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segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Ciência e Magia dos Fogos de Artifício - Tecnologia


CIÊNCIA E MAGIA DOS FOGOS DE ARTIFÍCIO - Tecnologia



Um espetáculo pirotécnico desperta em qualquer pessoa a impressão de magia. Mas os cientistas garantem: os desenhos multicoloridos no céu são uma maravilhosa questão de Química.

Ouve-se um assovio distante, até ocorrer a explosão em cores. O céu escuro fica estampado com riscos azuis, faíscas vermelhas, estrelinhas de ouro e chuva de prata. Surpreendem, então, luzes brancas como as de um raio e sons que imitam trovões. Esse espetáculo poderia perfeitamente ter acontecido no aniversário de uma cidade, em uma final de Copa do Mundo, em uma festa junina ou na entrada do Ano-Novo. Pois, afinal, os fogos de artifício são velhos convidados nas grandes celebrações, desde que os chineses, inventores da pólvora, começaram a utilizar tiros coloridos de morteiros, há cerca de 1 000 anos, para anunciar a vitória nas guerras. Mas só recentemente os cientistas começaram a desvendar o esplendor dessa antiga forma de comemorar, graças aos avanços da chamada pirotecnia - do grego, a arte de empregar o fogo.
O interesse dos pesquisadores não é gratuito. Na verdade, os princípios dos fogos de artifício valem para desenvolver desde sinalizadores de emergências mais eficientes até propulsores para os modernos ônibus espaciais. Tudo, em suma, é uma questão de controlar o processo da combustão, porque há maneiras e maneiras de uma substância queimar. Para que os fogos produzam esse, e não aquele, efeito visual é necessário obter uma temperatura determinada da chama e calcular a dosagem exata de gás.liberado durante a combustão. Para isso, os fogueteiros não devem errar na proporção dos componentes químicos. Quando um ingrediente entra de mais ou de menos, um leque de faíscas esverdeadas, por exemplo, pode se transformar em um borrão cor de laranja. As receitas de fogos de artifício são cheias de truques. E, para complicar, as fórmulas são mantidas em segredo, passadas de geração em geração, por famílias de tradicionais fogueteiros. O que facilita o sigilo, comum no mundo inteiro, é o fato de a indústria pirotécnica ser artesanal. Pois é impossível usar máquinas quando se trabalha com pólvora negra, a milenar invenção da China, que explode quando há atrito ou faísca. Em 1242, o monge inglês Roger Bacon (1220-1292) desvendou a fórmula do explosivo oriental, mas preferiu escrevê-la em código, por considerá-lo perigoso.
Na época, um destino idêntico foi dado às receitas de fogos, encarados como obra de feiticeiros. De qualquer modo, Bacon deve ter anotado, com símbolos estranhos, que para obter 100 gramas de pólvora são necessários 75 gramas de salitre, 15 gramas de carvão e 10 gramas de enxofre. Os fabricantes de fogos ainda acrescentam na mistura goma-laca ou breu, que servem como um ligante, envolvendo as partículas daqueles três componentes. Se isso não é feito, ao rasparem entre si, os grãos de pólvora podem disparar a combustão. A ignição ocorre quando a energia de alguma fonte -combustível, fricção, impacto ou até raios laser - quebra as ligações químicas de uma mistura pirotécnica como a pólvora. Assim, formam-se novas ligações entre os átomos, criando substâncias mais estáveis, isto é, com menos energia; nessa transformação, a energia liberada ativará a camada seguinte do grão de pólvora e assim por diante, até não existir mais material para queimar. A pólvora é ideal para a pirotecnia porque incendeia dispensando o oxigênio do ar. Esse gás essencial à combustão já está contido no salitre de sua composição. Portanto, é natural que quanto mais pólvora contenha, mais tempo dure e mais forte seja a combustão dos fogos de artifício.
Quando a famosa cascata de fogos do Hotel Méridien, no Rio de Janeiro, aconteceu pela primeira vez, no réveillon de 1977, as faíscas mal cobriam dez dos quarenta andares do edifício. "Ano após ano, a cascata crescia, porque desenvolvíamos novas fórmulas de bombas com mais pólvora", observa o francês Jean-Claude Niger, diretor técnico do Méridien. "No ano passado, conseguimos a proeza: a cascata desceu todos os 120 metros do prédio, chegando até o chão." O segredo desse espetáculo está na troca de elétrons entre os átomos de oxigênio e os átomos dos chamados combustíveis, que no caso da pólvora são o carvão e o enxofre. "Em toda reação com oxigênio existe essa troca, na qual a energia dos reagentes pode ser liberada de várias maneiras: como luz, como calor, como som", conta a química Rita Tereza dos Santos, da Universidade de São Paulo. O final pomposo da festa de Ano- Novo carioca, por exemplo, costuma apresentar o que os pirotécnicos chamam mistura de luz e som. Os químicos traduziriam isso para mistura de alumínio e pólvora branca: o metal, aquecido, libera luz; a pólvora branca (uma combinação de clorato de potássio, enxofre e alumínio) descarrega energia como ondas acústicas. É por isso que esse mesmo ingrediente entra nos rojões, que os torcedores de futebol soltam quando seu time marca um gol. A pólvora negra gera apenas calor.
Uma chama pirotécnica pode chegar a 3 600 graus Celsius. Para se ter uma idéia, segundo Rita, a temperatura da chama de um fogão doméstico costuma alcançar 800 graus Celsius. "Se o calor não se dispersa, porque está confinado em uma bomba, cria-se uma enorme pressão, que culmina separando todas as partículas, no fenômeno da explosão", descreve a química. Por isso, a primeira função da pólvora nos fogos de artifício é a propulsão, isto é, lançar a carga da bomba a 200 ou 300 metros do chão. O segundo papel da pólvora é fornecer calor para acender as chamadas baladas, pedaços de uma massa feita com produtos químicos, responsáveis pelo colorido dos fogos. Usa-se o estrôncio para se obter o vermelho e o cobre para se ter o azul; assim como um pintor misturaria na paleta as duas cores para conseguir o roxo, os pirotécnicos combinam estrôncio e cobre para fazer fogos de luz violeta.
Muitas vezes, os fogos começam de uma cor e terminam de outra, porque as baladas têm duas camadas de misturas diferentes. "Com uma família pequena de elementos químicos, recriamos as cores do arco-íris", comenta o empresário Valter Jeremias, da Caramuru, a indústria pioneira na fabricação de fogos no Brasil, fundada há 65 anos. A fábrica se espalha por uma colina, no município de Santa Branca, 88 quilômetros a leste de São Paulo. Ali, trabalham cerca de noventa funcionários, em minúsculas casinhas distantes entre si, onde ficam, no máximo, três pessoas de cada vez. O motivo disso pode ser chocante: trata-se de uma precaução, adotada no mundo inteiro, para evitar que morram muitas pessoas em eventuais explosões. Acidentes de maior ou menor gravidade acontecem com freqüência razoável, nem sempre por causa da pólvora. Depois de se moldarem as baladas, que têm do tamanho de um caroço de uva até o de uma bola de gude, a massa deve secar ao sol.
