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quarta-feira, 9 de agosto de 2017

O Ateneu - Parte 4 de 4 - Raul Pompéia


O Ateneu - Parte 4 de 4 - Raul Pompéia



    Ideávamos vagamente, mas inteiramente, na meditação sem palavras do sentimento, quadro de manchas sem contorno, ideávamos bem as cenas que líamos da singela narrativa, almas que se encontram, dois coqueiros esbeltos crescendo juntos, erguendo aos poucos o feixe de grandes folhas franjadas, ao calor da felicidade e do trópico. Compreendíamos os pequeninos amantes de um ano, confundidos no berço, no sono, na inocência.


    Revivíamos o idílio todo, instintivo e puro. "Virginie, elle sera heureuse!..." Animávamo-nos da 
animação daquelas correrias de crianças na liberdade agreste, gozávamos o sentido daquela topografia de denominações originais - Descobertas da Amizade, Lágrimas Enxugadas, ou de alusões à pátria distante. Ouvíamos palmear a revoada dos pássaros, disputando, ao redor de Virgínia, a ração de migalhas. Percebíamos sem raciocínios a filosofia sensual da mimosa entrevista.

    "Est-ce par ton esprit? Mais nos mères en ont plus que nous deux. Est-ce par tes caresses? Mais elles m'embrassent plus souvent que toi... Je crois que c'est par ta bonté... Mais, auparavant, repose-toi sur mon sein et je serai délassé. - Tu me demandes pourquoi tu m'aimes. Mais tout ce qui a été élevé ensemble s'aime. Vois nos oiseaux élevés dans les mêmes nids, ils s'aiment comme nous; ils sont toujours ensemble comme nous. Écoute comme ils s'appellent et se répondent d'un arbre à l'autre..."

    Confrangia-nos, enfim, ao voltar das páginas, a dificuldade cruel das objeções de fortuna e de classe, o divórcio das almas irmãs, quando os coqueiros ficavam juntos. E a iminência constritora do austro, da catástrofe, a lua cruenta de presságios sobre um céu de ferro...

    E guardávamos do livro, cântico luminoso de amor sobre a surdina escura dos desesperos da escravidão colonial, uma lembrança, misto de pesar, de encanto, de admiração. Que tanto pôde o poeta: sobre o solo maldito, onde o café floria e o níveo algodão e o verde claro dos milhos de uma 


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rega de sangue, altear a imagem fantástica da bondade. Virgínia coroada; como o capricho onipotente do sol, formando em glória os filetes vaporosos que os muladares fumam, que um raio chama acima e doura.

    Com o Egbert experimentei-me às escondidas no verso. Esboçamos em colaboração um romance, episódios medievais, excessivamente trágicos, cheios de luar, cercados de ogivas, em que o mais notável era um combate devidamente organizado, com fuzilaria e canhões, antecipando-se de tal maneira a invenção de Schwartz, que ficávamos para todo o sempre, em literatura, a salvo da increpação de não descobrir a pólvora.

    Quando ouvi-lhe o nome, à chamada dos comprometidos no processo, sofri como a surpresa de 
um golpe. Desesperou-me não achar o meio de compartir com ele a vergonha.

    Qual a espécie de cumplicidade que se atribuía? Não quis saber; fosse o mais torpe dos réus, era o meu amigo: tudo que sofresse, muito culpado embora, era, no meu conceito, uma provação da fatalidade. E fazia-me estremecer a idéia de que iam maltratar criatura tão mansa, tão complacente, 
tão amável, feita de sensibilidade e brandura, contra quem o mal seria sempre uma injustiça, que eu 
prezaria com todos os defeitos, com todas as máculas, na facilidade de perdão das cegueiras sentimentais, estranhezas da preferência, que envolve tudo, no ser querido, a frase límpida do olhar 
ou o cheiro acre, mesmo impuro, da carne.

    Quando nos tornamos a ver, nenhum teve para o outro a mínima palavra; ficamos a um banco, 
lado a lado, em expansivo silêncio. E nunca, depois, nem por alusão distante, nos referimos ao caso. 
Coincidência instintiva de um respeito recíproco, ódio talvez comum de uma recordação ominosa.
    Desde o mês de julho do ano anterior, cursava os estudos elementares das línguas, alegrando-me 
a aquisição do vocábulo estrangeiro, comércio com a linguagem dos grandes povos, como se provasse a goles a civilização, como se bebesse a realidade do movimento humano nos países remotos que os cosmoramas pintam, em que vagamente acreditávamos como se acredita em romances.

    Seguiu-se a maçada dos intermináveis temas.

    Nas aulas superiores, a facilidade adquirida amenizava o trabalho. As páginas sorriam de 
literatura, com o sorriso conhecido dos objetos familiares.

    Os professores eram bons e moderados. O de francês, M. Delille, nome de poeta aplicado a um 
urso, honrado urso, inofensivo e benévolo; saudoso do terceiro império, cujo desastre o deportara 
para a vida de aventuras além-mar; barbado como um colchão de crinas, por um vigor de cabelo 
denso, luxuriante, ruivo queimado no lugar da boca, mais longe preto, através do qual passavam-nos 
simultaneamente baforadas expressivas de cachaça e regras de Halbout. O professor de inglês, Dr. 
Velho Júnior, nome de contradição ainda, o melhor dos homens; zeloso, explicador detalhado, sem 
exaltar-se nunca, calvo como a ocasião, mas que excelente ocasião de se estimar e querer bem!

    A companhia do Egbert ultimava a situação e o estudo era uma festa.
    O Professor Venâncio lecionava também inglês; escapei-lhe às garras, felizmente: uma fera! 
chatinho sob o diretor, terrível sobre os discípulos; a um deles arremessou-o contra um registro de 
gás, quebrando-lhe os dentes. Mânlio, além das primeiras letras, regia a cadeira especial de português.

    Graças ao estudo do outro ano, alcancei sofrivelmente o meu atestado de vernaculismo, 
garantido pela competência oficial; graças também às tinturas do latim, em que me iniciara o padre-mestre Frei Ambrósio, respeitável, de nariz entupido, gesticulando com o Alcobaça, rezando a artinha com a entonação oca e funda das missas contadas, consumidor de rapé por um convento, culpado, assim, de cheirar-me ainda hoje a Paulo Cordeiro o magnífico idioma do qui, quoe, quod,  e produzir-me espirros uma simples reminiscência de Salústio.

    Era costume no Ateneu licenciar-se um pouco do regimento da casa a estudante de certa ordem, 
que estivesse em véspera de exame. Saia-se então para o jardim com os livros e a comodidade do trabalho a bel-prazer. Companheiros sempre, aproveitávamos, eu e o Egbert, com toda vontade, a regalia consuetudinária. Antes da data memorável do francês, muito passeamos pelas avenidas de sombra Chateaubriand, Corneille, Racine, Molière. O teatro clássico dava para grandes efeitos de declamação. Quanta tragédia perdida sobre as folhas secas! Quanto gesto nobre desperdiçado! 


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Quantas soberbas falas confiadas à viração leviana e passageira!
    Um era Augusto, outro Cina; um Nearco, outro Poliúto; um Horácio, outro Curiácio, D. Diogo 
e o Cid, Joas e Joad, Nero e Burro, Filinto e Alceste, Tartufo e Cleanto. O arvoredo era um cenário 
deveras. Dialogávamos, com toda a força das encarnações dramáticas, a bravura cavalheiresca, o 
civismo romano, as apreensões de rei ameaçado, o heroísmo da fé, os arrufos da misantropia, as 
sinuosidades do hipócrita. Uma estátua de deusa anônima, de louça esfolada, verde de velhice, 
constituía o auditório, auditório atento fixamente, comedido, sem demasias de aplauso nem 
reprovação, mas constante e infatigável.
    Para o desempenho dos papéis femininos havia dificuldades; cada um queria a parte mais 
enérgica do recitativo. Tirava-se a sorte; e, segundo o acaso, um de nós ou o outro enfiava sem 
cerimônia as saias de qualquer dama e ia perfeita a toilette do sentimento, noivado de Chimène, 
desespero de Camila, luto de Paulina, ambição de Agripina, soberania de Ester, astúcia de Elmira, 
dubiedade de Celiméne. Outro papel custoso de distribuir era o de Burro, papel honesto, entretanto, 
e altamente simpático. Ninguém o queria fazer, o virtuoso conselheiro de Nero.
    Melhor que a prerrogativa do estudo livre era uma espécie de prêmio, não catalogado nos 
estatutos, com que Aristarco gentilmente obsequiava os distintos. Levava-os a jantar em sua casa, 
uma honra! à mesma toalha com a Princesa Melica, dos olhos grandes.
    Quis o bom fado que obtivéssemos, os dois amigos, a prezada nota, e, registre-se perene! 
examinados pelo Professor Courroux, o tremendo Catão das bolas pretas, terror universal dos 
bichos!
    O diretor recebeu-me da Instrução com um abraço contrafeito de estilo; percebi que ainda 
escorria a fístula dos ressentimentos. Convidado Egbert, força era que o fosse eu também, e o fui, de 
mi vontade, por fórmula. Cumpria-me forjar pretexto e recusar o convite, mas atraia-me certo número 
de curiosidades, por exemplo: ver como comia a Melica, uma coisa de subido interesse.
    Lembro-me, entretanto, que havia f ores sobre a mesa, que estava a queimar a sopa; não reparei 
sequer se esteve presente a filha rio diretor.
    Uma atenção absorveu-me exclusiva e única. D. Ema reconheceu-me: era aquele pequeno das 
madeixas compridas! Conversou muito comigo. Um fiapo branco pousava-me ao ombro do 
uniforme; a boa senhora tomou-o finamente entre os dedos, soltou-o e mostrou-me, sorrindo, o fio 
levíssimo a cair lentamente no ar calmo... Estava desenvolvido! Que diferença do que era há dois 
anos. Tinha idéia de haver estado comigo rapidamente, no dia da exposição artística...
    - Um peraltinha! interrompeu Aristarco, entre mordaz e condescendente, de uma janela a cujo 
vão conversava com o Professor Crisóstomo.
    Eu quis inventar uma boa réplica sem grosseria, mas a senhora me prendia a mão nas dela, 
maternalmente, suavemente, de tal modo que me prendia a vivacidade também, prendia-me todo, 
como se eu existisse apenas naquela mão retida.
    Depois da interrupção de Aristarco, não sei mais nada precisamente do que se passou na tarde.
    Miragem sedutora de branco, fartos cabelos negros colhidos para o alto com infinita graça, uma 
rosa nos cabelos, vermelha como são vermelhos os lábios e os corações, vermelha como um grito de 
triunfo. Nada mais. Ramalhetes à mesa, um caldo ardente, e sempre a obsessão adorável do branco e 
a rosa vermelha.
    Estava a meu lado, pertinho, deslumbrante, o vestuário de neve. Serviam-me alguns pratos, 
muitas carícias; eu devorava as carícias; Não ousava erguer a vista. Uma vez ensaiei. Havia sobre mim 
dois olhos perturbadores, vertendo a noite. Parece que me olhava também, neo tenho certeza, do 
outro lado, por entre as flores, o Professor Crisóstomo. 
    Empossado no seu grande orgulho, que mesmo em casa fazia valer, Aristarco presidia: tão alto, 
porém, e tão longe, que dir-se-ia um ausente.
    De volta ao Ateneu, senti-me grande. Crescia-me o peito indefinivelmente, como se me estivesse 
a fazer homem por dilatação. Sentia-me elevado, vinte anos de estatura, um milagre. Examinei então 
os sapatos, a ver se haviam crescido os calcanhares. Nenhum dos sintomas estranhos constatei. Mas 


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uma coisa apenas: olhava agora para Egbert como para uma recordação e para o dia de ontem.
    Daí começou a esfriar o entusiasmo da nossa fraternidade.

