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sexta-feira, 16 de abril de 2021

Rios de Ouro - Imagem chocante da NASA revela garimpo ilegal na Amazônia

Rios de Ouro - Imagem chocante da NASA revela garimpo ilegal na Amazônia

Astronautas da Estação Espacial Internacional (ISS) registraram imagens impressionantes de "rios de ouro" na Amazônia peruana. 

domingo, 21 de fevereiro de 2021

Templo de 2500 anos dedicado à deusa grega Afrodite é encontrado na Turquia

Templo de 2500 anos dedicado à deusa grega Afrodite é encontrado na Turquia

Arqueólogos encontraram as ruínas de um templo dedicado à deusa grega Afrodite na Turquia. 

quarta-feira, 10 de junho de 2020

RIO DE JANEIRO - História do Tivoli Park

RIO DE JANEIRO - História do Tivoli Park


O Rio de Janeiro é conhecido, entre outras coisas, por sua beleza livre, aberta. 

terça-feira, 21 de maio de 2019

'GAME OF THRONES' triunfa ao final ao abdicar do ôbvio e escolher otimismo e realismo

'GAME OF THRONES' triunfa ao final ao abdicar do ôbvio e escolher otimismo e realismo


O último episódio da série entregou, após oito temporadas, um final impecável...

terça-feira, 23 de abril de 2019

Dia da Terra - Nasa divulga imagens para 'celebrar beleza do planeta'

Dia da Terra - Nasa divulga imagens para 'celebrar beleza do planeta'

Imagem da Terra vista da Estação Espacial Internacional — Foto: Nasa

Data é comemorada no dia 22 de abril para conscientizar sobre preservação do meio ambiente.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

10 coisas surpreendentes que você não sabia sobre os vikings

10 coisas surpreendentes que você não sabia sobre os vikings


Você achava que sabia tudo sobre os vikings? Com todas as criaturas e estereótipos retratados, provavelmente, há coisas que você nunca ouviu falar dos navegantes escandinavos que invadiram e atacaram as Ilhas Britânicas, e muito mais, entres os séculos IX e XI. Descubra 10 fatos surpreendentes sobre os vikings!

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Com sementes de mais de 800 anos, alunos revivem planta extinta


Com sementes de mais de 800 anos, alunos revivem planta extinta


o é nada incomum esbarrar com um lindo jardim por aí. Além de toda a beleza, alguns deles podem trazer boas notícias. Em uma Universidade em Winnipeg, Canadá, os alunos conseguiram plantar um tipo de abóbora que estava extinto havia centenas de anos.

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Conheça as seis galáxias mais estranhas do Universo


Conheça as seis galáxias mais estranhas do Universo


Ainda estamos muito longe de desvendar os segredos do Universo, mas do pouco que conhecemos podemos dizer que há coisas que fogem à nossa compreensão, entre elas algumas formações de galáxias. Separamos abaixo, diferentes tipos que não seguem o mesmo “padrão de beleza” que a nossa Via Láctea. Confira abaixo algumas que se parecem para lá de exóticas aos nossos olhares humanos:

terça-feira, 21 de julho de 2015

Mulheres atraentes fazem homens parar de pensar


Mulheres atraentes fazem homens parar de pensar


Um fenômeno conhecido por todos foi agora confirmado pela ciência. O estudo em questão, elaborado por um grupo de psicólogos chineses e publicado pela revista Frontiers in Neuroscience aborda o efeito da beleza feminina sobre os homens.

sexta-feira, 20 de março de 2015

Tudo beleza - Bioquímica


TUDO BELEZA - Bioquímica


No ano passado, os brasileiros gastaram 906 milhões de dólares tentando apagar as rugas. Para quem acha que eles compraram ilusão em potes e bisnagas, os pesquisadores da área da Cosmiatria - o estudo médico e bioquímico dos cosméticos - rebatem: suas novas poções são científicas. Desde o dia 1º deste mês, a Sociedade Européia das Indústrias de Cosméticos proíbe que um produto acene com efeitos mágicos se eles não forem provados. As maiores empresas brasileiras do setor têm acordos com os europeus e, por isso, devem topar essa prova de fogo. Além dos exames biológicos, entram computadores para analisar a imagem de cada centímetro quadrado de pele antes e depois de um tratamento. Poros, marcas, tamanho das rugas, tudo vai ser milimetricamente medido. Quem quiser experimentar um creme, deve procurar os resultados de testes na bula. Se não conseguir achá-las é porque o cosmético não pertence à nova safra. Melhor deixá-lo na loja.

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Lençóis de Areia - Ambiente


LENÇÓIS DE AREIA - Ambiente


Vista de avião, a paisagem lembra um imenso quintal coberto de panos brancos postos para secar ao sol, ondulados pelo vento. De perto, a gente descobre que tanta beleza é formada por enormes montanhas de areia, capazes de mudar de lugar e de forma conforme o movimento do ar. Os Lençóis Maranhenses, como é conhecida a região, são um espetáculo da natureza que se espalha por 1 500 quilômetros quadrados (o mesmo tamanho do município de São Paulo), cientificamente reconhecido como deserto. Mas um deserto estranho. Tem duas estações climáticas bem definidas. Em uma delas até chove, e muito. De janeiro a junho, a média de chuvas é de 1 500 milímetros, 300 vezes mais do que a média do Saara, na África. Com tanta água, as dunas maranhenses ficam entremeadas por milhares de lagoas. "Mas, de julho a dezembro, é uma secura só", disse à SUPER o geólogo marinho Edgard Freitas Parouco, da Universidade Federal do Maranhão. Mesmo assim, existem dois oásis de vegetação bem no meio desses montes de areia rica em quartzo. Em volta deles cresce mata de cerrado, com árvores baixas. Para proteger esse pedaço do Brasil - o único com essas características em todo o mundo -, em 1981 foi tombado o Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses, sob proteção do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis. A medida não mudou muito o cotidiano do lugar, que continua praticamente isolado. Há uma única e péssima estrada, de 380 quilômetros, que liga São Luís, capital do Estado, a Barreirinha, cidade mais próxima ao parque. A opção é descer de barco pelo Rio Preguiça. Mas é preciso esperar baixar a maré que todos os dias invade o rio. Por isso, poucos aventureiros encaram o desafio de chegar ao areal. Isso garante a tranqüilidade das mil famílias que habitam a região, das tartarugas e das centenas de pássaros migrantes que se alimentam na borda costeira do deserto, vindos do Alasca.


Lençóis de vento

Dunas e lagos azuis que não param no lugar
Se você foi aos Lençóis em maio e voltar lá agora, em outubro, pode levar um susto: cadê as lagoas que estavam aqui no primeiro semestre? É que o deserto maranhense vive se mexendo, um fenômeno de autoria da dupla água e vento. 

Com as chuvas que caem na primeira metade do ano, afloram os lençóis freáticos (de água subterrânea). A água então vai se acumulando nos vales entre uma duna e outra, formando lagos de água doce, alguns com mais de cem metros de extensão. Em agosto, porém, pára de chover. Aí, o sol quente, com temperatura média de 32 graus, seca os lagos. Em dezembro, é só areia, apenas os rios resistem. Em janeiro, o ciclo de chuvas se repete e as lagoas voltam a se formar. Mas todo ano elas mudam de lugar e contorno, acompanhando a movimentação das dunas.

Os montes de areia andam graças aos alísios, ventos que sopram na parte mais baixa da atmosfera, sempre na direção litoral-interior. "Alguns cálculos indicam que as dunas avançam entre 15 e 20 metros por ano", conta o geógrafo Antônio Cordeiro Feitosa, da Universidade Federal do Maranhão. O movimento nunca pára e, numa dessas, a areia já soterrou vilas e até um aeroporto, em 1979, na cidade de Tutóia. O deserto vai crescendo. Há relatos indicando que, no início da década de 70, os Lençóis se estendiam apenas 20 quilômetros continente adentro. Hoje, alcançam 50 quilômetros. 