"Às vezes, o calor faz com que elas peguem fogo espontaneamente", diz Jeremias, que exibe uma bomba na mesa de trabalho. Trata-se de um tubo de cartão, com 75 centímetros de altura. Na base do cartucho, encontra-se uma pastilha grossa de pólvora, que lançará para o alto a carga do recheio-mais pólvora e as baladas. Existe ainda a bomba oriental redonda, que pode ter até o dobro do diâmetro de uma bola de basquete. "Nela, as baladas devem ser arrumadas organizadamente em todo o contorno", demonstra Jeremias. O próprio estopim ou o estouro da pastilha propulsora acende o que se chama fusível de tempo, um pavio que demora mais para queimar, encarregado de acender a carga do recheio. Assim, a pólvora no interior só explode espalhando e incendiando as baladas quando a bomba está longe do solo.
O calor liberado torna o material das baladas líquido ou gasoso. Então, as partículas começam a emitir luz, cuja cor dependerá do comprimento da onda. A luz visível são radiações eletromagnéticas que medem entre 380 nanômetros (um bilionésimo de metro), quando causam a sensação do violeta, e 780 nanômetros, quando provocam a sensação do vermelho. Os fogos são brancos reluzentes quando as baladas conseguem emitir, ao mesmo tempo, ondas de todos os comprimentos, com todas as cores do espectro. Para isso, é necessário fornecer muito calor, de modo que os pirotécnicos, quando desejam esse efeito, misturam alumínio, magnésio ou titânio à pólvora da carga. "Os metais elevam ainda mais a temperatura de uma chama", justifica a química Maria Regina Alcântara, da Universidade de São Paulo. O calor é fundamental para os três processos pelos quais as baladas produzem ondas luminosas. Um deles é a incandescência: "Quando se fornece muito calor a uma substância, é como se ela se sobrecarregasse, recusando a energia extra, devolvida na forma de luz. É o fenômeno de um ferro em brasa", informa Maria Regina.
Qualquer um pode notar que o ferro aquecido logo se torna vermelho - a primeira cor do espectro - até se alaranjar aos poucos; com mais calor, a cor passa a ser um amarelo forte; se for possível esquentá-lo ainda mais, ele assumirá tons azulados e, finalmente, ficará branco. "Do mesmo modo, nos fogos, é possível obter várias cores a partir de uma única substância existente na balada, conforme os elementos, como metais, acrescentados à pólvora - portanto, se o calor da chama é menor ou maior", esclarece Maria Regina. O mesmo não é possível nos outros dois processos de produção de luz. Na emissão atômica e na emissão molecular, uma substância qualquer só pode emitir determinado comprimento de onda luminosa, de acordo com as suas características. Na emissão atômica, os elétrons se agitam ao rodar em torno do núcleo atômico, transferindo-se para órbitas mais externas, que são mais energéticas; ao retornarem para a órbita de origem, os elétrons liberam a energia adquirida como luz. A emissão molecular é semelhante, só que a agitação é das moléculas, e não dos elétrons. "Quando as baladas são de sódio, inevitavelmente reluzem amarelo", exemplifica Maria Regina. Quando existe sódio dentro da bomba, os raios amarelos ofuscam qualquer outra onda luminosa de cor diferente.
O problema é que o sódio muitas vezes pode se formar indesejavelmente em reações durante a combustão, quando as partículas das baladas se evaporam e se misturam. Pois os fogos podem ser comparados com tubos de ensaio, repletos de elementos químicos, que se combinam quando aquecidos. "Os pirotécnicos podem usar dois ingredientes para formar uma terceira substância", conta o químico Atílio Vanin, professor da USP. É o caso das moléculas de bário, capazes de emitir a luz verde. "Frágeis, elas não duram muito mesmo em temperatura ambiente", explica Vanin. "Por isso, não devem ser colocadas diretamente nos fogos, e sim serem formadas no instante em que se precisa delas", revela o pesquisador, cuja paixão pela pirotecnia vem da infância.
No bairro paulistano do Brás, Atilio Vanin foi coroinha durante dez anos na Igreja de São Vito, que todo dia 15 de junho comemorava a festa do padroeiro com fogos. "Fascinado, aos 15 anos, eu não descansei enquanto não aprendi sozinho a fazer pólvora" lembra. Hoje, trinta anos depois, o químico reconhece que fazer fogos é muito mais difícil do que imaginava quando fabricava suas próprias bombinhas. "Leva-se em conta até o tamanho das baladas", ele observa. Ao se incendiar, uma balada pequenina brilha por brevíssimos momentos, antes de se derreter completamente. O resultado é a visão de um ponto luminoso feito uma estrela.
Uma balada maior, porém, leva mais tempo até se desfazer e, enquanto isso, vai caindo por força da gravidade; dessa maneira, faz um traço no céu, como uma chuva de fogo. "As bombas, às vezes, são divididas em diversos compartimentos que estouram em alturas diferentes, graças aos fusíveis de tempo", nota Vanin. Com esse recurso, inúmeras pequenas bombas criam o que os pirotécnicos chamam buquê de noiva - porque as explosões espalhadas lembrariam flores de faíscas. Para dar acabamento ao desenho criado pelos fogos, os pirotécnicos misturam à pólvora combustíveis que liberam mais ou menos gás, de acordo com o efeito desejado. A pressão do gás afasta as partículas incandescentes, deixando os feixes de luz distantes entre si. A tendência é cada vez mais os cientistas se interessarem pelo tema, como nos Estados Unidos, onde pesquisadores contratados pela Marinha buscam substâncias que possam produzir a cor azul.
Até hoje, sempre que se querem faíscas azuladas, usa-se o cloreto de cobre, uma substância que só gera luz em temperaturas muito elevadas. No entanto, quando o calor excede o ponto ideal, por pouco que seja, o cloreto de cobre se desintegra e aí não se tem luz alguma. Muitas vezes a descoberta de novos materiais para fogos de artifício é decorrência de decepções na prática. Um exemplo disso foi o réveillon carioca, há três anos, quando milhares de pessoas na Praia de Copacabana aguardavam o anúncio da meia-noite pela cascata de fogos do Hotel Méridien. Mas, então, os fogos começaram a pipocar em hesitantes etapas. Enquanto isso, técnicos corriam, acendendo, um por um, cerca de 200 morteiros. "Havia chovido e os estopins molhados demoravam para pegar fogo ", lembra o engenheiro Jean- Claude Niger.
Há treze anos, para promover o Ano Novo no Rio de Janeiro, Niger foi ao terraço do Méridien e amarrou de cabeça para baixo pequenas bombas de mão. Com isso, ele derreteu as juntas das janelas do prédio: "Só não levei bronca porque o efeito foi belíssimo". A traquinagem deu origem a uma tradição: no final deste mês, devem ser queimadas 46 toneladas de fogos no Ano-Novo de Copacabana. Este ano, porém, Niger buscou na Inglaterra um novo estopim impermeável, revestido de betume. Assim, Copacabana receberá 1991 com muitos artifícios - chova ou não chova.

