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terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Depois da tempestade vem a vida - Natureza

DEPOIS DA TEMPESTADE VEM A VIDA - Natureza


Um universo fascinante, povoado por pequenos e estranhos seres, reúne-se nas áreas alagadiças depois das chuvas. São milhares de espécies de insetos, moluscos, anfíbios, aves e alguns mamíferos especialmente adaptados à luta pela sobrevivência em um ecossistema extremamente frágil e fugaz. 

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Pantanal, Terra das Águas - Natureza


PANTANAL, TERRA DAS ÁGUAS - Natureza



Uma das maiores planícies do mundo não é um pântano, mas um ecossistema único: pelo tamanho, pela diversidade de suas formas de vida e pelo lugar onde fica. Sua beleza é fruto disso tudo.

Começa no mês que vem a temporada das chuvas no Pantanal Mato-grossense. Como acontece infalivelmente todos os anos, desde há pelo menos 30 milênios, um mar de água deverá se elevar lentamente, invadindo toda a planície do centro da América do Sul. As dimensões dessa inundação serão colossais. Aos poucos, 2/3 dos 150 000 quilômetros quadrados do território ficarão encharcados-uma área igual à do Estado de Santa Catarina ficará embaixo da água. Caso isso acontecesse no sul do país, seria uma tragédia de proporções inimagináveis. Mas, no Pantanal, encravado entre Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, a chegada das águas significa renovação. Sem as enchentes, a região seria um deserto. Por causa delas, ali se encontra uma das mais deslumbrantes paisagens das Américas-aproveitá-la como cenário de telenovela é o menor tributo que o homem pode lhe prestar.
Até os anos 50, aproximadamente, os cientistas chegaram a desconfiar que, no passado remoto, um mar interior cobria a região, como um enorme lago de água salgada. Quando foi avistado pela primeira vez por uma expedição branca, no século XVI, a área estava inundada e recebeu o nome de Lago dos Xaraiés. Foi uma homenagem à tribo desse nome, da família dos guaranis, com quem os exploradores fizeram contato. O lago, depois se descobriu, não existia realmente. Mesmo durante a época das cheias, muitos terrenos, que os moradores do Pantanal chamam cordilheiras, escapam de ficar embaixo da água e, por isso mesmo, ali se refugiam bois e animais selvagens. Ademais, todo ano, durante os seis meses que dura a estiagem, quase toda a planície fica descoberta. E, com a falta de chuvas, o gado chega a passar sede.
Se não foi um mar nem um lago, o Pantanal tampouco é um pântano. Pelo menos, é o que dizem os pesquisadores, que implicam com o nome com que a região foi batizada, em época incerta, pelos habitantes do lugar. Aparentemente, eles se referiam às primeiras áreas inundadas pelos rios como pantanais-e o termo pegou. "Jamais se descobriram ali os charcos estagnados ou os lodaçais traiçoeiros típicos dos pântanos", objeta o geógrafo Aziz Ab´Saber, da Universidade de São Paulo, um dos maiores especialistas em Geomorfologia brasileira, o estudo do relevo terrestre. Ab´Saber prefere chamar o Pantanal de planície inundável - "única pelo seu tamanho porque está no interior do continente e pela diversidade de domínios da natureza", enumera.
A imagem de pântanos movediços não se aplica a nenhum pedaço do Pantanal Mato-grossense. Mesmo os filmes de terror classe B, onde costumavam aparecer, exageram as suas características. Trata-se, na verdade, de pequenos afloramentos de água estagnada, resultantes do movimento do subsolo, e de difícil escoamento. Em alguns lugares, as plantas ali acumuladas transformam-se em turfeiras, depósitos de carvão vegetal que deixam o solo mole e pegajoso, como em certas regiões da Inglaterra e também no Brasil, mais precisamente no Vale do Paraíba e em Ribeira de Iguape, São Paulo. As  planícies inundáveis  são muito mais comuns. Estão presentes do Amazonas ao Rio Grande do Sul e suas áreas mais facilmente alagadas são chamadas brejos, várzeas, banhados ou vargens, conforme a região. Também são comuns pelo mundo afora.
O magnífico cenário do Pantanal, hoje se sabe, enfeita um fundo de concha situado entre as terras altas bolivianas a oeste e as serras brasileiras a leste. Há cerca de 60 milhões de anos, quando se elevaram tanto a Cordilheira dos Andes como o Planalto Brasileiro, a região do Pantanal, ao contrário, esvaziou- se. Uma malha impressionante de rios, formada pelo Paraguai e seus afluentes, despencou nesse imenso anfiteatro, vinda do norte e do leste, escavando os planaltos vizinhos e acumulando os sedimentos na planície. A região foi sendo lentamente aterrada. O Rio Paraguai, muito raso para suportar a imensa descarga que recebe de seus afluentes, ainda encontrou obstáculos ao sul, ao atravessar a Serra do Bodoquena. Ao percorrer esse assoalho liso, cuja declividade não passa de 33 milímetros por quilômetro, não tem alternativa senão transbordar.
