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sexta-feira, 4 de abril de 2014

O ano novo da Onça - Zoologia

O ANO NOVO DA ONÇA - Zoologia


O maior predador das Américas terá um feliz 1995: as 5 000 onças brasileiras ainda não estão na lista de animais em extinção. E se depender do trabalho de biólogos e ecologistas - o maior já realizado no país -, o ano que vem será ainda melhor.


A onça é carnívora. Não é um bicho "bonitinho" como o panda, nem pacífico feito a baleia. Seus quase dois metros de comprimento e mais de 100 quilos de músculos, ossos, garras e presas são feitos para destruir. E é bom que seja assim. Os grandes predadores - raros por definição - representam um atestado de boa saúde para todo o restante da natureza. 
A onça é um símbolo do vigor do meio ambiente porque encabeça toda a cadeia alimentar. Sobrevive somente se houver abundância de alimentos, das menores plantas, aos maiores herbívoros. É certo que a população de onças no país (estimada em 5 000) é relativamente pequena, beira o limite do perigo para preservação da espécie. Mas elas estão longe da ameaça de extinção. Para que houvesse risco, a população teria de ser duas vezes menor. 
A situação não é ruim e vai melhorar. Nunca se fez tanto pelo grande carnívoro nacional - um trabalho que não se mede apenas em dinheiro. Mais importante é o empenho dos cientistas, que transformam pessoas comuns em agentes de defesa do bicho. 
Um exemplo: em julho deste ano, nasceu o Centro Nacional de Pesquisa para a Conservação de Predadores Naturais, o Cenap. Sediado no Parque Nacional do Iguaçu, Paraná (a sede definitiva ficará em Poconé, no Mato Grosso), o centro tem no comando oito cientistas bem treinados, capazes de mobilizar as comunidades a favor do felino. O método de envolver a população é eficiente. Foi testado com sucesso na proteção às tartarugas marinhas no Nordeste, com o projeto Tamar. Agora, chegou a vez do carnívoro.

Até uma ONG, ou Organização Não-Governamental, a onça está ganhando: a Sociedade Pró-Carnívoros. Ainda em processo de formação - por iniciativa do biólogo Peter Crawshaw, do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente), o maior especialista brasileiro em onças - a ONG vai ser importante para o trabalho do Cenap. Ela vai ajudar a levantar verbas internacionais para os trabalhos do centro. Crawshaw espera contar com a assessoria de grandes nomes da ciência mundial. Dois prováveis consultores são o americano Mel Sunquift, zoólogo da Universidade da Flórida, e Peter Jackson, também zoólogo, membro da IUCN (União Internacional para a Proteção da Natureza). Quando estiver funcionando, a partir de 1995, a sociedade vai trabalhar em estreita colaboração com o Cenap.
Outra novidade são as tentativas de saber mais sobre o comportamento e a situação das onças brasileiras. Já existem projetos sendo tocados por pelo menos dez equipes científicas, do sul ao norte do país. Mas há um problema: A espécie vinha gradativamente perdendo território - literalmente, porque foi acuada pelo desmatamento. "Abaixo da Amazônia e do Pantanal, a situação é crítica", explica Crawshaw. É dele a estimativa de que a população de onças no Brasil oscila entre quatro mil e seis mil indivíduos. Na média, 5 000 animais. Existem campanhas para preservar matas fechadas, habitat da espécie. Mas esta ação, por si só, não é suficiente para salvar os felinos. A onça agradece o interesse. Elogiada na mitologia indígena e na literatura nacional , o fato é que se sabe pouco sobre ela. E é mais difícil ajudar um animal que se conhece mal.  

Para evitar que a população de onças diminua, é urgente dar-lhe mais espaço. Ela precisa ter onde caçar e proliferar. Mas há ainda outro problema: em pequenas áreas, as onças sofrem degradação genética, causada por cruzamentos repetidos entre parentes. 
A integridade genética geralmente pede populações de pelo menos 50 indivíduos. Para se ter uma idéia, o Parque Nacional do Iguaçu, o maior da região sudoeste, tem, no máximo, 35 onças. Júlio César Voltolini, do Instituto de Biologia da Universidade de São Paulo, diz que degradação significa filhotes defeituosos e menor resistência dos animais a doenças. 
Voltolini também chama a atenção para a classificação dos diversos gatos - os felinos, membros da família Felidae. É uma das famílias de mamíferos mais difíceis de se classificar. Ela agrupa 36 espécies, no mundo todo. No Brasil, contando somente os felinos selvagens, são oito espécies. Há discordância sobre esse número (alguns gatos pequenos, originais de outros países, podem àsvezes passear em terras nacionais). Além da Panthera onca, nome científico da onça pintada, existem no Brasil as espécies Felis concolor, popularmente conhecida como suçuarana; Felis pardalis, a jaguatirica; e Felis yagouaroundi, o jaguarundi. 
   A suçuarana habita todo o continente americano. Nos Estados Unidos, onde é bastante numerosa, recebe o nome de leão-da-montanha. Nos países de língua espanhola, a suçuarana é conhecida como puma. A jaguatirica, por sua vez, é encontrada  nas Américas do Sul, do Norte e Central.