Outros artifícios da pirotecnia

Nem sempre a pirotecnia se encarrega de obter luzes coloridas. Nos anos 30, cientistas americanos constataram que, ao se acender a combinação de siliceto de cálcio e óxido de ferro, gera-se calor, mas nenhuma luz ou gás. Por isso, na Segunda Guerra Mundial, essa mistura pirotécnica foi usada em latas de alimentos, equipadas com estopins: graças à ausência de chama, os soldados podiam aquecer a comida sem alertar os inimigos. Hoje, pesquisam-se misturas pirotécnicas até para os propulsores dos ônibus espaciais. Fusíveis de tempo, como os dos fogos, são usados nos aviões com cadeiras ejetáveis de emergência. Quando se aperta determinado botão, explode o teto da nave; o estouro aciona o fusível de tempo, que cuidará da ignição da carga de dinamite sob o chão blindado.
Desse modo, não existe o risco de a cadeira ser lançada antes de o teto ser destruído, matando o piloto. Mas, para os especialistas em combustão, o desafio mais recente foi conseguir sinalizadores para a Marinha, especiais para a luz do dia, que ofusca as faíscas dos fogos. O ideal seria uma bomba de fumaça colorida, mas o calor alcançado pelos fogos convencionais provocava a decomposição dos ingredientes corantes. O problema foi resolvido quando se descobriu uma substância para a carga dos sinalizadores, capaz de queimar em baixíssimas temperaturas, sem destruir os corantes: o açúcar.

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

O Maior Espetáculo - Espaço



O MAIOR ESPETÁCULO - Espaço



Há quarenta e três anos, um bilhão de pessoas viram aquilo que ainda hoje é o feito mais audacioso da corrida espacial - a descida na Lua.

