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sábado, 15 de abril de 2017

Casa de Pensão - Parte 5 de 5 - Aluísio Azevedo


Casa de Pensão - Parte 5 de 5 - Aluísio Azevedo



aliás como sempre, onde estivera e, quando o rapaz dizia secamente "Com o Campos", ela fazia:
      - Ah!...
      E não tocava mais em semelhante coisa.

(SEGUE ABAIXO A PARTE 5 DE 5 FINALIZANDO ESTA OBRA)


      Uma noite ele entrou ainda pior que das outras. Não quis ir à varanda, meteu-se no 
quarto, abriu um livro e aí ficou, junto à secretária, com a fisionomia fechada sobre a página.
      Todavia, seu pensamento trabalhava: "Era preciso acabar com aquilo, custasse o que 
custasse! Era preciso definir as posições! - Ou a mulher do Campos se explicava, ou ele não  
poria lá mais os pés!"
      E resolveu que o melhor seria escrever-lhe uma carta enérgica, decisiva, exigindo um 
"sim" ou um "não". Fosse a resposta qual fosse, contanto que viesse, contanto quer Hortênsia 
desembuchasse por uma vez!
      Mas não queria escrever enquanto Amélia não pegasse no sono. - Ele bem sabia o quanto 
era a rapariga desconfiada e fina. Só quando a pilhou quieta e presumiu que já estivesse 
dormindo, foi que se animou a minutar a carta.
      Frases e frases desesperadas e cheias de fogo acavalavam-se umas pelas outras, falando 
em martírios infernais, em suplícios dantescos e terríveis aniquilamentos. E Amâncio, no seu 
epicurismo estrepitoso e brutal, declarava que "já não podia suportar as meias promessas, os 
dúbios sorrisos e as lentas torturas que ao sangue recalcado lhe impunham as atitudes perplexas 
de Hortênsia. Preferia a dor por inteiro, completa, de um só golpe. Ela que tomasse uma 
resolução, que despachasse! Se lhe não convinha o amor que ele propunha, declarasse-o com 
franqueza: -  ficaria o dito por não dito! E, assim, escusavam de prosseguir naquele 
encarniçamento desabrido, de cujo oscilante resultado as dúvidas e incertezas o acabrunhavam e 
consumiam, mais dolorosamente do que tudo que pudesse haver de terrível e cruel em uma 
solução desfavorável!"
      Quando deu por coreto e limado o que escrevera, tirou a limpo uma cópia, sobrescritou-a 
e, para que Amélia não descobrisse nada, escondeu todos os corpos de delito no fundo de uma 
das gavetas da secretária. Depois, como se tivesse alijado um novelo da garganta, respirou 
desafrontadamente, amorteceu o bico da gás e, abafando os passos e desfazendo-se em 
cautelas, foi meter-se nos lençóis, muito empenhado em não acordar a amante.
      Não levou dez minutos a cair no sono.
      Então, Amélia, ergueu-se, ainda com mais cuidado do que ele se recolhera, foi pé ante 
pé à secretária, tirou a carta e, depois de guardá-la em lugar seguro, tornou de novo à cama, e 
desta vez adormeceu deveras.
      
      * * *
      
      Leu-a precatadamente no banho, às oito horas da manhã, enquanto esperava que o 
tanque de mármore se enchesse.
      Amâncio ainda ficara no quarto.
      Ela, já despida, encostada ao rebordo da banheira, os ombros curvos, uma perna sobre a 
outra, a cabeça descaída molemente para os combros polposos do seio, tinha em uma das mãos a 
pequena folha de papel e, de tal modo a fitava, que parecia disposta a consumi-la com o brilho 
de seu olhos.
      Aquela carta a revoltava muito; não por ele, mas por si mesma; não pelo afeto que teria 
ao estudante, mas pelo ressentimento de seu amor-próprio ofendido. Não lhe podia sofrer a 
vaidade que um homem, a quem, por merecer, ele fizera tudo que estava em suas mãos; um 
homem por quem lançar em juízo jogo todos os recursos de sua feminilidade; um homem por 
quem barateara todo o valimento do seu corpo, tivesse ânimo de desprezá-la por outra mulher!
      E, com o olhar imóvel sobre a nudez oriental de seus membros, a boca entreaberta, o 
colo palpitante, Amélia se concentrava toda na idéia de uma vingança completa, tão completa, 
tão grande que lhe atulhasse o rombo cavado no seu orgulho e mulher traída.
      A água, que escorria da torneira com um trapejar monótono, punha no ambiente 
desagasalhado do banheiro uma impressão ainda mais fria de umidade e desconforto; e aquele 


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nu destacava-se ali como uma bela estátua desprezada.  Sua carne tersa e maciça contraía-se, 
empinando os lóbulos do peito e enrijando a vermicular protuberância dos quadris.
      Nisto, uma abelha voejou à roda da cabeça de Amélia, tentando pousar-lhe nos cabelos; 
ela agachou-se toda, fugindo logo num movimento medroso de caça que se assusta. Em 
seguida, puxou a toalha do cabide e pôs-se a dardejá-la contra o dourado importuno.
      Foi uma luta. O inseto fugia; ela trepava-se à borda do tanque, equilibrando-se, ora num 
pé , ora no outro, segurando-se à parede, vindo, recuando, a despedir para todos os lados golpes 
perdidos da toalha.
      Mas a abelha não se deixava prender. Ia e revinha no ar, zumbindo, a sacudir as sua 
trêmulas asas de escumilha; até que o sol, por uma frincha do telhado, veio buscá-la numa aresta 
de luz, ainda mais dourada do que ela.
      * * *
      
      Nessa ocasião, Amâncio, no quarto, perdia a cabeça, à procura da carta.
      - Pois se eu a guardei aqui, com estas minutas!...resmungava ele sozinho, depois de ter já 
desarrumado toda a gaveta.
      Imaginar que Amélia desse com ela, não ! não era possível! Não descobriria o lugar, 
onde Amâncio, tão previdentemente, sepultara a maldita carta; além disso, quando ele se meteu 
na cama, já a pequena dormia a bom dormir e, pela manhã bem a viu acordar e escafeder-se para 
banho...Que diabo teria então mexido ali?...As portas ficavam sempre fechadas por 
dentro!...Supor que tivesse guardado o demônio da carta em outra parte...mas como? Se a 
deixara justamente dentro das minutas, e as minutas lá estavam?...
      Mas Amélia vinha de entrar no quarto ao pé.
      - Ó Amelinha! Viste por acaso por  aí alguma carta?...perguntou o rapaz indo ao seu 
encontro.
      - Que carta? Fez ela com o ar mais calmo e mais natural deste mundo.
      - Uma carta que nem é minha!...Guardei-a naquela gaveta, -  desapareceu!...agora não 
sei que contas preste ao dono! É uma entalação! Uma verdadeira entalação! Queixava-se o 
rapaz convictamente.
      - Mas , onde a puseste?
      - Na gaveta da secretária; estou-te a dizer!
      - Então deve estar lá. Procura bem.
      - Já vi. Não está!
      - Pois aqui não entra mais ninguém...Eu cá por mim, não mexo nunca nos teus papéis, e 
ainda nem abri, uma vez sequer, qualquer dessas gavetas...Se puseste a carta aí, aí deve estar por 
força!
      - Qual está o quê! Já despejei a gaveta! Já remexi tudo.
      E a desordem em que se achava o quarto dizia isso mesmo.
      - Então não sei...concluiu Amélia, sacudindo os ombros. E continuou tranqüilamente a 
enxugar os cabelos, cujo serviço havia interrompido para atender às perguntas do amante.
      - Mas a carta também não podia voar! Declarou este em tom áspero.
      - Sei lá! Replicou a outra. - Comigo que não a tenho...isso afianço!
      Diabo! Praguejou Amâncio, sem se poder dominar. Pois, nem uma miserável carta posso 
ter nessa casa?! Arre! Que inferno!
      - Inferno são esses modos que tens ultimamente! De certo tempo para cá é esta boniteza 
! Parece que falas ao Sabino! Outra que sabe!...quem sabe se tenho aqui algum senhor?!...
      - Está bom! Basta!
      - Basta vá ele! Seu atrevido! Quero saber que culpa têm os mais com os sumiços que 
levam as cartas, para ouvir impropérios destra ordem!
      - Eu não me dirigi a ninguém! Sebo! Falo cá comigo! Creio que ao menos tenho o direito 


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de zangar-me quando entender!
      - Sim, mas é que os outros também não estão dispostos a aturar esses repelões a todo o 
instante!
      - Pois que não aturem!
      - Malcriado! Agora, por qualquer coisinha é isso que se vê!
      - Qualquer coisinha, não! berrou Amâncio. - É que ontem pus aqui uma carta (soltou um 
murro na secretária) 3 e a carta desapareceu! Irra!
      - Mas quem é que te podia vir aqui tirara a carta, criatura de Deus?! Perguntou Amélia 
mais branda, encaminhado-se para o amante, a modos de querer chamá-lo à razão.
      - Não sei! O fato é que a pus aqui, e ela cá não está!
      - Há de estar, homem! Não a encontras agora porque já não tens cabeça, mas, logo que te 
acalmes, hás de descobri-la...
      - Mas onde?! Já corri tudo!
      - Deixas estar; eu me encarrego de procurá-la assim que saíres.
      - Mas é quer eu precisava levá-la comigo! É negócio urgente!
      Amélia, como em resposta à última frase do rapaz, abaixou-se sobre os papéis espalhados 
no chão e começou a examiná-los, um por um.
      - Não está aí! Observou Amâncio zangado, a passear de um lado para outro. - Já revistei 
tudo isso mais de cem vezes! Furtaram a carta, não tem que ver!
      Amélia já não respondia e continuava, muito afoita, a esquadrinhar o que havia pelo 
quarto.
      - Se me lembro perfeitamente que a meti naquela gaveta, ao fundo, dentro destas 
minutas!...Acrescentou Amâncio, depois de um silêncio colérico.
      - Mas quando a trouxeste?...disse Amélia, sem tirara os olhos do que rebuscava.
      - Ontem à noite.
      - Mas eu não te vi com ela...
      - Já estavas dormindo, quando a pus na gaveta.
      - Quem sabe se ficou naquela algibeira?...
      E a manhosa, com um vislumbre, largou tudo de mão para correr a examinar a roupa do 
cabide.
      - Ó filha! Eu não estrava bêbado quando me recolhi! observou Amâncio.
      E saiu para se lavar, traçando furioso lençol em volta do corpo, num gesto 
melodramático.
      Quando tornou ao quarto, Amélia já havia arrumado as gavetas e dispunha sobre a cama 
a roupa que o rapaz devia vestir à volta do banho.
      - Então?...perguntou ele , ao entrar.
      - Nada! volveu elas, com admiração na voz.
      - Com efeito! Isto contado não se acredita!...Rosnou Amâncio, enfiando as meias.
      E gritou para fora:
      - Ó Sabino! Olha essas botas, moleque!
      Amélia, ao lado, metia-lhe os botões numa camisa engomada.
      E depois , a escovar-lhe o paletó no corpo, quando o estudante já estava pronto:
      - E a carta, de quem era?...
      - Do Campos, respondeu ele, sem hesitar.
      E saiu. Amélia acompanhou-o pelas costas com um riso de asco.
      
      * * *
      E logo que se viu só, tirou do seio o seu furto e releu-o mais uma vez.
      - Que devia fazer daquela carta?...como se devia servir daquela arma?...Denunciar o 
infame? - atirar-lhe à cara a prova de sua vilania e nunca mais o procurar para nada, ou devia 


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simplesmente fingir que não sabia de coisa alguma, e, em segredo, tomar a vingança que lhe 
parecesse melhor?
      Despedi-lo por uma vez - não convinha! Isso nem por sonhos! Ficar, porém, eternamente 
resignada e submissa, também seria asneira!
      Seu amor-próprio estava mordido e sangrava. O procedimento desleal de Amâncio 
assumia no tribunal egoístico de seu espírito ignorante e mal-educado as proporções jurídicas de 
um crime, de um monstruoso abuso de confiança, um estelionato. Não podia conformar com a 
idéia daquela tremenda injúria, lançada contra os seus direitos de mulher nova e bonita.
      - Canalha! Murmurava consigo, a esmoer o fato. - Bem me dizia o coração!...Agora, o 
que precisavas que te fizesse, sei eu! Ah! Mas descansa que hás de pagar com língua de palmo! 
Para não seres cão, meu safardana!
      Foi-se porém, todo o dia, sem que Amélia deliberasse o destino que deveria dar à carta. 
Só na manhã seguinte apareceu-lhe uma resolução. 
      Foi ter com o mano, chamou-o de parte e entregou-lha.
      - Vê isto, disse.
      Coqueiro abismou-se logo desde as primeiras palavras:  "Minha adorada e 
incompreensível Hortênsia".
      - Que vem a ser isto?...Perguntou ele intrigado.
      - Lê! Respondeu ela.
      E, enquanto o irmão devorava o que vinha escrito:
      - Vê tu só a hipocrisia daquele sonso!...
      - Ele já sabe que esta carta está em teu poder? Interrogou Coqueiro depois da leitura.
      - Qual! Nem pode descobrir!
      - Ainda não deu pela falta?
      - Já. Zangou-se um bocado, arrepelou-se, mas afinal creio que se convenceu de que a 
tinha perdido.
      - E agora o que tencionas fazer disto?
      - Não sei...Que achas tu?...
      - Acho que por ora não  convém fazer nada!
      - Calar-me?!
      - Por ora, decerto! Esta carta pode vir a servir-te de muito , mas é preciso que, em 
primeiro lugar, apareça a ocasião. Se quiseres, deixa-a comigo, que eu sei o destino que lhe devo 
dar.
      E guardou-a no bolso, depois de um gesto aprobativo da irmã:
      - Ele a teria escrito de novo e feito chegar às mãos de Hortênsia, sabes?...
      - Não sei, mas posso  ver.
      - Bem. Em todo o caso, não te dês por achada! Nem uma palavra a este respeito! 
Precisamos dar tempo ao tempo...podes, todavia, ficar desde já tranqüila, que o que tem de ser  
- traz força!  A justiça não se fez para os cães!...
      - É por isso mesmo que eu não confio muito na tal justiça! Observou a rapariga.
      
      
      XVIII
      
      
      Mas, no fundo, João Coqueiro principiava a "cismar com o negócio". Segundo os seus 
cálculos, a irmã, por aquela época, já deveria estar pejada: circunstância esta que daria 
oportunidade a um escândalo, de antemão, preparado, forçando Amâncio a "reparar sua falta".
      E, no entanto, Amelinha "nada de aviar"! O bom irmão sentia até como um peso na 
consciência por haver contribuído diretamente para aquela situação.


