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quinta-feira, 18 de outubro de 2018

A Escrava Isaura - Parte 3 de 4 - Bernardo Guimarães


A Escrava Isaura - Parte 3 de 4 - Bernardo Guimarães


Sabendo dos cruéis apuros a que sua filha se achava reduzida
depois da morte do comendador, não hesitou mais um instante, e tratou
de tomar todas as providências e medidas de segurança para roubar a
filha, e pô-la fora do alcance de seu bárbaro senhor. 


Na mesma madrugada, 
que seguiu-se à tarde, em que a raptou, fazia-se de vela com
Isaura para as províncias do Norte em um navio negreiro, de que era
capitão um português, antigo e dedicado amigo seu. Este chegando às
alturas de Pernambuco, como daí tinha de singrar para a costa da África, 
largou-os no Recife, prometendo-lhes que dentro em três ou quatro
meses estaria de volta e pronto a conduzi-los para onde quisessem. 
Miguel que em sua profissão de jardineiro ou de feitor havia passado a
vida desde a infância dentro de um horizonte acanhado e em círculo
mui limitado de relaçóes, tinha pouco conhecimento e nenhuma 
experiência do mundo, e portanto não podia calcular todas as conseqüências
da difícil posição em que ia colocar a si e a sua filha. Durante os longos
anos que esteve feitorando a fazenda do comendador e de outros, não
se dera senão uma ou outra fuga insignificante de escravos, por alguns
dias e para alguma fazenda vizinha, e, portanto, não é para admirar que
ele quase completamente ignorasse a amplitude dos direitos, que tem
um senhor sobre o escravo, e os infinitos meios e recursos de que pode
lançar mão para capturá-los em caso de fuga. Entendeu, pois, que em
Pernambuco poderia viver com sua filha em plena seguridade, ao 
menos por três ou quatro meses, uma vez que se afastassem da sociedade
o mais que pudessem, e procurassem esconder sua vida na mais 
completa obscuridade.
Isaura também, se bem que tivesse o espírito mais atilado e 
esclarecido, longe do objeto principal de seu terror e aversão, não 
deixava de sentir-se tranqüila, e até certo ponto descuidosa dos 
perigos a que vivia exposta. Mas essa tal ou qual tranquilidade só durou 
até o dia em que pela primeira vez viu Álvaro. Amou-o com esse amor 
exaltado das almas elevadas, que amam pela primeira e única vez, e esse 
amor, como bem se compreende, veio tornar ainda mais crítica e angustiosa a
sua já tão precária e mísera situação.
Alvaro tinha na fisionomia, nas maneiras, na voz e no gesto, um
não sei quê de nobre, de amável e profundamente simpático, que avassalava 
todos os corações. O que não seria ele para aquela que única até
ali lhe soubera conquistar o amor? Isaura não pôde resistir a tão prestigiosa 
sedução; amou-o com o ardor e entusiasmo de um coração virgem; e com a 
imprevidência e cegueira de uma alma de artista, embora não visse nesse amor 
mais do que uma nova fonte de lágrimas e torturas para seu coração.
Medindo o abismo que a separava de Álvaro, bem sabia que de
nenhuma esperança podia alimentar-se aquela paixão funesta, que 
deveria ficar para sempre sepultada no íntimo do coração, como um 
cancro a devorá-lo eternamente.
No seu cálice de amarguras, já quase a transbordar, tinha de 
receber da mão do destino mais aquele travo cruel, que lhe devia queimar
os lábios e envenenar-lhe a existência.
Já bastante lhe pesava andar enganando a sociedade a respeito de
sua verdadeira condição; alma sincera e escrupulosa, envergonhava-se
consigo mesma de impor às poucas pessoas que com ela tratavam de
perto, um respeito e consideração a que nenhum direito podia ter. Mas
considerando que de tal disfarce nenhum grande mal podia resultar à
sociedade, conformava-se com sua sorte. Deveria, porém, ela, ou 


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poderia sem inconveniente manter o seu amante na mesma ilusão? Com 
seu silêncio, conservando-o na ignorância de sua condição de escrava, 
deveria deixar alimentar-se, crescer profunda e enérgica paixão, que o
moço por ela concebera?... não seria isto um vil embuste, uma 
indignidade, uma traição infame? não teria ele o direito, ao saber da verdade,
de acabrunhá-la de amargas exprobrações, de desprezá-la, de calcá-la
aos pés, de tratá-la enfim como escrava abjeta e vil, que ficaria sendo?
- Oh! isto para mim seria mais horrível que mil mortes! - 
exclamava ela no meio do angustioso embate de idéias que se lhe agitavam
no espírito. - Não, não devo iludi-lo; isto seria uma infâmia... vou-lhe
descobrir tudo; é esse o meu dever, e hei de cumpri-lo. Ficará sabendo
que não pode, que não deve amar-me; porém ao menos não ficará
com o direito de desprezar-me.. uma escrava, que procede com lisura e
lealdade, pode ao menos ser estimada. Não; não devo enganá-lo; hei
de revelar-lhe tudo.
Esta era a resolução que lhe inspiravam seu natural pundonor e
lealdade, e os ditames de uma consciência reta e delicada, mas quando
chegava o momento de pô-la em prática fraqueava-lhe o coração. e
Isaura ia diferindo de dia para dia a execução de seu propósito.
Falecia-lhe de todo a coragem para quebrar por suas próprias 
mãos a doce quimera, que tão deliciosamente a embalava, e em que às 
vezes conseguia esquecer por longo tempo sua mísera condição, para
lembrar-se somente que amava e era amada.
- Deixemos durar mais um dia - refletia consigo. - esta ilusória,
mas inefável ventura. Sou uma condenada, que arrancam da masmorra
para subir ao palco e fazer por momentos o papel de rainha feliz e
poderosa; quando descer, serei de novo sepultada em minha masmorra
para nunca mais sair. Prolonguemos estes instantes; náo será lícito deixar 
passar ao menos em sonhos uma hora de felicidade sobre a fronte
do infeliz condenado?... sempre será tempo de quebrar esta frágil cadeia
de ouro, que me prende ao céu, e baquear de novo no inferno de
meus sofrimentos.
Nesta indecisão, nesta luta interna, em que sempre a voz da paixão
abafava os ditames da razão e da consciência, passaram-se alguns dias
até àquele, em que Alvaro os induziu por meios quase violentos 
a aceitarem convite para um baile. Desde então Isaura entendeu que 
seria uma deslealdade, uma infâmia inqualificável, conservar por mais 
tempo o seu amante na ilusão a respeito de sua condição, e que não 
havia mais meio de prolongar, sem desdouro para eles, tão falsa e 
precária situação.
Era muito abusar da ignorância do nobre e generoso mancebo!
Uma escrava fugida apresentar-se em um baile, e apavonar-se em seu
braço à face da mais brilhante e distinta classe de uma importante capital!... 
era pagar com a mais feia ingratidão e a mais degradante deslealdade os serviços, 
que com tanta delicadeza e amabilidade lhe havia prestado. Isto repugnava 
absolutamente aos escrúpulos da melindrosa consciência de Isaura. É verdade 
que Miguel, aterrado pelas considerações que Álvaro lhe fizera, viu-se forçado 
a anuir ao seu gracioso convite; Isaura porém guardara absoluto silêncio, 
o que ambos tomaram por um sinal de aquiescência.
Enganavam-se. Isaura recolhida ao silêncio não fazia mais do que


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tentar esforços supremos para sacudir o fardo daquele disfarce, que
tanto lhe pesava sobre a consciência, rasgando resolutamente o véu que
encobria aos olhos do amante sua verdadeira condição. Por mais, 
porém, que invocasse toda a sua energia e resolução, no momento 
decisivo a coragem a abandonava. Já a palavra lhe pairava pelos 
lábios entreabertos, já tinha o passo formado para ir prostrar-se aos 
pés de Álvaro, mas encontrando pousado sobre ela o olhar meigo e 
apaixonado do mancebo, ficava como que fascinada; a palavra não ousava
romper os lábios paralisados e refluía ao coração, e os pés recusavam-se
ao movimento como se estivessem pregados no chão. Isaura estava
como o desgraçado a quem circunstâncias fatais arrastam ao suicídio,
mas que ao chegar à borda do precipício medonho em que deseja 
arrojar-se, recua espavorido.
- Fraca e covarde criatura que eu sou! - pensou ela por fim
esmorecida: - que miséria! nem tenho coragem para cumprir um dever! 
não importa; para tudo há remédio; cumpre que ele ouça da boca
de meu pai, o que eu não tenho ânimo de dizer-lhe.
Esta idéia luziu-lhe no espírito como uma tábua salvadora; agarrou-se 
a ela com sofreguidão, e antes que de novo lhe fraqueasse o ânimo, tratou de pô-la 
em execução.
- Meu pai, - disse ela resolutamente apenas Álvaro transpôs o
portão do pequeno jardim, - declaro-lhe que não vou a esse baile; não
quero, nem devo por forma nenhuma lá me apresentar.
- Não vais?! - exclamou Miguel atônito. - E por que não disseste 
isto há mais tempo, quando o senhor Álvaro ainda aqui se achava? agora que 
já demos nossa palavra...
- Para tudo há remédio, meu pai, - atalhou a filha com febril
vivacidade - e para este caso ele é bem simples. Vá meu pai depressa
à casa desse moço, e diga-lhe o que eu não tive ânimo de dizer-lhe;
declare-lhe quem eu sou, e está tudo acabado.
Dizendo isto, Isaura estava pálida, falava com precipitação, os 
lábios descarados lhe tremiam, e as palavras, proferidas com voz convulsa
e estridente, parecia que lhe eram arrancadas a custo do coração. Era o
resultado do extremo esforço que fazia, para levar a efeito tão penível
resolução. O pai olhava para ela com assombro e consternação.
- Que estás a dizer, minha filha! - replicou-lhe ele - estás tão
pálida e alterada!.. parece-me que tens febre... sofres alguma coisa?
- Nada sofro, meu pai; não se inquiete pela minha saúde. O que
eu estou lhe dizendo é que é absolutamente necessário que meu pai vá
procurar esse moço e confessar-lhe tudo...
- Isso nunca!... estás louca, menina?... queres que eu te veja 
encerrada em uma cadeia, conduzida em ferros para a tua província, 
entregue a teu senhor, e por fim ver-te morrer entre tormentos nas garras
daquele monstro! oh! Isaura, por quem és, não me fales mais nisso,
Enquanto o sangue me girar nestas veias, enquanto me restar o mais
pequenino recurso, hei de lançar mão dele para te salvar...
- Salvar-me por meio de uma indignidade, de uma infâmia, meu
pai!... retorquiu a moça com exaltação. - Como posso eu, sem cometer a mais 
vil deslealdade, aparecer apresentada por ele como uma senhora livre em uma 
sala de baile?... Quando esse senhor e tantas outras ilustres pessoas souberem que 