No dia 20 de julho de 1969 , um domingo, dois homens pisaram pela primeira vez na Lua. Um deles, o comandante Neil Armstrong, de 38 anos, um tímido ex-piloto de testes de aviões americanos, escorregou na  escada da pequena nave com a qual pousou na superfície lunar e por pouco não imprimiu ali a mão antes do pé. O outro, Edwin Aldrin, "Buzz", igualmente com 38 anos, veterano piloto de jatos da Força Aérea dos Estados Unidos, sentiu uma vontade humaníssima de fazer xixi. E fez, dentro do traje de astronauta, reforçado com 21 camadas de tecido, numa bolsa de coleta para tais contingências. A 96 mil metros de altura, o ex-piloto de testes Michael Collins, de 38 anos, como os outros, encarregado de pilotar o módulo de comando da Columbia, só conseguiria sentir-se verdadeiramente aliviado no dia seguinte, quando seus dois companheiros se uniram a ele para a viagem de volta a Terra.
Passados vinte anos do evento literalmente mais espetacular da história humana documentada, que esgotou os estoques da melhor retórica da espécie, a conquista do Cosmo parece menos próxima, em parte porque o programa espacial americano perdeu a direção, enquanto o soviético segue uma rota lenta, gradual, segura - e sem muito charme. Além disso, a ida a Lua ocorreu num período efervescente, marcado por mudanças de toda a sorte, em que a confiança nas possibilidades de resultados imediatos da ação humana era seguramente maior, assim como o encantamento com a tecnologia. A Lua, em suma, chegou antes da crise do petróleo, antes dos microcomputadores e antes que as preocupações com a saúde do planeta virassem moda.
Quando Collins, Aldrin e Armstrong partiram a bordo da nave Apolo 11 na luminosa manhã de 16 de julho, 1 milhão de pessoas munidas de câmeras e binóculos se apinhavam nas vizinhanças de Cabo Canaveral, depois chamado Cabo Kennedy, na Flórida, onde até hoje ocorre a grande maioria dos lançamentos espaciais americanos. Nada menos de 850 jornalistas de 55 países, falando 33 línguas diferentes, registraram o acontecimento. Calcula-se que cerca de 1 bilhão de pessoas, algo como um em cada quatro seres humanos, viram pela TV quando, às 23h56min20s (horário de Brasília) do dia 20, o comandante Armstrong, já recuperado do escorregão, cuidadosamente ergueu o pé esquerdo e marcou o solo do Mar da Tranqüilidade - a planície escolhida para a alunissagem.
"Este é um pequeno passo para o homem, um gigantesco salto para a humanidade", disse o emocionado Armstrong, numa frase que inevitavelmente ecoou pelo mundo. Quem estava de olho na tela naquele momento não deve ter esquecido a sua figura fantasmagórica movendo-se desajeitadamente devido à ínfima gravidade (um sexto da que existe na Terra) a 384 mil quilômetros de distância. O astronauta contou à base de controle e a todos que o ouviam que o chão da Lua era fino e poeirento. "Adere à sola e aos lados das minhas botas, formando uma  camada fina como poeira de carvão", descreveu. Vinte minutos depois, Aldrin uniu-se a ele. Com as duas mãos agarradas à escada, experimentou o solo da Lua e sua gravidade com dois pulos de pés juntos. "Lindo, lindo", exclamou, surpreendido com a facilidade de movimentação. 
Os dois astronautas passaram 2 horas e 10 minutos no Mar da Tranqüilidade. Numa das pernas do módulo, chamado Eagle (águia, em inglês), havia uma placa comemorativa. Neil Armstrong leu então em voz alta:"Aqui, homens do planeta Terra pisaram na Lua pela primeira vez. Nós viemos em paz, em nome de toda a humanidade". O texto levava a assinatura dos três tripulantes e a do então presidente americano Richard Nixon. A dupla ainda fixou a bandeira dos Estados Unidos e ouviu pelo rádio as congratulações de Nixon, que falava da Casa Branca.
A liturgia prosseguiu com Armstrong afirmando que eles representavam não apenas os Estados Unidos mas os homens de todas as nações, que têm interesse, curiosidade e visão do futuro". Em seguida, ele e Aldrin começaram o trabalho de colher os 27 quilos de pedras e pó da Lua que nos anos seguintes fariam a alegria de muitos cientistas. Depois, instalaram um sismógrafo, um refletor de raios laser, uma antena de comunicação, um painel para o estudo dos ventos solares e uma câmera de TV. Terminadas as tarefas, os astronautas voltaram à Eagle e tentaram em vão dormir, apertados e sem conforto, atulhados nos 4,5 metros quadrados do interior do módulo lunar.
Começaram enfim os preparativos para o regresso. A metade inferior da Eagle ficou na Lua. A parte de cima do pequeno módulo elevou-se da superfície até encontrar o seu parceiro em órbita. Os dois veículos alinharam-se para o acoplamento. Enquanto Aldrin e Armstrong se reuniam a Collins na Columbia, o resto da Eagle foi deixado rodando em volta da Lua, cada vez com menos impulso, até se espatifar de encontro ao solo. A 24 de julho, oito dias, três horas e 18 minutos depois de lançada de Cabo Canaveral, a Apolo mergulhou nas lonjuras do Pacífico sul, na altura da Polinésia. Uma das mais antigas fantasias do homem - ir à Lua e voltar são e salvo - finalmente tinha se tornado realidade.
Aquele "pequeno passo" havia começado a rigor muitos anos antes, em 1945, quando a Segunda Guerra Mundial terminava com a derrocada da Alemanha nazista e dos seus parceiros japoneses. Os vencedores, os Estados Unidos e a União Soviética, lançaram-se à disputa de um dos mais valiosos espólios da guerra - os cientistas alemães envolvidos na fabricação das bombas V-2, as precursoras dos foguetes. Embora os americanos tivessem capturado o maior número e os melhores entre eles, como o notório Wernher von Braun, e os pusessem a trabalhar no desenvolvimento de mísseis teleguiados, foram os soviéticos que saíram na frente na corrida espacial. A 4 de outubro de 1957 surpreenderam o mundo e humilharam os Estados Unidos ao lançar o Sputnik, primeiro satélite artificial da Terra.
