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quinta-feira, 18 de outubro de 2018

A Escrava Isaura - Parte 4 de 4 - Bernardo Guimarães


A Escrava Isaura - Parte 4 de 4 - Bernardo Guimarães



Geraldo não podia dissimular o descontentamento que lhe causava
aquela cega paixão, que levava o seu amigo a atos que qualificava de
burlesco desatino, e loucura inqualificável. Por isso, longe de auxiliá-lo
com seus conselhos, e indicar-lhe os meios de promover a libertação de
Isaura, procurava com todo o empenho demovê-lo daquele propósito,
pintando o negócio ainda mais difícil do que realmente o era. 

De bom grado, se lhe fosse possível, teria entregado Isaura a seu senhor 
somente para livrar Álvaro daquela terrível tentação, que o ia precipitando 
na senda das mais ridículas extravagâncias.


Capitulo 17

Achando-se só, Alvaro sentou-se junto a uma mesa, e apoiando
nela os cotovelos com a fronte entre as mãos, ficou a cismar profundamente.
Isaura, porém, pressentindo pelo silêncio que reinava na sala, que
já ali não havia pessoas estranhas, foi ter com ele.
- Senhor Álvaro, - disse ela chegando-se de manso e timidamente; 
- desculpe-me... eu venho decerto lhe aborrecer... queria talvez estar só...
Não, minha Isaura; tu nunca me aborreces; pelo contrário, és
sempre bem-vinda junto de mim...
- Mas vejo-o tão triste!... parece-me que aqui entrou mais gente,
e alteravam-se vozes. Deram-lhe algum desgosto, meu senhor?...
- Nada houve de extraordinário, Isaura; foram algumas pessoas
que vieram procurar o doutor Geraldo.
- Mas então, por que está assim triste e abatido?
- Não estou triste nem abatido. Estava meditando nos meios de
arrancar-te do abismo da escravidão, meu anjo, e elevar-te à posição
para que o céu te criou.
- Ah! senhor, não se mortifique assim por amor de uma infeliz,
que não merece tais extremos, É inútil lutar contra o destino irremediável 
que me persegue.
- Não fales assim, Isaura. Tens em bem pouca conta a minha
proteção e o meu amor!...
- Não sou digna de ouvir de sua boca essa doce palavra. Empregue 
seu amor em outra mulher que dele seja merecedora, e esqueça-se
da pobre cativa, que tornou-se indigna até de sua compaixão ocultando-lhe 
a sua condição, e fazendo-o passar pelo vergonhoso pesar de...
- Cala-te, Isaura... até quando pretendes lembrar-te desse maldito
incidente?... eu somente fui o culpado forçando-te a ir a esse baile, e
tinhas razão de sobra para não revelar-me a tua desgraça. Esquece-te
disso; eu te peço pelo nosso amor, Isaura.
- Não posso esquecer-me, porque os remorsos me avivam sempre n'alma 
a lembrança dessa fraqueza. A desgraça é má conselheira, e
nos perturba e anuvia o espirito. Eu o amava, assim como o amo ainda,
e cada vez mais... perdoe-me esta declaração, que é sem dúvida uma
ousadia na boca de uma escrava.
- Fala, Isaura, fala sempre, que me amas. Pudesse eu ouvir de
teus lábios essa palavra por toda a eternidade.
- Era um triste amor na verdade, um amor de escrava, um amor
sem sorriso nem esperança. Mas a ventura de ser amada pelo senhor
era uma idéia tão consoladora para mim! Amando-me o senhor me


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nobilitava, a meus próprios olhos, e quase me fazia esquecer a realidade
de minha humilde condição. Eu tremia ao pensar que descobrindo-lhe a
verdade, ia perder para sempre essa doce e única consolação que me
restava na vida. Perdoe, meu senhor, perdoe à escrava infeliz, que teve
a louca ousadia de amá-lo.
- Isaura, deixa-te de vãos escrúpulos, e dessas frases humildes,
que de modo nenhum podem caber em teus lábios angélicos. Se me
amas, eu também te amo, porque em tudo te julgo digna do meu amor;
que mais queres tu?... Se antes de conhecer a condição em que nasceste, 
eu te amei subjugado por teus raros encantos, hoje que sei que a
tantos atrativos reúnes o prestigio do infortúnio e do martírio, eu te
adoro, eu te idolatro mais que nunca.
- Ama-me, e é essa idéia, que ainda mais me mortifica!... de que
nos serve esse amor, se nem ao menos posso ter a fortuna de ser sua
escrava, e devo sem remédio morrer entre as mãos de meu algoz.. 
- Nunca, Isaura! - exclamou Álvaro com exaltação: - minha
fortuna, minha tranquilidade, minha vida, tudo sacrificarei para libertar-te 
do jugo desse vil tirano. Se a justiça da Terra não me auxilia nesta
nobre e generosa empresa, a justiça do céu se fará cumprir por minhas
maos.
- Oh! senhor Alvaro!... não vá sacrificar-se por uma pobre escrava, 
que não merece tais excessos. Abandone-me à minha sina fatal; já
não é pouca felicidade para mim ter merecido o amor de um cavalheiro
tão nobre e tão amável, como o senhor; esta lembrança me servirá de
alento e consolação em minha desgraça. Não posso, porém, consentir
que o senhor avilte o seu nome e a sua reputação, amando com tal
extremo a uma escrava.
- Por piedade, Isaura, não me martirizes mais com essa maldita
palavra, que constantemente tens nos lábios. Escrava tu!... não o és,
nunca o foste, e nunca o serás. Pode acaso a tirania de um homem ou
da sociedade inteira transformar em um ente vil, e votar à escravidão
aquela que das mãos de Deus saiu um anjo digno do respeito e 
adoração de todos? Não, Isaura; eu saberei erguer-te ao nobre e honroso
lugar a que o céu te destinou, e conto com a proteção de um Deus
justo, porque protejo um dos seus anjos.
Alvaro, não obstante ficar sabendo, depois da noite do baile, que
Isaura era uma simples escrava, nem por isso deixou de tratá-la daí em
diante com o mesmo respeito, deferência e delicadeza, como a uma
donzela da mais distinta jerarquia social. Procedia assim de acordo com
os elevados principios que professava, e com os nobres e delicados 
sentimentos do seu coração. O pudor, a inocência, o talento, a virtude e o
infortúnio, eram sempre para ele coisas respeitáveis e sagradas, quer se
achassem na pessoa de uma princesa, quer na de uma escrava. Sua
afeição era tão casta e pura como a pessoa que dela era objeto, e
nunca de leve lhe passara pelo pensamento abusar da precária e 
humilde posição de sua amante, para profanar-lhe a candura imaculada.
Nunca de sua parte um gesto mais ousado, ou uma palavra menos
casta haviam feito assomar ao rosto da cativa o rubor do pejo, e nem
tampouco os lábios de Alvaro lhe haviam roçado o mais leve beijo pelas
virginais e pudicas faces. Apenas depois de instantes e repetidas súplicas


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de Isaura, havia tomado a liberdade de tratá-la por tu, e isso mesmo
quando se achavam a sós.
Somente agora pela primeira vez, Álvaro, dominado pela mais
suave e veemente emoção, ao proferir as últimas palavras, enlaçando o
braço em torno ao colo de Isaura a cingia brandamente contra o 
coração.
Estavam ambos enlevados na doçura deste primeiro amplexo de
amor, quando o ruído de um carro, que parou à porta do jardim, e logo
após um forte e estrondoso - ó de casa! - os fizeram separar-se.
No mesmo momento entrava na sala o baleeiro de Álvaro, e 
anunciava-lhe que novas pessoas o procuravam.
- Oh, meu Deus!... que será isto hoje!... serão ainda os malditos
esbirros?... - refletiu Álvaro, e depois dirigindo-se a Isaura:
- É prudente que te retires, minha amiga, - disse-lhe; ninguém
sabe o que será e não convém que te vejam.
- Ah! que eu não sirva senão para perturbar-lhe o sossego! -
murmurou Isaura retirando-se.
Um momento depois Alvaro viu entrar na sala um elegante e belo
mancebo, trajado com todo o primor, e afetando as mais polidas e 
aristocráticas maneiras; mas apesar de sua beleza, tinha ele na fisionomia,
como Lusbel, um não seu quê de torvo e sinistro, e um olhar sombrio, que
incutia pavor e repulsão.
- Este por certo não é um esbirro, - pensou Álvaro, e indicando
uma cadeira ao recém-chegado: - Queira sentar-se, - disse-lhe, 
e - tenha a bondade de dizer o que pretende deste seu criado.
- Desculpe-me, - respondeu-lhe o cavalheiro, passeando um
olhar escrutador em roda da sala: - não é a V. S.ª que eu desejava
falar, mas sim ao morador desta casa ou à sua filha.
Álvaro estremeceu. Estava claro que aquele mancebo, se bem que
nenhuma aparência tivesse de um esbirro, andava à pista de Isaura.
Todavia no intuito de verificar se era fundada a sua apreensão, antes de
chamar os donos da casa quis sondar as intenções do visitante.
- Não obstante, - respondeu ele, como estou autorizado pelos
donos da casa a tratar de todos os seus negócios, pode V. S.ª dirigir-se
a mim, e dizer o que deles pretende.
- Sim, senhor; não ponho a menor dúvida, pois o que pretendo
não é nenhum mistério. Constando-me com certeza, que aqui se acha
acoutada uma escrava fugida, por nome Isaura, venho apreendê-la...
- Nesse caso deve entender-se comigo, que sou o depositário
dessa escrava.
- Ah!.. pelo que vejo, V. S.ª é o senhor Álvaro!...
- Um criado de V. S.ª.
- Bem; muito estimo encontrá-lo por aqui; pois saiba também
que eu sou Leôncio, o legítimo senhor dessa escrava.
Leôncio. ... o senhor de Isaura! Álvaro ficou como esmagado sob o
peso desta fulminante e tremenda revelação. Mudo e atônito, contemplou 
por alguns instantes aquele homem de sombria catadura, que se
lhe apresentava aos olhos, implacável e sinistro como Lúcifer, prestes
a empolgar a vítima, que deseja arrastar aos infernos. Suor frio porejou-lhe 
pela testa, e a mais pungente angústia apertou-lhe o coração.


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- É ele!... é o próprio algoz!... ai, pobre Isaura!... - foi este o eco
lúgubre, que remurmurou-lhe dentro d'alma enregelada pelo desalento.