Assim, é fácil entender por que a enchente demora para baixar-avançando cerca de 10 quilômetros por dia, leva seis meses para atravessar o Pantanal. Enquanto ainda está ganhando terreno no sul, já começa a diminuir de volume no norte. Areia, vegetação decomposta, aguapés, tudo se movimenta com a cheia. Quando ocorre a vazante e a água escorre para outras paragens, fica no lugar uma sopa de detritos na qual nascem capim, ervas, arbustos e uma infinidade de flores-um conjunto exuberante de vegetação que jamais brotaria naquele solo pobre sem a contribuição das águas. Até porque no Pantanal não chove muito. Na tórrida cidade de Corumbá, no sul da planície, por exemplo, chove menos do que em São Paulo. Esse fenômeno lembra o que ocorre no Rio Nilo, na África, cujas enchentes fertilizaram o deserto e fizeram a grandeza do Egito há 5.000 anos.
Não é preciso ir muito longe para imaginar o que seria do Pantanal sem o constante vaivém das águas. Do outro lado da fronteira, no território da Bolívia, fica uma das áreas da planície do Chaco, formada na mesma época e da mesma maneira que a planície mato-grossense. Apesar do nome, que lembra charco e por isso pode dar margem a confusão, a terra ali não é úmida, mas árida. A palavra chaco vem do idioma quíchua, ainda hoje falado pelos indígenas da região, e significa terra de caça. Na sua parte central, o Chaco é um imenso descampado, dominado por bosques baixos e vegetação de savanas. Ali não ocorrem inundações. Os poucos córregos que percorrem a planície são parcamente alimentados nas cabeceiras, localizadas nos altiplanos andinos, onde raramente chove-ao contrário do que acontece nas úmidas serras nas bordas do Pantanal, onde estão as nascentes do Paraguai e seus afluentes.
Do lado de cá da fronteira, o verde se transforma à medida que o Paraguai atravessa os 700 quilômetros de seu percurso pantaneiro. De leste para oeste da planície, o grande rio e seus afluentes passam por matas, cerrados e campos que, em alguns trechos, lembram a caatinga nordestina. Na parte sul e na borda ocidental, a vegetação se parece com a dos bosques chaquenhos. Calcula-se que durante o Período Quaternário, há 20 ou 30.000 anos, espécies de vegetação tropical e subtropical dos cerrados, do Chaco e da periferia da Amazônia disputavam o espaço enquanto os rios abriam caminho na planície. É por isso que um cientista como Fernando Flávio Marques de Almeida, da Universidade Estadual de Campinas, que trocou a Engenharia pela Geologia e estuda a região há quarenta anos, desde que se apaixonou por ela, afirma que não existe um único Pantanal na região. "São quase uma dezena, cada um com características diferentes", esclarece. A gente do lugar reconhece esses pantanais por nomes diferentes: pantanal de Cáceres, ou de Poconé, ou de Nhecolândia etc.
"Trata-se de uma espécie de mosaico, onde se interpenetram diversos ecossistemas e suas respectivas faunas", concorda outro pantanólogo, Francisco de Arruda Machado, o Chico, biólogo da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). Filho de pescadores, nascido numa vila perto de Cuiabá, Chico só podia mesmo se especializar no estudo da multidão de peixes da bacia do Paraguai. Segundo ensina, eles representam um dos elos mais importantes da riquíssima cadeia alimentar do Pantanal, capaz de sustentar animais de grande porte, em vias de extinção  em outros pontos do território brasileiro, como a onça-pintada, o lobo-guará, o tamanduá, a capivara e o cervo.
Durante a época das cheias, cardumes e mais cardumes sobem os rios para a desova, no conhecido fenômeno da piracema. Os filhotes se alimentam de microorganismos e da vegetação aquática, como os aguapés, que cobrem as áreas inundadas, ou baías, conforme se diz na região. Quando vem a vazante, muitos rios interrompem seu curso, formando uma seqüência de pequenos lagos, onde jacarés, cobras, pequenos roedores e pássaros fazem a festa. "Numa lagoa de 2 metros quadrados se encontram sessenta espécies de peixes convivendo lado a lado", contabiliza Chico, orgulhoso.
Alterar esse sistema, a conseqüência inevitável da interferência humana em larga escala na região, significa desequilibrar o ciclo de vida no Pantanal. Sabe-se, por exemplo, que o acréscimo de aguapés, provocado pelo assoreamento dos rios, e a matança indiscriminada dos jacarés, estão aumentando os cardumes de piranhas nos rios. Não existem números comparativos a respeito, mas o fato é certo. As aves -a forma de vida que mais chama a atenção no Pantanal- também estão ameaçadas. No caso, o vilão é o uso de agrotóxicos nas plantações de soja a em volta da planície. Mas a fartura de asas e plumas é tamanha que, ao menos por enquanto, ainda não há por que se preocupar.
Infinidades de aves coloridas, entre os quais espécies migradoras, habitam os viveiros pantaneiros, que às vezes cobrem mais de 1 quilômetro de bosques. Ali voam garças, araras, papagaios, biguás, maçaricos, batuíras, colhereiros -e os tuiuiús, de corpo branco e pescoço vermelho, escolhidos por sua beleza como o símbolo oficial da região. Deslumbrados com toda essa abundância, os mais entusiasmados fãs leigos do Pantanal asseguram que a região, como manancial de espécies, é ainda mais rica que a Amazônia. É e não é. Na verdade, explica o ecólogo Wellington Braz Carvalho Delitti, da USP, "as espécies da floresta são mais variadas, mas no Pantanal a quantidade é mais perceptível". 