X


    Bem diferente esta exaltação deliciosa do abatimento espavorido da véspera, da manhã mesmo, 
na secretaria da Instrução Pública. A expectativa mortal das chamadas; uma insignificância: o terror 
acadêmico! que nos sobressalta, que nos deprime como o que há de mais grave. E por ocasião das 
provas de francês já não era estreante.
    A estréia do primeiro exame foi de fazer febre. Três dias antes pulavam-me as palpitações; o 
apetite desapareceu; o sono depois do apetite; na manhã do ato, as noções mais elementares da 
matéria com o apetite e com o sono. Memoria in albis.
    O professor Mânlio animava; a animação, lembrando o perigo, assustava mais. Esmagava-me 
por antecipação o peso enorme da bastilha da Rua dos Ourives, como os tribunais ferozes, sem apelo; 
a terrível campainha penetrante da abertura da solenidade, os reposteiros plúmbeos de espesso verde, 
sopesando as armas imperiais, as formidáveis paredes de alvenaria secular. Que barbaridade aquela 
conspiração toda contra mim, contra um, de todos aqueles perfis rebarbativos, contínuos, o Matoso, 
o Neves Leão, as comissões, qual mais poderosa e carrancuda; o Conselho da Instrução no fundo, 
coisa desconhecida, mitológica, entrevista como as pinturas religiosas das abóbadas sombrias, onde 
as vozes da nave engrossam de ressonância, emprestando a força moral à justiça das comissões, com 
o prestigio da elevação e do inacessível; mais alto que tudo, o Ministro do império, o Executivo, o 
Estado, a Ordem Social, aparato enorme contra uma criança.
    Entrava-se pela Rua da Assembléia, para o saguão ladrilhado.
    Ali estive não sei que tempo, como um condenado em oratório. Em redor de mim, morriam de 
palidez outros infelizes, esperando a chamada. Um, o mais velho de todos, cadavérico, ar de Cristo, 
tinha a barba rente, pretíssima, como um queixo de ébano adaptado a uma cara de marfim velho.
    De repente abre-se uma porta. De dentro, do escuro, saia uma voz, uma lista de nomes: um, 
outro, outro... ainda não era o meu... Afinal! Não houve nem tempo para um desmaio. 
Empurraram-me; a porta fechou-se; sem consciência dos passos, achei-me numa sala grande, silente, 
sombria, de teto baixo, de vigas pintadas, que fazia dobrar-se a cabeça instintivamente. Uma parede 
vidraçada em toda a altura, de vidros opacos de fumaça, cor de pergaminho, coava para o interior um 
crepúsculo fatigado, amarelento, que pregava máscaras de icterícia às fisionomias.
    Entre as vidraças e os lugares que eram destinados aos examinandos, ficava a mesa 
examinadora: à direita um velho calvo, baixinho, de alouradas cãs, rodeando a calva em franja de 
dragonas, barba da cor dos cabelos, reclinava-se ao espaldar da poltrona e lia um pequeno volume 
com o esforço dos míopes, esfregando as páginas ao rosto. A esquerda, um homem de trinta anos, 
barba rareada por toda a face, pálpebras inclusive, óculos escuros, cabelo seco, caracolando. A 
claridade, batendo pelas costas, denegria-lhe confusamente as feições. O terceiro, presidente da 
comissão, não se via bem, encoberto pela urna verde de frisos amarelos.
    Distribuiu-se o papel rubricado. Um dos examinadores levantou-se, apanhou com um 
movimento circular um punhado de pontos e lançou-os à urna. A urna de folha cantava irônica sob o 
cair dos números, sonoramente.
    Tirou-se o ponto; momento de angústia ainda .
    Depois: estrofe dos Lusíadas! Estávamos livres da expectativa. Não me preocupou mais a 
dificuldade do ponto.
    Depois do ditado, como em relaxamento de cansaço do espírito, esqueci o inventário natural 
dos conhecimentos que a prova reclamava. Pus-me a pensar nas primeiras leituras de Camões, no 
Sanches, nos banhos da natação, na maneira de rir de Ângela, no criado assassinado, no processo do 
assassino, que fora julgado havia pouco... Três pancadinhas que senti no calcanhar, chamaram-me das 


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distrações.
    Voltei-me: era o meu vizinho da mesa de trás, o queixo de ébano que pedia socorro. "Valha-me 
que estou perdido, não atino com a ordem direta!"
    O ruído desta frase balbuciada, sibilou bem forte para atrair a atenção da mesa. Atirei-lhe a 
oração principal, mas tive medo de acudir inteiramente. Além disso, precisava cuidar do próprio 
interesse. Deixei o pobre Cristo de marfim entregue ao desespero de uma lauda deserta. De vez em 
quando, o infeliz espetava-me as costas com a caneta.
    Para a prova oral fui mais animado. A nota da escrita era tranqüilizadora.
    Os exames orais eram todos nas salas de cima. Entrava-se pela Rua dos Ourives. Os 
examinandos estavam em geral mais calmos. Além destes, enchia-se o saguão da escada com a 
turbamulta dos assistentes, confusão de fardetas, fraques surrados, sobrecasacas, todas as idades, 
todos os colégios representados, além dos estudantes avulsos de aulas particulares, em cujo número 
confundiam-se caras suspeitas de farroupilhas, exemplares definidos de vagabundagem.
    O Ateneu era invejado. Vitimas do uniforme, os discípulos de Aristarco passeavam entre os 
grupos dos colégios rivais, sofrendo dichotes, com uma paciência recomendada de boa educação.
    Fumava-se. No ambiente sem luz pairava fixo o nevoeiro dos hálitos e um cheiro de sarro 
intolerável; emplastravam-se de cusparadas as paredes; passeava-se arrastando os pés na areia do 
ladrilho; ressoavam grandes gargalhadas de ship-chandler; chasqueava-se a palavrões. Alguns 
rapazes de sorrisos frouxos, sem expressão, maneiras reles, arrebitavam para o alto, com as costas da 
mão, chapéus de palha suja, e passeavam gingando. Os mais distintos devam caminho, repuxando um 
canto desdenhoso de lábios, perfilando mais a elegância.
    Um rebuliço extraordinário agitou a multidão. Acabava-se de descobrir na cal, coberta de 
epigramas e rabiscos, uma nova inscrição de muito espírito: versalhada satírica contra o Professor 
Courroux, da mesa de francês, rimando em u, sempre em u, de cima a baixo, com uma fertilidade 
pasmosa de epítetos.
    Nem de propósito! na mesma ocasião entrava e lançava-se precipitadamente pela escada o 
terrível professor. "Não o conhece? Lá vai!" indicou-me um companheiro mais próximo.
    - Não o conhecia...
    Vi-o, magro, anguloso, feio, olhando com ferocidade continua, não se sabia felizmente para 
quem, porque era estrábico. Por ele começou o meu improvisado informante, e conhecendo que eu 
andava atrasado a respeito, não me deixou mais: "Se tem empenho, fura; se não tem, babau. Bancas 
de peixe! O peixe é caro às vezes, mas é sempre peixe de mercado. Olhe o Meireles da filosofia, 
aquele compridão de barba russa; o empenho é a Ritinha Pernambucana da Rua dos Arcos; o Simas 
da mesa de geografia, um pançudo apelidado esfera terrestre, mimoseiem-no com um par de galos de 
briga... o Barros Andrade... comprem-lhe os pontos..., aquele diabo da retórica que me bombeou há 
dias... falem-lhe nos versos, que não há suíças mais amáveis. O seu diretor é que os compreende. 
Quando entra aqui é uma onça; o próprio teto branco empalidece; levantam-se, saúdam o soberano! 
Agora, há homens respeitáveis: o velho Moreira, o simpático Ramiro, de sorriso patriarcal..."
    Do topo da escada gritaram para o saguão que ia principiar a chamada dos de português.
    Quando subia, vi um movimento enorme de rapazes na rua: um rolo! Silvavam os apitos. 
Atracavam-se os estudantes com os carroceiros a sopapos de ida e volta, segundo o belo costume do 
tempo. 
    Prestavam-se os exames numa grande sala de muitas janelas, de velhos caixilhos em xadrez 
apertado, vidros grossos, antigos, mal fundidos, oferecendo espessuras desiguais e densidades 
verdes. Um parapeito de ferro em grade dividia o salão por dois lances; o mais espaçoso para os 
assistentes. No outro havia duas mesas de exame; a de matemáticas, perto da entrada, a de português, 
mais adiante, e tão chegadas que se fundiam as respostas de uma com as perguntas da outra, 
resultando admiráveis efeitos de aplicação das ciências exatas à filologia. 
    Antes da cerimônia palestrava-se, a meia voz. Um sujeito entrou, deixando cair a bengala. 
Olharam todos. "Não conhece?" indagou-me o oficioso companheiro. 


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    Um sexagenário, encanecido e helicoidal, cara lambida de padre, cabelos brancos ondeando 
pelos ombros em bossa, sobrecasaca ilimitada riscando o chão a cada passo. "O Conselheiro Vilela, 
ou, melhor, o Conselheiro Tieitch, uma instituição! Vai presidir às matemáticas. Preside a tudo, 
conforme é preciso. Incorruptível! Catão e Bruto somados... Na banca de inglês, há uns anos, 
reprovava a todos... Como neo?! dizia; se erram escandalosamente no tieitch! Muito depois, 
apanharam-no consultando o Tautphoeus: Que diabo, Barão, é este célebre tieitch em que tanto se 
erra?..."
    Quando no dia do jantar subi para o dormitório com o Egbert, dançava-me no espírito, reduzida 
a miniatura, a imagem de Ema (era agradável suprimir o D.), pequenina como uma abelha de ouro, 
vibrante e incerta.
    Sonhei: ela sentada na cama, eu no verniz do chão, de joelhos. Mostrava-me a mão, recortada 
em paro jaspe, unhas de rosa, como pétalas incrustadas. Eu fazia esforços para colher a mão e beijar, 
a mão fugia; chegava-se um pouco, escapava para mais alto; baixava de novo, fugia mais longe ainda, 
para o teto, para o céu, e eu a via inatingível na altura, clara, aberta como um astro. 
    Ela ria do meu desespero, mostrava-me o pé descalço, que a calçasse; não permitia mais. 
Calçar-lhe apenas o arminho que ali estava, o pequeno sapato, branco, exânime, voltando a sola, sem 
o conforto cálido do pé que o pisava, que o vivificava. Eu me inclinava, invejoso do arminho, sobre o 
crivo de seda da meia, milagre de indústria para o qual concorrera cada dia do século industrial com 
um esforço, tecido impalpável, de fibras vivas, filtrando a transparência branda do sangue, invólucro 
sutil de um mimo de joelho, de perna, de tornozelo, irremediavelmente desfalcado do espólio 
glorioso da estatuária pagã. Calçá-la apenas! Mas eu a fazia torcer-se, calçando-a, de dores numa 
tortura ardente de beijos, exalando eu próprio a alma toda em chama.
    Que outra criatura eu era ao despertar! A aparição encantadora extinta; mas eu sofria da reação 
de trevas que sucede aos deslumbramentos.
    Continuava cordialmente com o Egbert. Parecia-me, entretanto, a sua amizade agora uma coisa 
insuficiente como se houvesse em mim uma selvageria amordaçada de afetos.
    Egbert parecia às vezes um intruso. Passeando com ele, que diferença de outrora! produzia-me 
o efeito de uma terceira pessoa. Eu preferia andar só. 
    Não sei por que conveniência de acomodação, fui transferido para o dormitório dos maiores. 
Esta mudança distanciava-me ainda mais do Egbert; passamos a nos encontrar somente à tarde, no 
campo.
    Depois das aulas, subia para o dormitório, aproveitando-me do relaxamento da policia do salão.
    O inspetor responsável era o Silvino. Receoso de uma represália dos grandes, o prudente bedel 
deixava andar.
    Eu deitava-me preguiçoso, ouvindo a grita do pátio, como coisa absolutamente alheia à minha 
vida. Contava as tábuas do teto, porção de traços paralelos que se perdiam num reflexo da tinta. Às 
vezes lia narrativas de Dumas, que não distraiam. Em outras camas, deitados como eu, de cara para 
cima, cruzando os botins, alguns colegas fumavam, soprando, devagarinho, colunas de fumo que 
subiam verticalmente, e rodavam azuis. A um canto, no fim do salão, jogavam três parceiros, 
bocejantes, acentuando sem entusiasmo as alternativas do azar como uma partida de sonâmbulos. 
Muita vez na modorra pesada da sesta, as costas aquecidas da posição, fechando-se-me os olhos, ao 
brilho do sol que adivinhava li fora no terreiro abrasado, eu adormecia. À hora da aula ou do jantar, 
um companheiro puxava-me.
    Estes intervalos de dormência sem sonho, sem idéias, sem definida cisma, eram o meu sossego. 
Pensar era impacientar-me. Que desejava eu? Sempre o desespero da reclusão colegial e da idade. 
Vinham-me crises nervosas de movimento, e eu cruzava de passos frenéticos o pátio, sôfrego, 
acelerando-me cada vez mais, como se quisesse passar adiante do tempo. Nem me interessavam as 
intrigas do salão. E que intrigas! exatamente a substância do afamado mistério do chalé.
    A uma das extremidades do comprido salão, armava-se o biombo do Silvino, grande caixão de 
pinho a meia altura do teto, com uma porta e uma janela de palmo quadrado, donde saiam emanações 