A onça segue, em sua alimentação, o princípio adotado pela maioria dos grandes felinos. É um regime chamado pelos cientistas de "feast or famine", "banquete ou fome", em inglês. O animal fica até uma semana sem comer, mas pode devorar, em um dia, 20 quilos de carne. 
Apesar do apetite, não há justificativa para a matança indiscriminada movida por fazendeiros. A reação normal do animal diante do homem, garante o biólogo Peter Crawshaw,  é a fuga,  ao contrário do que acontece com o tigre e o leão. Segundo ele, há várias notificações de ataques a pessoas, mas poucas provas. Um dos poucos casos comprovados ocorreu no Pará, em 1992, quando uma onça-parda matou um menino de oito anos. 
Alguns acreditam mais na agressividade das onças. O indigenista Cláudio Villas-Boas, que passou 45 anos desbravando o Brasil Central, é um deles. "Há muitos casos de ataque, e os motivos são dois: ou porque ela está com fome ou porque está com cria". 
Villas-Boas diz ter conhecido pessoalmente cinco índios que posteriormente foram mortos por onças, e vários outros, mutilados  por ataques do animal. Isso não impede que os índios a enfrentem. A onça é até mesmo procurada por eles, pois tem papel importante em vários ritos de passagem - como o do jovem ao se tornar adulto. Muitas tribos preferem caçá-la à distância, com arcos tão fortes que as flechas atravessam o corpo do bicho. Mais impressionante é a coragem dos cayabis, que usam bordunas (porretes feitos de uma madeira pesada, o tucum) numa tremenda luta. Pode não ser um esporte muito saudável, mas é bem mais justo enfrentar a onça com uma clava do que usar serras elétricas e asfalto.           

Ficha técnica

Nome: Panthera onca
Família: Felidae
Tamanho: 1,85 metro 
Peso: 110 quilos (150 quilos, em cativeiro)
Longevidade: 20 anos 
Habitat: Da Patagônia ao sul do México  
Hábitos Sexuais: Animal  solitário, só procura a fêmea para procriar
Alimentação: Pode passar até uma semana em completo jejum e depois comer, em um único dia, 20 quilos de carne
Cardápio: Capivaras, veados e os porcos quixadás e caititus. Na falta, inclui tatus, cutias e pacas. 
Em cativeiro, é alimentada com coração, músculo ou fígado de boi (5 quilos por dia) 

Corredores de mata

Um dos projetos que podem ajudar os grandes felinos é o de abrir espaço para eles em meio à civilização. "É fácil de entender", diz o professor Júlio César Voltolini, do Departamento de Zoologia da USP. "Veja-se a Mata Atlântica da região costeira: apesar de ser um habitat da espécie, já não tem onças em situação estável."  Isso ocorre porque a área é composta de montanhas, com vegetação, mas os vales entre as montanhas estão ocupados pelo homem. A onça não consegue território de tamanho adequado para se estabelecer. A saída é construir corredores de mata nos vales. Assim, os animais podem passar de um lado para outro, sem temer as populações humanas próximas. Esse tipo de projeto já está sendo desenvolvido - longe da costa -  no Parque Nacional do Iguaçu, Paraná. Lá o objetivo é ligar o parque a  áreas da Argentina onde existem onças pintadas. 

Latifundiária do reino animal 

Uma onça sozinha ocupa uma área de 50 quilômetros quadrados
O tamanho do território
Um macho ocupa um território de 50 quilômetros quadrados, em média - como um círculo de 8 quilômetros de diâmetro. As cheias dos rios podem reduzir drasticamente essa área em determinadas épocas do ano. 
O território do macho invade, em parte, o de duas ou três fêmeas. É um "campo neutro", onde o casal passa de sete a dez dias junto, até que a fêmea seja fecundada.
Depois de fecundada, a fêmea se retira para seu próprio território (do mesmo tamanho da área do macho), onde os filhotes vão nascer. A gestação dura 110 dias e os filhotes, dois ou três, mamam até os seis meses. Ficam com a mãe até os 15 ou 18 meses. Só então, partem para demarcar seus próprios territórios. A maturidade sexual chega por volta dos três anos.

Dos mitos indígenas aos contos de Guimarães Rosa

A figura da onça aparece em toda a cultura nativa das Américas do Sul e Central. Ela é muito ligada às lendas que tratam da origem do mundo, ou cosmogonia. "A onça e o jaguar têm lugar central em todas as cosmogonias dos povos indígenas da América do Sul", diz a antropóloga Lux Vidal, do Departamento de Antropologia da USP. Mais tarde, a influência da onça chegou à arte desse século. Ela está presente nas obras literárias de Mário Palmério, Monteiro Lobato e Guimarães Rosa. Leia abaixo trechos desses autores.

