra.
      Lambertosa havia já limpado o bigode para emitir a sua conceituosa opinião, mas teve de 
renunciar a essa idéia, porque Nini acabava de assomar à porta do quarto, arrastando-se 
dificilmente ao peso de suas inchações. 
      Vestia uma bata de lã parda, enxovalhada e se cinta. A gordura balofa e anêmica 
tirava-lhe o feitio do corpo; as suas costas formavam-se de uma só curva e os quadris pareciam 
duas grandes almofadas.
      Contudo ainda se lhe reconhecia a mocidade e ainda se alcançavam os vestígios 
desbotados dos encantos, que a moléstia foi pouco a pouco devastando
      Só de pois de assentada, Nini desmanchou o ar aflito que fazia, pelo esforço de andar..
      - Ah! respirou, quase sem fôlego. E coreu os olhos em torno de si, abstratamente, como 
se despertasse de um desmaio. Ao dar com Amâncio, ficou a encará-lo com insistência de 
criança; depois, contraiu os músculos do rosto e espalhou a vista, vagarosamente, a tomar longos 
sorvos de ar. 
      Um silêncio formou-se em torno de sua chegada; percebia-se que pensavam nela.
      - Queres sopa, Nini? Perguntou afinal Mme. Brizard, com ternura. E, como as filha 
fizesse um movimento afirmativo de cabeça, passou-lhe um prato cheio.
      Nini sorveu-o todo, a colheradas seguidas, e pediu mais
      A mãe aconselhou-a a que comesse antes outra qualquer coisa.
      Nini largou a colher no prato, sem dizer palavra, e pôs-se de novo a encarar para 
Amâncio, com um olhar tão dolorido e tão persistente, que o rapaz ficou impressionado.
      E não lhe tirou mais a vista de cima. O estudante remexia-se na cadeira, importunado 
por aqueles dois olhos grandes, rasos, de um azul duvidoso, que se fixavam sobre ele, imóveis e 
esquecidos.
      Disfarçava, procurava não dar por isso, nada, porém, conseguia. Os dois importunos lá 
estavam, sempre assentados sobre ele, a lhe queimar a paciência, como se fossem dois vidros de 
aumento colocados contra o sol.
      - Que embirrância! Dizia consigo o provinciano. 
      Entretanto o jantar esquentava. A conversa explodia já de vários pontos da mesa com 
mais freqüência; ouviam-se tinir os garfos de encontro à louça, e os copos esvaziavam-se e de 
novo se enchiam, sem ninguém dar por isso.
      Mme. Brizard não se descuidava um segundo de Amâncio. Apontava-lhe os pratos 
preferíveis, puxava as garrafas para junto dele, sempre a falar da salubridade da casa, do bem 
que se ficava ali, da simpatia que toda a família parecia lhe dedicar, desde o primeiro momento 
em  que o viu.
      - Pois se até a pobre Nini não se fartava de olhar para o Sr. Vasconcelos!...
      Amâncio sorriu. 
      O Lambertosa atirou-lhe diretamente a palavra sobre o Maranhão. Tratou com respeito 


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dessa "judiciosa província, a qual merecia de justiça o honroso título que lhe fora conferido de  
- Atenas Brasileira!" E, depois de citar nomes ilustres, dispôs-se a contar as façanhas de um tal 
Maranhense, célebre  pelas suas espertezas.
      - Perdão! Acudiu Amâncio.-  Esse cavalheiro de indústria, além do nome, nada tem de 
comum com a minha província!
      - Ah! fez o gentleman - Pois eu o julgava filho de lá...
      - Felizmente não é, respondeu o outro, ferido no seu bairrismo. 
      - E ainda que fosse!...observou Lúcia - que mal havia nisso?
      - Certamente , confirmou Coqueiro a encher o prato. 
      - Pois meu amigo, volveu o Lambertosa, dirigindo-se a Amâncio, - eu  o felicito! E 
levou o copo à boca. Eu o felicito, porque, francamente, considero um padrão de glória ver a luz 
do dia em uma província tão...
      Faltou-lhe o termo.
      - Tão, tão gigantesca! Estude, caminhe, caminhe, que tem uma grande estrada aberta 
defronte de si!
      E engrossando a voz:
      - Assiste-lhe uma responsabilidade enorme! É caminhar e caminhar firme! Ah! terminou 
ele com um gesto lamentoso. - Quem me dera a sua idade, meu amigo! Quem me dera a sua 
idade!
      Continuou a falar sobre o Maranhão. Lúcia quis informações; Amâncio voltou-se logo 
para ela, solicitamente, e na febre de falar de sua terra, começou, sem reparar que mentia, a 
pintar coisas extraordinárias. O Maranhão segundo ele dizia, era um viveiro de talentos; os 
grêmios e os jornais literários brotavam ali de toda a parte; cada indivíduo representava um 
gramático de pulso; as senhoras ilustradíssimas; os homens -  poços de instrução; as crianças 
saíam da escola bons poetas e prosadores.
      Coqueiro afetava acompanhá-lo naquele entusiasmo, mas ria-se por dentro. O outro lhe 
parecia cada vez mais tolo.
      Lúcia perguntou se Amâncio tinha algumas produções dos seus comprovincianos, que 
lhe pudesse emprestar. Ele prometeu que traria as que tivesse em casa. E recomendou Entre o 
Céu e a Terra  de Flávio Reymar.
      - Há em sua província um poeta que eu adoro, disse ela, cortando em pedacinhos os uma 
fatia de carne assada que tinha no prato.
      O Franco de Sá perguntou o maranhense. 
      - Não, refiro-me ao Dias Carneiro.
      Amâncio sentiu um calafrio percorrer-lhe a espinha. Nunca em sua vidas ouvira falar de 
semelhante nome.
      - É, disse entretanto, - É um grande poeta!
            Enorme! Corrigiu Lúcia, levando à  boca  uma  garfada. -   Enorme!   Conhece   
aquela   poesia 
      dele, o...
            Novo calafrio, desta vez, porém , acompanhado de suores. E não lhe acudia um 
título para apresentar, um título qualquer, ainda que não fosse verdadeiro.-  Ora, como é 
mesmo? Insistia a senhora. - Tenho o nome debaixo da língua!
            E, voltando-se com superioridade para o marido:-  Como se chama aquela poesia, 
que está no álbum de capa  escura, escrita a tinta azul? 
            O Pereira abriu os olhos e disse lentamente: 
            - O Cântico do Calvário.
            És um idiota !respondeu a mulher.
            A resposta do Pereira provocou hilaridade. Amâncio consultou logo a opinião de 
Lúcia sobre o    Varela. Mme. Brizard falou então dos versos do marido, prometeu que os 


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mostraria depois do jantar.
      Amâncio soltou uma exclamação de espanto:
      - Ignorava que o Coqueiro também fizesse versos!
      - Faço-os, confirmou este - mas só para mim, publiquei já alguns com pseudônimo. 
Receio a convivência dos literatos que formigam por aí, esfarrapados e bêbados. Não me quero 
misturar com eles! Faço versos, é verdade, mas tenho a presunção de escrevê-los como devem 
ser e não acumulando extravagâncias e disparates para armar ao efeito! Faço versos, mas não 
tomo parte nessas panelinhas de elogio mútuo e nesses grupos de imbecis escrevinhadores!
      E, com muito azedume, com durezas de inveja, principiou a dizer mal dos rapazes que 
no Rio de Janeiro se tornavam mais conhecidos pelas letras.
      - Pedantes! Resmungava. - Súcia de idiotas! Hoje, todos querem ser escritores;  
sujeitinhos  que não sabem ligar duas idéias, arrogam-se, da noite para o dia, os foros de 
literatos! Uma cambada!
      E ria-se com um gesto amargo de desgosto.
      Lúcia e Lambertosa defendiam timidamente alguns nomes.-  Ora o quê, senhores! 
Replicava Coqueiro furioso e pálido. - Qual é aí o tipo da tal "geração moderna" que se possa 
aproveitar?...Não me apontam nenhum! São todos umas bestas!
      - Coqueiro!...repreendeu Mme. Brizard em voz baixa.
      - São todos umas nulidades, uns zeros!...
      Era a primeira vez que Amâncio via o colega sair de si. Não o supunha capaz daquelas 
explosões. 
      Mme. Brizard compreendeu o pensamento do provinciano e apressou-se a dizer-lhe ao 
ouvido:
      - Também é só o que o faz sair do sério...a literatura!
      Amélia indagou se Amâncio também, escrevia.. Ele disse que sim, a sorrir, a desculpar-se 
com os outros.
      - Quem neste mundo não rabiscava mais ou menos?...
      Ela mostrou logo empenho em lhe conhecer as produções.
      - Não vale a pena! Disse o moço. - Não vale a pena!
      - Ai, ai! suspirou Nini, que parecia adormecida com olhos abertos.
      Mme. Brizard que já conhecia o alcance daquele suspiro, perguntou à filha o que 
desejava. Nini apontou melancolicamente para uma prato, onde fatias transparentes de abacaxi 
nadavam em calda de vinho.
      - Não senhora, volveu a mãe, - isso não pode ser, faz-te mal.
      Nini suspirou de novo e ficou a olhar para Amâncio, resignadamente, o semblante muito 
pesaroso, a cabeça vergada para o  lado.
      - Serve-te antes de doce, aconselhou Mme. Brizard.
      O Lambertosa apressou-se a passar a Nini a compoteira. 
      - Pouco, Sr. Lambertosa, dê-lhe pouco!
      