Capitulo 18


O leitor provavelmente não terá ficado menos atônito do que ficou
Álvaro, com o imprevisto aparecimento de Leôncio no Recife, e indo
bater certo na casa em que se achava refugiada a sua escrava.
É preciso, portanto, explicar-lhe como isso aconteceu, para que não
pense que foi por algum milagre.
Leôncio, depois de ter escrito e entregado no correio as duas cartas
que conhecemos, uma dirigida a Álvaro, outra a Martinho, nem por isso
ficou mais tranqüilo. Devorava-lhe a alma uma inquietação mortal, um
ciúme desesperador. A notícia de que Isaura se achava em poder de um
belo e rico mancebo, que a amava loucamente, era para ele um suplício
insuportável, um cancro, que lhe corroía as entranhas, e o fazia estrebuchar 
em ânsias de desespero, avivando-lhe cada vez mais a paixão furiosa que 
concebera por sua escrava. Achava-se ele na corte, para onde, logo que teve 
notícias de Isaura, se dirigia imediatamente, a fim de se achar em um centro, 
de onde pudesse tomar medidas prontas e enérgicas para a captura da mesma. 
Tendo escrito e entregue as cartas na véspera da partida do vapor pela manhã, 
levou o resto do dia a cismar. A terrível ansiedade em que se achava não lhe 
permitia esperar a resposta e o resultado daquelas cartas, sendo muito mais 
morosas e espaçadas do que hoje as viagens dos paquetes naquela época, em 
que apenas se havia inaugurado a navegação a vapor pelas costas do 
Brasil. Demais, ocorria-lhe freqüentemente ao espírito o anexim popular 
- quem quer vai, quem não quer manda. - Não podia fiar-se na diligência e 
boa vontade de pessoas desconhecidas, que talvez não pudessem
lutar vantajosamente contra a influência de Alvaro, o qual, segundo lho
pintavam, era um potentado em sua terra. O ciúme e a vingança não
gostam de confiar a olhos e mãos alheias a execução de seus desígnios.
- É indispensável que eu mesmo vá, - pensou Leôncio, e firme
nesta resolução foi ter com o ministro da justiça, com quem cultivava
relações de amizade, e pediu-lhe uma carta de recomendação, - o que
equivale a uma ordem, - ao chefe de polícia de Pernambuco, para
que o auxiliasse eficazmente para o descobrimento e captura de uma
escrava. Já de antemão Leôncio também se havia munido de uma 
precatória e mandado de prisão contra Miguel, a quem havia feito 
processar e pronunciar como ladrão e acoutador de sua escrava. O 
sanhudo paxá de nada se esquecia para tornar completa a sua vingança.
No outro dia Leôncio seguia para o Norte no mesmo vapor que
conduzia suas cartas.
Estas, porém, chegaram ao seu destino algumas horas antes que o
seu autor desembarcasse no Recife.
Leôncio, apenas pôs pé em terra, dirigiu-se ao chefe de policia, e
entregando-lhe a carta do ministro inteirou-o de sua pretensão.
Tenho a informar-lhe, senhor Leôncio, - respondeu-lhe o
chefe - que haverá talvez pouco mais de duas horas que daqui saiu


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uma pessoa autorizada por V. S.a para o mesmo fim de apreender essa
escrava, e ainda há pouco aqui chegou de volta declarando que tinha-se 
enganado, e que acabava de reconhecer que a pessoa, de quem
desconfiava, não é e nem pode ser a escrava que fugiu a V. S.a.
- Um certo Martinho, não, senhor doutor?...
- Justamente.
- Deveras!... que me diz, senhor doutor?
- A verdade; ainda aí estão à porta o oficial de justiça e os 
guardas, que o acompanharam.
- De maneira que terei perdido o meu tempo e a minha viagem!... 
oh! não, não; isto não é possível. Creia-me, senhor doutor, aqui
há patranha... o tal senhor Álvaro dizem que é muito rico...
- E o tal Martinho um valdevinos capaz de todas as infâmias.
Tudo pode ser; mas a V. S.ª como interessado, compete averiguar essas
coisas.
- E é o que venho disposto a fazer. Irei lá eu mesmo verificar o
negócio por meus próprios olhos, e já, se for possível.
- Quando quiser. Ali estão o oficial de justiça e os guardas, que
ainda agora de lá vieram, e ninguém melhor do que eles pode guiar a
V. S.ª e efetuar a captura, caso reconheça ser a sua própria escrava.
- Também me é preciso que V. S.ª ponha o - cumpra-se -
nesta precatória - disse Leôncio apresentando a precatória contra Miguel - 
é necessário punir o patife que teve a audácia de desencaminhar e roubar-me 
a escrava.
O chefe satisfez sem hesitar ao pedido de Leôncio, que acompanhado 
da pequena escolta, que fez subir ao seu carro, no mesmo momento se dirigiu 
à casa de Isaura, onde o deixamos em face de Álvaro.
A situação deste não era só crítica; era desesperada. O seu 
antagonista ali estava armado de seu incontestável direito para humilhá-lo, 
esmagá-lo, e o que mais é, despedaçar-lhe a alma, roubando-lhe a
amante adorada, o ídolo de seu coração, que ia-lhe ser arrancada dos
braços para ser prostituída ao amor brutal de um senhor devasso, se
não sacrificada ao seu furor. Não tinha remédio senão curvar-se sem
murmurar ao golpe do destino, e ver de braços cruzados metida em
ferros, e entregue ao azorrague do algoz a nobre e angélica criatura,
que, única entre tantas belezas, lhe fizera palpitar o coração 
em emoções do mais extremoso e puro amor.
Deplorável contingência, a que somos arrastados em conseqüência
de uma instituição absurda e desumana!
O devasso, o libertino, o algoz, apresenta-se altivo e arrogante,
tendo a seu favor a lei, e a autoridade, o direito e a força, lança a garra
sobre a presa, que é objeto de sua cobiça ou de seu ódio, e pode frui-la
ou esmagá-la a seu talante, enquanto o homem de nobre coração, de
impulsos generosos, inerme perante a lei, aí fica suplantado, tolhido,
manietado sem poder estender o braço em socorro da inocente e nobre
vítima, que deseja proteger. Assim, por uma estranha aberração, vemos
a lei armando o vício, e decepando os braços à virtude.
Estava pois Álvaro em presença de Leôncio como o condenado em
presença do algoz. A mão da fatalidade o socalcava com todo o seu
peso esmagador, sem lhe deixar livre o mínimo movimento.


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Vinha Leôncio ardendo em fúrias de raiva e de ciúme, e 
prevalecendo-se de sua vantajosa posição, aproveitou a ocasião para 
vingar-se de seu rival, não com a nobreza de cavalheiro, mas procurando 
humilhá-lo à força de impropérios.
- Sei que há muito tempo, - disse Leôncio, continuando o diálogo 
que deixamos interrompido no capítulo antecedente, - V. S.ª retêm essa escrava 
em seu poder contra toda a justiça, iludindo as autoridades com falsas alegações, 
que nunca poderá provar. Porém agora venho eu mesmo reclamá-la e burlar os 
seus planos, e artifícios.
- Artifícios não, senhor. Protegi e protejo francamente uma escrava contra 
as violências de um senhor, que quer tornar-se seu algoz; eis aí tudo.
- Ah!... agora é que sei que qualquer aí pode subtrair um escravo
ao domínio de seu senhor a pretexto de protegê-lo, e que cada qual
tem o direito de velar sobre o modo por que são tratados os escravos
alheios.
- V. S.a. está de disposição a escarnecer, e eu declaro-lhe que
nenhuma vontade tenho de escarnecer, nem de ser escarnecido.
Confesso-lhe que desejo muito a liberdade dessa escrava, tanto quanto
desejo a minha felicidade, e estou disposto a fazer todos os sacrifícios
possíveis para consegui-la. Já lhe ofereci dinheiro, e ainda ofereço.
Dou-lhe o que pedir... dou-lhe uma fortuna por essa escrava. Abra preço... 
- Não há dinheiro que a pague; nem todo o ouro do mundo,
porque não quero vendê-la.
- Mas isso é um capricho bárbaro, uma perversidade...
-Seja capricho da qualidade que V. S.ª quiser; porventura não
posso ter eu os meus caprichos, contanto que não ofenda direitos de
ninguém?... porventura V. S.ª não tem também o seu capricho de 
querê-la para si?... mas o seu capricho ofende os meus direitos, e eis aí o
que não posso tolerar.
- Mas o meu capricho é nobre e benfazejo, e o seu é uma tirania,
para não dizer uma vilania. V. S.ª mancha a sua vida com uma nódoa
indelével conservando na escravidão essa mulher; cospe o desrespeito e
a injúria sobre o túmulo de sua santa mãe, que criou com tanta delicadeza, 
educou com tanto esmero essa escrava, para torná-la digna da liberdade que 
pretendia dar-lhe, e não para satisfazer aos caprichos de V. S.a. Ela por certo lá 
do céu, onde está, o amaldiçoará, e o mundo inteiro a acompanhará na maldição 
ao homem que retém no mais infamante cativeiro uma criatura cheia de virtudes, 
prendas e beleza.
- Basta, senhor!.. agora fico também sabendo, que uma escrava,
só pelo fato de ser bonita e prendada, tem direitos à liberdade. Pique
também V. S.ª sabendo, que se minha mãe não criou essa rapariga
para satisfazer aos meus caprichos, muito menos para satisfazer aos de
V. S.ª a quem nunca conheceu nesta vida. Senhor Álvaro, se deseja ter
alguma linda escrava para sua amásia procure outra, compre-a, que a
respeito desta, pode perder toda a esperança.
- Senhor Leôncio, V. S.ª decerto esquece-se do lugar onde está,
e da pessoa com quem fala, e julga que se acha em sua fazenda falando 
aos seus feitores ou a seus escravos. Advirto-lhe, para que mude
de linguagem.
- Basta, senhor; deixemo-nos de vás disputas, e nem eu vim aqui