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de roupas suadas e várias outras, cheiros indecifráveis de pouco asseio; donde saia mais, durante a 
noite, crescendo, decrescendo, um roncar enorme, fungado de narigudo.
    Os rapazes furavam orifícios com verrumas para espiar, e tinham achado a legenda do Silvino. 
Depois disto, vinha a demografia especial da terceira classe, a distribuição por famílias regulares, ou 
por aproximações eventuais, conforme os caracteres, sob a divisa comum do nada haver, ou como 
entendiam outros nada a ver. Louvavam-se os exemplos de fidelidade; comentavam-se as traições; 
censuravam-se as tentativas de sedução; improvisava-se a teoria do lar e do leito; cantava-se o hino 
báquico dos caprichos volantes, do entusiasmo passageiro. Chamavam-me a mim o Sérgio do Alves. 
Fazia-se a critica dos novos sob um ponto de vista inteiramente deles. Apostavam a ver quem seria 
primeiro, exigiam juramento de segredo, para passar adiante uma história que tinham por sua vez 
jurado não contar a ninguém. Serviam-se mutuamente em pasto às boas risadas, anedotas espessas, 
com ou sem aplicação, conforme o pedido e o paladar do ensejo. Toda a crônica obscura do Ateneu 
redigia-se ali, em termos explícitos e fortes, expurgada dos arrebiques de recato, de inverdade, pelo 
escrúpulo das comissões investigadoras. O Silvino que se fosse! Não tinha nada com a conversa dos 
rapazes. Uma das melhores máximas do chalé era esta, característica: - Fica revogado o diretor.
    Tudo que na primeira classe e na segunda era extraordinário, ali era normal e corrente. Todas as 
idades, desde o Cândido até o Sanches.
    Das classes inferiores, havia quem fizesse empenho em mudar para a terceira. No ambiente torvo 
da intriga, insinuava-se o vaivém silencioso das ficções, drama joco-sério dos instintos, em ilusão 
convencional e grosseira. E investiam-se dos diversos caracteres convictamente os mancebos, 
explorando o momento efêmero da pele, novidade tenra do semblante, como elemento de artifício, 
deleitando-se no engano, tomando a peito a caricatura da sensualidade.
     Havia o que afetava moderação no capricho, conhecendo o desvio em regra, como o ladrão 
sabe ser honesto no roubo; com o ar sério, espantadiço das femmes qui sortent; havia os ingênuos, 
perpetuamente infantis, não fazendo por mal, risonhos de riso solto, com o segredo de adiar a 
inocência intata através dos positivos extremos; havia os entusiastas da profissão, conscientes, 
francos, impetuosos, apregoando-se por gosto, que não perdoavam à natureza o erro original da 
conformação: ah! não ser eu mulher para melhor o ser! Estes faziam grupo à parte, conhecidos 
publicamente e satisfeitos com isto, protegidos por um favor de simpatia geral, inconfessado mas 
evidente, beneplácito perverso e amável de tolerância que favoneia sempre a corrupção como um 
aplauso. Eles, os belos efebos! exemplos da graça juvenil e da nobreza da linha. Às vezes traziam 
pulseiras; ao banho triunfavam, nus, demorando atitudes de ninfa, à beira d'água, em meio da 
coleção mesquinha de esqueletos sem carnes nas tangas de meia, e carnes sem forma. Havia os 
decaídos, portadores miseráveis de desprezo honesto, culpados por todos os outros, gastos às vezes 
antes do consumo, atormentados pela propensão de um lado, pela repulsa de outro, mendigos de 
compaixão sem esmola, reduzidos ao extremo de conformar-se deploravelmente com a solidão.
    Com estes em contraposição, os de orgulho masculino, peludos, morenos, nodosos de músculos, 
largos de ossada, e outros mirrados de malícia, insaciáveis, de voz trêmula e narinas ávidas de bode, 
os gorduchos de beiço vermelho relaxado, fazendo praça de uma superioridade porque nem sempre 
zelaram antes da madureza das banhas.
    Ângela dominava-os a todos; vencia-os.
    As janelas abertas para o quintal do diretor eram fortemente gradeadas de madeira; por entre as 
travessas olhávamos.
    Ângela fazia-se menina para brincar e correr com vivacidades de gata. Rolava no chão, 
envolvendo a cara nos cabelos, secos, soltos. Saltava agitando o ar com as roupas; colhia flores e 
jogava, distribuindo por igual a todos, que ela a todos queria bem. Quando não havia muitos, às 
grades do salão, descuidava-se, aparecia em corpinho e saia branca, afrouxando o cordão sobre o 
seio, mostrando o braço desde a espádua, espreguiçando-se com as mãos ambas à nuca e os cotovelos 
para cima, contando para a janela histórias que não acabavam mais, enquanto às axilas, em fofos de 
camisa, ia escapando a indiscrição dos fios fulvos. Sempre ao sol! sempre alegre! filha selvagem da 


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luz, fauna indomável das regiões quentes, afrontando a temperatura como as leoas, insensível e 
sobranceira.
    Cantava.
    Só no canto era triste; canções nostálgicas repassadas do sentimento de coisas distantes, um lar 
amigo de pais, um coração de adolescente, conhecido uma vez antes da emigração para sempre, 
canções da ilha em que se ouvia o murmúrio do oceano calmo e das brisas viajadas, e o grito 
angustiado das gaivotas e a celeuma longe da maruja à faina, acompanhando um estribilho insistente 
de amor, amor malandro de gente pobre à beira-mar, feito de peixe, de ociosidade triste e de calor.
    Às vezes era grosseira: dialogava ao desafio em chacota desbocada, com quem quisesse; 
impacientava-se abruptamente e desaparecia, arremessando uma praga de bem acabada torpeza. 
Fazia pilhéria; tinha um colégio também para receber internos, externos, meio-pensionistas. Batia no 
ventre.
    E com a grosseria, com a chacota, com o estribilho sentimental, com os descuidos do corpinho, 
com as flores, com as turbulências de criança sem modos, Ângela era a rainha da atenção e da 
curiosidade: inflamava-se o chalé em conflagrações de entusiasmo. Se passava algum tempo sem 
aparecer, colavam-se às grades, perscrutando a sombra das árvores do quintal, carinhas sem conta, 
chapadas de saudade.
    E divertia-se a apreciar os ardores engaiolados dos seus meninos, entretendo-se a desesperá-los 
como quem atiça o braseiro para ver a erupção das fagulhas, o rodopiar dos rubis candentes, com um 
prazer graduado entre o orgulho da castelã requestada de cem paladinos e a expectativa palpitante do 
carname em postas de um festim de jaula.
    Com o tempo vim a descobrir que uma camarilha de espertos conseguira sofismar alguns paus da 
grade da última janela, três ou quatro leitos além do meu, e passavam de noite, quando o silêncio se 
fazia, a tomar fresco no jardim do diretor. Preferiam as noites escuras, que têm mais estrelas e mais 
segredo, e preferiam as noites de chuva, que em questão de fresco são decisivas. Desciam por uma 
corda de lençóis torcidos e voltavam às vezes como pintos, mas refrescados sempre. Por medida de 
prudência, não passeavam mais de dois por noite, fazendo sentinela um durante a ausência do outro.
    Disse que me não interessavam as intrigas e preocupações gerais do salão; não fui preciso; e não 
sei como possa ser neste ponto sem recorrer às modalidades de expressão - atualmente, 
virtualmente, que o anacronismo injusto condenou. Pouco se me davam fatos; o espírito seduzia. 
Talvez por isso fiz a descoberta do sofisma da camarilha; incomodando-me a liberdade secreta, o 
rega-bofe às altas horas, como um roubo feito a mim, aos companheiros, iludidos no sono, traição 
odiosa à nossa tolice de descuidados. Veio-me uma noite a tentação violenta de espalhar o segredo 
por todos, desmoralizar os finórios, conduzir o Silvino e mostrar-lhe os sarrafos ajeitados à 
deslocação, trair merecidamente aos traidores. Medi as objeções: além de feia delação de voluntário 
da espionagem, podia ser asneira. Talvez soubessem todos, menos eu, simplesmente por estar de 
pouco na terceira classe. Experimentei. Conservei-me acordado até à hora, com uma paciência e um 
esforço de caçador de emboscada. No momento flagrante, ergui-me na cama, esfregando os olhos, 
fingindo-me admirado. Não houve remédio senão iniciar-me. Os dois da noite contaram. Malheiro 
era o chefe da troça, uma troça de nove, muito discretos, muito hábeis; também quem traísse 
apanhava.
    A minha irritação contra o sofisma abrandou sem desfazer-se. Sempre que por acaso algum 
rapaz surpreendia os expedicionários da frescata, era incontinenti aliciado para as vantagens e sob as 
ameaças. O marro fabuloso do Malheiro era a sanção.
    Não quis as vantagens, mesmo murro à parte. Não que me não escaldassem as horas noturnas do 
chalé! Ah! o passeio livre no jardim! as grades abertas do cárcere forçado! Mas uma hesitação 
prendia-me, de compromissos antigos comigo mesmo, compromissos de linha reta, não sei como 
diga, razões velhas de vaidade vertebrada; aversão ao subterfúgio; ou talvez um medo que me 
ocorreu por último, sem fundamento: fosse uma vez, e de volta não achasse mais a corda para subir.
    Outro sinal de que não escapava à psicologia comum do chalé foi um acesso de furor que tive de 


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sufocar, um dia que falaram de D. Ema diante de mim. Que me importava D. Ema? Uma boa 
senhora, nada mais, que me festejara com excesso de complacência, nos limites, porém, da 
hospitalidade de rigor para muitas pessoas amáveis. Deixara uma simples lembrança de gratidão, que 
começava a apagar-se.
    Repetiam as murmurações do Professor Crisóstomo, frioleiras de maldade. Pelas janelas 
gradeadas indicavam junto do muro da natação as venezianas da enfermaria e faziam a apologia da 
enfermeira, enfermeirazinha caidadosa, com um jeito incomparável para o tratamento dos casos 
graves do coração. E vinham com histórias de estudantes muito mal de imaginárias moléstias... 
Doeu-me aquilo, como se me houvessem ferido o mais santo escrúpulo de sentimento. Uma infâmia, 
uma infâmia, esta afirmação de coisas improvadas!
    No meio desta temporada de descontentamento, tive um dia de prazer, prazer malvado, mas 
completo. Dormia no chalé o famoso Rômulo. Ocupava a cama inteira de ferro com a fartura de 
ádipo e ressonava, no extremo oposto do salão, com a mesma intensidade que o Silvino falava fino o 
diabo e roncava grosso. Era um dos tais da troça do Malheiro.
    Quando tocava-lhe a vez, reforçavam-se os lençóis e saiam mais dois paus.
    Uma noite que o vi descer, tive idéia de pregar-lhe uma peça. Arriscadíssima, como vão ver, mas 
eu contava com o concurso, depois, do interesse de todos em abafar o negócio.
    Lembram-se do receio infundado de que falei. Estava de sentinela o companheiro, que 
recolocava a grade, até que um aviso do quintal pedisse a corda. Ofereci-me para substituí-lo. O 
colega foi dormir.
    Com o sangue-frio das boas vinganças, sem a menor pressa. evoquei a memória da afronta que 
me devia Rômulo. Era justo. Recolhi pouco a pouco a corda de lençóis, firmei forte as barras da grade 
e fui dormir. Chovia a potes; tanto melhor: a injúria, que o sangue não lava, bem pode lavar uma 
ducha de enxurro.
    Estava vingado!
    No outro dia apareceu o gorducho entanguido, encatarrado, furibundo, em chinelos sem meias, 
calças, camisas de náufrago, miserando, cercado pelo espanto de todos e pela galhofa.
    Passara a noite sob a janela pedindo misericórdia ao sarrafo impassível, toda a noite, inundado 
pelo aguaceiro, até que, ao romper do dia, Aristarco o foi achar no lastimoso estado.
    A noiva não viu, que acordava tarde. O sogro atinou espertamente com a aventura. Fez-se de 
esquerdo.
    "Ora o rapaz!..." exclamou com uma satisfação muito íntima.
    E estranhou apenas que o bom do genro se deixasse pegar como um lorpa.


XI
    
    
    O Dr. Cláudio encetou uma série de preleções aos sábados, à imitação das que fazia às quintas 
Aristarco sobre lugares-comuns de moralidade. Filosofia, ciência, literatura, economia política, 
pedagogia, biografia, até mesmo política e higiene, tudo era assunto; interessantíssimas, sem pesadas 
minuciosidades. Depois da astronomia do diretor, nenhuma curiosidade me valera tão bons minutos 
de atenção.
    Narrava-nos a vida. As festas plutonianas do movimento, da ignição; a gênese das rochas, 
fecundidade infernal do incêndio primitivo, do granito, do pórfiro, primogênitos do fogo; o grande 
sono milenário dos sedimentos, perturbado de convulsões titânicas.
    Falava do antracito e da hulha, o luto feito pedra, lembrança trágica de muitas eras orgulhosas 
do planeta, monumento da pré-história das árvores, negro, que a indústria dos homens devasta. 
Descrevia a escadaria dos terrenos, onde existe a pegada impressa do gênio das metamorfoses, 
subindo, desde a vegetação florestal dos fetos até ao homem quaternário. Falava-nos de Cuvier e da 


