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quarta-feira, 9 de agosto de 2017

O Ateneu - Parte 1 de 4 - Raul Pompéia


O Ateneu - Parte 1 de 4 - Raul Pompéia


O Ateneu é um romance do escritor brasileiro Raul Pompeia, considerado como o único exemplar de romance impressionista na literatura brasileira.

Publicado pela primeira vez em 1888, o livro conta a história de Sérgio, um menino que é enviado para um colégio interno renomado na cidade do Rio de Janeiro, denominado Ateneu. Comandado pelo diretor Aristarco, o colégio mantém regras rígidas e princípios da aristocracia da época. A obra critica a sociedade brasileira do final do século XIX, tomando como metáfora o Ateneu, seu reflexo, um lugar onde vence sempre o mais forte.

(SEGUE ABAIXO ESTA OBRA COMPLETA DIVIDIDA EM 4 POSTAGENS)


A história é narrada pelo personagem principal, Sérgio, já adulto, em primeira pessoa e de forma não linear. O livro inicia-se com os primeiros contatos de Sérgio com o Ateneu, colégio interno no qual o seu pai o matricula, ainda mesmo antes de passar pela entrevista de admissão do rígido, mas aparentemente afável, diretor do estabelecimento, Aristarco. A entrada de Sérgio no Ateneu representa, para o próprio, a passagem para a maturidade, por conta de seu afastamento dos pais, sobretudo dos carinhos e da proteção materna. Antes disso, cursara apenas algumas aulas num externato familiar e tivera aulas com um preceptor.



O Ateneu - Raul Pompéia
      
      "Vais encontrar o mundo, disse-me meu pai, à porta do Ateneu. Coragem para a luta." 
Bastante experimentei depois a verdade deste aviso, que me despia, num gesto, das ilusões de 
criança educada exoticamente na estufa de carinho que é o regime do amor doméstico, 
diferente do que se encontra fora, tão diferente, que parece o poema dos cuidados maternos 
um artifício sentimental, com a vantagem única de fazer mais sensível a criatura à impressão 
rude do primeiro ensinamento, têmpera brusca da vitalidade na influência de um novo clima 
rigoroso. Lembramo-nos, entretanto, com saudade hipócrita, dos felizes tempos; como se a 
mesma incerteza de hoje, sob outro aspecto, não nos houvesse perseguido outrora e não viesse 
de longe a enfiada das decepções que nos ultrajam.
    Eufemismo, os felizes tempos, eufemismo apenas, igual aos outros que nos alimentam, a 
saudade dos dias que correram como melhores. Bem considerando, a atualidade é a mesma em 
todas as datas. Feita a compensação dos desejos que variam, das aspirações que se 
transformam, alentadas perpetuamente do mesmo ardor, sobre a mesma base fantástica de 
esperanças, a atualidade é uma. Sob a coloração cambiante das horas, um pouco de ouro mais 
pela manhã, um pouco mais de púrpura ao crepúsculo - a paisagem é a mesma de cada lado 
beirando a estrada da vida.
    Eu tinha onze anos.
    Freqüentara como externo, durante alguns meses, uma escola familiar do Caminho Novo, 
onde algumas senhoras inglesas, sob a direção do pai, distribuíam educação à infância como 
melhor lhes parecia. Entrava às nove horas, timidamente, ignorando as lições com a maior 
regularidade, e bocejava até às duas, torcendo-me de insipidez sobre os carcomidos bancos 
que o colégio comprara, de pinho e usados, lustrosos do contato da malandragem de não sei 
quantas gerações de pequenos. Ao meio-dia, davam-nos pão com manteiga. Esta recordação 
gulosa é o que mais pronunciadamente me ficou dos meses de externato; com a lembrança de 
alguns companheiros - um que gostava de fazer rir à aula, espécie interessante de mono louro, 
arrepiado, vivendo a morder, nas costas da mão esquerda, uma protuberância calosa que tinha; 
outro adamado, elegante, sempre retirado, que vinha à escola de branco, engomadinho e 
radioso, fechada a blusa em diagonal do ombro à cinta por botões de madrepérola. Mais ainda: 
a primeira vez que ouvi certa injúria crespa, um palavrão cercado de terror no estabelecimento, 
que os partistas denunciavam às mestras por duas iniciais como em monograma.
    Lecionou-me depois um professor em domicílio.
    Apesar deste ensaio da vida escolar a que me sujeitou a família, antes da verdadeira 
provação, eu estava perfeitamente virgem para as sensações novas da nova fase. O internato! 
Destacada do conchego placentário da dieta caseira, vinha próximo o momento de se definir a 
minha individualidade. Amarguei por antecipação o adeus às primeiras alegrias; olhei triste os 
meus brinquedos, antigos já! os meus queridos pelotões de chumbo! espécie de museu militar 
de todas as fardas, de todas as bandeiras, escolhida amostra da força dos estados, em 
proporções de microscópio, que eu fazia formar a combate como uma ameaça tenebrosa ao 
equilíbrio do mundo; que eu fazia guerrear em desordenado aperto, - massa tempestuosa das 
antipatias geográficas, encontro definitivo e ebulição dos seculares ódios de fronteira e de 
raça, que eu pacificava por fim, com uma facilidade de Providência Divina, intervindo 
sabiamente, resolvendo as pendências pela concórdia promíscua das caixas de pau. Força era 
deixar à ferrugem do abandono o elegante vapor da linha circular do lago, no jardim, onde 
talvez não mais tornasse a perturbar com a palpitação das rodas a sonolência morosa dos 


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peixinhos rubros, dourados, argentados, pensativos à sombra dos tinhorões, na transparência 
adamantina da água...
    Mas um movimento animou-me, primeiro estímulo sério da vaidade: distanciava-me da 
comunhão da família, como um homem! ia por minha conta empenhar a luta dos 
merecimentos; e a confiança nas próprias forças sobrava. Quando me disseram que estava a 
escolha feita da casa de educação que me devia receber, a notícia veio achar-me em armas para 
a conquista audaciosa do desconhecido.
    Um dia, meu pai tomou-me pela mão, minha mãe beijou-me a testa, molhando-me de 
lágrimas os cabelos e eu parti.
    Duas vezes fora visitar o Ateneu antes da minha instalação.
    Ateneu era o grande colégio da época. Afamado por um sistema de nutrido reclame, 
mantido por um diretor que de tempos a tempos reformava o estabelecimento, pintando-o 
jeitosamente de novidade, como os negociantes que liquidam para recomeçar com artigos de 
última remessa; o Ateneu desde muito tinha consolidado crédito na preferência dos pais, sem 
levar em conta a simpatia da meninada, a cercar de aclamações o bombo vistoso dos anúncios.
    O Dr. Aristarco Argolo de Ramos, da conhecida família do Visconde de Ramos, do 
Norte, enchia o império com o seu renome de pedagogo. Eram boletins de propaganda pelas 
províncias, conferências em diversos pontos da cidade, a pedidos, à substância, atochando a 
imprensa dos lugarejos, caixões, sobretudo, de livros elementares, fabricados às pressas com o 
ofegante e esbaforido concurso de professores prudentemente anônimos, caixões e mais 
caixões de volumes cartonados em Leipzig, inundando as escolas públicas de toda a parte com 
a sua invasão de capas azuis, róseas, amarelas, em que o nome de Aristarco, inteiro e sonoro, 
oferecia-se ao pasmo venerador dos esfaimados de alfabeto dos confins da pátria. Os lugares 
que os não procuravam eram um belo dia surpreendidos pela enchente, gratuita, espontânea, 
irresistível! E não havia senão aceitar a farinha daquela marca para o pão do espírito. E 
engordavam as letras, à força, daquele pão. Um benemérito. Não admira que em dias de gala, 
íntima ou nacional, festas do colégio ou recepção da coroa, o largo peito do grande educador 
desaparecesse sob constelações de pedraria, opulentando a nobreza de todos os honoríficos 
berloques.
    Nas ocasiões de aparato é que se podia tomar o pulso ao homem. Não só as conde-
corações gritavam-lhe do peito como uma couraça de grilos: Ateneu! Ateneu! Aristarco, todo 
era um anúncio. Os gestos, calmos, soberanos, eram de um rei - o autocrata excelso dos 
silabários; a pausa hierática do andar deixava sentir o esforço, a cada passo, que ele fazia para 
levar adiante, de empurrão, o progresso do ensino publico; o olhar fulgurante, sob a crispação 
áspera dos supercílios de monstro japonês, penetrando de luz as almas circunstantes - era a 
educação da inteligência; o queixo, severamente escanhoado, de orelha a orelha, lembrava a 
lisura das consciências limpas - era a educação moral. A própria estatura, na imobilidade do 
gesto, na mudez do vulto, a simples estatura dizia dele: aqui está um grande homem... não 
vêem os cavados de Golias?!... Retorça-se sobre tudo isto um par de bigodes, volutas maciças 
de fios alvos, torneadas a capricho, cobrindo os lábios fecho de prata sobre o silêncio de ouro, 
que tão belamente impunha como o retraimento fecundo do seu espírito, - teremos esboçado, 
moralmente, materialmente, o perfil do ilustre diretor. Em suma, um personagem que, ao 
primeiro exame, produzia-nos a impressão de um enfermo, desta enfermidade atroz e estranha: 
a obsessão da própria estátua. Como tardasse a estátua, Aristarco interinamente satisfazia-se 
com a afluência dos estudantes ricos para o seu instituto. De fato, os educandos do Ateneu 
significavam a fina flor da mocidade brasileira.
    A irradiação da réclame alongava de tal modo os tentáculos através do país, que não 
havia família, de dinheiro, enriquecida pela setentrional borracha ou pela charqueada do sul, 
que não reputasse um compromisso de honra com a posteridade doméstica mandar dentre seus 
jovens, um, dois, três representantes abeberar-se à fonte espiritual do Ateneu.


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    Fiados nesta seleção apuradora, que é comum o erro sensato de julgar melhores famílias 
as mais ricas, sucedia que muitas, indiferentes mesmo e sorrindo do estardalhaço da fama, lá 
mandavam os filhos. Assim entrei eu.
    A primeira vez que vi o estabelecimento, foi por uma festa de encerramento de trabalhos.
    Transformara-se em anfiteatro uma das grandes salas da frente do edifício, exatamente a 
que servia de capela; paredes estucadas de suntuosos relevos, e o teto aprofundado em largo 
medalhão, de magistral pintura, onde uma aberta de céu azul despenhava aos cachos deliciosos 
anjinhos, ostentando atrevimentos róseos de carne, agitando os minúsculos pés e as 
mãozinhas, desatando fitas de gaza no ar. Desarmado o oratório, construíram-se bancadas 
circulares, que encobriam o luxo das paredes. Os alunos ocupavam a arquibancada. Como a 
maior concorrência preferia sempre a exibição dos exercícios ginásticos, solenizada dias depois 
do encerramento das aulas, a acomodação deixada aos circunstantes era pouco espaçosa; e o 
público, pais e correspondentes em geral, porém mais numeroso do que se esperava, tinha que 
transbordar da sala da festa para a imediata. Desta ante-sala, trepado a uma cadeira, eu 
espiava. Meu pai ministrava-me informações. Diante da arquibancada, ostentava-se uma mesa 
de grosso pano verde e borlas de ouro. Lá estava o diretor, o ministro do império, a comissão 
dos prêmios. Eu via e ouvia. Houve uma alocução comovente de Aristarco; houve discursos de 
alunos e mestres; houve cantos, poesias declamadas em diversas línguas. O espetáculo 
comunicava-me certo prazer repeitoso. O diretor, ao lado do ministro, de acanhado físico, 
fazia-o incivilmente desaparecer na brutalidade de um contraste escandaloso. Em grande 
tenue dos dias graves, sentava-se, elevado no seu orgulho como em um trono. A bela farda 
negra dos alunos, de botões dourados, infundia-me a consideração tímida de um militarismo 
brilhante, aparelhado para as campanhas da ciência e do bem. A letra dos cantos, em coro dos 
falsetes indisciplinados da puberdade; os discursos, visados pelo diretor, pançudos de sisudez, 
na boca irreverente da primeira idade, como um Cendrillon     malfeito da burguesia 
conservadora, recitados em monotonia de realejo e gestos rodantes de manivela, ou 
exagerados, de voz cava e caretas de tragédia fora de tempo, eu recebia tudo convictamente, 
como o texto da bíblia do dever; e as banalidades profundamente lançadas como as sábias 
máximas do ensino redentor. Parecia-me estar vendo a legião dos amigos do estudo, mestres à 
frente, na investida heróica do obscurantismo, agarrando pelos cabelos, derribando, calcando 
aos pés a Ignorância e o Vício, misérrimos trambolhos, consternados e esperneantes.
    Um discurso principalmente impressionou-me. À direita da comissão dos prêmios, ficava 
a tribuna dos oradores. Galgou-a firme, tesinho, O Venâncio, professor do colégio, a quarenta 
mil-réis por matéria, mas importante, sabendo falar grosso, o timbre de independência, mestiço 
de bronze, pequenino e tenaz, que havia de varar carreira mais tarde. O discurso foi o 
confronto chapa dos torneios medievais com o moderno certame das armas da inteligência; 
depois, uma preleção pedagógica, tacheada de flores de retórica a martelo; e a apologia da vida 
de colégio, seguindo-se a exaltação do Mestre em geral e a exaltação, em particular, de 
Aristarco e do Ateneu. "O mestre, perorou Venâncio, é o prolongamento do amor paterno, é o 
complemento da ternura das mães, o guia zeloso dos primeiros passos, na senda escabrosa que 
vai às conquistas do saber e da moralidade. Experimentado no labutar cotidiano da sagrada 
profissão, o seu auxílio ampara-nos como a Providência na Terra; escolta-nos assíduo como um 
anjo da guarda; a sua lição prudente esclarece-nos a jornada inteira do futuro. Devemos ao pai 
a existência do corpo; o mestre cria-nos o espírito (sorites de sensação), e o espírito, é a força 
que impele, o impulso que triunfa, o triunfo que nobilita, o enobrecimento que glorifica, e a 
glória é o ideal da vida, o louro do guerreiro, o carvalho do artista, a palma do crente! A 
família, é o amor no lar, o estado é a segurança civil; o mestre, com amor forte que ensina e 
corrige, prepara-nos para a segurança íntima inapreciável da vontade. Acima de Aristarco - 
Deus! Deus tão-somente; abaixo de Deus - Aristarco."
    Um último gesto espaçoso, como um jamegão no vácuo, arrematou o rapto de eloqüência.


