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sábado, 1 de abril de 2017

IMAGINÁRIO – SÉRIE LEVA PARA O YOUTUBE O QUE HÁ DE MAIS ASSUSTADOR NO FOLCLORE BRASILEIRO


IMAGINÁRIO – SÉRIE LEVA PARA O YOUTUBE O QUE HÁ DE MAIS ASSUSTADOR NO FOLCLORE BRASILEIRO

O Curupira

Escondidos num banheiro abandonado da escola, os garotos aceitam o desafio: apertar as descargas, ligar as torneiras e chamar pelo nome proibido – tudo ritualmente repetido por três vezes. No espelho, um vulto se anuncia. É o fim.


Longe dali, uma adolescente que ficou na rua até tarde sente uma presença a acompanhando. Nas sombras, um velho maltrapilho se insinua, carregando nas mãos um grande saco de estopa. Ele ri.

O final de cada uma dessas histórias não está na tela, mas em seu íntimo você bem sabe o que aconteceu. Assim é Imaginário (https://www.youtube.com/channel/UCfpPwckuFANaYhqs2SFgnpg), uma web-série carioca que estreou no dia 31 de outubro deste ano no Youtube. Desde então, um novo episódio é lançado toda quinta-feira, até que os 10 desta primeira temporada tenham sido publicados. O mais recente, O Garoto de uma perna, é o sexto.

O projeto foi criada pelo diretor Bruno Esposti, de 24 anos. A idade é um componente importante neste contexto: toda a equipe é bastante jovem, alguns assumindo cargos de direção pela primeira vez. O resultado, no entanto, denota um apuro estético muitas vezes inalcançado por produções do gênero que investem nas narrativas folclóricas.

 O Chupa Cabras em Imaginário 



O Boto em Imaginário 



A Iara em Imaginário



A busca por investir na vertente do medo, em resposta à visão infantilizada do folclore brasileiro, é tendência. No cinema, para citar apenas um contemporâneo, basta ver o alcance de trabalhos como os do cineasta Rodrigo Aragão (https://www.youtube.com/watch?v=3i4ajKhvvHQ). Produzida inicialmente para o Youtube, Caçada nas Horas Mortas, de Sander Silva também apostou neste caminho – e com episódios inteiramente feitos por uma pessoa só. Hoje, a série está disponível apenas para compra (https://www.looke.com.br/filmes/cacada-nas-horas-mortas).

A diferença, no caso de Imaginário, é que os filmes em sua maioria fogem do gore ou do trash para investir num terror psicológico que captura pela tensão. Entre ataques de chupa-cabra, perseguições do saci e ovos fecundados pelo diabo em plena quaresma, cada um dos curtas possui em média apenas 3 minutos de duração. Nenhum dos curtas tem exatamente um final, uma escolha proposital do diretor: “metade da história eu te mostro, a outra metade cabe a você e ao seu imaginário”, esclarece em um dos vídeos de produção.

Imaginário contou até mesmo com uma psicóloga para desenvolver as narrativas. Mariana Castro (https://www.youtube.com/watch?v=MmdXUEf5eFw) se envolveu com o projeto principalmente pela perspectiva do espelho. Os mitos como reflexo de Eu. De nossos medos , nossas ansiedades e nossa relação com o inteiramente outro.

Confira abaixo cada um dos episódios, acompanhado de uma breve resenha feita por nós.



Episódio 1 – Diabinho na Garrafa


Um episódio que estreou em 31 de outubro não poderia tratar de uma temática melhor: bruxaria. A lenda conta que o dono de um diabinho na garrafa receberá dele todos os seus desejos. Vera tenta controlar a criatura, fecundada pelo próprio diabo. A maldade, no entanto, é incontrolável e vai cobrar seu preço. Gosto especialmente deste episódio pela relação com a quaresma, o período mais sombrio do folclore brasileiro. Denota pesquisa e atenção com o texto fonte.



Episódio 2 – A Mulher do Espelho


O grande problema deste episódio para mim foi a escolha do monstro. Loira do banheiro, Mulher do algodão, Mulher de branco… todas estas são variantes existentes no folclore brasileiro, mas “Maria Sangrenta” para mim faz referência direta à Bloody Mary americana. De qualquer forma, o ritual das descargas é um clássico. A cenografia do banheiro da escola é extremamente impressionante.



Episódio 3 – Cabrita


Cabrita é a caminhonete de Matheus. Um detalhe simples, um trocadilho evidente com a besta da semana – o terrível chupa-cabras. Ainda assim trouxe um colorido muito especial ao personagem: dizendo em poucos segundos sobre sua cultura agroboy, sua juventude e espirituosidade. Um desafio em filmes com pouco mais de 3 minutos. Este é também o episódio mais gore da série, onde a equipe de maquiagem mais investiu em sangue falso.