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procissão dos monstros ressurgidos, caminho dos museus, o megatério potente, tardo, balançando as 
passadas, sujo, descamando saibro e as concreções secas do lobo diluviano, solene, cônscio da carga 
de séculos que transporta.
    Vinha depois a aluvião moderna das zonas formadas, o solo fecundo, lavradio. E o mestre 
passava a descrever a vida na umidade, na semente, a evolução da floresta, o gozo universal da 
clorofila na luz. Falava-nos do cerne, o generoso madeiro, o tronco, que sangra em Dante, que 
sustenta nos mares o comércio, Netuno inglês do tridente de ouro. Falava-nos da poesia ignorada da 
vegetação marinha nos abismos, e da giesta, isolada nas altas neves, flor do ermo, a degradada eterna 
do inacessível.
    Depois, a história dos brutos, os grandes bramidos de macho nas regiões virgens, os dramas do 
egoísmo na selva, do egoísmo rude da força que pode, cego, formidável, sagrado como a fatalidade. 
E corria inteira a série das classificações, mostrando a vida no infinitésimo, a microbia invisível, 
onipotência do número, sociedade inconsciente da mônada, solidária para a morte e para as 
reconstruções imperecíveis da Terra.
    O homem finalmente - ventre, coração e cérebro, política, poemas, critério; a alma, universo de 
universo, imagem de Deus, refletor imenso, antropocêntrico, do dia, das cores, que o Sol inflama, que 
o Sol não sente.
    Falava uma vez sobre educação.
    Discutiu a questão do internato. Divergia do parecer vulgar, que o condena.
    É uma organização imperfeita, aprendizagem de corrupção, ocasião de contato com indivíduos 
de toda origem? O mestre é a tirania, a injustiça, o terror? O merecimento não tem cotação, cobrejam 
as linhas sinuosas da indignidade, aprova-se a espionagem, a adulação, a humilhação, campeia a 
intriga, a maledicência, a calúnia, oprimem os prediletos do favoritismo, oprimem os maiores, os mais 
fortes, abundam as seduções perversas, triunfam as audácias dos nulos? A reclusão exacerba as 
tendências ingênitas?
    Tanto melhor: é a escola da sociedade.
    Ilustrar o espírito é pouco; temperar o caráter é tudo. É preciso que chegue um dia a desilusão do 
carinho doméstico. Toda a vantagem em que se realize o mais cedo.
    A educação não faz almas: exercita-as. E o exercício moral não vem das belas palavras de 
virtude, mas do atrito com as circunstâncias.
    A energia para afrontá-las é a herança de sangue dos capazes da moralidade, felizes na loteria do 
destino. Os deserdados abatem-se.
    Ensaiados no microcosmo do internato, não há mais surpresas no grande mundo li fora, onde se 
vão sofrer todas as convivências, respirar todos os ambientes; onde a razão da maior força é a 
dialética geral, e nos envolvem as evoluções de tudo que rasteja e tudo que morde, porque a perfídia 
terra-terra é um dos processos mais eficazes da vulgaridade vencedora; onde o aviltamento é quase 
sempre a condição do êxito, como se houvesse ascensões para baixo; onde o poder é uma redoma de 
chumbo sobre as aspirações altivas; onde a cidade é franca para as dissoluções babilônicas do 
instinto; onde o que é nulo, flutua e aparece, como no mar as pérolas imersas são ignoradas, e 
sobrenadam ao dia as algas mortas e a espuma.
    O internato é útil; a existência agita-se como a peneira do garimpeiro: o que vale mais e o que 
vale menos, separam-se.
    Cada mocidade representa uma direção. Hão de vir os disfarces, as hipocrisias, as sugestões da 
habilidade, do esclarecimento intelectual; no fundo a direção do caráter é invariável. A constância da 
bússola é uma; temos todos um norte necessário: cada um leva às costas o sobrescrito da sua 
fatalidade. O colégio não ilude: os caracteres exibem-se em mostrador de franqueza absoluta. O que 
tem de ser, é já. E tanto mais exato, que o encontro e a confusão das classes e das fortunas equipara 
tudo, suprimindo os enganos de aparato, que tanto complicam os aspectos da vida exterior, que no 
internato apagam-se no socialismo do regulamento.
    E não se diga que é um viveiro de maus germens, seminário nefasto de maus princípios, que hão 


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de arborescer depois. Não é o internato que faz a sociedade; o internato a reflete. A corrupção que ali 
viceja, vai de fora. Os caracteres que ali triunfam, trazem ao entrar o passaporte do sucesso, como os 
que se perdem, a marca da condenação.
    O externato é um meio-termo falso em matéria de educação moral; nem a vida exterior 
impressiona, porque a família preserva, nem o colégio vive socialmente para instruir a observação, 
porque falta a convivência de mundo à parte, que só a reclusão do grande internato ocasiona. O 
internato com a soma dos defeitos possíveis é o ensino prático da virtude, a aprendizagem do ferreiro 
à forja, habilitação do lutador na luta. Os débeis sacrificam-se; não prevalecem. Os ginásios para os 
privilegiados da saúde. O reumatismo deve ser um péssimo acrobata. Erro grave combater o 
internato.
    Cumpre que se institua, que se desenvolva, que floresça e se multiplique a escola positiva do 
conflito social com os maus educadores e as companhias perigosas, na comunhão corruptora, no tédio 
de claustro, de inação, de cárcere; cumpre que os generosos ardores da alma primitiva e ingênua se 
disciplinem na desilusão crua e prematura, que nunca é cedo para sentir que o futuro importa em mais 
que flanar facilmente, mãos às costas, fronte às nuvens, através das praças desimpedidas da república 
de Platão.
    Durante a conferência pensei no Franco. Cada uma das opiniões do professor, eu aplicava 
onerosamente ao pobre eleito da desdita, pagando por trimestre o seu abandono naquela casa, alaguei 
do desprezo. Lembrava-me do desembargador em Mato Grosso e da carta que eu lera e da irmã 
raptada, da vingança extravagante dos cacos, da timidez baixa das maneiras, da concentração muda 
de ódios, dos movimentos incompletos de revolta, da submissão final de escorraçado que se resigna. 
Tive pena.
    Depois da conferência fui visitá-lo.
    Estava de cama no salão verde, à direita, perto das janelas. Andava adoentado desde a última 
vez que fora à prisão.
    Embaixo da casa. Fazia-se entrada pelo saguão cimentado dos lavatórios; sentia-se uma 
impressão de escuro absoluto; para os lados, a distancia, brilhavam vivamente, como olhos brancos, 
alguns respiradouros gradeados daquela espécie de imensa adega. O chão era de terra batida, mal 
enxuta. Impressionava logo um cheiro úmido de cogumelos pisados. Com a meia claridade dos 
respiradouros, habituando-se a vista, distinguia-se no meio uma espécie de gaiola ou capoeira de 
travessões fortes de pinho. Dentro da gaiola um banco e uma tábua pregada, por mesa. Sobre a mesa 
um tinteiro de barro. Era a cafua.
    Engaiolava-se o condenado na amável companhia dos remorsos e da execração; ainda em cima, 
uma tarefa de páginas para a qual o mais difícil era arranjar luz bastante. De espaço a espaço, 
galopava um rato no invisível; às vezes vinham subir às pernas do condenado os animaizinhos 
repugnantes dos lugares lôbregos. À soltura surgia o preso, pálido como um redivivo, espantado do ar 
claro como de uma coisa incrível. Alguns achavam meio de voltar verdadeiramente abatidos.
    Franco saiu doente.
    Alguns colegas mostravam interesse por ele. Franco respondia com aspereza; não tinha nada! 
Eram todos culpados; havia de adoecer, havia de adoecer gravemente para que tivessem remorsos, 
eles mesmos, o Silvino, Aristarco, todos os seus algozes! Raciocinava como as vitimas da antiga 
escola, que se deixavam morrer fiadas no espectro. E ocultou que sofria.
    Devorou-o por semanas uma febre ligeira, mas impertinente. Expunha-se à soalheira, ao sereno, 
de propósito.
    Um dia não pôde levantar-se.
    Dorzinha de cabeça, explicava. Vinham-lhe náuseas, ele corria à janela. Embaixo havia um pé de 
magnólias, copado como um bosque; ele no intervalo dos arrancos entretinha-se em aprumar o fio 
visguento do vômito contra as amplas flores alvas.
    Encontrei-o mal.
    Com a cabeça afundada no travesseiro, sumido sob a porção de cobertores que os vizinhos 


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haviam cedido, afetava o descuido infantil, na fisionomia, a indiferença horripilante, suprema dos 
que não vão longe. Fiquei surpreendido e aterrado.
    O médico, a chamado de Aristarco, viera duas vezes. Condenou a idéia de remover-se o doente; 
recomendou cuidado com as vidraças; diagnosticou uma febre qualquer, redigindo o récipe, partindo 
ambas as vezes com a discrição hermética que faz a importância da classe.
    Perguntei ao Franco como passava. Ele agitou devagar as pálpebras e sorriu-se. Nunca lhe 
conheci tão belo sorriso, sorriso de criança à morte. Oito horas da noite. O gás atenuado produzia 
eflúvios contristadores de claridade. Retirei-me sem aprofundar a vista pelos outros dormitórios, em 
cujas vidraças espelhantes devia passar sucessivamente a minha sombra. Procurei o diretor e 
comuniquei-lhe os meus terrores.
    No dia seguinte, um domingo alegre, Franco estava morto.
    O correspondente compareceu em pessoa para as indispensáveis providências. Transferiu-se o 
corpo para a capela, onde se erigia a essa. Aristarco chorou; mas o saimento foi modesto; não 
convinha ao colégio o aparato de um grande enterro, pregão talvez de insalubridade.
    Eu nada vi; quando subi ao salão verde novamente, estava tudo acabado. Alguns rapazes 
revolviam curiosos na gaveta do Franco o espólio da morte, uma escova de dentes esfiapada, tingida 
do carmim de um pó chinês, uma velha correia sem fivela, uma fotografia gorda de mulher despindo 
os seios, cartas à-toa e um maço considerável de boas notas, arranjadas ninguém sabe como, com 
assinaturas falsas de professores, e o nome de Franco, fraude de sucesso com que o pobre pretendia 
maravilhar o magistrado de Cuiabá.
    Desmanchando-se a cama, caiu dos lençóis um cartão; uma gravara, Santa Rosália! a minha 
padroeira desaparecida. Morrera talvez beijando-a, o pária.
    Pouco tempo depois, o Ateneu em festa.
    Preparava-se a solenidade da distribuição bienal dos prêmios. As benemerências andavam 
famintas de coroas. Suspenderam-se as aulas. Era preciso começar o preparativo com grande 
anterioridade, porque se projetava coisa nunca vista. Alguns discípulos tinham prevenido ao diretor, 
guardavam-lhe uma surpresa: a oferta  de um busto de bronze! Aristarco predispunha-se para a 
surpresa com todas as veras da alma. Um basto! era a remuneração que chegava dos impagáveis 
esforços, a sonhada estátua. Vinha-lhe aos pedaços. Começavam pela cabeça; mais tarde, 
oferecer-lhe-iam o abdome, bela pança metálica e magnífico umbigo de bonzo gordo, saliente como 
um marro; depois, o prolongamento do corpo, aos roletes, gradualmente... Ah! quando lhe 
oferecessem as botas!... Depois, não seria preciso mais: o pedestal, ele mesmo oferecer-se-ia para 
adiantar. E parafusaria, acumuladas, as peças do seu orgulho, a pilha dos seus anelos, a estátua! 
surgida aos poucos da sinceridade vagarosa das oblações, como dificilmente a glória, do escrutínio 
demorado dos tempos.
    Devia ser uma solenidade sem memória nos fastos da pedagogia triunfante, um obelisco de 
despesas, de luxo, de esplendor, a cuja ponta, como a erupção de uma cratera, saltasse a surpresa, 
galardão das altas qualidades e pirraça suprema à concorrência dos rivais.
    Não havia sala no Ateneu que comportasse tão vasta festividade; nem o próprio lagar dos 
recreios abrigados. Resolveu-se cobrir de lona o pátio central, sobre grandes mastros plantados 
convenientemente. Uma barraca incalculável, a maior barraca que a imaginação humana tem 
concebido, que abrangesse na sombra quatro mil pessoas, com o pano emprestado aos toldos, ao 
velame de uma esquadra. Embaixo, as arquibancadas; reservando-se, no meio, espaçosa arena para a 
exibição dos laureados. Por intermédio do ajudante-general da Armada, que tinha dois filhos no 
estabelecimento, podia-se comodamente obter a lona.
    Durante alguns dias chegaram ao Ateneu cargas imensas de pano. Espichavam-se os rolos no 
pátio, ao longo das paredes. Apareceram em seguida as madeiras e os carpinteiros, um povo de 
carpinteiros.
    Em meio dos operários iam e vinham os estudantes, ajudando, atrapalhando, às carreiras, aos 
saltos, aos gritos, pressentindo a felicidade do dia solene. Aristarco aprovava o tumulto; queria vê-los 


[Linha 4150 de 4767 - Parte 4 de 4]