Os rios que alimentam o mar e a terra

Em nenhum canto do planeta o mar é capaz de produzir areia. Ele a consome, isso sim. Nos Lençóis, quem produz os grãos são os rios. Eles escavam o leito por onde vão passando e carregam minúsculos fragmentos de rocha rumo ao litoral. Um dos principais é o Parnaíba, que desemboca na divisa entre Piauí e Maranhão e arrasta sedimentos até o mar. As correntes marítimas no Brasil se movimentam de sul para norte e vão espalhando os grãos pela costa.

As marés - duas altas e duas baixas no mesmo dia - lançam sobre a praia uma areia composta por grãos muito finos. Com o sol, ela seca e os ventos fortes, especialmente em outubro e novembro, levam-na de volta ao continente. O ar razoavelmente seco facilita o transporte. Assim que encontram um obstáculo, que pode ser um pequeno arbusto, uma pedra ou mesmo outra duna, os grãos se depositam na superfície. 

O principal tipo de duna que se forma nos Lençóis é chamado de barcana. Ela se parece com uma meia-lua (veja o infográfico acima) e a parte convexa, a "barriga", fica voltada para a direção do vento. A areia se acumula no topo da duna e depois, por desmoronamento, escorrega para trás. "Esse processo, que já espalhou areia por 270 quilômetros de extensão ao longo da costa e 50 quilômetros para o interior, começou cerca de 11 000 anos atrás", diz o geólogo Edgard Freitas Parouco. "E não vai parar tão cedo. Os rios devem continuar carregando sedimentos por pelo menos mais alguns milhares de anos".

Lençóis de água

Ciclos naturais mudam a rotina da paisagem
Além das famílias que teimam em morar no deserto, mudando cada vez que as casas são invadidas pela areia, os Lençóis servem de moradia para várias espécies de animais. No cerrado que contorna as dunas encontram-se guaxinins e macacos do tipo guariba e prego. A porção costeira serve de abrigo para pássaros que migram do Pólo Norte e para a desova de tartarugas marinhas. Até uma nova espécie de tartaruga de água doce foi encontrada na região (veja abaixo). 

Mas o ciclo natural mais curioso dos Lençóis acontece nas lagoas. Quando a chuva chega, em janeiro, elas se enchem de peixes como se fosse mágica. Mas não é. Durante a seca, os animais domésticos da região deixam fezes na areia. Quando vêm as águas, o dejeto vira comida para as larvas de insetos, o alimento preferido dos peixes. Algumas lagoas crescem tanto que se ligam a braços de rios ou lagoas já formadas, proporcionando o vai-e-vem aquático e a multiplicação dos peixes. Assim, as novas lagoas fazem a alegria dos pescadores. "Pode ser que também existam lá peixes que põem ovos resistentes à falta de água", diz o biólogo Antônio A. Rodrigues, da Universidade Federal do Maranhão. "Esses ovos provavelmente ficam enterrados na lama que sobra onde havia a lagoa e, com a chuva, se abrem."



Dois oásis resistem no meio do deserto

Existem dois focos de vegetação em Lençóis. O maior se chama Queimada, com 6 quilômetros de extensão por 3 de largura, formado de arbustos e árvores de frutos tropicais, como caju, que servem de alimento para a população local. "Realizamos um estudo e encontramos ali espécies características da Mata Amazônica", diz o biólogo Nivaldo de Figueiredo, da Universidade Federal do Maranhão. Para ele, as plantas podem ser resquício da mata pré-Amazônica que deve ter coberto parte do Maranhão até três milhões de anos atrás. 

O outro oásis é Baixa Grande, com características parecidas e metade do tamanho de Queimada. Com certeza já foi maior. "Sempre encontramos troncos enterrados no deserto", conta Nivaldo. Só não se sabe por que os dois focos de flora ainda não foram cobertos pela areia. Os biólogos acreditam que, por serem mais úmidos, eles brecam o avanço das dunas.

Fora dali, a flora ainda teima nos Lençóis. Nas margens dos rios a vegetação é de mangue, baixa e pobre porque o solo é salino. Mas, como nada é comum nesse lugar, as árvores chegam a 15 metros de altura. "Não se conhecem árvores de mangue tão altas em todo o Brasil", diz Nivaldo. Rodeando o deserto encontra-se o típico cerrado, com plantas retorcidas e de casca grossa. Bem menos exuberantes que os manguezais ou os oásis, são essas árvores baixas que, barrando a passagem da areia, conseguem conter sua fúria e evitar que elas cubram as cidades que se instalaram ao redor do parque. Por enquanto.



PARA SABER MAIS



Maratur - Empresa Maranhense de Turismo, tel.: 098 221 1276 e 232 5667

Jogo de empurra no litoral maranhense

1 - Rio abaixo
O rio escava o leito por onde passa e carrega sedimentos que são depositados na costa.



2 - Terra firme

Na maré baixa, o vento leva a areia de volta para o continente, formando dunas.



3 - Férias no mar

Os grãos são carregados pelas correntes marinhas, que os empurram no sentido sul-norte.


A tartaruga inédita

 Vinte anos atrás, o pesquisador Antenor Leitão de Carvalho, do Museu Nacional do Rio de Janeiro, entrou no laboratório do biólogo Paulo Vanzolini, do Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo (USP), com uma tartaruga debaixo do braço. Carvalho queria estudá-la mas, por falta de tempo, o animal acabou se aboletando em seu jardim e gerando filhotes. Há quatro anos, Vanzolini decidiu recolher algumas dessas tartarugas para analisá-las. "Com a ajuda de uma aluna maranhense, em 1993 descobri que se tratava de um animal das lagoas dos Lençóis conhecido como pininga", diz Vanzolini. Terminada a pesquisa, o biólogo da USP não teve dúvidas de que era uma nova espécie de tartaruga. Um dos traços característicos são faixas e círculos em amarelo e laranja na carapaça.

O milagre dos peixes que se repete todo ano

1 - Andando por aí
No período de estiagem, os animais que pastam por ali depositam fezes na areia, que também pode ter ovos de peixes enterrados.



2 - Chove chuva

No primeiro semestre, alguns lagos se enchem tanto de água que se ligam temporariamente a rios e outras lagoas maiores.



3 - A caça e o caçador

Os insetos depositam na lagoa suas larvas que se alimentam das fezes. As larvas, por sua vez, viram comida de peixe.



4 - Banquete aquático 

Alguns peixes migram dos rios para os lagos atrás de alimento e se reproduzem enquanto outros ovos de peixe enterrados na areia se abrem.


segunda-feira, 1 de julho de 2013

Sobrevivência e Sedução - Natureza


SOBREVIVÊNCIA E SEDUÇÃO - Natureza


As flores não são mero capricho da natureza. A cor, o perfume e a forma da onze-horas, por exemplo, fazem parte de uma estratégia de sedução, indispensável para sua reprodução. Modificados ao longo de milhões de anos, as flores fazem tudo para agradar, principalmente aos insetos, o mais numeroso grupo de animais que existe na terra. De carona nas asas ou em outras partes dos corpos desses bichinhos, o pólen de grande número de vegetais consegue atingir outras flores, mais distantes, e assim garantir a geração de herdeiros fortes e saudáveis. Alguns desses truques são tão fascinantes que seduzem até mesmo pássaros e morcegos, que acabam se tornando também involuntários personagens dessa verdadeira epopéia da sobrevivência

domingo, 30 de dezembro de 2012

A velha mania de estar na MODA - Comportamento


A VELHA MANIA DE ESTAR NA MODA - Comportamento



No desfile da história, as pessoas sempre se vestiram para expressar desejos e influenciar os outros. A roupa pode ajudá-las a seduzir, a impor respeito, a se destacar na sociedade. Muitas vezes, elas querem mostrar ao mundo que estão bem informadas: é quando seguem os lançamentos dos estilistas.

Não, o primeiríssimo grito da moda não deve ter sido a folha de parreira para cobrir o sexo, como dita a Bíblia, mas peles de animais jogadas sobre os ombros feito estolas-um estilo típico do Período Paleolítico, há quase 100 000 anos. O modelo fazia sucesso por total falta de opção, já que impedia os movimentos e, ainda por cima, deixava exposta boa parte do corpo à baixa temperatura da Época Glacial. Mas, então, o homem não conseguia vestir nada diferente: teve, primeiro, de aprender a amaciar as peles; no início, com uma laboriosa mastigação, como até hoje fazem as mulheres dos esquimós; além disso, só há 40 000 anos surgiram as agulhas de chifres, para costurar os retalhos das caças sob medida para o manequim primitivo. 