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      - Era sempre assim!...pensava ele enraivecido. - Se não precisássemos de um filho, é que 
os pestinhas haviam de aparecer aí de enfiada!
      E o receio amargo de ter sacrificado a menina, talvez sem os belos resultados que 
esperava para si e para ela, invadia-lhe o coração e punha-lhe momentos maus na vida.
      Mme. Brizard já não pensava do mesmo modo. Aquela existência pronta, inteiramente 
desocupada, lhe viera muito a propósito. "Ela, coitada de si! Bem precisava de um bocado de 
descanso!"
      As coisas, de fato, iam-lhe agora admiravelmente: Tinha a sua mesa boa e farta, um bom 
quarto de dormir, a mucama para lavar-lhe e engomar-lhe a roupa, um camarote no teatro de 
quando em quando, aos domingos um passeio à cidade, e lá uma vez por outra uma soirée em 
casa de alguma amiga. "Ah! Não se podia comparar a existência que levava agora com a peste 
de vida que curtira na Rua do Resende!"
      'E que então não havia a menor folga; não se podia arredar pé do serviço! E todo o dia 
reclamações! E todo o dia -  o banho morno de fulano! O chocolate de beltrano! Este queria ir 
sem pagar a conta ; o outro se entendia no direito de dizer desaforos porque pagava! Apre! 
Assim também não era viver! Seu corpo há muito tempo pedia aquele repouso! Se continuasse a 
labutar como dantes, - credo! - estourava por aí um dia, esfalfada!
      E, com medo de perder a "pepineira" cercava Amâncio de adulações. Tinha-o na conta 
de um patrão, de uma amo; com direito a todos os carinhos e desvelos. Assim, jamais o 
contrariava, nunca lhe opunha censuras. - Aquilo que o rapaz fizesse estava sempre muito bem 
feito!
      No seu entendimento mercantil de locandeira, Amâncio não aparecia 'como isto ou com 
aquilo" representava pura e simplesmente "um bom arranjo" . Ali não havia favores, havia 
negócio, ninguém ficava a dever obrigações. - Ele despendia tanto em dinheiro, mas recebia em 
carícias e bom trato um valor correspondente. - Estavam quites!
      Apenas, como o negócio era rendoso e agradava a boa mulher, esta fazia o que estava ao 
seu alcance por agüentá-lo o maior tempo possível, como de resto, qualquer um procederia com 
referência a um bom emprego. Quanto à posição de Amélia, Mme. Brizard a dava por natural e 
coerente. Não via na cunhada uma vítima ou coisa que o valha, mas tão-somente um membro 
solidário naquela empresa, enviando os esforços de sua competência para o comum interesse da 
associação.
      Isto, já de deixa ver, era o que pensava a francesa, mas não o que ela expunha; de sorte 
que o marido ficou muito espantado, quando, falando sobre a necessidade de tratar do 
casamento de Amélia com o hóspede, lhe ouviu dizer: 
      - Homem...para falar com franqueza...acho que o melhor é deixar seguir o barco como 
vai!...
      - Como vai!...
      E o Coqueiro engoliu a frase indignado:
      - Ora essa! Tu, com certeza, não estás falando sério!
      - às vezes, quem tudo quer, tudo perde!...sentenciou a mulher.
      - Mas que diabo quero eu?! Retrucou aquele. - Eu não quero senão o que é de justiça! 
Quero apenas que eles se casem!
      A outra, para quem o casamento de Amélia não trazia vantagens imediatas e podia, aliás, 
comprometer o estado feliz das coisas, saltou logo com uma bateria de opiniões contrárias:" 
Coqueiro faria muito mal em precipitar os acontecimentos! Naquela situação o mais razoável e  
o mais prudente era sem dúvida esperar! A natureza não dava saltos! As coisas haviam de 
atingir a um bom  resultado, sem ser preciso lançar mão de meios violentos!...
      - Mas é que ele nos pode escapar!...argumentou Coqueiro.
      - Não creias! Retorquiu a velha com um gesto arraigado na experiência.
      - Mas filha, vem cá! - Não vês como o Amâncio está ultimamente? Já não é o mesmo! 


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Amelinha já não  tem sobre ele domínio de espécie alguma! O maroto já não pensa nela, é todo 
da Hortênsia!
      - E que tem isso! O que tem que ele farisque a Hortênsia?! Está no seu direito! - é moço, 
tem dinheiro!
      - Ora essa!...exclamou de novo o Coqueiro, ainda mais indignado que da outra vez. - O 
que em isso?!...
      E cruzando os braços:
      - É muito boa!...
      Mas  tornou logo :
      - Tem, que ele deve uma reparação à minha irmã! Tem , que ele, apaixonado pela 
Hortênsia, pode virar as costas à pobre menina e abandoná-la no estado em que a pôs! - 
Desonrada, perdida! "Que tem isso?! "Ora faça-me o favor!
      - Tolo! Disse a francesa com um riso cheio de filosofia, cuja tranqüilidade contrastava 
com as irritações do marido. - Tolo! Bem se vê que não conheces os homens!...pois acreditas lá 
que o Amâncio despreze a rapariga por ter agora um capricho pela outra?...Não sabes que a 
únicas mulher capaz de prender o homem é aquela com quem ele convive dia e noite; aquela 
com quem ele se habituou; aquela que já lhe conhece as fraquezas, os ridículos, as pequeninas 
misérias da intimidade?! Abandoná-la!...Digo-te mais: - Hortênsia é até necessária! Deixa que 
ele a persiga, que ele a conquiste à força de mil sacrifícios e de mil sofrimentos; deixa que ele a 
possua, que a tenha inteira na mão! Deixa, porque ele há de voltar, e voltar farto!...Meu amigo, 
paixão é fogo de palha! - não dura! Nas ocasiões de fadiga e abatimento é com o amorzinho de 
casa que a gente se acha! E fica então sabendo que, para um homem amar deveras uma mulher, 
é preciso que ele se tenha já desiludido com muitas outras! Tristes de nós, se assim, não fosse! 
Há maridos que, ao voltar de suas correrias, apaixonam-se pelas mesmas esposas, a quem dantes 
só chegavam por obrigação!
      E a francesa velha, saboreando o silêncio que cava ra no adversário, concluiu depois de 
tomar fôlego:
      - O rapaz quer, por graça, dar cabeçadas?...pois deixe-as dar! Que ele, quando partir a 
cabeça, há de fazer justiça à tua irmã. Este fato da mulher do Campos, crê tu, foi uma 
providência, foi um atalho que se abriu nos teus planos! 
      
      * * *
      
      
      E o fato é que o Coqueiro acabou  por concordar com a mulher. "Amélia, desde que se 
convertesse numa necessidade para a vida de Amâncio, este, com certeza, seria o mais 
interessado em fazer dela sua esposa; por conseguinte, agora o que convinha era que  a rapariga  
também ajudasse de sua parte, empregando todo o jeito e boa vontade de que pudesse dispor; 
devia mostrar-se cordata, simples nos seus gostos, bem arranjadinha, amiga do asseio, honesta, 
digna, enfim, de um marido!"
      E dominado por esta idéia, aconselhou logo à irmã que se fizesse meiga com o "noivo", 
dócil, boa companheira e fiel principalmente, fiel quanto possível, que todo o futuro dela, bom 
ou mau, só disso dependia!
      Mas a rapariga, com um a  pontinha de desânimo, contrapunha-lhe o feio procedimento 
de Amâncio para com ela naqueles últimos tempos. Apontou as cenas de altercação que mais a 
humilharam; disse as frases grosseiras que ouvira do amante, as ameaças que recebera, as 
palavras que lhe escaparam, a ele, na febre das contendas; palavras, onde se enxergavam 
claramente o fastio e a má vontade!
      - Não faças caso! Discreteou o irmão. - Isto não vale nada!...Fecha por enquanto os 
olhos a todas essas coisas! Não convém o menor espalhafato antes que o tenhas seguro de pés e 


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mãos! Nada de espantar a caça!... Lembra-te, minha rica, de que, no estado em que te achas, só 
ele te poderá proporcionar uma posição legítima e definida !
      Depois desta conferência, o Coqueiro ficou mais tranqüilo. Agora, a sua maior 
preocupação era o sobrado da Rua do Resende . -  Já lá se iam meses, sem que  o conseguisse 
alugar; o diabo do prédio era grande demais para a família e, na disposição em que estavam os 
quartos, só mesmo podia servir para casa de pensão.
      Nesta conjuntura, resolveu alugá-lo a varias pessoas; mas, para isso, tinha de fazer obras 
e faltava-lhe um homem de confiança, que estivesse disposto a ir para lá e tomar conta de tudo. 
- Ah! Se não fora a família!...ninguém mais se encarregava disso senão o próprio Coqueiro! E 
fá-lo-ia até por gosto!
      Encontrou , porém, o seu homem num velho conhecido, empregado no correio e que, já 
em algum tempo, tomara a seu cargo, nas mesmas condições, a casa de um outro amigo. 
Chamava-se Damião - bom rapaz, ativo e zeloso. Estava talhado para a coisa.
      O Damião, mediante a faculdade de não pagar a parte que ocupasse na casa, 
comprometia-se a cobrar o aluguel dos outros inquilinos e entregá-lo pontualmente ao senhorio; 
ite, obrigava-se a fiscalizar a conservação do prédio a pregar escritos quando houvesse cômodos 
desabitados e administraria enfim o serviço da pessoa que se encarregasse de fazer a limpeza 
dos quartos, de varrer os corredores, encher os jarros e moringues, tomar conta da chavaria e ter 
olho sobre quem entrasse e que saísse.
      Para estes últimos cuidados arranjou-se um homenzinho meio corcunda, português, 
esperto e rafeiro como um rato um pouco falador, mas muito experimentado naqueles serviços. 
Coqueiro dar-lhe-ia alguma coisa por mês e um canto da casa para dormir. "Uma pechincha!"
      Fechado o negócio, tratou o proprietário  de dividir a  sala de visitas e a varanda do 
sobrado em pequenos repartimentos de tabique, forrados de papel nacional. É inútil dizer que 
neste ponto foi indispensável a intervenção pecuniária de Amâncio, que ficou por conseguinte 
com direito sobre uma parte dos rendimentos do prédio.
      E também não é menos inútil declarar que o provinciano, nem de longe, sentiu jamais o 
cheiro da tais rendimentos.
      
      * * *
      
      
      Mas o certo é que as obras se fizeram, e a célebre casa de pensão de Mme. Brizard, 
outrora tão animada e concorrida, transformou-se num desses melancólicos sobradões de alugar 
quartos, que se observam a cada canto do Rio de Janeiro e onde, promiscuamente, se aninha 
toda a sorte de indivíduos, mas de indivíduos que já foram alguma coisa ou de indivíduos que 
ainda não são nada.
      Aí, as mais belas e atrevidas ilusões vivem paredes-meias com o mais denso a absoluto 
ceticismo. Velhos boêmios, curtidos nos venenos e todos os vícios e no segredo de todas as 
misérias, encontram-se diariamente , ombro a ombro, com os visionários estudantes de 
preparatórios.
      É nessas praias desamparadas à ventania da sorte que a sociedade costuma arrevessar o 
destroço dos que naufragaram nas suas sua águas, mas é daí também que ela pesca às vezes 
novas pérolas para p o seu diadema. Há de tu - homens de todas as nacionalidades, sujeitos 
devida misteriosa,     solteirões libertinos e neutralizados pelo venéreo, artistas completamente 
desconhecidos que se imaginam vítimas do meio, e supostos talentos que vivem para amaldiçoar 
a fortuna dos que conseguiram v3encer na vida.
      Quase todos eles têm  na sua vida um fato, uma época, uma coisa extraordinária, para 
contar: um, apresenta a honra de lhe haver morrido nos braços tal homem célebre; outro, diz que 
foi amante da senhora condessa de tal; outro afiança e jura ser o verdadeiro , se bem que 


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obscuro, promotor e tal acontecimento histórico; outro, revela um romance de amor que lhe  
cortou a carreira, mas que o imortalizará em vendo a luz da publicidade; outro, confia numa 
invenção, "é o seu segredo", um projeto mecânico, ou industrial ou econômico -político ; outro, 
não aceita emprego nenhum do atual governo, e espera a ocasião de "pegar numa espingarda e 
fuzilar as velhas instituições de seu miserando país"; outro, enfim, ( e são os menos raros) têm 
apenas para exibir em honra própria a circunstância de algum parentesco ilustre.
      Ah! Não se encontram aí notabilidades de nenhuma espécie, mas sim parentes. Este , é 
sobrinho de tal poeta ilustre; aquele ,é irmão do ministro tal, que deu o nome a tal rua; estoutro, 
cunhado ou primo em terneiro grau do glorioso artista Fulano dos anzóis.
      E os tipos, quando lhe tocam nisso, enchem-se de orgulho, como se participassem das 
glórias do festejado parente; pelo menos, ninguém os apresenta a qualquer pessoa, sem 
acrescentar logo, com assombro: "Ó senhor! Por quem é...não me confunda!..."
      É também desses viveiros sombrios e malcheirosos que surgem certas figuras que, às 
vezes, nos espantam na rua, -  tossicar dentro de um sobretudo enorme, um xale - _manta em 
volta do pescoço, um bengalão entre os dedos e na fisionomia um ar melancólico e ao mesmo 
tempo irritado.
      É daí, desses quartos silenciosos, úmidos e tristonhos, como sepulturas vazias, que 
surgem com o seu passo inalterável e pousado os sinistros aranhões, que vemos passear 
estranhamente pelos jardinas públicos, ao sol das boas manhãs de inverno.
      Coitados! São em geral homens sem meios de vida, protegidos por algum figurão 
qualquer, de quem, ou foram colegas na academia, ou ainda continuam a ser parentes com a 
mais cruel pertinácia. Quando falam desse protetor feliz e rico não se animam a dizer mal, mas à 
sua fisionomia acode invencível sorriso cheio de velha bílis acumulada e sôfrega por 
transbordar. Uns vão regularmente comer a certas casas comerciais, outros se arranjam pelas 
impossíveis casas de pasto da Cidade - Nova, os "freges", onde as refeições não passam de 
duzentos réis. Alguns têm o almoço seguro à mesa de um velho amigo de melhores tempos, o 
jantar em casa doutro;às sextas - feiras são infalíveis nas comezainas gratuitas dos frades de 
São Bento. Uns, passam a noite na jogatina, percorrendo espeluncas, tomando café nos 
quiosques às quatro e meia da manhã e então, durante o dia seguinte, dormem a fartar; outros, 
recebem donativos de alguma irmandade religiosa, à  qual se filiaram em épocas de 
prosperidade.
      São sempre vistos, em horas determinadas, no jardim do Rocio, n Passeio Público, 
assentados nos bancos de pedra, lendo jornais à sombra das amendoeiras, às vezes têm ao lado a 
botina que descalçaram por amor dos calos; são vistos igualmente nos edifícios públicos em 
construção, acompanhando as obras com interesse, como se estivessem encarregados disso, 
fazendo perguntas, ralhando com os operários, numa necessidade irresistível de aplicar, seja 
como for, a sua atividade desocupada e vadia. Não há motim, não há incinere de rua, por mais 
ligeiro, em que eles não intervenham, tomando logo a parte principal na coisa, repreendendo o 
agressor, conciliando o agredido, fazendo enfim acreditar que ali está uma autoridade civil em 
pleno exercício de suas funções.
      São violentos quando lhes falam de política e só se referem aos homens do poder com 
palavrões brutais e desabridos; a alguns nomeiam sempre com alcunhas determinadas e todos os 
outros, que ainda não recegbveram o batismo de sua cólera invejosa, são indistintamente "os 
ladrões, os patoteiros, os vis, os traidores, os capachos do rei"! Através dos cerrados negrumes 
daquela miséria e daquele ressentimento, nada enxergam de bom e de legítimo
      O Coqueiro, não obstante, se mostrava satisfeito com os seus inquilinos e dizia ter 
encontrado no Damião  o "homem que lhe convinha".
      Aparecia por lá constantemente; gostava de ver como ia o prédio, gostava de dar uma 
vista de olhos pelos cantos da casa, em silêncio, de mãos no bolso, e sentia um verdadeiro 
prazer sempre que encontrava alguma coisinha par consertar , - algum pedaço de papel solto da 


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parede, alguma régua despregada, alguma tábua fora do lugar.
      A existência nunca lhe parecera tão corredia e tão fácil; só faltava, para complemento 
das ventura, que o maçante do colega desembuchasse por uma vez com aquele maldito 
casamento.
      - Ah! então é que seriam elas!...
      