alegres. A morte do Franco produzira uma penumbra de pânico; alguns rapazes tinham ido para casa, 
receosos da febre.
    O alvoroço dos preparativos reanimava o Ateneu. Em poucos dias atravancou-se o pátio de 
postes e travessões, tábuas e pés de serra, como um desmedido estaleiro. Os martelos batiam por 
todos os cantos com a crepitação continua dos tiroteios. Desaparecia a terra sob a poeira dos paus 
cortados. Aristarco fiscalizava o serviço como mestre-de-obras, rondando calado, sério, sorvendo 
satisfeito as emanações da serragem fresca, cheiro de oficina, cheiro do trabalho, ouvindo atritar os 
serrotes com um rumor de fábrica, que lembrava os haustos de ofego do vapor ao vaivém poderoso 
dos êmbolos. Havia um prazer especial naquilo; crescer do chão em três dias por honra sua a floresta 
das vigas e barrotes, ao esforço de tantos homens ativos e azafamados; cantarem as tábuas sob os 
malhos, desdobrando-se escadas e bancadas como um desafio às exaltações, e prejulgar do efeito 
total, quando tudo fosse belbutina e paninho, e o concurso da população invadisse, e assomasse, de 
um terremoto de aclamações, o busto, altaneiro e luzente.
    Certo não foi tão nobre o orgulho daqueles monarcas das pirâmides, idiotas macabros e 
colossais, arquitetos inúteis de sepulcros.
    Partiram os carpinteiros, apresentaram-se os armadores. Estenderam-se sobre o vigamento os 
toldos, as velas, como um céu de lona. As janelas do pátio abriam-se para o anfiteatro como tribunas.
    Os armadores comprometeram em sanefas todo o pundonor do talento. Tudo que pode produzir 
de aparatoso o bem combinado das cores vivas e os apanhados de cassa flutuante, e os lambrequins 
pintados do coreto, e as colunatas de papelão; tudo que pode a concordância assombrosa da 
cenografia e da ripa, armou-se no pátio profusamente.
    Na arena central expandia-se um tapete pardo, de flores claras. Em parte da arquibancada, 
convenientemente disposta, alinhavam-se cadeiras. Os estudantes e os assistentes somenos 
sentar-se-iam na tábua dura. As abertas de construção que não podiam ficar assim em osso, foram 
empanadas de veludo com frisos de galão. Vermelho e ouro. Acima dos assentos havia uma linha de 
balaústres espiralados de fitas. Em cada balaústre um escudo com o nome de um pedagogo célebre. 
Por delicadeza incluíram o nome de Aristarco várias vezes. Aristarco não reparou.
    Um dos lados do tapete ondeava-se em quatro degraus para um longo estrado, fronteiro à 
entrada do anfiteatro, apoiado à parede da sala geral de estudo. Erguia-se ali um trono, sob um 
dossel, para a Princesa Regente. De vez em quando, Aristarco, cansado de tanto mover-se, subia ao 
trono, sentava-se. Fazia-lhe bem o dossel por cima. E dava regras aos armadores, de li, como um 
soberano precavido ditando o esplendor da coroação.
    Os iniciadores da subscrição do busto haviam concluído a tarefa. Eram dois: o Clímaco, aluno 
gratuito, e o professor de desenho. Clímaco, moço de espírito prático, não levou muito a ruminar uma 
feliz idéia. E se oferecêssemos um basto ao nosso diretor? Lembrou-se a principio de congregar os 
gratuitos; mas repetiu imediatamente a lembrança por inexeqüível. A gratidão podia-se subscrever 
por todos; saía mais barato. Entrou em campo. Os primeiros assaltados pelo convite ficaram frios. 
Diabo! não estavam dispostos assim, a ser gratos de uma hora para outra. Consultasse os colegas, que, 
se a idéia pegasse, não teriam dúvida. Alguns mais acanhados assinaram logo; alguns, ainda, dos 
pequenos assinaram sem saber claramente o que significava a coisa. Em poucos minutos a existência 
da subscrição estava no domínio público. Começou a pressão irresistível de fato. Que miséria! hesitar 
por dez mil-réis! Quem teria coragem de furtar-se ao testemunho público de agradecimento que a 
oferta do busto significava? Era uma desfeita ao diretor! Os primeiros signatários encarniçavam-se 
com despeito em coagir os outros, como se não quisessem ser os únicos sangrados.
    Já não era preciso esforço do iniciador. A idéia ganhava terreno por si; em dois dias inteirava-se 
a subscrição. Muitos pegavam à vista; os que não tinham dinheiro iam tirar ao escritório, e o 
guarda-livros em segredo debitava o valor, despesas diversas, na conta do trimestre.
    Diante da facilidade de obter o dinheiro, Clímaco resolveu sensatamente dispensar do rateio os 
gratuitos; aderiam com a intenção sincera. Razoável. Quando principiaram os preparativos da 
solenidade, já o busto, obra de zeloso artista, estava fundido.


[Linha 4200 de 4767 - Parte 4 de 4]


    No dia 13 de novembro, às nove horas, começou a afluência. O anfiteatro do pátio estava 
fechado ainda. Os convidados que apareciam, depois de cumprimentar o diretor, espalhavam-se a 
passear em grupos pelo jardim, ou percorriam as salas do estabelecimento, examinando os aparelhos 
escolares, as cartas de parede, as máximas sábias, meditando a seriedade do ensino naquela casa. A 
afluência aumentou. Os convites tinham sido distribuídos largamente pela cidade. Às onze horas era 
difícil circular no Ateneu. A festa principiava às duas. Ao meio-dia franqueou-se o anfiteatro.
    Foi como se se houvera aberto o seio de Abraão. A última demão dos armadores fora digna do 
primeiro esforço. Cruzavam-se, fazendo volta às arquibancadas, no alto, em bambinela, em faixas 
entrelaçadas, balançantes, o cor-de-rosa dos sorrisos infantis com uma tira alaranjada do arrebol; 
imediatamente depois, uma zona de vivo escarlate, ferindo sangue às veias do mais subido júbilo; 
aprumavam-se as colunatas dos escudos; debaixo dos escudos, oito soberbos degraus da 
arquibancada, veludo e galões. Perto do trono, elevava-se um palanque para o corpo docente; ao lado 
oposto, simetricamente, outro palanque para a banda de música e para os cantores. Não se via mais o 
teto de lona: alças enormes de ramaria e flores enredavam-se ao alto em graciosa desordem, flácidas, 
pendentes, como um dilúvio de primavera a desprender-se. Entre o verdor carregado dos festões do 
teto e o tapete pardo, vagava a serenidade obscura das catedrais e das florestas, neblina penetrante de 
recolhimento. As pessoas que entravam guardavam silêncio. O pouco que se ouvia de vozes era 
baixinho, cochichos de missa, surdina aveludada, amortecida, como se estivesse falando o tapete. A 
cornija sanefas vibrava em desconcerto com a melancolia religiosa do recinto. Algumas nesgas da 
lona sobre a folhagem contrastavam ainda mais, abrindo-se à irrupção do dia.
    Os alunos entravam fardados, subiam, abancavam-se à esquerda, fazendo tremer o edifício todo 
de carpintaria. Aristarco veio ficar à porta. Imenso reposteiro, rubro, de grandes borlas, desviava-se 
acima dele como para mostrá-lo. Calças pretas, casaca, peito blindado de condecorações, uma fita de 
dignitário ao pescoço, que o enforcava de nobreza. Mirando! A suprema correção, a envergadura 
imponente do talhe, a majestade dominadora da presença, fundia-se tudo numa mesma umbigada de 
empáfia.. Os rapazes olhavam com o prazer do soldado que se orgulha do comandante. O Mestre 
invejável, desempenado, brilhante para a festa, como se houvesse engolido um armador.
     Ao redor de Aristarco, ajudantes-de-ordens, apressavam-se os membros de uma comissão de recepção, composta 
de professores de bela presença, e alunos em condições semelhantes. Realizavam com o diretor um cerimonial 
interessante de hospitalidade. Na entrada do anfiteatro comprimia-se a multidão, dos convidados. Aristarco e os 
ajudantes espiavam, farejavam, descobriam os pais, as famílias dos de mais elevada posição social, que pescavam 
para o ingresso preterindo os mais próximos. Os escolhidos eram levados para as arquibancadas de cadeiras. Se 
encontravam nos lugares especiais quem para li não houvessem conduzido, convidavam delicadamente a levantar-se; 
que a família do Visconde de Três Estrelas não podia ir para as tábuas nuas. Este rigor de etiqueta fazia suar a comissão, 
embaraçada na massa da concorrência. Aristarco aproveitava também para desforrar-se dos pagadores morosos da 
escrituração. Afinal deu na vista a pescaria dos seletos. Houve murmúrios, estremecimento de surda revolta; os convites 
eram todos iguais! e a pretexto de haver crescido a multidão, foram-se muitos esgueirando sem mais ver diretor nem 
comissionados de cortesia.
    O anfiteatro encheu-se tumultuariamente.
    A Princesa Sereníssima, com o augusto esposo, chegou pontual às duas horas, acedendo ao 
convite que recebera primeiro que ninguém.
    As duas e três minutos, subia à tribuna Aristarco. Não preciso dizer que a caranguejola sofrera 
mais uma das grandes comoções da malfadada existência. Ali estava, paciente e quadrada, no 
exercício efetivo de porta-retórica. Ficava à direita do sólio da princesa e diante do Orfeão.
    Aristarco inclinou-se ligeiramente para a Graciosa Senhora. Passeou um olhar sobre o anfiteatro. 
Não pôde dizer palavra. Pela primeira vez na vida sentiu-se mal diante de um auditório. A massa de 
ouvintes apertava-se curiosa na linha das bancadas, em curva de ferradura. A cor preta das casacas e 
paletós generalizava-se no espaço como uma escuridão desnorteadora; amedrontava-o o semicírculo 
negro, enorme. A impressão simultânea do público impedia-lhe reconhecer uma fisionomia amiga que 
o animasse. Mas urgia improvisar alguma coisa antes da eloquência rabiscada que trazia em tiras de 


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papel... Quando o olhar foi ter a um objeto que o chamou à consciência de si mesmo. Diante da 
tribuna erigia-se uma peanha de madeira lustrosa; sobre a peanha uma forma indeterminada, 
misteriosamente envolta numa capa de lã verde. A surpresa! Era ele, que ali estava encapado na 
expectativa da oportunidade; ele bronze impertérrito, sua efígie, seu estimulo, seu exemplo: mais ele 
ate do que ele próprio, a tremer; porque bronze era a verdade do seu caráter, que um momento 
absurdo de fraqueza desfigurava e subtraía. Lembrou-se de que o vasto barracão, as alças de flores, o 
vigamento, a belbutina, a arquitetura dos palanques, os galões alfinetados, todas as sanefas de 
paninho, o olhar dos discípulos, a presença da população, o busto na capa verde, tudo era o seu 
triunfo por seu triunfo, e o embaraço desvaneceu-se. A inspiração ferveu-lhe de engulho à goela, 
vibrou-lhe elétrica na língua, e ele falou. Falou como nunca, esqueceu o calhamaço sobressalente que 
trouxera, improvisou como Demóstenes, inundou a arena, os degraus do trono, as ordens todas da 
arquibancada até à oitava, com o mais espantoso chorrilho de facúndia que se tem feito correr na 
terra.
    O assunto conjetura-se. Agradecimentos, o elogio de seus penares de apóstolo. Abria a casaca e 
mostrava. Debaixo das comendas tinha as cicatrizes. As setas que lhe varavam a alma não se podiam 
ver bem por causa do colete. Avaliava-se pela descrição: devia ser horrível. Depois dos sofrimentos, 
os serviços.
    O educador é como a música do futuro, que se conhece em um dia para se compreender no 
outro: a posteridade é que havia de julgar. Quanto ao seu passado, nem falemos! não olhava para trás 
por modéstia, para não virar monumento, como a mulher de Ló. Com o Ateneu estava satisfeito: uma 
sementeira razoável; não se fazia rogar para florescer. Corações de terra roxa, onde as lições do bem 
pegavam vivo. Era cair a semente e a virtude instantânea espipocava. Uma maravilha, aquela horta 
fecunda! Antes de maldizerem do hortelão, caluniadores e invejosos julgassem-lhe os repolhos, 
pesassem-lhe os nabos, as tronchudas couves, crespas, modestas, serviçais, as cândidas alfaces, as 
sensíveis cebolas de lágrima tão fácil quanto sincera, as instruídas batatas, as delicadas abóboras, que 
todos vão plantar e ninguém planta; os alhos, tipos eternos, às vezes porros, da vivacidade bem 
aproveitada; sem contar os arrepiados maxixes, nem as congestas berinjelas, nem os mastruços 
inomináveis, nem os agriões amargos, nem os espinafres insignificantes, nem o caruru, a bertalha, a 
trapoeraba dos banhos, que tem uma flor galante, mas que afinal é mato. Horta paradisíaca que 
ufanava-se de cultivar! A distribuição dos prêmios mostraria.
    Podia concluir voltando à vaca-fria do louvor em boca própria; preferiu uma simples bomba 
qualquer de retórica, porque o mestrículo Venâncio ia também falar, e, na qualidade de pajem por 
dedicação, disputava-lhe sempre uma ponta para carregar do manto de glórias.
    Seguiram-se algumas peças da banda do Ateneu e os hinos escolares.
    Na parte concertante diziam que Aristarco mandara encartar um solo de zabumba para exibir o 
genro. Caçoadas.
    A premiação foi, como devia ser, exuberante. Aristarco leu um relatório do movimento literário 
nos dois últimos anos. Lembrou o nome dos alunos de medalhas de ouro e prata, desde a fundação da 
casa, e convidou o secretário a evocar, por ordem de merecimento, os novos premiados. Extensa lista. 
A cada nome descia um aluno, branco de emoção, atrapalhando os passos; e transpunha a arena.
    À esquerda do trono estava uma longa mesa, a que sentavam-se o Exmo. ministro do império e 
vários figurões da Instrução Pública.
    Diante deles, a cavaleiro, encobrindo-os, erguia-se uma pirâmide verde de coroas de carvalho, 
papel e arame, e outra de coroas de ouro, idem, idem. Ouro para os de medalha; carvalho para o resto, 
em quantidade.
    No estrado, a pouca distancia, ramas de livros luxuosamente encadernados. O premiado recebia 
três, dois, um daqueles volumes, a medalha, a menção honrosa, um sermãozinho amável do ministro, 
e saia com tudo, zonzo.
    Em caminho, pelas costas, à traição, um inspetor enfiava-lhe um dos diademas de papel; até os 
olhos, quando era grande demais; e pior ainda quando era pequeno, porque o mísero laureado tinha 