Quem pensa, no entanto, que a roupa só servia para espantar o frio, se engana. Os desenhos nas cavernas mostram que, mesmo nas regiões mais quentes do planeta, onde se desfilava nu há cerca de 20.000 anos, vestiam-se roupas em ocasiões muito especiais. Isto é, nos rituais mágicos, onde nasceu a moda. A ancestral latina dessa palavra, modus, se desdobra em dois significados: é maneira como algo deve ser feito e, também, a lei. Uma lei com força suficiente para impulsionar as confecções a movimentar, no ano passado, cerca de 25 bilhões de dólares, só no Brasil. O segredo desse faturamento continua sendo a magia-hoje, bordada pela publicidade-, ou seja, a crença de que um pedaço de pano dá ao usuário o poder de influenciar o mundo em que vive. Da mesma maneira como o homem primitivo tinha uma moda ou um modo de vestir para atrair a caça, para vencer uma guerra ou para cultuar os mortos, o homem moderno se veste de jeito diferente para seduzir, para fechar um negócio ou para descer a rampa de um palácio. A sensualidade se expressa na transparência de um tecido, a competência se transforma no alinhado terno, a seriedade pode ficar por conta de uma gravata francesa, marca Hermès, quem sabe.O figurino varia com o cenário. Ninguém faz ginástica de fraque", ironiza o economista Carlos Eduardo Machado. professor da Universidade de São Paulo, com pós-graduação em Comunicação. "Mas, independente disso, o fato é que esse figurino serve para cada um encarnar o seu personagem." Na opinião de Machado, em matéria de guarda-roupa, as pessoas seguem mitos ou seja, comportamentos idealizados: "A idéia inconsciente é que se você imita a aparência de uma pessoa bem-sucedida, então compartilhará esse sucesso", exemplifica. Autor de uma tese sobre indumentárias, Machado tem o aspecto desleixado, alvo de duras críticas da filha: "Ela diz que estudo moda porque não sei me vestir", e dá de ombros. Ele próprio sempre, evitou o fenômeno da imitação que diagnostica na sociedade. "Na minha adolescência, os jovens usavam topete como Elvis Presley, mas meus cabelos não paravam no lugar", Iembra o professor, hoje aos 47 anos. "Então, desisti do penteado da moda."Assim como Machado teimava com o topete diante do espelho, para ficar parecido com o ídolo americano, milhares de pessoas insistem em discar para o Centro de Atendimento ao Telespectador (CAT), instalado pela Rede Globo de Televisão, em São Paulo e no Rio de Janeiro. Meia dúzia de funcionários dão conta de 10.000 ligações semanais: 2.000 delas são em busca dos endereços das lojas onde se encontram os modelitos exibidos pelos repórteres dos jornais e pelos astros das telenovelas. De acordo com os registros do CAT, a última musa foi Stela, interpretada por Glória Pires, a heroína com alma de noviça e corpo de manequim, da novela O dono do mundo. "Já me vesti como a Madonna, como a Tieta da novela e como alguma personagens de cinema", admite, compreensiva, a atriz; baiana Ingra Liberato, estrela da novela Ana Raio e Zé Trovão, exibida pela, Rede Manchete em seu horário nobre. Sua personagem uma peoa, disparou e uma exótica onda de botas, chapéus e esporas nos centros urbanos. "Isso vai desaparecer", prevê a atriz. "O Brasil não tem clima para moda country"De fato, o clima sempre foi um fator determinante da moda-a tanga provavelmente só poderia ter aparecido no escaldante Rio de Janeiro. "Atenção: a moda ousa sob medida", adverte o economista Machado. "Se ela for contra algum tabu da sociedade, não se disseminará." Dai talvez a desenvoltura das minissaias das cariocas, contrastando com a deselegância discreta das paulistanas, cantada por Caetano Veloso. " Por mais que as revistas mostrem decotes, a moda só cola nos locais onde as pessoas aceitam a idéia de mostrar o corpo", alinhava o professor.
Mas, esclareça-se, cortar tecido, para desnudar certas curvas da carne, não é sinônimo de modernidade. Há dois milênios, na Grécia Antiga, as cidadãs cretenses lançaram o topless: Da realidade, elas exibiam vestidos com mangas e saia em forma de sino, que deixavam os seios descobertos. Creta, aliás, é passarela obrigatória para quem vai seguir os passos da história da moda. Em primeiro lugar, porque ali a roupa ganhou o caráter de sedução, o qual nunca mais despiu- fora de seus arredores, as túnicas das mulheres eram muito parecidas com os trajes masculinos. A grande diferença, então, era o comprimento: nas mulheres, o tecido arrastava até os tornozelos. enquanto nos homens, mal escondia os joelhos. O mais curioso é que foi justamente na Grécia, famosa pelo legado da democracia, que a roupa passou a ser o divisor de ricos e pobres. O historiador Heródoto (484 - 420 a.C.) menciona em seus escritos um decreto ateniense que proibia os escravos e as pessoas de classes inferiores a freqüentar o teatro e outros lugares públicos com roupas tingidas. As chamadas classes superiores, no entanto, tinham liberdade para usar tons vivos, como o vermelho, o amarelo e o roxo.
Roma, nos mesmos tempos antigos, não era diferente: listras estreitas estampavam a toga de magistrados e aristocratas, enquanto as listras largas indicavam que a túnica pertencia a um senador ou a um alto oficial. Segundo o sociólogo José Carlos Durand, professor da Fundação Getúlio Vargas, em São Paulo, da Antiguidade até o fim da Idade Média o vestuário passou a ser, cada vez mais, um símbolo de status. Na medida em que as monarquias centralizadas colocaram fim ao feudalismo, criou-se todo um código de regulamentação do vestuário. "Existiam leis que limitavam o uso de cores e dos tecidos mais raros aos poderosos", explica o professor.
Essas leis, chamadas suntuárias, foram derrubadas pela Revolução Francesa, em 1789, com seus ideais de liberdade. igualdade e fraternidade. "Até hoje, passados mais de dois séculos, a classe alta tenta se distinguir pela roupa", observa Durand, em trajes sóbrios, que denotam cuidado na escolha. "Uma moda criada pela classe alta, até chegar ao cabide do operário ou da empregada doméstica, já passou pela classe média", raciocina o sociólogo. Desse modo, ao cumprir esse trajeto, já não serve para destacar os ricos que, nessas alturas, começam a consumir outra moda."A igualdade pregada pelos revolucionários franceses ficaria sem reflexo no espelho, se a Europa não tivesse presenciado, na mesma época, entre 1760 e 1830, a chamada Revolução Industrial-esta, literalmente, deu panos para manga."Antes, o material de costura era praticamente restrito às elites", compara Durand. "As máquinas para confecção, porém, permitiram o desenvolvimento das fiações, que passaram a produzir muito mais tecido." Por sua vez, essa montanha de tecido não podia ficar às traças. "Até o final do século XVIII, ser chique era aparentar tradição, como muitas pessoas defendem até hoje", conta a economista doméstica Maria Elisa Garavello, da Universidade de São Paulo, que mora na tranqüila Piracicaba, cidade do interior do Estado. "Mas, para desencalhar suas mercadorias, a indústria passou a valorizar o novo. Surgiu, assim, a moda sazonal, os lançamentos de inverno e de verão", explica. Os homens, contudo, não escorregaram no consumismo. E desse modo, vestiram a fama de ser um sexo irredutivelmente clássico. Mas, de acordo com os estudiosos, ninguém deveria comprar essa idéia: no pouco caso masculino existia uma enorme preocupação com a moda. Aliás, talvez, nunca os homens estiveram tão sintonizados com o jogo das aparências. Afinal, imperava o ócio no Antigo Regime derrubado pelos revolucionários franceses.Nenhum homem podia fazer muita coisa, carregando entre 8 e 10 quilos de babados - era quanto pesava, em média, o traje típico de um senhor elegante, no final do século XVII. As perucas masculinas, no mesmo período, tornaram-se ainda mais longas do que no século anterior, quando eram a grande novidade. Os revolucionários, portanto, ao protestar contra o regime, adotaram um visual oposto ao vigente, ou seja, extremamente simples e sóbrio. "Estar na moda é incorporar os símbolos de determinado grupo social", justifica Maria Elisa "É como afirmar aos outros, através das roupas, que você está bem informado sobre o que se passa no mundo." De fato, a palavra demodé -do francês, fora de moda- chega a ser sinônimo de desatualizado. "O curioso é que, na mesma época, as mulheres começaram a se enfeitar cada vez mais", observa Maria Elisa. A economista, aliás, escreveu um estudo sobre o consumo de vestuário de suas companheiras de sexo. "As lojas recebem menos mulheres acima dos 30 anos", garante." As solteiras gastam muito dinheiro com roupa", suspeita. "Depois do casamento, é como se tivessem cumprido seu papel social. Então, apelam para modelos discretos e transferem os enfeites para os filhos." Segundo Elisa, as jovens se comportam de maneira oposta: "Suas roupas têm de ser realmente justas, elas detestam qualquer acréscimo de pano, que escondem os contornos do corpo", revela. Uma das mais antigas disputas do mundo da moda também nasceu logo depois da Revolução Francesa. A Inglaterra e a França começaram a se alfinetar por motivos políticos, mas a briga continuou no guarda-roupa: nas ruas londrinas, as mulheres não dispensaram os vestidos de Paris, que sempre eram os mais bordados e cheios de panos; os alfaiates ingleses, de seu lado, vingaram a onda estrangeira, com cortes exemplares de roupas masculinas. Resultado: até nestes tempos modernos, da camiseta e da calça jeans, muitas mulheres ainda sonham em possuir a obra de um costureiro francês no armário, da mesma maneira como os homens esnobam elegância ao usar o tradicional terno inglês.
A mulher só optou pela praticidade no início deste século, quando eclodiu a Primeira Guerra Mundial. Boa parte dos tecidos, já escassos, era destinada à confecção de uniformes para os soldados nos campos de batalha europeus. Na ausência do marido convocado, a mulher começou a trabalhar -muitas vezes, usando a roupa do companheiro distante ou morto na guerra. Ninguém traduziu melhor o novo comportamento feminino do que a francesa Gabrielle Chanel (1883 1971). Coco Chanel, como preferia ser chamada cortou os cabelos na nuca-no penteado que notabilizou seu nome-, substituiu o rodado dos vestidos por uma saia reta, cujo comprimento também passou pela tesoura, parando um palmo abaixo dos joelhos, facilitando a vida de quem, a partir da década de 20, teria de andar até um escritório e, quem sabe, pegar o bonde. O traje era complementado por um casaco: estava criado o famoso tailleur. O novo visual, para a época, era chocante. Mas Coco Chanel, embora tenha nascido em uma família pobre, circulava pela nata da sociedade européia-e assim, das colunas sociais, acabou sendo imitada pela multidão de trabalhadoras.
Nesse mesmo período o homem deprimido pela guerra e pela situação  econômica mundial, começou a vestir, com freqüência, preto e cinza", compara Fernando de Barros, diretor da revista Claudia Moda. "Só recentemente, ele voltou a usar roupas coloridas. A moda masculina muda numa velocidade muito mais lenta do que a feminina." Para Barros, que nunca dispensa o par da gravata e do lenço guardado com falsa displicência no bolso do paletó, os homens são muito mais ligados em griffes da moda do que o sexo oposto-constatação que pode ser surpreendente. "Eles são muito mais técnicos, querem a roupa perfeita. As mulheres são mais criativas, aceitam o efêmero, querem sempre renovar", analisa com segurança.
Na verdade, as mulheres abandonaram a austeridade ainda na década de 40, quando Hollywood, a capital do cinema americano, passou a ditar a moda. Era a fantasia dos musicais contra o clima deprimente pós-Segunda Guerra. "O dia-dia incorporou o glamour dos filmes", nota a historiara da arte Cyntia Garcia, ex-estilista, diplomada em Florença, na Itália. Hoje, ela passa os dias prestando consultoria de moda a diversas confecções. "Na verdade, as pessoas o continuar seguindo a moda pelos mesmos motivos do homem primitivo A próxima revolução quem sabe, vai estar no estilo das roupas, com a chegada das fibras sintéticas", estima Cyntia. "Essas fibras permitem a criação de modelos como o próprio cinema já havia previsto para o futuro-coladas no corpo, tal como nos filmes de ficção científica. " 