      
      * * *    
      
      Mas o "maçante do colega" estava bem longe de pensar em  casamento; todo ele era 
pouco para sofrer a cáustica impassibilidade de Hortênsia.
      A caprichosa continuava no seu terrível sistema de não aviar nem desaviar. Amâncio 
fizera-lhe ir ter às mãos uma segunda cópia da carta subtraída, e ela em resposta aconselhou-o a 
que não escrevesse outra, sob pena de entregá-la ao marido.
      - Pois que vá para o diabo que  a carregue! Pensou o estudante, furioso, e resolveu dar o 
negócio por acabado.
      Com efeito, durante um mês  inteiro, nas poucas vezes em que teve de falar ao Campos 
sobre questões  de interesses materiais, não passou do escritório.
      -  Homem! dizia-lhe o negociante. -  Você só aparece aqui por fruta, e faz visitinhas de 
médico! Não há meios de apanhá-lo lá em cima! Neném até já se queixou!
      Amâncio defendia-se com os seus estudos e com os sobressaltos em que andava depois 
das últimas cartas do Norte.
      -  Por quê? Há alguma novidade?!... perguntou o amigo cheio de solicitude.
      -  A velha não está boa!... explicou o rapaz. -  Desde que morreu meu pai, a pobre de 
Cristo ainda não levantou a cabeça! Confesso-lhe que tenho meus receios, tenho!...
      E quedava-se abstrato, a fitar o chão, com a fisionomia paralisada  por uma tristeza 
vidente e ao mesmo tempo irresoluta.
      O outro não sem animava a interromper aquele silêncio doloroso e respeitável, mas, por 
fim,  lembrou discretamente, com delicadeza, que não seria má  uma viagem à província; talvez 
com isso se evitasse um desgosto maior... Amâncio era a menina dos olhos de D. Ângela...bem 
podia ser que, só com a presença dele, a pobre senhora melhorasse!...
      O estudante mostrou-lhe a última carta da mãe;  e os dois, tendo ainda conversado com 
o mesmo recolhimento, vieram a concordar em que era indispensável um passeio ao Maranhão; 
Amâncio retirou-se, fazendo já os planos da viagem.
      -  Oh! exclamava ele por dentro. -  Vou! Não tem que ver! Vou definitivamente! E 
provo àquela mulher que não ligo a menor importância ao que ela me fez! Hei de provar-lhe  
que o seu procedimento em nada me alterou. Que  até sigo muito satisfeito e muito satisfeito e 
muito senhor de mim.
      E via-se já na ocasião da despedidas -  frio, indiferente,  sorrindo às lágrimas de 
Hortênsia . e sua fantasia, gozando do efeito desses devaneios, armava-lhe, ao sabor da 
vaidade, cenas muito espetaculosas, nas quais representava ele sempre o papel mais brilhante e 
mais elevado.
      Via Hortênsia a seus pés, lacrimosa e mísera, suplicando-lhe por piedade que não se 
fosse, que a perdoasse, que se compadecesse de tamanho desespero. "Ela ali estava submissa e 
arrependida, pronta a cumpri de olhos fechados as ordens de seu querido Amâncio, do seu 
senhor, do seu Deus, do seu tudo!"
      Ele, então, com um riso cruel, voltando-lhe o rosto e acendendo um charuto: "Não , 
filha, tem paciência! E se insistes, vai tudo às mãos do Campos!..."
      Hortênsia, ao ouvir estas palavras, estorcia-se numa aflição teatral, e logo que Amâncio 
se dispunha a partir, desabava de costa, quase morta, justamente como as heroínas dos romances 


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que ele devorara aos quinze  anos. 
      Mas a terrível  concupiscência do nortista, sobrepujando logo a fantasia do vaidoso, não 
resistia à tentação de possuir, ao menos em sonho, aquele belo corpo desfalecido e, como 
dantes, começava mentalmente a despi-lo, peça por peça, até deixá-lo em pleno escândalo da 
carne.
      
      * * *
      
      Entrou   em casa resolvido a levantar o vôo, custasse o que custasse.
      -  Sim, era preciso ir! Por Hortênsia, por sua mãe, por  Amélia, por mera distração, por 
tudo! Precisava afastar-se daquele inferno, onde duas mulheres, como duas sombras, o 
torturavam; uma fugindo e a outra o perseguindo. Desde que recebeu a tremenda resposta de 
Hortênsia, sentia-se muito nervoso e irascível; Amélia suportava-o, sabe Deus como, fazendo 
milagres de paciência para não se afastar dos conselhos que lhe dera o irmão. Quase que já se 
não podiam sofrer um ao outro. Além disso, as cartas de Ângela repetiam-se agora 
desesperadamente. "Estaria a pobre mãe com efeito em risco de vida?..."pensava Amâncio. 
"Dependeria dele o salvá-la? ... E os seus interesses que havia tanto tempo o reclamavam?... E 
as saudades da pátria?  E os prazeres que encontraria à volta do primeiro ano acadêmico?"
      Os prazeres, sim, que Amâncio, pelo derradeiro paquete, recebera em uma das principais 
folhas diárias de sua província a seguinte notícia:
         "MARANHENSE DISTINTO.  Acaba de fazer brilhantemente o primeiro ano de seu curso na 
Escola de Medicina na Corte o nosso talentoso comprovinciano Amâncio da Silva Bastos e 
Vasconcelos, filho de há pouco falecido e sempre chorado Comendador Manoel Pedro de 
Vasconcelos, um dos mais estimados negociantes que foi desta praça, enquanto não podemos 
pessoalmente abraçar  o digno jovem e esperançoso discípulo de Hipócrates, apressamo-nos a 
enviar-lhe  daqui os nossos sinceros parabéns, futurando em S. S.a mais  uma  glória legítima 
para a nossa Atenas, já tão rica, aliás, em talentos privilegiados!"
      Ninguém poderá imaginar o efeito que  produziram tais palavras no espírito presunçoso 
de Amâncio. era a primeira  vez que ele via o seu nome em letra redonda, seguido de alguns 
adjetivos laudatórios. 
      Por detrás daquela notícia pressentia o rapaz um paraíso de novas considerações que o 
esperava na província; antevia o sorriso das damas, a reverência dos pais de família e a inveja 
dos ex-colegas do Liceu.
      -  Não! não podia deixar de ir. O Maranhão, naquele momento, e por todos os motivos, 
representava para ele uma necessidade urgente. -  Havia  de meter a cabeça e varar por quantos 
obstáculos se lhe antepusessem.
      
      * * *
      
      Amélia ficou estonteada quando o amante lhe deu parte dos seus projetos de viagem, 
tão calmo e resoluto foi o tom em que o fez; mas, voltando do primeiro choque, rompeu num 
grande pranto e atirou-se de bruços na cama, soluçando muito aflita. "Que era uma desgraçada! 
Que Amâncio a queria abandonar, depois de a ter desonrado e perdido!"
      -  Eu volto, filha! Disse ele, procurando fazer-se meigo. -  Vou tratar de meus 
interesses, ver minha mãe, e volto para o teu lado! Não tenhas receio de que te engane! Eu ainda 
se quisesse, não podia ficar por lá, já não digo por ti, mas, que diabo! Pelos meus estudos. Pois 
acreditas que eu cairia na asneira de abandoná-los, agora que estou tão bem encaminhado?...
      - Não sei! Respondeu a rapariga, erguendo-se rapidamente, com as feições sumidas na 
vermelhidão do choro. -  Você, é impossível que não tenha no Maranhão alguém à sua espera!... 
E essa com certeza não há de ser pobre como eu, não terá a boa-fé  que eu tive!...com essa você 


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não porá dúvidas  nenhuma para casar!...
      E voltaram-lhe os soluços, como um temporal que recresce.
      -  Estás a dizer tolices, filha! Dou-te a minha palavra  de honra em como nunca me 
esquecerei de ti! Que mais queres?!
      -  Pois então casemo-nos  e partirás depois!...
      -  Isso é impossível! Já te disse um milhão de vezes! Oh! - Minha mãe espera-me há 
quatro vapores seguidos! Imagina tu como não estará ela, coitada, com a morte do velho! não 
hei de agora, em vez de minha pessoa, lhe apresentar uma carta pedindo licença para casar!... 
Que espécie de filho seria eu nesse caso?! Enquanto a pobre viúva se desfaz em lágrimas; 
enquanto na família tudo é luto e desgosto, o bom do filho pensa em casamento e, sem dúvida, 
prepara as festas do noivado!" Não! gritou ele energicamente. -  Isso não faria eu, nem  se me 
cosessem a facadas! Pelo menos, enquanto estiver com esta roupa sobre o corpo...
      E sacudiu com força a aba de seu fraque de lustrina.
      -  Enquanto estiver com esta roupa, não penso em mulher! nada! antes de tudo, sou 
filho!  Percebes?! Antes de tudo, tenho de olhar por minha pobre mãe, que é muito capaz de 
morrer  se não me ver ao seu lado!
      E foi, cheio de  excitação, debruçar-se no peitoril da janela, fitando as plantas do 
jardim, a roer as unhas.
      Houve um silêncio. Amélia já não chorava; imóvel, apoiando-se ao espaldar da cama, 
entontecia a vista contra as ramagens cruas do tapete.
      -  Nesse caso, ele que venha ter contigo... disse, afinal, sem erguer os olhos.
      -  Ora! Resmungou Amâncio, voltando-se vivamente na janela.
      -  Ou então iremos nós... acrescentou a rapariga, fazendo um biquinho de enfado. E 
depois, com pieguice: -  Tenho muito medo das maranhenses!...
      O estudante não respondeu, foi ter com ela, tomou-lhe meigamente a cabeça entre as 
mãos.
      -  Esta cabecinha!... - disse -  esta cabecinha não sei quando terá juízo!...
      E, passando a falar em tom sério, protestou que era até injustiça supô-lo capaz de 
cometer uma perfídia daquela ordem! Amélia já devia estar perfeitamente convencida de que 
ele a amava deveras; de que ele não seria tão mau que a abandonasse, depois de receber tantos 
carinhos. Ela que não estivesse a descobrir perigos, onde nem sombras disso havia!... A tal 
viagem ao Norte, no fim de contas, era uma  questão  de dois ou três meses, e ele deixaria uma 
mesada regular e escreveria por todos os vapores!...
      -  Não acreditas ainda que te estou falando com sinceridade?... concluiu, a beijá-la nos 
olhos. -  Que precisão tinha eu de te enganar?...
      -  Sim, creio, creio que por ora assim seja, não há dúvida! Mas também estou persuadida 
de que, logo que passes a barra, tudo muda de figura!... Nos primeiros dias ainda te lembrarás 
da infeliz que aqui deixaste, mas depois... com a presença de outras, com os novos passatempos 
que te esperam... até hás de perguntar aos teus botões "como foi que em algum dia chegaste a 
pensar a sério neste casamento?..."
      -  Bem se vê que não me conheces!... retorquiu o rapaz.
      -  Não! não! não irás! Sustentou Amélia. -  Adoro-te, és meu, não te quero perder! Ora 
essa!
      - Mas, filha, observou Amâncio impacientando-se, - lembra-te de que é mais decente 
fazermos a coisa por bons modos... afinal, tu não me podes constranger a ficar, e, eu, em vez de 
ir, deixando um compromisso  de cavalheiro, sou capaz  de ir, sem deixar coisa alguma! Ora aí 
tens!
      -  Hein?! Bradou ela, transformando-se a contragosto. -  Cai nessa! Experimenta  só, 
para veres o gosto que lhe achas!
      Amâncio respondeu com um gesto desabrido, enterrou o chapéu na cabeça, e saiu à toa, 


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sem destino, com uma fúria surda a espezinhar-lhe o coração.
      
      * * *
      Mas, ao voltar, encontrou Amélia no mesmo estado. E a questão reapareceu à noite, 
reapareceu na manhã seguinte, e todos os dias, tomando um caráter de rezinga permanente.
      Amâncio perdeu de todo a paciência.
      -  Era demais! Sebo! Ele, no fim de contas, não tinha obrigação nenhuma de aturar 
semelhante  gaita nos ouvidos!  Que mastigação! Arre! Amélia que fosse atenazar o pai! 
      Ela respondeu possessa, deixando escapar palavrões, "Supunha ter encontrado um 
homem, mas encontrara um quidam, um canalha, um desfrutador!"
      -  Desfrutadores são vocês todos!  Percebes tu?! Berrou ele, colérico. -  Desfrutadores 
-  é teu irmão, -  é tua madrasta e és tu!  Que só faltam me arrancar a pele! Súcia de filantes!
      E lembrou o que até aí gastara com eles, o que lhes dera, o que comprara e o que lhe 
desaparecia dos algibeiras.
      -  Não me estás de graça, não! exclamou, saindo afinal do quarto como da outra vez.
      Desta, porém, quando voltou à casa, vinha com o ar mais despreocupado que se pode 
desejar. E, logo que Amélia lhe falou na questão da viagem, ele respondeu tranqüilamente que  
já não havia nada a esse respeito. "Resolvera ficar."
      A rapariga compreendeu o disfarce e, no dia seguinte, tratou de prevenir o irmão de que 
abrisse  os olhos, se não queria ver o Sr. Amâncio escapar-lhe  por entre os dedos.
      João Coqueiro ficou de orelha em pé.
      
      XIX
      A pequena tinha toda a razão; Amâncio, se parecia resolvido a desistir da viagem, era 
porque nessa mesma tarde encontrara o Paiva e, na sua necessidade de expansão, levou-o para o 
fundo de um café e abriu-se com ele. Contou-lhe as dificuldades que o afligiam, e pediu-lhe 
conselhos. 
      - Não há que saber!...disse o consultado. - Não há que saber!...Aí só vejo dois partidos a 
tomar: - Ser tolo -  ou -  não ser tolo!
      E, como o outro fizesse um trejeito de má compreensão:
      - Tolo, se ficares e - não tolo - se te puseres ao fresco!
      - Mas, Paiva, você então que devo ir?...perguntou Amâncio, hesitando , a morder as 
unhas.
      - Homem! volveu aquele, - se precisas ir ao Norte, prepara-te caladinho e vai! Que 
necessidade tens tu de que a gente do Coqueiro saiba disso?...Deves-lhe satisfação de teus 
atos?...Se não deves, é aprontar as malas e...por aqui é o caminho! Olha! Deixa-lhe uma carta, 
muito delicada, já se vê, muito cheia de promessas.  "Que voltas, que hás de fazer, que hás de 
acontecer!" E, no entanto, vai-te raspando...Porque estas coisas, filho, assim é que se decidem. 
E, quanto aos arranjos da viagem...cá estou eu para te ajudar!...
      Calaram-se por alguns instantes. Paiva Rocha pediu um novo cherry - cobler e 
prosseguiu enquanto o amigo, muito pensativo, fitava o mármore da mesa:
      - Agora, se estás tão embeiçado pela sujeita, que não tenhas ânimo de a deixar, isso é 
outra coisa!...Neste caso, o melhor é escrever à velha, dizendo-lhe que venha, arranjar um novo 
advogado de confiança que se encarregue de teus negócios no Maranhão, -  e faze a vontade à 
pequena -  casa-te!
      Amâncio torceu o nariz com enfado: - 
      - Qual!
      - Então, filho, que esperas?...É perder o amor aos objetos que lá tens, e fazer o que já te 
disse!
      - Mas o Coqueiro não poderá toma r alguma vingança?...