      
      * * *
      
      
      
      Veio o café. César levantou-se da mesa e foi brincar a um canto da sala. Mme. Brizard 
queria saber se estavam todos satisfeitos; ela, quanto a si, - jantara perfeitamente, confessava.
      E, com um aspecto regalado, deixava-se ficar prostrada na cadeira, entorpecida no 
bem-estar do seu estômago.
      O copeiro, um preto alto de pernas compridas, levantou a toalha, acendeu o gás e trouxe 


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curaçau e conhaque. Amélia bebericou o seu cálice de licor e levantou-se logo para ir à janela. 
Afastaram-se as cadeiras da mesa, e a conversa reapareceu com mais força.
      O Lambertosa, Mme. Brizard e Coqueiro formaram grupo, a discutir o preço excessivo e 
a falsificação dos gêneros alimentícios.. O gentleman reclamava uma junta de higiene, rigorosa, 
que mandasse lançar à praia todos os gêneros deteriorados que encontrasse. "Era assim que se 
fazia na Europa!"
      Lúcia, do outro lado da mesa, continuava a falar com Amâncio sobre literatura. Já 
estavam em  Theóphile Gautier, Theodore de Banville e Baudelaire, depois de haverem tocado 
de passagem em alguns escritores de Portugal. Agora sentia-se mais eloqüente o provinciano; 
acudiam-lhe opiniões e juízos perfeitamente armados; percebia que as suas palavras causavam 
bom efeito; ia bem.
      Pereira e Nini conservavam-se um defronte do outro, igualmente concentrados e mudos; 
ela, porém com os olhos muitos abertos sobre Amâncio. O outro, afinal ergueu-se, atravessou, 
lentamente, como um sonâmbulo, a sala de jantar, e foi e foi estender-se em uma preguiçosa que 
ficava junto à janela
      Vibrou então o piano no salão de visitas.
      - É melhor irmos todos para lá, alvitrou a dona da casa. 
      O marido e o Lambertosa aceitaram logo a idéia, e Amâncio, sem interromper a sua 
conversa com a mulher do Pereira, a esta deu o braço e segui o exemplo daqueles.
      Lúcia caminhava toda reclinada sobre ele, falando-lhe em tom mui vagaroso, com 
acentuações finas de boa educação. 
      A sala iluminada tinha um caráter imponente. O gentleman encaminhou a conversa geral 
para a música, aconselhou a Amâncio que solicitasse da Sr.ª D. Lúcia um pouco do Guarani, 
que ela tocava admiravelmente.
      Lúcia queixou-se de que ultimamente sofria de certa fraqueza nos dedos e não tocava 
com a mesma expressão , mas sempre foi pelo braço de Lambertosa tomar ao piano o lugar que 
Amélia deixara nesse instante. E logo as primeiras notas da introdução do  Guarani encheram a 
sala com a sua corajosa e dominadora solenidade.
      Fizeram silêncio. 
      Ela tocava bem, com muita energia e destreza. Amâncio encostara-se sozinho ao canto 
de uma janela e sentia-se ir a pouco e pouco arrastando pela irresistível corrente daquelas frases 
musicais Seu estômago, perfeitamente confortado, dava-lhe ao corpo um bem-estar beatífico e 
predispunha-lhe o espírito para as vagas concentrações e para os místicos arrebatamentos da 
fantasia. Um profundo langor, muito voluptuoso, apoderava-se de todo ele, e os vapores 
duvidosos de um princípio de embriaguez, acamavam-se em torno de sua cabeça, anuviando-lhe 
os objetos exteriores.
      E ali, da janela suspenso ainda pelas novas impressões que lhe deparavam os novos 
aspectos de sua existência, abstrato e perdido em cismas indefinidas, enxergava, por entre as 
névoas do seu enlevo, o vulto melancólico de Lúcia, assentada defronte do piano, a picar o 
teclado com os dedos, num frenesi delicioso.
      Depois da música principiou a simpatizar com ela; já gostava de a ver, misteriosa e 
pálida, arrastando a vida com a languidez de uma convalescente.
      Estava todo embevecido a pensar nesta simpatia, quando voltou por acaso o rosto e deu 
com os  olhos de Nini, que o fitavam sem pestanejar. - É birra, não tem que ver! Pensou ele 
aborrecido.. 
      
      * * *
      
      
      Duas horas depois tornavam à sala de jantar. Serviam-se as torradas. Pereira, com o 


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César adormecido sobre as pernas, ressonava profundamente na mesma preguiçosa em que o 
tinham deixado. 
      Mme. Brizard chamou o copeiro e ordenou-lhe que recolhesse o menino. Pereira 
espreguiçou-se, abriu vagarosamente os olhos , mas tornou a fechá-los, bocejando.
      Já estavam à mesa, quando os hóspedes principiaram a chegar.
      Veio o Paula Mendes e mais a mulher.  Ele de pequena estatura, grosso, os movimentos 
acanhados, a voz branda e a fisionomia triste; ela muito alta, cheia de corpo, despejada de 
maneiras e com feições de homem.
      Chamava-se Catarina, estava sempre a implicar com as coisas e tinha muita força de 
gênio. Entrou como uma fúria; o marido atrás. Cumprimentou a todos com um - "boas-noites" 
terrível, e, atirando-se a uma cadeira, declarou , a bater com a mão na mesa, que vinha 
desesperada! - Pois, se em vez de piano, lhe haviam dado um tacho, um verdadeiro tacho, para 
executar um noturno de Chopin! Dificílimo!
      - Pouca vergonha! Exclamava ela, rangendo os dentes. - canalhas!
      E voltando-se para o marido com um furor crescente: - Mas o culpado foste tu, lesma de 
uma figa!-  já devias conhecer melhor aquela súcia!
      - Mas... ia responder o marido.
      Cale-se, berrou ela. - Não me dê uma palavra, que não estou disposta a lhe ouvir a voz! 
Diabo do basbaque
      Fez uma pausa, estava arquejante, mas continuou logo:
      - Também ali, acabou-se! Cruz na porta! Nunca mais! Nunca mais! Nem admito que me 
falem na rua! Corja!
      E, levantando-se com ímpeto, cumprimentou a todos com um arremesso, e subiu para o 
segundo andar, levando o marido na frente, aos empurrões
      Safa, disse Amâncio consigo.
      O Dr. Tavares é que vinha satisfeito. Estivera em casa de um amigo, pessoa de muita 
consideração, onde se reunia a mais fina sociedade.
      E, necessitado de expandir o seu bom humor, entabulou conversa com Amâncio. 
Falou-lhe a um só tempo de mil coisas diferentes; tratou muito de si; das suas pretensões na 
Corte que apenas conhecia de alguns meses; das suas esperanças de obter o que desejava; do 
que lhe dissera tal ministro; do que prometera tal conselheiro ,e, afinal , da sua profissão   de 
advogado, profissão que ele exercia com entusiasmo, com delírio, porque, desde pequeno, toda 
a sua queda fora sempre para falar em público, para dominar as massas.
      E, esquentando-se ao calor de suas próprias palavras, discursava, como se já estivesse no 
tribunal. Armava posições; recorria aos efeitos da tribuna, vergava para trás. a cabeça, 
ameaçando espetar o auditório com a ponta de sua barba triangular.
      Sentia-se radiante por ver que todos os mais não abriam a boca, enquanto ele estivesse 
com a palavra.
      Seu tipo indeciso, de cearense do interior, uma dessas fisionomias confusas e duvidosas, 
nas quais o fulvo castanho dos cabelos quase que não se distingue do moreno da pele e do 
pardo verdoengo dos olhos, seu tipo transformava-se na febre da eloqüência e parecia 
acentuar-se por instantes. 
      E, já de pé, com uma das mãos apoiada nas costas da cadeira, jogava freneticamente 
com a outra, ora espalmando-a em cheio sobre o peito, ora apontando terrível para o teto , ora 
indicando o chão , horrorizado, como se ai estivesse um abismo, ora dando com o indicador 
ligeiras e repetidas facadinhas no ar; ao passo que a voz, pelo contrário, se lhe arrastava em 
trêmulos prolongados, como as notas graves de um harmonium.
      Enquanto ele parolava, outros hóspedes se recolhiam aos competentes quartos, 
atravessando a varanda pelo fundo na ponta dos pés, com medo da "caceteação".
      Aquele homem era o terror da casa. Às vezes,, depois do jantar, quando ele abria as 


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torneiras da loquacidade,, iam todos, um por um, fugindo sorrateiramente, até deixá-lo a sós 
com o Pereira  que, afinal, adormecia. 
      Amâncio principiava a sentir cansaço. Quis retirar-se; não lho consentiram.
      - Passava já de meia-noite; a casa do Campos devia estar fechada àquela hora.-  O 
melhor seria ficar, observou a francesa. 
      - Que diabo, acudiu Coqueiro. - Fica, não incomodarás ninguém...Estás tudo 
providenciado; a cama feita...Além disso, olha! E mostrando o céu pela janela:-  Vamos ter 
chuva!
      Com efeito sopravam os ventos do sul. Amâncio ainda opôs algumas razões, mas 
finalmente cedeu.
      