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    Eu me sentia compenetrado daquilo tudo; não tanto por entender bem, como pela 
facilidade da fé cega a que estava disposto. As paredes pintadas da ante-sala imitavam pórfiro 
verde; em frente ao pórtico aberto para o jardim, graduava-se uma ampla escada, caminho do 
andar superior. Flanqueando a majestosa porta desta escada, havia dois quadros de 
alto-relevo; à direita, uma alegoria das artes e do estudo; à esquerda, as indústrias humanas, 
meninos nus como nos frisos de Kaulbach, risonhos, com a ferramenta simbólica - psicologia 
pura do trabalho, modelada idealmente na candura do gesso e da inocência. Eram meus 
irmãos! Eu estava a esperar que um deles, convidativo, me estendesse a mão para o bailado 
feliz que os levava. Oh! que não seria o colégio, tradução concreta da alegoria, ronda angélica 
de corações à porta de um templo, dulia permanente das almas jovens no ritual austero da 
virtude!
    Por ocasião da festa da ginástica, voltei ao colégio.
    O Ateneu estava situado no Rio Comprido, extremo ao chegar aos morros.
    As eminências de sombria pedra e a vegetação selvática debruçavam sobre o edifício um 
crepúsculo de melancolia, resistente ao próprio sol a pino dos meios-dias de novembro. Esta 
melancolia era um plágio ao detestável pavor monacal de outra casa de educação, o negro 
Caraça de Minas. Aristarco dava-se palmas desta tristeza aérea - a atmosfera moral da 
meditação e do estudo, definia, escolhida a dedo para maior luxo da casa, como um apêndice 
mínimo da arquitetura.
    No dia da festa da educação física, como rezava o programa (programa de arromba, 
porque o secretário do diretor tinha o talento dos programas) não percebi a sensação de ermo 
tão acentuada em sítios montanhosos, que havia de notar depois. As galas do momento faziam 
sorrir a paisagem. O arvoredo do imenso jardim, entretecido a cores por mil bandeiras, brilhava 
ao sol vivo com o esplendor de estranha alegria; os vistosos panos, em meio da ramagem, 
fingiam flores colossais, numa caricatura extravagante de primavera; os galhos frutificavam 
em lanternas venezianas, pomos de papel enormes, de uma uberdade carnavalesca. Eu ia 
carregado, no impulso da multidão. Meu pai prendia-me solidamente o pulso, que me não 
extraviasse.
    Mergulhado na onda, eu tinha que olhar para cima, para respirar. Adiante de mim, um 
sujeito mais próximo fez-me rir; levava de fora a fralda da camisa... Mas não era fralda; 
verifiquei que era o lenço. Do chão subia um cheiro forte de canela pisada; através das árvores, 
com intervalos, passavam rajadas de música, como uma tempestade de filarmônicas.
    Um último aperto mais rijo, estalando-me as costelas, espremeu-me, por um estreito corte 
de muro, para o espaço livre.
    Em frente, um gramal vastíssimo. Rodeava-o uma ala de galhardetes, contentes no 
espaço, com o pitoresco dos tons enérgicos cantando vivo sobre a harmoniosa surdina do 
verde das montanhas. Por todos os lados apinhava-se o povo. Voltando-me, divisei, ao longo 
do muro, duas linhas de estrado com cadeiras quase exclusivamente ocupadas por senhoras, 
fulgindo os vestuários, em violenta confusão de colorido. Algumas protegiam o olhar com a 
mão enluvada, com o leque, à altura da fronte, contra a rutilação do dia num bloco de nuvens 
que crescia do céu. Acima do estrado balouçavam docemente e sussurravam bosquetes de 
bambu, projetando franjas longuíssimas de sombra pelo campo de relva.
    Algumas damas empunhavam binóculos. Na direção dos binóculos distinguia-se um 
movimento alvejante. Eram os rapazes. "Aí vêm! disse-me meu pai; vão desfilar por diante da 
princesa." A princesa imperial, Regente nessa época, achava-se à direita em gracioso palanque 
de sarrafos.
    Momentos depois, adiantavam-se por mim os alunos do Ateneu. Cerca de trezentos; 
produziam-me a impressão do inumerável. Todos de branco, apertados em larga cinta 
vermelha, com alças de ferro sobre os quadris e na cabeça um pequeno gorro cingido por um 
cadarço de pontas livres. Ao ombro esquerdo traziam laços distintivos das turmas. Passaram a 


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toque de clarim, sopesando os petrechos diversos dos exercícios. Primeira turma, os halteres; 
segunda, as maças; terceira, as barras.
    Fechavam a marcha, desarmados, os que figurariam simplesmente nos exercícios gerais.
    Depois de longa volta, a quatro de fundo, dispuseram-se em pelotões, invadiram o gramal 
e, cadenciados pelo ritmo da banda de colegas, que os esperava no meio do campo, com a 
certeza de amestrada disciplina, produziram as manobras perfeitas de um exército sob o 
comando do mais raro instrutor.
    Diante das fileiras, Bataillard, o professor de ginástica, exultava envergando a altivez do 
seu sucesso na extremada elegância do talhe, multiplicando por milagroso desdobramento o 
compêndio inteiro da capacidade profissional, exibida em galeria por uma série infinita de 
atitudes. A admiração hesitava a decidir-se pela formosura masculina e rija da plástica de 
músculos a estalar o brim do uniforme, que ele trajava branco como os alunos, ou pela nervosa 
celeridade dos movimentos, efeito elétrico de lanterna mágica, respeitando-se na variedade 
prodigiosa a unidade da correção suprema.
    Ao peito tilintavam-se as agulhetas do comando, apenas de cordões vermelhos em trança. 
Ele dava as ordens fortemente, com uma vibração penetrante de corneta que dominava a 
distancia, e sorria à docilidade mecânica dos rapazes. Como oficiais subalternos, 
auxiliavam-no os chefes de turma, postados devidamente com os pelotões, sacudindo à manga 
distintivos de fita verde e canutilho.
    Acabadas as evoluções, apresentaram-se os exercícios. Músculos do braço, músculos do 
tronco, tendões dos jarretes, a teoria toda do corpore sano foi praticada valentemente ali, 
precisamente, com a simultaneidade exata das extensas máquinas. Houve após, o assalto aos 
aparelhos. Os aparelhos alinhavam-se a uma banda do campo, a começar do palanque da 
Regente. Não posso dar idéia do deslumbramento que me ficou desta parte. Uma desordem de 
contorções, deslocadas e atrevidas; uma vertigem de volteios à barra fixa, temeridades 
acrobáticas ao trapézio, às perchas, às cordas, às escadas; pirâmides humanas sobre as 
paralelas, deformando-se para os lados em curvas de braços e ostentações vigorosas de tórax; 
formas de estatuária viva, trêmulas de esforço, deixando adivinhar de longe o estalido dos 
ossos desarticulados; posturas de transfiguração sobre invisível apoio; aqui e ali uma cabecinha 
loura, cabelos em desordem cacheados à testa, um rosto injetado pela inversão do corpo, lábios 
entreabertos ofegando, olhos semicerrados para escapar à areia dos sapatos, costas de suor, 
colando a blusa em pasta, gorros sem dono que caíam do alto e juncavam a terra; movimento, 
entusiasmo por toda a parte e a soalheira, branca nos uniformes, queimando os últimos fogos 
da glória diurna sobre aquele triunfo espetaculoso da saúde, da força, da mocidade.
    O Professor Bataillard, enrubescido de agitação, rouco de comandar, chorava de prazer. 
Abraçava os rapazes indistintamente. Duas bandas militares revezavam-se ativamente, 
comunicando a animação à massa dos espectadores. O coração pulava-me no peito com um 
alvoroço novo, que me arrastava para o meio dos alunos, numa leva ardente de fraternidade. 
Eu batia palmas; gritos escapavam-me, de que me arrependia quando alguém me olhava.
    Deram fim à festa os saltos, os páreos de carreira, as lutas romanas e a distribuição dos 
prêmios de ginástica, que a mão egrégia da Sereníssima Princesa e a pouco menos do Esposo 
Augusto alfinetavam sobre os peitos vencedores. Foi de ver-se os jovens atletas aos pares 
aferrados, empuxando-se, constringindo-se, rodopiando, rolando na relva com gritos 
satisfeitos e arquejos de arrancada; os corredores, alguns em rigor, respiração medida, beiços 
unidos, punhos cerrados contra o corpo, passo miúdo e vertiginoso; outros, irregulares, 
bracejantes prodigalizando pernadas, rasgando o ar a pontapés, numa precipitação 
desengonçada de avestruz, chegando estofados, com placas de poeira na cara, ao poste da 
vitória.
    Aristarco arrebentava de júbilo. Pusera de parte o comedimento soberano que eu lhe 
admirara na primeira festa. De ponto em branco, como a rapaziada, e chapéu-do-chile, 


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distribuía-se numa ubiqüidade impossível de meio ambiente. Viam-no ao mesmo tempo a 
festejar os príncipes com o risinho nasal, cabritante, entre lisonjeiro e irônico, desfeito em 
etiquetas de reverente súdito e cortesão; viam-no bradando ao professor de ginástica, a 
gesticular com o chapéu seguro pela copa; viam-no formidável, com o perfil leonino rugir sobre 
um discípulo que fugira aos trabalhos, sobre outro que tinha limo nos joelhos, de haver lutado 
em lugar úmido, gastando tal veemência no ralho, que chegava a ser carinhoso.
    O figurino campestre rejuvenescera-o. Sentia as pernas leves e percorria celerípede a 
frente dos estrados, cheio de cumprimentos para os convidados especiais e de interjetivos 
amáveis para todos. Perpassava como uma visão de brim claro, súbito extinta para reaparecer 
mais viva noutro ponto. Aquela expansão vencia-nos; ele irradiava de si, sobre os alunos, sobre 
os espectadores, o magnetismo dominador dos estandartes de batalha. Roubava-nos dois 
terços da atenção que os exercícios. pediam; indenizava-nos com o equivalente em surpresas 
de vivacidade, que desprendia de si, profusamente, por erupções de jorro em roda, por 
ascensões cobrejantes de girândola, que iam às nuvens, que baixavam depois serenamente, 
diluídas na viração da tarde, que os pulmões bebiam. Ator profundo, realizava ao pé da letra, 
a valer, o papel diáfano, sutil, metafísico, de alma da festa e alma do seu instituto.
    Uma coisa o entristeceu, um pequenino escândalo. Seu filho Jorge, na distribuição dos 
prêmios, recusara-se a beijar a mão da princesa, como faziam todos ao receber a medalha. Era 
republicano o pirralho! Tinha já aos quinze anos as convicções ossificadas na espinha inflexível 
do caráter! Ninguém mostrou perceber a bravura. Aristarco, porém, chamou o menino à parte. 
Encarou-o silenciosamente e - nada mais. E ninguém mais viu o republicano! Consumira-se 
naturalmente o infeliz, cremado ao fogo daquele olhar! Nesse momento as bandas tocavam o 
hino da monarquia jurada, última verba do programa.
    Começava a anoitecer, quando o colégio formou ao toque de recolher. Desfilaram 
aclamados, entre alas de povo, e se foram do campo, cantando alegremente uma canção 
escolar.
    À noite houve baile nos três salões inferiores do lance principal do edifício e iluminação 
no jardim.
    Na ocasião em que me ia embora, estavam acendendo luzes variadas de Bengala diante 
da casa. O Ateneu, quarenta janelas, resplendentes do gás interior, dava-se ares de 
encantamento com a iluminação de fora. Erigia-se na escuridão da noite, como imensa muralha 
de coral flamante, como um cenário animado de safira com horripilações errantes de sombra, 
como um castelo fantasma batido de luar verde emprestado à selva intensa dos romances 
cavalheirescos, despertado um momento da legenda morta para uma entrevista de espectros e 
recordações. Um jacto de luz elétrica, derivado de foco invisível, feria a inscrição dourada 
ATHENÆUM em arco sobre as janelas centrais, no alto do prédio. A uma delas, à sacada, 
Aristarco mostrava-se. Na expressão olímpica do semblante transpirava a beatitude de um 
gozo superior. Gozava a sensação prévia, no banho luminoso, da imortalidade a que se julgava 
consagrado. Devia ser assim: - luz benigna e fria, sobre bustos eternos, o ambiente glorioso 
do Panteão. A contemplação da posteridade embaixo.
    Aristarco tinha momentos destes, sinceros. O anúncio confundia-se com ele, suprimia-o, 
substituía-o, e ele gozava como um cartaz que experimentasse o entusiasmo de ser vermelho. 
Naquele momento, não era simplesmente a alma do seu instituto, era a própria feição palpável, 
a síntese grosseira do título, o rosto, a testada, o prestígio material de seu colégio, idêntico com 
as letras que luziam em auréola sobre a cabeça. As letras, de ouro; ele, imortal: única diferença.
    Guardei, na imaginação infantil, a gravura desta apoteose com o atordoamento ofuscado, 
mais ou menos de um sujeito partindo à meia
noite de qualquer teatro, onde, em mágica beata, Deus Padre pessoalmente se houvesse 
prestado a concorrer para a grandeza do último quadro.
    - Conheci-o solene na primeira festa, jovial na segunda; conheci-o mais tarde em mil 