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ombreou com elas, e a par delas dançou uma miserável escrava fugida...
- Cala-te, menina! - interrompeu o velho, incomodado com a
exaltação da filha. - Não fales assim tão alto... tranqüiliza-te; eles nunca saberão 
de nada. O mais breve que puder ser deixaremos esta terra; amanhã mesmo, 
se for possível. Embarcaremos em qualquer paquete, e iremos para bem longe, para 
os Estados Unidos, por exemplo. Lá, segundo me consta, poderemos ficar fora 
do alcance de qualquer perseguição. Eu com o meu trabalho, e tu com as tuas 
prendas e habilitações, podemos viver sem sofrer necessidades em qualquer canto 
do mundo.
- Ah! meu pai! essa idéia de irmos para tão longe, sem esperança
de um dia podermos voltar, me oprime o coração.
- Que remédio, minha filha!.., já agora, ainda que tenhamos de ir
parar ao fim do mundo, nos é forçoso fugir às garras do monstro.
- Mas esse moço, que tanto se interessa por nós, o senhor Álvaro, 
nobre e generoso como é, sabendo da minha verdadeira condição, e
das terríveis circunstâncias que nos obrigam a andar assim fugitivos e
disfarçados pelo mundo, talvez queira e possa nos amparar e valer contra 
as perseguições...
- E quem nos afiança isso?... o mais certo é ele entregar-te ao
desprezo, logo que saiba que não passas de uma escrava fugida, se,
despeitado com o logro que levou, não for o primeiro a denunciar-te à
polícia. No transe em que nos achamos, é de absoluta necessidade 
enganar a ele e a todos; se revelarmos a quem quer que seja o segredo de
nossa posição, estamos perdidos. Toma coragem, e vamos ao baile, 
minha filha; é um sacrifício cruel, mas passageiro, a que devemos nos
sujeitar a bem de nossa segurança. Em breve estaremos longe, e se
algum dia souberem quem tu eras, que nos importa? nunca mais nos
verão o rosto, nem ouvirão nossos nomes. Tens a consciência escrupulosa 
em demasia. Se ignoram quem tu és, a tua companhia em nada os
pode infamar. Com isso não fazes mal a ninguém; é uma medida de
salvação, que todos te perdoariam.
- Meu pai parece que tem razão; mas não sei por que, repugna-me 
absolutamente ao coração dar esse passo.
- Mas é preciso dá-lo, minha filha, se não queres para nós ambos
a desgraça e a morte. Se não formos a esse baile, e desaparecermos de
um dia para outro, como nos é forçoso, então as suspeitas que 
começamos a despertar tomarão muito maior vulto, e a policia pôr-se-á à
nossa pista, e nos perseguirá por toda parte. É um sacrifício na verdade,
mas não será ele muito mais suave do que as perseguições da polícia, a
prisão, as torturas e a morte, que é o que podes esperar em casa de teu
senhor?...
Isaura não respondeu; seu espírito agitava-se entre as mais 
pungentes e amargas reflexões.
As palavras de seu pai a tinham abismado em glacial e profundo
desalento. Aturdida por tantos golpes, sua alma debatia-se em um mar
de dúvidas e perplexidades, como frágil barca em meio de um oceano
irritado, sacudida aos boléus por vagalhões desencontrados.
O grito de sua consciência escrupulosa e delicada, a lisura e 
sinceridade de seu coração, que não podia acomodar-se com o embuste 
e a mentira, e uma espécie de vago pressentimento que lhe pesava sobre o


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espírito, a desviavam daquele baile, e por momentos pareciam fixar 
definitivamente a sua resolução; e firme neste propósito dizia consigo
mesma: - não, não irei.
Por outro lado as considerações de seu pai, que pareciam tão 
razoáveis, bem como o desejo de ver Álvaro ainda uma vez, de gozar 
por algumas horas a sua presença, faziam-lhe de novo flutuar o 
espírito no mar das irresoluções. A lembrança de que em breve, talvez no 
dia seguinte, tinha de deixar aquela terra e separar-se de Álvaro, 
sem esperança alguma de jamais tornar a vê-lo, sem poder dizer-lhe um 
adeus, sem que ele pudesse saber quem ela era, nem para onde ia, 
dilacerava-lhe o coração. Partir sem ter um ente a quem apertar nos braços 
na hora da despedida, nem ter um seio onde verter as lágrimas da 
mais pungente saudade; partir para levar uma vida errante e fugitiva, sem
esperança nem consolação alguma, através de mil trabalhos e perigos,
para terminá-la talvez entre os tormentos da mais atroz escravidão, oh!...
isto era pavoroso! - e, entretanto, era esse o único futuro que a pobre
Isaura tinha diante dos olhos. Mas não; tinha ainda diante de si uma
noite inteira de prazer e de ventura, uma noite esplêndida de baile e
regozijo de seu amante, respirando o mesmo ar, inebriando-se de sua
voz, bebendo o seu hálito, recolhendo dentro d'alma seus olhares 
apaixonados, sentindo na sua a pressão daquela mão adorada, contando as
pulsações daquele coração, que só por ela palpitava. Oh! uma noite
assim valia bem uma eternidade, viessem depois embora as angústias e
perigos, a escravidão e a morte!
Cândida e modesta como era, nem por isso Isaura deixava de ter
consciência do quanto valia. Vendo-se o objeto do amor de um jovem
de espírito elevado, e dotado de tão nobres e brilhantes qualidades
como Álvaro, ainda mais se confirmou na idéia que de si mesma fazia.
Com sua natural perspicácia e penetração, bem depressa convenceu-se 
de que o afeto que o mancebo lhe consagrava não era simples e
superficial homenagem rendida a seus encantos e talentos, nem tampouco 
passageiro capricho de mocidade, mas verdadeira paixão, sincera, 
enérgica e profunda. Era isso para ela motivo de um orgulho íntimo,
que a elevava a seus próprios olhos, e por momentos a fazia esquecer-se 
que era uma escrava.
- Estou convencida de que sou digna do amor de Álvaro, senão,
ele não me amaria; e se sou digna de seu amor, por que não o serei de
me apresentar no seio da mais brilhante sociedade? A perversidade dos
homens pode acaso destruir o que há de bom e de belo na feitura do
Criador? Assim refletia Isaura, e exaltada com estas idéias e com a sedutora 
perspectiva de algumas horas de inefável ventura em companhia
do amante exclamava dentro d'alma: - Hei de ir, hei de ir ao baile!
Enquanto Isaura, silenciosa e com a face na mão, se embebia em
suas cismas, procurando firmar-se em uma resolução, o pai, não menos
inquieto e preocupado, passeava distraído entre os canteiros do jardim,
aguardando com ansiedade uma resposta definitiva de sua filha.
- Irei, meu pai, irei ao baile, - disse ela por fim levantando-se,
mas vou preparar-me para ele como a vítima que tem de ser conduzida 
ao sacrifício entre cânticos e flores. Tenho um cruel pressentimento,
que me acabrunha...


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- Pressentimento de quê, Isaura?...
- Não sei, meu pai; de alguma desgraça.
- Pois quanto a mim, Isaura, o coração como que está-me adivinhando 
que de ir a esse baile resultará a nossa salvação.


Capitulo 13


Não pense o leitor que já se acha terminado o baile a que estávamos 
assistindo. A pequena digressão que por fora dele fizemos no
capitulo antecedente, nos pareceu necessária para explicar por que 
conjunto de circunstãncias fatais a nossa heroína, sendo uma escrava, foi
impelida a tomar a audaciosa resolução de apresentar-se em um 
esplêndido e aristocrático sarau, - fraqueza de coração, ou timidez de
caráter, que pode ser desculpada, mas não plenamente justificada em
uma pessoa de consciência tão delicada e de tão esclarecido 
entendimento.
O baile continua, mas já não tão animado e festivo como ao princípio. 
Os aplausos frenéticos, a admiração geral, de que Isaura se havia
tornado objeto da parte dos cavalheiros, tinham produzido um completo
resfriamento entre as mais belas e espirituosas damas da reunião. 
Arrufadas com seus cavalheiros prediletos, em razão das entusiásticas 
homenagens, que francamente iam render aos pés daquela que 
implicitamente estavam proclamando a rainha do salão, já nem ao menos 
queriam dançar, e em vez de tisos folgazões, e de uma conversação 
franca e jovial, só se ouviam pelos cantos entre diversos grupos 
expansões misteriosamente sussurradas, e cochichos segredados entre 
amarelas e sarcásticas risotas.
Propagava-se entre as moças como que um sussurro geral de 
descontentamento. Era como esses rumores surdos e profundos, que 
restrugem ao longe pelo espaço, precedendo uma grande tempestade.
Dir-se-ia que já estavam adivinhando que aquela mulher, que por 
seus encantos e dotes incomparáveis as estava suplantando a todas, 
não era mais do que - uma escrava. Muitas mesmo se foram retirando, 
nomeadamente aquelas que afagavam alguma esperança, ou se julgavam
com algum direito sobre o coração de Álvaro. Aniquiladas sob o peso
dos esmagadores triunfos de Isaura, não se achando com ânimo de
manterem-se por mais tempo na liça, tomaram o prudente partido de
irem esconder no misterioso recinto das alcovas o despeito e vergonha
de tão cruel e solene derrota.
Não diremos todavia que no meio de tantas e tão nobres damas,
distintas pelos encantos do espírito e do corpo, não houvesse muitas
que, com toda a isenção e sem a menor sombra de inveja, admirassem
a beleza de Isaura, e aplaudissem de coração e com sincero prazer os
seus triunfos, e foram essas que conseguiram ir dando alguma vida ao
sarau, que sem elas teria esmorecido inteiramente. Todavia não é 
menos certo que do belo sexo, sem distinção de classes, ao menos 
a metade é ludibrio dessas invejas, ciúmes e rivalidades mesquinhas.
Deixamos Isaura indo tomar parte em uma quadrilha, tendo Álvaro


