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terça-feira, 30 de abril de 2013

Uma Universidade no Far West - Stanford


UMA UNIVERSIDADE NO FAR WEST - STANFORD



Radares, tomógrafos, quarks, Engenharia Genética e outras maravilhas científicas e tecnológicas deste século nasceram, em boa parte, nos laboratórios ou no cérebro dos cientistas de Stanford, um dos grandes centros da pesquisa mundial. Fundada há 100 anos pelo esforço de um ex-senador e magnata das ferrovias, numa época em que a Califórnia, nos Estados Unidos, era ainda um lugar despovoado e semi-selvagem, ela tornou-se uma universidade no far west



Quando o advogado e futuro senador Leland Stanford deixou o norte dos Estados Unidos e rumou para a Califórnia, em 1852, esse estado estava ainda muito longe de tornar-se o mais populoso e produtivo do país, "uma América dentro da América", como hoje se afirma. Historicamente, a região pertencera ao México e havia sido anexada pelos americanos apenas uma década antes da chegada de Stanford. Era, então, um retrato legítimo daquilo que o cinema, mais tarde, celebrizaria como o "oeste longínquo"- o "far west", aportuguesado para faroeste. Ainda despovoada e semi-selvagem, em grande parte, a Califórnia atraía um número crescente de colonizadores e aventureiros de todos os tipos, especialmente mineiros e garimpeiros de ouro.
Não admira, portanto, o descaso com que se recebeu o sonho de Stanford: o de construir nessas pragas uma grande universidade com o nome de seu filho, Leland Stanford Jr., falecido em plena adolescência. Ninguém podia imaginar que ali se fundaria um dos 10 ou 15 centros mundiais da ciência e da tecnologia modernas, onde se gestou a maior parte das novas idéias e artefatos deste século. O radar, por exemplo, é hoje um aparelho corriqueiro, mas no início do século era uma novidade extraordinária que começou a ganhar forma nas oficinas de Stanford. Seu ancestral é um gerador de ondas de rádio chamado klystron, desenvolvido em 1937 pelos irmãos Russell e Sigurd Varian.Verdadeiro achado, o klystron também é usado nos aceleradores de partículas nucleares, aparelhos de radioterapia, transmissores de UHF para a televisão e comunicações por telefone ou satélite. Calcula-se que os direitos sobre o invento já renderam a Stanford 2,5 milhões de dólares. Existem muitos outros exemplos como o do radar - a lista é tão extensa que deu trabalho aos editores de um número especial da revista acadêmica Stanford, lançado no ano passado em comemoração do centenário da universidade. Eles levantaram nada menos que 2 000 realizações merecedoras de constar na revista. Afinal, uma rigorosa seleção permitiu montar uma edição de volume razoável, com "apenas" 500 matérias.Alguns nomes e feitos denunciam a grande influência do trabalho em Stanford sobre toda a vida moderna:Paul Kirpatrick - pioneiro da década de 40 no estudo da holografia, iniciado pelo físico Dennis GaborFelix Bloch - primeiro cientista de Stanford a receber o Nobel (1952), criou a indução nuclear, essencial aos tomógrafos por ressonância magnéticaLinus Pauling - recebeu o Nobel em 1954 por explicar as forças químicas; em Stanford desde 1969, revelou as propriedades do ácido ascórbico, ou vitamina CEugene Lindstrom - escreveu o primeiro programa de computador para analisar pesquisas eleitorais, usado para prever a vitória do ex-presidente Dwight Eisenhower, em 1956Douglas Engelbart - criador, em 1965, do mouse, peça que movimenta uma seta na tela dos microcomputadores e permite lhes passar instruçõesOllie Johnston e Franck Thomas - desenvolveram as técnicas usadas para criar os desenhos animados de Walt Disney, a começar por Branca de Neve e os Sete AnõesEdith Head - lingüista por formação, tornou-se uma grande figurinista do cinema; trabalhou em Os dez mandamentos e recebeu oito Oscars, de 1948 em diante. Inúmeros profissionais de Hollywood passaram por Stanford, como a atriz Sigourney Weaver (Alien, o oitavo passageiro) e o diretor Richard Zanuck (Butch Cassidy e Sundance Kid)Charles Stark Drapper - criou o sistema inercial de direção de mísseis, usado também por naves como a Apollo, que levou os primeiros homens à Lua em 1969Owen Churchill - inventor dos pés-de-pato, ou nadadeiras, na década de 30.Walter Toessell - diplomata de carreira, ajudou a preparar a histórica visita do presidente Richard Nixon à China, em 1972Michael Gottlieb - aos 32 anos, identificou o HIV, vírus da AIDS, ao estudar cinco homossexuais no hospital da Universidade da Califórnia, em Los Angeles, em 1980Basta passar os olhos nessa lista para notar que, embora conservadora em muitos aspectos, Stanford, no cômputo final, representou uma força inovadora na história recente dos Estados Unidos. Sua própria história confunde-se com o desenvolvimento fulminante da região sudoeste americana, tão importante para o país. Após fincar os pés na Califórnia, Leland Stanford experimentou rápida ascensão. Começou como comerciante de suprimentos para os novos colonos californianos, mas logo se ligou à política, ajudando a organizar os comitês estaduais do Partido Republicano, na época empenhado em acabar com o escravagismo. Em 1861, elegeu-se governador com mandato de dois anos, e ao mesmo tempo passou a presidir a estrada de ferro Central Pacific Railroad.Já um magnata no grande negócio das ferrovias, o ex-advogado comprou em 1876 as primeiras parcelas de terra da Fazenda Palo Alto. Suas propriedades terminariam somando 33 509 hectares (quase 14 000 alqueires). Mas os 3 561 hectares de Palo Alto se transformariam no campus da nova universidade, que Stanford começou a planejar durante sua campanha ao Senado, em 1885. Construída com um investimento inicial de 21 milhões de dólares, a universidade foi inaugurada em 1°. de outubro de 1891, com 559 alunos nas salas de aula, entre eles o futuro engenheiro de minas e 31°. presidente dos Estados Unidos, Herbert Hoover.Menos de dois anos mais tarde Leland Stanford faleceu. Logo em seguida, o governo federal entrou na Justiça para cobrar 15 milhões de dólares de empréstimos feitos para a construção da Central Pacific. A crise foi debelada pela viúva Jane Stanford, cuja determinação e espírito público já se haviam tornado patentes por sua participação no movimento pelos direitos civis das mulheres. Ela explicou como conseguiu cumprir a difícil decisão de manter a universidade aberta a despeito de tudo. "Eu podia ver cem anos à frente, quando os atuais processos estariam esquecidos e nada restasse a não ser a instituição."Agora que se esgotou o prazo, é fácil comprovar a realidade dessa visão. Não há dúvida de que Jane foi efetivamente capaz de realizar o sonho do marido, nos moldes inovadores imaginados por ele. No discurso inaugural de 1891, ele mesmo resumiu o ideal que norteou a universidade durante toda a sua existência. "Os jovens homens e mulheres que se graduarem em Palo Alto não serão apenas estudiosos, mas terão sólida idéia prática dos assuntos do dia-a-dia, uma auto-suficiência que os ajudará, em caso de emergência, a sobreviver, seja de maneira humilde ou gloriosa".