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situações, de mil modos; mas o retrato que me ficou para sempre do meu grande diretor, foi 
aquele - o belo bigode branco, o queixo barbeado, o olhar perdido nas trevas, fotografia 
estática, na aventura de um raio elétrico.
    É fácil conceber a atração que me chamava para aquele mundo tão altamente interessante, 
no conceito das minhas impressões. Avaliem o prazer que tive, quando me disse meu pai que 
eu ia ser apresentado ao diretor do Ateneu e à matrícula. O movimento não era mais a vaidade, 
antes o legítimo instinto da responsabilidade altiva; era uma conseqüência apaixonada da 
sedução do espetáculo, o arroubo de solidariedade que me parecia prender à comunhão 
fraternal da escola. Honrado engano, esse ardor franco por uma empresa ideal de energia e de 
dedicação premeditada confusamente, no calculo pobre de uma experiência de dez anos.
    O diretor recebeu-nos em sua residência, com manifestações ultra de afeto. Fez-se 
cativante, paternal; abriu-nos amostras dos melhores padrões do seu espírito, evidenciou as 
faturas do seu coração. O gênero era bom sem dúvida nenhuma; que apesar do paletó de seda 
e do calçado raso com que se nos apresentava, apesar da bondosa familiaridade com que 
declinava até nós, nem um segundo o destituí da altitude de divinização em que o meu critério 
embasbacado o aceitara.
    Verdade é que não era fácil reconhecer ali, tangível e em carne, uma entidade outrora da 
mitologia das minhas primeiras concepções antropomórficas; logo após Nosso Senhor, o qual 
eu imaginara velho, feiíssimo, barbudo, impertinente, corcunda, ralhando por trovões, 
carbonizando meninos com o corisco. Eu aprendera a ler pelos livros elementares de Aristarco, 
e o supunha velho como o primeiro, porém rapado, de cara chupada, pedagógica, óculos 
apocalípticos, carapuça negra de borla, fanhoso, onipotente e mau, com uma das mãos para trás 
escondendo a palmatória e doutrinando à humanidade o bê-á-bá.
    As impressões recentes derrogavam o meu Aristarco; mas a hipérbole essencial do 
primitivo transmitia-se ao sucessor por um mistério de hereditariedade renitente. Dava-me 
gosto então a peleja renhida das duas imagens e aquela complicação imediata do paletó de 
seda e do sapato raso, fazendo aliança com Aristarco II contra Aristarco I, no reino da 
fantasia. Nisto afagaram-me a cabeça. Era Ele! Estremeci.
    "Como se chama o amiguinho?" perguntou-me o diretor.
    - Sérgio... dei o nome todo, baixando os olhos e sem esquecer o "seu criado" da estrita 
cortesia.
    - Pois, meu caro Sr. Sérgio, o amigo há de ter a bondade de ir ao cabeleireiro deitar fora 
estes cachinhos... Eu tinha ainda os cabelos compridos, por um capricho amoroso de minha 
mãe. O conselho era visivelmente salgado de censura. O diretor, explicando a meu pai, 
acrescentou com o risinho nasal que sabia fazer: "Sim, senhor, os meninos bonitos não provam 
bem no meu colégio..."
    - Peço licença para defender os meninos bonitos... objetou alguém entrando.
    Surpreendendo-nos com esta frase, untuosamente escoada por um sorriso, chegou a 
senhora do diretor, D. Ema. Bela mulher em plena prosperidade dos trinta anos de Balzac, 
formas alongadas por graciosa magreza, erigindo, porém, o tronco sobre quadris amplos, fortes 
como a maternidade; olhos negros, pupilas retintas, de uma cor só, que pareciam encher o talho 
folgado das pálpebras; de um moreno rosa que algumas formosuras possuem, e que seria 
também a cor do jambo, se jambo fosse rigorosamente o fruto proibido. Adiantava-se por 
movimentos oscilados, cadência de minueto harmonioso e mole que o corpo alternava. Vestia 
cetim preto justo sobre as formas, reluzente como pano molhado; e o cetim vivia com ousada 
transparência a vida oculta da carne. Esta aparição maravilhou-me.
    Houve as apresentações de cerimônia, e a senhora com um nadinha de excessivo 
desembaraço sentou-se no divã perto de mim.
    - Quantos anos tem? perguntou-me.
    - Onze anos...


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    - Parece ter seis, com estes lindos cabelos.
    Eu não era realmente desenvolvido. A senhora colhia-me o cabelo nos dedos:
    - Corte e ofereça à mamãe, aconselhou com uma carícia; é a infância que ali fica, nos 
cabelos louros... Depois, os filhos nada mais têm para as mães.
    O poemeto de amor materno deliciou-me como uma divina música. Olhei furtivamente 
para a senhora. Ela conservava sobre mim as grandes pupilas negras, lúcidas, numa expressão 
de infinda bondade! Que boa mãe para os meninos, pensava eu. Depois, voltada para meu pai, 
formulou sentidamente observações a respeito da solidão das crianças no internato.
    - Mas o Sérgio é dos fortes, disse Aristarco, apoderando-se da palavra. Demais, o meu 
colégio é apenas maior que o lar doméstico. O amor não é precisamente o mesmo, mas os 
cuidados de vigilância são mais ativos. São as crianças os meus prediletos. Os meus esforços 
mais desvelados são para os pequenos. Se adoecem e a família está fora, não os confio a um 
correspondente... Trato-os aqui, em minha casa. Minha senhora é a enfermeira. Queria que o 
vissem os detratores...
    Enveredando pelo tema querido do elogio próprio e do Ateneu, ninguém mais pôde 
falar...
    Aristarco, sentado, de pé, cruzando terríveis passadas, imobilizando-se a repentes 
inesperados, gesticulando como um tribuno de meetings, clamando como para um auditório de 
dez mil pessoas, majestoso sempre, alçando os padrões admiráveis, como um leiloeiro, e as 
opulentas faturas, desenrolou, com a memória de uma última conferência, a narrativa dos seus 
serviços à causa santa da instrução. Trinta anos de tentativas e resultados, esclarecendo como 
um farol diversas gerações agora influentes no destino do país! E as reformas futuras? Não 
bastava a abolição dos castigos corporais, o que já dava uma benemerência passável. Era 
preciso a introdução de métodos novos, supressão absoluta dos vexames de punição, 
modalidades aperfeiçoadas no sistema das recompensas, ajeitação dos trabalhos, de maneira 
que seja a escola um paraíso; adoção de normas desconhecidas cuja eficácia ele pressentia, 
perspicaz como as águias. Ele havia de criar... um horror, a transformação moral da sociedade!
    Uma hora trovejou-lhe à boca, em sangüínea eloqüência, o gênio do anúncio. Miramo-lo 
na inteira expansão oral, como, por ocasião das festas, na plenitude da sua vivacidade prática. 
Contemplávamos (eu com aterrado espanto) distendido em grandeza épica - o homem 
sanduíche da educação nacional, lardeado entre dois monstruosos cartazes. As costas, o seu 
passado incalculável de trabalhos; sobre o ventre, para a frente, o seu futuro: a réclame dos 
imortais projetos.

I I


    Abriam-se as aulas a 15 de fevereiro.
    De manhã, à hora regulamentar, compareci. O diretor, no escritório do estabelecimento, 
ocupava uma cadeira rotativa junto à mesa de trabalho. Sobre a mesa, um grande livro abria-se 
em colunas maciças de escrituração e linhas encarnadas.
    Aristarco, que consagrava as manhãs ao governo financeiro do colégio, conferia, 
analisava os assentamentos do guarda-livros. De momento a momento entravam alunos. 
Alguns acompanhados.
    A cada entrada, o diretor lentamente fechava o livro, marcando a página com um alfanje 
de marfim; fazia girar a cadeira e soltava interjeições de acolhimento, oferecendo 
episcopalmente a mão peluda ao beijo contrito e filial dos meninos. Os maiores, em regra, 
recusavam-se à cerimônia e partiam com um simples aperto de mão.
    O rapaz desaparecia, levando o sorriso pálido na face, saudoso da vadiação ditosa das 
férias. O pai, o correspondente, o portador, despedia-se, depois de banais cumprimentos, ou 


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palavras a respeito do estudante, amenizadas pela gracinha da bonomia superior de Aristarco, 
que punha habilmente um sujeito fora de portas com o riso fanhoso e o simples modo impelido 
de segurar-lhe os dedos.
    A cadeira girava de novo à posição primitiva; o livro da escrituração espalmava outra vez 
as páginas enormes; e a figura paternal do educador desmanchava-se, volvendo a 
simplificar-se na esperteza atenta e seca do gerente.
    A este vaivém de atitudes, feição dupla de uma mesma individualidade e contingência 
comum dos sacerdócios, estava tão habituado o nosso diretor, que nenhum esforço lhe custava 
a manobra. O especulador e o levita ficavam-lhe dentro em camaradagem intima, bras dessus, 
bras dessous. Sabiam, sem prejuízo da oportunidade, aparecer por alternativa ou 
simultaneamente; eram como duas almas inconhas num só corpo.
    Soldavam-se nele o educador e o empresário uma perfeição rigorosa de acordo, dois 
lados da mesma medalha: opostos, mas justapostos.
    Quando meu pai entrou comigo, havia no semblante de Aristarco uma pontinha de 
aborrecimento. Decepção talvez de estatística; o número dos estudantes novos não 
compensando o número dos perdidos, as novas entradas não contrabalançando as despesas do 
fim do ano. Mas a sombra de despeito apagou-se logo, como o resto de túnica que apenas tarda 
a sumir-se numa mutação à vista; e foi com uma explosão de contentamento que o diretor nos 
acolheu.
    Sua diplomacia dividia-se por escaninhos numerados, segundo a categoria de recepção 
que queria dispensar. Ele tinha maneiras de todos os graus, segundo a condição social da 
pessoa. As simpatias verdadeiras eram raras. No âmago de cada sorriso, morava-lhe um 
segredo de frieza que se percebia bem. E duramente se marcavam distinções políticas, 
distinções financeiras, distinções baseadas na crônica escolar do discípulo, baseadas na razão 
discreta das notas do guarda-livros. Às vezes, uma criança sentia a alfinetada no jeito da mão 
a beijar. Sala indagando consigo o motivo daquilo, que não achava em suas contas escolares... 
O pai estava dois trimestres atrasado.
    Por diversas causas a minha recepção devia ser das melhores. Efetivamente; Aristarco 
levantou-se ao nosso encontro e nos conduziu à sala especial das visitas.
    Saiu depois a mostrar o estabelecimento, as coleções, em armários, dos objetos próprios 
para facilitar o ensino. Eu via tudo curiosamente, sem perder os olhares dos colegas 
desconhecidos, que me fitavam muito ancho na dignidade do uniforme em folha. O edifício 
fora caiado e pintado durante as férias, como os navios que aproveitam o descanso nos portos 
para uma reforma de apresentação. Das paredes pendiam as cartas geográficas, que eu me 
comprazia de ver como um itinerário de grandes viagens planejadas. Havia estampas coloridas 
em molduras negras, assuntos de história santa e desenho grosseiro, ou exemplares zoológicos 
e botânicos, que me revelavam direções de aplicação estudiosa em que eu contava triunfar. 
Outros quadros vidraçados exibiam sonoramente regras morais e conselhos muito meus 
conhecidos de amor à verdade, aos pais, e temor de Deus, que estranhei como um código de 
redundância. Entre os quadros, muitos relativos ao Mestre - os mais numerosos; e se 
esforçavam todos por arvorar o mestre em entidade incorpórea, argamassada de pura essência 
de amor e suspiros cortantes de sacrifício, ensinando-me a didascalolatria que eu, de mim para 
mim, devotamente, jurava desempenhar à risca. Visitamos o refeitório, adornado de trabalhos 
a lápis dos alunos, a cozinha de azulejo, o grande pátio interno dos recreios, os dormitórios, a 
capela... De volta à sala de recepção, adjacente à da entrada lateral e fronteira ao escritório, fui 
apresentado ao Professor Mânlio, aula superior de primeiras letras, um homem aprumado, de 
barba toda grisalha e cerrada, pessoa excelente, desconfiando por sistema de todos os 
meninos.
    Durante o tempo da visita, não falou Aristarco senão das suas lutas, suores que lhe 
custava a mocidade e que não eram justamente apreciados. "Um trabalho insano! Moderar, 