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para ser catequizado por V. S.ª. O que quero é a entrega da escrava e
nada mais. Não me obrigue a usar do meu direito levando-a à força.
Álvaro, desvairado por tão grosseiras e ferinas provocações, perdeu
de todo a prudência e sangue-frio.
Entendeu que para sair-se bem na terrivel conjuntura em que se
achava, só havia um caminho, - matar o seu antagonista ou morrer-lhe às 
mãos, - e cedendo a essas sugestões da cólera e do desespero, saltou da cadeira 
em que estava, agarrou Leôncio pela gola e sacudindo-o com força:
- Algoz! - bradou espumando de raiva, - ai tens a tua escrava!
mas antes de levá-la, hás de responder pelos insultos que me tens dirigido, 
ouviste?... ou acaso pensas que eu também sou teu escravo?..
- Está louco, homem! - disse Leôncio amedrontado. - As leis
do nosso país não permitem o duelo.
- Que me importam as leis!... para o homem de brio a honra é
superior às leis, e se não és um covarde, como penso...
Socorro, que querem assassinar-me, - bradou Leôncio
desembaraçando-se das mãos de Álvaro, e correndo para a porta.
- Infame! - rugiu Álvaro, cruzando os braços e rangendo os dentes 
num sorrir de cólera e desdém...
No mesmo momento, atraídos pelo barulho, entravam na sala de
um lado Isaura e Miguel, do outro o oficial de justiça e os guardas.
Isaura estava com o ouvido aguçado, e do interior da casa 
ouvira e compreendera tudo.
Viu que tudo estava perdido, e correu a atalhar o desatino, que 
por amor dela Álvaro ia cometer.
- Aqui estou, senhor! - foram as únicas palavras que pronunciou 
apresentando-se de braços cruzados diante de seu senhor.
- Ei-los ai; são estes! - exclamou Leôncio indicando aos guardas
Isaura e Miguel. Prendam-os!.. prendam-os!...
Vai-te, Isaura, vai-te, - murmurou Álvaro com voz trêmula e
sumida, achegando-se da cativa. - Não desanimes; eu não te abandonarei. 
Confia em Deus e em meu amor.
Uma hora depois Álvaro recebia em casa a visita de Martinho. Vinha 
este mui ancho e lampeiro dar conta de sua comissão, e sôfrego por embolsar 
a soma convencionada.
- Dez contos!... oh! - vinha ele pensando. - uma fortuna!
agora sim, posso eu viver independente!... Adeus, surrados bancos de
Academia!... adeus, livros sebosos, que tanto tempo andei folheando à
toa!... vou atirar-vos pela janela a fora; não preciso mais de vós: meu
futuro está feito. Em breve serei capitalista, banqueiro, comendador, barão, 
e verão para quanto presto!...
E à força de multiplicar cálculos de usura e agiotagem, já Martinho
havia centuplicado aquela soma em sua imaginação.
- Meu caro senhor Álvaro, - veio logo dizendo sem mais preâmbulos, 
- está tudo arranjado à medida de nossos desejos. Pode V. S.ª viver tranqüilo 
em companhia da gentil fugitiva, que daqui em diante ninguém mais o importunará. 
De feito o procedimento de V. S.ª nesta questão tem sido muito belo e digno 
de elogios; é próprio de um coração grande e generoso como o de V. S.ª. Não 
se dá maiar desaforo! no cativeiro uma menina tão mimosa e tão prendada!... 
Agora aqui está a carta, que escrevo ao lorpa do sultãozinho. Prego-lhe 


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meia dúzia de carapetões, que o hão de desorientar completamente.
Assim falando, Martinho desdobrou a carta, e já começava a lê-la,
quando Álvaro impacientado o interrompeu.
- Basta, senhor Martinho, - disse-lhe com mau humor; - o negócio 
está arranjado; não preciso mais de seus serviços.
Arranjado!... como?...
- A escrava está em poder de seu senhor.
- De Leôncio!... impossível!
- Entretanto, é a pura verdade; se quiser saber mais vá à polícia,
e indague.
- E os meus dez contos?...
- Creio que não lhos devo mais.
Martinho soltou um urro de desespero, e saiu da casa de Álvaro
com tal precipitação, que parecia ir rolando pelas escadas abaixo.
Descrever o mísero estado em que ficou aquela pobre alma, é empresa 
em que não me meto; os leitores que façam idéia.
O cão faminto, iludido pela sombra, largou a carne que tinha
entre os dentes, e ficou sem uma nem outra.


Capítulo 19

- Olha como arranjas isso, Rosa; esta rapariga é mesmo uma
estouvada; não tem jeito para nada. Bem mostras que não nasceste
para a sala; o teu lugar é na cozinha.
- Ora vejam lá a figura de quem quer me dar regras!... quem te
chamou aqui, intrometido? O teu lugar também não é aqui, é lá na
estrebaria. Vai lá governar os teus cavalos, André, e não te intrometas
no que não te importa.
- Cala-te dai, toleirona; - replicou André mudando de lugar 
algumas cadeiras. - O que sabes é só tagarelar. Não é aqui o lugar
destas cadeiras... Olha como estão estes jarros!... ainda nem alimpaste
os espelhos!... forte desajeitada e preguiçosa que és!... No tempo de
Isaura andava tudo isto aqui que era um mimo; fazia gosto entrar-se
nesta sala. Agora, é isto. Está claro que não és para estas coisas.
- Essa agora é bem lembrada! - retorquiu Rosa, altamente 
despeitada. - Se tens saudades do tempo de Isaura, vai lá tirá-la do
quarto escuro do tronco, onde ela está morando. Esse decerto ela não
há de ter gosto para enfeitá-lo de flores.
- Cala a boca, Rosa; olha que tu também lá podes ir parar.
- Eu não, que não sou fujona.
- Por que não achas quem te carregue, se não fugirias até com o
diabo. Coitada da Isaura! uma rapariga tão boa e tão mimosa, tratada
como uma negra da cozinha! e não tens pena dela, Rosa?
- Pena por que, agora?... quem mandou ela fazer das suas?
- Pois olha, Rosa, eu estava pronto a agüentar a metade do castigo 
que ela está sofrendo, mas na companhia dela, está entendido.
- Isso pouco custa, André; é fazer o que ela fez. Vai, como ela,
tomar ares em Pernambuco, que infalivelmente vais para a companhia
de Isaura.


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- Quem dera!... se soubesse que me prendiam com ela, isso é
que era um fugir. Mas o diabo é que a pobre Isaura agora vai deixar a
nós todos para sempre. Que falta não vai fazer nesta casa!...
- Deixar como?
- Você verá.
- Foi vendida?...
- Qual vendida!
- Alheada?
- Nem isso
- Está forra?...
- Que abelhuda!... Espera, Rosa; tem paciência um pouco, que
hoje mesmo talvez você venha a saber tudo.
- Ora ponha-se com mistérios... então o que você sabe os outros
não podem saber?...
- Não é mistério, Rosa; é desconfiança minha. Aqui em casa não
tarda a haver novidade grossa; vai escutando.
- Ah! ah! - respondeu Rosa galhofando. - Você mesmo está
com cara de novidade.
- Psiu!... bico calado, Rosa!... ai vem nhonhô.
Pelo diálogo acima o leitor bem vê, que nos achamos de novo na
fazenda de Leôncio, no município de Campos, e na mesma sala, em
que no começo desta história encontramos Isaura entoando sua canção
favorita.
Cerca de dois meses são decorridos depois que Leôncio fora ao
Recife apreender sua escrava. Leôncio e Malvina tinham-se reconciliado,
e vindos da corte tinham chegado à fazenda na véspera. Alguns escravos, 
entre os quais se acham Rosa e André, estão asseando o soalho,
arranjando e espanando os móveis daquele rico salão, testemunha impassível 
dos mistérios da família, de tantas cenas ora tocantes e enlevadoras, ora 
vergonhosas e sinistras, e que durante a ausência de Malvina se conservara 
sempre fechado.
Qual é, porém, a sorte de Isaura e de Miguel, desde que deixaram
Pernambuco? que destino deu Leôncio ou pretende dar àquela?... por
que maneira se reconciliou com sua mulher?
Eis o que passamos a explicar ao leitor, antes de prosseguirmos
nesta narrativa.
Leôncio, tendo trazido Isaura para sua fazenda, a conservara na
mais completa e rigorosa reclusão. Não era isto só com o fim de 
castigá-la ou de cevar sua feroz vingança sobre a infeliz cativa. Sabia quanto
era ardente e capaz de extremos o amor que o jovem pernambucano
concebera por Isaura; tinha ouvido as últimas palavras que Álvaro lhe
dirigia - confia em Deus, e em meu amor; eu não te abandonarei. 
- Era uma ameaça, e Álvaro, rico e audacioso como era, dispunha de
grandes meios para pó-la em execução, quer por alguma violência, quer
por meio de astúcias e insídias. Leôncio, portanto, não só encarcerava
com todo o rigor a sua escrava, como também armou todos os seus
escravos, que daí em diante distraídos quase completamente dos trabalhos 
da lavoura, viviam em alerta dia e noite como soldados de guarnição a 
uma fortaleza.
Mas a alma ardente e feroz do jovem fazendeiro não desistia nunca


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de seu louco amor, e nem perdia a esperança de vencer a isenção de Isaura.
E já não era só o amor ou a sensualidade que o arrastava; era um
capricho tirânico, um desejo feroz e satânico de vingar-se dela e do rival
preferido. Queria gozá-la, fosse embora por um só dia, e depois de
profanada e poluída, entregá-la desdenhosamente ao seu antagonista,
dizendo-lhe: - Venha comprar a sua amante; agora estou disposto a
vendê-la, e barato.
Encetou pois contra ela nova campanha de promessas, seduções e
protestos, seguidos de ameaças, rigores e tiranias. Leôncio só recuou
diante da tortura e da violência brutal, não porque lhe faltasse 
ferocidade para tanto, mas porque conhecendo a têmpera heróica da 
virtude de Isaura, compreendeu que com tais meios só conseguiria 
matá-la, e a morte de Isaura não satisfazia o seu sensualismo, e nem 
tampouco a sua vingança. Portanto tratou de meditar novos planos, não só 
para recalcar debaixo dos pés o que ele chamava o orgulho da escrava,
como de frustrar e escarnecer completamente as vistas generosas 
de Álvaro, tomando assim de ambos a mais cabal vingança.
Além de tudo, Leôncio via-se na absoluta necessidade de
reconciliar-se com Malvina, não que o pundonor, a moral, e muito menos 
a afeição conjugal a isso o induzissem, mas por motivos de interesse, 
que em breve o leitor ficará sabendo. Com esse fim pois, Leôncio
foi à corte e procurou Malvina.
Além de todas as más qualidades que possuía, a mentira, a calúnia,
o embuste eram armas que manejava com a habilidade do mais refinado 
hipócrita. Mostrou-se envergonhado e arrependido do modo por
que a havia tratado, e jurou apagar com o seu futuro comportamento
até a lembrança de seus passados desvarios. Confessou, com uma 
sinceridade e candura de anjo, que por algum tempo se deixara enlevar
pelos atrativos de Isaura, mas que isso não passara de passageiro desvario, 
que nenhuma impressão lhe deixara na alma.
Além disso assacou mil aleives e calúnias por conta da pobre 
Isaura. Alegou que ela, como refinada loureira que era, empregara 
os mais sutis e ardilosos artifícios para seduzi-lo e provocá-lo, no 
intuito de obter a liberdade em troco de seus favores. Inventou mil outras 
coisas, e por fim fez Malvina acreditar que Isaura fugira de casa seduzida 
por um galã, que há muito tempo a reqüestava, sem que eles o soubessem; que
fora este quem fornecera ao pai dela os meios de alforriá-la, e que, não
o podendo conseguir, combinaram de mãos dadas e efetuaram o plano
de rapto; que chegando ao Recife, um moço que tanto tinha de rico,
como de extravagante e desmiolado, enamorando-se dela a tomara a
seu primeiro amante; que Isaura com seus artifícios, dando-se por uma
senhora livre o tinha enleado e iludido por tal forma, que o pobre moço
estava a ponto de casar-se com ela, e mesmo depois de saber que era
cativa não queria largá-la, e praticando mil escândalos e disparates estava 
disposto a tudo para alforriá-la. Fora das mãos desse moço que ele
a fora tomar no Recife.
Malvina, moça ingênua e crédula, com um coração sempre 
propenso à ternura e ao perdão, deu pleno crédito a tudo quanto aprouve
a Leôncio inventar não só para justificar suas faltas passadas, como para
predispor o comportamento que dai em diante pretendia seguir.


