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segunda-feira, 1 de julho de 2013

AIDS Hoje - Saúde


AIDS HOJE - Saúde



Os aidéticos já dispõe de novas e eficientes armas para defender sua vida: dois novos medicamentos estão chegando ao mercado para ajudar o AZT a evitar a derrocada do sistema imunológico. Mas ainda falta muita pesquisa para que a guerra seja vencida.

Será que a Aids é provocada única e exclusivamente por um vírus? Os cientistas admitem: a dúvida não é nova. Mal o HIV foi isolado em células de aidéticos e acusado pela ruína do sistema imunológico desses pacientes, ainda em 1984, alguns pesquisadores já começaram a questionar se o microorganismo seria, de fato, responsável sozinho pela doença. Até recentemente, essas discussões costumavam acontecer entre as paredes dos laboratórios. Mas, há dois meses, o próprio descobridor do vírus réu, o francês Jean-Luc Montaigner, resolveu divulgar suas suspeitas de que talvez o HIV não agisse isolado. Existiriam comparsas ou co-fatores, como preferem os especialistas. Há quem acredite que o pesquisador foi forçado a se manifestar diante de outras declarações, bem mais polêmicas - as do alemão Peter Duesberg, há 23 anos professor de Biologia molecular na Universidade da Califórnia, Estados Unidos.

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Resposta Errada - Alergia


RESPOSTA ERRADA - Alergia



Quando o organismo exagera ao defender-se de um agente externo, o resultado é a alergia, um mal que aflige uma em cada dez pessoas e contra o qual começa a nascer uma geração de potentes remédios.