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por seu par. Enquanto dançam, entremos em uma saleta, onde há mesas de 
jogo, e bufetes guarnecidos de licoreiras, de garrafas de cerveja e
champanha. Esta saleta comunica imediatamente com o salão onde se
dança, por uma larga porta aberta. Acham-se ai uma meia dúzia de
rapazes, pela maior parte estudantes, desses com pretensões a estróinas
e excêntricos à Byron, e que já enfastiados da sociedade, dos prazeres e das 
mulheres, costumam dizer que não trocariam uma fumaça de
charuto, ou um copo de champanha, pelo mais fagueiro sorriso da 
mais formosa donzela; desses descridos, que vivem a apregoar em 
prosa e verso que na aurora da vida já têm o coração mirrado pelo sopro 
do cepticismo, ou calcinado pelo fogo das paixões, ou enregelado 
pela saciedade; desses misantropos enfim, cheios de esplim, que se 
acham sempre no meio de todos os bailes e reuniões de toda espécie, 
alardeando o seu afastamento e desdém pelos prazeres da sociedade e 
frivolidades da vida.
Entre eles acha-se um, sobre o qual nos é mister deter por mais um
pouco a atenção, visto que tem de tomar parte um tanto ativa nos
acontecimentos desta história. Este nada tem de esplenético nem de
byroniano; pelo contrário o seu todo respira o mais chato e ignóbil prosaísmo. 
Mostra ser mais velho que os seus comparsas uma boa dezena
de anos. Tem cabeça grande, cara larga, e feições grosseiras. A testa é
desmesuradamente ampla, e estofada de enormes protuberâncias, o
que, na opinião de Lavater, é indicio de espírito lerdo e acanhado a
roçar pela estupidez. O todo da fisionomia tosca e quase grotesca revela
instintos ignóbeis, muito egoísmo e baixeza de caráter. O que, porém,
mais o caracteriza é certo espírito de cobiça, e de sórdida ganância, que
lhe transpira em todas as palavras, em todos os atos, e principalmente
no fundo de seus olhos pardos e pequeninos, onde reluz constantemente 
um raio de velhacaria. É estudante, mas pelo desalinho do trajo,
sem o menor esmero e nem sombra de elegância, parece mais um 
vendilhão. Estudava há quinze anos à sua própria custa, mantendo-se do
rendimento de uma taverna, de que era sócio capitalista. Chama-se Martinho.
- Rapaziada, - disse um dos mancebos, - vamos nós aqui a
uma partida de lansquenê, enquanto esses basbaques ali estão a 
arrastar os pés e a fazer mesuras.
- Justo! - exclamou outro, sentando-se a uma mesa e tomando
baralhos. - Já que não temos coisa melhor a fazer, vamos às cartas.
Demais, no baralho é que está a vida. A vista de uma sota me faz às
vezes estremecer o coração em emoções mais vivas do que as sentiria
Romeu a um olhar de Julieta... Afonso, Alberto, Martinho, andem
para cá; vamos ao lansquenê; duas ou três corridas somente...
- De boa vontade aceitaria o convite, - respondeu Martinho, -
se não andasse ocupado com um outro jogo, que de um momento para
outro, e sem nada arriscar, pode meter-me na algibeira não menos de
cinco contos de réis limpinhos.
- De que diabo de jogo estás aí a falar?... nunca deixarás de ser
maluco?... deixa-te de asneiras, e vamos ao lansquenê.
- Quem tem um jogo seguro como eu tenho, há de ir meter-se
nos azares do lansquenê, que já me tem engolido bem boas patacas?...
Nem tão tolo serei eu.


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- Com mil diabos, Martinho!... então não te explicarás?... que
maldito jogo é esse?...
- Ora, adivinhem lá... Não são capazes. uma bisca de estrondo.
Se adivinharem, dou-lhes uma ceia esplêndida no melhor hotel desta
cidade; bem entendido, se encartar a minha bisca.
- Dessa ceia estamos nós bem livres, pobre comedor de bacalhau
ardido, e porque não é possível haver quem adivinhe as asneiras que
passam lá por esses teus miolos extravagantes. O que queremos é o teu
dinheiro aqui sobre a mesa do lansquenê.
- Ora, deixem-me em paz, - disse Martinho, com os olhos atentamente 
dirigidas para o salão de dança. - Estou calculando o meu jogo... suponham que 
é o xadrez, e que eu vou dar xeque-mate à rainha... dito e feito, e os cinco contos 
são meus...
- Não há dúvida, o rapaz está doido varrido... Anda lá, Martinho;
descobre o teu jogo, ou vai-te embora, e não nos estejas a maçar a
paciência com tuas maluquices.
- Malucos são vocês. O meu jogo é este... mas quanto me dão
para descobri-lo? olhem que é coisa curiosa.
- Queres-nos atiçar a curiosidade para nos chuchar alguns cobres,
não é assim?... pois desta vez afianço-te da minha parte, que não 
arranjas nada. Vai-te aos diabos com o teu jogo, e deixa-nos cá com 
o nosso. As cartas, meus amigos, e deixemos o Martinho com suas 
maluquices.
- Com suas velhacarias, dirás tu... não me pilha.
- Ah! toleirões! - exclamou o Martinho, - vocês ainda estão
com os beiços com que mamaram. Andem cá, andem, e verão se é
maluquice, nem velhacaria. Enfim quero mostrar-lhes o meu jogo, 
porque desejo ver se a opinião de vocês estará ou não de acordo 
com a minha. Eis aqui a minha bisca. - concluiu Martinho mostrando um
papel, que sacou da algibeira; - não é nada mais que um anúncio de
escravo fugido.
- Ah! ah! ah! esta não é má!...
- Que disparate!... decididamente estás louco, meu Martinho.
- A que propósito vem agora anúncio de escravo fugido?...
- Foste acaso nomeado oficial de justiça ou capitão-do-mato?
Estas e outras frases escapavam aos mancebos de envolta, em um
coro de intermináveis gargalhadas, que competiam com a orquestra do baile.
- Não sei de que tanto se espantam, - replicou frescamente o
Martinho; - o que admira é que ainda não vissem este grande anúncio
em avulso, que veio do Rio de Janeiro, e foi distribuído por toda a
cidade com o jornal do Comércio.
- Porventura somos esbirros ou oficiais de justiça, para nos 
embaraçarmos com semelhantes anúncios?
- Mas olhem que o negócio é dos mais curiosos, e as alvíssaras
não são para se desprezarem.
- Pobre Martinho! quanto pode em teu espírito a ganância de
ouro, que faz-te andar à cata de escravos fugidos em uma sala de baile!
- pois é aqui que poderás encontrar semelhante gente?...
- Olé... quem sabe?!... tenho cá meus motivos para desconfiar
que por aqui mesmo hei de achá-la, assim como os cinco continhos


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que, aqui entre nós, vêm agora mesmo ao pintar, pois que o armazém
de meu sócio bem pouco tem rendido nestes últimos tempos.
Martinho chamava armazém à pequena taverna de que era sócio
Ditas aquelas palavras foi postar-se junto à porta que dava para o salão
e ali ficou por largo tempo a olhar, ora para os que dançavam, ora para
o anúncio, que tinha desdobrado na mão, como quem averigua e confronta os sinais.
- Que diabo faz ali o Martinho? - exclamou um dos mancebos
que entretidos com as mímicas do Martinho, tomando-as por palhaçadas, 
tinham-se esquecido de jogar.
- Está doido, não resta a menor dúvida. - observou outro. -
Procurar escravo fugido em uma sala de baile!... Ora não faltava mais
nada! Se andasse à cata de alguma princesa, decerto a iria procurar no
quilombos.