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Na qualidade de esposa ofendida irritara-se outrora contra Isaura,
quando surpreendera seu marido dirigindo-lhe falas amorosas; mas o
seu rancor ia-se amainando, e se desvaneceria de todo, se Leôncio não
viesse com falsas e aleivosas informações atribuir-lhe os mais torpes
procedimentos. Malvina começou a sentir por Isaura desde esse momento, 
não ódio, mas certo afastamento e desprezo, mesclado de compaixão, tal 
qual sentiria por outra qualquer escrava atrevida e mal comportada.
Era quanto bastava a Leôncio para associá-la ao plano de castigo e
vingança, que projetava contra a desditosa escrava. Bem sabia que Malvina 
com a sua alma branda e compassiva jamais consentiria em castigos cruéis; 
o que meditava, porém, nada tinha de bárbaro na aparência, se bem que fosse 
o mais humilhante e doloroso flagício imposto ao coração de uma mulher, que 
tinha consciência de sua beleza, e da nobreza e elevação de seu espírito.
- E o que pretendes fazer de Isaura? perguntou Malvina.
- Dar-lhe um marido e carta de liberdade.
- E já achaste esse marido?
- Pois faltam maridos?... para achá-lo não precisei sair de casa.
- Algum escravo, Leôncio?... oh!... isso não.
- E que tinha isso, uma vez que eu também forrasse o marido?
era cré com cré, lé com lé. Bem me lembrei do André, que bebe os
ares por ela; mas por isso mesmo não a quero dar àquele maroto. 
Tenho para ela peça muito melhor.
- Quem, Leôncio?
- Ora quem!... o Belchior.
- O Belchior!... exclamou Malvina rindo-se muito. Estás caçoando; 
fala sério, quem é?...
- O Belchior, senhora; falo sério.
- Mas esperas acaso, que Isaura queira casar-se com aquele
monstrengo?
- Se não quiser, pior para ela; não lhe dou a liberdade, e há de
passar a vida enclausurada e em ferros.
- Oh!... mas isso é demasiada crueldade, Leôncio. De que serve
dar-lhe a liberdade em tudo, se não lhe deixas a de escolher um marido?... 
Dá-lhe a liberdade, Leôncio, e deixa ela casar-se com quem quiser.
- Ela não se casará com ninguém: irá voando direitinho para
Pernambuco, e lá ficará muito lampeira nos braços de seu insolente
taful, escarnecendo de mim...
- E que te importa isso, Leôncio? - perguntou Malvina com
certo ar desconfiado.
- Que tenho!... - replicou Leôncio um pouco perturbado com a
pergunta. - Ora que tenho!... é o mesmo que perguntar-me se tenho
brio nas faces. Se soubesses como aquele papalvo provocou-me 
atirando-me insultos atrozes!... Como desafiou-me com mil bravatas e 
ameaças, protestando que havia de arrancar Isaura ao meu poder... 
Se não fosse por tua causa, e também por satisfazer os votos de minha 
mãe, eu nunca daria a liberdade a essa escrava, embora nenhum serviço me
prestasse, e tivesse de tratá-la como uma princesa, só para quebrar a
proa e castigar a audácia e petulância desse impudente rufião.
- Pois bem, Leôncio; mas eu entendo que Isaura mais facilmente
se deixará queimar viva, do que casar-se com Belchior.


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- Não te dê isso cuidado, minha querida; havemos de catequizá-la 
convenientemente. Tenho cá forjado o meu plano, com o qual espero reduzi-la 
a casar-se com ele de muito boa vontade.
- Se ela consentir, não tenho motivo para me opor a esse arranjo.
Leôncio de feito havia habilmente preparado o seu plano atroz.
Tendo trazido do Recife a Miguel debaixo de prisão, juntamente com
Isaura, ao chegar em Campos fê-lo encerrar na cadeia, e condenar a
pagar todas as despesas e prejuízos que tivera com a fuga de Isaura, as
quais fizera orçar em uma soma exorbitante. Ficou, portanto, o pobre
homem exausto dos últimos recursos que lhe restavam, e ainda por
sobrecarga devendo uma soma enorme, que só longos anos de trabalho
poderiam pagar. Como Leôncio era rico, amigo dos ministros e tinha
grande influência no lugar, as autoridades locais prestaram-se de boa
mente a todas estas perseguições.
Depois que Leôncio, desanimado de poder vencer a obstinada 
relutância de Isaura, mudou o seu plano de vingança, foi ele em pessoa
procurar a Miguel.
- Senhor Miguel, - disse-lhe em tom formalizado, - tenho comiseração 
do senhor e de sua filha, apesar dos incômodos e prejuízos que me têm dado, e 
venho propor-lhe um meio de acabarmos de uma vez para sempre com as desordens, 
intrigas e transtornos com que sua filha tem perturbado minha casa e o sossego 
de minha vida.
- Estou pronto para qualquer arranjo, senhor Leóncio, - respondeu 
respeitosamente Miguel, - uma vez que seja justo e honesto.
- Nada mais honesto, nem mais justo. Quero casar sua filha com
um homem de bem, e dar-lhe a liberdade; porém para esse fim preciso
muito de sua coadjuvação.
- Pois diga em que lhe posso servir.
- Sei que Isaura há de sentir alguma repugnância em casar-se
com a pessoa que lhe destino, em razão de tola e extravagante paixão,
que parece ainda ter por aquele infame peralvilho de Pernambuco, que
meteu-lhe mil caraminholas na cabeça, e encheu-a de idéias extravagantes 
e loucas esperanças.
- Creio que ela não deve lembrar-se desse moço senão por grati-
dão...
- Qual gratidão!... pensa vossemecê que ele está fazendo muito
caso dela?... tanto como do primeiro sapato que calçou. Aquilo foi um
capricho de cabeça estonteada, uma fantasia de fidalgote endinheirado,
e a prova aqui está; leia esta carta... O patife tem a sem-cerimônia de
escrever-me, como se entre nós nada houvesse, assim com ares de
amigo velho, participando-me que se acha casado!... que tal lhe parece
esta?... que tenho eu com seu casamento!... Mas isto ainda não é tudo;
aproveitando a ocasião, pede-me com todo o desfaçamento que em
todo e qualquer tempo, que eu me resolva a dispor de Isaura, nunca o
faça sem participar-lhe, porque muito deseja tê-la para mucama de sua
senhora! até onde pode chegar o cinismo e a impudência!...
- Com efeito, senhor!... isto da parte do senhor Álvaro é custoso
de acreditar!
- Pois capacite-se com seus próprios olhos; leia; não conhece 
esta letra?...


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E dizendo isto Leôncio apresentou a Miguel uma carta, cuja letra
imitava perfeitamente a de Álvaro.
- A letra é dele; não resta dúvida, - disse Miguel pasmado do
que acabava de ler. - Há neste mundo infâmias que custa-se a 
compreender.
- E também lições cruéis, que é preciso não desprezar, não é
assim, senhor Miguel?... Pois bem; guarde essa carta para mostrar à sua
filha; é bom que ela saiba de tudo para não contar mais com esse
homem, e varrer do espírito as fumaças que porventura ainda lhe toldam 
o juízo. Faça também vossemecê o que estiver em seu possível a
fim de predispor sua filha para esse casamento, que é de muita vantagem, 
e eu não só lhe perdoarei tudo quanto me fica devendo, como lhe
restituo o que já me deu, para vossemecê abrir um negócio aqui em
Campos e viver tranqüilamente o resto de seus dias, em companhia de
sua filha e de seu genro.
- Mas quem é esse genro? V. S.ª me não disse ainda.
- É verdade... esquecia-me. É o Belchior, o meu jardineiro; não
conhece?...
- Muito!... oh! senhor!... com que miserável figura quer casar 
minha filha!... pobre Isaura!... duvido muito que ela queira.
- Que importa a figura, se tem uma boa alma, e é honesto e
trabalhador?... Lá isso é verdade; o ponto é ela querer.
- Estou certo que aconselhada e bem catequizada por vossemece
há de se resolver.
- Farei o que puder; mas tenho poucas esperanças.
- E se não quiser, pior para ela e para vossemecê: o dito por não
dito; fica tudo como estava, - disse terminantemente Leôncio.
Miguel não era homem de têmpera a lutar contra a adversidade. O
cativeiro e reclusão perene de sua filha, a miséria que se lhe antolhava
acompanhada de mil angústias, eram para ele fantasmas hediondos,
cujo aspecto não podia encarar sem sentir mortal pavor e abatimento.
Não achou muito oneroso o preço pelo qual o desumano senhor, 
livrando-o da miséria, concedia liberdade à sua filha, e aceitou 
o convênio.


Capítulo 20

Enquanto Rosa e André espanejavam os móveis do salão, tagarelando 
alegremente, uma cena bem triste e compungente se passava em um escuro 
aposento atinente às senzalas, onde Isaura sentada sobre um cepo, com 
um dos alvos e mimosos artelhos preso por uma corrente cravada à parede, 
há dois meses se achava encarcerada.
Miguel ai tinha sido introduzido por ordem de Leôncio, para dar
parte à filha do projeto de seu senhor, e exortá-la a aceitar o partido
que lhes propunha. Era pungente e desolador o quadro que apresentavam 
aquelas duas míseras criaturas, pálidas, extenuadas e abatidas pelo
infortúnio, encerrados em uma estreita e lôbrega espelunca. Ao se 
encontrarem depois de dois longos meses, mais oprimidos e desgraçados
que nunca, a primeira linguagem com que se saudaram não foi mais do


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que um coro de lágrimas e soluços de indizível angústia, que abraçados
por largo tempo estiveram entornando no seio um do outro.