Um mundo de cheias

No coração da América do Sul, o Pantanal Mato-grossense é uma exceção à regra da formação das planícies inundáveis. As demais surgem quase sempre junto à costa e na altura dos deltas dos rios. A bacia do Amazonas, que se estende por quase 7 milhões de quilômetros quadrados, tem épocas variadas de cheias, conforme o trecho do rio, e apenas uma estreita faixa de várzea inundada. As maiores planícies inundáveis do mundo estão na Ásia. É o caso da planície do Rio Yang Tsé, na China, que ocupa 2 milhões de quilômetros quadrados, onde existem cidades, como Xangai, cujas populações também se contam aos milhões. As enchentes do Rio Yang Tsé podem inundar centenas de quilômetros de planície. Além deste, também o Rio Huang Ho, no norte da China, forma terras inundáveis e pantanosas.
No Sudeste Asiático, o Rio Mekong inunda as planícies do Laos, Camboja, Vietnã e Tailândia, sendo responsável pela principal cultura da região: o arroz. A planície do delta do Ganges, entre a Índia e Bangladesh, também forma um dos territórios mais férteis e por isso mesmo mais populosos do mundo. Ali, a paisagem alterna plantações de chá e de arroz com florestas tropicais e pântanos. Em contraste, no norte do continente, os rios siberianos Ob, Ienissei e Lena recebem a neve e o gelo derretido dos maciços da Ásia Central e inundam uma terra menos habitada e coberta pela vegetação de tundra, antes de desaguar no Ártico. Uma das planícies inundáveis mais famosas do mundo fica no delta do Mississípi, o maior rio dos Estados Unidos, que cobre uma área superior a 3 milhões de quilômetros quadrados. Antes de desaguar no Golfo do México, forma uma malha de canais, cercados por bosques baixos, povoados por uma infinidade de aves e jacarés-agora raros.