Entranhas do átomo

Um dos três laboratórios nacionais dos Estados Unidos, o SLAC nasceu como o maior acelerador de partículas subatômicas do mundo. Inaugurado em 1967, tinha a forma de um túnel com 4 metros de diâmetro e 3 quilômetros de comprimento, enterrado a 13 metros sob o solo. Como o túnel passa a meio quilômetro da falha geológica de Santo André, há no SLAC um comitê antiterremoto e até as máquinas de café são chumbadas à parede. Foi no Slac, em 1974, que a primeira partícula subatômica do tipo dos quarks foi identificada em laboratório pelo físico Burton Richter (o americano Sam Ting, em outro local, chegou ao quark ao mesmo tempo). Mais tarde, outro pesquisador de Stanford, Martin Pearl, identificou o tau, um parente mais pesado do elétron.


Velho guerreiro

Para a imensa maioria das pessoas, a debacle da União Soviética significa menor risco de guerra atômica e menos preocupação com a defesa militar. Para o físico Edward Teller, inventor da bomba de hidrogênio, em 1952, toda cautela é pouca. Aos 84 anos, ele mantém a postura belicista que adotou desde o final da II Guerra, como disse em novembro último ao jornal The Stanford Daily. Membro ativo da Instituição Hoover - que patrocina estudos sobre os países comunistas e tem  um dos maiores arquivos existentes sobre a União Soviética -, Teller publicou recentemente (1988) um livro em defesa de sua proposta de "guerra nas estrelas", que visa dotar os Estados Unidos de um escudo orbital de mísseis atômicos. Mas diz que, antes de mais nada, seu plano para o futuro é ficar velho".


Vida aos pedaços

No início dos anos 70, três cientistas abriram as portas de um novo mundo: o da transformação dos seres vivos por meio de transplantes de genes. Paul Berg, um desses cientistas, atualmente diretor do centro de medicina molecular e genética, em Stanford, descobriu como remover dois pedaços de genes tirados de células diferentes, e fazê-los "colar" um ao outro. Em seguida, Stanley Cohen, também de Stanford, e Herbert Boyer, da Universidade da Califórnia, Berkeley, provaram que dois segmentos de genes, depois de colados em um tubo de ensaio, podiam ser reintroduzidos em uma célula viva. Assim nasceu a Engenharia Genética em 1973.


Frutos industriais

Desde que se tornou sede de Stanford, a cidade de Palo Alto, a menos de 50 quilômetros de São Francisco, foi apelidada "vila dos professores", onde até poucos anos era proibido vender bebida alcoólica. Era para não perturbar o clima acadêmico, sob cuja influência a comunidade cresceu. A partir daí, se formaria o Vale do Sílicio, pujante núcleo de empresas, muitas de pequeno porte, fundadas por ex-alunos e cientistas. Exemplo marcante é a HP, pioneira da indústria de computadores e máquinas de calcular, criada por David Packard e William Hewlett, cujo império começou como uma fabriqueta montada numa garagem de Palo Alto.

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