..........................................................

- Sim, minha filha; é preciso que te resignes a esse sacrifício, que
é desgraçadamente o único recurso que nos deixam. É com esta condição 
que venho abrir-te as portas desta triste prisão, em que há dois
meses vives encerrada. É, sem dúvida, um cruel sacrifício para teu 
coração; mas é sem comparação mais suportável do que esse duro cativeiro,
com que pretendem matar-te.
- É verdade, meu pai; o meu carrasco dá-me a escolha entre dois
jugos; mas eu ainda não sei qual dos dois será mais odioso e insuportável. 
Eu sou linda, dizem; fui educada como uma rica herdeira; inspiraram-me 
uma alta estima de mim mesma com o sentimento do pudor e
da dignidade da mulher; sou uma escrava, que faz muita moça formosa
morder-se de inveja; tenho dotes incomparáveis do corpo e do espírito;
e tudo isto para quê, meu Deus!?... para ser dada de mimo a um mísero 
idiota!... Pode-se dar mais cruel e pungente escárnio?!...
E uma risada convulsiva e sinistra desprendeu-se dos lábios 
descorados de Isaura, e reboou pelo lúgubre aposento, como o estrídulo 
ulular do mocho entre os sepulcros.
- Não é tanto como se te afigura na imaginação abalada pelos
sofrimentos. O tempo pode muito, e com paciência e resignação hás de
te acostumar a esse novo viver, sem dúvida muito mais suave do que
este inferno de martírios, e poderemos ainda gozar dias se não felizes,
ao menos mais tranqüilos e serenos.
- Para mim a tranqüilidade não pode existir senão na sepultura,
meu pai. Entre os dois suplícios que me deixam escolher, eu vejo ainda
alguma coisa, que me sorri como uma idéia consoladora, um recurso
extremo, que Deus reserva para os desgraçados, cujos males são sem
remédio.
- É da resignação sem dúvida, que queres falar, não é, minha
filha?... Ah! meu pai, quando a resignação não é possível, só a morte...
- Cala-te, filha!... não digas blasfêmias e palavras loucas. Eu quero, 
eu preciso, que tu vivas. Terás ânimo de deixar teu pai neste mundo
sozinho, velho e entregue à miséria e ao desamparo? Se me faltares, o
que será de mim nas tristes conjunturas em que me deixas?...
- Perdoe-me, meu bom, meu querido pai; só em um caso 
extremo eu me lembraria de morrer. Eu sei que devo viver para meu 
pai, e é isso que eu quero; mas para isso será preciso que eu me 
case com um disforme?... oh! isto é escárnio e opróbrio demais! Tenham-me 
debaixo do mais rigoroso cativeiro, ponham-me na roça de enxada na
mão, descalça e vestida de algodão, castiguem-me, tratem-me enfim
como a mais vil das escravas, mas por caridade poupem-me este 
ignominioso sacrifício!...
- Belchior não é tão disforme como te parece; e demais o tempo
e o costume te farão familiarizar com ele. Há muito tempo não o vês;
com a idade ele vai-se endireitando, que é ele ainda muito criança.
Agora o desconhecerás; já não tem aquele exterior tão grosseiro e 


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desagradável, e tem tomado outras maneiras menos toscas. Toma ânimo,
minha filha; quando saíres deste triste calabouço, o ar da liberdade te
restituirá a alegria e a tranqüilidade, e mesmo com o marido que te dão
poderás viver feliz...
- Feliz! - exclamou Isaura com amargo sorriso: - nao me fale
em felicidade, meu pai. Se ao menos eu tivesse o coraçáo livre como
outrora... se não amasse a ninguém. Oh!... não era preciso que ele me
amasse, não; bastava que me quisesse para escrava, aquele anjo de
bondade, que em vão empregou seus generosos esforços para
arrancar-me deste abismo. Quanto eu seria mais feliz do que sendo mulher 
desse pobre homem, com quem me querem casar! Mas ai de mim!
devo eu pensar mais nele? pode ele, nobre e rico cavalheiro, lembrar-se
ainda da pobre e infeliz cativa!...
- Sim, minha filha, não penses mais nesse homem; varre da tua
idéia esse amor tresloucado; sou eu quem te peço e te aconselho.
- Por que, meu pai?... como poderei ser ingrata a esse moço?...
- Mas não deves contar mais com ele, e muito menos com o seu
amor.
- Por que motivo? porventura se terá ele esquecido de mim?...
- Tua humilde condição não permite que olhes com amor para
tão alto personagem; um abismo te separa dele. O amor que lhe inspiraste, 
não passou de um capricho de momento, de uma fantasia de fidalgo. Bem me 
pesa dizer-te isto, Isaura; mas é a pura verdade.
- Ah! meu pai! que está dizendo!... se soubesse que mal me fazem 
essas terríveis palavras!... deixe-me ao menos a consolação de acreditar que ele 
me amava, que me ama ainda. Que interesse tinha ele em iludir uma pobre 
escrava?...
- Eu bem quisera poupar-te ainda este desgosto; mas é preciso
que saibas tudo. Esse moço... ah! minha filha, prepara teu coração para
mais um golpe bem cruel.
- Que tem esse moço?... perguntou Isaura trêmula e agitada. Fale, 
meu pai; acaso morreu?...
- Não, minha filha, mas... está casado.
- Casado!... Álvaro casado!... oh! não; não é possível!... quem lhe
disse, meu pai?...
- Ele mesmo, Isaura; lê esta carta.
Isaura tomou a carta com mão trêmula e convulsa, e a percorreu
com olhos desvairados. Lida a carta, não articulou uma queixa, não
soltou um soluço, não derramou uma lágrima, e ela, pálida como um
cadáver, os olhos estatelados, a boca entreaberta, muda, imóvel, hirta,
ali ficou por largo tempo na mesma posição; dir-se-ia que fora petrificada 
como a mulher de Ló, ao encarar as chamas em que ardia a cidade maldita. 
Enfim por um movimento rápido e convulso atirou-se ao seio de seu pai, 
e inundou-o de uma torrente de lágrimas.
Este pranto copioso aliviou-a; ergueu a cabeça, enxugou as lágrimas, 
e pareceu ter recobrado a tranqüilidade, mas uma tranqüilidade gélida, sinistra, 
sepulcral. Parecia que sua alma se tinha aniquilado sob a violência daquele golpe 
esmagador, e que de Isaura só restava o fantasma.
- Estou morta, meu pai!... não sou mais que um cadáver... façam
de mim o que quiserem...


[Linha 4650 de 5193 - Parte 4 de 4]


Foram estas as últimas palavras que com voz fúnebre e sumida
proferiu naquele lôbrego recinto.
- Vamos, minha filha, disse Miguel beijando-a na fronte. Não te
entregues assim ao desalento; tenho esperança de que hás de viver e
ser feliz.
Miguel, espírito acanhado e rasteiro, coração bom e sensível, 
mas inteiramente estranho às grandes paixões, não podia compreender 
todo o alcance do sacrifício que impunha à sua filha. Encarando a 
felicidade mais pelo lado dos interesses da vida positiva e material, não 
pelos gozos e exigências do coração, ousava conceber sinceras 
esperanças de mais felizes e tranqüilos dias para sua filha, e não via que, 
sujeitando-a a semelhante opróbrio, aviltando-lhe a alma, ia esmagar-lhe o 
coração. Queria que ela vivesse, e não via que aquele ignominioso 
consórcio, depois de tantas e tão acerbas torturas por que passara, era o 
golpe de compaixão, que, terminando-lhe a existência, vinha abreviar-lhe 
os sofrimentos.
Malvina achava-se no salão, e ali esperava o resultado da 
conferência que Miguel fora ter com sua filha. Rosa e André, de braços 
cruzados junto à porta da entrada, também ali se achavam às suas ordens.
Malvina sentiu um doloroso aperto de coração ao ver assomar na
porta o vulto de Isaura, arrimada ao braço de Miguel, lívida e desfigurada 
como enferma em agonia, os cabelos em desalinho, e com passos
mal seguros penetrar, como um duende evocado do sepulcro, naquele
salão, onde não há muito tempo a vira tão radiante de beleza e mocidade, 
naquele salão, que parecia ainda repetir os últimos acentos de sua
voz suave e melodiosa.
Mesmo assim ainda era bela a mísera cativa. A magreza fazendo
sobressaírem os contornos e ângulos faciais, realçava a pureza ideal e a
severa energia daquele tipo antigo.
Os grandes olhos pretos cobertos de luz baça e melancólica eram
como cirios funéreos sob a arcada sombria de uma capela tumular. Os
cabelos entornados em volta do colo, faziam ondular por eles leves
sombras de maravilhoso efeito, como festões de hera a se debruçarem
pelo mármore vetusto de estátua empalidecida pelo tempo. Naquela 
miseranda situação, Isaura oferecia ao escultor um formoso modelo da
Níobe antiga.
- Aquela é Isaura!... oh!... meu Deus! coitada! - murmurou 
Malvina ao vê-la, e foi-lhe mister enxugar duas lágrimas, que a seu pesar
umedeceram-lhe as pálpebras. Esteve a ponto de ir implorar clemência
a seu esposo em favor da pobrezinha, mas lembrou-se das perversas
inclinações e mau comportamento, que Leôncio aleivosamente atribuíra
a Isaura, e assentou de revestir-se de toda a impassibilidade que lhe
fosse possível.
- Então, Isaura, - disse Malvina com brandura, - já tomaste a
tua resolução?... estás decidida a casar com o marido que te queremos
dar?
Isaura por única resposta abaixou a cabeça e fitou os olhos no
chão.
- Sim, senhora, - respondeu Miguel por ela - Isaura está resolvida 
a se conformar com a vontade de V. S.a.