Mau exemplo na Flórida

Corresponde apenas a 6% do Pantanal Mato-grossense. No entanto, representa a maior planície inundável dos Estados Unidos. A região de Everglades (literalmente, clareira perpétua, em inglês), quase 10 mil quilômetros quadrados no sul da Flórida, foi até o século passado um emaranhado de pequenos córregos, lagos e brejos, uma terra pantanosa, habitada por crocodilos, panteras e aves a não poder mais. Hoje, quase dois terços do território estão ocupados por plantações. Grandes cidades, como Miami e Fort Lauderdale, se assentam sobre as suas bordas; uma rede de rodovias absorve a água das chuvas. O pantanal americano ficou confinado ao Parque Nacional de Everglades, que margeia o Atlântico até a ponta da península, e a algumas áreas vizinhas, onde subsistem treze espécies de animais em extinção, entre as quais, contadas uma a uma, trinta panteras.
A água circulava nessa planície sedimentar no mesmo ritmo lento de enchentes do Pantanal brasileiro. Mas em vez de um grande rio, ali está uma cadeia de lagos, ainda existente ao sul de Orlando, terra da Disneyworld. São esses lagos que alimentam o grande reservatório de Okeechobee, considerado o coração de Everglades. Dali, a água se espalha por quilômetros, inundando uma terra baixa e de vegetação rasteira até misturar-se com o mar. Para sustentar o desenvolvimento da região, todo esse sistema foi drenado. Mas, com o tempo, o solo secou. E o suprimento de água dos 5 milhões de habitantes do sul da Flórida corre o risco de entrar em colapso. Para evitar a calamidade, planeja-se o retorno aos bons velhos tempos. Isso significa restaurar o curso original de rios e o nível dos lagos, afastar os poluentes, reconstruir estradas e desapropriar terras-uma respeitável conta de 300 milhões de dólares.

Perigos no paraíso

Mesmo os ambientalistas radicais hão de concordar que, às vezes, a intervenção do homem na natureza vem para bem. A introdução do gado no paraíso mato-grossense, nas primeiras décadas deste século, por exemplo, acabou trazendo benefícios insuspeitados. A criação extensiva preencheu milhares de quilômetros quadrados com atividades econômicas que jamais perturbaram o equilíbrio ecológico. E o terreno arenoso, que não se presta à agricultura, serve perfeitamente ao florescimento de pasto, excelente alimento para bois e outros herbívoros. A região possui poucas cidades (as maiores são Campo Grande, com perto de 400 000 habitantes, Cuiabá e Corumbá) e a maior parte do território é ocupado por fazendas pastoris, daquelas que se percorre melhor de avião, escassamente povoadas.
Outros perigos, no entanto, ameaçam este éden. Recentemente, um encontro realizado em São Paulo pela Fundação Pantanal Alerta Brasil, uma organização ambientalista, mostrou a fragilidade do equilíbrio ecológico da planície. "As terras inundáveis sofrem muito com as alterações que acontecem nas bordas da planície", acusou na ocasião o geólogo José Domingos Godoy Filho, da UFMT. "O Pantanal recebe toda a carga de agrotóxicos das plantações de soja situadas nas cabeceiras dos rios e sente seus efeitos, como a erosão, assoreamento e contaminação das águas." Além disso, a mineração, praticada na beira dos rios, já transformou trechos da paisagem idílica em verdadeiras crateras. Como também lembra o geólogo, um paulista seduzido pelo Pantanal, o mercúrio usado pelos garimpeiros para localizar ouro, depois de escapar para a atmosfera, retorna ao solo e aos rios, trazido pela chuva, contamina a natureza e envenena gente e bichos. Se isso não bastasse, descobriu-se que as queimadas realizadas nos cerrados do Brasil Central elevam a níveis alarmantes a concentração de gás carbônico na atmosfera do Pantanal, durante a estação seca. Como se sabe, o gás carbônico, resultante do fogo ou da combustão de derivados de petróleo, é um dos maiores causadores do efeito estufa. Como acontece em Porto Velho, a capital de Rondônia, por causa dos gigantescos incêndios provocados pelo desmatamento da Amazônia, também em Cuiabá, no Mato Grosso, que fica ao norte do Pantanal, a fumaça das queimadas obrigou várias vezes ao fechamento do aeroporto por falta de visibilidade.
No encontro de São Paulo, os cientistas brasileiros que defendem uma ocupação menos predadora do Centro Oeste, como uma forma de evitar a destruição da paisagem do Pantanal, contaram com o apoio de um ilustre colega americano. O biólogo Estus Whittfield, diretor da área de meio ambiente do governo da Flórida, comparou a região de Everglades, no seu Estado, ao Pantanal Mato-grossense. Segundo explicou, a ocupação do pântano de Everglades causou tamanho problema no abastecimento de água do sul da Flórida que hoje os americanos estão gastando cerca de 300 milhões de dólares para curar as dores de cabeça que o desenvolvimento trouxe à região. "Se eu lhes contar a nossa história, vocês não vão querer cometer os mesmos erros", ofereceu-se Whittfield. Resta esperar que os brasileiros estejam dispostos a ouvir.