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      - Não sejas parvo! Resmungou o outro, bebendo de um trago o que ainda tinha no copo; 
e ergueu-se disposto a sair. - Amanhã, às mesmas horas, cá estou! Traze o cobre e deixa o resto 
por minha conta!
      Separaram-se concordes de que no dia seguinte ficariam depositados na república do 
Paiva os apetrechos da fuga.
      Em casa do Coqueiro. Todos, à semelhança de Amelinha, nem de leve mostravam 
suspeitar de coisa alguma; pareciam até mais tranqüilos e satisfeitos. Nem um gesto de 
ressentimento, nem uma palavra indiscreta que os denunciasse. Tudo era paz e 
bem-aventurança.
      Reapareceram as primitivas noites de amor, como boa estação que volta carregada de 
flores. Os dois amantes nunca se possuíram tão satisfeitos um do outro e nunca se patentearam 
tão convictos da mesma felicidade. No empenho comum de se enganarem, cada qual redobrava 
de carinhos e meiguices; enquanto por dentro os corações lhes bocejavam, aborrecidos e 
fatigados.
      O dia da viagem chegou sem novidade alguma. Amâncio levantou-se como das outras 
vezes, apenas um pouco mais cedo. Olhou por um momento Amélia que ainda dormia, toda 
sumida nos lençóis, vestiu-se cautelosamente para não a acordar; depois foi `varanda, bebeu 
café e saiu em ar de passeio.
      No Largo do Machado tomou um carro e bateu para a república do Paiva.
      Não encontrou o colega, havia já saído. - Devia estar à sua espera com a bagagem, no 
cais  Pharoux.
      Amâncio mandou tocar o carro para lá. E, à proporção que se aproximava do mar, 
crescia-lhe por dentro um vago sobressalto de impaciência e de medo  
      - Anda! Gritou ao cocheiro, espiando repetidas vezes pela portinhola e apalpando de 
instante a instante o bilhete da passagem que tinha no bolso.
      Estava comovido, principiava a sentir pena de deixar a Corte; apareciam-lhe saudades 
das boas noites com Amélia, das patuscadas com os amigos. E um mundo de recordações 
formava-se e transformava-se atrás dele, fugindo, desaparecendo como sombras que se esbatem.
      Para disfarçar a impressão desagradável de tais mágoas, procurava embriagar-se com a 
idéia das aventuras que o esperavam na província, grupando na fantasia tudo aquilo que o 
pudesse  interessar de qualquer modo; e compunha, e construía, inventava episódios, cenas, 
dramas inteiros, nos quais lhe cabia sempre a principal figura. E, depois de bem mergulhado nos 
seus devaneios, depois de bem envolvido na alacridade de seus sonhos de glória, o Maranhão 
aparecia-lhe risonho e brilhante como a última expressão do que há de melhor sobre a terra
      Mas, na ocasião em que se apeava, um tipo mal - encarado, olhando por cima dos 
óculos, a barba grisalha, um tom geral de porcaria no seu velho fato de pano preto, nas sua botas 
alcacanhadas, no seu chapéu de pêlo cheio de manchas amarelas, aproximou-se dele e, com voz 
enxuta e morfanha, intimou-o "a comparecer imediatamente em presença do delegado de 
semana na secretaria de polícia". Era um oficial de justiça.
      - Mas que desejam de mim?...perguntou o estudante, empalidecendo e procurando o 
Paiva com os olhos.
      - Eu não tenho nada com a polícia!
      E recuou dois passos.
      - O senhor está intimado! Repetiu secamente o outro, e, em voz baixa, disse a dois 
sujeitos que se haviam adiantado: - Cerca! Cerca o homem!
      Então aqueles avançaram logo, jogando o corpo num pé só, o chapéu para trás, um 
grosso porrete na mão.
      - Comigo é onze! Exclamou um deles, muito canalha, a cuspilhar para os lados. 
      - Mas por que me prendem?!...perguntou o estudante, sentindo-se tolhido.
      - São coisas!... responderam-lhe, fazendo-o entrar no carro.


[Linha 7250 de 8244 - Parte 5 de 5]


      Amâncio ainda procurou descobrir o Paiva ; depois, azoinado pela gentalha que se reunia 
em torno dele, saltou para a almofada, perseguido sempre pelos três sujeitos.
      O oficial segredou alguma coisa ao cocheiro, e o carro deu volta e rodou em sentido 
contrário aso cais.
      Amâncio cobriu o rosto com o lenço e principiou a soluçar.
      
      * * *
      
      Coqueiro, desde a prevenção que lhe fez a irmã, não se descuidou mais um instante de 
vigiar a sua presa: segui-lhe os passos, farejando, até o momento em que Amâncio tomou o 
bilhete de passagem para o Norte.
      Então, correu  para à casa do Dr. Teles de Moura.
      O Teles era um advogado velho, muito respeitado no foro; não pelo caráter, que o não 
mostrava nunca, nem pela sua ciência, que a não tinha; nem tampouco pelos seus cabelos 
brancos, que a estes nem ele próprio respeitava, invertendo-lhes a cor; mas sim pela sua 
proverbial sagacidade, pelas suas manhas de chicanista, pela sua terrível figura de raposa velha, 
pelos sues olhinhos  irrequietos e matreiros, pelo seu nariz à bico de pássaro e pela sua boca sem 
lábios, donde a palavra saía seca e penetrante como uma bala.
      O passado do Teles era toda uma legenda de vitórias  judiciais; atribuíam-lhe anedotas 
mais antigas de que ele; muito processo se anulou naquelas unhas aduncas e tamanduá; muito 
criminoso escapou às penas da lei por entre as malhas das sua astúcia; muito inocente foi parar à 
cadeia ensarilhado nas pontas de seus sofismas.
      Para ele não havia causas más; em suas mãos qualquer processo se enformava ao 
capricho dos dedos como uma bola de miolo de pão. 
      E o irmão de Amélia sabia de tudo isso perfeitamente quando lhe foi bater à porta. 
      Seriam então nove horas da manhã, a raposas almoçava.
      Coqueiro esperou um instante e, só terminado o barulho dos pratos, animou-se a tocar a 
campainha.
      Apareceu um moleque, tomou o recado no corredor e pouco depois trouxe a resposta. 
"O amo estava muito cheio de ocupações naquele dia, não falava com pessoa alguma. Coqueiro 
que voltasse noutra ocasião."
      Mas Coqueiro recalcitrou. "Esperaria...Tinha que falar ao Dr. Teles, custasse o que 
custasse. Tratava-se de uma causa importantíssima!"
      Veio afinal o doutor, palitando os dentes, o ar muito ocupado, os movimentos de quem 
tem pressa. 
      - Que era ? O que desejavam?
      Coqueiro, com a voz alterada, os gestos dramaticamente desesperados, disse que ia ali 
buscar proteção e justiça. "Era pobre, sim, mas estudioso e trabalhador. Sua vida aí estava, - 
limpa! Podia até servir de modelo! - Casara-se na idade em que os rapazes em geral só pensam 
nos prazeres e nas loucuras!...Adorava a família; sim! adorava, porque a família era o bem único 
de que ele dispunha na terra! Tinha uma irmã, inocente e indefesa, a quem até aí servira de pai e 
de tutor..."
      O advogado deixou escapar uma tossezinha de impaciência.
      - Pois bem, senhor doutor! Exclamou o outro, puxando com ambas as mãos, contra o 
peito, o seu chapéu de feltro. - Pois bem! Essa menina, que era todo o meu orgulho, que era 
como o documento vivo do bom cumprimento de meu dever...essa menina, que eduquei sob os 
maiores sacrifícios...essa pobre menina...
      - Que fez? Perguntou o velho muito calmo. - Arribou de casa?...
      Não senho, acaba de ser vítima da maior traição, da mais degradante maldade, que...
      - Mas, afinal, o que houve?...interrogou o doutor, fugindo às preliminares.


[Linha 7300 de 8244 - Parte 5 de 5]


      - Foi desvirtuada por um rapaz, um colega meu, que , há coisa de um ano, hospedei, por 
amizade, debaixo de minhas telhas!...
      - E ele? Perguntou o advogado, sem se comover.
      - Ele já está de passagem comprada para o  Maranhão  e foge amanhã mesmo, se não 
houver uma alma reta e caridosa que lhe embargue a viagem.
      - Ela ficou pejada?
      - Não senhor.
      - É menor? 
      - Tem vinte e três anos, respondeu o queixoso, triste porque sua irmã não tinha menor 
idade.
      - Está o diabo!...Resmungou a raposa; espetando os dentes com o palito. - E ele?
      - Ele tem vinte e um.
      - Feitos?
      - Feitos, sim senhor.
      - Bem.
      E acendeu um cigarro que levara a preparar lentamente.
      - É o diabo!...repisava. - Não se pode fazer nada, sem a verificação do fato...É o diabo!!
      E calaram-se ambos. O velho a pensar; o outro, de cabeça baixa, o aspecto infeliz, a 
choramingar baixinho.
      - Ele tem recurso? Perguntou aquele afinal.
      - É rico,  bastante rico, respondeu o Coqueiro, sem   tirara os olhos do chão.
      - Emancipado?...
      - Totalmente. órfão de pai! É até sócio comanditário de uma importante casa comercial. 
Tem para mais de quatrocentos contos de réis.
      - Bem. Arranja-se a queixa - crime. Olhe! Deixe-me aí o seu  nome, o dele, o da vítima, 
o dos competentes pais, se os tiverem, as respectivas moradas, profissões, etc., etc. Enfim a 
substância da queixa...
      - O senhor doutor acha então que...
      - Veremos! Veremos o que se pode fazer!...Não perca tempo - escreva.
      Coqueiro escreveu prontamente, interrompendo-se de vez em quando o para pedir 
informações. 
      - 'Stá direito! Sussurrou o advogado, correndo os olhinhos pelas folha de papel que o 
outro lhe acabava de passar. - Pode ir descansado. Vá.
      E seu todo impaciente estava a despedir a visita. Esta, porém, fazia não dar por isso e 
desejava mais esclarecimentos; queria saber ao certo o tempo que deitaria aquela questão. "Se 
era de esperar que Amâncio cassasse com a vítima; se havia recursos na lei para o perseguir, etc., 
etc. "
      O velho palitou os dentes mais vivamente. "Que diabo! Um processo era um processo! 
Tinha de percorrer todos os competentes sacramentos! Não se chegava ao fim, sem passar pelos 
meios!...Amâncio podia furtar-se à citação, esconder-se; os oficiais de justiça eram tão fáceis de 
ser comprados!...tão ordinários!...vendiam-se por qualquer lambujem, por um relógio, por um 
pouco de dinheiro!...
      E principiou a encarecer a causa, grupando termos jurídicos, apontando dificuldades. 
Sua voz transformava-se ao sabor daquela terminologia especial. "Em primeiro lugar tinham de 
apresentar uma queixa perante o Juiz de Direito do distrito criminal. Deferida a petição, 
intimar-se-ia o indiciado para a audiência que se designasse. - E os interrogatórios?  E a 
pronúncia? E os recursos?...Enfim havia de se fazer o que fosse possível!...
      - E por enquanto...acrescentou o chicanista, consultando apressado o relógio-  não tenho 
de meu nem mais um segundo!
      E despedindo o  outro com um aperto de mão:


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      - Olhe! Procure-me logo mais na polícia, ao meio-dia. Estou lá à sua espera. Pode ir 
descansado. Adeus!
      E empurrando-o brandamente: 
      - Não deixe de ir, hein?...Meio-dia em ponto! Adeus! Desculpe!
      Coqueiro saiu, mastigando agradecimentos. 
      Estava agora mais tranqüilo; - a fama do Dr. Teles de Moura enchia-o de esperanças 
radiosas. "Sua causa não podia cair em melhores mãos!"
      
      * * *
      
      
      E a verdade é que ele, industriado pela raposa velha, obteve um mandado de 
notificação, obrigando Amâncio a comparecer na polícia, imediatamente, para investigações 
policiais, e peitou o oficial de justiça e arranjou dois secretas e, afinal, o amante da irmã foi 
conduzido à presença do delegado de semana e daí levado à detenção, donde só sairia para 
responder ao primeiro interrogatório..
      O advogado requereu corpo de delito na ofendida e, para a seguinte audiência, o 
comparecimento dos outros dois inquilinos que, por ocasião do crime, moravam na casa de 
pensão,   - O Dr. Tavares e o guarda-livros.
      No inquérito, duas testemunhas fizeram-se ouvir contra Amâncio; um taverneiro das 
Laranjeiras - bicho gordo, cabeludo, a pele cor de telha e dono de uma venda que encostava os 
fundos com os da casa de Amélia, e um alferesinho de polícia, noutro tempo vizinho do 
queixoso em Santa Teresa  e agora morador do casarão da Rua do Resende, - Homenzinho 
magro, pobre de sangue, olhos fundos e a boca devastada por uma anodontia horrorosa.
      Amâncio , que ainda não conhecia de perto o que vinhas a ser "um processo" e estava 
longe de imaginar as tricas e os ardis de que costumam lançar mão os litigantes para defender 
ou acusar um pobre - diabo que a justiça lhe atira às unhas, ficou pasmo, quando, na ocasião de 
assinar os atos e termos, leu a matéria do fato criminoso que lhe argüíam.
      O alferes declarou em substância que: "na noite de 16 de julho do ano tal, pela uma hora 
da madrugada, estando em Santa Teresa, no sótão  que então ocupava, ( o  qual era místico ao 
sótão de uma outra casa onde, viera a saber mais tarde, residira Amâncio ) , ouviu daí partirem 
gemidos angustiados e uma voz fraca, de mulher, a dizer: Solte-me! Solte-me! Não me force! E 
que tomado de curiosidade, trepara-se ao muro do quintal e pusera-se a espreitar para a casa do 
vizinho, e, então, percebera distintamente que um homem violentava uma rapariga; e que depois 
cessaram as vozes e só se ouviram suspiros e soluços abafados".
      O taverneiro depunha que: "naquela mesma noite, estando casualmente de passeio em 
Santa Teresa, ouvira, ao passar pela casa onde então residia João Coqueiro com a família, uma 
altercação de duas vozes, na qual se destacava uma de mulher que chorava, implorando piedade 
e suplicando, por amor de Deus, que a não desonrassem" .
      E tudo isso estava perfeitamente de acordo com que já havia declarado o Coqueiro. 
Dissera este que: "nessa mesma noite se recolhera  às três horas da madrugada, pois estivera até 
então em Botafogo, na companhia de seu colega Firmino de Azevedo, e que, ao entrar em casa, 
ouvira leves gemidos no quarto da irmã e, chamando por esta da varanda e perguntando-lhe o 
que tinha, ela respondera que - não era nada, apenas havia acordado às voltas com um 
pesadelo; mas que ele, Coqueiro, apesar dessa explicação, ficou muito sobressaltado e ainda 
mais, quando, depois de acordar a esposa, que dormia profundamente, e perguntar-lhe se 
houvera em casa alguma novidade durante a sua ausência, lhe ouvira dizer que  - até às nove 
horas da noite podia afiançar que nada acontecera, mas que, daí em diante, não sabia, visto que, 
sentindo-se àquela hora muito incomodada, se havia recolhido ao quarto com seu filho
      César e, como usava água de flor de laranja para os padecimentos nervosos, supunha ter 


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essa noite medido mal a dose  e tomado demais o remédio, em virtude do estranho e profundo 
sono que se apoderou dela até o momento em que o marido a chamara. - Por conseguinte, das 
nove horas da noite às três da madrugada, Amâncio e Amélia haviam ficado em plena 
liberdade".
      E mais: "que , no dia seguinte àquela noite fatal, Amélia não quis sair do quarto e que 
ele, indo ter com a irmã e perguntando-lhe se sofria de alguma coisa e se precisava de médico, 
notou-lhe certa perturbação, certo constrangimento e um grande embaraço na resposta negativa 
que deu; e que ela, todas as vezes que era interrogada, fugia com o rosto para o lado contrário e 
abaixava os olhos, como tolhida de vergonha; e que, examinando-a melhor, lhe descobrira sinais 
roxos nos lábios, nas faces, e pequenas escoriações no pescoço, nas mãos e nos braços; e que , 
então fulminado por uma suspeita terrível, exigiu energicamente a revelação de tudo que ase 
passara  na véspera durante a sua ausência, e que ela, empalidecendo, abrira a chorar e, só 
depois de muito resistir, confessou que fora violentada por Amâncio , mas que este prometera, 
sob palavra de honra, em breve reparar com o casamento a falta cometida".
      Mme. Brizard confirmou o que disse o marido a seu respeito.
      Amâncio, porém, logo que foi novamente interrogado, negou: 1.º - Que conhecesse as 
duas testemunhas deponentes contra ele;2.º - Que em tempo algum houvesse sucedido o que 
elas afirmavam; 3.º - Que tivesse empregado violência contra Amélia; 4.º - _Que fizesse 
promessa de casamento a quem quer que fosse e debaixo de quaisquer condições. E confirmou: 
1.º_Que em  a noite, não de 16, mas de 2o de julho daquele ano, estabelecera relações carnais 
com a queixosa; 2.º - Que nessa noite, permanecendo de pé o conchavo de uma entrevista 
combinada entre eles, Amélia, logo que a casa se achou de todo recolhida, apresentara-se-lhe no 
quarto e aí ficara até às cinco horas da manhã, sem mostrar durante esse tempo o menor indício 
de contrariedade, e parecendo, aliás, muito satisfeita e feliz com o que se dera, como se 
alcançara a realização do seu melhor desejo; 3.º- Que de tudo isso nada absolutamente terias 
sucedido, se Amélia não o perseguisse com os seus repetidos protestos amorosos, com as suas 
provocações de todo o instante, chegando um dia a surpreendê-lo à banca do trabalho com uma 
aluvião de beijos! Que não teria sucedido, se todos os de casa, todos!-  o irmão, a cunhada, ela, 
o César, os fâmulos, não concorressem direta ou indiretamente para aquilo, armando situações, 
preparando conjunturas arriscadas para ambos, explanando ocasiões escorregadias, nas quais 
fora inevitável uma queda!
      E Amâncio acrescentou, arrebatado pela correnteza de suas palavras:
      - Nada disso teria acontecido, senhor Juiz, se me não desafiassem, se me não 
sobressaltassem os instintos, atirando-a a todo momento contra mim; se nos não empurrassem 
um para o outro, com insistência, com tenacidade, deixando-nos a sós horas e horas 
consecutivas, fazendo-a enfermeira ao lado de minha cama; pespegando-a todos os dias, todas 
as noites, diante de meus olhos, ao alcance de minhas mãos,  - enfeitada, perfumada, 
preparada, como uma armadilha, com uma tentação viva e constante!
      O delegado observou discretamente que Amâncio se excedia nas suas declarações; mas 
o auditório, na maior parte formado de estudantes, protestava, atraído por aquela setentrional 
verbosidade que enchia toda a sala.
      