Cifras em voga

Há muito dinheiro dentro da cesta da costura verde e amarela: as 13 830 confecções nacionais empregam 1,6 milhão de pessoas e, juntas, faturaram cerca de 25 bilhões de dólares no ano passado. Em comparação com 1989, porém, as vendas das vinte maiores empresas da área retrocederam, em média, 18,7%. Nesse período, a indústria têxtil também diminuiu 10% de sua produção As razões da queda não estão apenas na crise econômica, que multiplica o número dos descamisados, mas também na fabricação das fibras sintéticas: no Brasil, a matéria prima tem qualidade inferior e, para agravar, são bem mais caras. 

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Pantanal, Terra das Águas - Natureza


PANTANAL, TERRA DAS ÁGUAS - Natureza



Uma das maiores planícies do mundo não é um pântano, mas um ecossistema único: pelo tamanho, pela diversidade de suas formas de vida e pelo lugar onde fica. Sua beleza é fruto disso tudo.

Começa no mês que vem a temporada das chuvas no Pantanal Mato-grossense. Como acontece infalivelmente todos os anos, desde há pelo menos 30 milênios, um mar de água deverá se elevar lentamente, invadindo toda a planície do centro da América do Sul. As dimensões dessa inundação serão colossais. Aos poucos, 2/3 dos 150 000 quilômetros quadrados do território ficarão encharcados-uma área igual à do Estado de Santa Catarina ficará embaixo da água. Caso isso acontecesse no sul do país, seria uma tragédia de proporções inimagináveis. Mas, no Pantanal, encravado entre Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, a chegada das águas significa renovação. Sem as enchentes, a região seria um deserto. Por causa delas, ali se encontra uma das mais deslumbrantes paisagens das Américas-aproveitá-la como cenário de telenovela é o menor tributo que o homem pode lhe prestar.
Até os anos 50, aproximadamente, os cientistas chegaram a desconfiar que, no passado remoto, um mar interior cobria a região, como um enorme lago de água salgada. Quando foi avistado pela primeira vez por uma expedição branca, no século XVI, a área estava inundada e recebeu o nome de Lago dos Xaraiés. Foi uma homenagem à tribo desse nome, da família dos guaranis, com quem os exploradores fizeram contato. O lago, depois se descobriu, não existia realmente. Mesmo durante a época das cheias, muitos terrenos, que os moradores do Pantanal chamam cordilheiras, escapam de ficar embaixo da água e, por isso mesmo, ali se refugiam bois e animais selvagens. Ademais, todo ano, durante os seis meses que dura a estiagem, quase toda a planície fica descoberta. E, com a falta de chuvas, o gado chega a passar sede.
Se não foi um mar nem um lago, o Pantanal tampouco é um pântano. Pelo menos, é o que dizem os pesquisadores, que implicam com o nome com que a região foi batizada, em época incerta, pelos habitantes do lugar. Aparentemente, eles se referiam às primeiras áreas inundadas pelos rios como pantanais-e o termo pegou. "Jamais se descobriram ali os charcos estagnados ou os lodaçais traiçoeiros típicos dos pântanos", objeta o geógrafo Aziz Ab´Saber, da Universidade de São Paulo, um dos maiores especialistas em Geomorfologia brasileira, o estudo do relevo terrestre. Ab´Saber prefere chamar o Pantanal de planície inundável - "única pelo seu tamanho porque está no interior do continente e pela diversidade de domínios da natureza", enumera.
A imagem de pântanos movediços não se aplica a nenhum pedaço do Pantanal Mato-grossense. Mesmo os filmes de terror classe B, onde costumavam aparecer, exageram as suas características. Trata-se, na verdade, de pequenos afloramentos de água estagnada, resultantes do movimento do subsolo, e de difícil escoamento. Em alguns lugares, as plantas ali acumuladas transformam-se em turfeiras, depósitos de carvão vegetal que deixam o solo mole e pegajoso, como em certas regiões da Inglaterra e também no Brasil, mais precisamente no Vale do Paraíba e em Ribeira de Iguape, São Paulo. As  planícies inundáveis  são muito mais comuns. Estão presentes do Amazonas ao Rio Grande do Sul e suas áreas mais facilmente alagadas são chamadas brejos, várzeas, banhados ou vargens, conforme a região. Também são comuns pelo mundo afora.
O magnífico cenário do Pantanal, hoje se sabe, enfeita um fundo de concha situado entre as terras altas bolivianas a oeste e as serras brasileiras a leste. Há cerca de 60 milhões de anos, quando se elevaram tanto a Cordilheira dos Andes como o Planalto Brasileiro, a região do Pantanal, ao contrário, esvaziou- se. Uma malha impressionante de rios, formada pelo Paraguai e seus afluentes, despencou nesse imenso anfiteatro, vinda do norte e do leste, escavando os planaltos vizinhos e acumulando os sedimentos na planície. A região foi sendo lentamente aterrada. O Rio Paraguai, muito raso para suportar a imensa descarga que recebe de seus afluentes, ainda encontrou obstáculos ao sul, ao atravessar a Serra do Bodoquena. Ao percorrer esse assoalho liso, cuja declividade não passa de 33 milímetros por quilômetro, não tem alternativa senão transbordar.
Assim, é fácil entender por que a enchente demora para baixar-avançando cerca de 10 quilômetros por dia, leva seis meses para atravessar o Pantanal. Enquanto ainda está ganhando terreno no sul, já começa a diminuir de volume no norte. Areia, vegetação decomposta, aguapés, tudo se movimenta com a cheia. Quando ocorre a vazante e a água escorre para outras paragens, fica no lugar uma sopa de detritos na qual nascem capim, ervas, arbustos e uma infinidade de flores-um conjunto exuberante de vegetação que jamais brotaria naquele solo pobre sem a contribuição das águas. Até porque no Pantanal não chove muito. Na tórrida cidade de Corumbá, no sul da planície, por exemplo, chove menos do que em São Paulo. Esse fenômeno lembra o que ocorre no Rio Nilo, na África, cujas enchentes fertilizaram o deserto e fizeram a grandeza do Egito há 5.000 anos.
Não é preciso ir muito longe para imaginar o que seria do Pantanal sem o constante vaivém das águas. Do outro lado da fronteira, no território da Bolívia, fica uma das áreas da planície do Chaco, formada na mesma época e da mesma maneira que a planície mato-grossense. Apesar do nome, que lembra charco e por isso pode dar margem a confusão, a terra ali não é úmida, mas árida. A palavra chaco vem do idioma quíchua, ainda hoje falado pelos indígenas da região, e significa terra de caça. Na sua parte central, o Chaco é um imenso descampado, dominado por bosques baixos e vegetação de savanas. Ali não ocorrem inundações. Os poucos córregos que percorrem a planície são parcamente alimentados nas cabeceiras, localizadas nos altiplanos andinos, onde raramente chove-ao contrário do que acontece nas úmidas serras nas bordas do Pantanal, onde estão as nascentes do Paraguai e seus afluentes.
Do lado de cá da fronteira, o verde se transforma à medida que o Paraguai atravessa os 700 quilômetros de seu percurso pantaneiro. De leste para oeste da planície, o grande rio e seus afluentes passam por matas, cerrados e campos que, em alguns trechos, lembram a caatinga nordestina. Na parte sul e na borda ocidental, a vegetação se parece com a dos bosques chaquenhos. Calcula-se que durante o Período Quaternário, há 20 ou 30.000 anos, espécies de vegetação tropical e subtropical dos cerrados, do Chaco e da periferia da Amazônia disputavam o espaço enquanto os rios abriam caminho na planície. É por isso que um cientista como Fernando Flávio Marques de Almeida, da Universidade Estadual de Campinas, que trocou a Engenharia pela Geologia e estuda a região há quarenta anos, desde que se apaixonou por ela, afirma que não existe um único Pantanal na região. "São quase uma dezena, cada um com características diferentes", esclarece. A gente do lugar reconhece esses pantanais por nomes diferentes: pantanal de Cáceres, ou de Poconé, ou de Nhecolândia etc.
"Trata-se de uma espécie de mosaico, onde se interpenetram diversos ecossistemas e suas respectivas faunas", concorda outro pantanólogo, Francisco de Arruda Machado, o Chico, biólogo da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). Filho de pescadores, nascido numa vila perto de Cuiabá, Chico só podia mesmo se especializar no estudo da multidão de peixes da bacia do Paraguai. Segundo ensina, eles representam um dos elos mais importantes da riquíssima cadeia alimentar do Pantanal, capaz de sustentar animais de grande porte, em vias de extinção  em outros pontos do território brasileiro, como a onça-pintada, o lobo-guará, o tamanduá, a capivara e o cervo.
Durante a época das cheias, cardumes e mais cardumes sobem os rios para a desova, no conhecido fenômeno da piracema. Os filhotes se alimentam de microorganismos e da vegetação aquática, como os aguapés, que cobrem as áreas inundadas, ou baías, conforme se diz na região. Quando vem a vazante, muitos rios interrompem seu curso, formando uma seqüência de pequenos lagos, onde jacarés, cobras, pequenos roedores e pássaros fazem a festa. "Numa lagoa de 2 metros quadrados se encontram sessenta espécies de peixes convivendo lado a lado", contabiliza Chico, orgulhoso.
Alterar esse sistema, a conseqüência inevitável da interferência humana em larga escala na região, significa desequilibrar o ciclo de vida no Pantanal. Sabe-se, por exemplo, que o acréscimo de aguapés, provocado pelo assoreamento dos rios, e a matança indiscriminada dos jacarés, estão aumentando os cardumes de piranhas nos rios. Não existem números comparativos a respeito, mas o fato é certo. As aves -a forma de vida que mais chama a atenção no Pantanal- também estão ameaçadas. No caso, o vilão é o uso de agrotóxicos nas plantações de soja a em volta da planície. Mas a fartura de asas e plumas é tamanha que, ao menos por enquanto, ainda não há por que se preocupar.
Infinidades de aves coloridas, entre os quais espécies migradoras, habitam os viveiros pantaneiros, que às vezes cobrem mais de 1 quilômetro de bosques. Ali voam garças, araras, papagaios, biguás, maçaricos, batuíras, colhereiros -e os tuiuiús, de corpo branco e pescoço vermelho, escolhidos por sua beleza como o símbolo oficial da região. Deslumbrados com toda essa abundância, os mais entusiasmados fãs leigos do Pantanal asseguram que a região, como manancial de espécies, é ainda mais rica que a Amazônia. É e não é. Na verdade, explica o ecólogo Wellington Braz Carvalho Delitti, da USP, "as espécies da floresta são mais variadas, mas no Pantanal a quantidade é mais perceptível". 

Um mundo de cheias

No coração da América do Sul, o Pantanal Mato-grossense é uma exceção à regra da formação das planícies inundáveis. As demais surgem quase sempre junto à costa e na altura dos deltas dos rios. A bacia do Amazonas, que se estende por quase 7 milhões de quilômetros quadrados, tem épocas variadas de cheias, conforme o trecho do rio, e apenas uma estreita faixa de várzea inundada. As maiores planícies inundáveis do mundo estão na Ásia. É o caso da planície do Rio Yang Tsé, na China, que ocupa 2 milhões de quilômetros quadrados, onde existem cidades, como Xangai, cujas populações também se contam aos milhões. As enchentes do Rio Yang Tsé podem inundar centenas de quilômetros de planície. Além deste, também o Rio Huang Ho, no norte da China, forma terras inundáveis e pantanosas.
No Sudeste Asiático, o Rio Mekong inunda as planícies do Laos, Camboja, Vietnã e Tailândia, sendo responsável pela principal cultura da região: o arroz. A planície do delta do Ganges, entre a Índia e Bangladesh, também forma um dos territórios mais férteis e por isso mesmo mais populosos do mundo. Ali, a paisagem alterna plantações de chá e de arroz com florestas tropicais e pântanos. Em contraste, no norte do continente, os rios siberianos Ob, Ienissei e Lena recebem a neve e o gelo derretido dos maciços da Ásia Central e inundam uma terra menos habitada e coberta pela vegetação de tundra, antes de desaguar no Ártico. Uma das planícies inundáveis mais famosas do mundo fica no delta do Mississípi, o maior rio dos Estados Unidos, que cobre uma área superior a 3 milhões de quilômetros quadrados. Antes de desaguar no Golfo do México, forma uma malha de canais, cercados por bosques baixos, povoados por uma infinidade de aves e jacarés-agora raros.