- Mas talvez seja algum pajem, ou alguma mucama, que por ai anda.
- Não me consta que haja nenhum pajem nem mucama ali dançando, 
e ele não tira os olhos dos que dançam.
- Deixá-lo; este rapaz, além de ser um vil traficante, sempre foi
um maníaco de primeira força.
- É ela! - disse o Martinho, deixando a porta, e voltando-se para
seus companheiros; - é ela; já não tenho a menor dúvida; é ela, e está
segura.
- Ela quem, Martinho?...
- Ora! pois quem mais há de ser?...
- A escrava fugida?!...
- A escrava fugida, sim, senhores!... e ela está ali dançando.
- Ah! ah! ah! ora, vamos ver mais esta, Martinho!... até onde
queres levar a tua farsa? deve ser galante o desfecho. Isto é impagável,
e vale mais que quantos bailes há no mundo. - Se todos eles tivessem
um episódio assim, eu não perdia nem um. - Assim clamavam os moços 
entre estrondosas gargalhadas.
- Vocês zombam? - olhem que a farsa cheira um pouco a tragédia.
- Melhor! Melhor! - vamos com isso, Martinho!
- Não acreditam?... pois escutem lá, e depois me dirão que tal é a farsa.
Dizendo isto, Martinho sentou-se em uma cadeira, e desdobrando o
anúncio, pôs-se em atitude de lê-lo. Os outros se agruparam curiosos
em torno dele.
- Escutem bem, - continuou Martinho. - Cinco contos! - eis o
título pomposo, que em eloqüentes e graúdos algarismos se acha no
frontispício desta obra imortal, que vale mais que a Ilíada de Camões...
- E que os Lusíadas de Homero, não é assim, Martinho? deixa-te
de preâmbulos asnáticos, e vamos ao anúncio.
- Eu já lhes satisfaço, - disse Martinho, e continuou lendo:
Fugiu da fazenda do Sr. Leôncio Gomes da Fonseca, no município 
de Campos, província do Rio de Janeiro, uma escrava por nome
Isáura, cujos sinais são os seguintes: Cor clara e tez delicada como de
qualquer branca; olhos pretos e grandes; cabelos da mesma cor, 
compridos e ligeiramente ondeados; boca pequena, rosada e bem feita; 
dentes alvos e bem dispostos; nariz saliente e bem talhado; cintura delgada,
talhe esbelto, e estatura regular; tem na face esquerda um pequeno


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sinal preto, e acima do seio direito um sinal de queimadura, mui 
semelhante a uma asa de borboleta. Traja-se com gosto e elegância, 
canta e toca piano com perfeição. Como teve excelente educação e tem uma
boa figura, pode passar em qualquer parte por uma senhora livre e de
boa sociedade. Fugiu em companhia de um português, por nome Miguel, 
que se diz seu pai. É natural que tenham mudado o nome. Quem a apreender, e 
levar ao dito seu senhor, além de se lhe satisfazerem todas as despesas, receberá 
a gratificação de 5:OOO$OOO.
- Deveras, Martinho? - exclamou um dos ouvintes, - está
nesse papel o que acabo de ouvir? acabas de nos traçar o retrato de
Vênus, e vens dizer-nos que é uma escrava fugida!...
- Se não querem acreditar ainda, leiam com seus próprios olhos:
aqui está o papel...
- Com efeito! acrescentou outro - uma escrava assim vale a
pena apreendê-la, mais pelo que vale em si, do que pelos cinco contos.
Se eu a pilho, nenhuma vontade teria de entregá-la ao seu senhor.
- Já não me admira que o Martinho a procure aqui; uma criatura
tão perfeita só se pode encontrar nos palácios dos príncipes.
- Ou no reino das fadas; e pelos sinais e indícios estou vendo que
não pode ser outra senão essa nova divindade que hoje apareceu...
- Sem mais nem menos; deu no vinte, atalhou Martinho, e cha-
mando-os para junto da porta: - Agora venham cá, - continuou, - e
reparem naquela bonita moça, que dança de par com Álvaro. Pobre
Álvaro como está cheio de si! se soubesse com quem dança, caía-lhe a
cara aos pés. Reparem bem, meus senhores, e vejam se não combinam
perfeitamente os sinais?...
- Perfeitamente! - acudiu um dos moços, - é extraordinário! lá
vejo o sinalzinho na face esquerda, e que lhe dá infinita graça. Se tiver
a tal asa de borboleta sobre o seio, não pode haver mais dúvida. O
céus! é possível que uma moça tão linda seja uma escrava!
- E que tenha a audácia de apresentar-se em um bailes destes?
- acrescentou outro. Ainda não posso capacitar-me.
- Pois cá para mim, - disse o Martinho - o negócio é liquido,
assim como os cinco contos, que me parece estarem já me cantando na
algibeira; e até logo, meus caros.
E dizendo isto dobrou cuidadosamente o anúncio, meteu-o na algi-
beira, e esfregando as mãos com cínico contentamento, tomou o 
chapéu, e retirou-se.
- Forte miserável... - disse um dos comparsas - que vil ganância 
de ouro a deste Martinho! estou vendo que é capaz de fazer prender
aquela moça aqui mesmo em pleno baile.
- Por cinco contos é capaz de todas as infâmias do mundo. Tão
vil criatura é um desdouro para a classe a que pertencemos; devemos
todos conspirar para expeli-lo da Academia. Cinco contos daria eu
para ser escravo daquela rara formosura.
- É assombroso! Quem diria, que debaixo daquela figura de anjo
estaria oculta uma escrava fugida!
- E também quem nos diz que no corpo da escrava não se acha
asilada uma alma de anjo?...



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Capitulo 14

Havia terminado a quadrilha. Álvaro ufano, e cheio de júbilo,
conduzia o seu formoso par através da multidão, através de uma viva
fuzilaria de olhares de inveja e de admiração, que se cruzavam em sua
passagem; a pretexto de oferecer-lhe algum refresco, a foi levando para
uma sala dos fundos, que se achava quase deserta. Até ali ainda ele
não havia feito a Elvira uma declaração de amor em termos positivos,
se bem que esse amor se estivesse revelando a cada instante, e cada
vez mais ardente e apaixonado, em seus olhos, em suas palavras, em
todos os seus movimentos e açóes. Alvaro julgava já ter adquirido 
completo conhecimento do coração de sua amada, e nos dois meses 
durante os quais a havia estudado, não havia descoberto nela senão novos
encantos e perfeições. Estava plenamente convencido que de todas as
formosuras que até ali tinha conhecido, Elvira era em tudo a mais digna
de seu amor, e já nem por sombras duvidava da pureza de sua alma,
da sinceridade do seu afeto. Pensava portanto que, sem receio algum
de comprometer o seu futuro, podia abandonar o coração ao império
daquela paixão, que já não podia dominar. Quanto à origem e 
procedência de Elvira, era coisa de que nem de leve se preocupava, e 
nunca se lembrou de indagar. A distinção de classes repugnava a seus 
princípios e sentimentos filantrópicos. Fosse ela uma princesa que o 
destino obrigava a andar foragida, ou tivesse o berço na palhoça de 
algum pobre pescador, isso lhe era indiferente. Conhecia-a em si mesma, 
sabia que era uma das criaturas mais perfeitas e adoráveis que se 
pode encontrar sobre a Terra, e era quanto lhe bastava.
Observava Alvaro em seus costumes, como já sabemos, a severidade 
de um quaker, e seria incapaz de abusar do amor que havia inspirado à formosa 
desconhecida, aninhando em seu espírito um pensamento de sedução.
Naquela noite pois o apaixonado mancebo, rendido e deslumbrado
mais que nunca pelos novos encantos e atrativos que Elvira alardeava
entre os esplendores do baile, não pôde e nem quis dilatar por mais
tempo a declaração, que a cada instante lhe ardia nos olhos, e esvoaçava 
pelos lábios, e apenas achou-se em lugar onde pudesse não ser
ouvido senão de Elvira:
- D. Elvira, - lhe disse com voz grave e comovida, - se a 
senhora é um anjo em sua casa, nos salões do baile é uma deusa. O 
meu coração há muito já lhe pertence; sinto que o meu destino de 
hoje em diante depende só da senhora. Funesta ou propícia, a senhora 
será sempre a minha estrela nos caminhos da vida. Creio que me conhece
bastante para acreditar na sinceridade de minhas palavras. Sou senhor
de uma fortuna considerável; tenho posição honrosa e respeitável na
sociedade; mas não poderia jamais ser feliz, se a senhora não consentir
em partilhar comigo esses bens, que a fortuna prodigalizou-me.
Estas palavras de Álvaro, tão meigas, tão repassadas do mais 
sincera e profundo amor, que em outras condições teriam caído como
bálsamo celeste sobre o coração de Isaura a banhá-lo em inefáveis eflúvios 
de ventura, eram agora para ela como um atroz e pungente 
sarcasmo do destino, um hino do céu ouvido entre as torturas do inferno.


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Via de um lado um anjo, que, tomando-a pela mão com um suave
sorriso, mostrava-lhe um éden de delícias, ao qual se esforçava por
conduzi-la, enquanto de outro lado a hedionda figura de um demônio
atava-lhe ao pé um pesado grilhão, e com todo o seu peso a arrastava
para um gólfão de eternos sofrimentos.
É que a pobre Isaura, cheia de sustos e desconfianças, durante
uma pausa tinha notado os movimentos do infame Martinho, quando
encostado ao umbral da saleta com um papel na mão, parecia 
examiná-la com a mais minuciosa atenção. Aquela vista produziu nela 
o efeito de um raio; não duvidou mais que estava descoberta, e 
irremissivelmente perdida para sempre. Súbita vertigem lhe escureceu os 
olhos, pareceu-lhe que o chão lhe faltava debaixo dos pés, e que ia sendo
tragada pelas fauces de um abismo imensurável. Para não cair foi-lhe
preciso agarrar-se fortemente com ambas as mãos ao braço de Álvaro.
arrimando-se em seu peito.
- Que tem, minha senhora? - perguntara-lhe este, assustado. -
Está incomodada?...
- Algum tanto, - respondeu Elvira com voz desfalecida e arquejante, 
e reanimando-se pouco a pouco. - Foi uma dor aguda... uma pontada deste 
lado... mas vai passando... não estou acostumada com este aperto... o remoinhar 
da dança me fez mal.
- Mas há de acostumar-se em pouco tempo - replicou-lhe Álvaro, 
segurando-lhe uma das mãos e sustendo-a com um braço pela cintura. - A 
senhora nasceu para brilhar nos salões... mas, se quer retirar-se...
- Não, senhor; continuemos; já agora estamos na final...
Com estas respostas evasivas Álvaro tranqüilizou-se, e em razão
dos movimentos rápidos da quadrilha na marca final, que imediatamente 
seguiu-se, não pôde notar a extrema palidez e profundo transtorno das feições de 
Elvira. A infeliz já não dançava, arrastava-se automaticamente pela sala; seu 
espírito não estava ali, não ouvia nem via outra coisa senão a figura repugnante 
do Martinho, postada como esfinge ameaçadora junto à porta da saleta, para 
a qual ela volvia de quando em quando olhos cheios de ansiedade e pavor. 
E o sangue todo lhe refluía ao coração, que lhe tremia como o da pomba que 
sente estendida sobre o colo a garra desapiedada do gavião.
Em tal estado de susto e perturbação, Isaura não atinava com o
que devia responder àquela tão sincera e apaixonada declaração do
mancebo. Guardou silêncio por alguns instantes, o que Álvaro interpretou 
por timidez ou emoção.
- Não me quer responder? - continuou com voz meiga, - uma
só palavra é bastante...
- Ah! senhor, - murmurou ela suspirando, o que posso eu 
responder às doces palavras que acabo de ouvir de sua boca? Elas me
encantam, mas...
Elvira interrompeu-se bruscamente; um súbito estremecimento agitando 
o braço de Álvaro o fez olhar para ela com sobressalto e inquietação.
- É ele!... - este som sussurrou-lhe pelos lábios como um gemido 
rouco e convulsivo; acabava de avistar Martinho, entrando na sala
em que se achavam, e sentiu mortal calafrio percorrer-lhe todo o como.
- Desculpe-me, senhor - continuou ela - não é possível por
hoje ouvir suas doces palavras; sinto-me mal; preciso retirar-me. Se o