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animar, corrigir esta massa de caracteres, onde começa a ferver o fermento das inclinações; 
encontrar e encaminhar a natureza na época dos violentos ímpetos; amordaçar excessivos 
ardores; retemperar o animo dos que se dão por vencidos precocemente; espreitar, adivinhar os 
temperamentos; prevenir a corrupção; desiludir as aparências sedutoras do mal; aproveitar os 
alvoroços do sangue para os nobres ensinamentos; prevenir a depravação dos inocentes; espiar 
os sítios obscuros; fiscalizar as amizades; desconfiar das hipocrisias; ser amoroso, ser violento, 
ser firme; triunfar dos sentimentos de compaixão para ser correto; proceder com segurança, 
para depois duvidar; punir para pedir perdão depois... Um labor ingrato, titânico, que extenua 
a alma, que nos deixa acabrunhados ao anoitecer de hoje, para recomeçar com o dia de 
amanhã... Ah! meus amigos, conclui ofegante, não é o espírito que me custa, não é o estudo 
dos rapazes a minha preocupação... É o caráter! Não é a preguiça o inimigo, é a imoralidade!" 
Aristarco tinha para esta palavra uma entonação especial, comprimida e terrível, que nunca 
mais esquece quem a ouviu dos seus lábios. "A imoralidade!"
    E recuava tragicamente, crispando as mãos. "Ah! mas eu sou tremendo quando esta 
desgraca nos escandaliza. Não! Estejam tranqüilos os pais! No Ateneu, a imoralidade não 
existe! Velo pela candura das crianças, como se fossem, não digo meus filhos: minhas próprias 
filhas! O Ateneu é um colégio moralizado! E eu aviso muito a tempo... Eu tenho um código..." 
Neste ponto o diretor levantou-se de salto e mostrou um grande quadro à parede. "Aqui está o 
nosso código. Leiam! Todas as culpas são prevenidas, uma pena para cada hipótese: o caso da 
imoralidade não está lá. O parricídio não figurava na lei grega. Aqui não está a imoralidade. Se 
a desgraça ocorre, a justiça é o meu terror e a lei é o meu arbítrio! Briguem depois os senhores 
pais!..."
    Afianço-lhes que o meu tremeu por mim. Eu, encolhido, fazia em superlativo a metáfora 
sabida das varas verdes. Notando a minha perturbação, o diretor desvaneceu-se em afagos. 
"Mas para os rapazes dignos eu sou um pai!... os maus eu conheço: não são as crianças, 
principalmente como você, o prazer da família, e que há de ser, estou certo, uma das glórias do 
Ateneu. Deixem estar..." Eu tomei a sério a profecia e fiquei mais calmo.
    Quando meu pai saiu, vieram-me lágrimas, que eu tolhi a tempo de ser forte. Subi ao salão 
azul, dormitório dos médios, onde estava a minha cama; mudei de roupa, levei a farda ao 
número 54 do depósito geral, meu número. Não tive coragem de afrontar o recreio. Via de 
longe os colegas, poucos àquela hora, passeando em grupos, conversando amigavelmente, sem 
animação, impressionados ainda pelas recordações de casa; hesitava em ir ter com eles, 
embaraçado da estréia das calças longas, como um exagero cômico, e da sensação de nudez à 
nuca, que o corte recente dos cabelos desabrigara em escândalo. João Numa, inspetor ou bedel, 
baixote, barrigudo, de óculos escuros, movendo-se com vivacidade de bácoro alegre, veio 
achar-me indeciso, à escada do pátio. "Não desce, a brincar?" perguntou bondosamente. 
"Vamos, desça, vá com os outros." O amável bácoro tomou-me pela mão e descemos juntos.
    O inspetor deixou-me entre dois rapazinhos, que me trataram com simpatia.
    Às onze horas, a sineta deu o sinal das aulas. Os meus bons companheiros, de classes 
atrasadas, indicaram a sala de ensino superior de primeiras letras, que devia ser a minha, e se 
despediram.
    O Professor Mânlio, a quem eu fora recomendado, recomendou-me por sua vez ao mais 
sério dos seus discípulos, o honrado Rebelo. Rebelo era o mais velho e tinha óculos escuros 
como João Numa. O vidro curvo dos óculos cobria-lhe os olhos vigorosamente, 
monopolizando a atenção no interesse único da mesa do professor. Como se fosse pouco, o 
zeloso estudante fazia concha com as mãos às têmporas, para impedir o contrabando evasivo 
de algum olhar escapado ao monopólio do vidro.
    Este luxo de aplicação não provinha do simples empenho de fazer atitude de exemplar. 
Rebelo sofria da vista, tanto que muito tarde pudera entregar-se aos estudos. Recebeu-me com 
um sorriso benévolo de avô; afastou-se um pouco para me dar lagar e esqueceu-me 


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incontinenti, para afundar-se na devoradora atenção que era o seu apanágio.
    Os companheiros de classe eram cerca de vinte; uma variedade de tipos que me divertia. 
O  Gualtério, miúdo, redondo de costas, cabelos revoltos, motilidade brusca e caretas de símio 
- palhaço dos outros, como dizia o professor; o Nascimento, o bicanca, alongado por um 
modelo geral de pelicano, nariz esbelto, curvo e largo como uma foice; o Álvares, moreno, 
cenho carregado, cabeleira espessa e intonsa de vate de taverna, violento e estúpido, que 
Mânlio atormentava, designando-o para o mister das plataformas de bonde, com a chapa 
numerada dos recebedores, mais leve de carregar que a responsabilidade dos estudos; o 
Almeidinha, claro, translúcido, rosto de menina, faces de um rosa doentio, que se levantava 
para ir à pedra com um vagar lânguido de convalescente; o Maurílio, nervoso, insofrido, 
fortíssimo em tabuada: cinco vezes três, vezes dois, noves fora, vezes sete?... Ia estava 
Maurílio, trêmulo, sacudindo no ar o dedinho esperto... olhos fúlgidos rosto moreno, marcado 
por uma pinta na testa; o Negrão, de ventas acesas, lábios inquietos, fisionomia agreste de 
cabra, canhoto e anguloso, incapaz de ficar sentado três minutos, sempre à mesa do professor 
e sempre enxotado, debulhando um risinho de pouca-vergonha, fazendo agrados ao mestre, 
chamando-lhe bonzinho, aventurando a todo ensejo uma tentativa de abraço que Mânlio 
repelia, precavido de confianças; Batista Carlos, raça de bugre, válido, de má cara, coçando-se 
muito, como se o incomodasse a roupa no corpo, alheio às coisas da aula, como se não tivesse 
nada com aquilo, espreitando apenas o professor para aproveitar as distrações e ferir a orelha 
aos vizinhos com uma seta de papel dobrado. Às vezes a seta do bugre ricochetava até à mesa 
de Mânlio. Sensação; suspendiam-se os trabalhos; rigoroso inquérito. Em vão, que os partistas 
temiam-no e ele era matreiro e sonso para disfarçar.
    Dignos de nota havia ainda o Cruz, tímido, enfiado, sempre de orelha em pé, olhar 
covarde de quem foi criado a pancadas, aferrado aos livros, forte em doutrina cristã, fácil 
como um despertador para desfechar as lições de cor, perro como uma cravelha para ceder uma 
idéia por conta própria; o Sanches, finalmente, grande, um pouco mais moço que o venerando 
Rebelo, primeiro da classe, muito inteligente, vencido apenas por Maurílio, na especialidade 
dos noves fora vezes tanto, cuidadoso dos exercícios, êmulo do Cruz na doutrina, sem 
competidor na análise, no desenho linear, na cosmografia.
    O resto, uma cambadinha indistinta, adormentados nos últimos bancos, confundidos na 
sombra preguiçosa do fundo da sala.
    Fui também recomendado ao Sanches. Achei-o supinamente antipático: cara extensa, 
olhos rasos, mortos, de um pardo transparente, lábios úmidos, porejando baba, meiguice 
viscosa de crápula antigo. Era o primeiro da aula. Primeiro que fosse do coro dos anjos, no meu 
conceito era a derradeira das criaturas.
    Entretinha-me a espiar os companheiros, quando o professor pronunciou o meu nome. 
Fiquei tão pálido que Mânlio sorriu e perguntou-me, brando, se queria ir à pedra. Precisava 
examinar-me.
    De pé, vexadíssimo, senti brumar-se-me a vista, numa fumaça de vertigem. Adivinhei 
sobre mim o olhar visguento do Sanches, o olhar odioso e timorato do Cruz, os óculos azuis do 
Rebelo, o nariz do Nascimento, virando devagar como um leme; esperei a seta do Carlos, o 
quinau do Maurílio, ameaçador, fazendo cócegas ao teto, com o dedo feroz; respirei no 
ambiente adverso da maldita hora, perfumado pela emanação acre das resinas do arvoredo 
próximo, uma conspiração contra mim da aula inteira, desde as bajulações de Negrão até à 
maldade violenta do Álvares. Cambaleei até à pedra. O professor interrogou-me; não sei se 
respondi. Apossou-se-me do espírito um pavor estranho. Acovardou-me o terror supremo das 
exibições, imaginando em roda a ironia má de todos aqueles rostos desconhecidos. 
Amparei-me à tábua negra, para não cair; fugia-me o solo aos pés, com a noção do momento; 
envolveu-me a escuridão dos desmaios, vergonha eterna! liquidando-se a última energia... pela 
melhor das maneiras piores de liquidar-se uma energia.


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    Do que se passou depois, não tenho idéia. A perturbação levou-me a consciência das 
coisas. Lembro-me que me achei com o Rebelo, na rouparia, e o Rebelo animava-me com um 
esforço de bondade sincero e comovedor.
    Rebelo retirou-se e eu, em camisa, acabrunhado, amargando o meu desastre, enquanto o 
roupeiro procurava o gavetão 54, fiquei a considerar a diferença daquela situação para o ideal 
de cavalaria com que sonhara assombrar o Ateneu.
    Como tardava o criado, apanhei aborrecido um folheto que ali estava à mesa dos 
assentos, entradas de enxoval, registros de lavanderia. Curioso folheto, versos e estampas... 
Fechei-o convulsamente com o arrependimento de uma curiosidade perversa. Estranho 
folheto! Abri-o de novo. Ardia-me à face inexplicável incêndio de pudor, constrangia-me a 
garganta esquisito aperto de náusea. Escravizava-me, porém, a sedução da novidade. Olhei 
para os lados com um gesto de culpado; não sei que instinto me acordava um sobressalto de 
remorso. Um simples papel, entretanto, borrado na tiragem rápida dos delitos de imprensa. 
Arrostei-o. O roupeiro veio interromper-me. "Larga daí! disse com brutalidade, isso não é para 
menino!" E retirou o livrinho.
    Esta impressão viva de surpresa curou-me da lembrança do meu triste episódio, 
crescendo na imaginação como as visões, absorvendo-me as idéias. Zumbia-me aos ouvidos a 
palavra aterrada de Aristarco... Sim, devia ser isto: um entravamento obscuro de formas 
despidas, roupas abertas, um turbilhão de frades bêbados, deslocados ao capricho de todas as 
deformidades de um monstruoso desenho, tocando-se, saltando a sarabanda diabólica sem 
fim, no empastado negrume da tinta do prelo; aqui e ali, o raio branco de uma falha, 
fulminando o espetáculo e a gravura, como o estigma complementar do acaso.
    A rouparia ocupava grande parte do subchão do imenso edifício, entre o vigamento do 
soalho e a terra cimentada. Outra parte era destinada aos lavatórios, centenas de bacias, ao 
longo das paredes e pouco acima num friso de madeira os copos e as escovas de dentes. 
Terceiro compartimento, além destes, acomodava o arsenal dos aparelhos ginásticos e o 
dormitório da criadagem. Da rouparia para o recreio central atravessava-se obliquamente o 
saguão das bacias. Logo a sair ao pátio encontrei o benévolo Rebelo, que me esperava. Insistiu 
com um requinte importuno de complacência sobre o meu incidente, desculpando-me, 
explicando-me, absolvendo-me; tornou-se insuportável. Para mudar de conversa, pedi 
informações acerca do nosso professor. Deu-mas ótimas, nem outras daria um aluno exemplar 
como ele. Nenhum mestre é mau para o bom discípulo, afirmava uma das máximas da parede.
    Era hora de descanso; passeávamos, conversando. Falamos dos colegas. Vi então, de 
dentro da brandura patriarcal do Rebelo, descascar-se uma espécie de inesperado Tersito, 
produzindo injúrias e maldições. "Uma corja! Não imagina, meu caro Sérgio. Conte como uma 
desgraça ter de viver com esta gente." E esbeiçou um lábio sarcástico para os rapazes que 
passavam. "Ai vão as carinhas sonsas, generosa mocidade... Uns perversos! Têm mais pecados 
na consciência que um confessor no ouvido; uma mentira em cada dente, um vicio em cada 
polegada de pele. Fiem-se neles. São servis, traidores, brutais, adulões. Vão juntos. Pensa-se 
que são amigos... Sócios de bandalheira! Fuja deles, fuja deles. Cheiram a corrupção, 
empestam de longe. Corja de hipócritas! Imorais! Cada dia de vida tem-lhes vergonha da 
véspera. Mas você é criança; não digo tudo o que vale a generosa mocidade. Com eles mesmos 
há de aprender o que são... Aquele é o Malheiro, um grande em ginástica. Entrou graúdo, 
trazendo para cá os bons costumes de quanto colégio por ai. O pai é oficial. Cresceu num 
quartel no meio da chacota das praças. Forte como um touro, todos o temem, muitos o cercam, 
os inspetores não podem com ele; o diretor respeita-o; faz-se a vista larga para os seus abusos... 
Este que passou por nós, olhando muito, é o Cândido, com aqueles modos de mulher, aquele 
arzinho de quem saiu da cama, com preguiça nos olhos... Este sujeito... Há de ser seu 
conhecido. Mas faço exceções: ali vem o Ribas, está vendo? feio, coitadinho! como tudo, mas 
uma pérola. É a mansidão em pessoa. Primeira voz do Orfeão, uma vozinha de moça que o 