Episódio 4 – O Sopro


Este não é meu curta preferido da série, mas seu argumento certamente é o mais inovador. Nunca antes eu havia visto esta relação entre Folia de Reis e o horror infantil. Só quem já viu um reizado sabe o quanto a figura dos palhaços (ou bastiões) – com suas máscaras de couro – pode ser impactante. No folguedo, a tarefa deles é proteger o menino Jesus dos soldados de Herodes, distraindo a todos com suas danças e cantorias. Para Sophia, no entanto, eles eram monstros. Terríveis monstros que tentavam entrar em sua casa. Só não entendi por que “O Sopro”.

(Nota: O diretor me explicou depois que o título se deve a uma cena que foi cortada, quando o palhaço assopraria um instrumento no rosto da menina)



Episódio 5 – O Velho do Saco


O interessante deste episódio é que normalmente vemos a história do velho do saco sempre relacionada a crianças. Alice, protagonista do curta, já é adolescente mas ainda assim é perseguida por ele o que faz este pavor do outro ganhar tons ainda mais sexualizados. Um episódio bastante concreto que lida com medos cada vez mais presentes no ambiente urbano. Um detalhe observado pelo amigo Romeu Martins é que os meninos que conversam com Alice são Caio e Mateus, do curta da Loira do Banheiro. Sophia, mencionada pela mãe, pode ser a protagonista de O Sopro.



Episódio 6 – Garoto de uma perna


Um casal de nômades tenta escapar de algo que os persegue pela mata. É o saci, que neste versão era filho de escrava feiticeira, carregando magia no sangue. Após ser preso e mutilado pelo seu “senhor”, foge para mata onde até hoje persegue quem cruza seu caminho.

Demorei a entender um pouco a escolha dos nômades como protagonistas – achei, de início, que era algum tipo de branqueamento de etnias indígenas. Fiquei feliz em descobrir que não. Ainda assim, me parece uma escolha muito distante dos demais curtas, tão calcados nas imagens de Brasil. No geral, o filme me deu a impressão de ser uma dark fantasy  universal – algo diferente ao abordar um mito tão nacional quanto o saci.



Episódio 7 – Curupira



Uma história simples. Caçadores na mata são perseguidos pelo terrível Curupira. É o episódio mais fraco para mim até agora. Os pés invertidos do Curupira convencem no plano aberto, mas no detalhe parece apenas uma pessoa andando para trás. Valia investir mais nisso. E um detalhe bobo, mas que vale pontuar: “malditos espinhos” como linha de roteiro, parece homenagem à dublagem dos anos oitenta. Em diálogos tão breves, faltou algo mais marcante.



Episódio 8 – Boto


Se o Boto cor-de-rosa normalmente é retratado como um caboclo sedutor ainda preso as anos 60, com sua roupa de malandro e inseparável chapéu coco, a versão de Imaginário não podia ser mais diferente. O Boto aqui é grave, silencioso, sua presença impõe força e respeito. Quando aparece, não precisa de muito para arrastar a cunhã para a lagoa. O resultado deste encontro será muito mais trágico do que a gravidez indesejada registrada nas lendas. Ótimo episódio.



Episódio 9 – Equino


Esperei ansioso por este episódio. A Mula Sem Cabeça, para mim, é o mito mais difícil de ser retrabalhado nos dias de hoje. A carga misógina dele, como forma de controle do feminino, é tão forte que o seu simples relato pode produzir uma narrativa leviana e anacrônica. Queria muito saber qual a escolha de abordagem Imaginário seguiria.

Fiquei triste ao ver que a série escapou desses dilemas. A incerteza sobre a mula é apenas se ela é ou não fruto dos delírios de uma mulher supostamente esquizofrênica. É o conflito entre real e fantasioso que permeia todos os mitos. Para mim faltou ousadia neste roteiro.



Episódio 10 – Sereia


O episódio que veio para encerrar a temporada, e a fecha muito bem! Repleto de referências aos demais episódios, o curta começa com os cartazes de procurados de cada um dos mitos retratados na série. O caçador aceita a missão, mas será que ele é capaz de resistir aos encantos da Iara e cumprir sua tarefa?

Detalhe para a beleza da caracterização da criatura. A iara, negra, tem pintada no torso a árvore do Imaginário. A maquiagem de escamas no braço, as unhas compridas e o azul da fotografia constroem esse belo design de monstro que é coroado com a transformação final. Parabéns a toda a equipe!




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