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de o agüentar em equilíbrio até à bancada.
    O público batia palmas, talvez ao prêmio, talvez à sorte.
    Ribas, o Mata Corcundinha, Nearco, o Saulo das distinções e mais outro, alcançaram medalha 
de ouro. Rômulo, Malheiro, Clímaco Sanches, Maurílio, Barreto, mais uns quinze, medalha de prata. 
Eu, o Egbert, o Cruz da doutrina, o açafroado Barbalho, o Almeidinha, o Negrão e numerosíssimos 
outros, a singela menção honrosa. Aos não contemplados, ficava a compensação de desfazer raso na 
justiça distribuída.
    Na massa dos convidados, diversas centenas de representantes da boa sociedade, havia pessoas 
verdadeiramente notáveis: titulares de sólida grandeza, argentários de mais sólidos títulos, vultos 
políticos de bela estampa e tradições sonoras, uns exibindo à fronte as neves pensativas do hibernal 
senado, outros a energia moça da câmara temporária, médicos celebrizados por façanhas cirúrgicas, 
ou simplesmente pela vivissecção recíproca de mazelas em pleno logradouro público dos "a pedidos".
    Havia jornalistas, literatos, pintores, compositores; entre as senhoras, acumuladas 
principalmente nas bancadas especiais, distinguiam-se perfis soberbos de rainha em toda a 
eflorescência da formosura, que a claridade branda do lugar vaporizava idealmente; havia 
ostentações de pedraria e vestuários que impressionavam; havia juventudes de lábios e de olhar 
enervantes ou arrebatadores, morenas, forçando magicamente o torpor da sesta sensual sob a carícia 
opressora de um pequenino pé vitorioso, louras convidando a um enlace de transporte a nuvem, mais 
alto! ao retiro etéreo onde vivem amor as estrelas duplas... Nada disso era o grande atrativo, nada 
conseguia altear-se para nós um palmo na perspectiva geral da multidão; o nosso grande cuidado era 
o poeta, "o poeta!" murmurava o colégio, uns à procura, outros indicando. Era aquele de pé, mão ao 
quadril, vistosamente, no palanque do professorado, entornando para as duas bandas, sobre as 
pessoas mais próximas, uma profusão assombrosa de suíças.
    Dentre as suíças, como um gorjeio do bosque, saia um belo nariz alexandrino de dois 
hemistíquios, artisticamente longo, disfarçando o cavalete da cesura, tal qual os da última moda no 
Parnaso. À raiz do poético apêndice brilhavam dois olhos vivíssimos, redondos, de coruja, como os 
de Minerva. Tão vivos ao fundo das órbitas cavas, que bem se percebia ali como deve brilhar o fundo 
na fisionomia da estrofe. O grande Dr. Ícaro de Nascimento! Vinha ao Ateneu exclusivamente para 
declamar uma poesia famosa, que havia algum tempo era o sucesso obrigado das festas escolares do 
Rio: O Mestre. Logo depois dos prêmios, teve a palavra.
    Durante meia hora houve uma coisa estranha: uma convulsão angustiosa de barbas no espaço. 
Crescente. Desapareceu o poeta, desapareceu o palanque, encheu-se o anfiteatro, foi-se o trono com 
a Alteza Regente, a longa mesa com Aristarco e o Exmo. do império, enovelaram-se as 
arquibancadas, desapareceu tudo numa expansão incalculável de suíças, jubileu de queixos. 
Ninguém mais se via, nada mais, no caos tormentoso de pêlos, onde uma voz passava atroadora, 
carga tremenda de esquadrões pela noite espessa, calcando versos como patadas, esmagando, 
rompendo avante.
    Até que tornamos a ver o nariz. Acalmaram pouco a pouco as barbas. Recolheram-se como uma 
inundação que se retira. Estava acabada a poesia. Ninguém percebeu palavra do berreiro, porém a 
impressão foi formidável.
    Depois de uma parte de concerto, que foi como descanso reparador, seguiu-se a oferta do basto. 
Teve a palavra o Professor Venâncio.
    Aristarco, na grande mesa, sofreu o segundo abalo de terror daquela solenidade. Fez um 
esforço, preparou-se. É preciso às vezes tanta bravura para arrostar o encômio face a face, como as 
agressões. A própria vaidade acovarda-se. Venâncio ia falar: coragem! A oscilação do turíbulo pode 
fazer enjôo. Ele receava uma coisa que talvez seja a enxaqueca dos deuses: tonturas do muito 
incenso. Gostava do elogio, imensamente. Mas o Venâncio. era demais. E ali, diante daquele mundo! 
Não importa! Viva o heroísmo.
    Era conveniente postar-se em atitude severa bastante e olímpica, para corresponder à 
glorificação de Venâncio. Pronto.


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    O orador acumulou paciente todos os epítetos de engrandecimento, desde o raro metal da 
sinceridade até o cobre dútil, cantante das adulações. Fundiu a mistura numa fogueira de calorosas 
ênfases, e sobre a massa bateu como um ciclope, longamente, até acentuar a imagem monumental do 
diretor.
    Aristarco depois do primeiro receio esquecia-se na delícia de uma metamorfose. Venâncio era o 
seu escultor.
    A estátua não era mais uma aspiração: batiam-na ali. Ele sentia metalizar-se a carne à medida que 
o Venâncio. falava. Compreendia inversamente o prazer de transmutação da matéria bruta que a alma 
artística penetra e anima: congelava-lhe os membros uma frialdade de ferro; à epiderme, nas mãos, na 
face, via, adivinhava reflexos desconhecidos de polimento. Consolidavam-se as dobras das roupas 
em modelagem resistente e fixa. Sentia-se estranhamente maciço por dentro, como se houvera bebido 
gesso.
    Parava-lhe o sangue nas artérias comprimidas. Perdia a sensação da roupa; empedernia-se, 
mineralizava-se todo. Não era um ser humano: era um corpo inorgânico, rochedo inerte, bloco 
metálico, escória de fundição, forma de bronze, vivendo a vida exterior das esculturas, sem 
consciência, sem individualidade, morto sobre a cadeira, oh, glória! mas feito estátua.
    "Coroemo-lo!" bradou de súbito Venâncio.
    Neste momento, o Clímaco estrategicamente postado, puxou com força um cordão. Da capa 
verde dilacerada, emergiu a surpresa: o busto da  oferta. Um pouco de sol rasteiro, passando a lona, 
vinha de encomenda estilhaçar-se contra o metal novo.
    - Coroemo-lo! repetia Venâncio. num vendaval de aclamações. E sacando da tribuna 
esplêndida coroa de louros, que ninguém vira, colocou-a sobre a figura.
    Aristarco caiu em si. Referia-se ao basto toda a oração encomiástica de Venâncio. Nada para ele 
das belas apóstrofes! Teve ciúmes. O gozo da metamorfose fora uma alucinação. O aclamado, o 
endeusado era o busto: ele continuava a ser o pobre Aristarco, mortal, de carne e osso. O próprio 
Venâncio. o fiel Venâncio. abandonava-o. E por causa daquilo, daquela coisa mesquinha sobre a 
peanha, aquele pedaço de Aristarco, que nem ao menos era gente!
    Mal acabou de falar o professor, viu-se Aristarco levantar-se, atravessar freneticamente o espaço 
atapetado, arrancar a coroa de louros ao busto.
    Louvaram todos a magnanimidade da modéstia.
    Mas o dia acabou insípido para o diretor. Ruminava confusamente a tristeza daquela rivalidade 
nova - o bronze invencível.
    Por que não usam os grandes homens, em vez de poltronas, pedestais?
    Que vale a estátua, se não somos nós? A adoção do pedestal nas mobílias teria ao menos a 
vantagem de facilitar a provação da glória, de vez em quando, da glória efetiva, glória atual, glória 
prática.
    Tinha-se ali a um canto a coluna. Era vir a necessidade, nada mais fácil: galgava-se a elevação, 
ensaiava-se a postura, esperava-se imóvel que cedesse o espasmo. Mas... não! força era aceitar a 
verdade amarga.
    O monumento prescinde do herói, não o conhece, demite-o por substituição, sopeia-o, anula-o.
    Com os diabos! Por que há de ser isto afinal a imortalidade: um pedaço de mármore sobre um 
defunto?!
    À noitinha retiravam-se os convidados, as famílias multidão confusa de alegrias e despeitos. As 
mães acariciando muito o filho sem prêmio, os pais odiando o diretor, olhando como vencidos para os 
que passavam satisfeitos, os outros pais, os colegas do filho, menos enfatuados da própria vitória que 
da humilhação alheia.
    Humilde, a um canto, à beira da corrente dos que iam, pouco além da entrada do anfiteatro, 
mostraram-me uma família de luto - a família do Franco. O desembargador, de chapéu na mão, 
esquecendo de cobrir-se: homem baixo, fisionomia acabrunhada, longas barbas grisalhas, calvo, 
olhos miúdos, pálpebras em bolsa.


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    Tinha vindo de Mato Grosso um ano mais tarde do que pretendia. O correspondente dera a 
noticia.
    Andava agora mostrando à família o Rio de Janeiro. Viera a festa colegial, ao colégio do filho, 
para distrair a filha, a raptada, que ali estava com a mãe e duas irmãs menores, muito pálida, delgada, 
num idiotismo sombrio, insanável de melancolia e mudez, pestanas caídas, olhar na terra, como quem 
pensa encontrar alguma coisa.


XII


    Música estranha, na hora cálida. Devia ser Gottschalk. Aquele esforço agonizante dos sons, 
lentos, pungidos, angústia deliciosa de extremo gozo em que pode ficar a vida porque fora uma 
conclusão triunfal. Notas graves, uma, uma; pausas de silêncio e treva em que o instrumento sucumbe 
e logo um dia claro de renascença, que ilumina o mundo como o momento fantástico do relâmpago, 
que a escuridão novamente abate...
    Há reminiscências sonoras que ficam perpetuas, como um eco do passado. Recorda-me, às 
vezes, o piano, ressurge-me aquela data.
    Do fundo repouso caído de convalescente, serenidade extenuada em que nos deixa a febre, 
infantilizados no enfraquecimento como a recomeçar a vida, inermes contra a sensação por um 
requinte mórbido da sensibilidade - eu aspirava a música como a embriaguez dulcíssima de um 
perfume funesto; a música envolvia-me num contágio de vibração, como se houvesse nervos no ar. 
As notas distantes cresciam-me n'alma em ressonância enorme de cisterna; eu sofria, como das 
palpitações fortes do coração quando o sentimento exacerba-se - a sensualidade dissolvente dos 
sons.
     Lasso, sobre os lençóis, em conforto ideal de túmulo, que a vontade morrera, eu deixava 
martirizar-me o encanto. A imaginação de asas crescidas, fugia solta.
    E reconhecia visões antigas, no teto da enfermaria, no papel das paredes rosa desmaiado, cor 
própria, enferma e palejante... Aquele rosto branco, cabelos de ondina, abertos ao meio, desatados, 
negríssimos, desatados para os ombros, a adorada dos sete anos que me tivera uma estrofe, paródia 
de um almanaque, valha a verdade, e que lhe fora entregue, sangrento escárnio! pelo próprio noivo; 
outra igualmente clara, a pequenina, a morta, que eu prezara tanto, cuja existência fora no mundo 
como o revoar das roupas que os sonhos levam, como a frase fugitiva de um hino de anjos que o azul 
embebe... Outras lembranças confusas, precipitadas, mutações macias, incansáveis de nuvens, 
enlevando com a tonteira da elevação; lisas escapadas por um plano oblíquo de vôo, oscilação de 
prodigioso aeróstato, serena, em plena atmosfera...
    Panoramas completos, uma partida, abraços, lágrimas, o steamer preto, sobre a água esmeralda, 
inquieta e sem fundo, a gradezinha de cordas brancas cercando a popa, os salva-vidas como grandes 
colares achatados, cabos que se perdiam para cima, correntes que se dissolviam na espessura vítrea do 
mar; a câmara dourada, baixa, sufocante, o torvelinho dos que se acomodam para ficar, dos que se 
apressam para descer aos escaleres...
    Uma janela. Embaixo, o coradouro, espaçoso; para diante mangueiras arredondando a copa 
sombria na tela nítida do céu; além das mangueiras, conglobações de cúmulos crescendo a olhos 
vistos, floresta colossal de prata; de outro lado, montanhas arborizadas, expondo num ponto e 
noutro, saliências peitorais de ferrugem como armaduras velhas. No coradouro estendidas, peças de 
roupa, iriadas de sabão, meias compridas de ourela vermelha, desenroladas na relva, saudosas da 
perna ausente, grandes lençóis, vestidos rugosos de molhados; acima do coradouro, cordas, às cordas 
camisas transparentes, decotadas, rendadas, sem manga, lacrimejando espaçadamente a lavagem 
como se suassem ao sol a transpiração de muitas fadigas; saias brancas que dançavam na brisa a 
lembrança coreográfica da soirée mais recente.