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diretor adora. É estudioso e protegido. Faz a vida cantando como os serafins. Uma pérola!"
    - Ali está um de joelhos...
    - De joelhos... Não há perguntar; é o Franco. Uma alma penada. Hoje é o primeiro dia, 
ali está de joelhos o Franco. Assim atravessa as semanas, os meses, assim o conheço, nesta 
casa, desde que entrei. De joelhos como um penitente expiando a culpa de uma raça. O diretor 
chama-lhe cão, diz que tem calos na cara. Se não tivesse calos no joelho, não haveria canto do 
Ateneu que ele não marcasse com o sangue de uma penitência. O pai é de Mato Grosso; 
mandou-o para aqui com uma carta em que o recomendava como incorrigível, pedindo 
severidade. O correspondente envia de tempos a tempos um caixeiro que faz os pagamentos e 
deixa lembranças. Não sai nunca... Afastemo-nos que aí vem um grupo de gaiatos.
    Um tropel de rapazes atravessou-nos a frente, provocando-me com surriadas.
    "Viu aquele da frente, que gritou calouro? Se eu dissesse o que se conta dele... aqueles 
olhinhos úmidos de Senhora das Dores... Olhe; um conselho; faça-se forte aqui, faça-se 
homem. Os fracos perdem-se.
    "Isto é uma multidão; é preciso força de cotovelos para romper. Não sou criança, nem 
idiota; vivo só e vejo de longe; mas vejo. Não pode imaginar. Os gênios fazem aqui dois sexos, 
como se fosse uma escola mista. Os rapazes tímidos, ingênuos, sem sangue, são brandamente 
impelidos para o sexo da fraqueza; são dominados, festejados, pervertidos como meninas ao 
desamparo. Quando, em segredo dos pais, pensam que o colégio é a melhor das vidas, com o 
acolhimento dos mais velhos, entre brejeiro e afetuoso, estão perdidos... Faça-se homem, meu 
amigo! Comece por não admitir protetores."
    Ia por diante Rebelo com os extraordinários avisos, quando senti puxarem-me a blusa. 
Quase cai. Voltei-me; vi a distancia uma cara amarela, de gordura balofa, olhos vesgos sem 
pestanas, virada para mim, esgarçando a boca em careta de riso cínico. Um sujeito 
evidentemente mais forte do que eu. Não obstante apanhei com raiva um pedaço de telha e 
arremessei O tratante livrou-se, injuriando-me com uma gargalhada, e sumiu-se. "Muito bem", 
aplaudiu Rebelo. E à pergunta que fiz, informou: aquele desagradável rapaz era o Barbalho, 
que havia de ser um dia preso como gatuno de jóias, nosso companheiro da aula primária, do 
número dos esquecidos nos bancos do fundo.
    O Professor Mânlio teve a bondade de adiar o meu exame, e, para salvar-me das 
conseqüências do escárnio do desastrado incidente da primeira aula, obsequiou-me na 
seguinte com as melhores palavras de animação. Os rapazes foram generosos. Maurílio, 
acariciou-me a cabeça mimosamente, provando que sabia ser bom o dedinho implacável dos 
argumentos. Só o amarelo dos olhos vesgos teimava em fazer gaifonas à socapa.
    Depois do jantar não tornei a ver o Rebelo. Como freqüentava algumas aulas 
extraordinárias do curso superior, recolhia-se a certas horas para as salas de cima.
    A sala do Professor Mânlio era ao nível do pátio, em pavilhão independente do edifício 
principal, com duas outras do curso primário, o alojamento da banda de música e o salão 
suplementar de recreio, vantajoso em dias de chuva. Formando ângulo reto com esta casa, uma 
extensa construção de tijolo e tábuas pintadas, sala geral do estudo no pavimento térreo e 
dormitório em cima, concorria para fechar metade do quadrilátero do pátio, que o grande 
edifício completava, estendendo-se em duas alas, como os braços da reclusão severa. No 
fundo desta caixa desmedida de paredes, dilatava-se um areal claro, estéril, insípido como a 
alegria obrigatória, algumas árvores de cambucá mostravam, em roda, a folhagem fixa, com o 
verdor morto das palmas de igreja, alourada a esmo da senilidade precoce dos ramos que 
sofrem, como se não coubesse a vegetação no internato; a um canto, esgalgado cipreste subia 
até às goteiras, tentando fugir pelos telhados.
    Sem o Rebelo, achei-me ai como perdido, em meio dos rapazes. Os conhecidos da aula 
desapareciam no tumulto que as salas todas despejavam.
    Nem um só de quem me pudesse aproximar. Rente com a parede, para que me não dessem 


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atenção, insinuei-me até o lugar donde o inspetor Silvino, um grande magro, de avultado nariz 
e suíças dilaceradas, olhar miado e vivo como chispas, em órbitas de antro, fiscalizava o 
recreio, graduando a folgança, à mercê de um temível canhenho. Sentava-se à entrada do 
portão do lavatório. Um pouco além da cadeira do Silvino, fiquei a salvo. Do seguro retiro 
avistava, no terreiro, fresco das largas sombras da hora, o movimento dos colegas.
    Num ponto e noutro formavam-se pequenos sarilhos, condensando irregularmente a 
dispersão dos alunos. Eram os pobres novatos que os veteranos sovavam à cacholeta, 
fraternalmente.
    Perto de mim vi o Franco. Sempre de penitência; em pé, cara contra a parede. Como 
Silvino dava-lhe as costas, divertia-se a pegar moscas para arrancar a cabeça e ver morrer o 
bichinho na palma da mão. Perguntei-lhe por que estava de castigo. Sem olhar, de mau modo: 
"Lá sei! disse ele. Porque me mandaram". E continuou a pegar as moscas. Franco era um 
rapazola de quatorze anos, raquítico, de olhos pasmados, face lívida, pálpebras pisadas. À 
fronte, com a expressão vaga dos olhos e obliqüidade dolorida dos supercílios, pousava-lhe 
uma névoa de aflição e paciência, como se vê no Flos sanctorum. A parte inferior do semblante 
rebelava-se; um canto dos lábios franzia-se em contração constante de odiento desprezo. 
Franco não ria nunca. Sorria apenas, assistindo a uma briga séria, interessando-se pelo 
desenlace como um apostador de rinha, enfurecendo-se quando apartavam. Uma queda 
alegrava-o, principalmente perigosa. Vivia isolado no circulo da excomunhão com que o 
diretor, invariavelmente, o fulminava todas as manhãs, lendo no refeitório perante o colégio as 
notas da véspera.
    Os professores já sabiam. À nota do Franco, sempre má, devia seguir-se especial 
comentário deprimente, que a opinião esperava e ouvia com delícia, fartando-se de desprezar. 
Nenhum de nós como ele! E o zelo do mestre cada dia retemperava o velho anátema. Não 
convinha expulsar. Uma coisa destas aproveita-se como um bibelô do ensino intuitivo, 
explora-se como a miséria do hilota, para a lição fecunda do asco. A própria indiferença 
repugnante da vitima é útil.
    Três anos havia que o infeliz, num suplício de pequeninas humilhações cruéis, agachado, 
abatido, esmagado, sob o peso das virtudes alheias mais que das próprias culpas, ali estava, - 
cariátide forçada no edifício de moralização do Ateneu, exemplar perfeito de depravação 
oferecido ao horror santo dos puros.
    Várias vezes nessa tarde fui assaltado pela chacota impertinente do Barbalho. O 
endemoninhado caolho puxava-me a roupa, esbarrava-me encontrões e fugia com grandes 
risadas falsas, ou parava-me de súbito em frente, e revestindo-se de quanta seriedade lhe era 
suscetível o açafrão da cara, perguntava: "Mudas as calças?" Um inferno. Até que afinal o meu 
desespero estourou.
    Foi à noite, pouco antes da ceia. Estávamos a um canto mal iluminado do pátio, quase sós. 
O biltre reconheceu-me e arreganhou uma inexprimível interjeição de mofa. Não esperei por 
mais. Estampei-lhe uma bofetada. Meio segundo depois, rolávamos na poeira, engalfinhados 
como feras. Uma luta rápida. Avisaram-nos que vinha o Silvino. Barbalho evadiu-se. Eu 
verifiquei que tinha o peito da blusa coberto de sangue que me corria do nariz.
    Uma hora mais tarde, na cama de ferro do salão azul, compenetrado da tristeza de 
hospital dos dormitórios, fundos na sombra do gás mortiço, trincando a colcha branca, eu 
meditava o retrospecto do meu dia.
    Era assim o colégio. Que fazer da matalotagem dos meus planos?
    Onde meter a máquina dos meus ideais naquele mundo de brutalidade, que me 
intimidava com os obscuros detalhes e as perspectivas informes, escapando à investigação da 
minha inexperiência? Qual o meu destino, naquela sociedade que o Rebelo descrevera 
horrorizado, com as meias frases de mistério, suscitando temores indefinidos, recomendando 
energia, como se coleguismo fosse hostilidade? De que modo alinhar a norma generosa e 


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sobranceira de proceder com a obsessão pertinaz do Barbalho? Inutilmente buscara reconhecer 
no rosto dos rapazes o nobre aspecto da solenidade dos prêmios, dando-me idéia da legião dos 
soldados do trabalho, que fraternizavam no empenho comum, unidos pelo coração e pela 
vantagem do coletivo esforço. Individualizados na debandada do receio, com as observações 
ainda mais da critica do Rebelo, bem diverso sentimento inspiravam-me. A reação do 
contraste induzia-me a um conceito de repugnância que o hábito havia de esmorecer, que me 
tirava lágrimas àquela noite. Ao mesmo tempo oprimia-me o pressentimento da solidão moral, 
fazendo adivinhar que as preocupações mínimas e as concomitantes surpresas inconfessáveis 
dariam pouco para as efusões de alívio, a que corresponde o conselho, a consolação.
    Nada de protetor, dissera Rebelo. Era o ermo. E, na solidão, conspiradas, as adversidades 
de toda a espécie, falsidade traiçoeira dos afetos, perseguição da malevolência, espionagem da 
vigilância; por cima de tudo, céu de trovões sobre os desalentos, a fúria tonante de 
Júpiter-diretor, o tremendo Aristarco dos momentos graves.
    Lembranças da família desviaram-me o curso às reflexões. Não havia mais a mão querida 
para acalentar-me o primeiro sono, nem a oração, tão longe nesse momento, que me protegia à 
noite como um dossel de amor; o abandono apenas das crianças sem lar que os asilos da miséria 
recolhem.
    A convicção do meu triste infortúnio lentamente, suavemente, aniquilou-me num 
conforto de prostração e eu dormi.
    Pela noite adentro, comparsas de pesadelo, perseguiram-me as imagens várias do 
atribulado dia; a pegajosa ternura do Sanches, a cara amarela do Barbalho, a expressão de 
tortura do Franco, os frades descompostos do roupeiro. Sonhei mesmo em regra. Eu era o 
Franco. A minha aula, o colégio inteiro, mil colégios, arrebatados, num pé-de-vento, voavam 
léguas afora por uma planície sem termo. Gritavam todos, urravam a sabatina de tatuadas com 
um entusiasmo de turbilhão. O pó crescia em nuvens do solo; a massa confusa ouriçava-se de 
gestos, gestos de galho sem folhas em tormenta agoniada de inverno; sobre a floresta dos 
braços, gesto mais alto, gesto vencedor, a mão magra do Maurílio, crescida, enorme, preta, 
torcendo, destorcendo os dedos sôfregos, convulsionados da histeria do quinau... E eu caia, 
único vencido! E o tropel, de volta, vinha sobre mim, todos sobre mim! sopeavam-me, 
calcavam-me, pesados, carregando prêmios, prêmios aos cestos!
    A sineta, tocando a despertar, livrou-me da angústia. Cinco horas da manhã.