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senhor tivesse a bondade de levar-me onde está meu pai...
- Por que não, D. Elvira?... mas oh!... como está pálida!... está
sofrendo muito, não é assim?... quer que eu a acompanhe?... que lhe
chame um médico?... aqui mesmo os há...
- Obrigada, senhor Álvaro; não se inquiete; isto é um mal passageiro, 
cansaço talvez; em chegando a casa ficarei boa.
- E quer então retirar-se sem me deixar uma só palavra de consolação e 
de esperança?...
- De consolação talvez, mas de esperança...
- Por que não?
- Se nem eu mesma posso tê-la...
- Então não me ama...
- Amo-o muito.
- Então será minha...
- Isso é impossível...
- Impossível!... que obstáculo pode haver?...
- Não sei dizer-lhe, senhor; minha desgraça.
Esta amorosa confidência no momento em que se achava no ponto
mais interessante, foi bruscamente interrompida pela presença de Martinho, 
que se lhes atravessou pela frente, fazendo uma profunda reverência. Álvaro indignado 
carregou o sobrolho, e esteve a ponto de enxotar o importuno, como quem enxota
um cão. Elvira estacou como que petrificada de pavor.
- Senhor Álvaro, disse-lhe respeitosamente o Martinho, - com a
permissão de V. Sa preciso dizer duas palavras a esta senhora, a quem
V. S.a dá o braço.
- A esta senhora! - exclamou maravilhado o cavalheiro. - Que
tem o senhor que ver com esta senhora?
- Negócio de suma importância; ela bem o sabe, melhor do que
eu e o senhor.
Álvaro, que bem conhecia o Martinho, e sabia quanto era abjeto e
desprezível, julgando ser aquilo manobra de algum rival invejoso, e covarde, 
que se servia daquele miserável para ultrajá-lo ou expô-lo ao ridículo, teve 
um assomo de indignação, mas contendo-se por um momento:
- Tem a senhora algum negócio com este homem? - perguntou
a Elvira.
- Eu?!... nenhum, por certo; nem mesmo o conheço, - balbuciou a 
moça, pálida e a tremer.
- Mas, meu Deus! D. Elvira, por que treme assim? como está
pálida!.., maldito importuno, que assim a faz sofrer!... oh! pelo céu, D.
Elvira, não se assuste assim. Aqui estou eu a seu lado, e ai daquele que
ousar ultrajar-nos!
- Ninguém quer ultrajá-los, senhor Álvaro - replicou o Martinho; 
mas o negócio é mais sério do que o senhor pensa.
- Enfim, senhor Martinho, deixe-se de rodeios e diga-nos aqui
mesmo o que quer com esta senhora.
- Posso dizê-lo; mas seria melhor que V. S.a o ignorasse.
- Oh! temos mistério!... pois nesse caso declaro-lhe que não
abandonarei esta senhora um só instante, e se o senhor não quer dizer
ao que veio, pode retirar-se.
- Nessa não caio eu, que não hei de perder o meu tempo, e o


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meu trabalho, e nem os meus cinco contos. - Estas últimas palavras
resmungou-as ele entre os dentes.
- Senhor Martinho, por favor queira não abusar mais da minha
paciência. Se não quer dizer ao que veio, ponha-se já longe da minha
presença...
- Oh! senhor! retorquiu Martinho, sem se perturbar; - já que
a isso me força, pouco me custa fazer-lhe a vontade, e com bastante
pesar tenho de declarar-lhe, que essa senhora a quem dá o braço, é
uma escrava fugida!...
Álvaro, se bem que conhecesse a vilania e impudência do caráter
de Martinho, no primeiro momento ficou pasmo ao ouvir aquela súbita
e imprevista delação. Não podia dar-lhe crédito, e refletindo um instante
confirmou-se mais na idéia de que tudo aquilo não passava de uma
farsa posta em jogo por algum indigno rival, com o fim de desgostá-lo
ou insultá-lo. A pessoa do Martinho, que não poucas vezes, na qualidade 
de truão ou palhaço, servia de instrumento às vinganças e paixões mesquinhas 
de entes tão ignóbeis como ele, servia para justificar a desconfiança de Álvaro, 
que acabou por não sentir senão asco e indignação por tão infame procedimento.
- Senhor Martinho, - bradou ele com voz severa, - se alguém
pagou-lhe para vir achincalhar-me a mim e a esta senhora, diga quanto
ganha, que estou pronto a dar-lhe o dobro para nos deixar em paz.
A esta sanguinolenta afronta, a larga e impudente cara do Martinho
nem de leve se alterou, e por única resposta:
- Torno a repetir, - bradou com todo o descaramento, - e em
voz bem alta, para que todos ouçam: esta senhora que aqui se acha, é
uma escrava fugida, e eu estou encarregado de apreendê-la e entregá-la
a seu senhor.
Entretanto Isaura, avistando seu pai, que também a procurava por
toda a parte com os olhos, largando o braço de Álvaro correu a ele,
lançou-se-lhe nos braços, e escondendo o rosto em seu ombro:
- Que opróbrio, meu pai! - exclamou com voz sumida e a soluçar.
 - Eu bem estava pressentindo!...
- Este homem, se não é um insolente, ou está louco ou bêbado,
- bradava Álvaro pálido de cólera. - Em todo o caso deve ser enxotado 
como indigno desta sociedade.
Já alguns amigos de Álvaro agarrando o Martinho pelo braço, se
dispunham a pó-lo pela porta a fora, como a um ébrio ou alienado.
Devagar, meus amigos, devagar!.., disse-lhes ele com toda a
calma. - Não me condenem sem primeiro ouvirem-me. Escutem 
primeiro este anúncio que lhes vou ler, e se não for verdade o que eu
digo, dou-lhes licença para me cuspirem na cara, e me atirarem 
da janela abaixo.
Entretanto, esta pequena altercação começava a atrair a atenção
geral, e numerosos grupos movidos de curiosidade se apinhavam em
torno dos contendores. A frase fatal - esta senhora é uma escrava! -
proferida em voz alta por Martinho, transmitida de grupo em grupo, de
ouvido em ouvido, já havia circulado com incrível celeridade por todas
as salas e recantos do espaçoso edifício. Um sussurro geral se propagara
por todo ele, e damas e cavalheiros, e tudo o que ali se achava, inclusive 
músicos, porteiros e fâmulos, atropelando-se uns aos outros, arrojavam-se 


[Linha 3300 de 5193 - Parte 3 de 4]


afanosos para a sala, onde se dava o singular incidente que estamos relatando. 
A sala estava literalmente apinhada de gente, que afiava o ouvido e alongava 
o pescoço o mais que podia para ver e ouvir o que se passava.
Foi no meio desta multidão silenciosa, imóvel, estupefata e anelante, 
que Martinho, sacando tranqüilamente da algibeira o anúncio, que nós já 
conhecemos, desdobrou-o ante seus olhos, e em voz bem alta e sonora o leu 
de principio a fim.
- Bem se vê, - continuou ele concluída a leitura, - que os sinais 
combinam perfeitamente, e só um cego não verá naquela senhora
a escrava do anúncio. Mas para tirar toda a dúvida, só resta examinar
se ela tem o tal sinal de queimadura acima do seio, e é coisa que desde
já se pode averiguar com licença da senhora.
Dizendo isto, Martinho com impudente desembaraço se 
encaminhava para Isaura.
- Alto lá, vil esbirro!... bradou Álvaro com força, e agarrando 
o Martinho pelo braço, o arrojou para longe de Isaura, e o teria lançado
em terra, se ele não fosse esbarrar de encontro ao grupo, que cada vez
mais se apertava em torno deles. - Alto lá! nem tanto desembaraço!
escrava, ou não, tu não lhe deitarás as mãos imundas.
Aniquilada de dor e de vergonha, Isaura erguendo enfim o rosto,
que até ali tivera sempre debruçado e escondido sobre o seio de seu
pai, voltou-se para os circunstantes, e ajuntando as mãos convulsas no
gesto da mais violenta agitação:
- Não é preciso que me toquem, - exclamou com voz angustiada.
 - Meus senhores, e senhoras, perdão! cometi uma infâmia, uma indignidade 
imperdoável!... mas Deus me é testemunha, que uma cruel fatalidade a isso me 
levou. Senhores, o que esse homem diz, é verdade. Eu sou... uma escrava!...
O rosto da cativa cobriu-se de lividez cadavérica, como lírio ceifado
pendeu-lhe a fronte sobre o seio, e o donoso corpo desabou como bela
estátua de mármore, que o furacão arranca do pedestal, e teria rojado
pela terra, se os braços de Álvaro e de Miguel não tivessem prontamente 
acudido para amparar-lhe a queda.
Uma escrava!... estas palavras, soluçadas no peito de Isaura como
o estertor do arranco extremo, murmuradas de boca em boca pela multidão 
estupefata, ecoaram largo tempo pelos vastos salões, como o rugir
sinistro das lufadas da noite pela grenha de fúnebre arvoredo.
Este estranho incidente produziu no sarau o mesmo efeito que faria
em um acampamento a explosão de um paiol de pólvora; nos primeiros
momentos, susto, pasmo e uma espécie de estertor de angústia; depois,
agitação, alarma, movimento e alarido.
Álvaro e Miguel conduziram Isaura desfalecida ao boudoir das
damas, e aí, ajudados por algumas senhoras compassivas, prestaram-lhe
os socorros que o caso reclamava, e não a abandonaram enquanto não
recobrou completamente os sentidos. Martinho, inquieto e ressabiado,
os seguia e espiava o mais de perto que lhe era possível, com receio de
que lhe roubassem a presa.
É impossível descrever a celeuma que se levantou, a agitação que
sublevou todos os espíritos, e as diversas e opostas impressões que 
produziu nos ânimos aquela inesperada revelação. Com que cara ficariam
tantas belezas de primeira ordem, tantas damas das mais distintas 