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    Quando o vento era mais forte, enfunava as roupas estendidas, inflando ventres de mulher nas 
saias, nas camisas. Ângela aparecia. Sempre no seu raio de sol, como as fadas no raio de lua. 
Saudava-me à janela com uma das exclamações vivas de menino surpreso. Sem paletó, às mãos, 
empilhados, dois montes de roupa enxaguada. Ajudava a lavadeira para distrair-se. Falava olhando 
para cima, afrontando o dia sem cobrir os olhos.
    Estava aborrecida, uma preguiça! uma preguiça! uma vontade de deitar no colo! começava as 
infinitas histórias, narradas devagar, como derretidas no lábio quente, muito repisadas, de quando era 
pequena, aventuras da imigração, as casas onde trabalhara; contava as origens do drama do outro 
ano... tratara de acomodar os dois para ver se as coisas chegavam a bom termo; a desgraça não quis. 
Agora, para falar a verdade, gostava mais do que morreu. O assassino era muito mau, exigia coisas 
dela como se fosse uma escrava; era bruto, bruto. Mas era de Espanha, companheiros de viagem, e um 
homem bonito! sacudido, eu bem tinha conhecido; mas judiava dela; batia, empurrava: olhe, ainda 
tinha sinais, e levantava candidamente o vestido para mostrar, no joelho, na coxa, cicatrizes, manchas 
antigas que eu não via absolutamente, nem ela.
    Cessava a música...
    As venezianas abertas davam entrada à claridade do tempo. Entrava simultaneamente um 
burburinho imperceptível de árvores, falando longe, gorjeios ciciados de pássaros, gritos humanos 
indistintamente, atenuados pela imensa distancia, marteladas miúdas de canteiro, tremor de carros 
nas ruas, miniatura extrema de trovão, parcelas ínfimas da vida pulverizadas na luz...
    A porta da enfermaria descerrava-se devagarinho e na matinée de musselina elegante e frouxa 
aparecia a amável senhora. Vinha verificar se eu dormia, saber como passava agora.
    Bastava a sua presença para reanimar-me no leito. Tão boa, tão boa no seu carinho de 
enfermeira, de mãe.
    Junto da cama, um velador modesto e uma cadeira. Ema sentava-se. Pousava os cotovelos à 
beira do colchão, o olhar nos meus olhos - aquele olhar inolvidável, negro, profundo como um 
abismo, bordado pelas seduções todas da vertigem. Eu não podia resistir, fechava as pálpebras; sentia 
ainda na pálpebra com o hálito de velado a carícia daquela atenção.
    Ao fim de algum tempo, a senhora, a ver se eu tinha febre, demorava-me a pequenina mão sobre 
a testa, finíssima, fresca, deliciosa como um diadema de felicidade.
    Eu me perdia numa sonolência sem nome que jamais lograram produzir os mais suaves vapores 
do narcotismo oriental.
    Com o regime fortificante desta terapêutica, voltava-me rapidamente a saúde.
    Logo depois da festa de educação física, que foi alguns dias depois da grande solenidade dos 
prêmios, eu adoecera. Sarampos, sem mais nem menos. Por motivo dos seus padecimentos, meu pai 
seguira para a Europa, levando a família. Eu ficara no Ateneu, confiado ao diretor, como a um 
correspondente.
    Meia dúzia de rapazes eram meus companheiros. Que terrível soledade o Ateneu deserto. No 
pátio, o silêncio dormia ao sol, como um lagarto. Vagávamos, bocejando pelas salas desmontadas, 
despidas; as carteiras amontoadas num canto, na caliça os pregos somente das cartas com alguns 
quadros restantes de máximas, por maior insipidez, os mais teimosos conselhos morais. Nos 
dormitórios, as camas desfeitas mostravam o esqueleto de ferro pintado, o xadrez das chapas 
cruzadas. Principiava um serviço vasto de lavagem, envernizagem, caiação; vieram pintores reformar 
os aspectos do edifício que se renovavam todos os anos.
    Os tristes reclusos das férias, ficávamos, no meio daquela restauração geral, como coisas 
antigas, do outro ano, com o deplorável inconveniente de se não poder caiar de novo e pintar.
    Nesta situação, como do excesso de brilho das paredes em sol, que debatiam fulgores na 
melancolia morna de circunvizinhança dos morros, começaram a doer-me os olhos até à lágrima, 
forrou-me a língua um sabor desagradável de castanhas cruas. Seria isso o gosto do aborrecimento? 
Pesava-me a cabeça, o corpo todo, como se eu me cobrisse de chumbo.
    Assim passei alguns dias, sem me queixar. Certa manhã, descubro no corpo um formigueiro de 


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pintinhas rubras. Aristarco fez-me recolher na enfermaria, um prolongamento de sua residência para 
os lados da natação. Veio o médico, o mesmo do Franco; não me matou. D. Ema foi para mim o 
verdadeiro socorro. Sabia tanto zelar, animar, acariciar, que a própria agonia aos cuidados do seu 
trato fora uma ressurreição.
    A enfermaria era um simples lance da casa, espécie de pavilhão lateral, com entrada 
independente pela chácara e comunicando por dentro com as outras peças.
    A senhora não deixava a enfermaria. Vigiava-me o sono, as crises de delírio, como uma irmã de 
caridade.
    Aristarco surgia às vezes solenemente, sem demorar. Ângela nunca. Fora-lhe proibida a entrada
    Junto da cama, D. Ema comovia-se, mirando a prostração pálida, ao reabrir os olhos de um 
desses períodos de sono dos enfermos, que tão bem fingem de morte. Tirava-me a mão, prendia nas 
dela tempo esquecido; luzia-lhe no olhar um brilho de pranto. A alimentação da dieta era ela quem 
trazia, quem servia. Às vezes por gracejo carinhoso queria levar-me ela mesma o alimento à boca, a 
colherinha de sagu, que primeiro provava com um adorável amuo de beijo. Se precisava andar no 
aposento para mudar um frasco, entreabrir a janela, caminhava como uma sombra por um chão de 
paina.
    Eu me sentia pequeno deliciosamente naquele circulo de conchego como em um ninho.
    Quando entrei em convalescença, a graciosa enfermeira tornou-se alegre. Às escondidas do 
médico, embriagava-me, com aquela medicina de risos, gargarejo inimitável de pérolas a todo 
pretexto. Tagarelava, agitava-se como um pássaro preso. Cantava, às vezes, para adormecer-me, 
músicas desconhecidas, tão finamente, tão sutilmente, que os sons morriam-lhe quase nos lábios, 
brandos como o adejo brando da borboleta que expira. Quando me julgava adormecido, 
arranjava-me ao ombro a colcha, alisando-a sobre o corpo; uma vez beijou-me na têmpora. E 
retirava-se, insensivelmente, evaporava-se.
    Por um acaso da distribuição acústica dos compartimentos da casa, ouvia-se bem, 
agradavelmente amaciado, o som do piano do salão. A amável senhora, para mandar-me da sua 
ausência alguma coisa ainda, que acariciasse, que me fosse agradável, traduzia no teclado com a 
mesma brandura sentida as musicas que sabia cantar. Nenhuma violência de execução. Sentimento, 
apenas, sentimento, sucessão melódica de sons profundos, destacados como o dobre, em novembro, 
dos bronzes; depois, uma enfiada brilhante de lágrimas, colhidas num lago de repouso, final, sereno, 
consolado... efeitos comoventes da música de Schopenhaeur; forma sem matéria, turba de espíritos 
aéreos.
    A primeira vez que me levantei, trêmulo da fraqueza, Ema amparou-me até à janela. Dez horas. 
Havia ainda a frescura matinal na terra. Diante de nós o jardim virente, constelado de margaridas; 
depois, um muro de hera, bambus à direita; uma zona do capinzal fronteiro; depois, casas, torres, mais 
casas adiante, telhados ainda a distancia, a cidade. Tudo me parecia desconhecido, renovado. 
Curioso esplendor revestia aquele espetáculo. Era a primeira vez que me encantavam assim aquelas 
gradações de verde, o verde-negro, de faiança, luzente da hera, o verde flutuante mais claro dos 
bambus, o verde claríssimo do campo ao longe sobre o muro, em todo o fulgor da manhã. Tetos de 
casas, que novidade! que novidade o perfil de uma chaminé riscando o espaço! Ema entregava-se, 
como eu, ao prazer dos olhos. Sustinha-me em leve enlace; tocava-me com o quadril em descanso.
    Absorvendo-me na contemplação da manhã, penetrado de ternura, inclinei a cabeça para o 
ombro de Ema, como um filho, entrecerrando os cílios, vendo o campo, os tetos vermelhos como 
coisas sonhadas em afastamento infinito, através de um tecido vibrante de luz e ouro.
    Desde essa ocasião, fez-se-me desesperada necessidade a companhia da boa senhora. Não! eu 
não amara nunca assim a minha mãe. Ela andava agora em viagem por países remotos, como se não 
vivesse mais para mim. Eu não sentia a falta. Não pensava nela... Escureceu-me as recordações aquele 
olhar negro, belo, poderoso, como se perdem as linhas, as formas, os perfis, as tintas, de noite, no 
aniquilamento uniforme da sombra... Bem pouco, um resto desfeito de saudades para aquela inércia 
intensa, avassalando.


[Linha 4550 de 4767 - Parte 4 de 4]


    Apavorava-me apenas um susto, alarma eterno dos felizes, azedume insanável dos melhores 
dias: não fosse subitamente destruir-se a situação. A convalescença progredia; era um desgosto.
    No pequeno aposento da enfermaria, encerrava-se o mundo para mim. O meu passado eram as 
lembranças do dia anterior, um especial afago de Ema, uma atitude sedutora que se me firmava na 
memória como um painel presente, as duas covinhas que eu beijava, que ela deixava dos cotovelos no 
colchão premido, ao partir, depois da última visita à noite, em que ficava como a esperar que eu 
dormisse, apoiando o rosto nas mãos, os braços na cama, impondo-me a letargia magnética do vasto 
olhar.
    O meu futuro era o despertar precoce, a ansiada esperança da primeira visita. Saltava da cama, 
abria imprudentemente a vidraça, a veneziana. Ainda escuro. Uma luz em frente, longínqua, irradiava 
solitária, reforçando pelo contraste a obscuridade. Por toda a parte firmamento limpo. O mais 
completo silêncio. Dir-se-ia ouvir no silêncio azul das alturas a crepitação das estrelas ardendo.
    Eu tornava ao leito. Esperava. Não dormia mais. Ao fim de muito tempo, entrava na enfermaria, 
vinha ter aos lençóis, de mansinho, como uma insinuação derramada de leite, a primeira manifestação 
da alvorada. O arvoredo movia-se fora com um bulício progressivo de folhagem que acorda. A luz 
meiga, receosa, desenvolvia-se docemente pelo soalho, pelas paredes.
    Havia no aposento um grande cromo de paisagem, montanhas de neve no fundo, mais à vista, 
uma vivenda desmantelada, uma cachoeira de anil e pinheiros espectrais, trabalhados, encanecidos 
por um século de tormentas. A madrugada subia ao quadro, como se amanhecesse também na região 
dos pinheiros. Eu esperando. A madrugada progredia.
    Toucava-se a vegetação de cores diurnas. Dialogava o primeiro trilar da passarada. Eu 
esperando ainda. E ela vinha... com a aurora.
    Trouxe-me uma vez uma carta, de Paris, de meu pai.
    "... Salvar o momento presente. A regra moral é a mesma da atividade Nada para amanhã, do 
que pode ser hoje; salvar o presente Nada mais preocupe. O futuro é corruptor, o passado é 
dissolvente, só a atualidade é forte. Saudade, uma covardia, apreensão outra covardia. O dia de 
amanhã transige; o passado entristece e a tristeza afrouxa.
    Saudade, apreensão, esperança, vãos fantasmas, projeções inanes de miragem; vive apenas o 
instante atual e transitório. É salvá-lo! salvar o náufrago do tempo.
    Quanto a linha de conduta: para diante. É a honesta lógica das ações.
    Para diante, na linha do dever, é o mesmo que para cima. Em geral, a despesa de heroísmo é 
nenhuma. Pensa nisto. Para que a mentira prevaleça, é mister um sistema completo de mentiras 
harmônicas. Não mentir é simples.
    ... Estou numa grande cidade, interessante, movimentada. As casas são mais altas que lá; em 
compensação, os tetos, mais baixos. Dir-se-ia que o andar de cima esmaga-nos. E como cada um tem 
sobre a cabeça um vizinho mais pobre, parece que a opressão, aqui, pesa da miséria sobre os ricos.
    A agitação não me faz bem.
    Abro a janela para o bulevar: uma efervescência de animação, de ruído, de povo, a festa 
iluminada dos negócios, das tentativas, das fortunas... Mas todos vêm, passam diante de mim, 
afastam-se, desaparecem. Que espetáculo para um doente. Parece que é a vida que foge.
    Dou-te a minha bênção..."
    Momento presente... Eu tinha ainda contra a face a mão que me dera a carta; contra a face, 
contra os lábios, venturosamente, ardentemente, como se fosse aquilo o momento, como se bebesse 
na linda concha da palma o gozo imortal da viva verdade.
    "Ah! tem ainda um pai", disse Ema, "uma querida mãe, irmãos que o amam... Eu nada tenho; 
todos mortos... Aparecem-me às vezes à noite... sombras. Ninguém por mim. Nesta casa sou demais... 
Deixemos essas coisas.
    Não sabe o que é um coração isolado como eu... Todos mentem. Os que se aproximam são os 
mais traidores..."
    A convivência cotidiana na solidão do aposento estabelecera a entranhada familiaridade dos 