      Rebentavam já daqui e dali, algumas exclamações de aplauso. E a voz do nortista, 
irônica e crespa no seu sotaque provinciano, ainda se fez ouvir por alguns instantes, em meio do 
quente rumor que se alevantava.
      - Ah! Por Deus! Por Deus, que bem longe estava ele de imaginar um fim tão dramático 
àquela comédia! Bem longe estava de imaginar que, depois de o escodearem por tantas 
maneiras; já o fazendo chefe de uma família que não era a sua; já lhe exigindo a compra de uma 
casa, exigindo vestidos, jóias, carros, dinheiro para despesas diárias, dinheiro para a botica, 
dinheiro para o açougue, para o médico, para tudo! -  ainda se lembrassem de extorquir-lhe a 


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coisa única que até aí não haviam cobiçado -  seu nome! -  o nome que herdara de seus pais!
      - Bravo! Bravo! Muito bem!
      E a matinadas dos estudantes rebentou com entusiasmo, sufocando os novos protestos 
que apareciam. O delegado reclamava silêncio, e Amâncio, muito pálido, a resta luzente de suor, 
tinha os braços cruzados, a cabeça baixa, numa atitude dramática de altiva resignação. 
      Findo o inquérito e dada a queixa, o sumário caminhou sem mais incidente. Todavia, o 
provinciano, sempre que era interrogado, deixava-se arrebatar como da primeira vez. 
      As testemunhas, com mais ou menos tergiversação, reproduziam as suas patranhas; 
concederam-se os dias da lei ao indiciado, para que juntasse a sua defesa escrita e os seus 
documentos; e, afinal, subiram os autos à Relação, onde foi sustentada a pronúncia, e o 
processo esperou que designassem a sessão em que Amâncio teria de entrar em julgamento.
      
      XX
      
      
      O acidente de Amâncio causou enorme impressão nos seus conhecidos. Campos, ao 
receber a notícia, ficou fulminado e atirou-se no mesmo instante para a casa de correção, sem 
mais se lembrar de que nesse dia estava cheio de serviço até os olhos.
      Seu primeiro ímpeto foi de repreender severamente o culpado, verberar-lhe com energia 
a "ação indigna" que acabava de praticar; mas pouco depois, veio-lhe uma grande comiseração. 
"Porque , enfim, coitado, o pobre moço era ainda uma criança...naturalmente fraco...e 
daí...Quem sabia lá o que teriam feito para o precipitar naquele crime?...
      "Sem saber por que, afigurava-se-lhe que o papel de vítima cabia mais a Amâncio do que 
ao Coqueiro. Este surgia-lhe agora à imaginação, como um Satanás de mágica que deixou fugir 
de repente, pelo alçapão do teatro, a sua túnica de bom velho peregrino.
      Seria até capaz de jurar que, a despeito do disfarce, já de muito lhe havia bispado a 
saliência dos cornos diabólicos por debaixo do religioso capuz. E pequeninos fastos, que até aí 
jaziam  dispersos e abandonados no seu espírito , vinham, acordando de repente, justificar 
semelhante transformação.
      - Sim! Já em certa época descobrira no Coqueiro tais e tais sintomas de hipocrisia; 
ouvira-lhe tais e tais frase que o fizeram desconfiar de seu caráter!... não tina que ver! -  Já lá 
estavam as tais pontas diabólicas a espetar o capuz!
      E arrependia-se de não haver em tempo desviado o pobre Amâncio daquele perigo: - 
Andara mal! Devia preveni-lo!...devia ter dado qualquer providência a esse respeito!...
      E voltando-se contra si: 
      - Mas, onde diabo tinha eu esta cabeça, para não ver logo que um homem, - que se casa 
especulativamente com uma velha do feitio de Mme. Brizard; um homem que consentir à irmã 
receber presentes e mais presentes de um estranho; um homem que especula com tudo e com 
todos, um maroto! - Não se mostraria tão agarrado ao rapaz, senão com o propósito firme de lhe 
pregar alguma?!...Oh! andei mal! Andei mal, como um pedaço de asno!...
      E apressou-se a socorrer a 'Pobre vítima"
      - Ainda se houvesse a hipótese de uma fiança...reconsiderava ele, já em caminho das 
detenção. - Mas qual! O Dr. Tavares, que lhe levara ao escritório a notícia do escândalo, 
dissera-lhe que ""o crime era inafiançável e que por conseguinte não se podia evitar a prisão!" 
Infeliz moço! Infeliz moço! Resmungava o Campos , quase chorando. - Antes nunca ele viesse 
ao Rio de 
      janeiro! - Que demônio hei de eu agora escrever  à família?...E a pobre D.Ângela?! 
Coitada, como ficará, quando, em vez do filho, receber a notícia de tanta desgraça?!...Valha-me 
Deus!
      E foi nesse estado que o Campos chegou à Rua do Conde.


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      Hortênsia não ficou menos impressionada; ao saber do caso empalideceu 
extraordinariamente e começou a tremer toda. Desde então se tornou apreensiva e nervosa de 
um modo lastimável; tinha pesadelos, ataques de choro, ameaças de febre e um fastio enorme.
      Carlotinha, que se achava nessa ocasião de passeio em casa das Fonsecas de Catumbi, 
foi logo reclamada a lhe fazer companhia. 
      Em casa do negociante quase que se não falava de outra coisa que não fosse o processo 
de Amâncio; pareciam todos empenhados com o mesmo ardor na sorte do "pobre rapaz" Os 
caixeiros murmuravam pelos cantos do armazém e os criados, sempre desejosos de merecer a 
atenção dos amos, traziam da rua os cometrários que ouviam ou que inventavam sobre o fato.
      E o escândalo, como um líquido derramado, ia escorrendo pelas ruas, pelos becos, 
penetrando por aqui e por ali, invadindo as repartições públicas, os escritórios comerciais, as 
redações das folhas e as casa particulares.
      Os jornais começavam a explorá-lo.
      Na Academia de Medicina e na Escola Politécnica levantavam-se partidos. João 
Coqueiro bem poucos colegas tinha  se seu lado; nem só porque lhe cabia na questão  o papel , 
sempre mais antipático, de agressor, com em virtude de seu gênio insociável e seco. Antigos 
ressentimentos, que pareciam esquecidos, ressurgiam agora, aproveitando a ocasião para tirar 
vinganças; daí,-  opiniões mal - intencionadas; comentários atrevidos sobre a conduta de 
Amélia, sobre o caráter mercantil de Mme. Brizard, sobre as velhas brejeirices da Ruas do 
Resende. Uns se contentavam em fazer conjeturas, outros, porém, tiravam conclusões, e alguns 
iam ainda mais longe, contando fatos: "Em tal baile do Mozart", dizia um quartanista de 
medicina, "estivera com a irmã do Coqueiro, dançara com ela duas valsas e desde então ficara 
sabendo de quer força era a tal bichinha!..."E seguiam-se pormenores degradantes e revelações 
descaradas.
      Este, sustentava que o João Coqueiro sabia perfeitamente de tudo que lhe ia por casa e 
que era até o primeiro a mercadejar com a irmã, como seria capaz de fazer com a própria mulher, 
se houvesse um homem de bastante coragem para afrontar aquele dragão! Estouro, afirmava que 
lhe não se lamberia com a proteção do carola Teles de Moura, se não foram as legendária 
relações de Mme. Brizard com o falecido cônego Muniz, ex - redator de um jornal católico.
      E choviam as insimulações, as denúncias "Coqueiro era um hipócrita, um jesuíta! - 
Fingia-se muito devoto na escola para agradar ao professor fulano; defendia a escravidão e a 
monarquia para lisonjear Beltrano; - Se entrava numa pândega com os companheiros, no outro 
dia punha-se a dizer que só ele não se embebedara e não fizera papel triste! _ se lhe tocavam 
mulheres, o velhaco abaixava os olhos e ficava todo estomagado, e debaixo da capa de 
santarrão, ia fazendo das suas! - Era um cão! Um tartufo!
      Toda essa má vontade contra o João o coqueiro redundava em benefício de 
Amâncio, por quem alguns estudantes pareciam sentir verdadeiro entusiasmo. Na faculdade  de 
Medicina não se encontrava um sé rapaz em favor daquele; ao passo que este tinha por si quase 
toda a Politécnica. Nas duas escolas falava-se muito em "exploração, em roubo, em 
piratagem".A cifra dos bens de Amâncio, à medida que passava de boca em boca, ia tomando 
proporções fabulosas, faziam-na de mil, quatro mil, dez mil contos de réis. O Paiva era agora 
requestado pelos colegas, como um boletim sanitário que traz os últimos telegramas da guerra. 
Por saberem de sua intimidade com o réu e das visitas cotidianas que ele fazia à casa de 
correção, não o largavam um só instante; cercavam-no, cobriam-no de perguntas "Como estava 
Amâncio, se triste, abatido, desesperançado, ou se alegre, indiferente, risonho?!...E a tal 
Amelinha dos camarões?...que fazia/ como se portava no negócio? - ia visitar o amante? 
Escrevia-lhe? aparecia a algum! Comprazia-se com  desdita do preso ou era solidária nos 
sofrimentos dele?" 
      Paiva respondia para todos os lados, não tina mãos a medir; os espírito       s, porém, 
longe de se acalmarem com isso, mais se sofregavam e acendiam. A impaciência tomava o lugar 


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da curiosidade; um sobressalto febril, de jogo, preava o coração dos estudantes; os ânimos 
palpitavam na expectativa de um, desfecho escandaloso. Previam-se, com arrepios de gozo 
antecipado, o impudico espetáculo dos depoimentos , as brutais declarações dos médicos e todo 
o cortejo descomposto de um, júri de desfloramento.
      O artigo 222 do Código Criminal lá estava pairando nos ares, cínico e espetaculoso 
como o flammeum  de Nero no banquete de Tigelino.
      
      * * *
      
       O Campos, entretanto, não podia descansar com a idéia daquela desgraça. Abandonava 
tudo, esquecia os próprios interesses para correr às bancas dos advogados, consultando, 
propondo defesas; mais tonto, mais aflito do que se tratasse  de salvar um filho.
      A situação relacionara com o Dr. Tavares. O qual, um pouco em represália ao Coqueiro 
por havê-lo despedido de casa, sem as explicações devidas ao seu alto merecimento, e um, 
pouco talvez na esperança de lucros pecuniários, mostrava-se ferozmente empenhado na 
questão. Nunca esteve tão verboso, tão cheio de entusiasmo e tão fecundo em citações latinas. 
Viam-no, a cada passo, em todos os grupos da Rua do Ouvidor, berrando., gesticulando sobre o 
assunto, como se tudo aquilo lhe trocasse diretamente.
      - É incontestável, exclamava ele a quem lhe caía nas garras, - é incontestável que 
Amâncio foi vítima de uma arbitrariedade esse delegado das dúzias que, sem mais nem menos, 
o mandou recolher à prisão, -  prevaricopui! Prevaricou, principalmente porque Amâncio nada 
mais fez do que desflorar mulher virgem maior de dezessete anos, o que, perante a nossa lei, não 
constitui crime! Por cons3efguinte, a prisão preventiva não devia ser efetuada!
      E a sua voz, aguda e sistemática, repetindo a palavra friamente obscena da lei, causavas 
no auditório o efeito vexativo que nos produz um cadáver nu.
           Hortênsia já se escondia no quarto, quando o maçante se lhe pespegava em casa.
      - Ah! Ele havia de mostrar a esses advogadozinhos de meia- tigela, os quais, mal surge 
um processo andam se oferecendo como protetores de qualquer  uma das partes e 
comprometendo a causa!-  Ele havia de mostrar o que é dignidade e retidão na justiça! E, se 
não tivesse outro meio, escreveria uma série de artigos, que os poria a todos na rua da amargura! 
Campos havia de ver!
      E, chegando-se para este, em atitude misteriosa:
      - Mas o senho, justamente, é que me podia ajudar se quisesse!...
      - Ajudá-lo?
      - Sim! Nós dois, brincando, dávamos cabo da panelinha do Coqueiro! Que julga? Sei de 
tudo! Vi - com estes olhos! Sei, melhor que ninguém, como se arrumou a cilada ao pobre moço!
      Campos declarou que , em benefício de Amâncio, estava pronto a fazer o que fosse 
preciso.
      - Encarrega-se da publicação dos artigos?! Exclamou o advogado.
      - Pago-os até quem os fizer...disse o Campos - contanto que isso aproveitar ao rapaz! 
Todo o meu desejo é livrá-lo o mais depressa possível! É uma questão de consciência!
      - Pois então, meu caro amigo, pode escrever que, ou o seu protegido não sofrerá menor 
desgosto ou leva o diabo a caranguejola desta justiça de borra! Sou eu quem o afirma! amanhã 
mesmo trago-lhe o primeiro artigo! Verá!
      - Está dito!
      Mas , nesse mesmo dia, quando o Campos se dispunha a sair de casa, para se entender 
com o Saldanha Marinho, que parecia resolvido a tomar a causa de Amâncio, entregaram-lhe 
uma carta.
      Era o Coqueiro e dizia simplesmente: "Para que V. S. ª  não continue iludido e não se 
sacrifique por quem não lhe merece mais do que o desprezo, junto remeto-lhe um documento 


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que nos torna quase companheiros de infortúnio e que lhe dará uma idéia justa do caráter desse 
moço perverso, cuja intenção aso lado de sua família era desonrá-la como  desonrou a minha!"
      O negociante desdobrou, a tremer, o papel que vinha incluso, e leu aquela célebre carta 
subtraída por Amélia, alguns tempos antes.
      Não quis logo acreditar no que via escrito. Uma nuvem passara-lhe diante dos olhos. 
"Mas não havia dúvida!  Era a letra de Amâncio , era a letra daquele miserável, por quem ele 
ultimamente passara dias tão penoso!
      - Que ingratidão! E o Campos que o tinha na conta de um rapaz honesto!...Como vivera 
iludido!...Agora, dava toda a razão ao Coqueiro! Calculava já o que não teria feito o biltre na 
casa de pensão!
      As tais pontas de Mefistófeles iam desaparecendo da cabeça do irmão de Amélia para se 
revelarem na cabeça de Amâncio.
      - E Hortênsia?! Gritou-lhe de surpresa o coração.
      - Ah! por esse lado estava tranqüilo!...Por ela meteria a mão no fogo! - Demais, o teor da 
carta bem claro mostrava que o infame não conseguira seus lúbricos desígnios! - no desespero 
brutal daquelas palavras via-se indubitavelmente que a  "virtuosa senhora" fechara ouvidos ao 
malvado!
      Mas, como se podia conceber tanta perversidade e tanta hipocrisia em uma criatura de 
vinte anos?!...E lembrar-se o Campos de que, ainda naquela manhã, nem conseguira almoçar 
direito, de tão preocupado que estava com o destino de semelhante cachorro!...
      Agora, nem de longe queria ouvir falar de Amâncio ou do que a estie se referisse. As sua 
boas intenções sobre o rapaz fugiram de um só vôo e o coração esvaziou-se-lhe de repente, 
como um pombal abandonado.
      Mas ainda lá ficou uma idéia branda e compassiva que respeitava ao ingrato; ainda lá 
ficou uma mesquinha pomba esquecida, que já não tinha forças para acompanhar as revoada das 
companheiras, - era a comiseração inspirada pela mãe do criminoso. Essa ficou.
      - Que desgraça da infeliz senhora! Possuir um filho daquela espécie!
      E o Campos, com as mão cruzadas atrás, encaminhou-se lentamente para o segundo 
andar, em busca da mulher.
      Não a acusou; não lhe fez de leve ima pergunta de desconfiança; apenas disse, 
pondo-lhe a carta defronte dos olhos:
      - Mira-te neste espelho.
      Hortênsia ficou lívida.
      - Vê tu em que eu me metia!...acrescentou ele. - Defender aquele miserável! Calculo 
quanto não te incomodaste, minha santa! 
      E beijou-a na testa.
      Ela sacudiu os ombros numa expressão de confiança na própria virtude: - O marido a 
conhecia bem, para que pudesse recear uma deslealdade de sua parte!
      Logo, porém, que lhe escapou da presença, sentiu uma grande vontade de chorar.  
Correu ao quarto, fechou-se por dentro, e atirou-se à cama, abafando os soluços com os 
travesseiros que se inundavam.
      