I I I


    Se em pequeno, movido por um vislumbre de luminosa prudência, enquanto aplicavam-se 
os outros à peteca, eu me houvesse entregado ao manso labor de fabricar documentos 
autobiográficos, para a oportuna confecção de mais uma infância célebre, certo não registraria, 
entre os meus episódios de predestinado, o caso banal da natação, de conseqüências, 
entretanto, para mim, e origem de dissabores como jamais encontrei tão amargos.
    Natação chamava-se o banheiro, construído num terreno das dependências do Ateneu, 
vasta toalha d'água ao rés da terra, trinta metros sobre cinco, com escoamento para o Rio 
Comprido, e alimentada por grandes torneiras de chave livre. O fundo, invisível, de ladrilho, 
oferecia uma inclinação, baixando gradualmente de um extremo para outro. Acusava-se ainda 
mais esta diferença de profundidade por dois degraus convenientemente dispostos para que 
tomassem pé as crianças como os rapazes desenvolvidos. Em certo ponto a água cobria um 
homem.
    Por ocasião dos intensos calores de fevereiro e marco e do fim do ano, havia ai dois 
banhos por dia. E cada banho era uma festa, naquela água gorda, salobra da transpiração 
lavada das turmas precedentes, que as dimensões do tanque impediam a devida renovação; 


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turbulento debate de corpos nus, estreitamente cingidos no calção de malha rajado a cores, 
enleando-se os rapazes como lampreias, uns imergindo, reaparecendo outros, olhos injetados, 
cabelos a escorrer pela cara, vergões na pele de involuntárias unhadas dos companheiros, entre 
gritos de alegria, gritos de susto, gritos de terror; os menores agrupados no raso, dando-se as 
mãos em cacho, espavoridos, se algum mais forte chegava.
    Dos maiores, alguns havia que faziam medo realmente, singrando a braçadas, levando a 
ombro a resistência d'água; outros se precipitavam cabeça para baixo, volteando os pés no ar 
como cauda de peixe, prancheando sem ver a quem. E, borbulhando entre os nadadores, fartas 
ondas de ressaca se embarcavam e iam transbordar pelas imediações do banheiro alagando 
tudo.
    Ao longo do tanque, corria o muro divisório, além do qual ficava a chácara particular do 
diretor. A distancia, viam-se as janelas de uma parte da casa, onde às vezes eram recolhidos os 
estudantes enfermos, fechadas sempre a venezianas verdes.
    Trepada ao muro e meio escondida por uma moita de bambus e ramos de hera, vinha 
Ângela, a canarina, ver os banhos da tarde. Lançava pedrinhas aos rapazes; os rapazes 
mandavam-lhe beijos e mergulhavam, buscando o seixo. Ângela, torcendo os pulsos, 
reclinando-se para trás, ria perdidamente um grande riso, desabrochado em carola de flor 
através dos dentes alvos.
    Ao primeiro banho, amedrontou-me a desordem movimentada.
    Procurei o recanto dos menores. Determinava a disciplina a divisão dos banhistas em três 
turmas, conforme as classes de idade. Mas, o descuido da fiscalização permitia que as turmas 
se confundissem e o inspetor de serviço, com a varinha destinada aos retardatários, vigiava, 
afastado, de sorte que ficavam expostos os mais fracos aos abusos dos marmanjos que as 
espadanas d'água acobertavam. Mal tinha eu entrado, senti que duas mãos, no fundo, 
prendiam-me o tornozelo, o joelho. A um impulso violento cai de costas; a água abafou-me os 
gritos, cobriu-me a vista. Senti-me arrastado. Num desespero de asfixia, pensei morrer. Sem 
saber nadar, vi-me abandonado em ponto perigoso; e bracejava, à toa, imerso a desfalecer, 
quando alguém me amparou. Um grande tomou-me ao ombro e me depôs à borda, estendido, 
vomitando água. Levei algum tempo para me inteirar do que ocorrera. Esfreguei por fim os 
olhos e verifiquei que o Sanches me tinha salvo. "Ia afogar-se!" disse ele, amparando-me a 
cabeça enquanto me desempastava os cabelos de cima dos olhos. Meio aturdido ainda, 
contei-lhe efusivamente o que me haviam feito. "Perversos!" observou-me o colega com pena, 
e atribuiu a brutalidade a qualquer peste que fugira no atropelo dos nadadores, desvelando-se 
em solicitudes por tranqüilizar-me. Tive depois motivo, para crer que o perverso e a peste 
fora-o ele próprio, na intenção de fazer valer um bom serviço.
    Mas a conseqüência imediata do fato foi que forcei a repugnância que o Sanches me 
causava e me fiz todo gratidão para com ele e intima amizade. Curiosa e acidentada tinha de 
ser essa minha aventura de apego e confiança.
    No Ateneu formávamos a dois para tudo. Para os exercícios ginásticos, para a entrada na 
capela, no refeitório, nas aulas, para a saudação ao anjo da guarda, ao meio-dia, para a 
distribuição do pão seco depois do canto. Por amor da regularidade da organização militar, 
repartiam-se as três centenas de alunos em grupos de trinta, sob o direto comando de um 
decurião ou vigilante. Os vigilantes eram escolhidos por seleção de aristocracia, asseverava 
Aristarco. Vigilante era o Malheiro, o herói do trapézio; vigilante era o Ribas, a melhor 
vocalização do Orfeão; vigilante era o Mata, mirrado, corcundinha, de espinha quebrada, 
apelidado o mascate, melífluo no trato, nunca punido ninguém sabia por quê, reputação de 
excelente porque ninguém se lembrava de verificar, que, entretanto, Rebelo apontava como 
chefe da policia secreta do diretor; vigilante o Saulo, que tinha três distinções na instrução 
pública; vigilante Rômulo, mestre cook, por alcunha, uma besta, grandalhão, último na 
ginástica pela corpulência bamba, último nas aulas, dispensado do Orfeão pela garganta 


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rachada de requinta velha, mas exercendo no colégio, por exceção de saliência na largura chata 
da sua incapacidade, as complexas e delicadas funções de zabumba da banda. Não sei se este 
jeito particular para o bombo, fórmula musical do anúncio, não sei se uma célebre herança que 
Rômulo esperava de afortunados parentes, verdade é que entre todos fora Rômulo apurado 
por Aristarco para o invejável privilégio de seu futuro genro.
    Diversos outros vigilantes contavam-se como estes, eleitos por um critério que dava 
ensejo a que o escolhido por valentia à barra fixa representava no estudo um papel 
contristador; vice-versa, outro, como Ribas, exemplar nas aulas, magricela e esgotado, mal 
podia ao trapézio vacilar a acrobacia simplificada do prumo.
    Sanches era também vigilante.
    Estes oficiais inferiores da milícia da casa faziam-se tiranetes por delegação da suprema 
ditadura. Armados de sabres de pau com guardas de couro, tomavam a sério a investidura do 
mando e eram em geral de uma ferocidade adorável. Os sabres puniam sumariamente as 
infrações da  disciplina na forma: duas palavras ao cerra-fila, perna frouxa, desvio notável do 
alinhamento. Regime siberiano, como se vê, do que resultava que os vigilantes eram altamente 
conceituados.
    No caso particular da nossa fortuita aproximação, não podia deixar de influir 
consideravelmente a bela importância colegial do vigilante Sanches. Mas outras circunstâncias 
concertaram-se para determinar a nova  feição das minhas disposições conforme se acentuou 
depois do incidente do banho.
    Já me era lícito julgar iniciado na convivência intima da escola. Chamado por Mânlio a 
provas, consegui agradar, conquistando uma aura que me devia por algum tempo favorecer. 
Encontrei o Barbalho. Tinha a face marcada pelas minhas unhas; evitou-me. No recreio cometi 
a injustiça de ir deixando o Rebelo. Também o amável camarada tinha na boca um mau cheiro 
que lhe prejudicava a pureza dos conselhos; demais, falava prendendo a gente com dedos de 
torquês e soltando os aforismos a queima-roupa. Por seu lado o venerando colega 
correspondeu ao movimento massando-se comigo, e amuando. Durante as aulas, em que nos 
sentávamos perto um do outro, absorvia-se em sua desesperada atenção e era como se estivesse 
a muitas milhas. Se, todavia, por imprescindível necessidade tinha de me falar, então, 
dirigia-me a palavra com a habitual afabilidade de jovem cura.
    Estava aclimado, mas eu me aclimara pelo desalento, como um encarcerado no seu 
cárcere.
    Depois que sacudi fora a tranca dos ideais ingênuos, sentia-me vazio de animo; nunca 
percebi tanto a espiritualidade imponderável da alma: o vácuo habitava-me dentro. Premia-me 
a força das coisas; senti-me acovardado. Perdeu-se a lição viril de Rebelo: prescindir de 
protetores. Eu desejei um protetor, alguém que me valesse, naquele meio hostil e 
desconhecido, e um valimento direto mais forte do que palavras.
    Se não houvesse olvidado as práticas, como a assistência pessoal do Rebelo, eu notaria 
talvez que pouco a pouco me ia invadindo, como ele observara, a efeminação mórbida das 
escolas. Mas a teoria é frágil e adormece como as larvas friorentas, quando a estação obriga. A 
letargia mora! pesava-me no declive. E, como se a alma das crianças, à maneira do físico, 
esperasse realmente pelos dias para caracterizar em definitivo a conformação sexual do 
indivíduo, sentia-me possuído de certa necessidade preguiçosa de amparo, volúpia de 
fraqueza em rigor imprópria do caráter masculino. Convencido de que a campanha do estudo 
e da energia moral não era precisamente uma cavalgada cotidiana, animada pelo clarim da 
retórica, como nas festas, e pelo verso enfático dos hinos, entristeceu-me a realidade crua. 
Desiludi-me dos bastidores da gloriosa parada, vendo-a pelo avesso. Nem todos os dias do 
militarismo enfeitam-se com a animação dos assaltos e das voltas triunfais; desmoralizava-me 
o ranram estagnado da paz das casernas, o prosaísmo elementar da faxina.
    Com esta crise do sentimento casava-se o receio que me infundia o microcosmo do 


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Ateneu. Tudo ameaça os indefesos. O desembaraço tumultuoso dos companheiros a recreação, 
a maneira fácil de conduzir o trabalho, pareciam-me traços de esmagadora superioridade; 
espantava-me a viveza dos pequenos, tão pequenos alguns! O braço do Sanches vinha assim 
salvar-me, segunda vez, de submersão, acudindo na vertigem do momento.
    Eu não estudava; a minha conta era, entretanto, regular, por um concurso de elementos 
eventuais; direitos da recente matricula à benevolência, a minha recomendação ao Professor 
Mânlio, com os retalhos alinhavados de ciência anterior. Mantinha-me em satisfatória média; 
mas o risco da decadência era constante. O método constituía o pior obstáculo; sem o auxilio 
de alguém, mais prático, estava perdido. Sanches havia sem dúvida de valer-me com a sua 
capacidade de grande estudante, sobretudo com a boa vontade insinuativa que 
desinteressadamente manifestava. Sem falar no proveito que rendia esta afeição, empunhando 
por meu favor o terrível sabre de vigilante, com guardas de couro!
    Com efeito não tardou que ele me desse a mão como a Minerva benigna de Fénelon.
    Entrei pela geografia como em casa minha. As anfractuosidades marginais dos 
continentes desfaziam-se nas cartas, por maior brevidade do meu trabalho; os rios 
dispensavam detalhes complicados dos meandros e afluíam-me para a memória, abandonando 
o pendor natural das vertentes; as cordilheiras, imensa tropa de amestrados elefantes, 
arranjavam-se em sistemas de orografia facílima; reduzia-se o número das cidades principais 
do mundo, sumindo-se no chão, para que eu não tivesse de decorar tanto nome; 
arredondava-se a cota das populações, perdendo as frações importunas, com prejuízo dos 
recenseamentos e maior gravame dos úteros nacionais; uma mnemônica feliz ensinava-me a 
enumeração dos estados e das províncias. Graças à destreza do Sanches, não havia incidente 
estudado da superfície terrestre que se me não colasse ao cérebro como se fosse minha cabeça, 
por dentro, o que é por fora a esfera do mundo.
    A seu turno a gramática abria-se como um cofre de confeitos pela Páscoa. Cetim cor de 
céu e açúcar. Eu escolhia a bel-prazer os adjetivos, como amêndoas adocicadas pelas 
circunstâncias adverbiais da mais agradável variedade; os amáveis substantivos! voavam-me à 
roda, próprios e apelativos, como criaturinhas de alfenim alado; a etimologia, a sintaxe, a 
prosódia, a ortografia, quatro graus de doçura da mesma gustação. Quando muito, as exceções 
e os verbos irregulares desgostavam-me a principio; como esses feios confeitos crespos de 
chocolate: levados a boca saborosíssimos.
    A história pátria deliciou-me em quanto pôde. Desde os missionários da catequese 
colonizadora, que vinham ao meu encontro, com Anchieta, visões de bondade, recitando 
escolhidas estrofes do evangelho das selvas, mandando adiante, coroados de flores, pela 
estrada larga de areia branca, os columins alegres, aprendizes da fé e da civilização, 
acompanhados da turba selvagem do gentio cor de casca de árvores, emplumados, 
sarapintados de mil tintas, em respeitosa contrição de fetichismo domado, avultando do seio, 
do fundo da mata escura, como uma marcha fantástica de troncos. Até às eras da 
independência, evocação complicada de sarrafos comemorativos das alvoradas do Rocio e de 
anseios de patriotismo infantil; um príncipe fundido, cavalgando uma data, mostrando no 
lenço aos povos a legenda oficial do Ipiranga; mais abaixo, pontuadas pelas salvas do Santo 
Antônio, as aclamações de um povo mesclado que deixou morrer Tiradentes para se esbofar 
em vivas ao ramo de café da Domitila.
    Cada página era um encanto, prefaciadas pela explicação complacente do colega. Graças 
à habilidade das suas apresentações, apertei a mão aos mais truculentos figurões do passado, 
aos mais poderosos. Antônio Salema, o cruel, sorriu-me; o Vidigal foi gentil; D. João VI 
deixou-me rapé nos dedos. Conheci de vista Mem de Sá, Maurício de Nassau, vi passar o herói 
mineiro, calmo, mãos atadas como Cristo, barba abundante de apóstolo das gentes, um toque 
de sol na fronte lisa e vasta, escavada pelo destino para receber melhor a coroa do martírio.
    A história santa revelou-me este épico, quem o diria? - o cônego Roquette!  E eu bebi a 