Os inimigos se encaram, fazem uma pausa e partem para o primeiro combate de uma guerra sem-fim. De um lado, células do sistema imunológico; de outro, substâncias inofensivas à maioria das pessoas, mas que para a minoria são veneno: nelas, o arsenal de defesa é tão numeroso que acaba deixando em ruínas os campos de batalha do organismo. Uma em cada dez pessoas é vítima da situação, o que classifica a alergia como a sexta maior doença em incidência. Não há saída, o mundo é mesmo cheio de pólen, pó, pêlos, produtos químicos - em todo lugar, a qualquer momento, algo pode detonar uma crise. A Medicina auxilia como pode, aliviando os sintomas. Pois as pesquisas só muito recentemente desvendaram as estratégias dos ataques de alergia, permitindo traçar caminhos para terapias mais eficazes.
A explosão de novas descobertas com certeza fará diferença, no futuro, para os cerca de 177 mil brasileiros alérgicos que devem nascer ao longo deste ano. Talvez eles nem venham a sentir na pele o peso dessa herança. 
Sim, é de herança que se trata, porque o comportamento anormal das células imunológicas tem raízes familiares - e por isso pode ficar latente. Com pais alérgicos, uma pessoa tem 50 por cento de chances de um belo dia ser surpreendida, por exemplo, pelo desejo compulsivo de se coçar após comer uma salada de tomates; quando só o pai ou a mãe tem o problema, a chance se reduz a um quarto. No entanto, o padrão herdado nem sempre é seguido à risca. Filho de quem é alérgico a chocolate devora às vezes bombons impunemente. Mas pode ficar literalmente sem fôlego pelo perfume da mãe.
Seus genes, afinal, não trazem o retrato falado de um inimigo da família, mas a predisposição para fabricar armas específicas contra estranhos que por si só fazem mal à saúde. Essas armas são, na verdade, um tipo especial de anticorpo - chamado imunoglobulina E ou simplesmente IgE - descoberto na década de 60 por um casal japonês, Kimishige e Teruko Ishizaga, que então cursava Medicina nos Estados Unidos. Como as IgE, produzidas por certos glóbulos sangüíneos, eram dez vezes mais numerosas em pessoas alérgicas, os pesquisadores perceberam que, nesses casos, alguma culpa elas deviam ter pelo tremendo engano que comete o sistema imunológico ao engalfinhar-se com o que habitualmente não incomoda a grande maioria das pessoas.
O comportamento diferente do sistema de defesa, aliás, inspirou o austríaco Clemens von Pirquet (1874-1929), o inventor do teste de tuberculose, a criar a palavra alergia, do grego allos (outros) e erguia (reação). Mas o termo tinha um sentido muito vago, pois englobava desde a saudável vermelhidão que indica a eficácia de uma vacina até as lesões de pele ou pruridos que certas pessoas manifestam ao tomar um inocente suco. Por isso, nos anos 50, o nome passou a definir apenas as reações negativas do organismo. Mas ainda se acreditava que os sintomas alérgicos eram causados por falhas nas defesas orgânicas, como se, paradoxalmente, elas conseguissem lidar com micróbios insidiosos e vacilassem diante da inevitável presença de pó.
A descoberta da IgE, portanto, colocaria as pesquisas no eixo: ou seja, demonstrou-se que a alergia não é típica dos organismos indefesos, mas dos intolerantes, que compram briga por qualquer bobagem. A luta nunca se trava de imediato. Ao cismarem com determinada substância, então promovida a alérgeno -, passa-se um tempo durante o qual cada encontro com o inimigo estimula a produção das IgE. Com sua forma em "Y", elas fincam suas hastes em basófilos, células existentes no sangue, ou em mastócitos, células que se encontram ali onde o corpo humano se abre para o mundo, ou seja, na pele, nos canais do aparelho respiratório, nos caminhos do aparelho digestivo.
Após vários encontros já se forma um batalhão em torno dessas células, todas recheadas de pequenos grãos, os mediadores, assim chamados porque intervêm em diversas reações fisiológicas. Com o exército de IgE a postos, os contatos seguintes com o alérgeno não serão nada diplomáticos. Os alérgenos serão atraídos para os anticorpos; ao se unirem, alterações químicas agirão como se disparassem uma granada, explodindo as células que serviam de guarita. Voam mediadores por todos os lados. Conforme o local do acidente, tem-se uma reação tóxica: no nariz, os grãos provocam a coriza; nos pulmões, contraem os brônquios, causando a asma; nos olhos, irritam até levarem às lágrimas; na pele, fazem as misérias das urticárias.
Os mediadores costumam ser liberados em quantidades mínimas. A histamina, o mediador mais conhecido, serve para manter normais as condições de pressão e temperatura. Em dias muito frios, o nariz vermelho e inchado que compõe o visual de quem se arrisca a longas caminhadas denuncia a sua ação. A finalidade não é deixar ninguém com cara de palhaço: com o seu poder de regular o tônus dos vasos sangüíneos, a histamina faz com que estes se alarguem quando o ar está abaixo dos aproximadamente 37 graus que os pulmões apreciam; assim, o inchaço dificulta a passagem da corrente fria pelas vias aéreas, dando um tempo maior para o ar se aquecer no corpo.