      * * *
      
      
      Era mais de uma hora quando se dispersou a roda e cada um, depois de novos protestos 
e oferecimentos se recolheu à competente alcova.
      Mme. Brizard recomendou muito a Amâncio que ficasse à vontade; que não tivesse 
escrúpulos em reclamar qualquer coisa de eu sentisse falta. Supunha, porém , não haver ocasião 
disso, porque fora ela própria e mais a Amelinha quem lhe arranjara o quarto.
      Coqueiro acompanhou-o até a cama, examinou rapidamente se estava tudo no seu lugar 
e depois, dando mais luz aso bico de gás, e tirando um folheto da algibeira disse-lhe com um 
sorriso: Sempre te vou mostrar os versos...
      Amâncio, já meio despido, estremeceu, mas não opôs a menor consideração, e meteu-se 
debaixo dos lençóis. 
      O outro em pé ao lado da cama, folheava amorosamente o seu caderno de versos, à 
procura do que deveria ler em, primeiro lugar
      Descobriu afinal e, com a voz clara e sonora , principiou:
      " Estamos em plena Roma. Os Césares devassos..."
      
      
      V I I
      
      Amâncio sentiu um grande alívio, quando se achou afinal inteiramente só; a porta do 
quarto bem fechada e a luz do bico de gás quase extinta.
      Estava morto de fadiga. 
      As enfadonhas conversas de Coqueiro e Mme. Brizard, o jugo inquisitorial das 
cerimônias, a pândega da véspera, tudo isso dava àquela caminha fresca, de lençóis limpos, um 
encanto superior ao que houvesse de melhor no mundo. Seu corpo quebrado de impressões 
diversas e na maior parte consumidoras e lascivas, bebia aquele repouso por todos os poros, 
voluptuosamente, como um sequioso que se metesse dentro da água.. 
      Aninhou-se , encolheu-se, abraçado aos travesseiros, ouvindo com uma certa delícia 
esfuziar o vento nas portas e, lá fora, desencadear-se o temporal, arremessando água aos 
punhados contra telhas e paredes. 
      E deixava-se arrebatar pelo sono, como se deslizasse por uma ladeira interminável de 
algodão em rama. 
      Os acontecimentos d dia começaram a desfilar em torno de sua cabeça, em procissões 
fantásticas de sombras duvidosas e fugitivas. Dentre estas, era o vulto de Lúcia o que melhor se 
destacava, com o seu andar quebrado e voluptuoso, a remexer os quadris, atirando a barriga 
para frente. Chegava a distinguir-lhe perfeitamente os grandes olhos amortecidos e a sentir-lhe o 
perfume que ela trazia essa tarde no lenço e nos cabelos. Em seguida, vinha a outra, a Amelinha, 


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mas não com a lucidez da primeira. E logo depois Mme. Brizard, com o seu todo pretensioso; 
Nini, a fitá-lo, muito aflita, as mãos inchadas e sem tato, o cabelo escorrido sobre a cabeça, 
cheirando a pomada alvíssima, bata elã, escura e sinistra como um burel. E, depois, numa 
confusão vertiginosa, -  o Coqueiro a berrar versos, dançando no ar e a sacudir em uma das 
mãos um punhado de feijões pretos; e o Paula Mendes a jogar os murros com a mulher; e o Dr. 
Tavares a discursar com os braços erguidos para ao ar; e o César, o menino prodígio, a 
esgarafunchar o nariz freneticamente; e o Pereira, de olhos fechados, a andar como sonâmbulo; 
e o ...
      Mas os vultos de todos se confundiam e desfibravam, como nuvens que o vento enxota. 
Amâncio já os não distinguia.
      Acordou às oito horas do dia seguinte, meio inconsciente do lugar onde se achava. 
Logo, porém, que caiu em si, levantou-se de um pulo e abriu a janela de par em par. Um jato de 
luz dourada invadiu-lhe a alcova.
      Olhou a ,manhã, que estava de uma transparência admirável. A chuva da véspera limpara 
a atmosfera; corria fresco. Os bondes passavam cheios de empregados públicos; viam-se 
amas-de-leite acompanhando os bebês; senhoras que voltavam do banho de mar, o cabelo solto, 
uma toalha no ombro.
      Aquele movimento era comunicativo. Amâncio sentiu vontade de sair e andar à toa pelas 
ruas. Todo  ele reclamava longos passeios ao campo, por debaixo de árvores, em companhia de 
amigos.
      Foi para o lavatório cantarolando; o sono completo da noite fazia-o bem disposto e 
animado.
      Mal acabara de se preparar quando bateram de leve na porta. Era uma mucamazinha, que 
já na véspera lhe chamara por várias vezes a atenção durante o jantar.
      Teria quinze anos, forte, cheia de corpo, um sorriso alvar mostrando dentes largos e 
curtos, de uma brancura sem brilho.
      Vinha saber se o Dr. Amâncio queria o café  antes ou depois do banho. 
      Amâncio, em vez de responder, agarrou-lhe o braço com um agrado violento e grosseiro.
      Ela pôs-se a rir aparvalhadamente.
      
      * * *
      Às dez horas, ao terminar o almoço, estava já resolvido que o rapaz, naquele mesmo dia, 
se mudava definitivamente para a casa de  pensão.
      Com efeito, pouco depois, no escritório  do Campos, dizia a este, cheio de maneiras de 
pessoa  ajuizada, "que afinal descobrira em  casa da família de um amigo o cômodo que  
procurava".  Agradeceu  muito os obséquios recebidos das mãos do negociante, desculpou-se  
pelas maçadas que causara naturalmente e pediu licença para despedir-se de D. Maria Hortênsia.
      O Campos, logo que soube qual era a casa de pensão de que se tratava,  aprovou a 
escolha, citou pessoas distintas que lá estiveram morando por muito tempo, e recomendou ao 
estudante -  que lhe  aparecesse de vez em quando; que não se acanhasse  de bater àquela 
porta nas ocasiões de apuro, porque seria atendido, e, afinal, perguntou se Amâncio queria  
receber a mesada, já  ou mais tarde.
      -  Como quiser... respondeu o provinciano, sem ter aliás a menor  necessidade de 
dinheiro. E foi embolsando a quantia.
      D. Maria Hortênsia recebeu-o com muito agrado. A irmã não estava em casa.
      Conversaram.
      Ela sentia que Amâncio se retirasse assim tão depressa; -  mas, quem sabe? Talvez não 
se desse bem ali; não fosse tratado como merecia...
      O estudante  protestava, jurando que não podia ambicionar melhor tratamento do que 
lhe dispensaram; reconhecia, porém, que já causava muito incômodo, e por conseguinte devia  