Mau exemplo na Flórida

Corresponde apenas a 6% do Pantanal Mato-grossense. No entanto, representa a maior planície inundável dos Estados Unidos. A região de Everglades (literalmente, clareira perpétua, em inglês), quase 10 mil quilômetros quadrados no sul da Flórida, foi até o século passado um emaranhado de pequenos córregos, lagos e brejos, uma terra pantanosa, habitada por crocodilos, panteras e aves a não poder mais. Hoje, quase dois terços do território estão ocupados por plantações. Grandes cidades, como Miami e Fort Lauderdale, se assentam sobre as suas bordas; uma rede de rodovias absorve a água das chuvas. O pantanal americano ficou confinado ao Parque Nacional de Everglades, que margeia o Atlântico até a ponta da península, e a algumas áreas vizinhas, onde subsistem treze espécies de animais em extinção, entre as quais, contadas uma a uma, trinta panteras.
A água circulava nessa planície sedimentar no mesmo ritmo lento de enchentes do Pantanal brasileiro. Mas em vez de um grande rio, ali está uma cadeia de lagos, ainda existente ao sul de Orlando, terra da Disneyworld. São esses lagos que alimentam o grande reservatório de Okeechobee, considerado o coração de Everglades. Dali, a água se espalha por quilômetros, inundando uma terra baixa e de vegetação rasteira até misturar-se com o mar. Para sustentar o desenvolvimento da região, todo esse sistema foi drenado. Mas, com o tempo, o solo secou. E o suprimento de água dos 5 milhões de habitantes do sul da Flórida corre o risco de entrar em colapso. Para evitar a calamidade, planeja-se o retorno aos bons velhos tempos. Isso significa restaurar o curso original de rios e o nível dos lagos, afastar os poluentes, reconstruir estradas e desapropriar terras-uma respeitável conta de 300 milhões de dólares.

Perigos no paraíso

Mesmo os ambientalistas radicais hão de concordar que, às vezes, a intervenção do homem na natureza vem para bem. A introdução do gado no paraíso mato-grossense, nas primeiras décadas deste século, por exemplo, acabou trazendo benefícios insuspeitados. A criação extensiva preencheu milhares de quilômetros quadrados com atividades econômicas que jamais perturbaram o equilíbrio ecológico. E o terreno arenoso, que não se presta à agricultura, serve perfeitamente ao florescimento de pasto, excelente alimento para bois e outros herbívoros. A região possui poucas cidades (as maiores são Campo Grande, com perto de 400 000 habitantes, Cuiabá e Corumbá) e a maior parte do território é ocupado por fazendas pastoris, daquelas que se percorre melhor de avião, escassamente povoadas.
Outros perigos, no entanto, ameaçam este éden. Recentemente, um encontro realizado em São Paulo pela Fundação Pantanal Alerta Brasil, uma organização ambientalista, mostrou a fragilidade do equilíbrio ecológico da planície. "As terras inundáveis sofrem muito com as alterações que acontecem nas bordas da planície", acusou na ocasião o geólogo José Domingos Godoy Filho, da UFMT. "O Pantanal recebe toda a carga de agrotóxicos das plantações de soja situadas nas cabeceiras dos rios e sente seus efeitos, como a erosão, assoreamento e contaminação das águas." Além disso, a mineração, praticada na beira dos rios, já transformou trechos da paisagem idílica em verdadeiras crateras. Como também lembra o geólogo, um paulista seduzido pelo Pantanal, o mercúrio usado pelos garimpeiros para localizar ouro, depois de escapar para a atmosfera, retorna ao solo e aos rios, trazido pela chuva, contamina a natureza e envenena gente e bichos. Se isso não bastasse, descobriu-se que as queimadas realizadas nos cerrados do Brasil Central elevam a níveis alarmantes a concentração de gás carbônico na atmosfera do Pantanal, durante a estação seca. Como se sabe, o gás carbônico, resultante do fogo ou da combustão de derivados de petróleo, é um dos maiores causadores do efeito estufa. Como acontece em Porto Velho, a capital de Rondônia, por causa dos gigantescos incêndios provocados pelo desmatamento da Amazônia, também em Cuiabá, no Mato Grosso, que fica ao norte do Pantanal, a fumaça das queimadas obrigou várias vezes ao fechamento do aeroporto por falta de visibilidade.
No encontro de São Paulo, os cientistas brasileiros que defendem uma ocupação menos predadora do Centro Oeste, como uma forma de evitar a destruição da paisagem do Pantanal, contaram com o apoio de um ilustre colega americano. O biólogo Estus Whittfield, diretor da área de meio ambiente do governo da Flórida, comparou a região de Everglades, no seu Estado, ao Pantanal Mato-grossense. Segundo explicou, a ocupação do pântano de Everglades causou tamanho problema no abastecimento de água do sul da Flórida que hoje os americanos estão gastando cerca de 300 milhões de dólares para curar as dores de cabeça que o desenvolvimento trouxe à região. "Se eu lhes contar a nossa história, vocês não vão querer cometer os mesmos erros", ofereceu-se Whittfield. Resta esperar que os brasileiros estejam dispostos a ouvir.

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domingo, 14 de outubro de 2012

A Rainha dos Reis - Cleopatra



A RAINHA DOS REIS - Cleopatra



Para reviver a glória dos faraós do Egito, ela seduziu os dois mais poderosos chefes romanos de seu tempo. Um terceiro a derrotou.