[Linha 4700 de 5193 - Parte 4 de 4]


- Faz muito bem. Não é possível que ela esteja a sofrer por mais 
tempo esse cruel tratamento, em que não posso consentir enquanto 
estiver nesta casa. Não foi para esse fim que sua defunta senhora 
criou-a com tanto mimo, e deu-lhe tão boa educação. Isaura, apesar de 
tua descaída, quero-te bem ainda, e não tolerarei mais semelhante 
escândalo. Vamos dar-te ao mesmo tempo a liberdade e um excelente 
marido.
- Excelente!... meu Deus! Que escárnio! - refleliu Isaura.
- Belchior é muito bom moço, inofensivo, pacífico e trabalhador;
creio que hás de dar-te otimamente com ele. Demais para obter a 
liberdade nenhum sacrifício é grande, não é assim, Isaura?
- Sem dúvida, minha senhora; já que assim o quer, sujeito-me
humildemente ao meu destino. Arrancam-me da masmorra - (continuou 
Isaura em seu pensamento), - para levarem-me ao suplício.
- Muito bem, Isaura; mostras que és uma rapariga dócil e de juízo. 
André, vai chamar aqui o senhor Belchior. Quero eu mesma ter o
gosto de anunciar-lhe que vai enfim realizar o seu sonho querido de
tantos anos. Creio que o senhor Miguel também não ficará mal satisfeito
com o arranjo que damos a sua filha; sempre é alguma coisa sair do
cativeiro e casar-se com um homem branco e livre. Antes assim do que
fugir, e andar foragida por esse mundo. Isaura, para prova de quanto
desejo o teu bem, quero ser madrinha neste casamento, que vai pôr
termo a teus sofrimentos, e restabelecer nesta casa a paz e o contentamento, 
que há muito tempo dela andavam arredados.
Ditas estas palavras, Malvina abriu um cofre de jóias, que estava
sobre uma mesa, e dele tirou um rico colar de ouro, que foi colocar no
pescoço de Isaura.
- Aceita isto, Isaura, - disse ela, - é o meu presente de noivado.

- Agradecida, minha boa senhora, - disse Isaura, e acrescentou
em seu coração: - é a corda, que o carrasco vem lançar ao pescoço da
vítima.
Neste momento vem entrando Belchior acompanhado por André.
Eis-me aqui, senhora minha, - diz ele, - o que deseja deste
seu menor criado?
- Dar-lhe os parabéns, senhor Belchior, - respondeu Malvina.
- Parabéns!... mas eu não sei por quê!...
- Pois eu lhe digo; fique sabendo que Isaura vai ser livre, e...
adivinhe o resto.
- E vai-se embora decerto... oh!... é uma desgraça!
- Já vejo que não é bom adivinhador. Isaura está resolvida a
casar-se com o senhor.
- Que me diz, patroa!... perdão, não posso acreditar. Vossemecê
está zombando comigo.
Digo-lhe a verdade; ai está ela, que não me deixará mentir.
Apronte-se, senhor Belchior, e quanto antes, que amanhã mesmo há de
se fazer o casamento aqui mesmo em casa.
- Oh! senhora minha! divindade da Terra! - exclamou Belchior
indo-se atirar aos pés de Malvina e procurando beijá-los, - deixe-me
beijar esses pés...


[Linha 4750 de 5193 - Parte 4 de 4]


- Levante-se daí, senhor Belchior; não é a mim, é a Isaura que
deve agradecer.
Belchior levanta-se e corre a prostrar-se aos pés de Isaura.
- Oh! princesa de meu coração! - exclamou ele atracando-se ás
pernas da pobre escrava, que fraca como estava, quase foi à terra com
a força daquela furiosa e entusiástica atracação. Era para fazer rebentar
de riso, a quem não soubesse quanto havia de trágico e doloroso no
fundo daquela ímpia e ignóbil farsa.
- Isaura!... não olhas para mim? aqui tens a teus pés este teu
menor cativo, Belchior!... olha para ele, para este teu adorador, que
hoje é mais do que um príncipe.., dá cá essa mãozinha, deixa-me 
comê-la de beijos...
- Meu Deus! que farsa hedionda obrigam-me a representar! -
murmurou Isaura consigo, e voltando a face abandonou a mão a 
Belchior, que colando a ela a boca no transporte do entusiasmo, desatou a
chorar como uma criança.
- Olha que palerma! - disse André para Rosa, que observava de
parte aquela cena tragicômica. - E venham cá dizer-me que não é o
mel para a boca do asno!
- Eu antes queria que me casassem com um jacaré.
- Este meu sinhô moço tem idéias do diabo! quem havia de
lembrar-se de casar uma sereia com um boto?
- Invejoso!... você é que queria ser o boto, por isso está aí a
torcer o nariz. Toma!... bem feito!... agora o que faltava era 
que o nhonhô te desse de dote à Isaura.
- Isso queria eu!... aposto que Isaura não vai casar de livre 
vontade! e depois... nós cá nos arranjaríamos... havia de enfiar o 
boto pelo fundo de uma agulha.
- Sai daí, tolo!... pensa que Isaura faz caso de você?...
- Não te arrebites, minha Rosa; já agora não há remédio senão
contentar-me contigo, que em fim de contas também és bem bonitinha,
e... tudo que cai no jequi, é peixe.
- É baixo!... agüente a sua tábua, e vá consolar-se com quem
quiser, menos comigo.


Capítulo 21

- Então, Leôncio, - dizia Malvina a seu esposo no outro dia
pela manhã, - deste as providências necessárias para arranjar-se esse
negócio hoje mesmo?
- Creio que é a centésima vez que me fazes essa pergunta, 
Malvina, - respondeu Leôncio sorrindo-se. - Todavia pela centésima vez
te responderei também, que as providências que estão da minha parte,
já foram todas dadas. Ontem mesmo mandei um próprio a Campos, e
não tardarão a chegar por aí o tabelião para passar escritura 
de liberdade a Isaura com toda a solenidade, e também o padre para 
celebrar o casamento. Bem vês que de nada me esqueci. Tratem de estar 
todos prontos; e tu, Malvina, manda já preparar a capela para se 
efetuar esse casamento, que pareces desejar com mais ardor, - acrescentou 


[Linha 4800 de 5193 - Parte 4 de 4]


sorrindo, - do que desejaste o teu próprio.
Malvina saiu do salão, deixando Leôncio em companhia de um
terceiro personagem, que também ali se achava, por nome Jorge, a
quem o leitor ainda não conhece. Dizendo que era um parasita, ainda
não temos dito tudo.
Este gênero contém muitas variedades, e mesmo cada individuo
tem sua cor e feição particular. Era um homem bem apessoado, 
espirituoso serviçal, cheio de cortesia e amabilidade, condições 
indispensáveis a um bom parasita. Jorge não vivia da seiva e da sombra de 
uma só árvore; saltava de uma a outra, e assim peregrinava por 
longas distâncias, o que era da sua parte um excelente cálculo, pois 
proporcionava-lhe uma vida mais variada e recreativa, ao mesmo tempo que 
tornava sua companhia menos incômoda e fatigante aos seus numerosos
amigos. Conhecia e entretinha relações de amizade com todos os 
fazendeiros das margens do Paraíba desde São João da Barra até São 
Fidélis. A crer no que dizia, andava sempre cheio de afazeres e 
dando andamento a mil negócios importantes, mas estava sempre pronto a 
prescindir deles a convite de qualquer desses amigos para passar 
uns oito ou quinze dias em sua companhia.
Na solidão em que Leôncio se achou depois de seu rompimento
com Malvina, Jorge foi para ele um excelente recurso quando se achava
na fazenda. Servia-lhe de companheiro não só à mesa, como ao jogo e
à caça: entretinha-o a contar-lhe anedotas divertidas e escandalosas,
aplaudia-lhe os desvarios e extravagâncias, e lisonjeava-lhe as ruins 
paixões, enquanto Leôncio, que o acreditava realmente um amigo, fazia
dele o seu confidente, e comunicava-lhe os seus mais íntimos 
pensamentos, os seus planos de perversidade, e os mais secretos 
negócios de família.
Para melhor entrarmos no mistério dos planos atrozes e ignóbeis,
das satânicas maquinações de Leôncio, ouçamos a conversação íntima,
que vão tratar estes dois entes dignos um do outro.
- Até que por fim, Jorge, achei um meio engenhoso e seguro de
aplanar todas as dificuldades. Desta maneira espero que tudo se vai
arranjar ás mil maravilhas.
- Seguramente, e já de antemão te dou os parabéns pelos teus
triunfos, e aplaudo-te pela feliz combinação de teus planos.
- Mas escuta ainda para melhor poderes compreendê-los. Com
este casamento ficam satisfeitos os desejos de minha mulher, sem que
Isaura escape de todo ao meu poder. Como o pai dela está debaixo de
minha restrita dependência, eu saberei reter junto de mim esse estúpido
jardineiro com quem caso-a, e depois... tu bem sabes, o tempo e a
perseverança amansam as feras mais bravias. Entretanto a atrevida 
escrava receberá o castigo que merece sua inqualificável rebeldia. Era-me
absolutamente necessário dar este passo, porque minha mulher 
recusa-se obstinadamente a reconciliar-se comigo, enquanto eu conservar
Isaura cativa em meu poder, capricho de mulher, com que bem pouco
me importaria, se não fosse... - isto aqui entre nós, meu amigo; confio
em tua discrição.
- Podes falar sem susto, que meu coração é como um túmulo
para o segredo da amizade.


[Linha 4850 de 5193 - Parte 4 de 4]


- Bem; dizia-te eu, que bem pouco me importaria com os arrufos
e caprichos de minha mulher, se não fosse o completo desarranjo em
que desgraçadamente vão os meus negócios. Em conseqüência de uma
infinidade de circunstâncias, que é escusado agora explicar-te, a minha
fortuna está ameaçada de levar um baque horrendo, do qual não sei se
me será possível levantá-la sem auxilio estranho. Ora meu sogro é o
único que com o auxilio de seu dinheiro ou de seu crédito pode ainda
escorar o edifício de minha fortuna prestes a desabar.
- Em verdade procedes com tino e prudência consumada. Oh!
teu sogro!... conheço-o muito; é uma fortuna sólida, e uma das casas
mais fortes do Rio de Janeiro; teu sogro não te deixará ficar mal. Quer
extremosamente à filha, e não quererá ver arruinado o marido dela.
- Disso estou eu certo. Mas isto ainda não é tudo; escuta ainda,
Jorge. O meu rival, esse tal senhor Álvaro, que tanto cobiçou a minha
Isaura para sua amizade, que não teve pejo de seduzi-la, acoutá-la e
protegê-la pública e escandalosamente no Recife, esse grotesco 
campeão da liberdade das escravas alheias, que protestou me disputar
Isaura a todo o risco, ficará de uma vez para sempre desenganado de
sua estulta pretensão. Vê pois, Jorge, quantos interesses e vantagens se
conciliam no simples fato desse casamento.
- Plano admirável na verdade, Leôncio! - exclamou Jorge enfaticamente. 
- Tens um tino superior, e uma inteligência sutil e fértil em
recursos!., se te desses á política, asseguro-te que farias um papel 
eminente; serias um estadista consumado. Esse Dom Quixote de nova
espécie, amparo da liberdade das escravas alheias, quando são bonitas,
não achará senão moinhos de vento a combater. Muito havemos de 
nos rir de seu desapontamento, se lhe der na cabeça continuar sua 
burlesca aventura.
- Creio que nessa não cairá ele; mas se por cá aparecesse, muito
tínhamos que debicá-lo.
- Meu senhor, - disse André entrando na sala, - aí estão na
porta uns cavalheiros, que pedem licença para apear e entrar.
- Ah! já sei, - disse Leôncio, - são eles, são as pessoas que
mandei chamar; o vigário, o tabelião e mais outros... bom! já não nos
falta tudo. Vieram mais depressa do que eu esperava. Manda-os apear e
entrar, André. 
André sai, Leôncio toca uma campainha, e aparece Rosa.
- Rosa, diz-lhe ele, - vai já chamar sinhá Malvina e Isaura, e o
senhor Miguel e Belchior. Já devem estar prontos; precisa-se aqui já da
presença de todos eles.
- Estou aflito por ver o fim a esta farsa, - disse Leôncio a seu
amigo, - mas quero que ela se represente com certo aparato e solenidade, 
para inculcar que tenho grande prazer em satisfazer o capricho de
Malvina e melhor iludir a sua credulidade; mas - fique isto aqui entre
nós, - este casamento não passa de uma burla. Tenho toda a certeza
de que Isaura despreza do fundo d'alma esse miserável idiota, que só
em nome será seu marido. Entretanto ficarei me aguardando para 
melhores tempos, e espero que o meu plano surtirá o desejado 
efeito.
- Cá por mim não tenho a menor dúvida a respeito do resultado