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retirar-se. Não queria abusar.
      Hortênsia afiançava e repetia que ele não dera  incômodo de espécie alguma.-  Tudo 
aquilo era feito com muito gosto!
      Agora parecia mais familiarizada com o provinciano. Chegou a dirigir-lhe gracejos; disse, 
com um sorriso de intenção, que "sabia perfeitamente o que aquilo era!... O que eram rapazes! - 
Não se queriam sujeitar a certo regime; só lhes servia pagodear à solta ! Enfim!...tinham lá a sua 
razão... Se ela fosse rapaz faria o mesmo, naturalmente!"
      Amâncio estranhou que tais palavras viessem de quem vinham, e, não querendo perder a 
vaza, retorquiu com febre: "Que Hortênsia estava enganada a respeito dele, que não o conhecia! 
Se, à primeira vista ele parecia um pândego ou um sujeito mau, não o era todavia no fundo! 
Ninguém amava tanto a família; ninguém desejava o lar com tanto ardor e com tanto desespero! 
Oh! Que  inveja não tinha do Campos!...que inveja não tinha de todo homem, a cujo lado 
enxergava uma esposa bonita e carinhosa!..."  
      Hortênsia agradeceu com um sorriso.
      -  Oh! Quanto fora injusta!...prosseguiu Amâncio, como rosto esfogueado de comoção. 
- Quanto fora injusta! O seu ideal, dele, era justamente o casamento; era possuir uma 
mulherzinha, cheirosa e meiga, com quem passasse a existência, ditosos e obscuros no seu canto, 
vivendo  um para o outro,  ignorados, egoístas, não cedendo nenhum  dos dois, a mais 
ninguém a menor particularzinha de si,-  um sorriso que  fosse, um olhar amigo, um aperto de 
mão!
      - Que rigor! Exclamou Hortênsia, tomando certo interesse pelo que dizia o estudante.-  
Que rigor! Não o  supunha assim, seu Amâncio!...
      - Oh! Era assim que ele entendia o verdadeiro amor!...
      E, cada vez mais quente:
      - Era assim que ele  amaria! Era assim que ele cercaria de beijos o anjo estremecido que 
o quisesse  recolher à tepidez consoladora de suas asas! Era assim  que sonhava a existência de 
duas almas gêmeas, soltas no azul, gozando a voluptuosidade  do mesmo vôo!...
      -  Pois é casar-se, meu amigo... aconselhou a mulher do Campos, pasmada de ouvir 
Amâncio  falar  daquele modo.-  Não  o fazia tão prosa!...
      E, como era preciso dizer qualquer coisa, acrescentou muito amável:
      - Quem sabe se alguma fluminense já não lhe voltou o miolo!...
      Ele  confessou que sim, sacudindo tristemente a cabeça .  E, de tal modo exprimiu o 
seu amor por "essa fluminense", tão ardente e tão apaixonado se mostrou, que Hortênsia 
instintivamente se ergueu, a olhar para os lados, sobressaltada como se tivesse cometido uma 
falta.
      Não quis saber de quem se tratava.
      Deu uma volta pela sala, foi ao aparador, tomou  alguns goles de água e, procurando 
mudar de conversa, falou do baile  que havia essa noite em casa do Melo. -  Devia ser muito 
bom,  constava que havia quinze dias se preparavam para a festa. Era em Botafogo. O Campos, 
logo que recebeu o convite, lembrou-se de levar Amâncio consigo, este, porém, tão raramente 
aparecia em casa, e agora, com esta mudança...
      -  Não. O Campos falou-me, disse o estudante.
      -  Ah! sempre chegou a lhe falar?
      -  Há três ou quatro dias; mas eu não tencionava ir...
      -  Por quê? O senhor é moço, deve divertir-se.
      -  A senhora vai?
      -  Sim, vou.
      -  Nesse caso irei também.
      E Amâncio ligou tão expressiva entonação àquelas palavras, que Hortênsia  abaixou  os 
olhos, já impaciente, sem mais vontade de conversar.


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      - Seria possível, pensava ela -  que aquele estudante lhe quisesse fazer a corte?... Não! 
não seria capaz  disso, e, se fosse , ela saberia  desenganá-lo! Ah! com certeza que o 
desenganava!
      Campos subiu daí a um instante, e Amâncio, depois de combinar com ele que voltaria à  
noite para irem juntos à casa do Melo, entregou as suas malas a um carregador e saiu.
      Sentia-se alegre; a nova atitude de Hortênsia dava-lhe um vago antegosto de prazeres; 
previa com delícia os bons momentos que o esperavam.
      - E agora é que vou deixar a casa!...pensava ele já na rua .- Que tolo fui! Abandonar a 
empresa, justamente quando me sorri a primeira esperança! "Mas pedaço de asno, argumentava 
com seus botões - não calculaste logo que aquela mulher mais dia menos dia, havia de 
escorregar? Porque diabo então não esperaste um pouco?..."Ora! mas que caiporismo o meu! 
Sair nesta ocasião! Perder uma conquista tão boa! Agora também que remédio lhe ei de dar? O 
que está feito, está feito! A este momento minhas malas talvez já tenham chegado à casa do 
Coqueiro! E com este nome assaltaram-lhe logo o espírito as imagens de Lúcia e Amelinha.
      Bem me dizia o Simões, pensou ele. -  Bem me dizia o Simões: "Quando te começarem  
as aventuras, hás  de ver o que vai por esta sociedade!"
      E Amâncio, que não conseguia reter na cabeça as palavras  dos seus professores, 
Amâncio, que era incapaz de guardar na memória  um fato, um algarismo, uma fórmula 
científica, conservava, entretanto, com toda a inteireza aquela frase banal, pronunciada por um 
pândego em um almoço de hotel, depois de meia dúzia de garrafas de vinho.
      -  O Simões tinha toda a razão... principiavam as aventuras! Diabo era aquela asneira de 
abandonar tão intempestivamente a casa do Campos! Fora uma triste idéias, que dúvida! Mas, 
ele também não podias adivinhar quais seriam as intenções  de Hortênsia!...  O melhor por 
conseguinte era não se apoquentar -  o que lhe estivesse destinado havia de chegar-lhe às 
mãos!...
      E já nem pensava nisso quando subiu as escadas da casa de pensão. Sorrisos amáveis de 
Amelinha e Mme.Brizard o receberam desde a entrada. Coqueiro estava na rua.
      Veio a conversa do baile dessa noite. Amâncio, pela primeira vez, ia conhecer uma sala 
da Corte. As duas senhoras profetizavam que ele voltaria cativo por alguma carioca.
      - Duvido! Respondeu o estudante, a rir.
      -  É! Disse a francesa -  vocês do Norte são todos uns santinhos! Eu já os conheço! 
Nunca vi gente tão assanhada.
      Amelinha abaixou os olhos, depois de lançar  à outra um gesto repreensivo.
      Mme. Brizard não fez caso e acrescentou:
      -  Os demônios não podem ver um rabo-de-saia! 
      -  Loló! Censurou Amelinha em voz baixa.
      -  Também não é tanto assim!...contradisse o provinciano.
      Mme. Brizard citou logo os exemplos de casa,  até ali entre todos os seus hóspedes, só 
os nortistas davam sorte em questão de amor. - Um deles, um tal Benfica Duarte, chegara a 
raptar com escândalo uma crioula, e crioula feia!
      Amelinha, bem contra a vontade, soltou uma risada, que lhe desfez  por instantes o ar 
inocente da fisionomia; mas recuperou-o logo, e lembrou à cunhada "que não deviam estar ali a 
roubar o tempo a seu Amâncio. Ele tinha que cuidar das malas que já o esperavam no quarto!"
      -  Nós podemos ajudá-lo nesse trabalho, acudiu a velha.-  Certas coisas só ficam bem 
feitas por mão de mulher!
      O estudante aceitou oferecimento, e os três  seguiram para o gabinete, sempre a rir e a 
conversar.
      Amelinha, enquanto Amâncio estrava no quarto, observou, em voz baixa a Mme. 
Brizard, que não achava conveniente que esta arriscasse em sua presença pilhérias como as de 
ainda há pouco. -  O rapaz, por muito ingênuo que fosse, podia desconfiar com aquilo e 