A 12 de abril de 1961, o cosmonauta, como dizem os russos, Iúri Gagárin (1934-1968) completou o primeiro vôo orbital tripulado. Único ser humano até então a ver o planeta do espaço, Gagárin informou: "A Terra é azul". Menos poeticamente, o líder soviético Nikita Kruschev (1894-1971) lançou o desafio: "Que os países capitalistas tentem alcançar-nos". Os americanos aceitaram. No mesmo ano de 1961, o presidente John Kennedy (1917-1963) pediu a seus assessores um plano ambicioso o suficiente para segundo se dizia na época, "ganhar as manchetes dos jornais e por meio delas conquistar o coração de todos os povos do mundo": levar um homem à Lua e trazê-lo de volta.
Os americanos mergulharam no projeto com a mesma gana que tiveram vinte anos antes ao entrar na guerra em seguida ao ataque japonês à base de Pearl Harbor. As melhores cabeças foram recrutadas pela agência espacial NASA para elaborar três missões - Mercury, Gemini e Apolo - com tipos diferentes de naves e foguetes, que sucessivamente levariam astronautas cada vez mais longe até alcançar a Lua. Enquanto isso, os soviéticos desenvolviam as Vostok, Voskhod e Soyuz; estas últimas aperfeiçoadas até se tornarem hoje os veículos transportadores de cosmonautas para a estação espacial Mir, há três anos no espaço.
Foi também em 1961 que os americanos começaram a selecionar os astronautas para o programa espacial. A escolha, descrita no romance The right stuff, de Tom Wolfe (não editado no Brasil), depois transformado no filme Os eleitos, de 1983, era feita entre os pilotos de testes da Marinha, Força Aérea e Fuzileiros Navais. Homens como Armstrong, Aldrin e Collins tinham de ser bons aviadores, ter nível universitário e boa estrutura psicológica para enfrentar situações difíceis e imprevistas. Comentou-se na época que os três escolhidos para a viagem histórica à Lua eram os mais sérios e menos comunicativos astronautas do programa espacial - características da personalidade que não mudaram até hoje. Armstrong e Aldrin foram pilotos na guerra da Coréia e já haviam participado do projeto Gemini.
Collins, outro veterano da Gemini, deveria ter voado na Apolo 8 que realizou as primeiras órbitas tripuladas em volta da Lua, em dezembro de 1968; mas uma cirurgia de última hora fez com que fosse substituído e acabasse entrando para a tripulação da Apolo 11. Em 1967, teoricamente, soviéticos e americanos já possuíam os fantásticos foguetes e naves que poderiam fazer a viagem à Lua de ida e volta.
Mas durante um ensaio de lançamento da Apolo 1, a 27 de janeiro daquele ano, uma explosão matou os tripulantes Virgil Grissom, Edward White e Roger Chaffee. Três meses depois, nova tragédia ocorreu do lado soviético. A destruição do pára-quedas de freagem da Soyuz 1 matou o cosmonauta Vladimir Komarov. As naves foram redesenhadas para atender a maior preocupação com a segurança.
Nos Estados Unidos, os veículos seguintes da série Apolo, até o de número 6, não foram tripulados. Mas, no início de 1969, quase ao mesmo tempo, soviéticos e americanos estavam prontos para reiniciar a corrida espacial. Antes que se pudesse enviar homens à Lua, já havia sido preciso despachar várias naves não-tripuladas para descobrir se a alunissagem seria mesmo praticável. Era necessário, por exemplo, avaliar o comportamento dos mecanismos de freagem e pouso nas condições de baixa gravidade e nenhuma atmosfera do satélite.
Sabia-se que as manchas escuras da superfície lunar, que receberam o nome de mares, eram na realidade planícies cheias de crateras, mas não se tinha certeza de que poderiam suportar o peso de uma nave. Essa possibilidade foi confirmada com as primeiras fotos enviadas pelas sondas Ranger a partir de 1964. Por sua vez, a nave soviética Luna 9 conseguiu realizar o primeiro pouso suave na Lua, antecipando-se em alguns meses às americanas Surveyor. Nos anos seguintes, naves dos dois países mostraram imagens de TV da Lua, provando que além de pó havia matéria firme na superfície.
Estava enfim preparado o caminho para a Apolo 11, uma pequena nave de 45 toneladas, composta de um módulo de comando, serviço e lunar. Ela foi lançada no bico do maior foguete já construído, o Saturno 5, de três estágios e 110 metros de altura, mais alto do que um edifício de 35 andares. No momento da partida, o Saturno pesava mais de 3 mil toneladas, algo como vinte jumbos juntos, a maior parte constituída de combustível destinado a acelerar a carga à velocidade de 40 mil quilômetros por hora. O primeiro estágio do foguete queimava oxigênio líquido misturado com querosene, produzindo uma fogueira colossal que emocionou a multidão aglomerada para acompanhar a partida da nave (pela TV, os Estados Unidos viram tudo em cores; os outros países, ainda em preto-e-branco).
Foi um espetáculo impressionante, para dizer o mínimo. Quando o foguete começou a subir, suas 3.500 toneladas de empuxo provocaram um ruído tão insuportável que chegou a matar os pássaros que voavam nas proximidades. O megaprojeto havia custado 22 bilhões de dólares, quase dez vezes mais do que o lançamento do ônibus espacial Discovery em outubro do ano passado - isso sem contar a inflação acumulada no período. O módulo de comando, ou Columbia, um compartimento pequeno, de uns 6 metros quadrados, era o centro de controle da nave. Os três tripulantes dispunham de poltronas individuais, uma ao lado da outra, razão pela qual precisavam tomar cuidado para não atrapalhar uns aos outros. A sua frente e nas laterais ficavam os painéis de instrumentos.