      * * *
      Era um desespero nervoso, uma estranha mágoa por alguma coisa que ela não podia 
determinar o que fosse, mas que só se abrandava com aquela orgia de lágrimas. Sentia gosto em 
vertê-las, abundantes, fartas, como se as derramasse no fogo que a devorava.
      Não obstante, ao receber aquela carta, ainda lhe sobejara coragem para responder, sem 
afrouxar nos seus princípios de honestidade; mas, agora, uma súbita transformação ganhava-lhe 
os sentidos e parecia chamar-lhe à cabeça as ondas quentes de seu sangue revolucionado.
      - E quem não se revoltaria, pensava Hortênsia,  - defronte da sorte tão contrária do 


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lastimável moço, cujo grande crime consistia apenas no muito amor que ela lhe inspirara?...Ah! 
Era isso decerto o que a  enchia de aflição e desalento! - era a desgraça dessa pobre criatura, 
contra a qual tudo parecia conspirar, como se um gênio fantástico e mau a perseguisse! Que 
seria agora do mísero, sem a proteção do Campos?...Que seria do desgraçado, sem esse último 
companheiro que lhe restava no meio de tamanhas lutas?...
      Violou uma donzela, é verdade! Mas deveriam responsabilizá-lo por isso?...Seria ele o 
verdadeiro culpado ou simplesmente uma vítima?...Falava-se tanto nos costumes de toda aquela 
gente do Coqueiro!...rosnavam com tanta insistência sobre os planos, os cálculos, as armadilhas 
tramadas ao dinheiro do rapaz!...De que lado estaria a razão?...E, quando se revoltassem toso 
contra o infeliz, teria ela, Hortênsia, o direito de fazer o mesmo?...Não lhe caberia grande parte 
na culpa de que o acusavam? Não poderias ela, só ela, ter evitado aquilo tudo com um simples 
palavra de amor?...Por que , afinal o que lançou Amâncio nos braços da tal rapariga?...Foi a 
paixão? foi a beleza? Foi o talento? - não! foi unicamente o despeito! Foi o delírio, o desespero 
de um coração repudiado! - Sim! sim! Tudo aquilo sucedera, porque ela o repelira; porque ela, a 
imprudente, fechara-lhe os braços, quando o desgraçado, louco de paixão, lhe suplicava por um 
bocado de amor, um pouco de caridade!...
      Antes tivesse cedido!...
      E embravecia-lhe o pranto. - Antes tivesse, porque, se assim fosse, o pobre moço, com 
certeza, não pensaria na outra! - Mas o infeliz, coitado! viu-se aflito, enraivecido, sofrendo , 
saber Deus o quê! E sucumbiu, ora essa!  Sucumbiu como aconteceria a qualquer nas mesmas 
condições! Sucumbiu por desalento, talvez por vingança, talvez por não ter outro remédio - 
Não! definitivamente sentia muita pena daquele desditoso rapaz!
      Amava-o agora. Seu espirito atrasado e muito brasileiro descobria nele uma vítima da 
fatalidades amorosas, e esse prisma romântico emprestava ao estudante uma irresistível simpatia  
de tristeza, uma deliciosa atração de desgraça.
      Hortênsia sonhava-o  "pálido, melancólico, desprezado no fundo de umas prisão, tendo 
por leito - um catre abominável, por única luz - uma trêmula aresta do sol que se filtrava pelas 
grades negras do cárcere",.
      E aquela encantadora figura de prisioneiro, com a cabeça languidamente apoiada nas 
mãos, os olhos úmidos de pranto, os cabelos em desalinho sobre a fronte, - a penetrava toda, 
enchia-lhe o coração ,num aflitivo trasbordamento de lágrimas.
      - Oh! Aquela adorável figura de vinte anos sofria tudo aquilo porque a amava! - porque 
uma paixão insensata lhe entrara no peito; sofria porque Hortênsia recusaras os beijos que o 
desventurado lhe pedira com tanta ansiedade.
      Pobre moço! Pobres vinte anos! Dizia ela quase com as mesma frases do marido. - Mas 
por que se haviam de ter visto?...por que se haviam de amar?...
      E a mulher do Campos, que até aí não sentira dificuldade em resistir às seduções do 
estudante, agora, fascinada pela dramatização daquela catástrofe que o heroificava, via-o belo, 
indispensável, grande na sua situação especial, conhecido das mulheres, temido e odiado dos 
homens, vivendo na curiosidade do público, percorrendo todas as fantasias, sobressaltando 
todos os corações.
      E o contraste da sofredora condição em que o vias presentemente com as atitudes 
brilhantes que ele outrora estadeara naquela própria casa, quando, de taça em punho, espargia a 
sua bela palavra quente e sonora, prendendo a atenção de velhos e moços, dominando, 
conquistando, - esse contraste ainda mais a arrebatava para ele com toda a violência de uma 
alucinação. 
      Não mais se possuiu, - um desgosto mofino apoderou-se dela; ficou insociável e muito 
triste; entregou-se a longas leituras místicas, acompanhando com interesse amores infelizes, 
lentos martírios da alma, que só terminavam  no esquecimento da morte ou do claustro.  
Decorou entre lágrimas a carta do réu.


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      - Como ele me amava! Dizia soluçando, - como ele sofrias, quando arrancou do coração 
estas palavras , ainda quentes do seu sangue!
      De sorte que, ao lhe comunicar o marido a resolução de escrever a Amâncio , 
remetendo-lhe a terrível carta denunciador prevenindo-o de que lhe retirava a sua amizade, ela, 
com uma agonia a sufocá-la, resolveu também escrever ao moço uma carta que servisse, ao 
menos, para suavizar o golpe da outra.
      
      * * *
      O estudante, no dia seguinte, recebia na prisão as duas cartas.
      Não se pode determinar qual delas o surpreendeu mais; notando-se , porém, que a do 
Campos produziu completo o efeito a que se propunha; ao passo que a outra, em vez de o 
consolar, enraiveceu-o
      - Pois aquela mulher  ainda não estava satisfeita e queria insistir nas provocações?...Ela 
talvez fosse a culpada única de tudo que de mau lhe acontecera! - As coisas não tomariam 
decerto o mesmo caminho, se a maldita não lhe fizesse as negaças que fez e não lhe acordasse 
desejos que se não podiam saciar! - E agora?...além de perder a amizade do Campos, justamente 
quando mais precisava dela, havia de suportar a prosa lírica da Sr.a D. Hortênsia!..."Que estava 
arrependida, que o adorava, que seria capaz de tudo por lhe dar um momento de ventura e que 
o esperava de braços abertos, logo eu ele se achasse em liberdade."
      Fosse para o inferno com as suas adorações! Diabo da pamonha! "Que o esperava de 
braços abertos!" Era quanto podia ser! Aquilo até lhe cheirava a debique! Aquilo parecia um 
insulto à sua desgarra, à sua terrível posição!
      E chorava, o infeliz chorava como se quisesse vingar nas lágrimas.
       Depois da carta de Hortênsia, a vida se lhe fazia mais escura e mais apertada entre as 
paredes da sua prisão. Quase que já não podia agüentar a presença do Paiva, do Simões e de 
alguns outros colegas que lá iam. No meio das sombras, progressivamente acentuadas em torno 
dele, só a imagem tranqüila e doce de sua mãe permanecia com a mesma consoladora 
suavidade; sempre aquela mesma carinhosa figura de cabelos brancos. Aquele corpo fraco, 
vergado e tão mesquinho que parecia pequeno demais para sustentar tamanho amor.
      - Minha mãe! Minha santa mãe!  Exclamava o preso, quando seu espírito , esfalfado 
pelas desilusões, precisava remansear ao abrigo morno e quieto de um bom pensamento.
      - Minha santa mãe!
      
      XXI
      
      Três meses depois, a Escola Politécnica e a Escola de Medicina apresentavam o quente 
aspecto de uma sedição. - Amâncio fora absolvido.
      Os estudantes formigavam assanhados como se acabassem de ganhar uma vitória. O 
nome do nortista era repetido com transporte;  um grupo enorme de rapazes, capitaneado pelo 
Paiva Rocha e pelo Simões, aguardava o colega à saída do júri, para o conduzir em triunfo ao 
Hotel Paris , onde havia à sua espera um almoço e a banda de músicos alemães.
      Fora muito extenso o último júri, quarenta horas seguidas; a defesa de Amâncio 
principiou à meia - noite e acabou às seis da manhã. O advogado, que "estava feliz como 
nunca", ainda aproveitou engenhosamente essa circunstância para afestoar o remate de seu 
pomposo discurso ;"Não queria que o rei dos astros se envergonhasse com  aquele nojento 
espetáculo de pequenas misérias! Não queria que o sol tivesse de corar defronte de semelhante 
tolina! Pedia que se varressem de pronto as consciências; que se descarregassem os espíritos, 
para que limpamente recebessem a esplêndida visita da aurora! - Aí chegava o dia! Aí chegava a 
luz, enxotando os fantasmas tenebrosos da noite e precipitando-os em debandada pelo espaço!"
      " Pois bem! Pois bem, meus senhores! Se ainda permanece nos vossos espíritos alguma 


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sombra, alguma dúvida, alguma opinião vacilante sobre a inocência daquele pobre mancebo...( e 
mostrava Amâncio com um gesto supremo) - que essa dúvida se apague! Que essa opinião 
vacilante se resolva na luz que nos assalta! Que essa última sombra se retire espavorida de 
envolta com as últimas sombras da noite que foge!"
      - Bravo! Bravo! Apoiado! Muito bem!
      E, no conflito da luz fresca, que entrava pelas janelas do edifício, com a luz vermelha do 
gás que amortecia, as palavras retumbantes do orador tomavam uma expressão de trágica 
solenidade. E os rostos lívidos e tresnoitados iam se esbatendo nas sombras da sala, como 
pálidas manchas brancas que se dissolvem.
      Ninguém saíra antes de terminar a defesa; um empenho nervoso os prendia ali; as 
palavras do advogado eram aplaudidas com febre; - todos queriam a absolvição de Amâncio.
      Às nove horas da manhã  a cidade parecia ter enlouquecido. Interrompeu-se o trabalho; 
os empregados públicos demoravam-se na rua; os cafés enchiam-se com a gente que vinhas do 
júri. À porta das redações dos jornais não se podia passar com o povo que se aglomerava para 
ler as derradeiras notícias do processo, pregadas na parede à última hora.
      Por toda a parte discutia-se a brilhante defesa de Amâncio de Vasconcelos: "Estivera 
magnífica! - Surpreendente! - Uma verdadeira obra- prima! Uma glória para o advogado 
Fulano! "Repetiam-se frases inteiras do imenso discurso;  faziam-se comparações "Maître 
Lachaud não e sairia melhor!"
      A Rua dos Ourives  estava quase intransitável com a multidão que se precipitava 
freneticamente para ver sair o absolvido. Á porta do júri, o tal grupo de estudantes capitaneado 
pelo Paiva, esperava-0 formando alas ruidosas. Tudo era impaciência e sofreguidão.
      Afinal, apareceu o homem. Vinha muito pálido e um pouco mais magro.
      Ouviu-se então um rugido formidável que se prolongava por toda a rua. Os chapéus 
agitaram-se no ar.
      - Viva Amâncio de Vasconcelos!
      -  Vivô! repetiram os colegas.
      - Morram os locandeiros
      - Morram os piratas!
      Amâncio passava de braço a braço, afagado. Beijado, querido, como uma mulher 
formosa.
      Mas o Paiva e Simões apoderaram-se dele, e, seguidos pelo enorme grupo de estudantes, 
puseram-se a caminho para o hotel, entre as contínuas exclamações de entusuasmo, que 
rompiam de todos os pontos.
      Entraram na Rua do Ouvidor. {Por onde passava o bando alegre dos rapazes, um rumor 
ardente, ancho de vida, enchia a  rua num delírio de vozes confundidas.
      
      
      
      As portas das casa comerciais atulhavam-se de gente; pelas janelas os dentistas, das 
costureiras e dos hotéis, surgiam com o mesmo alvoroço, cabeças femininas de todas as 
graduações: - senhoras que andavam em compras, raparigas que estavam no trabalho, 
professoras de piano, atrizes, cocotes; e, em todas igual sorriso de pasmo, olhares incendiados, 
bocas entreabertas a balbuciar o nome de Amâncio. Baraços de carne branca apontavam para ele 
num tilintar nervoso de braceletes.
      - É aquele! Diziam. - Aquele moreno, de cabelo crespo, que ali vai!
      - Mamãe! mamãe! Gritavam doutro lado, - venha ver o moço rico que saiu hoje da 
prisão!
      E flores desfolhadas choviam-lhe sobre a cabeça, e os lenços de renda borboleteavam e 
iam cair-lhe aos pés, como uma provocação, e olhares de amor entornavam-se das janelas entre o 


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ruidoso e pitoresco catassol das mulheres em grupo.
      E Amâncio, tonto de prazer, caminhava no meio dos amigos, abraçado a um grande 
ramo de flores naturais, que um preto lhe acabava de entregar e em cuja larga fita pendente 
via-se o nome dele em letras de ouro. Era uma lembrança de Hortênsia.
      E o bando crescia sempre. O Largo de São Francisco já estava cheio e ainda a Rua do 
Ouvidor não se tinha esvaziado.
      Ao passar pela Escola Politécnica, ouviram-se estalar foguetes e os vivas a Amâncio e à 
Liberdade reproduziram-se com mais veemência. Os músicos alemães responderam da porta do 
hotel com a Marselhesa. - A vertigem chegou então ao seu cúmulo, inflamada pela vibração 
corajosa dos instrumentos de metal. A Rua do Teatro, o Rocio e todos os becos e travessas 
circunvizinhas já se achavam tolhidas de povo; as janelas do Hotel Paris destacavam-se 
embandeiradas e cheias de gente, como nos dias de carnaval. 
      E aquela festa, ali, no coração da cidade, tomava um largo caráter de manifestação 
pública.
      Já ninguém se entendia com o estardalhaço das vozes, da música e dos foguetes. 
Amâncio, carregado em triunfo nos ombros dos colegas, entrou no hotel ao som do grande hino, 
chorando de emoção e agitando freneticamente o seu velho chapéu de feltro, desabado e 
boêmio.
      Francesas de cabelo amarelo desciam com espalhafato ao primeiro andar do Paris , para 
ver de perto o "tipo da ordem do dia", o belo moço de que todo o Rio de Janeiro se ocupava 
naquele momento, - o herói daquele romance de amor que havia meses apressava tantos espíritos 
e sobressaltava tantos corações.
      Ele, que até ali parecia sufocado e não dera palavra, como que despertou às primeiras 
notas da Marselhesa recobrou de súbito a sua equatorial verbosidade de brasileiro nortista; 
acenderam-se-lhe repentinamente as faces; os olhos luziram-lhe como duas jóias, e a sua voz era 
já segura e vibrante quando ao teto voaram as primeiras rolhas de champanha.
      E, de pé, dominando a extensas mesa coberta de iguarias, - a taça erguida ao alto, o 
corpo torcido em uma posição teatral, desencadeou o seu verbo apaixonado e brilhante.
      