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embriaguez musical dos capítulos como o canto profundo das catedrais. Ouvi suspirar a 
Crença, o idílio do Éden, o amor primitivo do Gênesis, invejado dos anjos, sob o olhar 
magnânimo dos leões; ouvi a queixa terna do primeiro par banido para a dor, para o trabalho; 
Adão vergonhoso, vestindo as parras da primeira pruderie, Eva a envolver a nudez jovem de 
lírios na túnica de ouro das madeixas, cobrindo com as mãos o ventre, obscenidade das mães, 
estigmatizada pela maldição de Deus.
    E crescia o canto na abóbada e o órgão falava à tradição inteira do sofrimento humano 
suplantado pela divindade. Modulava-se a harmonia em suave gorjeio, entoando a elevação 
dos salmos, o êxtase sensual do Cântico dos Cânticos na boca da Sulamita, e a sedução de 
Booz enredado no estratagema honesto da ternura, e a melancolia trágica de Judite, e a serena 
glória de Ester, a princesa querida.
    Subitamente, entreabria-se o quadro sonoro para irromper o coro das lamentações. 
Acabavam no ar, lucíolas extintas, os derradeiros sons da harpa de Davi; perdia-se em ecos a 
derradeira antístrofe Salomão; sumiu-se à extremidade do campo a imagem de Rute, ao braço 
o feixe louro de trigo; entrou a Hebréia sombria na tenda de Holofernes, levando nos lábios o 
beijo assassino; cobriu-se a aparição luminosa de Ester com o sono da noite de Mardoqueu. Era 
a gama dolente dos terrores. Clamavam as imprecações do dilúvio, os desesperos de Gomorra; 
flamejava no firmamento a espada do anjo de Senaqueribe; dialogavam em concerto tétrico as 
súplicas do Egito, os gemidos de Babilônia, as pedras condenadas de Jerusalém. Vozeava o 
tenebroso grave das pregações dos profetas. Embalde o fulgor das transfigurações, como o 
lívido fuzil, escancarava abertas de luz sobre a tormenta noturna; Ezequiel tinha a visão do 
Eterno; Elias visitava o Mistério numa escapada de chamas. Nada. A música solene era o 
miserere. Nem o clarão da alvorada de Belém na Judéia debelava a sombra, nem a miragem 
viva do Tabor. A epopéia agonizava ao rodar do século, ecoava numa caverna onde havia um 
túmulo; bradava triunfo um momento pela Ressurreição do Justo; morria, enfim, lento, lento 
com a prece dos mártires do anfiteatro, com a longínqua prece subterrânea dos refugiados das 
Catacumbas.
    A doutrina cristã, anotada pela proficiência do explicador, foi ocasião de dobrado ensino 
que muito me interessou. Era o céu aberto, rodeado de altares, para todas as criações 
consagradas da fé. Curioso encarar a grandeza do Altíssimo; mas havia janelas para o 
purgatório a que o Sanches se debruçava comigo, cuja vista muito mais seduzia. E o preceptor 
tinha um tempero de unção na voz e no modo, uma sobranceria de diretor espiritual, que fala 
do pecado sem macular a boca. Expunha quase compungido, fincando o olhar no teto, fazendo 
estalar os dedos, num enlevo de abstração religiosa; expunha, demorando os incidentes, as 
mais cabeludas manifestações de Satanás no mundo. Nem ao menos dourava os chifres, que 
me não fizessem medo; pelo contrário, havia como que o capricho de surpreender com as 
fantasias do Mal e da Tentação, e, segundo o lineamento do Sanches, a cauda do demônio 
tinha talvez dois metros mais que na realidade. Insinuou-me, é certo, uma vez, que não é tão 
feio o dito, como o pintam.

    O catecismo começou a infundir-me o temor apavorado dos oráculos obscuros. Eu não 
acreditava inteiramente. Bem pensando, achava que metade daquilo era invenção malvada do 
Sanches. E quando ele punha-se a contar histórias de castidade, sem atenção à parvidade da 
matéria do preceito teológico, mulher do próximo, Conceição da Virgem, terceiro-luxúria, 
brados ao céu pela sensualidade contra a natureza, vantagens morais do matrimônio, e porque 
a carne, a inocente carne, que eu só conhecia condenada pela quaresma e pelos monopolistas 
do bacalhau, a pobre carne do beef, era inimigo da alma; quando retificava o meu engano, que 
era outra a carne e guisada de modo especial e muito especialmente trinchada, eu mordia um 
pedacinho de indignação contra as calúnias à santa cartilha do meu devoto credo. Mas a coisa 
interessava e eu ia colhendo as informações para julgar por mim oportunamente.


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    Na tabuada e no desenho linear, eu prescindia do colega mais velho; no desenho, porque 
achava graça em percorrer os caprichosos traços, divertindo-me a geometria miúda como um 
brinquedo; na tatuada e no sistema métrico, porque perdera as esperanças de passar de 
medíocre como ginasta de cálculos, e resolvera deixar a Maurílio ou a quem quer que fosse o 
primado das cifras.
    Em dois meses tínhamos vencido por alto a matéria toda do curso; e, com este preparo, 
sorria-me o agouro de magnífico futuro, quando veio a fatalidade desandar a roda.
    Referi que Sanches me provocava uma repugnância de gosma. Depois do caso da 
natação, o reconhecimento predominou sobre a repulsa e eu admiti as assiduidades com que de 
então por diante me quis beneficiar o companheiro. Afinal, porém, tornou-me a aparecer o 
afastamento instintivo que me separava do rapaz.
    Descrente da fraternidade do colégio, cuja personificação representava-me o Barbalho, 
eu temia o alvoroço do recreio. Conservar-me na sala das lições era uma medida de prudência. 
Estes intervalos regulamentares de descanso, aproveitava-os para me adiantar no curso. Pois 
bem, durante estes momentos de aplicação excepcional em que ficávamos a sós, eu e o grande, 
definiu-se o fundamento da antipatia pressentida. A franqueza da convivência aumentou dia a 
dia, em progresso imperceptível. Tomávamos lugar no mesmo banco. Sanches foi-se 
aproximando. Encostava-se, depois, muito a mim. Fechava o livro dele e lia no meu, 
bafejando-me o rosto com uma respiração de cansaço. Para explicar alguma coisa, 
distanciava-se um pouco; tomava-me, então, os dedos e amassava-me até doer a mão, como se 
fosse argila, cravando-me olhares de raiva injustificada. Volvia nova" mente às expressões de 
afeto e a leitura prosseguia, passando-me ele o braço ao pescoço como um furioso amigo.
    Eu deixava tudo, fingindo-me insensível, com um plano de rompimento em idéia, 
embargado, todavia, pela falta de coragem. Não havia mal naquelas maneiras amigas; 
achava-as, simplesmente, despropositadas e importunas, máxime não correspondendo à mais 
insignificante manifestação da minha parte.
    Notei que ele variava de atitude quando um inspetor mostrava a cabeça à entrada da sala 
e quando pretendia informar-me de alguma disciplina transcendente.
    Então o mestre singular formalizava-se de gravidade severa e distante. Esta inconstância 
era o meu alarme. Foi afinal um entretenimento. Eu perdia muitas vezes o fio da leitura para 
atender às artimanhas daquela novíssima comédia.
    Por um dia de muito calor, acabava ele de enunciar como um padre uma página de 
religião, os diversos atos de Contrição, de Atrição, de Fé, de Esperança, de Caridade, quando 
propôs que eu lhos repetisse sentado aos seus joelhos. Achei inútil a comodidade e repeti a 
lição passeando pela sala. Que diabo! Aquele sujeito queria tratar-me definitivamente como 
um bebê! Com pouco mais lhe daria o excesso de extremos para me oferecer uma volta de 
cueiros! Ah! que se ainda me vivesse no animo a bravura audaz que trouxera de casa, sem 
dúvida nenhuma há muito tempo que eu tinha despachado o Sanches com a cartilha pelas 
ventas. Mas eu era outro, e a vontade vegetava tenra e dúctil como um renovo, depois do 
aniquilamento da primeira decepção. Fui transferindo o conflito.
    Às vezes a minha resistência passiva desapontava o preceptor. Ele encarava-me terrível, e 
como quem diz: "perde a proteção de um vigilante!", ou disfarçava a impertinência em riso 
amarelo, numa abstrata expressão de fisionomia, que era aliás o facies de uma idéia fixa.
    Os exercícios corporais efetuavam-se à tarde, uma hora depois do jantar, hora excelente, 
que habituava a digestão a segurar-se no estômago e não escorrer pela goela quando os 
estudantes se balançavam à barra fixa, pelas curvas.
    Reconheci o belo campo das manobras quando lá fui pela primeira vez, depois da 
matricula; tive saudade das flâmulas sobre o gramal verde. Mesmo, porém, desmontada a 
alegria de encomenda das festas, era um sitio ameníssimo o campo. Descoberto a todo o céu, 
parecia mais abundante de ar; eu lá vingava os pulmões da compressão cerrada do regime 


[Linha 1000 de 4767 - Parte 1 de 4]


interno.
    Findos os exercícios, partia o Professor Bataillard, e, guardados por dois inspetores, o 
Silvino e o João Numa ou João Numa e o velho Margal, venerando inválido espanhol querido 
de todos, ou o Margal e o Conselheiro tínhamos, os alunos, um prazo de recreio até cair a noite.
    Uma vez, ao escurecer, passeando eu calado, com o Sanches igualmente, vendo escapar o 
dia para além das montanhas, percebi que o meu companheiro balbuciava uma pergunta. Falou 
desatento, admirando o crepúsculo com a testa franzida, na meia abstração que era o seu ricto 
costumeiro. Estávamos a um rodeio da avenida que circundava o gramal, oposto à cancela 
onde conversavam os inspetores. Os colegas jogavam barra através da grama, ou se divertiam 
ao saut-de-mouton em pontos afastados. Como não apreendi a pergunta, o Sanches repetiu. 
Escapou-me involuntário o riso... Abarbava-me a mais rara espécie de pretendente! Eu ria com 
franqueza, mas abismado. Era de uma extravagância original aquele Sanches! Hoje, ele é 
engenheiro em uma estrada de ferro do sul, um grave engenheiro...
    Vendo que não nos podíamos entender, meteu entre nós o esplendor da tarde, e 
resolvemos o embaraço concordando ambos num parecer unânime a respeito.
    Durante os dias que se seguiram, Sanches esteve frio. Tive medo de perdê-lo. Deu-me as 
lições sem uma só das intragáveis ternuras. Exprimia-se brevemente, entre enfezado e triste. 
Suspeitei uma revolução de caráter e julguei ter achado o que me convinha: um amigo 
moderado, que me livrasse dos vexames da vida colegial dos pequenos. O caso era outro. 
Sanches compreendera que a ingenuidade tinha contraminado os zelos do seu ensino. 
Manobrava, então, para voltar à carga. Entretanto, deu-se o cuidado de insistir na preparação 
edificante.
    Inventou uma análise dos Lusíadas, livro de exame, cuja dificuldade não cessava de 
encarecer.
    Guiou-me ao canto nono, como a uma rua suspeita. Eu gozava criminosamente o 
sobressalto dos inesperados. Mentor levou-me por diante das estrofes, rasgando na face nobre 
do poema perspectivas de bordel a fumegar alfazema. Bárbaro! Havia um trajo de modéstia 
sobre a verdade do vocábulo; ele rasgava as túnicas de alto a baixo, grosseiramente. Fazia do 
meneio grácil de cada verso uma brutalidade ofensiva. Eu acompanhava-o sem remorso; 
reputava-me vagamente vitima, e me dava à crueldade, submisso, adormecido na vantagem da 
passividade. A análise aguilhoava as rimas; as rimas passavam, deixando a lembrança de um 
requebro impudente. E o ar severo do Sanches imperturbável.
    Tomava cada período, cada oração, altamente, com o ademã sisudo do anatomista: 
sujeito, verbo, complementos, orações subordinadas; depois o significado, zás! um corte de 
escalpelo, e a frase rolava morta, repugnante, desentranhando-se em podridões infectas.
    Iniciou da mesma forma um curso pitoresco de dicionário. O dicionário é o universo. 
Baba-se de esclarecimentos, mas atordoa, à primeira vista, como a agitação das grandes 
cidades desconhecidas. Encarreirados nas páginas consideráveis, os nomes seguem 
estranhamente com a numerosa prole dos derivados, ou sós, petits-maîtres faceiros, os 
galicismos; vaidosos dandies os de proveniência albiônica. Molestam-nos com a maneira 
desdenhosa, porque os não conhecemos. As dignificações prolongam-se intérminas, 
entrecruzam-se em confusa rede topográfica. O inexperiente não conquista um passo na 
imensa capital das  palavras. Sanches estava afeito. Penetrou comigo até aos últimos albergues 
da metrópole, até à cloaca máxima dos termos chulos. Descarnou-me em caricatura de 
esqueleto a circunspeção magistral do Lexicon, como poluíra a elevação parnasiana do poema.
    Eu me sentia amesquinhado sob o peso das revelações. Causava terror aquela sabedoria 
de coisas nunca sonhadas. O honrado diretor espiritual percebeu que havia agora um 
ascendente de domínio que me curvava. Olhava-me então de frente e tinha ousados risos de 
malícia. Depois dos dias de reserva, chegou-se de novo com uma segurança de possuidor forte. 
Eu andava num deplorável desmantelo de energia. Rebelo, de vez em quando, 