Por baixo das poltronas estavam as "camas" onde os astronautas dormiam protegidos para não flutuar na nave sem gravidade. Havia também uma série de armários com comida desidratada, roupas e equipamentos auxiliares. À direita dos armários ficava o "banheiro", ou, mais precisamente, o canto onde os astronautas se aliviavam usando pequenas bolsas de plástico. As paredes da nave eram providas de quadrados de velcro, um produto que ficaria muito conhecido como fecho de bolsas e tênis, que servia para que os equipamentos manuais não flutuassem. Atrás do Columbia, vinha o módulo de serviço com o sistema de propulsão e retrofoguetes e finalmente o módulo lunar Eagle.
O alvo da Apolo 11, a rigor, não seria a Lua, mas um ponto no espaço onde ela estaria quatro dias após o lançamento, prevendo-se o seu movimento em torno da Terra. De acordo com a operação, denominada TLI -Injeção Translunar -, quem pilotava efetivamente a nave eram as leis da Física enunciadas no século XVII pelo físico inglês Isaac Newton. Como ele descobriu, Terra, Sol e Lua atraem os corpos como se fossem ímãs. Por isso, os foguetes da Apolo foram acionados durante 3 segundos. Nesta mínima fração de tempo, os astronautas, tendo a nave sob controle, voltaram-na para a direção calculada, de modo a fazê-la escapar do campo gravitacional da Terra e ser atraído pela gravidade lunar.
Durante o trajeto, os astronautas usaram uma técnica para impedir que metade da nave - a que estava voltada para o Sol - literalmente torrasse e a outra se congelasse. Com uma leve ignição dos foguetes auxiliares, eles faziam-na girar lentamente em seu próprio eixo, como um frango assado no espeto. Com o auxílio do computador de bordo, a Apolo executava um movimento de rotação de 3 décimos de grau por segundo, o que significava uma volta completa a cada 20 minutos, para que o calor e o frio se distribuíssem de maneira uniforme por toda a sua superfície. 
Somente após o regresso à Terra  os técnicos da NASA descobriram que Armstrong e Aldrin por pouco não espatifaram a Eagle de encontro à Lua. De fato, depois de soltarem o módulo da nave-mãe, os astronautas foram descendo gradualmente até onde acreditavam estar o local de pouso - o Mar da Tranqüilidade, escolhido por ser plano e próximo ao equador, o que facilitaria a volta. Mas, quando Armstrong esquadrinhou pela escotilha o terreno já bem próximo, não sabia onde estava. Utilizando o controle manual, dirigiu a Eagle para onde imaginava ficar a cratera que seria seu ponto de referência, enquanto Aldrin controlava o combustível. Faltavam não mais de 30 segundos para que este acabasse quando Armstrong pousou - 1 quilômetro além do ponto marcado.
Enquanto Armstrong, Aldrin e Collins, já de volta, eram recolhidos do mar pelo porta-aviões Hornet, uma nave soviética, a Luna 15, se perdia em algum ponto entre o planeta e o satélite. Lançada dois dias antes da Apolo, sem tripulantes, tinha como objetivo recolher amostras do solo lunar e voltar à Terra. Até hoje não se sabe o que aconteceu com a Luna - não faltando quem suponha que ela tenha sido desviada de sua trajetória por sinais de rádio americanos. O mundo, de qualquer maneira, estava mais preocupado com os três participantes da primeira grande odisséia extraterrestre. Malcheirosos, depois de oito dias sem tomar banho, durante os quais foram obrigados a usar uma precária privada, tiveram de vestir um traje à prova de contaminação antes de deixar a cápsula espacial. Para se ter certeza de que não tinham trazido nenhum microorganismo lunar eventualmente daninho aos terráqueos, ficaram de quarentena em companhia de algumas cobaias. Se algo acontecesse a elas, seria a prova de que estavam contaminados.
Como se sabe, nada aconteceu. Depois de desfilarem em carro aberto com as famílias nas principais cidades americanas, sob a infalível chuva de papel picado, os astronautas fizeram-uma série de viagens promocionais pelo mundo - Armstrong e Collins estiveram, por exemplo, em outubro de 1969 no Brasil. No mês seguinte, outros três americanos - Charles Conrad, Alan Bean e Richard Gordon - tornaram à Lua a bordo da Apolo 12. Como da primeira vez, a expedição foi, viu e voltou sem problemas. Os Estados Unidos continuaram com o programa lunar até 1972. Ao todo enviaram dezoito homens em seis Apolos. Desses, doze puseram os pés no satélite. Depois começou a era dos ônibus espaciais, capazes de orbitar a Terra e voltar inúmeras vezes. A União Soviética, de seu lado, optou por não mandar cosmonautas à Lua. Mas suas naves ali estiveram até 1976, enquanto se desenvolvia o projeto das estações espaciais Salyut e, depois, Mir.
Passados vinte anos, nunca mais houve um acontecimento na história da conquista espacial de impacto comparável àquele - à exceção da tragédia da Challenger em janeiro de 1986. A ida à Lua, vista na perspectiva do tempo, representa acima de tudo o triunfo da vontade humana. Bem pensadas as coisas, é até possível que, pelos padrões atuais de segurança nos vôos ao espaço, a aventura da Apolo 11 não teria sido autorizada. E, por maior que tenha sido, por exemplo, o aporte tecnológico para as viagens espaciais trazido pela estratégia de encarapitar uma pequena nave num potentíssimo foguete de múltiplos estágios, ou por mais importantes que tenham sido para a ciência as pedras lunares coletadas pelos astronautas, é certo que nada supera até hoje a força simbólica daquele primeiro passo a 20 de julho de 1969.