As placas vermelhas estampadas na pele com urticária, do mesmo modo como o inchaço, resultam de uma ação semelhante, mas aí provocada pela inundação de histamina nos tecidos, após o vazamento dos mastócitos. "Quem aparece no local errado sempre acaba fazendo bobagem. É o caso dos mediadores nas alergias", compara o alergista Charles Naspitz, da Escola Paulista de Medicina. Levada a extremos, a bobagem pode custar a vida: quando todos os tecidos do corpo estão sensibilizados em relação a certo alérgeno, uma quantidade ínfima deste é suficiente para espalhar histamina da cabeça aos pés; os vasos aumentam a ponto de a pressão cair a zero e o sangue perder o embalo para continuar circulando; a garganta, como todo o resto do corpo, incha por dentro, fechando a entrada para o ar. Este conjunto de sintomas caracteriza o choque anafilático, um caso fatal em cada milhão de casos de alergia.
Se todo mal, porém, fosse a histamina, as alergias já teriam remédio há mais de cinqüenta anos, quando foram descobertos os anti-histamínicos - substâncias que encostam nas células nos pontos exatos em que o mediador costuma se encaixar para realizar alterações químicas. Os remédios anti-histamínicos têm apenas um defeito: no cérebro, a histamina ajuda a manter-nos acordados; ao bloqueá-la ali, alguns anti-histamínicos provocam sonolência. "A reação varia conforme o organismo", observa o alergista Naspitz na própria família. "Minha filha dorme o dia todo se tomar uma única dose; já o irmão não sente nada."
Farmacologistas americanos criaram há cinco anos moléculas de anti-histamínicos que não atravessam o cérebro e, portanto, livram os pacientes dos bocejos. No entanto, segundo Naspitz, embora seja um avanço importante, os velhos remédios ainda são o melhor alívio para os casos de coceiras. Sedantes ou não, os anti-histamínicos funcionam em dois terços das alergias. Isso porque a histamina só merece o cartaz que tem em questões de pele. Nas alergias respiratórias, por exemplo, seu nome se perde numa lista de quinze a vinte mediadores em ação.
Entre estes, nos episódios de asma em particular, rouba a cena o PAF (sigla em inglês de "fator ativador de plaquetas"), que uma equipe do Instituto Pasteur, em Paris, comandada pelo farmacologista brasileiro Bernardo Boris Vargaftig, provou desempenhar três papéis de destaque (SI nº 8, ano 2). A descoberta é, sem dúvida, o mais recente capítulo na pesquisa sobre asma, problema que representa cerca de metade dos casos totais de alergias. Para se ter idéia, uma em cada dez crianças levadas aos prontos-socorros paulistanos sofre de crises asmáticas.
A doença também tem um custo social. Segundo estatísticas dos Estados Unidos, onde há mais de 10 milhões de asmáticos, as crises causam 8 milhões de faltas ao emprego e 130 milhões de ausências na escola, por ano. Descoberto ainda em 1972 pelo cientista francês Jacques Benveniste, o PAF só teve suas propriedades reveladas a partir do momento que a equipe chefiada por Vargaftig resolveu estudá-lo. "O PAF tem funções chocantes",  conta o cientista. De fato, a substância liberada pelas células basófilos está presente em processo tão diversos quanto úlceras, rejeição de transplantes e problemas oculares.
Liberado graças ao alérgeno, na asma o PAF demonstra sua nefasta versatilidade. Seu efeito imediato é o de contrair os brônquios, o que Vargaftig provou aplicando a substância em cobaias e conseguindo com isso simular crise asmáticas. O pior é que o PAF também prepara o terreno para outras crises. Hoje se sabe que as chamadas crises tardias podem ocorrer quando a raiz de todo o mal - o alérgeno - nem está mais por perto. É que o PAF desencadeia um efeito cascata, convocando células ligadas a processos inflamatórios que, por sua vez, atraem outras até que, entre as recrutadas, chegam aos pulmões substâncias irritantes. Reagindo à agressão, os brônquios voltam a se contrair, numa crise tardia.
De seu lado, percebendo a contração, o cérebro pode exigir o comparecimento de mais células inflamatórias - é uma bola de neve. O PAF convoca também os eosinófilos, que correm no sangue. Essas células, que combatem parasitos como as lombrigas, soltam tóxicos que lesam as mucosas pulmonares. Eis porque os asmáticos tossem por qualquer coisa, embora nem toda asma seja alérgica: além das mucosas fragilizadas, os brônquios, também por causa do PAF, ficam cobertos por camadas mais espessas de muco, o que impede seus cílios de se movimentarem para se livrar de partículas estranhas.
"Se alguém tem um acesso de asma quando outro acende um cigarro, o alérgeno pode nem ser a fumaça. Pois a partir de certo ponto o pulmão fica sensível a quase tudo", explica o médico Júlio Croce, da Universidade de São Paulo, que há mais de trinta anos estuda o assunto. Descobrir o verdadeiro culpado é fundamental, porque a única cura comprovada para uma alergia é ficar longe do alérgeno.
O diagnóstico é realizado em clima detetivesco. O médico investiga os hábitos do paciente para levantar alguns suspeitos e testá-los na vítima. Mas, mesmo que uma substância provoque, por exemplo, uma irritação ao ser injetada sob a pele, o fato em si não é prova suficiente para acusá-la. Afinal, a pessoa pode ter anticorpos contra algo - daí a reação -, sem que esse algo seja o responsável pelos acessos de espirro ou pelo ardor nos olhos. Por via das dúvidas, o suspeito número 1 é afastado da vida do doente. Ainda que os sintomas desapareçam com a medida, os testes devem ser repetidos algumas vezes para se descartar a hipótese de coincidência. Identificado o alérgeno, pode-se tentar o uso de vacinas, na esperança de tornar o organismo inacessível a sua presença. Para Croce, quem passa as férias na praia conhece o mecanismo do tratamento por intuição.