[Linha 3350 de 5193 - Parte 3 de 4]


jerarquias sociais, ao saberem que aquela que as havia suplantado a todas,
em formosura, donaire, talentos e graças do espírito, não era mais que
uma escrava! eu mesmo não sei dizer; os leitores que façam idéia. 
Entretanto em muitas delas o cruel desapontamento por que acabavam de
passar não deixava de ser mesclado de um certo contentamento íntimo,
mormente naquelas que se sentiam enfadadas pelas deferências e 
homenagens que certos cavalheiros, tomados de entusiasmo, haviam 
francamente rendido à gentil desconhecida. Estavam humilhadas, mas 
também vingadas. Quanto ás que tinham esperanças ou pretensões ao
amor de Alvaro, - e não eram poucas, - essas exultaram de júbilo ao
saberem do caso, e o nobre mancebo tornou-se o alvo de mil desapiedados 
apodos e pilhérias.
- O que me diz do escravo da escrava? - diziam elas - com
que cara não ficaria o pobre homem!...
- Com a mesma. Decerto vai forrá-la e casar-se com ela. Aquilo é
um maluco capaz de todas as asneiras.
- E que mau! Terá ao mesmo tempo mulher e talvez uma boa
cozinheira.
Triste consolação! o estigma do cativeiro não podia apagar da bela
fronte de Isaura, antes mais realçava o cunho de superioridade que o
sopro divino nela havia gravado em caracteres indeléveis.
Entre os mancebos a impressão era bem diferente. Poucos, bem
poucos, deixavam de tomar vivo interesse e compaixão pela sorte da
infeliz e formosa escrava. Por todos os cantos falava-se e discutia-se
com calor a respeito do caso. Alguns, a despeito da evidência dos indícios 
e da confissão de Isaura, ainda duvidavam da verdade que tinham diante 
dos olhos.
- Não; aquela mulher não pode ser uma escrava, - diziam eles,
- aqui há algum mistério, que algum dia se desvendará.
- Qual mistério? o caso é muito factível, e ela mesma o confessou. 
Mas quem será esse bruto e desalmado fazendeiro, que conserva
no cativeiro uma tão linda criatura?
- Deve ser algum lorpa de alma bem estúpida e sórdida.
- Se não for algum sultãozinho de bom gosto, que a quer para o
seu serralho.
- Seja como for, esse bruto deve ser constrangido a dar-lhe a
liberdade. Na senzala uma mulher que merecia sentar-se num trono!...
- Também só o infame do Martinho, com o seu satânico instinto
de cobiça, poderia farejar uma escrava na pessoa daquele anjo! que
impudência! se o visse agora aqui, era capaz de estrangulá-lo!
Entretanto, Martinho, que se havia previamente munido de um
mandado de apreensão, e se fazia acompanhar de um oficial de justiça,
exigia terminantemente que se lhe fizesse entrega de Isaura. Álvaro, porém, 
interpondo o valimento e prestígio de que gozava, opôs-se decididamente a 
essa exigência, e tomando por testemunhas as pessoas que ali se achavam, 
constituiu-se fiador da escrava, comprometendo-se a entregá-la a seu senhor, 
ou a quem por ordem dele a reclamasse. Em vão Martinho quis insistir; uma 
multidão de vozes, que o apupavam e cobriam de injúrias, forçaram-no a 
calar-se e desistir de sua pretensão.
- Ah! malditos! querem-me roubar! - bradava Martinho como


[Linha 3400 de 5193 - Parte 3 de 4]


um possesso. - Meus cinco contos! ai! meus cinco contos! lá se vão
pela água abaixo.
E dizendo isto procurou a escada, e saltando-a aos dois e três 
degraus, lá se foi bramindo pela porta a fora.


Capítulo 15


Já é passado cerca de um mês depois dos acontecimentos que
acabamos de narrar. Isaura e Miguel, graças à valiosa intervenção de
Álvaro, continuam a habitar a mesma pequena chácara no bairro de
Santo Antônio. Já não lhes sendo mais possível pensar em fugir para
mais longe nem ocultarem-se, ali se conservam por conselho de seu
protetor, esperando o resultado dos passos que este se comprometera a
dar em favor deles, porém sempre na mais angustiosa inquietação,
como Dâmocles tendo sobre a cabeça aguda espada suspensa por um fio.
Álvaro vai quase todos os dias à casa dos dois foragidos, e ali 
passa longas horas entretendo-os sobre os meios de conseguir a 
liberdade de sua protegida, e procurando confortá-los na esperança de 
melhor destino.
Para nos inteirarmos do que tem ocorrido desde a fatal noite do
baile, ouçamos a conversação que teve lugar em casa de Isaura, entre
Álvaro e o seu amigo Dr. Geraldo.
Este, na mesma manhã que seguiu-se á noite do baile, deixara o
Recife e partira para uma vila do interior, onde tinha sido chamado a
fim de encarregar-se de uma causa importante. De volta à capital no fim
de um mês, um de seus primeiros cuidados foi procurar Álvaro, não só
pelo impulso da amizade, como também estimulado pela curiosidade de
saber do desenlace que tivera a singular aventura do baile. Não o tendo
achado em casa por duas ou três vezes que aí o procurou, presumiu
que o meio mais provável de encontrá-lo seria procurá-lo em casa de
Isaura, caso ela ainda se achasse no Recife residindo na mesma chácara; 
não se iludiu.
Álvaro, tendo reconhecido a voz de seu amigo, que da porta do
jardim perguntava por ele, saiu ao seu encontro; mas antes disso, tendo
assegurado aos donos da casa que a pessoa que o procurava era um
amigo íntimo, em quem depositava toda confiança, pediu-lhes licença
para o fazer entrar.
Geraldo foi introduzido em uma pequena sala da frente. Posto que
pouco espaçosa e mobiliada com a maior simplicidade, era esta salinha
tão fresca, sombria e perfumada, tão cheia de flores desde a porta da
entrada, a qual bem como as janelas estava toda entrelaçada de ramos
e festões de flores, que mais parecia um caramanchão ou gruta de 
verdura, do que mesmo uma sala. Quase toda a luz lhe vinha pelos fundos
através de uma larga porta dando para uma varanda aberta, que olhava
para o mar. Dali a vista, enfiando-se por entre troncos de coqueiros,
que derramavam sombra e fresquidão em tomo da casa, deslizava pela
superfície do oceano, e ia embeber-se na profundidade de um céu límpido 
e cheio de fulgores.


[Linha 3450 de 5193 - Parte 3 de 4]


Miguel e Isaura depois de terem cumprimentado o visitante e trocado 
com ele algumas palavras de mera civilidade, presumindo que queriam estar sós, 
retiraram-se discretamente para o interior da casa.
- Na verdade, Álvaro, - disse o doutor sorrindo-se, - é uma
deliciosa morada esta, e não admira que gostes de passar aqui grande
parte do teu tempo. Parece mesmo a gruta misteriosa de uma fada. É
pena que um maldito nigromante quebrasse de repente o encanto de
tua fada, transformando-a em uma simples escrava!
- Ah! não gracejes, meu doutor; aquela cena extraordinária produziu 
em meu espírito a mais estranha e dolorosa impressão: porém, francamente te 
confesso, não mudou senão por instantes a natureza de meus sentimentos para 
com essa mulher.
- Que me dizes?... a tal ponto chegará a tua excentricidade?!..
- Que queres? a natureza assim me fez. Nos primeiros momentos
a vergonha e mesmo uma espécie de raiva me cegaram; vi quase com
prazer o transe cruel por que ela passou. Que triste e pungente decepção! 
Vi em um momento desmoronar-se e desfazer-se em lama o brilhante castelo 
que minha imaginação com tanto amor tinha erigido!... uma escrava iludir-me por 
tanto tempo, e por fim ludibriar-me, expondo-me em face da sociedade à 
mais humilhante irrisão! faze idéia de quanto eu ficaria confuso e corrido diante 
daquelas ilustres damas, com as quais tinha feito ombrear uma escrava em 
pleno baile, perante a mais distinta e brilhante sociedade!...
- E o que mais é, - acrescentou Geraldo, - uma escrava que
as ofuscava a todas por sua rara formosura e brilhantes talentos. Nem
de propósito poderias preparar-lhes mais tremenda humilhação, um
crime, que nunca te perdoarão, posto que saibam que também 
andavas iludido.
- Pois bem, Geraldo; eu, que naquela ocasião, desairado e confuso, 
não sabia onde esconder a cara, hoje rio e me aplaudo por ter
dado ocasião a semelhante aventura. Parece que Deus de propósito
tinha preparado aquela interessante cena, para mostrar de um modo
palpitante quanto é vã e ridícula toda a distinção que provém do 
nascimento e da riqueza, e para humilhar até o pó da terra o orgulho 
e fatuidade dos grandes, e exaltar e enobrecer os humildes de nascimento, 
mostrando que uma escrava pode valer mais que uma duquesa.
Pouco durou aquela primeira e desagradável impressão. Bem depressa
a compaixão, a curiosidade, o interesse, que inspira o infortúnio em
uma pessoa daquela ordem, e talvez também o amor, que nem com
aquele estrondoso escândalo pudera extinguir-se em meu coração, 
fizeram-me esquecer tudo, e resolvi-me a proteger francamente e a 
todo o transe a formosa cativa. Apenas consegui que Isaura recobrasse 
os sentidos, e a vi fora de perigo, corri à casa do chefe de polícia, 
e expondo-lhe o caso, graças às relações de amizade, que com ele tenho, 
obtive permissão para que Isaura e seu pai, - fica sabendo que é 
realmente seu pai, - pudessem recolher-se livremente à sua casa, ficando 
eu por garantia de que não desapareceriam; e assim se efetuou, a 
despeito dos bramidos do Martinho, que teimava em não querer largar 
a presa. Todavia, no dia seguinte pela manhã, o mesmo chefe, pesando a 
gravidade e importância do negócio, quis que ela fosse conduzida à 
sua presença para interrogá-la e verificar a identidade de pessoa. 