Depois da Lua

Neil Armstrong, o homem que pisou na Lua pela primeira vez, hoje prefere manter os pés bem firmes em terra, de preferência na sua fazenda em Ohio, no nordeste dos Estados Unidos, onde vive com a mulher e dois filhos. De temperamento introspectivo, o ex-astronauta, às vésperas de completar 59 anos, detesta falar de sua experiência espacial. Já em 1970 ele deixou a NASA para se tornar professor de Engenharia Aeronáutica e Mecânica Aplicada na Universidade de Ohio. Nos dez anos seguintes, só tornou a ser visto uma vez por milhões de pessoas - num comercial da Chrysler. Depois disso, como presidente de uma empresa especializada em programas de computador para aviões executivos, voltou a fazer uma viagem histórica em janeiro de 1988 - como um dos convidados do vôo do Jumbo que deu a volta ao mundo no tempo recorde de 36 horas, 54 minutos e 15 segundos. "Meu passeio lunar foi uma experiência de pedestre", comparou, brincando.
Em 1986, nomeado vice-presidente da comissão do Congresso que investigou as causas do desastre do ônibus espacial Challenger, afirmou que, "como sociedade, temos parte da responsabilidade pelo acidente, devido à enorme pressão que fazemos sobre a NASA". Mas defendeu a continuidade dos vôos com a construção de uma base permanente no espaço. Edwin Aldrin, o companheiro de Armstrong, não foi exatamente feliz nos últimos vinte anos. Divorciado duas vezes, sofreu de depressão e alcoolismo depois de deixar a carreira de astronauta em 1971. Ele atribui parte de seus problemas à viagem lunar. Lembra, por exemplo, que ao voltar à Terra esperava ser recebido como herói pela família. Mas ao reencontrar o pai ouviu a desconcertante pergunta: "Por que você não foi o primeiro?"
Depois de tanto tempo, com 59 anos e mais tranqüilo, casado pela terceira vez, Aldrin dirige uma empresa de consultoria espacial e se revela defensor de uma missão a Marte. "Todos os astronautas que estiveram na Lua deveriam lutar para que esse seja o próximo objetivo espacial americano; diz. Dos três tripulantes da Apolo 11, Michael Collins foi o único que não andou na Lua, mas a ele cabe cuidar de certo modo da memória da viagem. Avesso a falar da proeza - "o melhor da comemoração é não dar entrevistas", comentou certa vez -, como diretor da Instituição Smithsonian ajudou a instalar em Washington o célebre Museu de Aeronáutica e Espaço, onde existe um réplica do módulo lunar.
Quatro meses após o primeiro pouso do homem na Lua, três astronautas bem mais extrovertidos que os primeiros repetiram a experiência. Charles Conrad; Alan Bean e Richard Gordon, da Apolo 12, hoje ainda se sentem muito orgulhosos da viagem. Conrad, de 58 anos, um dos vice-presidentes da macroempresa de aviação McDonnell Douglas, gosta de dizer que pediria demissão do cargo se lhe fosse oferecida outra oportunidade de voltar ao espaço. Alan Bean, que desceu à Lua junto com Conrad, tem uma frase pronta para o acontecimento: "Tive o privilégio de realizar um sonho". Bean, hoje com 57 anos, tornou-se pintor desde que deixou a NASA em 1981. Seu tema preferido é o espaço, naturalmente.
Richard Gordon, o piloto do módulo da Apolo 12, é dono de uma empresa de equipamentos de computação na Califórnia. Aos 59 anos, não se furta a refletir sobre as repercussões íntimas da aventura. "Depois de uma viagem como aquela, todos os valores pessoais são questionados", ele disse a SI. Gordon associa a missão à Lua a um episódio doloroso de sua vida: "De toda aquela excitação guardei dentro de mim uma imagem, o nosso planeta Terra, tão bonito e frágil. Quando meu filho Jimmy, com 22 anos, morreu num acidente de automóvel em 1982, compreendi o que sentira ao contemplar a solidão do nosso planeta. Fora dele é como se estivéssemos mortos".