[Linha 4900 de 5193 - Parte 4 de 4]


de um plano tão maravilhosamente combinado.
Mal Jorge acabava de pronunciar estas palavras, apareceu à porta
do salão um belo e jovem cavalheiro, em elegantes trajos de viagem,
acompanhado de mais três ou quatro pessoas. Lêoncio, que já ia 
pressuroso recebê-los e cumprimentá-los, estacou de repente.
-Oh!... não são quem eu esperava!... murmurou consigo. - Se
me não engano... é Álvaro!...
- Senhor Leôncio! - disse o cavalheiro cumprimentando-o.
- Senhor Álvaro, - respondeu Leôncio, - pois creio que é a
esse senhor, que tenho a honra de receber em minha casa.
- É ele mesmo, senhor; um seu criado.
- Ah! muito estimo... não o esperava... queira sentar-se... quis 
então vir dar um passeio cá pelas nossas províncias do Sul?...
Estas e outras frases banais dizia Leôncio, procurando refazer-se da
perturbação em que o lançara a súbita e inesperada aparição de Álvaro
naquele momento crítico e solene.
No mesmo momento entravam no salão por uma porta interior
Malvina, Isaura, Miguel e Belchior. Vinham já preparados com os 
competentes trajos para a cerimônia do casamento.
- Meu Deus!... o que estou vendo!... - murmurou Isaura, sacudindo 
vivamente o braço de Miguel: - estarei enganada?... não... é ele.
- É ele mesmo... Deus!... como é possível?
- Oh! - exclamou Isaura; e nesta simples interjeição, que exalou
como um suspiro, expressava o desafogo de um pego de angústias, que
lhe pesava sobre o coração. Quem de perto a olhasse com atenção
veria um leve rubor naquele rosto, que a dor e os sofrimentos pareciam
ter condenado a uma eterna e marmórea palidez; era a aurora da 
esperança, cujo primeiro e tímido arrebol assomava nas faces daquela, 
cuja existência naquele momento ia sepultar-se nas sombras de um 
lúgubre ocaso.
- Não esperava pela honra de recebê-lo hoje nesta sua casa, -
continuou Leôncio recobrando gradualmente o seu sangue-frio e seu ar
arrogante. - Entretanto há de permitir que me felicite a mim e ao
senhor por tão oportuna visita. A chegada de V. S.a. hoje nesta casa
parece um acontecimento auspicioso, e até providencial.
- Sim?!...   muito folgo com isso..,.mas não terá V. S.a. a bondade
de dizer por quê?...
- Com muito gosto. Saiba que aquela sua protegida, aquela 
escrava, por quem fez tantos extremos em Pernambuco, vai ser hoje
mesmo libertada e casada com um homem de bem. Chegou V. S.a.
mesmo a ponto de presenciar com os seus próprios olhos a realização
dos filantrópicos desejos, que tinha a respeito da dita escrava, e eu da
minha parte muito folgarei se V. S.a. quiser assistir a esse ato, que ainda
mais solene se tornará com a sua presença.
- E quem a liberta? - perguntou Álvaro sorrindo-se sardonicamente.
- Quem mais senão eu, que sou seu legitimo senhor? - respondeu 
Leôncio com altiva seguridade.
- Pois declaro-lhe, que o não pode fazer, senhor: - disse Álvaro
com firmeza. - Essa escrava não lhe pertence mais.
- Não me pertence!... - bradou Leôncio levantando-se de um


[Linha 4950 de 5193 - Parte 4 de 4]


salto, - o senhor delira ou está escarnecendo?...
- Nem uma, nem outra coisa, - respondeu Álvaro com toda a
calma: - repito-lhe; essa escrava não lhe pertence mais.
- E quem se atreve a esbulhar-me do direito que tenho sobre ela?
- Os seus credores, senhor, - replicou Álvaro, sempre com a
mesma firmeza e sangue-frio. - Esta fazenda com todos os escravos,
esta casa com seus ricos móveis, e sua baixela, nada disto lhe pertence
mais; de hoje em diante o senhor não pode dispor aqui nem do mais
insignificante objeto. Veja, - continuou mostrando-lhe um maço de
papéis, - aqui tenho em minhas mãos toda a sua fortuna. O seu passivo 
excede extraordinariamente a todos os seus haveres; sua ruína é
completa e irremediável, e a execução de todos os seus bens vai lhe ser
imediatamente intimada.
A um aceno de Álvaro, o escrivão que o acompanhava apresentou
a Leôncio o mandado de seqüestro e execução de seus bens. Leôncio,
arrebatando o papel com mão trêmula, passeou rapidamente por ele os
olhos faiscantes de cólera.
- Pois quê! - exclamou ele, - é assim violenta e atropeladamente 
que se fazem estas coisas! porventura não posso obter alguma
moratória, e salvar minha honra e meus bens por outro qualquer meio?...
- Seus credores já usaram para com o senhor de todas as 
condescendências e contemporizações possíveis. Saiba ainda demais, 
que hoje sou eu o principal, se não o único credor seu; pertencem-me, e
estão em minhas mãos quase todos os seus títulos de dívida, e eu não
estou de ânimo a admitir transações nem protelações de natureza alguma. 
Dar seus bens a inventário eis o que lhe cumpre fazer; toda e
qualquer evasiva que tentar será inútil.
- Maldição! - bradou Leôncio, batendo com o pé no chão e
arrancando os cabelos.
- Meu Deus!... meu Deus!... que desgraça!... e que... vergonha!...
exclamou Malvina, soluçando.


Capítulo 22


Deixemos por um momento suspensa a cena do capítulo antecedente, 
e interrompido o diálogo entre os dois mancebos. Eles ai ficam
em face um do outro, como o leão altivo e magnânimo tendo subjugado 
o tigre daninho e traiçoeiro, que rosna em vão debaixo das possantes garras 
de seu antagonista. É-nos preciso explicar por que série de circunstâncias 
Álvaro veio aparecer em casa do senhor de Isaura, a ponto de vir burlar os 
seus planos atrozes, mesmo no momento em que iam ter final execução.
Depois que Isaura lhe fora arrebatada, Álvaro caiu na mais acerba
prostração de ânimo.
Ferido em seu orgulho, esbulhado do objeto de seu amor, escarnecido 
e vilipendiado pela arrogância de um insolente escravocrata, entregou-se ao 
mais sombrio desespero. Mal soube o seu revés, o Dr. Geraldo correu em socorro 
daquela nobre alma tão cruelmente golpeada pelo destino. Graças aos cuidados 
e conselhos daquele tão solícito quão inteligente amigo, a dor de Álvaro foi-se 


[Linha 5000 de 5193 - Parte 4 de 4]


tornando mais calma e resignada. Por suas exortações Álvaro chegou mesmo a 
convencer-se que o melhor partido que lhe ficava a tomar nas difíceis conjunturas 
em que se achava, era procurar esquecer-se de Isaura.
Todo o esforço que fizeres, - dizia-lhe o amigo, - em favor
da liberdade de Isaura, será rematada loucura, que não terá outro resultado 
senão envolver-te em novas dificuldades, cobrindo-te de ridículo e
de humilhação. Já passaste por duas decepções bem cruéis, a do baile,
e esta última ainda mais triste e humilhante. Quase te fizeste réu de
polícia, querendo disputar uma escrava a seu legítimo senhor. Pois bem;
as seguintes serão ainda piores, eu te asseguro, e te farão ir rolando de
abismo em abismo até tua completa perdição.
Atendendo a estas e mil outras considerações de Geraldo, Àlvaro
procurou firmar o espírito e a vontade no propósito de renunciar ao seu
amor, e a todas as suas pretensões filantrópicas sobre Isaura. Foi debalde. 
Depois de um mês de luta consigo mesmo, de sempre frustradas
veleidades de revolta contra os impulsos do coração, Álvaro sentiu-se
fraco, e compreendeu que semelhante tentativa era uma luta insensata
contra a força onipotente do destino. Embalde procurou, já nas graves
ocupações do espírito, já nas distrações frívolas da sociedade, um meio
de apagar da lembrança a imagem da gentil cativa. Ela lhe estava sempre 
presente em todos os sonhos d'alma, ora resplendente de beleza e
graça, donosa e sedutora como na noite do baile, ora pálida e abatida,
vergada ao peso de seu infortúnio, com os pulsos algemados, cravando
nele os olhos suplicantes como que a dizer-lhe:
- Vem, não me abandones; só tu podes quebrar estes ferros que
me oprimem.
O espírito de Álvaro firmou-se por fim na íntima e inabalável 
convicção de que o céu, pondo em contato o seu destino com o daquela
encantadora e infeliz escrava, tivera um desígnio providencial, e o 
escolhera para instrumento da nobre e generosa missão de arrebatá-la à
escravidão, e dar-lhe na sociedade o elevado lugar que por sua beleza,
virtudes e talentos, lhe competia.
Resolveu-se portanto, fosse qual fosse o resultado, a prosseguir
nessa generosa tentativa, com a cegueira do fanatismo, senão com o
arrastamento de uma inspiração providencial.
Álvaro partiu para o Rio de Janeiro. Ia ao acaso, sem plano 
nenhum formado, sem bem saber o que devia fazer para chegar aos seus
fins; mas tinha como uma intuição vaga de que o céu lhe depararia
ocasião e meios de levar a cabo a sua empresa. O que queria em 
primeiro lugar era colocar-se nas vizinhanças de Leôncio, a fim de 
poder colher informações e investigar se porventura algum recurso haveria
para obrigar o senhor de Isaura a manumiti-la.
Desembarcou na corte com o fim de dirigir-se brevemente para
Campos. Antes porém de partir para seu destino, procurou colher entre
as pessoas do comércio algumas informações a respeito de Leôncio.
- Oh! conheço muito esse sujeito, - disse logo o primeiro 
negociante, a quem Álvaro se dirigiu. - Esse moço está falido, e em 
completa ruína. Se V. S.ª também é credor dele, pode pôr as suas barbas
de molho, porque as dos vizinhos estão a arder. Essa casa bem liquida,
mal dará para um rateio, em que toque cinquenta por cento a cada credor.