[Linha 1050 de 4767 - Parte 1 de 4]


acabrunhava-me, através dos óculos azuis, com um olhar de desprezo ou condolência ainda 
mais aviltante. Meu pai vinha ver-me todas as semanas; eu mostrava os prêmios de aplicação, 
conversava de casa; o resto calava. Sempre desconfiado e receoso dos outros, o meu 
companheiro era quase exclusivamente Sanches. Sempre juntos eu e ele. Sabia-se no Ateneu 
que ele era meu explicador, supunham até que pago. Não causavam estranheza as nossas 
relações.
    Contudo Sanches, como os mal-intencionados, fugia dos lugares concorridos. Gostava 
de vaguear comigo, à noite, antes da ceia, cruzando cem vezes o pátio de pouca luz, 
cingindo-me nervosamente, estreitamente até levantar-me do chão. Eu aturava, imaginando 
em resignado silêncio o sexo artificial da fraqueza que definira Rebelo.
    Estimulado pelo abandono, que lhe parecia assentimento tácito, Sanches precipitou um 
desenlace. Por uma tarde de aguaceiro errávamos pelo saguão das bacias, escuro, úmido, 
recendendo ao cheiro das toalhas mofadas e dos ingredientes dentifrícios, solidão favorável, 
multiplicada pelos obstáculos à vista que ofereciam enormes pilares quadrados em ordem a 
sustentar o edifício, - quando, sem transição, o companheiro chegou-me a boca ao rosto e 
falou baixinho.
    Só a voz, o simples som covarde da voz, rastejante, colante, como se fosse cada sílaba 
uma lesma, horripilou-me, feito o contato de um suplício imundo. Fingi não ter ouvido; mas 
houve intimamente a explosão de todo o meu asco por semelhante indivíduo e muito calmo, 
desviando apenas a vista, pretextei a falta de um lenço, que me endefluxara a friagem e... fui 
buscá-lo.
    Fora da zona magnética em que me cativava o bom amigo, concertaram-se os meus 
instintos sopitados de revolta e Sanches passou a ser um desconhecido. Sacrificava-se de 
golpe o amigo, o explicador e o vigilante: um rasgo de heroicidade. Ao primeiro encontro 
depois do rompimento, o homem viu que estava tudo acabado. Andou a rondar-me, 
temperando o olhar com um brilho de facadas.
    A ocasião é que não era a melhor para o conflito. Conveniências do ensino tinham feito 
dividir-se em duas turmas a aula do Professor Mânlio, e eu fora incluído na seção confiada ao 
Sanches, como auxiliar idôneo. A conseqüência foi o que devia ser. Maltratado e condenado 
pelo ajudante, provando mal em razão do sobressalto no exame de verificação a que me 
sujeitou o professor, desmoralizado em repreensão solene com grande regozijo do Sanches, 
jurei vingança. Escandalizaria o mundo com uma vadiação sem exemplo! Percorrera a matéria 
toda em rápida antecipação de estudo. Isto, porém, não bastava. Bastasse! foi o meu lema. E 
toca a desandar. Fiquei abaixo do Barbalho, aliás fora de classificação decente; fiquei abaixo 
do Álvares. Fui o último da aula! Resultado razoável, para emprego de uma energiazinha que 
despontava.
    Ao mesmo tempo, como os filósofos atribulados, busquei a doce consolação dos astros.
    Aristarco iniciara um curso noturno de cosmografia.
    Estrelas era com ele. O nobre ensino! Nenhum professor, sob pena de expulsão, 
abalançava-se a intrometer-se nas onze varas da camisola de astrólogo. E vissem-no, à janela, 
indicando as constelações, impelindo-as através da noite com o pontudo dedo! Nós 
discípulos, não víamos nada; mas admirávamos. Bastava ele delinear sabiamente um 
agrupamento estelino às alturas, para cada um de nós por seu lado ficar mais a quo. E voava, 
fugindo, a poeira fosforescente.
    Quanto a mim, o que sobretudo me maravilhava era a coragem com que Aristarco fisgava 
os astros, quando todos sabem que apontar estrelas faz criar verrugas.
    Uma vez, muito entusiasmado, o ilustre mestre mostrou-nos o Cruzeiro do Sul. Pouco 
depois, cochichando com o que sabíamos de pontos cardeais, descobrimos que a janela fazia 
frente para o norte; não atinamos. Aristarco reconheceu o descuido: não quis desdizer-se. Lá 
ficou a contragosto o Cruzeiro estampado no hemisfério da estrela polar.


[Linha 1100 de 4767 - Parte 1 de 4]


    Eu tomei amor às coisas do espaço e estudava profundamente a mecânica do infinito pelo 
compêndio de Abreu.
    Para as noites brumosas, Aristarco tinha os aparelhos. Uma infinidade de maquinismos 
do ensino astronômico, exemplificando o sistema solar, a teoria dos eclipses, a gravitação dos 
satélites, as esferas concêntricas, terrestre e celeste; a de dentro, de cartão lustrado; a de fora, 
de vidro. Um atravancamento indescritível, sobre a mesa, de estrelas e arames torcidos, rodas 
dentadas de latão, lâmpadas frouxas de nafta parodiando o sol. Aristarco dava à manivela e 
girava tudo. Com o pince-nez grosso de tartaruga, à ponta do nariz, dominava o tropel dos 
mundos.
    "Vêem, dizia, explicando a natureza, vêem a minha mão aqui?"
    Mostrava a mão direita, ao realejo, bela manopla felpuda de fazer inveja a Esaú:
    "É a mão da Providência!"

IV
    
    
    Período sereno da minha vida moral, capitulo a escrever sobre uma banqueta de altar, ou 
com o alfabeto azul que delineia o fumo do incenso no ar tranqüilo, inolvidáveis tréguas de 
íntimo sossego em toda a minha juventude, eis em que se tornou a minha amarga descida ao 
fundo descrédito escolar.
    A astronomia, como os céus do salmo, levou-me à contemplação. O mal na terra, descrito 
pelo Sanches com uma perícia de conhecedor e praticante, tomou vulto no seio das minhas 
cogitações. A incredulidade primeira acabou em meu espírito, reconhecendo o descalabro 
deste val de lágrimas em que vivemos. Ao tempo que devia consagrar à minha reabilitação nos 
estudos, pus-me a estudar, como Inácio de Loiola, talvez na mesma idade, a reabilitação do 
mundo.
    Encarnei o pecado na figura de Sanches e carreguei. Nutria talvez no intimo o ambicioso 
interesse de um dia reformar os homens com o meu exemplo pontifical de virtudes no sólio de 
Roma; mas a verdade é que me dediquei conscienciosamente ao santo empenho de merecer 
essa exaltação, preparando-me com tempo. Perdido o ideal cenográfico de trabalho e 
fraternidade, que eu quisera que fosse a escola, tinha que soltar para outras bandas os pombos 
da imaginação. Viveiro seguro era o céu. Ficava-me a vendagem da eterna felicidade, que se 
não contava.
    Acresce que predispunha ao enlevo a tristeza opressa de discípulo mau em que eu jazia. E 
como aos pequenos esforços que tentava para me reerguer ninguém dava atenção, deixei-me 
ficar insensível, resignado, como em desmaio sob um desmoronamento. Tinha a consciência 
em paz, a consciência que é o espetáculo de Deus. Servia-me a crença como um colchão brando 
de malandrice consoladora. Note-se de passagem que apesar dos anseios de bem-aventurança, 
eu ia mal no catecismo como no resto.
    A mais terrível das instituições do Ateneu não era a famosa justiça do arbítrio, não era 
ainda a cafua, asilo das trevas e do soluço, sanção das culpas enormes. Era o Livro das notas.
    Todas as manhãs, infalivelmente, perante o colégio em peso, congregado para o primeiro 
almoço, às oito horas, o diretor aparecia a uma porta, com a solenidade tarda das aparições, e 
abria o memorial das partes.
    Um livro de lembranças comprido e grosso, capa de couro, rótulo vermelho na capa, 
ângulos do mesmo sangue. Na véspera cada professor, na ordem do horário, deixava ali a 
observação relativa à diligência dos seus discípulos. Era o nosso jornalismo. Do livro aberto, 
como as sombras das caixas encantadas dos contos de maravilha, nascia, surgia, avultava, 
impunha-se a opinião do Ateneu. Rainha caprichosa e incerta, tiranizava essa opinião sem 
corretivo como os tribunais supremos. O temível noticiário, redigido ao saber da justiça 


[Linha 1150 de 4767 - Parte 1 de 4]


suspeita de professores, muita vez despedidos por violentos, ignorantes, odiosos, imorais, 
erigia-se em censura irremissível de reputações. O julgador podia ser posto fora por uma 
evidenciação concludente dos seus defeitos; a difamação estampada era irrevogavél.
    E pior é que lavrava o contágio da convicção e surpreendia-se cada um consecutivamente 
de não haver reparado que era mesmo tão ordinário tal discípulo, tal colega, reforçando-se 
passivamente o conceito, até consumar-se a obra de vilipêndio quando, por último, o 
condenado, sem mais uma sugestão de revolta, achava aquilo justo e baixava a cabeça. A 
opinião é um  adversário infernal que conta com a cumplicidade, enfim, da própria vitima.
    Com exceção dos privilegiados, os vigilantes, os amigos do peito, os que dormiam à 
sombra de uma reputação habilmente arranjada por um justo conchavo de trabalho e cativante 
doçura, havia para todos uma expectativa de terror antes da leitura das notas. O livro era um 
mistério.
    À medida que se desenrolava a gazetilha, as ânsias iam serenando. Os vitimados fugiam, 
acabrunhados de vergonha, oprimidos sob o castigo incalculável de trezentas carinhas de 
ironia superior ou compaixão de ultraje. Passavam junto de Aristarco ao sair para a tarefa penal 
de escrita. O diretor, arrepiando uma das cóleras olímpicas que de um momento para outro 
sabia fabricar, descarregava com o livro às costas do condenado, agravante de injúria e 
escárnio à pena de difamação. O desgraçado sumia-se no corredor, cambaleando.
    Quando a coisa não dava para cóleras, Aristarco limitava-se a sublinhar com uma 
ponderação qualquer a sentença catedrática; ora uma exclamativa de espanto, ora uma ameaça, 
ora um insulto vivo e breve, ora um conselho amortalhado em fúnebre dó.
    Às vezes enlaçava com dois dedos o menino pela nuca e o voltava, fremente e submisso, 
para o colégio atento, oferecendo-o às bofetadas da opinião: "Vejam esta cara!..."
    A criança, lívida, fechava os olhos.
    Em compensação, não havia expressa mente punições corporais.
    O Professor Mânlio, sempre considerando a recomendação, polpou-me longamente ao 
castigo formidável das partes. Perdeu por fim a paciência e fulminou-me.
    No dia seguinte ao almoço, amargava eu, sem açúcar que me bastasse, o resto do café 
quinado da expectativa (porque Mânlio tinha-me prevenido), quando ouvi Aristarco, 
alargando pausas dramáticas de comoção, ler, claro, severo: "O Sr. Sérgio tem degenerado..."
    Eu havia figurado já na gazetilha do Ateneu com algumas notas de louvor; guardou-se a 
sensação para a nota má. O diretor olhou-me sombrio.
    No fundo do silêncio comum do refeitório, cavou-se um silêncio mais fundo, como um 
poço depois de um abismo. Senti-me devorado por este silêncio hiante. A congregação 
justiceira dos colegas voltou-se para mim, contra mim. Os vizinhos de lagar à mesa 
afastaram-se dos dois lados, para que eu melhor fosse visto. De longe, da copa, chegava um 
ruído argentino, horrível, de colheres à lavagem; os tamarineiros no parque ciciavam ao vento.
    Aristarco foi clemente. Era a primeira vez, perdoou.
    A pior hipótese do sistema do pelourinho era quando o estudante ganhava o calo da 
habitualidade, um assassinato do pudor, como sucedia com o Franco.
    Dias depois da terrível nota, voltava eu a figurar com outra má, menos filosoficamente 
redigida, porém agravada de reincidência. Aristarco não perdoou mais. Houve ainda terceira, 
quarta, por diante. Cada uma delas doía-me intensamente; contudo não me indignavam. 


CONTINUE A LEITURA NA PARTE 2 DE 4 NO LINK ABAIXO:

O Ateneu - Parte 2 de 4 - Raul Pompéia
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O Ateneu - Parte 1 de 4 - Raul Pompéia
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O Ateneu - Parte 2 de 4 - Raul Pompéia
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O Ateneu - Parte 3 de 4 - Raul Pompéia
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O Ateneu - Parte 4 de 4 - Raul Pompéia
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