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Encarreguei-me de conduzi-la. Oh! se a visses então!... Através das 
lágrimas, que lhe arrancava sua cruel situação, transparecia, em todo o 
seu brilho, a dignidade humana. Nada havia nela que denunciasse a abjeção do
escravo, ou que não revelasse a candura e nobreza de sua alma. Era o
anjo da dor exilado do céu e arrastado perante os tribunais humanos.
Cheguei a duvidar ainda da cruel realidade. O chefe de polícia, 
possuído de respeito e admiração diante de tão gentil e nobre 
figura, tratou-a com toda a amabilidade, e interrogou-a com brandura e 
polidez. Coberta de rubor e pejo confessou tudo com a ingenuidade de uma
alma pura. Fugira em companhia de seu pai, para escapar ao amor de
um senhor devasso, libidinoso e cruel, que a poder de violências e 
tormentos tentava forçá-la a satisfazer seus brutais desejos. Mas Isaura, a
quem uma natureza privilegiada secundada pela mais fina e esmerada
educação, inspirara desde a infância o sentimento da dignidade e do
pudor, repeliu com energia heróica todas as seduções e ameaças de seu
indigno senhor. Enfim, ameaçada dos mais aviltantes e bárbaros tratamentos, 
que já começavam a traduzir-se em vias de fato, tomou o partido extremo de 
fugir, o único que lhe restava.
- O motivo da fuga, Álvaro, a ser verdadeiro, é o mais honroso
possível para ela, e a toma uma heroína; mas... enfim de contas ela não
deixa de ser uma escrava fugida.
- E por isso mesmo mais digna de interesse e compaixão. Isaura
tem-me contado toda a sua vida, e segundo creio, pode alegar, e talvez
provar direito à liberdade. Sua senhora velha, mãe do atual senhor, a
qual criou-a com todo o mimo, e a quem ela deve a excelente educação 
que tem, tinha declarado por vezes diante de testemunhas, que por
sua morte a deixaria livre; a morte súbita e inesperada desta senhora,
que faleceu sem testamento, é a causa de Isaura achar-se ainda entre as
garras do mais devasso e infame dos senhores.
- E agora, o que pretendes fazer?...
- Pretendo requerer que Isaura seja mantida em liberdade, e que
lhe seja nomeado um curador a fim de tratar do seu direito.
- E onde esperas encontrar provas ou documentos para provar as
alegações que fazes?
- Não sei, Geraldo; desejava consultar-te, e esperava-te com 
impaciência precisamente para esse fim. Quero que com a tua ciência 
jurídica me esclareças e inspires neste negócio. Já lancei mão do primeiro e
mais óbvio expediente que se me oferecia, e logo no dia seguinte ao do
baile escrevi ao senhor de Isaura com as palavras as mais comedidas e
suasivas, de que pude usar, convidando-o a abrir preço para a liberdade
dela. Foi pior; o libidinoso e ciumento Rajá enfureceu-se e mandou-me 
em resposta esta carta insolente, que acabo de receber, em que me
trata de sedutor e acoutador de escravas alheias, e protesta lançar mão
dos meios legais para que lhe seja entregue a escrava.
- É bem parvo e descortês o tal sultanete, - disse Geraldo 
depois de ter percorrido rapidamente a carta, que Álvaro lhe apresentou;
- mas o certo é que, pondo de parte a insolência...
- Pela qual há de me dar completa e solene satisfação, eu o protesto.
- Pondo de parte a insolência, se nada tens de valioso a apresentar 
em favor da liberdade da tua protegida, ele tem o incontestável direito de 


[Linha 3550 de 5193 - Parte 3 de 4]


reclamar e apreender a sua escrava onde quer que se ache.
- Infame e cruel direito é esse, meu caro Geraldo. É já um escárnio 
dar-se o nome de direito a uma instituição bárbara, contra a qual protestam 
altamente a civilização, a moral e a religião. Porém, tolerar a sociedade que 
um senhor tirano e brutal, levado por motivos infames e vergonhosos, tenha o 
direito de torturar uma frágil e inocente criatura, só porque teve a desdita de 
nascer escrava, é o requinte da celeradez e da abominação.
- Não é tanto assim, meu caro Álvaro; esses excessos e abusos
devem ser coibidos; mas como poderá a justiça ou o poder público
devassar o interior do lar doméstico, e ingerir-se no governo da casa do
cidadão? que abomináveis e hediondos mistérios, a que a escravidão dá
lugar, não se passam por esses engenhos e fazendas, sem que, já não
digo a justiça, mas nem mesmo os vizinhos, deles tenham conhecimento?... 
Enquanto houver escravidão, hão de se dar esses exemplos. Uma
instituição má produz uma infinidade de abusos, que só poderão ser
extintos cortando-se o mal pela raiz.
- É desgraçadamente assim; mas se a sociedade abandona 
desumanamente essas vítimas ao furor de seus algozes, ainda há no mundo
almas generosas que se incumbem de protegê-las ou vingá-las. Quanto
a mim protesto, Geraldo, enquanto no meu peito pulsar um coração,
hei de disputar Isaura à escravidão com todas as minhas forças, e espero que 
Deus me favorecerá em tão justa e santa causa.
- Pelo que vejo, meu Álvaro, não procedes assim só por espírito
de filantropia, e ainda amas muito a essa escrava.
- Tu o disseste, Geraldo; amo-a muito, e hei de amá-la sempre e
nem disso faço mistério algum. E será coisa estranha ou vergonhosa
amar-se uma escrava? O patriarca Abraão amou sua escrava Agar, e
por ela abandonou Sara, sua mulher. A humildade de sua condição
não pode despojar Isaura da cândida e brilhante auréola de que a via e
até hoje a vejo circundada. A beleza e a inocência são astros que mais
refulgem quando engolfados na profunda escuridão do infortúnio.
- É bela a tua filosofia, e digna de teu nobre coração; mas que
queres? as leis civis, as convenções sociais, são obras do homem, imperfeitas, 
injustas, e muitas vezes cruéis. O anjo padece e geme sob o jugo
da escravidão, e o demônio exalça-se ao fastígio da fortuna e do poder.
- E assim pois, - refletiu Álvaro com desânimo, - nessas desastradas 
leis nenhum meio encontras de disputar ao algoz essa inocente vítima?
- Nenhum, Álvaro, enquanto nenhuma prova puderes aduzir em
prol do direito de tua protegida. A lei no escravo só vê a propriedade, e
quase que prescinde nele inteiramente da natureza humana. O senhor
tem direito absoluto de propriedade sobre o escravo, e só pode perdê-lo
manumitindo-o ou alheando-o por qualquer maneira, ou por litígio 
provando-se liberdade, mas não por sevícias que cometa ou outro qualquer
motivo análogo.
- Miserável e estúpida papelada que são essas vossas leis. Para
ilaquear a boa-fé, proteger a fraude, iludir a ignorância, defraudar o
pobre e favorecer a usura e rapacidade dos ricos, são elas fecundas em
recursos e estratagemas de toda a espécie. Mas quando se tem em vista
um fim humanitário, quando se trata de proteger a inocência desvalida
contra a prepotência, de amparar o infortúnio contra uma injusta 


[Linha 3600 de 5193 - Parte 3 de 4]


perseguição, então ou são mudas, ou são cruéis. Mas não obstante elas, hei
de empregar todos os esforços ao meu alcance para libertar a infeliz do
afrontoso jugo que a oprime. Para tal empresa alenta-me não já 
somente um impulso de generosidade, como também o mais puro e ardente 
amor, sem pejo o confesso.
O amigo de Álvaro arrepiou-se com esta deliberação tão franca e
entusiasticamente proclamada com essa linguagem tão exaltada, que lhe
pareceu um deplorável desvario da imaginação.
- Nunca pensei, replicou com gravidade, - que a tal ponto chegasse 
a exaltação desse teu excêntrico e malfadado amor. Que por um
impulso de humanidade procures proteger uma escrava desvalida, nada
mais digno e mais natural. O mais não passa de delírio de uma imaginação 
exaltada e romanesca. Será airoso e digno da posição que ocupas na 
sociedade, deixares-te dominar de uma paixão violenta por uma escrava?
- Escrava! - exclamou Álvaro cada vez mais exaltado, - isso
não passa de um nome vão, que nada exprime, ou exprime uma 
mentira. Pureza de anjo, formosura de fada, eis a realidade! Pode um 
homem ou a sociedade inteira contrariar as vistas do Criador, e 
transformar em uma vil escrava o anjo que sobre a Terra caiu das mãos 
de Deus?...
- Mas por uma triste fatalidade o anjo caiu do céu no lodaçal da
escravidão, e ninguém aos olhos do mundo o poderá purificar dessa
nódoa, que lhe mancha as asas. Álvaro, a vida social está toda juncada
de forcas caudinas, por debaixo das quais nos é forçoso curvar-nos,
sob pena de abalroarmos a fronte em algum obstáculo, que nos faça
cair. Quem não respeita as conveniências e até os preconceitos sociais,
arrisca-se a cair no descrédito ou no ridículo.
- A escravidão em si mesma já é uma indignidade, uma úlcera
hedionda na face da nação, que a tolera e protege. Por minha parte,
nenhum motivo enxergo para levar a esse ponto o respeito por um
preconceito absurdo, resultante de um abuso que nos desonra aos olhos
do mundo civilizado. Seja eu embora o primeiro a dar esse nobre
exemplo, que talvez será imitado. Sirva ele ao menos de um protesto
enérgico e solene contra uma bárbara e vergonhosa instituição.
- És rico, Álvaro, e a riqueza te dá bastante independência para
poderes satisfazer os teus sonhos filantrópicos e os caprichos de tua
imaginação romanesca. Mas tua riqueza, por maior que seja, nunca 
poderia reformar os prejuízos do mundo, nem fazer com que essa 
escrava, a quem segundo todas as aparências quererias ligar o teu 
destino, fosse considerada, e nem mesmo admitida nos círculos da alta 
sociedade...
- E que me importam os círculos da alta sociedade, uma vez que
sejamos bem acolhidos no meio das pessoas de bom senso, e coração
bem formado? Demais, enganas-te completamente, meu Geraldo. O
mundo corteja sempre o dinheiro, onde quer que ele se ache. O ouro
tem um brilho que deslumbra, e apaga completamente essas pretendidas 
nódoas de nascimento. Não nos faltarão, nunca, eu te afianço, o
respeito, nem a consideração social, enquanto nos não faltar o 
dinheiro.
- Mas, Álvaro, esqueces-te de uma coisa muito essencial; e se te