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sexta-feira, 13 de abril de 2012

Caraguatás: Beleza e Perigo

CARAGUATÁS: BELEZA E PERIGO



Eles formam um verdadeiro pântano no alto das árvores e abrigam muitas espécies de seres vivos, entre eles os mosquitos que transmitem muitas doenças perigosas. Por isso os sanitaristas repetem: lugar de caraguatá é na floresta.

Diariamente chegam às cidades, sobretudo nos Estados do Sul, grandes quantidades de caraguatás, ou bromélias, trazidas por vendedores de plantas ornamentais que as arrancam na mata. Eles entraram na moda porque produzem flores de forte colorido e são, sem dúvida, muito bonitos. Mas convém ter cuidado com os caraguatás - sobretudo os de origem silvestre. Eles possuem a original capacidade de viver sobre outras plantas- daí seu nome científico epífitas-e podem ser hospedeiros de larvas de mosquitos capazes de transmitir inúmeras moléstias, desde a malária às viroses responsáveis por alguns tipos de encefalites.
Isso deixa bem claro que lugar de caraguatá é no mato - lá, ele é imprescindível para garantir o equilíbrio ecológico de toda a região. E no desempenho desse papel eles são, realmente, fantásticos. "Nas florestas tropicais da América existem verdadeiros pântanos suspensos sobre as árvores", escreveu um biólogo francês depois da descoberta para ele surpreendente: uma variedade enorme de animais aquáticos, típicos habitantes de pântanos e lagoas, consegue viver a 30 metros de altura, junto às copas das árvores. Desde microscópicos protozoários e larvas de insetos até pequenos vertebrados, como os sapinhos arborícolas, sobrevivem naquela altura graças a pequenas quantidades de água de chuva ou de orvalho acumuladas pelos caraguatás.
São poucos os litros de água que uma planta dessas pode reter, mas existem centenas de milhões (isso mesmo: centenas de milhões) de caraguatás povoando os galhos das árvores em grandes extensões de florestas. Na Mata Atlântica, em apenas uma árvore é possível encontrar até quinhentos caraguatás, cada qual com enorme quantidade de seres abrigados entre as folhas. Somando todas essas unidades obtém- se o que muito apropriadamente aquele biólogo chamou "um pântano suspenso?".
É grande a variedade de plantas que servem de criadouro para pequenos animais, mas poucas conseguem hospedar uma fauna tão abundante e diversificada como os caraguatás. Suspensos nas árvores, eles não abrigam apenas seres aquáticos. Em suas folhas podem ser encontrados também inesperados habitantes ao solo e até do subsolo da floresta.
É que, além da água, uma boa quantidade de folhas caídas fica retida pelo caraguatá e todo esse material se decompõe lentamente, transformando- se num húmus muito semelhante ao do solo. Ele serve de residência para aranhas, besouros, centopéias, lesmas e até mesmo minhocas. Assim, não foi apenas o pântano que ficou suspenso com os caraguatás: eles levaram para o telhado da floresta um pouco de seu chão e outro pouco do seu porão. Do ponto de vista ecológico, os caraguatás conseguiram, literalmente, virar a mata de cabeça para baixo.
É claro que isso tudo não aconteceu de uma hora para outra. Foram necessários alguns milhões de anos para que a família botânica das bromeliáceas-que engloba as bromélias e os ananases, ou abacaxis - produzisse espécies capazes de viver sobre as árvores. Distanciando - se do solo, essas pioneiras ficaram impossibilitadas de absorver, pelas raízes, a água e os sais minerais, como faziam suas ancestrais terrestres. E, se realizaram a façanha de conquistar o topo da floresta, foi porque já contavam com algum mecanismo capaz de solucionar esse problema vital.
Pelo menos um grupo de bromeliáceas primitivas já dispunha de uma "inovação' evolutiva para substituir a convencional raiz absorvente. Entre elas, a coleta dos nutrientes passou a ser feita por células altamente especializadas, agrupadas nas bases das folhas. Com o acúmulo de água e de restos vegetais em suas cavidades interfoliares, a bromélia absorve diariamente, através dessas células, uma rica sopa de matéria orgânica. Uma vez independente do solo, a planta utiliza as raízes como elemento de fixação, fazendo-as abraçar os galhos das árvores. Por isso muitos acreditam, erradamente, que elas são parasitas das outras plantas.