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persuadir-se de que ela, Amelinha, não daria uma noiva bastante séria e digna dele! Que, às 
vezes, por estas e outras indiscrições, desmanchavam-se casamentos!
      -  Como te enganas! Respondeu a velha-  já compreendi bem esse sujeito: a sua corda 
sensível são as mulheres! Gosta que lhe falem nisso! Tu, do que precisas, é opor-lhe 
dificuldades, sem que o desenganes por uma vez; nega, mas promete, que obterás a vitória. 
Quando ele te pedir um beijo, dá-lhe um sorriso; e,  quando quiser muito mais, dá-lhe então o 
beijo, contando que te mostres logo arrependida, envergonhada, chorosa, inconsolável, disposta 
a não lhe ceder mais nada, e disposta a nunca lhe pertenceres, a nunca lhe  perdoares aquele 
atrevimento. E, se ele insistir, repele-o, insulta-o, jura que o desprezas e fá-lo acreditar que amas 
a outro. -  É dessa forma que o hás  de agarrar,  percebes? Lá quando às minhas chalaças  de 
ainda há  pouco, descansa que por aí não  irá o gato às filhoses.
      Nesse momento, o rapaz acabava de abrir   as malas. As duas senhoras apareceram no 
quarto. 
      Ele tinha muita roupa branca, e tudo bom. Camisas finas de linho, ricas toalhas de renda 
marcadas cuidadosamente por sua mãe, fronhas bordadas, mostrando o seu nome entre 
labirintos e desenhos caprichosos. 
      Sentia-se o amor, o desvelo, com que tudo aquilo fora arrumado; cada objeto parecia 
conservar ainda a marca da mão  carinhosa  que o acondicionara a um canto da arca.  Alguns 
denunciavam o trabalho paciente de longos tempos, traziam à idéia   calmos  serões à luz do 
candeeiro. Adivinhava-se, pelo completo daquele enxoval, a providência de um coração 
materno; nada faltava.
      À proporção que se iam tirando as peças  de roupa, uma tepidez embalsamada respirava 
dentre elas;  parecia que um perfume ideal  de beijos se exalava ao desdobrar dos brancos 
lençóis  de   linhos ; percebia-se que muita lágrima e muito soluço ficaram abafados no fundo 
daquelas arcas.
      Vieram  ao provinciano novas e  mais vivas saudades de Ângela. Uma vaga tristeza 
apoderou-se dele, ficou distraído, a olhar silenciosamente para as roupas que as duas mulheres  
empilhava no chão e  sobre a cama. Sentiu, compreendeu, que ele próprio,  à semelhança 
daquelas arcas, havia também  de ir perdendo, pouco a pouco, todas as ilusões, todos os 
perfumes, com que saíra  impregnado dos braços de sua mãe.
      E afastou-se do quarto  para limpar as lágrimas. As lágrimas, sim, que o fato de sua 
primeira viagem, as impressões  da Corte, a saudade, as aventuras  amorosas, as ceatas  pelos 
hotéis, davam-lhe  ultimamente uma sensibilidade  muito nervosa e feminil.  Elas acudiam-lhe  
agora com extrema facilidade;  chorava sempre que se comovia. Às vezes no teatro, assistindo  
à representação 
      De qualquer  drama de efeitos, ficava envergonhado por não poder impedir que os 
olhos se lhe enchessem de água; a simples descrição de uma desgraça perturbava-o  todo;  a 
música italiana o entristecia; a idéia de um feito erótico ou de um rasgo de perversidade  era o 
bastante para lhe agitar a circulação do sangue e formar-lhe godilhões na garganta.
      Quando voltou ao quarto, já os baús estavam despejados.
      Mme. Brizard não  se fartava de elogiar a boa qualidade das fazendas, o bem cosido 
das roupas, a pachorra e asseio com que tudo fora feiro. Apreciava o trabalho das marcas; 
chamava  a tenção de Amélia para os bordados, para os labirintos e para as rendas.
      -  Olha! Disse-lhe, mostrando um pano de crochê, -  o desenho é justamente como 
aquele da toalha do oratório.  Só faltam aqui as duas borboletas do canto.
      E arrumava tudo, com muito cuidado, nas gavetas da cômoda. Tomava religiosamente 
sobre os braços  os pesados lençóis, os maços de ceroulas em folha, os pacotes  intactos de 
meias listradas, os de lenços barrados de seda, os colarinhos de todos os feitios, as gravatas de 
todas as cores. E não acondicionava uma peça   sem afagá-la, sem lhe passar por cima as mãos 
abertas.


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      -  O rapaz estava provido de tudo! Disse em voz baixa. E, depois acrescentou alto, 
rindo: - Podia até se casar se quisesse!
      -  Falta o principal... respondeu ele.
      -  Que é? Acudiu logo Amélia.
      -  A noiva! Explicou  o moço, olhando intencionalmente para a rapariga.
      -  Deve estar à sua espera no Maranhão... volveu ela.
      E abaixou os olhos com um movimento de inocência, muito bem feito.
      -  Não vê! Exclamou a velha. -  Então um rapaz desta ordem deixava as meninas da 
Corte para amarrar-se  a  uma provinciana?... Seria de mau gosto!
      - Não sei por que, retorquiu Amâncio, ligeiramente escandalizado. -  Na província há 
senhoras bem educadas, muito chiques!
      -  Sei, sei, perfeitamente, disse Mme. Brizard, evitando contrariá-lo. Sei que as há ... 
mas é que o Sr. Vasconcelos tem elementos para desejar muito melhor!  Seria pena que um 
rapaz tão  perfeito não escolhesse uma noivinha comme il faut.-  Bonita, instruída, que 
soubesse entrar e sair numa sala, conversar, fazer música, recitar, servir um almoço, dirigir uma 
soirée. Além de que, meu caro senhor, as provincianas, em geral, saem muito mais exigentes  do 
que as filhas da Corte.
      E, como Amâncio fizesse um ar de espanto:
      -  Sim, porque a fluminense, habituada como está na capital e familiarizada com os 
bailes, com os espetáculos do lírico, com os passeios, já se não se preocupa com essas coisas e, 
uma vez casada, dedica-se exclusivamente ao lar, ao marido e aos filhinhos; ao passo que com 
as outras, as provincianas, sucede justamente o contrário, visto que ainda não conhecem aqueles 
gozos e só desejam o casamento  para conhecê-los. Daí  as suas exigências; nada as satisfaz, 
porque tudo fica muito aquém  dos seus sonhos da província; o que para as outras é tudo, para 
elas  não é nada. Bailes e teatros toda a noite, carruagens, lacaios, vestidos de seda, dez ou 
vinte criados, nada as contenta, nada corresponde ao que elas  ambicionam. E o marido, o 
pobre marido de semelhante gente, depois de arruinado e depois de passar uma existência sem 
amor e sem aconchegos de família, ainda terá de suportar as queixas e os ressentimentos de uma 
mulher desiludida e blasé.
      -  Perdão! Replicou o estudante. -  Isso prova simplesmente que toda a mulher, seja da 
província ou da Corte, apresenta sempre certa dose de ambições. Com a diferença, porém, de 
que a provinciana, por isso mesmo que o Rio de Janeiro é o seu ideal, é o seu sonho dourado, 
contenta-se  com  ele; enquanto que a outra, visto que o supradito Rio de Janeiro para ela nada 
mais é que o comum, estende naturalmente a sua ambição  -  e quer Paris. O  Passeio Público 
já não a satisfaz, é  preciso dar-lhe Bois de Boulogne; já não lhe chegam carruagens, criados e 
teatros; quer tudo isso e mais  um título, de baronesa pelo menos!
      E, encantado com a clareza do seu argumento, continuou a discutir, chegando à 
conclusão de que seria loucura desejar uma mulher isenta de ambições e caprichos, e que ele já 
se daria por muito satisfeito se encontrasse alguma, cujo ideal  não fosse além do Rio de 
Janeiro.
      Amélia era precisamente dessa opinião, mas entendia que, mesmo na Corte, se 
encontravam meninas bem educadas e aliás muito modestas.
      Amâncio declarou que não argumentava com exceções.-  Sabia  perfeitamente que nem 
todas as fluminenses calçavam pela mesma forma, e não tinha a pretensão de dizer "desta água 
não beberei, deste pão não comerei!" apenas não admitia aquela razão, que apresentava Mme. 
Brizard, para provar que as provincianas eram mais  dispendiosas do que as filhas da Corte. 
Isso não! que o desculpassem, mas não  podia admitir!
      Sempre queria vê-lo casado com uma provinciana!... observou a francesa, tomando a 
roupa que lhe passava a outra. -  Então sim! Aposto que não teria a mesma opinião!
      Amâncio não respondeu logo, porque estava muito ocupado a apanhar do chão  uma 


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grande pilha de camisas engomadas, que Amelinha deixara cair. Mme. Brizard acudiu também a 
ajudá-los, e, na precipitação com que todos três, agachados um defronte dos outros, queriam ao 
mesmo tempo recolher a roupa espalhada no soalho, as  mãos do estudante encontraram-se com 
umas mãozinhas finas que não eram certamente as de Mme. Brizard.
      Mas todas as vezes que ele tentou retê-las entre as suas, as tais mãozinhas fugiam tão 
ligeiras, como se lhes houvessem chegado uma brasa
      . 
      IX
      