      * * *
      
      
      Entretanto, a essas horas, Coqueiro se dirigia tristemente para casa. As mão cruzadas 
atrás, a cabeça baixa, as sobrancelhas franzidas, com o ar trágico de um herói vencido.
      Vira e ouvira tudo!
      Oculto num botequim, vira passar o bando fogoso dos colegas que festejavam o amante 
de sua irmã; ouvira os "morra ao locandeiro! Ao pirata!" ouvira as galhofas, os risos de escárnio, 
que lhe atiravam como a um inimigo de guerra. E uma raiva negra, um desespero surdo e 
profundo entraram-lhe no corpo, que nem um bando de corvos, para lhe comer a carniça do 
coração. Um duro desgosto pela vida o levava a pensar na morte, revoltado contar o mundo , 
contra a sociedade, contra sua família, contra a hora em que nascera.
      - Maldito fosse tudo isso! Malditos seus pais! Sua pátria! Sua convicções! Malditas as 
leis todas que regiam aquela miserável existência!
      Chegou lívido, sombrio, com os lábios a tremer na sua comoção mortífera. Um silencio 
fúnebre enchia a casa; dir-se-ia que acabava de sair dali um enterro. Amélia chorava fechada no 
quarto e Mme. Brizard, estendida na preguiçosa, tinha a cabeça entre as mãos e meditava 
soturnamente. Sobre a mesa o almoço há que  horas esfriava, esquecido e às moscas.
      É que já sabiam do terrível desfecho do júri: - Amâncio estava livre, senhor de si por 
uma vez! Podendo ir para a província quando bem quisesse, porque, além de tudo, nem o 
dinheiro lhe faltava!...


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      - E eles que ali ficassem, a roer um chifre! - sem recursos, e obrigados a ocupar aquela 
casa, que era o preço de sua desonra comum.
      - Mas , o culpado foste tu e só tu! Berrou de supetão Mme. Brizard, erguendo-se da 
cadeira com um movimento de cólera. - Se me tivesses ouvido, não ficarias agora com essa cara 
de asno. "Que tudo quer, tudo perde!" Foi bem feito! Foi muito bem feito, para que, de hoje em 
diante, prestes mais atenção ao que te digo! -  Agora-  pega-lhe com trapos quentes!
      O marido deixou cair a cabeça sobre o peito e quedou-se a fitar o chão. Mme. Brizard, 
depois de voltear agitada pela sala acrescentou:
      - Se fosses o único a sofrer as conseqüências de tuas cabeçadas, vá! Mas é que nós todos 
temos de as agüentar! agora só quero ver como te arranjas! Onde vais tu descobrir dinheiro para 
sustentar a casa! É preciso ser muito cavalo, para ter a fortuna nas mãos e atirá-la pela janela 
fora! Agora é que eu quero ver! Anda! Vai arranjar hóspedes! Vê se descobres um novo 
Amâncio! ou quem sabe se contas viver do que der o cortiço da Rua do Resende?! Fizeste-a 
bonita; os outros que amarguem!..
      Calou-se por um instante, arquejando, mas repinchou logo:
      - Olha! Por estes três meses já podes avaliar o que não será o resto! - Não há mais um 
punhado de farinha em casa; a companhia já ontem nos cortou o gás, porque não lhe pagamos o 
trimestre vencido; o último criado que nos restava foi-se há mais de quatro semanas, dizendo aí 
o diabo; só nos fresta a mucamas, que é aquele estafermo que sabemos; o Eiras reclama todos os 
dias o tratamento de Nini! - E tu!...tu! -  sem um emprego, sem um rendimento, sem nada! - 
Então?!  ( E pôs as mãos nas cadeiras, com um riso  abominável de ironia. ) Então?! Estamos 
ou não estamos arranjadinhos?!...O que te afianço é que não me sinto nada disposta a tornar a 
inferno da existência que curti na Rua do Resende! Vê lá como te arranjas!
      Coqueiro fugiu para o quarto, sem responder à mulher. "Tinha medo de fazer um 
despropósito.!
      "- Que miséria de vida, a sua! Refletia ele. - Nem ao menos a própria família o 
consolava! Por toda a parte a mesma perseguição, o mesmo ódio, a mesma luta! - Que seria de 
si?! Que fim poderia ter tudo aquilo?! Onde iria cavar dinheiro para manter os seus?! - E as 
custas do processo, e as despesas que fizera?! - O alferes e o homem da venda exigiam o 
pagamento do que depuseram contra Amâncio, a quem mal conheciam de vista; aquele  o 
ameaçava com um escândalo, se Coqueiro não lhe "cuspisse pr'ali os cobres ";o outro o 
abocanhava pela vizinhança, fazendo acreditar que o devedor era, nem só um caloteiro, como 
um bêbado!
      E não havia dinheiro para nenhuma dessas coisas!
      - Um inferno! Um verdadeiro inferno! - Os moradores da Rua do Resende há que 
tempos que não pingavam vintém; - O Damião estava já pelos cabelos para arriar a carga: "Não 
podia mais aturar semelhante corja!" dizia e contava até que um dos inquilinos lhe tentara 
chegar a roupa ao pêlo por questões de aluguéis.
      E o Coqueiro viu arrastar-se  todo aquele mau dia na mesma inferneira.
      À noite, foi preciso acender velas em substituição do gás suprimido. Amélia não comera 
desde a véspera e queixava-se agora de muitas dores de cabeça, náuseas, tonturas de febre e um 
fastio mortal; apareciam-lhe por todo o corpo0 pequenas manchas roxas. Mme. Brizard só abria 
a boca para fazer novas recriminações e praguejar; na sua cólera chegara alguns tabefes ao filho, 
e este rabujava a um canto, embesourado e casmurro.
      - Antes morresse! Antes, mil vezes antes! Repisava o Coqueiro, sentindo-se esmagar 
debaixo daquele desmoronamento. - Que faria agora de uma irmã prostituída, e de uma mulher 
desesperada?!...
      E as horas arrastavam-se pesadas como cadeias de ferro. A casa mal esclarecida tinha 
uma tristeza lúgubre de igreja deserta.
      Afinal, Mme. Brizard foi para a cama com o filho, Amélia parecia mais tranqüila; só o 


[Linha 7900 de 8244 - Parte 5 de 5]


Coqueiro velava, só ele, com o seu desespero a triturá-lo por dentro.
      Não podia sossegar um minuto - era deixar-se ir consumindo pelo sofrimento., até que a 
dor cansasse de doer e os tais bichos negros do coração lhe comessem o último bocado de 
carniça. Sentia, porém, uma espécie de volúpia pungente em reler as cartas anônimas que lhe 
enviaram durante o dia; encolerizava-se com isso, mas não podia deixar de as ler, como quem 
não resiste a  tocar numa parte dorida do corpo.
      Três, nada menos do que três cartas anônimas, e cada qual a mais insultuosa e mais 
perversa; não lhe poupavam coisa alguma: - a vergonha real da situação, o ridículo que havia de 
o acompanhar para sempre, a ojeriza que o público lhe votava espontaneamente; tudo lá estava; 
tudo vinha descrito com uma minuciosidade cruel, e com pequeninas considerações ultrajantes, 
com o terrível cuidado de quem se vinga.
      E, para o efeito ser mis completo, falavam intencionalmente, com entusiasmo, nas 
conquistas e nas simpatias do outro, do querido, do "feliz"! Não se esqueciam da menor 
circunstância lisonjeira para Amâncio: - o modo pelo qual o receberam ao sair da prisão - os 
vivas, -  as flores desfolhadas sobre ele, - os oferecimentos, - as declarações de amor, - os 
ramilhetes que lhe deram, - os brindes; tudo, tudo fora metido ali, para ferir, para danar, para 
moer.
      Reconheceu logo quer  uma das cartas era de Lúcia; as outras deviam ser de seus 
próprios colegas ou, quem sabe?...de algum velho inimigo já esquecido por ele!-  Tanta gente 
saíra despeitada da sua casa de pensão!...Ser credor é ser algoz!...exigir pagamento de uma 
conta a quem não tem dinheiro é exigir a sua inimizade eterna! Além disso, com os seu modos 
secos e retraídos, ele sempre fora tão pouco estimado na academia!...não tinha, como o "prosa" 
do Amâncio, gênio para agradar a todo o mundo; não tinha as lábias do outro: não sabia fazer" 
discursatas e falações"a propósito de tudo!...Era um infeliz, que todos evitavam - um leproso! 
um lazeiro!
      E a dor, sem se resolver nas lágrimas que lhe faltavam, encaroçava-se-lhe por dentro, 
numa grande aflição.
      - Agora, como se apresntar nas aulas?!...Com que cara suportar o riso sarcástico dos 
colegas?!...Como resistir à curiosidade brutal do público que o esperava impaciente por 
cuspir-lhe no rosto?!...Como passar debaixo daquelas mesmas janelas que despejaram flores à 
cabeça de Amâncio?!...- Amâncio! o homem que dormiu com  sua irmã!...
      E, maquinalmente foi à secretária e tirou o velho revólver que fora do pai.
      Que estranhas recordações à vista daquela arma! Daquela arma que na sua infância o 
fizera chorar tantas e tantas vezes!...Belos tempos que não voltam!...
      E contemplava distraído os bonitos do revólver - os arabescos de prata e madrepérolas 
com o brasão do velho Lourenço Coqueiro em ouro.
      Rica peça! Artística, bem trabalhada; não se lhe enxergava sinal de ferrugem, nem 
desarranjo nas molas. - Também, que havia nisso para admirar se o dono tinha por ela uma 
espécie de fetichismo e andava sempre a bruni-la e a azeitá-la! Q Era o único objeto que lhe 
falava ainda das extintas grandezas do pai: Quantas vezes ele não ouvira o pobre velho 
cavaquear sobre as alegorias daquele rico brasão!...E quantas vezes, a tremer de medo, não o 
vira descarregar aquela mesma arma contra uma laranja que um escravo segurava com a mão 
erguida!
      - Ah! bem que se recordava de tudo isso!...Parecia-lhe ouvir ainda gritar o pai, quando 
lhe metia à força o revólver entre os dedos. "Não! Isso agora hás de ter paciência! Tu, ao menos, 
ficarás sabendo dar um tiro!"
      E todavia, não fiquei sabendo...balbuciou o filho de Lourenço, a experimentar nos lábios 
o contacto frio do cano de aço. - Não fiquei sabendo dar um tiro, que, se o soubesse, acabaria 
aqui mesmo com esta vida estúpida e misserável!...
      S eu tivesse ânimo...pensou ele, estremecido com a idéia da morte - amanhã 


[Linha 7950 de 8244 - Parte 5 de 5]


encontravam o meu cadáveres e não ficariam naturalmente fazendo de mim um juízo tão triste e 
tão ridículo! - Talvez até chegassem a amaldiçoar o outro e erguessem em volta de meu nome 
uma legenda respeitosa e compassiva...
      Foi à gaveta, havia lá algumas balas, carregou a arma.
      - Não há dúvida, é a melhor coisa que eu poderias fazer...reconsiderava Coqueiro, 
imóvel, a olhar indeciso para o revólver que tinha na mão.
      Mas era bastante chegá-lo contra a boca ou contra um dos ouvidos, para que os seus 
dedos  logo se paralisassem e para que um arrepio muito agudo lhe corresse pela espinha dorsal.
      Faltava-lhe a coragem.
      Duas vezes ergueu-o à altura da cabeça, duas vezes o desviou, com as mãos trêmulas e o 
corpo entalado numa agonia insuportável.
      - É horrível! Resmungava ele. - É horrível!
      
      Ia principiar de novo as tentativas, quando da rua uma forte matinada lhe prendeu a 
atenção. Um grupo se aproximava, entre cantarolas e algazarras de risos.
      Eram dez ou doze dos últimos convivas de Amâncio; haviam passado todo o dia e 
grande parte da noite a folgazar no Paris; muitos, como o autor da pândega, lá ficaram 
prostrados pela bebida, mas aqueles tiveram a fantasia de um passeio matinal ao Jardim 
Botânico e meteram-se barulhosamente no bonde.
      Já no Largo do Machado, um deles, um, que de há muito trazia o Coqueiro atravessado 
na garganta  , lembrou que seria mais divertido apearem-se ali e seguirem a Rua das Laranjeira. 
"A casa do velhaco era a alguns passos - bem lhe podiam cantar uma serenata debaixo das 
janelas!"
      A idéia foi bem acolhida, e a ruidosa farândola despejou-se pelo caminho das 
Laranjeiras numa hilaridade pletórica de bêbados.
      Só pararam defronte da porta de João Coqueiro. Através das vidraças e das cortinas de 
uma das janelas, viram transparecer dubiamente a trêmula morte - cor de uma luz avermelhada.
      - Estás dormindo, ó Joãozinho dos camarões?! Berrou cambaleando o que tivera a idéia 
daquela romaria. - Dorme, dorme! É assim que fazem os sem - vergonhas de tua espécie!-   
vendem a irmã e põem-se a descansar no colchão que lhe deixou o amante!
      Seguiu-se um estrupido de gritos e risos:
      - Fora! Fora!
      - Fiau, fiau!
      - Larga essa casa que não é tua, gritou aquele. - É da outra! Ganhou-a com o suor de seu 
rosto! - Sai, parasita!
      - Sai! Sai!
      E espocavam  gargalhadas no grupo, e os guinchos sibilantes iam até o fim da rua :- 
Fora!
      - Fora!
      - Fiau
      - Sai, cão!
      - Deixa a casa, que não é tua !- Fora!
      - Fora o cáften! 
      - Fiau!
      Os vizinhos chegavam às janelas, vozeando furiosos contra semelhante berraria.
      - É o que sucede a quem mora perto de um João Coqueiro! Bradou um da turma.
      - Quem mora junto ao chiqueiro sente o fedor da lama! Gritou um segundo.
      - Queixe-se à Câmara Municipal! Acudiu outro.
      E formidável matacão foi de encontro à vidraça iluminada do chalé de Amélia.
      Um dos vizinhos apitou e outro despediu um jarro de água  sobre os desordeiros


[Linha 8000 de 8244 - Parte 5 de 5]


      Ouvi-se logo o estardalhaço impetuoso dos gritos, das descomposturas e do crepitar dos 
vidros que se partiam sob um chuveiro de pedras.
      - Morra!
      - Morra o infame! bramia a malta , já de carreira para o Largo do Machado. - Morra o 
cáften!
      
      * * *
      
      João Coqueiro presenciara tudo aquilo, grudado a um canto da janela, mordendo os nós 
da mão, os olhos injetados, o sangue a saltar-lhe nas veias.
      - Oh! Era demais, pensava ele desesperado. - Era demais tanta injúria! - Se Amâncio 
estivesse ali, naquela ocasião, por Deus que o estrangulava!
      Abriu a janela. O dia repontava já, mas enevoado e  triste. Não havia azul; céu e 
horizontes formavam uma só pasta cor de pérola, onde vultos cinzentos se esfumavam.
      O homem da venda abria também as sus portas. Coqueiro cumprimentou-o, ele 
respondeu com um risinho insolente, acompanhado de pigarro. 
      Uma caleça rodejava lentamente ao largo da rua, o cocheiro vergado sobre as rédeas, o 
seu casquete sumido na gola do capotão. Coqueiro fez-lhe sinal que esperasse, embrulhou-se no 
sobretudo, enterrou o chapéu na cabeça, meteu o revólver no bolso e saiu.
      - Hotel Paris! Disse ao da boléia, atirando-se no fundo da carruagem. O cocheiro 
endireitou-se sobre a almofada, espichou o pescoço, sacudiu as rédeas e os animais dispararam, 
assoprando grossamente contra o ar frio da manhã.
      