As bromeliáceas formam o que se pode chamar uma grande família. Pelo menos metade dos seus membros são epifíticos, ou seja, vivem aferrados aos troncos e galhos das árvores. Algumas mais abaixo, no tronco, outras mais acima, na copa, conforme as exigências de luz e umidade de cada espécie. Exatamente por ocuparem diversos níveis- ou patamares-no meio da floresta, elas oferecem muitas opções de hospedagem. Nos pequenos reservatórios de água das folhas centrais podem ser encontradas muitas espécies de algas, desde que a bromélia pertença a uma espécie habitante dos galhos mais altos, onde a luz é mais intensa.
A proliferação das algas proporciona uma rica fonte de alimento para inúmeras espécies de insetos cuja primeira fase de vida é essencialmente aquática. Não fosse pela presença dos caraguatás, essa fauna jamais poderia viver no interior das florestas, principalmente as que cobrem as encostas das serras, onde o solo íngreme raramente permite que a água se acumule. O significado ecológico disso é assombroso. Essas plantas assumem o papel de verdadeira ponte entre dois ambientes que, sem elas, ficariam separados por uma barreira que esses pequenos animais não conseguiriam atravessar.
Isso acontece especialmente na Mata Atlântica (do Rio Grande do Sul ao Espírito Santo), que recobre a encosta das serras entre o litoral e o planalto atlântico e as planícies costeiras. Para as espécies capazes de suportar as severas variações de temperatura das regiões serranas, os caraguatás abriram uma excelente estrada de ligação entre o planalto e as baixadas litorâneas.
Entre os incontáveis seres vivos que podem ser encontrados nos caraguatás há alguns que representam um grande perigo potencial: mosquitos capazes de transmitir a malária. Isso chegou a constituir um problema muito sério, em alguns lugares, e acabou provocando a destruição maciça dos caraguatás em uma enorme região. Hoje, essa solução é considerada mais um grande crime contra o meio ambiente, por uma razão muito simples: os caraguatás são plantas indispensáveis à manutenção do equilíbrio ecológico da Mata Atlântica.
E não apenas porque servem de abrigo para uma infinidade de seres minúsculos e de bebedouro natural para muitos animais da floresta. As pesquisas revelaram que os macacos da Mata Atlântica obtêm uma indispensável dieta de proteínas comendo insetos, aracnídeos, lesmas, caracóis, minhocas e girinos (larvas de sapos). E é entre as folhas dos caraguatás que eles capturam suas refeições. Da mesma forma que os pássaros insetívoros e os beija-flores, que neles encontram o seu suprimento diário de néctar.
Deve-se observar ainda que a erradicação dos caraguatás para combater a malária em uma determinada região não garante resultados a longo prazo. Pois tanto as plantas quanto os mosquitos possuem um elevado poder de recuperação, mesmo depois de terem sido dizimados. Por maior e mais perfeita que tenha sido a erradicação, depois de alguns anos o trabalho deverá ser repetido em toda a extensão da floresta, porque plantas e mosquitos já terão retornado ao seu ambiente natural. E se é verdade que alguns locais, no Sul do Brasil, livraram-se definitivamente da chamada bromélia- malária, isso não se deveu à simples erradicação das plantas mas ao fato de que eles sofreram um quase total desmatamento. Sem árvores onde possam enrolar suas raízes, os caraguatás não conseguem recuperar- se. Em compensação, lentamente eles vão conquistando espaços nas grandes cidades. Em São Paulo, por exemplo, existem bairros onde a febre de decorar os jardins com caraguatás já se espalhou. Se fosse possível reunir todas aquelas plantas ornamentais dentro de um único parque faríamos, sem dúvida, um considerável "pântano urbano".