Vila dos Confins, Mário Palmério
"E vi a onça. A onça, não: os olhos dela, apertando-se, dilatando-se, mexendo. E, antes que eu pudesse calcular a distância em que se encontravam e enxergar o resto do corpo da onça, aqueles dois olhos de fogo se ergueram a um tempo só, que nem dois vagalumes gigantes que levantassem vôo(...). Num átimo, calculei tudo: a onça-preta se erguera(...). Beleza de animal! Onça-preta, pintada de preto: depois de tirar o couro foi que vi, contra o sol, a beleza do malhado de manchas redondas!"

Caçadas de Pedrinho, Monteiro Lobato
"A menina arregalou os olhos.
- Está louco, Pedrinho? Não sabe que onça é um bicho feroz que come gente?
- Sei, sim, como também sei que gente mata onça.
- Isso é gente grande, bobo!
- Gente grande!... - repetiu o menino, com ar de pouco caso. - Vovó e tia Nastácia são gente grande e, no entanto, correm até de barata..."

Meu tio, o Iauaretê, Guimarães Rosa
"Nhem? Onça preta? Aqui tem muita pixuma, muita. Eu matava a mesma coisa. Hum, hum, onça preta cruza com onça pintada. Elas vinham nadando, uma por trás da outra, as cabeças de fora. Trepei num pau, na beirada do rio, matei a tiro (...). Onça nada? Eh, bicho nadador! Travessa rio grande numa direitura de rumo, sai adonde é que quer...Suçuarana nada também, mas essa gosta de atravesar rio não".  


Gatos de um lado ao outro do planeta

A família Felidae tem 36 espécies, dos raros margay e gato de Geoffroy aos conhecidos leão e leopardo 

Ocelote 
Nome que a jaguatirica recebe na América do Norte, onde é abundante no Texas, nos Estados Unidos.

Suçuarana
É um animal perigoso. Nos Estados Unidos, onde é protegido por lei, atingiu uma população de 12 mil indivíduos. Resultado:  as suçuaranas invadiram fazendas e uma mulher foi morta por uma delas, em abril passado

Gato doméstico
Existe em todo o mundo, menos na Antártida e na Groenlândia. 

Leão 
É encontrado na África inteira, abaixo do deserto do Saara, principalmente no Senegal, Serengeti, Namíbia e África do Sul. 

Tigre siberiano
Um dos animais mais bonitos do mundo, o tigre siberiano está quase extinto, infelizmente. Apenas 400 indivíduos sobrevivem no leste da antiga União Soviética.   

Serval  
De pequeno porte, pode ser visto em todo o continente africano. 

Pantera nebulosa 
Sua pelagem "esfumaçada" é rara na família. Ela é encontrada na Ásia, especialmente na região do Himalaia,  no sul da China, Tailândia, península da Malásia, e nas ilhas de Sumatra e Bornéo. 


Os felinos no mundo

Europa
Gato doméstico (Felis catus)
Gato selvagem (Felis silvestris)
Lince europeu ou Lince Vermelho (Lynx lynx)
Lince espanhol (Lynx Pardinus)

Ásia
Caracal (Caracal caracal ou Caracal lynx)
Cheetah (Acionyx jubatus)
Gato da areia (Felis margarita)
Gato de cabeça chata (Prionailurus planiceps)
Gato chinês das Montanhas (Felis bieti)
Gato doméstico (Felis catus)
Gato dourado de Temminck (Gatopuma tem  
   minckii)
Gato da floresta (Felis chaus)
Gato leopardo (Prionailurus bengalensis)
Gato marmoreado (Pardofelis marmorata)
Gato de pallas (Otocolobus manul)
Gato pescador (Prionailurus viverrinus)
Gato selvagem (Felis silvestris)
Leopardo (Panthera pardus)
Leopardo das neves (Uncia uncia)
Lince europeu ou Lince Vermelho (Lynx lynx)
Pantera nebulosa (Neofelis nebulosa)
Rusty-spoted cat (Prionailurus rubiginosus)
Tigre (Panthera tigris)

América
Bobcat (Lynx rufus)
Gato dos aandes (Felis jacobita)
Gato doméstico (Felis catus)
Gato de Geoffroy (Oncifelis geoffroyi)
Gato dos pampas (Oncifelis colocolo)
Jaguarundi (Herpailurus yaguarondi)
Jaguatirica (Leopardus pardalis)
Kodkod (Felis guigna)
Lince canadense (Lynx canadensis)
Margay (Leopardus wiedii)
Ocelote (Felis pardalis albescens)
Onça pintada (Panthera onca)
Oncilla (Leopardus tigrinus)
Suçuarana (Puma concolor)

África
Caracal (Caracal caracal ou caracal lynx)
Cheetah (Acionyx jubatus)
Gato da areia (Felis Margarita)
Gato doméstico (Felis catus)
Gato dourado Africano (Profelis aurata)
Gato de pés pretos (Felis nigripes)
Gato selvagem (Felis silvestris)
Leão (Panthera leo)
Leopardo (Panthera pardus)
Serval (Leptailurus serval) 


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