      O baile em casa do Melo esteve bom. Este, muito magro, de suíças negras, olhos fundos 
e movimentos rápidos, não descansava um instante; tão depressa o viam conduzindo senhoras 
pela escada, como a receber apresentações na sala de jantar, como a formar quadrilhas; 
voltando-se para todos os lados e atendendo a todas as pessoas.
      O Melo tinha boas relações e alguns bens adquiridos no comércio; nunca se envolveu 
diretamente com a política, mas prezava o monarca e esperava , com resignação, um hábito que 
há dez anos lhe haviam prometido pingar sobre a lapela da casaca. A mulher, que já não era 
criança, ainda metia muita vista e passava por bonita; homens, que envelheceram com ela, 
citavam-na como um tipo de formosura.
      Amâncio foi recebido com especial agrado, graças a Luís Campos que era íntimo do 
dono da casa.
      A circunstância de que ali se achava só, no meio de tanta gente estranha, como que 
apertava o círculo de suas relações com a família do correspondente. Fazia-se muito deles, 
muito aparentado; não dispunha de mais ninguém para desabafar as suas impressões e para 
conversar um pouco mais à vontade.
      Assim, quando saltamos num porto pela primeira vez, sentimos estreitarem-se de repente 
nossas relações com os companheiros de bordo, ainda mesmo que os conheçamos de poucos 
dias.
      Até Carlotinha parecia mais expansiva, principalmente depois que Amâncio se revelou 
insigne dançador de valsa. Ela era louca pela dança.  Maria Hortênsia notara igualmente que o 
provinciano tinha um certo talento coreográfico muito peculiar,  e não ficou isolada nesse juízo, 
porque várias senhoras se declararam a mesma opinião.
      Não tardou muito a que semelhante julgamento se estendesse pelas outras salas ,. E em 
breve estavam todas as damas de acordo em que Amâncio era o melhor par daquela noite.
      Com efeito, se ele em outra qualquer coisas não conseguiu a perfeição , na dança ao 
menos nada se lhe tinha a desejar; dançava admiravelmente, por vocação, por índole, por um 
jeito especial do corpo, e com um amaneirado gracioso que sabia dar aos braços, à cabeça e às 
pernas. Pode-se dizer que na valsa dispunha de um estilo próprio, original.
      Quando, sacudido pela música, os olhos meio cerrados,  a boca meio aberta, 
arremessava-se com a dama no turbilhão da sala, tinha alguma coisa de pássaro que desprende o 
vôo. Ficava até mais bonito; os cabelos crespos tremiam-lhe romanticamente sobre a testa; o 
cansaço dava ao moreno de suas faces uma palidez misteriosa e doce. E, com o braço direito 
engranzado à cintura do par, o esquerdo repuxando nervosamente a mão que a dama estendia 
sobre a sua, ele empertigava-se todo com delícia, a fechar os olhos e a rodar extasiado, 
embevecido como se fora arrebatado por entre nuvens de arminho. 
      No seu temperamento, excessivamente lascivo, gozava com sentir  ligado ao corpo 
precioso de uma mulher de estimação; comprazia-se em beber-lhe o hálito acelerado pela dança, 
embebedava-se com respirar-lhe os perfumes agudos do cabelo e o infiltrante cheiro animal da 
carne.
      Afinal, depois de uma valsa, estonteado e ofegante, atirou-se ao canto do divã em que 
estava Hortênsia.


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      Confessava-se   prostrado, a limpar o suor do pescoço e da fronte. Fora imensa a valsa e 
ele cansara três pares, que se abateram inúteis, como as  espadas de Ney na batalha de 
Waterloo.
      -  Apre! Disse. 
      As senhoras olhavam-no já com respeito, acompanhavam-lhe os menores movimentos 
com enorme interesse.
      - Muito bem! Muito bem! Cochichou-lhe a mulher do Campos. - Ignorava que o senhor 
fosse tão forte na valsa!
      E começaram a conversar sobre o mal que se dançava ultimamente. Ela declarou  que 
uma das coisas que mais apreciava era uma boa valsa. Isso desde criança; no colégio, às vezes, 
as meninas passavam a hora do recreio dançando umas com as outras. 
      -  Ninguém o diria...considerou Amâncio, fazendo-se muito seu camarada.-  A senhora 
hoje só tem querido dançar quadrilhas.
      Ela respondeu com um risinho significativo.
      - Quer uma valsa comigo?.. perguntou o rapaz, em segredo, requebrando os olhos.
      Não posso! Disse ela, quase com um suspiro. - Aceitaria de bom grado, mas não posso...
      - Valha-me Deus! Por quê?
      Porque...
      Hortênsia sorriu de novo, sem ânimo de confessar a verdade. - o marido não gostava de 
a ver valsar. Também não se podia desculpar,  dizendo que não sabia, porque ainda há pouco 
dissera justamente o contrário; afinal sem fazer empenho de ser acreditada acrescentou 
gracejando.
      - Porque... porque me faz mal...
      Amâncio prometeu que a conduziria devagar e que não dançaria longo tempo seguido; 
aceitava todas as condições, contanto que desfrutasse a suprema ventura de lhe merecer uma 
valsa.
      Hortênsia não respondeu; tinha o olhar esquecido sobre um grande quadro que lhe ficava 
defronte suspenso da parede. E abanava-se, lentamente, como seguindo o vôo de um vago 
pensamento voluptuoso. 
      O quadro representava uma cena de Fausto e Margarida, no jardim ( um longo beijo 
apaixonado que parecia soluçar entre a  folhagem do painel. O encantado filósofo tomava nas 
mãos brancas a loura cabeça de sua amante, e sorvia-lhe alma  pelos  lábios. O sol morria ao 
longe, dourando a paisagem, e um casal de pombos arrulhava à sombra azulada de uma planta).
      Hortênsia  olhava para isso, enquanto, ao gemer das rabecas, cruzavam-se na sala os 
pares, marcando contradanças. O aroma das flores, que se fanavam em grandes vasos japoneses, 
misturava-se ao cheiro das mulheres, e penetrava a carne com a sutilidade de um veneno lento e 
delicioso como o fumo do charuto. Os ombros lácteos das senhoras, expunha-se nus à grande 
claridade artificial do gás; as jóias faiscavam; os olhos desfaleciam, e um calor gostoso ia 
infirmando os sentidos e entorpecendo a alma.
      - Então?...pediu Amâncio, pondo doçura na voz,-  dance comigo, sim?...Faça-me a 
vontade. Eu sentiria nisso tanto gosto...
      E todo ele suplicava aquele obséquio, com  o empenho apaixonado de que pede uma 
concessão de amor.
      Ela dizia que não, meneando a cabeça; mas, um sorriso que se lhe  escapava dos lábios, 
dizia o contrário.
      - Então!...sim?...sim?   um bocadinho só! Insistia o estudante, a devorá-la com os olhos. 
      Estava ainda cansado; a voz não lhe vinha inteira, mas quebrada, como por um espasmo; 
os olhos dele arqueavam-se luxuriosamente; as pernas principiavam-lhe a tremer
      -  O que lhe custa à senhora dançar um pouquinho comigo?
      E, vendo que ela não respondia, balbuciou em tom magoado, de criança ressentida:


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      - Bem, bem, não lhe peço mais nada, não a importunarei de hoje em diante. Desculpe!
            Hortênsia voltou-se para ele, ia talvez desenganá-lo; mas a orquestra, que havia         
emudecido depois da quadrilha, deu sinal par a "valsa". Era o Danúbio de Strauss.
      O rapaz ergueu-se como um soldado que ouvisse tocar a rebate.
      Ela não resistiu, levantou-se de um salto e entregou-lhe a cintura.
      Dançaram. A princípio vagarosamente: depois, como a música se acelerasse, Amâncio 
arrebatou-a. Ela deixou-se levar, a cabeça descansada nos ombros dele, as mãos frias, a 
respiração doida.
      A música redobrou de carreira. 
      Foi então um rodar convulso, frenético: a casa, os móveis, as paredes, tudo girava em 
torno deles. 
      Hortênsia dançava tão bem como o rapaz. Os dois pareciam não tocar no chão; os passos 
casavam-se como por encanto; as pernas gravitavam em volta uma das outras com precisão 
mecânica.
      Encheu-se a sala de pares. Amâncio fugiu com Hortênsia, sem interromper a valsa; 
pareciam empenhados numa conjuntura amorosa. Ela arfava sacudindo o colo com a respiração; 
os seus braços nus tinham uma frescura úmida; os olhos amorteciam-se defronte dos dele; não 
podia fechar a boca, e seu hálito misturava-se ao hálito fogoso do estudante. 
      De repente, Amâncio parou exausto. Ouvia-se-lhe de longe as respiração. 
      - Não! não! balbuciava ela, quase sem poder falar. - Ainda! Mais um pouco!
      E abraçaram-se e novo, freneticamente.
      Quando parou a música Hortênsia caiu sobre um divã pelos braços de Amâncio.
      Não podia dar uma palavra; não podia abrir os olhos. Sua respiração parecia longos 
suspiros contínuos e estalados. 
      Vários cavalheiros se aproximaram.
      - Ficou muito fatigada?...Perguntou Amâncio, inclinando-se sobre ela, a mão apoiada 
nas costas do divã.
      Hortênsia não respondeu. Cobriu o rosto com o lenço de rendas e continuou recostada. 
Foi a voz do marido que a despertou.
      - Que loucura e esta, Neném?...Perguntou ele sorrindo com o seu bom ar de homem 
honesto. 
      Ela sorriu também, e pediu desculpas com o olhar.
      - Sabes que te faz mal, para que valsas?...
      Hortênsia soltou uma risadinha de intenção e disse baixo: - Não é o mal que me faz que 
te dá cuidado...
      - Como assim?...
      - Ora, é que tu não gostas muito de me ver valsar...
      - Porque te faz mal, filha!...
      - É só por isso? Afianças que não tens outro motivo?
      Campos respondeu com um movimento de ombros.
      - Olha lá!...ameaçou a bonita senhora, sacudindo um dedinho da mão direita..-   Olha 
que sou capaz de ,hoje em diante, não perder uma só valsa!...
      Ele repetiu o movimento de ombros, e acrescentou:
      - Isto é lá contigo, filha; a saúde é tua, faze o que entenderes, ora essa!
      Algumas pessoas perceberam o seu mal humor e riram com  disfarce.
      Nessa ocasião, Amâncio encostado ao bufete, pedia que lhe servissem um grogue à 
americana
      