Nosso Vietnã ecológico

Mais de 400 milhões de caraguatás foram destruídos em Santa Catarina, no final da década de 40, a fim de controlar a malária naquele Estado. A informação foi publicada pelo padre Raulino Reitz, um especialista em bromélias, na revista Ciência Hoje, da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Esse verdadeiro "massacre botânico" foi classificado pelo professor Mário Guimarães Ferri, da Universidade de São Paulo, como "fruto de despreparo ou de enfoque unilateral do problema (saúde pública) por uma distorção profissional perfeitamente compreensível e difícil de corrigir". Mas talvez a incrível denúncia de Reitz seja apenas a ponta do iceberg numa controvertida e lamentável investida contra a Mata Atlântica.
Na guerra contra os caraguatás não foram usadas apenas as armas convencionais - desmatamento e coleta manual-como informou o articulista. Saíram a campo aviões e helicópteros, despejando produtos químicos sobre as selvas litorâneas numa empreitada sem precedentes na história da saúde pública no Brasil. Havia um "modelo importado" inspirando aquela articulação. Uma experiência bem-sucedida fora realizada pelos americanos em Trinidad (Venezuela), que ali exterminaram os caraguatás nas plantações de cacau. Acontece que se tratava de Plantas criadas em matas artificiais que ali estavam apenas para sombrear as plantações de cacau. Os trabalhadores estavam em contato direto com elas e assim se exigiam drásticas e rápidas medidas de saneamento. No Brasil, ao contrário, o veneno foi lançado sobre matas nativas e restingas de pouca ou nenhuma ocupação humana.
Outro trabalho, publicado em 1956 na Revista Brasileira de Malariologia e Doenças Tropicais, apresenta o resultado de apenas um ano de borrifações: mais de 100 milhões de caraguatás destruídos. Ignorando a tese de que naquelas circunstâncias uma eficiente campanha de saúde pública poderia ser conduzida pelo fornecimento de telas, mosquiteiros, pequenos desmatamentos em torno das habitações e, principalmente, pelo emprego do inseticida DDT, os devastadores ataques aéreos cumpriram sua terrível missão.
Teria sido apenas uma questão de despreparo e distorção profissional dos sanitaristas, como sugere o professor Ferri? Talvez. Mas na mesma revista há uma estarrecedora explicação para o emprego do veneno conhecido como verde-paris: "Era um inseticida básico na época do combate às formas aquáticas dos anofelinos transmissores de malária. Com o advento do DDT, o combate a esses mosquitos passou a ser feito quase exclusivamente contra a fase alada. Ao se proceder a essa mudança, as entidades empenhadas em campanhas antipalúdicas possuíam grandes estoques de verde-paris. Em nosso serviço, só no almoxarifado da diretoria existiam 30 toneladas, fora o que estava distribuído pelos setores. Nessas condições, não é justo que se pense em outro herbicida, enquanto não terminar todo esse estoque".
Tal como acontece nas grandes guerras, jamais saberemos a verdadeira extensão do desastre ecológico causado pela guerra aos caraguatás. A única certeza é que milhares de pássaros e animais mamíferos silvestres adoeceram e morreram em conseqüência da ingestão de insetos e águas envenenadas. O que restou das florestas ficou privado do seu componente fundamental: alguns agentes polinizadores específicos, responsáveis pela reprodução de uma enorme variedade de plantas. Como saldo positivo restou apenas uma lição simples, amarga e antiga: a extinção é para sempre.