Ano 51 a.C. Cleópatra, aos 18 anos, torna-se rainha do Egito com a morte de seu pai Ptolomeu XII. É provável que os oráculos profetizassem que a jovem ambiciosa, meio grega, meio macedônica, estava destinada a interferir nos meandros da História. Mas tudo que Cleópatra queria era manter-se no poder. O Egito, celeiro do mundo ocidental e uma das nações mais ricas do Mediterrâneo, representava um troféu muito cobiçado pelos inquietos romanos; afinal, uma centena de anos antes eles haviam começado sua expansão para o Oriente. Mais de uma vez falara-se em anexação e o próprio pai de Cleópatra só conseguiu manter-se no trono distribuindo subornos. Assim, a rainha ainda adolescente sabia muito bem que o caminho para a permanência no poder passava por Roma - e seus governantes. Tornou-se amante e aliada de Júlio César (100-44 a.C.), o primeiro ditador romano. Mais tarde, conquistou as atenções de seu sucessor, Marco Antônio (82 ou 81-30 a.C.).
A história desses romances, misto de desejo e jogo de interesses, repercutiria intensamente na política romana, que passava por um período crucial. A República, implantada em 509 a.C., agonizava em meio à guerra civil. Os generais mais ricos, que podiam pagar seus exércitos, procuravam obter o poder para si. "Nesse tabuleiro de xadrez Cleópatra manobra com habilidade", avalia o professor de História Antiga Ciro Flamarion Cardoso, da Universidade Federal Fluminense. "Num mundo em que os negócios do Estado estavam nas mãos dos homens, ela usou a sedução para vencer como estadista." A personagem Cleópatra, na maioria dos livros de História, encarna como nenhuma outra mulher da Antigüidade o papel de irresistível sedutora. "Mas esta é uma visão deformada", critica Flamarion Cardoso, que se diz um admirador da figura histórica da rainha. "Cleópatra foi uma administradora competente, uma mulher culta, que além do mais devia ter consideráveis dotes eróticos. Apostou na sua estratégia e perdeu. E a História não costuma ter complacência com os vencidos."
Surpreendentemente, apenas há poucas décadas, passou-se a pesquisar com outro enfoque a vida da rainha do Egito. Até então, baseados no que diziam seus inimigos, que por sinal não eram poucos, os textos clássicos a descreveram de maneira extremamente pejorativa- mulher venal, amante de orgias, que conseguiu, com seus ardís, enfeitiçar dois generais romanos. Além das lendas, são poucos os registros históricos dignos desse nome sobre Cleópatra. Para evocar a sua aparência existem algumas efígies em moedas e um busto no Museu Britânico, em Londres. Não se sabe, portanto, se a moça tinha os olhos claros e cabelos loiros dos macedônios, ou a tez morena dos gregos. Parecia ter olhos grandes, boca pequena e bem desenhada. "Se o seu nariz tivesse sido mais curto, toda a face da Terra teria mudado", disse o matemático francês Blaise Pascal (1623-1662), pioneiro da Teoria da Probabilidade. O nariz era aquilino . O fato é que a beleza não constituía o seu maior atributo. Plutarco, o historiador romano que viveu um século depois, explicava de outro modo o fascínio que ela exercia: "A presença de Cleópatra era irresistível e havia tal encanto em sua pessoa e no seu modo de falar, misturado com uma força singular que permeava cada palavra e cada gesto, que a todos ela subjugava."
Cleópatra pertencia à dinastia de Ptolomeu, um dos generais de Alexandre, o Grande (356 a.C.-323 a.C.), cujo império se estendia do Egito até a Índia. "Alexandre, de origem macedônica absorveu a cultura oriental e se comportou como um monarca divino", classifica o professor de História Antiga Ricardo Mário Gonçalves, da Universidade de São Paulo. "Os sucessores imitaram o seu exemplo." Depois da morte do imperador, suas terras foram divididas, cabendo a Ptolomeu o Egito. Para consolidar seu poder, o general se fez sagrar faraó, retomando as tradições das linhagens que comandaram o país durante três milênios, sob cuja autoridade se desenvolveu uma peculiar civilização de que as pirâmides são o signo mais conhecido. Cleópatra VII Thea Philopator (deusa que ama o pai, em grego) era o seu nome todo. Herdeira da dinastia ptolomaica, gostava de vestir-se como Ísis, a deusa-mãe, de quem se dizia a reencarnação.
Nascida em 69 a.C., na rica Alexandria cujo porto era o mais importante da época, nada mais natural que Cleópatra se sentisse uma deusa. Dos jardins do seu palácio, ela podia ver algumas das maravilhas legadas ao mundo por seus antepassados: a mais famosa biblioteca da Antigüidade, com mais de 700 mil volumes, e um museu freqüentado por sábios do Mediterrâneo. Os Ptolomeu eram patronos das artes e muito do que se conhece hoje de filosofia e ciência gregas foi conservado em Alexandria, a capital do Egito. Do palácio também se avistava a féerica agitação do porto, os monumentos e o magnífico farol, construído por Ptolomeu II, uma das Sete Maravilhas do Mundo. Como regente do Egito, Cleópatra controlava, com a ajuda de administradores gregos, não só a vida da cidade mas a agricultura ao longo do Nilo, de onde provinha a fabulosa riqueza de seu país. Dispondo de poder absoluto, tinha objetivos definidos para o seu reinado, além de obstinação suficiente para dedicar a vida à realização de suas ambições: garantir a riqueza e a independência do Egito e restaurar a glória dos faraós.
Cercada de uma corte corrupta, Cleópatra não tinha escrúpulos. Mandou matar quatro dos cinco irmãos (dois homens e três mulheres) que podiam atrapalhar-lhe os planos. Era porém uma mulher culta. Nas negociações comerciais e nos encontros diplomáticos dispensava intérpretes, sendo a única rainha macedônica a falar o egípcio - além de nove outras línguas. Durante o seu reinado, patrocinou as artes e as ciências e teria, segundo alguns historiadores, escrito duas obras: um improvável tratado sobre pesos e medidas e outro, mais compatível com sua figura no imaginário popular, sobre penteados e cosméticos. Para conquistar a confiança do povo, subiu o Nilo até Tebas, onde presidiu uma cerimônia de culto ao touro sagrado, manifestação do deus Ra. Nos 21 anos em que governou o Egito, evitou que a massa se rebelasse, o que contraria a afirmação de que era odiada por sua crueldade.