      
      * * *


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      - Está retemperando  a fibra? Perguntou-lhe um sujeito magrinho, elegante, meio calvo, 
a bater-lhe amigavelmente no ombro.
      O estudante voltou-se apressado e, logo que viu o outro, exclamou:
      - Oh! O Dr. Freitas? Como passou? Não sabia que estava também por cá!
      Freitas respondeu com a sua voz gasta-  que chegara havia pouco; não lhe fora possível 
vir antes; tivera que acompanhar o enterro de um parente.-  Coitado! cacete até depois de 
morto, três necrológios de hora e meia cada um!...Ah! os parentes! Os parentes eram uma 
desgraçada invenção, principalmente se não deixavam alguma coisa!
      E, depois de retesar o peito e puxar a gola da casaca:-  Mas então como ia o Sr. 
Amâncio de Vasconcelos?...Pela fisionomia jurava-se que tinha saúde para dar e vender, e, 
pelos atos, não parecia menos disposto, porque o Freitas presenciara a conversa do amigo com 
Hortênsia.
      E rindo: - Homem, faz você muito bem! Aproveite enquanto está no tempo!   Se eu 
tivesse a  sua idade, com a experiência de que disponho hoje, não havia de proceder como 
procedi! Oh! Aquele aforismo tem muito fundo!  "Si Jeunesse savait..."
      E a olhar para os pés, com um gesto cheio de tédio:-  Gostei de o ver na valsa, gostei 
seriamente! Ah! Eu é que já não sou homem para estas coisas! Aceito tudo, menos o que me 
obrigue à fadiga!..
      Amâncio fez-se modesto; negava que dançasse bem; mas o outro, em vez de insistir nos 
elogios, como esperava ele, perguntou-lhe muito descansadamente por que razão não lhe 
apareceu depois da primeira visita?
      O estudante desculpou-se com a falta de empo e o excesso de estudo. Havia ,porém, de 
aparecer, mais tarde.
      As suas relações com o Dr. Freitas procediam de uma carta de recomendação, que um 
amigo do velho Vasconcelos lhe arranjara. Freitas era uma excelente amizade para qualquer 
estudante pouco escrupuloso; dispunha de ótimas relações, que podiam servir de empenho nas 
épocas apertadas de exame.
      Tinha alguma coisas, gostava de ir à Europa de vez em quando, e o seus quarenta  não 
espantavam a ninguém; ao contrário, ainda havia muito olho esperto de mulher que se arregalava 
para o ver. Isso sem falar nas senhoras que se foram aposentando, enquanto ele parecia 
eternamente empalhado nos seus fraques irrepreensíveis,  nos seus chapéus à moda e nos seus 
enormes sapatos à inglesa, de um elegantismo feroz. Em consciência, ninguém o poderia 
qualificar senão de rapaz. As mulheres eram o seu fraco, o seu vício mais acentuado; várias 
anedotas suas, inspiradas neste assunto, corriam de boca em bocas há vinte anos.
      Amâncio ficou muito seu camarada, desde a primeira visita. Em menos de uma horas de 
conversação, falavam já sobre as cocotes mais conhecidas na Corte; e , alguns dias depois, 
quando se encontraram na Fênix, o Freitas apresentou-lhe uma espanholona de buço louro, a 
qual nessa ocasião passava pelo corpo mais bonito do mundo equívoco.
      - Pois você já está um fluminense acabado! Disse o elegante, a medir Amâncio de alto a 
baixo. -  Não imaginei que andasse tão depressa...
      E, porque voltasse à conversa sobre mulheres, continuou o que dizia há pouco: - 
Infelizmente só chegamos a conhecê-las quando vamos caindo na idade; de sorte que é preciso 
aproveitar o espaço que medeia dos trinta aos quarenta anos; antes disso -  não sabemos, 
depois-  não podemos. Ah! se aos vinte já se conhecesse a mulher... se então já se soubesse 
quais são os seus gostos e suas preferências...se tal acontecesse, nem uma só se conservaria 
virtuosa!...Mas, nesse período doas sonhos e das ilusões, no período em que está o senhor, meu 
amigo, ninguém é capaz de ma audácia! Para chegar a fazer qualquer coisa é preciso ser 
provocado, mas muito provocado!


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      Amâncio protestava com um sorriso pretensioso.
      - Oh! Oh! Exclamou o outro, cheio de experiência, a calcar o monóculo sobre o olho. -  
Já tive a sua idade, meu amigo, já tive a sua idade Pensava então que , para agradar mulheres , 
era indispensável fazer-me bonito, meigo, romântico, atencioso, que sei eu!...Engano! puro 
engano! Elas aborrecem tudo isso, e só exigem três coisas num homem: A primeira -  muita 
audácia; a Segunda -  um pouco de inteligência; a terceira -  algumas relações na boa 
sociedade! E... ainda temos uma de que me esquecia e que entretanto é a base de todas as 
outras: -  Não ser seu marido!...Com estas quatro habilidades, desde que se tenha mocidade e 
boa disposição, não há mulher que resista! Quanto à beleza, boas maneiras e bom caráter -  
histórias, homem! histórias! Elas, ao contrário, detestam os tipos afeminados e não morrem de 
amores pelos sujeitos rigorosamente honestos, e bem comportados. Qual! Querem o seu bocado 
de vício; o belo do deboche de vez em quando, para variar!...
      E, metendo as mãos nos bolsos da calça, e jogando o corpo com ar canalha: 
      Lá para a seriedade basta-lhe o marido! É boa!
      Amâncio ria-se, abarrotado de intenções. O Freitinhas foi nesse momento apreendido 
pelo dono da casa: "As damas reclamavam as sua presença, dele, nas salas! Era preciso não se 
meter pelos cantos!"
      O Dr. Freitas deixou-se levar, sempre muito enfastiado; mas, antes de ir, bateu no ombro 
de Amâncio e segredou-lhe com a sua voz de tuberculoso: 
      Aproveita, menino, aproveita! Não mandes nada ao bispo!
      
      * * *
      
      
      Iam já desaparecendo os convidados. Os pais de família toscanejavam encostados às 
ombreiras das portas, esperando, com os braços carregados de capas e mantas, que as mulheres e 
as filhas se resolvessem a seguir para  casa. Havia um vago tom de cansaço nas fisionomias; 
entretanto, alguns cavalheiros jogavam ainda, em um quarto próximo, à luz trêmula das velas de 
estearina. O melo conduzia senhoras pelo braço à porta da rua, agradecendo-lhes muito o 
obséquio de aceitarem o seu convite.
      Foi Amâncio que ajudou Hortênsia a entrar na carruagem. O Campos parecia contrariado 
com  a demora. -  há duas horas que desejava se retirar. 
      Encurtaram-se as despedidas. O horizonte principiava a franjar-se com os galões 
prateados da aurora, e , do lado das montanhas desciam tons matutinos da natureza que 
desperta.
      Hortênsia, muito embrulhada na sua capa de casimira branca e guarnecida de arminhos, 
atirou-se com impaciência sobre as almofadas do carro, levantando um luxuoso farfalhar de 
sedas que se amarrotam. Logo, porém, que o cocheiro sacudiu as rédeas, ela chegou o rosto à 
portinhola, e gritou para fora: 
      - Aparece Domingo! Vá jantar conosco. Adeus!
      Amâncio, perfilado na calçada, o chapéu suspenso  na mão direita, em atitude de quem 
faz um cumprimento respeitoso, disse, agitando o braço:-  Adeus , minha senhora. Hei de ir.
      O carro do Campos tomou a direção da Praia de Botafogo; o rapaz ainda o acompanhou 
com a vista;  depois, levantando os ombros e abotoando melhor o sobretudo, meteu-se num 
tílburi que se aproximava lentamente e mandou tocar para a casa de pensão.
      O animal disparou, sacudindo as crinas ao vento fresco da manhã.
      