"Os insetos", diz ele, "parecem castigar apenas os turistas, porque a maioria dos caiçaras não fica com os sinais inchados das picadas. Na verdade, o organismo deles pode ter se acostumado com as toxinas desses insetos." Contudo, nem sempre as vacinas cumprem seu papel: após anos de paciência, uma pessoa alérgica pode descobrir que nada faz seus anticorpos desistirem da luta. Existem pessoas que, por azar, tornam-se alérgicas a substâncias com as quais são obrigadas a lidar no trabalho. O mais grave, no entanto, é que algo como oito em dez pessoas com rinite ou asma são alérgicas ao pó domiciliar - ou, mais precisamente, reagem às fezes de seres microscópicos, os ácaros, primos distantes das aranhas.
Como cada grama de pó contém 5 mil desses invisíveis insetos, e 2 milhões deles dividem o espaço do leito com um casal, todo mundo os culpava pelas alergias, até que no início deste ano um cientista australiano provou que as fezes dos germes têm substâncias alérgenas muito mais potentes. "Isso explica porque boa parte dos extratos de alérgenos do corpo dos ácaros não funcionava bem para testes, muito menos para vacinas", esclarece o patologista Domingos Baggio, da Universidade de São Paulo.
Há dez anos, por mera curiosidade, ele foi conhecer os " tais ácaros", através das lentes de seu microscópio. Interessado, passou a dedicar tempo integral ao bichinho. A certa altura, o professor resolveu montar um aparelho para obter extratos de alérgenos de ácaros. A idéia é que quanto mais puros forem esses concentrados, mais eficazes serão. Os sofisticados equipamentos dos centros de pesquisa do hemisfério norte chegam próximo, mas não alcançam a perfeição. Por isso, Baggio ficou muito surpreendido quando o americano Thomas Platts-Mills, considerado maior acarologista do mundo, o procurou para saber como havia conseguido extratos 100 por cento puros de oito alérgenos de ácaros. Com jeito tranqüilo, o professor de 63 anos e cabelos grisalhos pisca os olhos: "Deixei que morresse de curiosidade. E também porque nem tive tempo para tirar patente". 
Os extratos já estão sendo testados até na Finlândia, onde, aliás, a necessidade de boas vacinas é grande: prova de que alergia é hereditária, ali 65 por cento da população é alérgica a pó. Engraçado mesmo será quando se descobrir em que consiste o famoso equipamento de Baggio:  entre as principais peças figuram potes de creme de leite. Baggio, porém está mais entusiasmado em revelar outro segredo. Por muito tempo os cientistas buscaram a causa de certas dermatites crônicas relativamente comuns, que parecem pruridos nas dobras do corpo, como cotovelos, joelhos, calcanhares.
Junto com o professor Júlio Croce, Baggio colecionou novecentos casos, nos últimos oito anos, mostrando que a alergia nada mais era do que o ácaro atacando outra vez num território bem diferente dos pulmões. "Passaram na nossa frente", lamenta o pesquisador, pousando um livro em inglês sobre a mesa. Baggio encomendou a obra recém-publicada por acaso, sem saber direito o conteúdo. E, para sua surpresa, a autora, uma cientista holandesa, provava a mesma tese sobre as dermatites. Com uma diferença: não reuniu mais de trezentos casos. Mas Baggio conhece o motivo do comportamento anormal dos ácaros: por razões diversas, eles não conseguem encontrar comida no ambiente e começam a mordiscar o corpo humano. "Isso ninguém publicou", revela o professor, como se tirasse uma carta da manga.
Quanto mais se conhece a intimidade dos processos alérgicos, maiores são as chances de vencê-los. Assim como as revelações sobre os ácaros levam a vacinas mais eficientes, a descoberta do PAF faz surgir substâncias capazes de anular seus efeitos, liquidando o mal da asma. Alguns desses antiPAFs, atualmente em testes clínicos, podem chegar ao mercado em dois ou três anos. Os cientistas também buscam bloqueadores de íons de cálcio, pois provavelmente é a passagem desses íons, dos anticorpos para o interior dos mastócitos, que detona a explosão dos mediadores, tipo histamina. Remédios como esse cortariam os sintomas das alergias.
O reverso dessa esperança é a evidência estatística de que o número de alérgicos dobrou na última década, de acordo com estudos europeus. Não é certo que o suspeito mais fácil, a poluição, seja realmente o culpado. Certo é que a síntese de novas substâncias praticamente todos os dias aumenta o rol dos alérgenos. Por isso os produtos deveriam especificar todos os ingredientes que contêm. Quando se afirma que apenas 2 por cento das alergias são causadas por alimento, não se sabe se a porcentagem baixa é conseqüência da ignorância em relação ao conteúdo de um enlatado ou de uma garrafa de refrigerante - algo que a legislação brasileira, por exemplo, não obriga a indústria a divulgar. Mesmo em relação a remédios, nunca se sabe: a bula de uma pomada para alergias especifica os princípios ativos e fornece apenas a porcentagem de excipiente. Por excipiente, porém, pode se entender um complexo de até vinte substâncias. Quem usa a pomada para tratar de uma urticária pode ironicamente ser alérgico a uma delas.