      
      
      * * *
      
      
      Coqueiro enfiou pela escadaria do hotel.
      Estava tudo deserto e silencioso; apenas, no salão principal, viam-se um preto velho e um 
caixeiro desdormido que, entre bocejos, se dispunha  a principiar a limpeza da casa.
      Dir-se-ia que ali passara um exército de bêbados. Por toda a parte vinho derramado, 
copos partidos, cacos de garrafa e destroços do vasilhame que servira à mesa; o oleado do chão 
escorregava com uma crusta gordurosa de restos de comida e vômito pezinhado; um espelho 
ficara em fanicos e um aquário desabara, fazendo-se pedaços e alagando o pavimento, onde 
peixinhos dourados e vermelhos jaziam, uns mortos e outros ainda estrebuchando.
      O preto, de gatinhas, em manga de camisa e calças arregambiadas , procurava 
desencardir o sobrado com um esfregão de coco, que ia embeber ao canto da sala numa tina 
cheia d' água; enquanto o caixeiro, a jogar o corpo, muito esbodegado, erguia o que estava pelo 
chão e empilhava as cadeiras sobre as mesinhas de mármore, ao comprido das paredes.
      - Onde é o quarto do Amâncio? perguntou-lhe João Coqueiro.
      - Amâncio?...repetiu aquele, emperrando no meio da sala para fitar o interlocutor com 
um olhar morto de sono! - Ah! bocejou. - O tal moço do pagode de ontem?...
      Coqueiro sacudiu a cabeça perpendicularmente.
      - É cá, no número dois, mas escusa bater, que ele aí não está. Ficou lá em cima, no onze, 
com a Janete.
      E, voltando ao serviço: - Se não é coisa de pressa, o melhor seria procurá-lo mais 
logo...Deve de estar agora ferrado no sono, que levou na pândega até as quatro e meia!...
      Coqueiro voltou-lhe as costas e dirigiu-se para o segundo andar. Bateu à porta no n.º 11.
      Ninguém respondeu.


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      Tornou a bater.
      Bateu de novo.
      - Qui est là!...perguntou na rouquidão do estremunhamento uma voz de mulher.
      - Preciso falar a esse rapaz que aí está, o Amâncio!
      Ouviu-se um farfalhar de panos, chinelas arrastaram, e em seguida a porta abriu-se 
cautelosamente, mostrando pela fisga um rosto gordo, de olhos azuis.
      - Qui est là...
      Mas o Coqueiro, em vez de responder, afastou a porta com um murro e atirou-se para 
dentro do quarto; ao passo que a Jeanete, esfandogada de medo, desgalgava em fralda o 
escadarão que ia ter ao primeiro andar.
      Amâncio, em uma cama muito cortinada e muito larga, dormia profundamente, de 
barriga para o ar, pernas abertas e braços atirados sobre a desordem das colchas e dos lençóis. 
No chão, ao lado do escarrador, um travesseiro caído, e em torno, por todo o desarranjo da 
alcova, roupas espalhadas.
      O Coqueiro olhou um instante para ele, sem pestanejar; depois, sacou tranqüilamente o 
revólver da algibeira e deu-lhe um tiro à queima - roupa.
      Amâncio soltou um ai.
      A segunda bala já o não pilhou, mas o irmão de Amélia, abstrato, pateta, continuava a 
disparar os outros tiros até que a arma lhe caiu das mãos. 
      Nisto, como se acordasse de uma vertigem, saiu a correr tropeçando em tudo. No 
primeiro andara um polícia lançou-lhe as garras aos cós das calças e o foi conduzindo à sua 
frente, sem  lhe dizer palavra.
      Entretanto, Amâncio despertou com um novo gemido e levou ao peito as mãos que se 
ensoparam no sangue da  ferida. Olhou em torno, à procura de alguém; mas o quarto estava 
abandonado.
      Então, fechou novamente os olhos estremecendo, esticou o corpo  - e uma palavra doce 
esvoaçou-lhe nos lábios entreabertos, coimo um fraco e lamentoso apelo de criança: - Mamãe!..
      E morreu.
      XXII
      
      
      Começou logo a reunir povo na porta do hotel. Faziam-se grupos; os repórteres andavam 
num torniquete; via-se o Piloto por toda a parte, irrequieto, farisqueiro; e o fato ia ganhando 
circulação, com uma rapidez elétrica. Pânico sobressalto quebrava violentamente a plácida 
monotonia da Corte; mulheres de toda a espécie e de todas as idades empenhavam-se com a 
mesma febre na sorte dramática do infeliz estudante, e o Coqueiro, alado pela transcendência 
de seu crime, principiava a realçar no espírito público, sob a irradiação simpática e brilhante de 
sua corajosa desafronta.
      Às dez horas da manhã já se não podia entra facilmente no necrotério, para onde fora, 
sem perda de tempo, conduzido o cadáver de Amâncio, entre um cortejo imenso de curiosos. 
      Choviam as interpretações, os comentários sobre o fato; todos queriam dar 
esclarecimentos, explicar os pontos mais obscuros do grande sucesso. "A bala atravessara-lhe as 
regiões torácicas e fora cravar-se num osso da espinha", afirmava um homem alto, elegante, de 
cabelos brancos, cujo ar empantufado prendia a  atenção dos mais.
      Esse homem, que alguns tomavam por um médico, outros por qualquer autoridade 
policial; outros por um jornalista, outros por um dos professores da faculdade, onde estudava o 
defunto, não era senão o Lambertosa -  o ilustre -  gentleman da casa de pensão da Mme. 
Brizard.
      E, sempre distinto, sempre viajado, pronto sempre a explicar as coisas cientificamente, 
agitava a bengala afagando a barriga bem abotoada, e de pernas abertas, pescoço duro, ia 


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estadeando a sua "grande intimidade" com o célebre morto; citando fatos, contando magníficas 
anedotas que se deram entre os dois.
      Ah! Era um moço de invejável talento! - Boa memória, compreensão fácil e gosto 
cultivado. Para a retórica ainda não vi outro...Não, minto - em 
      Londres, em Londres, confesso que encontrei um outro nessas condições!...
      E punha-se a falar de Londres, e passava depois à França, à Itália, à Europa inteira, e 
chegaria até  aos pólos, se alguém quisesse acompanhá-lo na viagem.
      Muitos outros dos antigos inquilinos de Mme. Brizard também apareceram no 
necrotério. Lá esteve a pálida 
      Lúcia, cheia de melancolia, a fitar o cadáver, em silêncio, com os seus belos olhos 
alterados pelo abuso das lunetas. Agora morava ela com o seu Pereira em Niterói, numa casa de 
pensão de um italiano, educador de cães e macacos. Era a terceira que percorria depois da da 
Rua do Resende.
      Lá esteve, de passagem, o Fontes, com as suas amostras de renda debaixo do braço; lá 
esteve o triste Paula Mendes, para fazer a vontade à mulher, que exigira ver a "vítima daquele 
grande cão!'; lá esteve o Dr. Tavares que parecia tomar cada vez mais interesse no "escandaloso 
assassínio". E, quem diria? Até lá esteve o esquisitão do Campelo que muito dificilmente se 
abalava com as questões alheias.
      Por toda a cidade só se pensava no "crime do Hotel Paris"; os jornais saíam carregados 
de notícias e artigos  sobre ele, esgotavam-se as edições da defesa e da acusação de Amâncio; 
vendia-se na rua o retrato deste em todas as posições, feitios e tamanhos; moribundo, em vida, 
na escola, no passeio. E tudo ia direito para os álbuns, para as paredes e para as coleções de 
raridades.
      Hortênsia, quando lhe constou o terrível desfecho daquele episódio que, na sua fantasia 
romântica, tomava as proporções de um poema, caiu sem sentidos e ficou prostrada na cama por 
uma febre violenta. Durante esse tempo, o marido procurava na prisão o assassino para lhe 
oferece os seus serviços e pôr à disposição dele o dinheiro de que precisasse. "Coqueiro podia 
ficar tranqüilo - nada lhe havia de faltar à família, nem mesmo a pensão de Nini."
      E foi em pessoa dar as providências para o enterro do outro.
      
      
      * * *
      
      
      O funeral atingiu dimensões gigantescas; parecia que se tratava das morte de um grande 
benemérito das Pátria.
      Por influência do advogado de Amâncio, que era político e bem relacionado, 
compareceram muitos figurões e até alguns homens do poder. Houve senadores, ministros em 
vigor, titulares de vários matizes, altos funcionários públicos, artistas de nome, doutores de toda 
a espécie, clubes de todas as ordens, ordens de todas as devoções, jornalistas, negociantes, 
empresários, capitalistas e estudantes; estudantes que era uma coisa  por demais.
      A cidade inteira abalou-se, demoveu-se, para deixar passar aquela estranha procissão de 
um magro cadáver de vinte anos.
      Veio muita gente dos arrabaldes. De todos os cantos do Rio de Janeiro acudia povo e 
mais povo a ver o enterro. As ruas, os largos, por onde ele ia, ficavam acogulados de gente; os 
garotos grimpavam-se aos muros, escalavam as árvores, subiam às grades das chácaras; as 
janelas regurgitavam, como num domingo de festa.
      O caixão foi carregado a pulso , coberto de coroas; no cemitério ninguém se podia mexer 
com a multidão que afluía. 
      Um delírio!


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      E no dia seguinte, descrições e mais descrições jornalísticas; necrológios, artigos 
fúnebres, notícias biográficas e poesias dedicadas à "triste morte daquelas vinte primaveras".
      E, o que é mais raro, o fato não caiu logo no esquecimento , porque aí estava o novo 
processo do assassino para lhe entreter o calor, à feição de um banho-maria.
      Continuavam, pois, as notícias jurídicas; Coqueiro ia se popularizando, ia conquistando 
opiniões e simpatias; ia aos pouco se instalando no lugar vago pelo desaparecimento do outro. 
Mitos colegas se voltavam já a favor dele; até o Simões - até o Paiva!
      O Paiva, sim! que agora , completamente restaurado com as roupas herdadas de 
Amâncio , deixava-se ver a miúdo nos pontos mais concorridos da cidade e, entre as palestras 
dos amigos, mostrava-se todo propenso a justificar o ato do irmão de Amélia. 
      - Não!, dizia ele, quando lhe tocavam nesse ponto -  não! O Coqueiro andou bem!...Eu, 
se tivesse uma irmã, fosse ela quem fosse , faria o mesmo naturalmente!...
      
      * * * 
      
      
      Entretanto, pouco depois do enterro, no meio do burburinho de passageiros chegando no 
vapor do Norte, uma senhora já idosa, coberta de luto, saltava no cais  Pharoux.
      Vinha acompanhada por uma mulata, que trazia constantemente os braços cruzados em 
sinal de respeito, e por um velho gordo e bem vestido, cujas maneiras faziam adivinhar que ele 
ali não passava de um simples companheiro de viagem.
      Como se já tivessem resolvido no escaler o que deviam fazer  logo que saltassem, o 
velho, mal se viu em terra, chamou por um carroceiro, deu a este a sua bagagem com o 
competente endereço, fez sinal à mulata que seguisse a carroça e, depois de ajudar a senhora a 
sair do bote, perguntou, solicitamente, se ela queria tomar um carro.
      A senhora, muito inquieta, respondeu que preferia ir a pé,, e os dois, de braço dado, 
puseram-se a andar na direção da Rua Direita.
      Essa senhora era D. Ângela.
      O Campos já lhe havia escrito, comunicando a prisão do filho. A princípio, não se achou 
com ânimo de falar nisso à pobre mãe; mas seus escrúpulos fugiram totalmente, desde que lhe 
chegou às mãos aquela terrível denúncia do Coqueiro.
      Ângela não esperava pelo golpe e ficou a ponto de perder a cabeça. "Como?! Seria  
crível?...Seu filho, seu querido filho na prisão, com um processo às costas e sem ter quem lhe 
valesse!...Ó Santo Deus! Santo Deus! Que isso era demais para um pobre coração de mãe! - Que 
mal teria ela feito para merecer tão grande castigo?!"
      E resolveu seguir para a Corte, imediatamente, no mesmo vapor. Sentia-se corajosa, 
capaz de todas as lutas, de todas as violências, para salvar seu filho. Esqueceu-se s de seus 
achaques, do estado melindroso de seu peito, para só cuidar dele; só pensar nessas criatura 
idolatrada que valia mais, no fanatismo de seu afeto, do que todas as grandezas da terra, todos 
os esplendores do mundo e todas a potências do céu.
      - Oh! Haviam de restituir-lhe  o filho!...Estava resolvida a atirar-se aos pés dos juizes, 
das autoridades, do Imperador, se preciso fosse, para resgatá-lo! _Não era possível que só 
encontrasse corações to duros, que resistissem a tanta lágrima, a tamanha dor e a tamanho 
desespero!
      No primeiro paquete achava-se abordo, apenas seguida de uma escrava que, entre as 
suas, lhe merecia mais confiança.
      Mas, agora, pelo braço de um estranho que a não desamparava por mera delicadeza, ou 
talvez por compaixão; agora, no grosseiro tumulto do cais, estremunhada no meio daquela gente 
desconhecida - a infeliz sentia-se fraquear. Não sabia que fazer, - se ir em busca do Campos ou 
correr à toa por aquelas ruas, a gritar pelo filho, a reclamá-lo daquele mundo indiferente que 


[Linha 8200 de 8244 - Parte 5 de 5]


formigava em torno de sua perplexidade.
      E, por mais que se quisesse fingir forte, uma aflição crescia-lhe dentro e tomava-lhe a 
garganta. Tremiam-lhe as pernas e os olhos marejavam-se-lhe de lágrimas. 
      - Mas V. Ex.ª não disse que seu filho morava nas Laranjeiras?...perguntou o velho, 
compreendendo a perturbação de Ângela.
      - Sim, foi para aí que ele me  mandou dirigir as cartas...Tenho até aqui comigo o número 
da casa, mas, depois disso, já recebi a tal notícia da prisão , e...
      - Bem, interrompeu o outro - o mais certo é irmos até lá. - Se não encontrarmos o rapaz, 
havemos de achar alguém que nos dê informações. É mais um instante! Eu ainda posso 
acompanhá-la ;não tenho pressa; o melhor, porém, seria tomarmos um carro.
      - Não, não! respondeu a senhora, sempre inquieta, a olhar para todos os lados, como se 
esperasse, por um acaso feliz, descobrir Amâncio , de um momento para outro. 
      Estavam já na Rua Direita. Ela, de repente, estacou e pôs-se a fitar a vidraça de um 
armarinho.
      - Algum conhecido? Perguntou o velho. 
      - Não. É que estes chapéus...tenha a bondade de ver se consegue ler aquele nome...eu, 
talvez me enganasse...
      O velho leu distintamente"` Amâncio de Vasconcelos". - É o título! Disse. - Eles agora 
batizam as mercadorias com os nomes que estão na moda. Algum tenor!
      - É singular!...balbuciou a senhora.
      - Por quê?
      - É esse justamente o nome de meu filho.
      - Oh! não há só uma Maria no mundo!...
      Mas D. Ângela fugira-lhe outra vez do braço para correr a uma nova vidraça. Eram agora 
bengalas e gravatas "à Amâncio de Vasconcelos" que lhe prendiam a atenção.
      Acabavam de entrar na Rua do Ouvidor.
      - Vê?...interrogou ela, muito preocupada e procurando esconder a comoção. - Ainda!
      - Ah! fez o companheiro, já impaciente. - V. Ex.ª vai encontrar o mesmo nome por toda 
parte. - É o costume! Olhe! Se me não engano, lá está o retrato do tal Amâncio! Tenha a 
bondade de ver!
      D. Ângela aproximou-se do retrato, correndo, e soltou logo uma exclamação:
      - Mas é ele! O meu Amâncio!
      E começou a rir e a chorar muito perturbada.
      O velho, meio comovido e meio vexado com aquela expansão em plena Rua do 
Ouvidor, principiava talvez a arrepender-se de ter sido tão cavalheiro Ângela, quando esta, que 
estivera até aí a percorrer, como uma doida, outros mostradores, arrancou do peito um 
formidável grito e caiu de bruços na calçada.
      Tinha visto seu filho, representado na mesa do necrotério , com o tronco nu, o corpo em 
sangue.
      E por debaixo, em, letras garrafais:
      Amâncio de  Vasconcelos, assassinado por João Coqueiro no Hotel Paris, em tantos de 
tal."

FIM - FIM - FIM - FIM




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