      * * *
      
      


[Linha 3200 de 8244 - Parte 2 de 5]


      Amâncio acendeu um charuto e, com os olhos meio cerrados, derreou-se para p fundo 
do tïlburi.
      Naquele momento fazia gosto em se fazer muito farto,  muito cansado de amores. Sua 
últimas impressões enchiam-lhe o cérebro de uma espécie da vapor azotado, que asfixiava todos 
os outros pensamentos.
      - A continuarem as coisas daquele modo, dizia ele consigo, chupando o charuto aos 
solavancos do carro,  -  em breve o tempo será pouco para tratar só dos namoros!
      A cada passo que dera na sua inútil existência, rasgara com o pé uma página do livro das 
ilusões. Mas, a presença deste raciocínio, longe de afligi-lo, dava-lhe à vaidade um certo prazer 
doentio e picante.
      - Como poderia acreditar agora nas tais virtudes femininas?...Pois se até falhara a própria 
mulher do Campos!...
      Quando poderia ele imaginar que Hortênsia, tão severa e tão grave ainda há pouco, uma 
criatura por quem todos " metiam a mão no fogo", fosse assim leviana e fácil, com as outras?...
      E Amâncio saboreava esta convicção, porque, a despeito do que dissera aos amigos no  
Hotel dos Príncipes , sua consciência, por conta própria, tomara sempre a defesa de Hortênsia e 
insistia em mostrá-la cercada de um grande prestígio venerando e respeitável.
      - A consciência agora que falasse!
      E refocilava-se todo com o seu triunfo. -  Agora é que ele queria saber quem tinha razão; 
sim, porque enquanto procurava se convencer de que deveria esperar de Hortênsia aquilo 
mesmo, a rezingueira da consciência saltava-lhe em cima com um nunca terminar de razões e 
apresentava-lhe a "excelente senhora" cada vez mais pura e menos acessível! E eis que , de 
supetão, quando menos se esperava, os fatos se erguiam brutalmente para desmentir a 
impostura. 
      E ele sorria ,vendo as asas  do anjo baquearem a seus pés, murchas e retraídas , como os 
galhos de uma árvore arrancados pelo nordeste. 
      - Bem dizia o Simões: "Quando te começarem as aventuras..."E melhor ainda o Dr. 
Freitas: "Para conquistar as mulheres são apenas quatro coisas necessárias: audácia, boas 
relações, um pouco de inteligência e não ser seu marido!"
      E os fatos, como disciplinados por estas palavras, formavam ala e começavam a cantar as 
vitórias do estudante.. Na sua lógica indiscutível afirmavam eles que Hortênsia, o tal modelo de 
severidade e pureza, morria de amores por Amâncio, que o desejava ardentemente, que se 
entregaria na primeira ocasião, fazendo loucuras, dando escândalos, que nem uma heroína de 
romance!
      - Está segura! Exclamou o rapaz, sacudido por estas idéias. O sangue saltava-lhe no 
corpo; aquela aventura se lhe afigurava  a melhor de sua vida; seu orgulho pueril, de namorador 
vulgar, espinoteava qual potro que se pilha às soltas no prado verdejante e proibido. As outras 
conquistas vinham logo chamadas por aquela, e todas as vítimas de sua sensualidade, ou as 
cúmplices de seu temperamento e da sua má educação, enfileiravam-se defronte dele, como um 
submisso batalhão de prisioneiros. 
      Chegou a casa ao amanhecer e não dormiu logo.  Os pensamentos revoavam-lhe no 
cérebro com o frenesi de folhas secas, redemoinhadas pelo vento.
      
      X
      
      Dormiu mal ; os sonhos não o deixaram em paz. A princípio, todavia, foram agradáveis: 
ternos episódios de amores fáceis que se encadeavam confusamente, e nos quais a sensações 
vinham e fugiam de um modo incerto e deleitoso; depois chegavam os sonhos maus, os 
pesadelos.
      Neste, as mulheres entravam por incidente, sempre duvidosas; vultos sinistros, e cabelos 


[Linha 3250 de 8244 - Parte 2 de 5]


desgrenhados, rostos lívidos, surgiam em torno dele e iam-se aproximando, até lhe ficarem cara 
a cara, num contato frio e incômodo de carne morta.. Depois sonhava-se em casa da família, 
voltando, porém , justamente do bile do Melo; tinha muita necessidade de repouso, queria 
continuar a dormir, mas a voz ríspida do pai berrava por ele da porta do quarto: "Anda daí, 
mandrião!, Basta de cama! Vê se queres que eu te vá buscar!" E aquela voz terrível dava-lhe a 
todo o corpo tremor de medo, e, ao estrondo que ela fazia, vultos cor- de -rosa, de cabelos 
louros, fugiam espavoridos, como rãs que se atiram n'água , assustadas pela presença de um boi. 
      Amâncio queria também fugir, mas suas pernas pareciam troncos de árvores seguros ao 
chão; queria gritar, mas a língua inchava-lhe na boca.
      Acordou muito fatigado e aborrecido às duas horas da tarde.
      Logo que apareceu na sala de jantar, Mme. Brizard fez-lhe entrega de um belo ramilhete, 
que lhe haviam remetido, a ele, com um cartão. Amâncio apressou-se a ler. O escrito dizia 
simplesmente: "Ao Dr. Vasconcelos - uma sua amiga".
      Cruzaram-se os penetrantes risos adequados ao fato. O rapaz, intimamente lisonjeado, 
fingiu não se impressionar com aquela manifestação; leu, porém, o bilhete mais duas, três, 
quatro vezes.
      Era letra de mulher, de Hortênsia  sem dúvida. Estava ali a sua alma, o fogo de seus 
olhos. Ele cheirou o pequeno pedaço de papel, e pensou sentir o mesmo perfume que, na 
véspera, durante a valsa, o tinha penetrado até à medula.
      Achavam-se presentes o Dr. Tavares, o Pereira, o gentleman e Lúcia. Disseram alguma 
coisa sobre aquelas flores, menos a última, que, junto à janela, parecia preocupada com um livro 
da capa roxa. O gentleman falou de Botânica a propósito de uma dália vermelha que havia no 
ramo. Afiançou que esta flor possuía em si tantas outras flores quantas eram as pétalas de que 
constava.
      - Flores perfeitas, com todos os órgãos, Sr. Amâncio -  estames, cálice, tudo!
      Amâncio, enquanto o Lambertosa discorria sobre a dália, leu ainda uma vez o cartão, e, 
ao levantara vista, reparou que Nini o fixava, cada vez mais insistente.
      Amélia dera-se por incomodada e não vira à mesa.
      O jantar correu, pois, muito frio e constrangido ao princípio; pouco se conversava e 
quase ninguém tinha vontade de rir. Dir-se-ia que só Amâncio a todos comunicava o seu fastio e 
o seu cansaço.
      Só pela sobremesa o Dr. Tavares narrou, como de costume, algumas anedotas jurídicas 
que presenciara na província. Uma delas tinha referência a ma certa velha que fora aos tribunais 
por haver desancado as costelas do genro.
      Mme. Brizard tomou a defesa das sogras, e aproveitou a ocasião para falar no marido de 
sua filha mais velha.
      Vai muito da educação e também um pouco do costume em que a gente os 
põe!...acrescentou ela autoritariamente. -  Mas, genro, não queria que houvesse outro como o 
defunto marido de Nini.. -  Era um perfeito cavalheiro! Mme. Brizard nunca lhe vira a cara 
fechada, nem lhe surpreendera um gesto mais arrevesado. Ele só a chamava, a ela, de  
"mãezinha"; sempre lhe trazia guloseimas da rua, e, aos domingos, pela manhã, dava-lhe um 
beijo na testa , impreterivelmente! - Ah! Era uma santa criatura!
      Nini suspirou e pôs-se a chorar em silêncio.
      - Agora temos choro!...pensou Amâncio com tédio.
      Nini, como se adivinhara tal pensamento, olhou para ele e   pediu perdão com um 
sorriso, ainda mais triste que o choro
      - Eu sou aqui da opinião do Ser. Amâncio de Vasconcelos...disse o gentleman  a Mme. 
Brizard, em tom discreto.
      Mme. Brizard não sabia, porém, do que tratava o Lambertosa.



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