Idéias irritantes

A hipótese de ser surpreendido por uma crise alérgica não é exatamente agradável. Por isso, alguns acham que todo cuidado é pouco e acreditam piamente em mitos como estes: 

Alergia não tem cura
Pode ter, sim. Na teoria, manter-se longe do alérgeno por muito tempo pode fazer com que o organismo o esqueça, não produzindo anticorpos no reencontro. Na prática, isso foi observado apenas em crianças - poucas vezes, diga-se -, talvez porque seu sistema imunológico ainda esteja em desenvolvimento.

Pêlos provocam alergias respiratórias
Grande demais para ser aspirado, o pêlo leva a culpa por outras substâncias: cães e gatos, por exemplo, ao lamber-se deixam proteínas da saliva e mesmo caspinhas de sua pele no ambiente. Estas, sim, podem ser alérgenas.

Em casa de pessoas alérgicas a pó, os tapetes devem ser limpos com mais freqüência
Em casas de pessoas alérgicas a pó não pode haver tapete nem carpete. Pesquisas realizadas há poucos meses na Universidade de São Paulo mostram que após meio ano de uso o achatamento das fibras cria um refúgio seguro para os ácaros, os microscópicos bichos do pó. Dali, não há aspirador nem pano úmido que os arranque.

Crises de asma num momento difícil são chantagem emocional
Estresse e reações emocionais fortes efetivamente desencadeiam, por mecanismos desconhecidos, a liberação de mediadores - mas só em pessoas já alérgicas.

Gripe mal curada pode virar asma
Como o nariz de quem sofre de rinite alérgica vive escorrendo, confunde-se o problema com uma gripe que custa a passar. Eventualmente, a histamina liberada pelos mastócitos do nariz chega aos pulmões e irrita os brônquios - daí a asma. Mas isso ocorre nos casos de rinite.


sábado, 28 de janeiro de 2012

A outra Síndrome - AIDS

A OUTRA SÍNDROME - AIDS



Os efeitos sociais da AIDS revelam-se tão complexos como a própria enfermidade. Desde as campanhas educativas à exigência dos testes, todo um rol de problemas inesperados entra na ordem do dia. Uma coisa é certa: a doença mexe com a vida de todos.