Em compensação, logo que se tornou rainha, enfrentou a primeira conspiração palaciana. Como de costume entre os Ptolomeu, Cleópatra deveria dividir o trono com seu irmão Ptolomeu XIII, de apenas 10 anos, de quem era formalmente a mulher. Temendo, com bons motivos, que ela pretendesse governar sozinha, os tutores do irmão-marido a expulsaram para a Síria. Nesse meio tempo, o triunvirato que governava Roma desde 60 a.C. havia se desfeito e César disputava com Pompeu o controle da República. Pompeu foi assassinado em 48 a.C.. no Egito, para onde César se dirigiu com suas legiões. A fim de entrar incógnita em Alexandria e conquistar as graças de César, Cleópatra arquitetou um plano ao seu estilo. Detalhe miúdo, ela se fez embrulhar num tapete, colocado nos ombros de um servo. Pode-se imaginar a expressão do ditador romano, ao ver o que continha o tapete desdobrado aos seus pés. Não espanta que a apresentação tenha terminado na cama. Seja como for, no dia seguinte César entregaria o controle do Egito para Cleópatra. Era um presente sujeito a condições. Em troca, a rainha, que mais tarde deu à luz a um filho apropriadamente chamado Cesário Ihe garantiu riquezas para sustentar seus exércitos.
Assim, apesar do que diziam as más línguas da época, a sedução de César não era cega. Mas, ao voltar a Roma, em 46 a.C., depois de uma vitoriosa campanha na Ásia Menor, o ditador convidou a rainha a visitá-lo. E, para provar a todos que Cleópatra era mais do que uma amante casual, mandou colocar sua estátua no templo dos próprios ancestrais dedicado a Vênus, como se sabe, a deusa do amor e da beleza na mitologia romana. César tinha então 54 anos. Cleópatra, 23. Os dias do conquistador, no entanto, estavam contados. Os inimigos acreditavam que ele pretendia tornar-se rei e instalar o governo do império em Alexandria para ficar junto da amante. Em 44 a.C., num dos episódios mais dramáticos da história de Roma, César foi assassinado por um grupo de republicanos. Sua morte pôs um fim à primeira campanha de Cleópatra pelo poder. Discretamente, retirou-se para o Egito à espera dos desdobramentos que não tardariam, na luta em Roma.
Divulgado por Marco Antônio, o melhor amigo de César, o testamento do finado não mencionava sequer uma vez o nome de Cleópatra nem fornecia indicação de um eventual projeto monárquico. Os conspiradores que acreditavam que a morte de César traria de volta a República tiveram de sair do país. Formou-se um novo triunvirato com Marco Antônio, Otávio - um jovem de 18 anos, herdeiro de César - e Lépido, o maior de seus generais. Logo ficou claro que a ambição dos dois primeiros iria jogá-los um contra o outro. Em 42 a.C., na primeira batalha de que os dois participam juntos, em Filipos, na Grécia, o maior quinhão da glória cabe a Marco Antônio - ou assim parece, já que nessa época Otávio era apenas um rapaz doente. Para consolidar o poder recém-conquistado, Antônio sonha com uma invasão da Pérsia e, para esse objetivo, convoca todos os aliados da República Romana a um encontro em Tarso, na Síria. É a oportunidade que Cleópatra esperava para voltar à História. Sua entrada é nada menos que triunfal. Baseado nos textos de Plutarco, o dramaturgo inglês William Shakespeare (1564-1616) imortalizaria acenara peça Antônio e Cleópatra, em que a rainha, adornada como Vênus, aparece na popa dourada de um barco com velas de cor púrpura enfunadas ao vento. Cleópatra se faz abanar com plumas de avestruz por meninos vestidos de Cupido, enquanto, ao som de flautas, oboés e alaúdes, escravos movem ritmicamente os remos de prata. A ser verdadeira a cena, Hollywood não terá inventado nada de novo na breguíssima reconstrução de Cleópatra, filmado em 1963, com Elizabeth Taylor. Dado a festas e ostentações, como poderia Marco Antônio resistir? No golpe de misericórdia, Cleópatra, aos 29 anos e no auge de seus encantos, convida o general quarentão para um banquete inigualável. Segundo Plutarco, dai em diante Cleópatra fez o que quis de Marco Antônio: "Ela despertou e inflamou paixões até então adormecidas em sua natureza, abafou e finalmente corrompeu quaisquer resquícios de bondade e justiça que ainda subsistissem nele."Na realidade, o general era emotivo, bêbado e mulherengo", precisa Flamarion Cardoso, da Universidade Federal Fluminense.
Marco Antônio desistiu da campanha da Pérsia e aceitou o convite da rainha para visitar Alexandria. Na bela cidade eles formaram uma sociedade chamada "os que vivem para o prazer", bem ao gosto do general romano. Em 34 a.C., Antônio deu a Cleópatra, como prova de amor, a ilha de Chipre, mais a Líbia e a Síria, a Armênia, a Média (no noroeste do atual Irã) e a Cilícia (sudeste da atual Turquia) - e, é claro, o velho Egito. Em troca, como já havia acontecido com César, a rainha sustentaria com suas riquezas as legiões romanas. Marco Antônio foi um amante mais generoso do que seu antecessor. Numa das festas que promoveu, deu a Cleópatra o título de Rainha dos Reis, repartindo entre Cesário, o filho que ela tivera com César e as três crianças que eram filhos dela consigo, partes das terras conquistadas pelo seu exército. Em Roma, tais doações foram usadas por Otávio para indispor o populacho contra seu rival. Segundo o professor Ricardo Gonçalves, "ao unir-se com Cleópatra, Marco Antônio tornou-se para os romanos um monarca despótico e absolutista. Enquanto Otávio, embora também quisesse o poder absoluto, parecia agir como um defensor da República." Não tardou que ambos se guerreassem. A batalha de Ácio, no leste da Grécia. em 31 a.C., foi definitiva. Embora seu exército fosse melhor preparado, Antônio não conseguiu furar o bloqueio marítimo montado por Otávio. Cleópatra, ao lado do amante, foi a primeira a reconhecer a derrota e fugir para o Egito. Para não perdê-la, Marco Antônio foi atrás, abandonando os que ainda lutavam - pecado imperdoável para um chefe militar. No Egito, o par formou a sociedade dos "inseparáveis na morte". Como bom soldado, ele matou-se com a espada. Cleópatra, porém, tinha apego à vida. Prisioneira dos romanos, com 39 anos, apelou para a velha fórmula, tentando seduzir Otávio. Mas este recusou o jogo. Não restou mais nada à rainha senão suicidar-se, fazendo-se picar por uma áspide, pequena cobra venenosa.