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Por um momento de glória - Comportamento.

POR UM MOMENTO DE GLÓRIA - Comportamento.



Eles querem fazer o que ninguém faz, como puxar um trem com os dentes ou cobrir o corpo com abelhas. Já ganharam um registro especial só para eles: o Livro Guinness de Recordes.

Sir Hugh Beaver, diretor da cervejaria irlandesa Guinness e criador do Livro Guinness dos Recordes Mundiais, sabia que sua dúvida sobre qual o pássaro mais rápido da Europa, naquele ano de 1954, era muito parecida com o tipo de dúvida de outros milhões de ingleses e irlandeses, que adoram levar esse tipo de assunto entre um gole e outro de cerveja em qualquer dos 81400 pubs que povoam as cidades da Inglaterra e Irlanda. Só que não existia nenhum livro com as necessárias fontes que pudesse funcionar como juiz imparcial para um público tradicionalmente tão chegado a apostas.
Daí nasceu no dia 27 de agosto de 1955 o Guinness Book of World Records. Então já se sabia qual o pássaro mais rápido, o edifício mais alto do mundo e a partida de futebol de primeira divisão mais longa da história. Mas, ao lado dos variados superlativos do mundo animal, vegetal, científico e esportivo, foram aparecendo os recordes mais insólitos, extravagantes e disparatados alcançados pelo homem - por aqueles homens que até se dispunham a arriscar a vida para realizar proezas tidas como pura e simples maluquices pelo comum dos mortais.
Assim, se soube que um certo monsieur Lotito, um francês de Evry, tinha sido capaz de comer sua própria bicicleta, pedaço por pedaço; que o californiano Steve Urner era o melhor lançador de esterco de vaca; que o nova-iorquino Henry-Lamothe pulara de 12,9 metros de altura numa piscina quase sem água, sem se machucar. Já o inglês Michael Trevor, com menos sorte, morreu de infarto ao tentar bater o recorde de ingestão de cerveja-debaixo d´água. O mineiro Walnei Almeida Reis, de seu lado. tem certeza de que vai entrar para o Guinness, depois de ter saltado em junho último de um helicóptero a 48 metros de altura para a piscina do Clube de Regatas Tietê, em São Paulo. "De cima, a piscina parecia um copo de água", compara Walnei, que com o seu salto superou em onze metros o norte-americano Hank Dikson, dono do recorde durante de oito anos.
Esses heróis excêntricos que aspiram conseguir recordes insólitos são mais numerosos do que se poderia imaginar e existem praticamente em toda a parte. Tentam escalar altos edifícios, deixam crescer barbas de abelhas em seus corpos e comem quantidades inacreditáveis de grãos de feijão, ou de sorvete, ou de salsicha, ou seja lá do que for. Desafiam a lei da gravidade, o senso comum e o próprio ridículo. Que tipo de gente faz isso? Com que intenção?
A moda da extravagância - que aparece de tempos em tempos no curso da História-não tem nada a ver nem com fenômenos de histeria coletiva nem com condutas originais de fundo religioso ou político.
É na realidade o aparecimento em público de um surpreendente número de adultos normais que realizam atos extravagantes, concebidos por eles mesmos, com o objetivo único de fazer algo que não tenha sido feito por outras pessoas.
Hoje em dia até que está difícil ser extravagante, porque a extravagância já virou rotina. Para se ter uma idéia de como o incomum ficou comum, no principio do século o crítico teatral alemão Alfred Kerr causou grande sensação em Berlim pelo simples fato de descascar uma maçã na rua usando luvas brancas. Em 1986, ninguém se espantou quando mais de vinte pessoas, desconhecidas entre si, trataram de capturar uma serpente píton de 3,4 metros, que apareceu misteriosamente em uma piscina pública de Los Angeles.
O próprio Livro Guinness, pela excepcional acolhida que teve, é o reflexo de que o mundo atravessa uma onda de extravagâncias algo parecido com o que aconteceu no período que vai de 50 antes de Cristo ao ano 400 de nossa era, abrangendo mais ou menos a época dos imperadores romanos. Outro desses períodos em que a extravagância remou suprema vai de 1400 a 1600, ou seja. do acender das luzes do Renascimento à Revolução Comercial. Ambas as épocas deixaram registro de comportamentos exóticos.
Na velha Roma, o cônsul Lucius Licinius Lucullus (117-56 a.C.), homem por sinal muito respeitado foi quem inventou o bárbaro costume de vomitar nos banquetes para repetir a comilança nos intermináveis festins da época. No ano 64, o imperador Nero cantava enquanto Roma queimava, em vez de providenciar o salvamento da cidade. Ele talvez não fosse louco, ao contrário da lenda; apenas não estava à altura do papel que a população esperava que cumprisse, exercendo suas funções como um semideus. Dos césares sempre se esperava algo mais - e, se eles não se distinguiam por suas qualidades naturais, tratavam de brilhar pelo artifício de suas excentricidades.
No fim da Idade Média. os bufões, que existiram em todas as cortes desde a Antiguidade como palhaços grotescos, assumem um novo papel, transformando-se em personagens de notável talento e influência. Participam de conspirações e crimes, fazem intrigas e são confidentes muito estimados de reis e cortesãos. As grandes famílias italianas, como os Medici, de Florença, e os Visconti, de Milão, assim como o rei Henrique IV da França ( 1553-1610) e o imperador Maximiliano da Áustria (1459-1519), tinham os seus bufões, respeitados por aristocratas e intelectuais de seu tempo.
Entre os personagens incomuns que floresceram nessa época, talvez o mais representativo tenha sido o físico e alquimista suiço Bombastus, mais conhecido como Paracelso (1493-1551). Um dos mais extraordinários e escandalosos homens do Renascimento, combateu as superstições, a medicina então praticada e a educação tradicional. Apesar da vida tumultuada, tanto nas universidades como nos campos de batalha, impulsionou a química farmacêutica, formulou os princípios da homeopatia e arrastou consigo a fama de curandeiro. "A imaginação pode tudo", dizia. O comportamento excêntrico do alquimista correspondia aos sentimentos de seus contemporâneos. Historiadores desse período registram que a extravagância havia adquirido proporções de epidemia.
Que semelhança existe entre a Roma do começo do cristianismo e a Europa do fim da Idade Média? Em ambos os períodos, uma cultura havia alcançado o limite de seu desenvolvimento: tanto o Império Romano como a Idade Média sobreviveram além de seus impulsos criadores, mantendo-se por pura inércia. Enquanto isso, para grandes setores da população não havia objetivos dignos de esforço -além da luta pelo pão de cada dia. Os habitantes da antiga Roma consideravam aceitáveis as ações de um Nero. ao mesmo tempo que se lixavam com a sorte do Império. Já a reação ante o ocaso dos tempos medievais foi bem diferente: suas raízes foram reinvestigadas e as bases redesco-
bertas; levantou-se um novo edifício cultural enriquecido com elementos árabes, medievais e próprios.
E a onda atual? Não é nova a teoria de que este fim de século é um período decadente, onde há cada vez menos lugar para a criatividade-o que explicaria em parte a busca do insólito a todo custo. Talvez fosse mais correto dizer que a criatividade existe, mas está restrita a uma minoria e escapa ao cidadão médio. Este, imerso em um oceano de rotina, gasta seu tempo livre de forma quase sempre mais passiva que ativa. assistindo à TV horas a fio, por exemplo. Outras pessoas reagem e buscam a criatividade na política ecologia nas artes e até nos hobbies. E há quem procure combater a inércia estabelecendo os estranhos recordes anotados no Guinness
"A verdade é que temos nossos próprios Guinness íntimos, simbolizados pela nossa vaidade", observa o psicólogo paulista Mauro Moore Madureira. "Por isso, acabamos batendo recordes bizarros, como o de ser o mais estressado no trabalho. 0 melhor copo do pedaço, a mais abnegada das pessoas, exemplifica, "Nossa cultura é extremamente vaidosa e todos sonham com um podium na vida", diz o psicólogo. Para ele, existem duas formas diferentes de chegar aos recordes: uma é pelo prazer, pela vontade alegre de conquistar e vencer obstáculos Outra é pelo dever, pela necessidade de ser aceito. "A primeira enriquece a pessoa emocionalmente. A segunda costuma ser a origem de muitas angústias, por causa do medo do fracasso."
Mas não é um fracasso aqui e outro ali que vão desanimar a legião de fanáticos caçadores de recordes do Guinness ou derrubar o volume de vendas de um livro que nessas três últimas décadas acabou gerando concursos como o de saber quantas pessoas cabem dentro de um automóvel. Essa disputa já não é mais registrada pelo livro. Mas, para quem se interessa, continuam a ser disputadas as categorias quem-corre-mais-carregando uma-garrafa-na-bandeja, andar-sobreas-mãos, ser-o-homem-mais-rico-do-mundo, o grupo-de-rock-mais-barulhento. Ou qualquer coisa nova, desde que comprovadamente bizarra e merecedora da atenção do Guinness e de seus leitores.


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domingo, 22 de agosto de 2010

Tailandeses 'transformam' elefantes em pandas

26/06/09 - 13h44 - Atualizado em 26/06/09 - 13h44

Tailandeses 'transformam' elefantes em pandas para agradar público
Para receber pandas de verdade, país investiu cerca de R$ 1 milhão.
Governo tenta chamar a atenção para os paquidermes, símbolo do país.




Elefantes pintados como pandas se apresentam para crianças em Bangcoc, capital da Tailândia. (Foto: Reuters)




Animais receberam 'cara nova' para chamar atenção do público, que tem dado mais atenção à chegada dos pandas ao país. Bichos vindos da China vão receber casa de R$ 1 milhão no zoo de Bangcoc. (Foto: Reuters)




Governo tailandês quer agora chamar a atenção para os elefantes, símbolo nacional. (Foto: Reuters)