Sete anos depois de ter sido identificada pela Medicina e de já ter provocado pelo menos 40 mil óbitos, a AIDS (Síndrome de Imunodeficiência Adquirida) derrama pelos quatro cantos do mundo uma variedade de conseqüências sociais tão complexas quanto a própria doença. De uma forma ou de outra, nas sociedades atuais ninguém está imune aos reflexos da AIDS nas relações humanas. "O problema da moléstia é muito maior do que aparece nas estatísticas de saúde", afirma Jonathan Mann, do alto de seu posto de observação como diretor do Programa Global da AIDS, da Organização Mundial da Saúde (OMS). "Existem implicações econômicas, comportamentais e demográficas que devem ser atendidas para atenuar o impacto pessoal da doença" adverte.
Foi com esse espírito que 1 milhão de delegados de 63 países e entidades internacionais como a OMS se reuniram recentemente em Londres para tentar montar o quebra-cabeça dos efeitos extraclínicos da AIDS. E, à medida que foram juntando as peças, começaram a enxergar os contornos de uma paisagem acidentada como poucas. Nela ressalta, por exemplo, o intrincado problema da linguagem, alcance e, em última análise, eficácia das campanhas de prevenção: como saber se elas estão ajudando de fato a conter a difusão de uma doença que - além de ser mortal e esconder ainda muitos segredos dos cientistas -tem a perversa peculiaridade de se manifestar só seis ou sete anos em média após o contágio?
Outro nó está na delicadíssima questão das tentativas (por parte de corporações e governos) de tornar obrigatórios os testes que identificam no organismo a presença dos anticorpos ao HIV, o vírus da AIDS: em que medida tais exigências podem configurar uma agressão aos direitos individuais e até que ponto têm alguma utilidade real? A reunião de Londres serviu também para confirmar que, assim como pode variar enormemente por país a proporção de doentes (por exemplo 2 por 100 mil habitantes na Alemanha e 20 por 100 mil nos Estados Unidos), também varia de país para país a escala dos problemas ligados à AIDS. Assim, enquanto na França o governo tem algum controle sobre 99 por cento do sangue usado em transfusões, no Brasil a fiscalização mal e mal cobre 50 por cento-uma carência que não pode ser subestimada, dado que as doações de sangue contaminado são uma das principais rotas de propagação da AIDS.
Mas, se com dinheiro e empenho os governos podem virtualmente acabar com o contágio por transfusão, muito dificilmente podem enquadrar as demais formas de transmissão, que, afinal de contas, de pendem exclusivamente do comportamento de cada um. "E nisso não se interfere sem tocar na liberdade individual", observa a médica Lair Guerra de Macedo Rodrigues, que representou o Brasil no encontro de Londres na condição de coordenadora do Programa Nacional de Controle da AlDS do Ministério da Saúde. "Neste particular, todos os países pisam o mesmo terreno escorregadio", constata.
O que torna o chão tão liso é o fato de se estar mexendo com um dos impulsos mais fundos do ser humano, a sexualidade-algo que, como na canção de Chico Buarque, "não tem juízo nem nunca terá". As obscuras leis que governam a conduta sexual de cada um às vezes se divorciam não só da moral sexual vigente como também dos mais razoáveis mandamentos do bom senso. Se a AIDS fosse tudo o que é, mas nada tivesse a ver com sexo, como tantas outras moléstias transmitidas por vírus, seria muitíssimo mais fácil apostar na racionalidade das pessoas como garantia contra a sua propagação. Para piorar ainda mais as coisas, a grande maioria dos transmissores da AIDS são pessoas clinicamente sadias-aquelas que (sem saber) carregam o vírus HIV mas ainda não apresentam os sintomas que ele provoca. Pelos melhores cálculos, existem para cada aidético entre 50 e 100 portadores do vírus. Isso significa que, se existem atualmente cerca de 80 mil casos notificados no mundo inteiro, a população de portadores pode chegar a 8 milhões. Mesmo que esses futuros doentes se distribuíssem mais ou menos por igual por uma centena e tanto de países, o mero porte de um número como aquele indica o tamanho do problema com o qual a humanidade terá de conviver antes que as esperadas mudanças de comportamento sexual se reflitam nas estatísticas (o que ainda é uma incerteza) e antes que a ciência descubra a cura ou a vacina para a AIDS (o que ainda vai demorar).
Em 1982, data das primeiras contas da OMS, os 366 casos da época haviam aparecido em dezenove países, incluindo o Brasil, com seis doentes. Hoje, a AIDS está em todos os continentes e em pelo menos 128 países. (Não se sabe, a rigor, se existe algum país sem AIDS; o que existe são países que não fornecem informações sobre o assunto.) No Brasil, com quase 3 mil aidéticos conhecidos e talvez outros 2 mil não registrados, o Ministério da Saúde estima em até meio milhão o número de possíveis portadores. A rapidez com que o vírus deu a volta ao mundo induziu alguns países a tentar barrar-lhe o caminho por meio de providências que em alguns casos deixaram à mostra uma face preconceituosa.
Na Índia (nove casos contabilizados) e na União Soviética (cinco) ninguém entra sem um teste anti-HIV negativo. Há pouco tempo, a cantora Alcione e os dezoito músicos que a acompanham precisaram submeter-se ao teste antes de viajar para uma temporada de shows na URSS. Mas nem sempre todos são iguais perante a AIDS-ou perante certos governos. A Bélgica, por exemplo, obrigou ao teste os quase mil estudantes negros do Zaire (sua antiga colônia) que ali residem, mas não incomodou alunos vindos de países brancos. O mesmo fez a Inglaterra em relação aos 1200 estudantes nascidos em Zâmbia, Uganda e Tanzânia, ex-colônias-e ainda em relação aos 20 mil turistas africanos, sem distinção de passaporte, que todo ano desembarcam em Londres. Só que não se exige teste dos ingleses que voltam de viagem da África.
Belgas e britânicos negam as acusações de racismo. Lembram que aqueles países não só estão entre os mais infectados como também que neles a AIDS não se espalha, como no Ocidente, a partir dos chamados grupos de risco (homossexuais, viciados em drogas injetáveis e hemofílicos), mas da população heterossexual. De fato, na região Centro-Leste, que compreende a Tanzânia, Ruanda, Burundi e Uganda, existem lugares onde um terço da população tem AIDS, incluindo mulheres e crianças. Ali a doença se propaga por causa da promiscuidade sexual. Mesmo assim, os especialistas da Organização Mundial da Saúde estão longe de se pôr de acordo sobre o efeito das políticas de testes obrigatórios para determinados grupos humanos. No Brasil, membros do governo e da classe média defendem que se exija teste anti-HIV de estrangeiros que solicitarem visto de permanência no país -umas 3 mil pessoas por ano. "Não vejo sentido nisso", objeta Lair Rodrigues, do Ministério da Saúde. Ela explica que, devido ao fato de não ser o teste verdadeiro em 100 por cento dos casos-daí os chamados "falsos positivos" e "falsos negativos" -, sempre se correrá o risco de se abrirem as portas a imigrantes contaminados e de fechá-las a pessoas sadias.