O mito masculino da mulher fatal

Morena, cabelos negros, olhos cor de violeta. Assim era a Cleópatra made in Hollywood, por quem o público masculino suspirava em 1963. Não só o público: o ator inglês Richard Burton, que fazia Marco Antônio no filme, sucumbiu aos encantos, como se diz, de Elizabeth Taylor-Cleópatra e com ela viveu um longo, intermitente e tempestuoso casamento. O episódio, que um dia talvez vire filme também, foi um acréscimo primoroso para fixar no imaginário popular o mito de Cleópatra mulher fatal, cuja dimensão trágica está em ser ela ao mesmo tempo prêmio e perdição para o homem. "Cleópatra é capaz de deixar qualquer homem a seus pés, mas homem algum pode ser feliz a seu lado", resume o professor Flávio Di Giorgi, que leciona Lingüística e Teoria Literária na PUC de São Paulo.
Com uma história que mistura política, intriga, violência, luxo e erotismo, é natural que a arte se apropriasse da figura da rainha do Egito, desde as pinturas que descrevem de forma romântica e grandiloqüente o seu suicídio às peças de Shakespeare e Bernard Shaw e ao romance histórico de Théophile Gautier. Vivendo num ambiente de opulência e sensualidade - a corte dos faraós na faustosa Alexandria - Cleópatra é esculpida como a mulher irresistível que usa o corpo para conseguir o que quer dos homens e depois os descarta. Ou, segundo analisa o psicanalista Renato Mezan, também professor da PUC, "como ela não tem existência real, sendo apenas a projeção dos desejos masculinos, o mito a despoja de sentimentos".

sábado, 4 de dezembro de 2010

Beleza a jato - Botox

BELEZA A JATO - Botox



Até meados dos anos 90, quem quisesse se livrar de rugas, pés-de-galinha e vincos na testa tinha de recorrer a cirurgias plásticas. Então, como num passe de mágica, surgiu o Botox, marca comercial do medicamento que revolucionou o tratamento de problemas estéticos relacionados ao envelhecimento do rosto. Sua grande vantagem é a simplicidade: a aplicação do produto, feita com pequenas agulhas, demora poucos minutos e não requer internação. Nas quatro horas seguintes à aplicação, o paciente não deve se deitar e mover excessivamente a musculatura da face - sorrindo ou comendo, por exemplo. Adotando esses cuidados mínimos, os resultados começam a aparecer já no segundo ou terceiro dia.

Embora o Botox tenha se tornado popular há pouco tempo, seu uso já era indicado há mais de uma década para o tratamento de problemas neurológicos que se manifestam em contraturas musculares. O incrível é que o produto foi desenvolvido a partir da bactéria que causa uma doença grave, o botulismo. A doença, que pode se originar do consumo de alimentos malconservados - especialmente enlatados, já que a bactéria se desenvolve em ambientes sem oxigênio -, paralisa os músculos e, se não for tratada a tempo, pode causar a morte. Essa mesma propriedade da bactéria Clostridium botulinum passou a ser estudada na década de 60 para o combate de doenças associadas à hiperatividade muscular. Uma das primeiras doenças tratadas pelo Botox foi o blefaroespasmo, contração involuntária das pálpebras, um problema sem origem identificada que atinge principalmente as mulheres.
Em 1992, o laboratório farmacêutico Allergan adquiriu os direitos sobre uma forma de processamento da toxina botulínica tipo A, um dos sete tipos de toxina produzidos pela bactéria Clostridium botulinum. Foi a partir daí que se investiu para valer no estudo dos possíveis usos estéticos. Descobriu-se que a aplicação de doses controladas do produto diretamente em um músculo pode paralisá-lo temporariamente, reduzindo a atividade que produz marcas de expressão. O medicamento atua nos nervos que levam mensagens aos músculos - bloqueia a liberação de acetilcolina, substância responsável pela transmissão da mensagem elétrica do cérebro ao músculo.

O impacto da descoberta
Com o surgimento do Botox, muitas pessoas ganharam a oportunidade de parecer até 20 anos mais jovens de um dia para o outro, recuperando a auto-estima sem precisar se submeter a cirurgias complicadas

O mal virou bem
Os descobridores da bactéria causadora do botulismo não poderiam imaginar que, 100 anos depois, a ciência encontraria uma função benéfica para a Clostridium botulinum. O desenvolvimento do Botox partiu de um raciocínio simples: se altas doses da toxina eram capazes de paralisar os músculos, causando o botulismo, talvez a aplicação de doses controladas e direcionadas da mesma toxina pudesse trazer bons resultados quando o problema era o inverso: músculos que se mexiam além do necessário.
A partir de 1992, a permissão para o uso estético do Botox foi sendo obtida sucessivamente em mais de 70 países. Estima-se que um milhão de pessoas no mundo já utilizaram o produto. Muitas se tornaram clientes habituais, já que, para manter os resultados, é preciso reaplicá-lo aproximadamente a cada seis meses. Artistas famosos se tornaram divulgadores do produto - alguns de forma espontânea, falando abertamente sobre o uso de Botox; outros de forma involuntária, simplesmente parecendo mais jovens de um dia para o outro. O problema é que a facilidade de acesso ao Botox leva ao risco de aplicação por profissionais despreparados, o que pode causar uma série de danos à saúde, desde perda de movimentos faciais além do necessário até infecção, fibrose (endurecimento da pele) e destruição de tecidos. Daí a importância de procurar especialistas reconhecidos pelo Conselho Regional de Medicina.