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casais.
    Ema afetava não ter mais para mim avarezas de colchete. "Sérgio meu filhinho." Dava-me os 
bons-dias. Sala, voltava fresca, com o grande, vernal sorriso rorejado ainda do orvalho das abluções. 
Rindo sem causa: da claridade feliz da manhã, de me ver forte, quase bom.
    Debruçava-se expansiva, resplendendo a formosura sobre mim, na gola do peignoir, como um 
derramamento de flores de uma cornucópia.
    Tomava-me a fronte nas mãos, colava à dela; arredava-se um pouco e olhava-me de perto, bem 
dentro dos olhos, num encontro inebriante de olhares. Aproximava o rosto e contava, lábios sobre 
lábios, mimosas historietas sem texto, em que falava mais a vivacidade sangüínea da boca, do que a 
imperceptível confusão de arrulhos cantando-lhe na garganta como um colar sonoro.
    Achava-me pequenino, pequenino. Sentava-se à cadeira. Tomava-me ao colo, acalentava-me, 
agitava-me contra o seio como um recém-nascido, inundando-me de irradiações quentes de 
maternidade, de amor. Desprendia os cabelos e com um ligeiro movimento de espáduas fazia cair 
sobre mim uma tenda escura. De cima, sobre as faces, chegava-me o bafejo tépido da respiração. Eu 
via, ao fundo da tenda, incerto como em sonhos, a fulguração sideral de dois olhos.
    E fora preciso que soubesse ferir o coração e escrever com a própria vida uma página de sangue 
para fazer a história dos dias que vieram, os últimos dias...
    E tudo acabou com um fim brusco de mau romance...
    Um grito súbito fez-me estremecer no leito: fogo! fogo! Abri violentamente a janela. O Ateneu 
ardia.
    As chamas elevavam-se por cima do chalé, na direção do edifício principal. Imenso globo de 
fumo convulsionava-se nos ares, tenebroso da parte de cima, que parecia chegar ao céu, iluminado 
inferiormente por um clarão cor de cobre.
    Na casa de Aristarco reinava o maior silêncio.
    As portas abertas, todos tinham saído. Precipitei-me para fora da enfermaria.
    Entre os reclusos das férias, contava-se um rapaz, matriculado de pouco, o Américo. Vinha da 
roça. Mostrou-se contrariado desde o primeiro dia. Aristarco tentou abrandá-lo; impossível: cada vez 
mais enfezado. Não falava a ninguém. Era já crescido e parecia de robustez não comum. Olhavam 
todos para ele como para uma fera respeitável. De repente desapareceu. Passado algum tempo vieram 
três pessoas reconduzindo-o: o pai, o correspondente e um criado. O rapaz, amarelo, com manchas 
vermelhas, movediças, no rosto, mordia os beiços até ferir. O pai pediu contra ele toda a severidade. 
Aristarco, que tinha veleidades de amansador, gloriando-se de saber combinar irresistivelmente a 
energia com o modo amoroso, tranqüilizou o fazendeiro: "Tenho visto piores".
    Carregando a vista com toda a intensidade da força moral, segurou o discípulo rijamente pelo 
braço e fê-lo sentar-se. "Tu ficarás, meu filho!" O moço limitou-se a responder, cabisbaixo, possuído 
de repentina complacência: "Eu fico". Dizem que o pai o tratava terrivelmente, vendo-o apresentar-se 
em casa, evadido.
    Com a proximidade da festa dos prêmios o caso do desertor ficou esquecido, e ninguém foi 
jamais como ele exemplo de cordura.
    Ardia efetivamente o Ateneu. Transpus a correr a porta de comunicação entre a casa de 
Aristarco e o colégio.
    Não havia ainda começado serviço sério de extinção. A maior parte dos criados eram 
licenciados por ocasião das férias; os poucos restantes andavam como doidos, incertos, gritando: 
fogo!
    Fui achar Aristarco no terraço lateral, agitado, bradando pelas bombas, que estava perdido, que 
aquilo era a sua completa desgraça! Ao redor dele pessoas do povo, que tinham acudido, trabalhavam 
para salvar o escritório, antes que viessem as chamas.
    O incêndio principiara no saguão das bacias.
    Por maior incremento no desastre, ardia também, no pátio, uma porção de madeira que ficara 
das arquibancadas, aquecendo as paredes próximas, ressecando o travejamento, favorecendo a 


[Linha 4650 de 4767 - Parte 4 de 4]


propagação do fogo
    O susto de tal maneira me surpreendera, que eu não tinha exata consciência do momento 
Esquecia-me a ver os dragões dourados revoando sobre o Ateneu as salamandras imensas de fumaça 
arrancando para a altura, desdobrando contorções monstruosas, mergulhando na sombra cem metros 
acima
    O jardim era invadido pela multidão; vociferavam lamentações, clamavam por socorro. 
Dominando a confusão das vozes, ouvia-se o apito da policia em alarma, cortante, elétrico, e o rebate 
plangente de um sino, a distancia, como o desanimo de um paralítico que quisera vir.
    O fogo crescia ímpetos de entusiasmo, como alegrado dos próprios clarões, desfeiteando a noite 
com a vergasta das labaredas
    Sobre o pátio, sobre o jardim, por toda a circunvizinhança choviam fagulhas, contrastando a 
mansidão da queda com os tempestuosos arrojos do incêndio Por toda a parte caiam escórias 
incineradas, que a atmosfera flagrante repetia para longe como folhas secas de imensa árvore 
sacudida
    Quando as bombas apareceram, desde muito tinham começado os desabamentos De instante a 
instante um estrondo prolongado de descarga, às vezes surdo, agitando o solo como explosões 
subterrâneas. Às vezes, a um novo alento das chamas, a coluna ardente desenvolvia-se muito, e 
avistavam-se as árvores terrificadas, imóveis, as mais próximas crestadas pelas ondas de ar tórrido 
que o incêndio despedia As alamedas, subitamente esclarecidas, multiplicavam as caras lívidas, 
olhando Na rua, ouvia-se arquejar pressurosamente uma bomba a vapor; as mangueiras, como 
intermináveis serpentes, insinuavam-se pelo chão, colavam-se às paredes, desapareciam por uma 
janela Nas cimalhas, destacando-se em silhueta, sobre as cores terríveis do incêndio, moviam-se os 
bombeiros
    Perdido completamente o lance principal do edifício sala de entrada, capela, dormitórios todos 
da primeira e da segunda classes. Uma turma de salvação procurava isolar o refeitório e as salas 
próximas, entregando-se a um serviço completo de vandalismo, abatendo o telhado, cortando o 
vigamento, destruindo a mobília.
    Para o terraço lateral, onde conservava-se Aristarco, impassível sob a chuva chamuscante das 
fagulhas, chegavam continuamente os destroços miserandos da salvação: armários despedaçados, 
aparelhos, quadros de ensino inutilizados, mil fragmentos irreconhecíveis de pedagogia sapecada.
    A frente do Ateneu apresentava o aspecto mais terrível. De vários pontos do telhado, 
semelhando colunas torcidas, espiralavam grossas erupções de fumo: às janelas superiores o fumo 
irrompia também por braços imensos, que pareciam suster a mole incalculável de vapores no alto. 
Com a falta de vento, as nuvens, acumuladas e comprimidas, pareciam consolidar-se em vaporosos 
rochedos inquietos. As janelas do primeiro andar as chamas apareciam, tisnando os umbrais, 
enegrecendo as vergas. Tratadas a fogo, as vidraças estalavam. Distinguia-se na tempestade de 
rumores o barulho cristalino dos vidros na pedra das sacadas, como brindes perdidos da saturnal da 
devastação.
    Nos lugares ainda não alcançados, bombeiros e outros dedicados arremessavam para fora camas 
de ferro, trastes diversos, veladores, que vinham espatifar-se no jardim, com um fracasso 
esmagamento. As imagens da capela tinham sido salvas no principio do incêndio. Estavam 
enfileiradas ao sereno, a beira de um gramal, voltadas para o edifício como entretidas a ver. A Virgem 
da Conceição chorava. Santo Antônio, com o menino Jesus ao colo, era o mais abstrato, equilibrando 
a custo um resplendor desproporcional, oferecendo ante os terrores a amostra de impassibilidade do 
sorriso palerma, que lhe emprestara um santeiro pulha.
    O trabalho das bombas, nesse tempo das circunscrições lendárias, era uma vergonha. Os 
incêndios acabavam de cansaço. A simples presença do Coronel irritava as chamas, como uma 
impertinência de petróleo. Notava-se que o incêndio cedia mais facilmente sem o empenho dos 
profissionais do esguicho.
    No sinistro do Ateneu a coisa foi evidente. Depois das bombas, a violência das chamas chegou 


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ao auge. Do interior do prédio, como das entranhas de um animal que morre, exalava-se um rugido 
surdo e vasto. Pelas janelas, sem batentes, sem bandeira, sem vidraça, estaladas, carbonizadas, via-se 
arder o teto; desmembrava-se o telhado, furando-se bocas hiantes para a noite. Os barrotes, acima de 
invisíveis braseiros, como animados pela dor, recurvavam crispações terríveis precipitando-se no 
sumidouro.
    No meio da multidão comentava-se, explicava-se, definia-se o incêndio.
    "Que felicidade ser o desastre em tempo de férias! -Dizem que foi proposital..." Afirmava-se 
que o fogo começara de uma sala onde estavam em pilha os colchões, retirados para a lavagem da 
casa. Diziam que começara simultaneamente de vários cantos, por arrombamentos do tubo de gás 
perto do soalho. Alguns suspeitavam de Aristarco e aventuravam considerações a respeito das 
circunstâncias financeiras do estabelecimento e do luxo do diretor.
    A notícia do incêndio, apesar da hora, espalhara-se em grande parte da cidade. Nas ruas do 
arrabalde havia um movimento de festa. Grande número de alunos tinham concorrido a testemunhar. 
Alguns empenhavam-se com bravura no serviço. Outros cercavam o diretor, em silêncio, ou fazendo 
exclamações sem nexo e manifestando os sintomas da mais perigosa desolação.
    Aristarco, que se desesperava a principio, refletiu que o desespero não convinha à dignidade. 
Recebia com toda a calma as pessoas importantes que o procuravam, autoridades, amigos, esforçados 
em minorar-lhe a mágoa com o lenitivo profícuo dos oferecimentos. Afrontava a desgraça 
soberanamente, contemplando o aniquilamento de sua fortuna com a tranqüilidade das grandes 
vitimas.
    Aceitava o rigor da sorte.
    "Et comme il voit en nous des âmes peu communes
    Hors de l'ordre commun il nous fait des fortunes."

.........................................................
    
    Depois de algumas horas de sono, voltei ao colégio. O fogo abatera. Parte da casa tinha 
escapado. Refeitório, cozinha, copa, uma ou duas salas. Foram respeitados os pavilhões 
independentes, do pátio. Funcionavam ainda as bombas, refrescando o entalho carbonizado e as 
paredes. De todos os lados, como de extensa solfatara, nasciam filetes de fumaça, mantendo um 
nevoeiro terroso e um cheiro forte de madeiras queimadas. As paredes mestras sustentavam-se 
firmes, varadas de janelas, como arrombamentos iguais, negrejantes como da ação continua de 
muitas idades de ruína.
    Sobre as paredes internas que restavam, equilibravam-se pontas de vigamento, revestidas de um 
bolor claro de cinza, tições enormes, apagados. Na atmosfera luminosa da manhã flutuava o sossego 
fúnebre que vem no dia seguinte sobre o teatro de um grande desastre.
    Informaram-me de coisas extraordinárias. O incêndio fora propositalmente lançado pelo 
Américo, que para isso rompera o encanamento do gás no saguão das bacias. Desaparecera depois do 
atentado.
    Desaparecera igualmente durante o incêndio a senhora do diretor.
    Dirigi-me para o terraço de mármore do outão. Lá estava Aristarco, tresnoitado, o infeliz. No 
jardim continuava a multidão dos basbaques. Algumas famílias em toilette matinal, passeavam. Em 
redor do diretor muitos discípulos tinham ficado desde a véspera, inabaláveis e compadecidos. Lá 
estava, a uma cadeira em que passara a noite, imóvel, absorto, sujo de cinza como um penitente, o pé 
direito sobre um monte enorme de carvões, o cotovelo espetado na perna, a grande mão felpuda 
envolvendo o queixo, dedos perdidos no bigode branco, sobrolho carregado.
    Falavam do incendiário. Imóvel! Contavam que não se achava a senhora. Imóvel! A própria 
senhora com quem ele contava para o jardim de crianças! Dor veneranda! Indiferença suprema dos 
sofrimentos excepcionais! Majestade inerte do cedro fulminado! Ele pertencia ao monopólio da 
mágoa. O Ateneu devastado! O seu trabalho perdido, a conquista inapreciável dos seus esforços!... 


[Linha 4750 de 4767 - Parte 4 de 4]


Em paz!... Não era um homem aquilo; era um de profundis.
    Lá estava; em roda amontoavam-se figuras torradas de geometria, aparelhos de cosmografia 
partidos, enormes cartas murais em tiras, queimadas, enxovalhadas, vísceras dispersas das lições de 
anatomia, gravuras quebradas da história santa em quadros, cronologias da história pátria, ilustrações 
zoológicas, preceitos morais pelo ladrilho, como ensinamentos perdidos, esferas terrestres 
contundidas, esferas celestes rachadas; borra, chamusco por cima de tudo: despojos negros da vida, 
da história, da crença tradicional, da vegetação de outro tempo, lascas de continentes calcinados, 
planetas exorbitados de uma astronomia morta, sóis de ouro destronados e incinerados...
    Ele, como um deus caipora, triste, sobre o desastre universal de sua obra.
    Aqui suspendo a crônica das saudades. Saudades verdadeiramente? Puras recordações, 
saudades talvez se ponderarmos que o tempo é a ocasião passageira dos fatos, mas sobretudo - o 
funeral para sempre das horas.
    
    
    Rio de Janeiro, março de 1888.


FIM. FIM. FIM - DA OBRA COMPLETA - THE END


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O Ateneu - Parte 1 de 4 - Raul Pompéia


O Ateneu - Parte 2 de 4 - Raul Pompéia


O Ateneu - Parte 3 de 4 - Raul Pompéia


O Ateneu - Parte 4 de 4 - Raul Pompéia


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