Mais complicado é o debate sobre a exigência do teste de candidatos a emprego. A discussão é muito acesa nos Estados Unidos, onde algumas corporações já adotam essa prática, enquanto uma lei a proíbe em empresas que recebem recursos do governo federal. Como no Brasil não existe lei alguma a respeito, a possibilidade de que certas companhias venham a pedir o teste preocupa o Conselho Federal de Medicina. "É uma questão de ética", explica Gabriel Oselka, vice-presidente do CFM. "O médico só deve informar ao empregador se o candidato está ou não apto ao trabalho; se é portador do vírus, só ele mesmo deve ser informado."
Com seus 13 500 funcionários espalhados por cinco Estados, a Rhodia é o exemplo da grande empresa que prefere apostar na informação e não na discriminação. Há dois anos ela gasta dinheiro em campanhas educativas, que incluem um filme de duas horas e meia sobre a AIDS. A Rhodia não oferece testes aos funcionários "porque não temos estrutura montada para isso", segundo Marcos Wasserstein, gerente do departamento médico. Mas não o nega aos interessados. A empresa tem dois funcionários com o vírus. Um deles, que já apresenta os primeiros sintomas da AIDS, recebe assistência de saúde. Nos Estados Unidos, onde um aidético gasta em tratamento algo como 20 mil dólares por ano (no Brasil o custo é um pouco maior devido aos medicamentos importados), as companhias de seguros estão em pé de guerra para recusar clientes portadores do HIV.
A maioria das seguradoras brasileiras já não dão cobertura a despesas com doenças infecto-contagiosas, como a AIDS. Uma exceção é o Itaú, com 1,2 milhão de clientes. "Não recusamos quem quer que seja", garante Alfredo del Bianco, diretor técnico da seguradora. "Damos cobertura à AIDS se a doença for notificada após o início do contrato e dentro dos limites nele estipulados." Com o inevitável aumento do número de aidéticos nos próximos anos, não faltarão episódios de discriminação. "Já é hora de as pessoas se organizarem pensando nisso", acredita o advogado Marco Antônio Rodrigues Barbosa presidente da Comissão Justiça e Paz da Cúria Metropolitana de São Paulo. Ele não vê, no caso da AIDS, um conflito entre direitos individuais e direitos coletivos, "mesmo porque, com o crescimento da doença, logo estaremos falando em direitos de uma coletividade com dezenas de milhares de indivíduos".
Nos Estados Unidos, onde em 1991 haverá 270 mil aidéticos, ocupando (em Nova York) dois em cada dez leitos de hospital, muita gente já reclama que as pesquisas sobre a AIDS consomem montanhas de dólares que deveriam ser gastas na busca da cura; para o câncer. Isso mostra uma competição por recursos sociais que só tende a se acirrar, com reflexos sobre a atitude das pessoas diante dos aidéticos. Também para conter esses conflitos as campanhas informativas são necessárias. "Elas são na verdade a única arma contra a AIDS", ressalta Lair Rodrigues. O problema é como fazê-las acertar o alvo.
Para começar, existe um verdadeiro tiroteio no escuro entre os que criticam as campanhas por serem desbocadas e os que acham que é preciso falar mais claro ainda. "Raramente a reação das pessoas é adequada", observa, desalentado, o médico Gabriel Oselka, do CFM. Além disso, para não pouco homossexuais, as campanhas não passam de propaganda moralista. Para um número talvez ainda maior de heterossexuais, as campanhas escondem que os riscos de se contrair AIDS são na verdade bem maiores. Mesmo em países desenvolvidos a desinformação e o medo alcançam níveis surpreendentes. Nos Estados Unidos, por exemplo, mais da metade da população não sabe com segurança como o vírus da AIDS se transmite -e um em cada três médicos tem receio de tratar de aidéticos.
A paranóia não é menor aqui", suspira a médica Lair do Ministério da Saúde. "Quase todo dia algum colega me liga achando que pegou AIDS." Da mesma forma, a discussão sobre a linguagem das campanhas não é exclusividade desse ou daquele país. Na liberadíssima Dinamarca, uma organização de país conseguiu tirar do ar um filmete que insinuava sexo entre adolescentes. Na União Soviética, não poucas resistências precisaram ser vencidas para que um locutor pudesse dizer pela primeira vez na TV a palavra preservativo - agora, em março último. Na religiosa Itália, volta e meia trechos de filme sobre AIDS são censurados. É provável que, para funcionarem, as campanhas devam mesmo ser fortes, diretas e sem meias palavras. Mas não há como negar que, irrompendo nas casas via TV, proporcionam uma aula de educação sexual, prematura e carregada de problemas, ao público infantil. A AIDS também obriga as sociedades a virar a cabeça diante de certos comportamentos até bem pouco tempo frontalmente reprovados. Em Nova York, por exemplo, já se distribuem agulhas descartáveis a drogados, para que ao menos não transmitam o vírus. A experiência sofre cerrada oposição de setores sociais para quais ela significaria na prática aceitação da droga. Em outros Estados americanos, briga-se por causa da iniciativa de distribuir preservativo nas prisões: segundo os críticos, isso estimularia o homossexualismo, "Seria ótimo se o mesmo fosse aqui", retruca o médico Gabriel Oselka. Motivo: estima-se que até três em cada dez dos 300 mil sentenciados brasileiros são portadores do vírus HIV.
Às vezes, o próprio público-alvo rejeita as campanhas. Em certas tribos africanas, apesar das advertências, não se pensa em parar com certos ritos que envolvem cortes no corpo-uma prática milenar que se transformou em outra fonte de transmissão da AIDS. Apesar desses percalços todos, os maiores especialistas no assunto insistem em que só não se pode uma coisa na guerra contra a doença: ferir os direitos das pessoas. Não se trata apenas de um valor moral. Como observou na reunião de Londres, o diretor do programa da AIDS da Organização Mundial da Saúde, Jonathan Mann,"as ameaças aos direitos individuais acabam estimulando clandestinidade da doença-mais casos deixarão de ser notificados e mais difícil ficará atacar o problema".