[Linha 5050 de 5193 - Parte 4 de 4]


Esta revelação foi para Álvaro como um relâmpago que se abre aos
olhos do viandante extraviado em noite tormentosa, mostrando-lhe de
repente e bem ao perto o albergue hospitaleiro que demanda.
- E V. S.ª porventura é também credor desse fazendeiro? - perguntou Álvaro.
- Infelizmente, e um dos principais...
- E a quanto montará a fortuna do tal Leôncio?
- A menos de nada, presentemente, pois como já lhe disse, o seu
passivo excede talvez em mais do dobro a todos os seus bens.
- Mas esse passivo mesmo, em que soma é calculado pouco mais
ou menos?
- Calcula-se aproximadamente em quatrocentos e tantos a quinhentos 
contos, enquanto que a fazenda de Campos, com escravos e todos os mais 
acessórios, não excederá talvez a duzentos. Já temos tido com esse fazendeiro 
todas as atenções possíveis, e lhe temos dado mais moratórias do que a lei 
concede; não somos obrigados a mais, e agora estamos resolvidos a cair-lhe 
em cima com a execução.
- E quais são os outros credores? V. S.ª quererá indicar-mos?
- E por que não? - respondeu o negociante, e passou a indicar
a Álvaro os nomes e moradas dos demais credores.
De feito, a casa de Leôncio, já desde os últimos anos da vida de
seu pai, ia em contínuo regresso e desmantelamento. O velho 
comendador, entregando-se no último quartel da vida a excessos e 
devassidões, que nem na mocidade são desculpáveis, vivendo quase sempre
na corte, e deixando quase em completo abandono a administração 
da fazenda, havia já esbanjado não pequena porção de sua fortuna. 
Por efeito da má administração, não só as safras começaram a escassear
consideravelmente, como também o número de escravos foi-se reduzindo 
pela morte e pelas freqüentes fugas, sem que tanto o comendador
como seu filho deixassem de substituí-los por outros novos, que iam
comprando a prazo, tornando cada vez mais pesado o ônus das dívidas.
Depois da morte do comendador, as coisas foram de mal a pior.
Leôncio, com a educação e a índole que lhe conhecemos, era o homem menos 
próprio possível para dirigir e explorar um grande estabelecimento agrícola.
Seus desvarios e extravagâncias, e por último sua nefasta e insensata 
paixão por Isaura, fizeram-no perder de todo a cabeça, arrojando-se em um plano 
inclinado de despesas ruinosas, sem cálculo nem previsão alguma. Com os 
enormes dispêndios que teve de fazer em conseqüência da fuga de Isaura, 
mandando procurá-la por todos os cantos do império, acabou de cavar o 
abismo de sua ruína. Em pouco tempo o jovem fazendeiro estava de todo 
insolvável, sem um real em caixa, e com uma multidão de letras protestadas 
na carteira de seus credores. Quando estes acordaram e se lembraram de lhe 
abrir a falência e executar os seus bens, compreenderam que mal poderiam 
embolsar-se da metade do que lhes era devido, e, portanto, trataram com 
sofreguidão de promover os meios executivos, antes que o mal fosse a mais.
Depois de conferenciar com os credores de Leôncio, propôs-lhes a
compra de todos os seus créditos pela metade do seu valor. Para evitar
qualquer odiosidade, que semelhante procedimento pudesse acarretar
sobre sua pessoa, declarou-lhes que nenhuma intenção tinha de vexar
nem oprimir o infeliz fazendeiro, que pelo contrário era seu intuito 
protegê-lo e livrá-lo do vexame de uma rigorosa execução judicial, 


[Linha 5100 de 5193 - Parte 4 de 4]


e deixá-lo ao abrigo da miséria. E realmente, a despeito da aversão e 
desprezo que Leôncio lhe merecia, Álvaro não pretendia levar ao último 
extremo os meios de vingança, que por um acaso as circunstâncias tinham 
posto em suas mãos. Era ele dez vezes mais rico do que o seu adversário, e
de muito bom grado, se não houvesse outro recurso, por um contrato
amigável daria uma soma igual a toda a fortuna deste, pela liberdade de
Isaura.
Agora, que o destino vinha pôr em suas mãos toda a fortuna desse
adversário caprichoso, arrogante e desalmado, Álvaro, sempre generoso,
nem por isso desejava vê-lo reduzido à miséria.
Os credores não hesitaram um momento em aceitar a proposta.
Com razão preferiram saldar suas contas por um modo fácil e expedito,
em dinheiro contado, recebendo a metade, do que sujeitando-se às
despesas, delongas e dificuldades de uma execução em escravos e bens
de raiz, quando nenhuma probabilidade havia de que no rateio 
pudessem obter mais de metade.
Senhor de todos os títulos de divida de Leôncio, isto é, de 
toda a sua fortuna, Álvaro partiu para Campos a fim de promover por sua
conta a execução dos bens do mesmo, e munido de todos os papéis e
documentos, acompanhado de um escrivão e dois oficiais de justiça,
apresentou-se em pessoa em casa de Leôncio para intimar-lhe em 
pessoa a sentença de sua perdição.
- Oh! maldição! - exclamara Leôncio, arrancando os cabelos em
desespero, depois que ouvira dos lábios de Álvaro aquele arresto esmagador. 
Atordoado e quase louco com a violência do golpe, ia sair correndo pela porta 
a fora.
- Espere ainda, senhor, - disse Álvaro detendo-o pelo braço. -
Agora quanto à escrava de que há pouco se falava, o que pretendia
fazer dela?
- Libertá-la, já lhe disse, - respondeu Leôncio com rudeza.
- E mais alguma coisa; creio que também me disse que ia casá-la;
e, desculpe-me a pergunta, haveria para isso consentimento da parte
dela?
- Oh! não! não!... eu era arrastada, senhor! - exclamou Isaura
resolutamente.
- É verdade, senhor Álvaro, - atalhou Miguel, ela ia casar-se,
por assim dizer, forçada. O senhor Leôncio, como condição da 
liberdade dela obrigava-a a casar-se com aquele pobre homem que V. S.ª
ali vê.
- Com aquele homem?! - exclamou Álvaro cheio de pasmo e
indignação, olhando para o homúnculo que Miguel lhe indicava com o
dedo.
- Sim, senhor, - continuou Miguel, - e se ela não se sujeitasse
a esse casamento, teria de passar o resto da vida presa em um quarto
escuro, incomunicável, com o pé enfiado em uma grossa corrente,
como tem vivido desde que veio do Recife até o dia de hoje...
- Verdugo! - bradou Álvaro, não podendo mais sopear sua 
indignação. - A mão da justiça divina pesa enfim sobre ti para punir tuas
monstruosas atrocidades!
- O que vergonha!.., que opróbrio, meu Deus! - exclamou Malvina, 


[Linha 5150 de 5193 - Parte 4 de 4]


debruçando-se a uma mesa, e escondendo o rosto entre as mãos.
- Pobre Isaura! - disse Álvaro com voz comovida, estendendo
os braços à cativa. - Chega-te a mim... Eu protestei no fundo de minha 
alma e por minha honra desafrontar-te do jugo opressor e aviltante,
que te esmagava, porque via em ti a pureza de um anjo, e a nobre e
altiva resignação da mártir. Foi uma missão santa, que julgo ter recebido
do céu, e que hoje vejo coroada do mais feliz e completo resultado.
Deus enfim, por minhas mãos vinga a inocência e a virtude oprimida, e
esmaga o algoz.
- Deixe-se de blasonar, senhor! - gritou Leôncio agitando-se em
gesticulações de furor: - isto não passa de uma infâmia, uma traição, e
ladroeira...
- Isaura! - continuou Álvaro com voz sempre firme e grave: -
se esse algoz ainda há pouco tinha em suas mãos a tua liberdade e a
tua vida, e não tas cedia senão com a condição de desposares um ente
disforme e desprezível, agora tens nas tuas a sua propriedade; sim, que
as tenho nas minhas, e as passo para as tuas. Isaura, tu és hoje a 
senhora, e ele o escravo; se não quiser mendigar o pão, há de recorrer à
nossa generosidade.
- Senhor! - exclamou Isaura correndo a lançar-se aos pés de
Álvaro; - oh! quanto sois bom e generoso para com esta infeliz 
escrava!... mas em nome dessa mesma generosidade, de joelhos eu vos 
peço, perdão! perdão para eles...
- Levanta-te, mulher generosa e sublime! - disse Álvaro estendo-lhe 
as mãos para levantar-se. - Levanta-te, Isaura; não é a meus pés, mas sim em 
meus braços, aqui bem perto do meu coração, que te deves lançar, pois a 
despeito de todos os preconceitos do mundo, eu me julgo o mais feliz dos 
mortais em poder oferecer-te a mão de esposo!...
- Senhor, - bradou Leôncio com os lábios espumantes e os
olhos desvairados, - aí tendes tudo quanto possuo; pode saciar sua
vingança, mas eu lhe juro, nunca há de ter o prazer de ver-me implorar
a sua generosidade.
E dizendo isto entrou arrebatadamente em uma alcova contígua à
sala.
- Leôncio! Leôncio!... onde vais! - exclamou Malvina precipitando-se 
para ele; mal, porém, havia ela chegado à porta, ouviu-se a explosão atroadora 
de um tiro.
- Ai!... - gritou Malvina, e caiu redondamente em terra.
Leôncio tinha-se rebentado o crânio com um tiro de pistola.

FIM - FIM - FIM


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