De vigia a traidor

Cientistas americanos descobriram recentemente que o vírus da AIDS penetra no organismo não apenas na forma de microorganismos soltos no sangue ou no esperma, mas também dentro de macrófagos-e isso faz uma enorme diferença. Células do sistema imunológico, os macrófagos têm o notável poder de romper barreiras: assim, atravessam as paredes dos vasos sangüíneos em direção à mucosa ou em sentido contrário. Nesse trajeto, eles prendem os agentes estranhos que encontrarem, como os vírus, para que sejam melhor atacados pelo exército de anticorpos do sangue. Ora, se o HIV pode contaminar os macrófagos, isso significa-ao contrário do que se tinha como certo-que a transmissão do vírus não depende necessariamente do rompimento de microvasos sangüíneos durante a relação sexual.
Dentro dos macrófagos, os vírus atravessam a mucosa até chegar à corrente sangüínea O pior, nesse processo, é o que acontece com os próprios macrófagos. Normalmente, são eles que disparam os mecanismos de defesa do organismo, ao avisar as células que portam um inimigo a ser combatido. Infectados pelo vírus da AIDS, porém, eles passam a agir como traidores, deixando de avisar que há um invasor a caminho. Sem esse alarme, uma eventual vacina anti AIDS poderia ser inútil, visto que os anticorpos adquiridos graças a ela não seriam despertados. A descoberta, portanto, sugere que há mais obstáculos entre a AIDS e sua cura do que supunha a ciência.



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