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não for possível obter a liberdade de tua protegida?...
A esta pergunta Álvaro empalideceu, e oprimido pela idéia de tão
cruel como possível alternativa, sem responder - palavra olhava tristemente 
para o horizonte, quando o boleeiro de Álvaro, que se achava postado com sua 
caleça junto à porta do jardim, veio anunciar-lhe que algumas pessoas o 
procuravam e desejavam falar-lhe, ou ao dono da casa.
- A mim! - resmungou Álvaro; porventura estou eu em minha
casa?... mas como também procuram o dono desta... faça-os entrar.
- Álvaro, disse Geraldo espreitando por uma janela, - se me não
engano, é gente da polícia; parece-me que lá vejo um oficial de justiça.
Teremos outra cena igual à do baile?...
- Impossível!.., com que direito virão tocar-me no depósito 
sagrado, que a mesma polícia me confiou!...
- Não te fies nisso. A justiça é uma deusa muito volúvel e fértil
em patranhas. Hoje desmanchará o que fez ontem.


Capítulo 16


O primeiro cuidado de Martinho logo ao sair do baile, em que viu
malograda a sua tentativa de apreender Isaura, foi escrever ao senhor
dela uma longa e minuciosa carta, comunicando-lhe que tinha tido a
fortuna de descobrir a escrava que tanto procurava.
Contava por miúdo as diligências que fizera para esse fim, até 
descobri-la em um baile público e encarecia o seu próprio mérito e 
perspicácia para esbirro, dizendo que a não ser ele, ninguém seria capaz de
farejar uma escrava na pessoa de uma moça tão bonita e tão prendada.
Alterando os fatos e as circunstâncias do modo o mais atroz e calunioso,
dizia-lhe em frases de taverneiro, que Miguel se estabelecera no Recife
com Isaura a fim de especular com a formosura da filha, a qual, a poder
de armar laços à rapaziada vadia e opulenta, tinha por fim conseguido
apanhar um patinho bem gordo e fácil de depenar. Era este um 
pernambucano por nome Álvaro, moço duas vezes milionário, e mil 
vezes desmiolado, que tinha por ela uma paixão louca. Este moço, a 
quem ela trazia iludido e engodado ao ponto de ele querer desposá-la, 
caiu na tolice de levá-la a um baile, onde ele Martinho teve a fortuna 
de descobri-la, e a teria apreendido, e estaria ela já de marcha para o 
poder de seu senhor, se não fosse a oposição do tal senhor Álvaro, que 
apesar de ficar sabendo de que ralé era a sua heroína, teve a pouca-vergonha 
de protegê-la escandalosamente. Prevalecendo-se das valiosas relações, e
da influência de que gozava no país em razão de sua riqueza, conseguiu
impedir a sua apreensão, e tornando-se fiador dela a conservava em
seu poder contra toda a razão e justiça, protestando não entregá-la 
senão ao seu próprio senhor. Julga que a intenção de Álvaro é tentar
meios de libertá-la, a fim de fazê-la sua mulher ou sua amásia. Julgava
de seu dever comunicar-lhe tudo isso para seu governo.
Era este em suma o conteúdo da carta de Martinho, a qual seguiu
para o Rio de Janeiro no mesmo paquete que levava a carta de Álvaro,
fazendo proposições para a liberdade de Isaura. Leôncio, contente com


[Linha 3700 de 5193 - Parte 3 de 4]


a descoberta, mas cheio de ciúme e inquietação em vista das informações 
de Martinho, apressou-se em responder a ambos, e o mesmo paquete que 
trouxe a resposta insolente e insultuosa que dirigiu a Álvaro, foi portador 
da que se destinava a Martinho, na qual o autorizava a apreender a escrava 
em qualquer parte que a encontrasse, e para maior segurança remetia-lhe 
também procuração especial para esse fim, e mais algumas cartas de 
recomendação de pessoas importantes para o chefe de policia, para que o 
auxiliasse naquela diligência.
Martinho mais que depressa dirigiu-se à casa da polícia, e apresentando 
ao chefe todos esses papéis, requereu-lhe que mandasse entregar-lhe a escrava. 
O chefe em vista dos documentos de que Martinho se achava munido, entendeu 
que não lhe era possível denegar-lhe o que pedia, e expediu ordem por escrito, 
para que lhe fosse entregue a escrava em questão. e deu-lhe um oficial de justiça 
e dois guardas para efetuarem a diligência.
Foi, portanto, o Martinho, que, munido de todos os poderes, 
competentemente autorizado pela polícia, apresentou-se com sua escolta à
porta da casa de Isaura, para arrebatar a Alvaro a cobiçada presa.
- Ainda este infame! - murmurou Álvaro entre os dentes ao ver
entrar o Martinho. - Era um rugido de cólera impotente, que o angustiado 
mancebo arrancara do íntimo da alma.
- Que deseja de mim o senhor? - perguntou Álvaro em tom
seco e altivo.
- V. S.ª que bem me conhece, - respondeu Martinho, - já
pode presumir pouco mais ou menos o motivo que aqui me traz.
- Nem por sombras posso adivinhá-lo, antes me causa estranheza
esse aparato policial, de que vem acompanhado.
- Sua estranheza cessará, sabendo que venho reclamar uma escrava 
fugida, por nome Isaura, que há muito tempo foi por mim apreendida no meio 
de um baile, no qual se achava V. S.ª e devendo eu enviá-la a seu senhor no 
Rio de Janeiro, V. S.ª a isso se opôs sem motivo algum justificável, conservando-a 
até hoje em seu poder contra todo o direito.
- Alto lá, senhor Martinho! penso que não é pessoa competente
para dar ou tirar direito a quem lhe parecer. O senhor bem sabe que eu
sou depositário dessa escrava, e que com todo o direito e consentimento 
da autoridade a tenho debaixo de minha proteção.
- Esse direito, se é que se pode chamar direito a uma arbitrariedade, 
cessou, desde que V. S.ª nada tem alegado em favor da mesma escrava. 
E demais, - continuou apresentando um papel, - aqui está ordem expressa e 
terminante do chefe de polícia, mandando que me seja entregue a dita escrava. 
A isto nada se pode opor legalmente.
- Pelo que vejo, senhor Martinho, - disse Álvaro depois de
examinar rapidamente o papel que Martinho lhe entregara, - ainda
não desistiu de seu indigno procedimento, tornando-se por um pouco
de dinheiro o vil instrumento do algoz de uma infeliz mulher? Reflita, e
verá que essa infame ação só pode inspirar asco e horror a todo o
mundo.
Martinho achando-se acostado pela policia, julgou-se com direito de
mostrar-se áspero e arrogante, e, portanto, com imperturbável sangue-frio:
- Senhor Álvaro, - respondeu, - eu vim a esta casa somente
com o fim de exigir em nome da autoridade a entrega de uma escrava


[Linha 3750 de 5193 - Parte 3 de 4]


fugida, que aqui se acha acoutada, e não para ouvir repreensões, que o
senhor não tem direito de dar-me. Trate de fazer o que a lei ordena e a
prudência aconselha, se não quer que use de meu direito...
- Qual direito?!...
- De varejar esta casa e levar à força a escrava.
- Retira-te, miserável esbirro! - bradou Álvaro com força, não
podendo mais sopear a cólera. - Desaparece de minha presença, se
não queres pagar caro o teu atrevimento!...
- Senhor Álvaro!... veja o que faz!
O Dr. Geraldo, não achando muita razão em seu amigo, por prudência 
até ali se tinha conservado silencioso, mas vendo que a cólera e imprudência 
de Alvaro ia excedendo os limites, julgou de seu dever intervir na questão, e 
aproximando-se de Alvaro, e puxando-lhe o braço:
- Que fazes, Álvaro? - disse-lhe em voz baixa. - Não vês que
com esses arrebatamentos não consegues senão comprometer-te, e
agravar a sorte de Isaura? mais prudência, meu amigo.
- Mas... que devo eu fazer?... não me dirás?
- Entregá-la.
- Isso nunca!... - replicou Álvaro terminantemente.
Conservaram-se todos silenciosos por alguns momentos. Álvaro 
parecia refletir.
- Ocorre-me um expediente, - disse ele ao ouvido de Geraldo,
- vou tentá-lo.
E sem esperar resposta aproximou-se de Martinho.
- Senhor Martinho, - disse-lhe ele, - desejo dizer-lhe duas palavras 
em particular, com permissão aqui do doutor.
- Estou às suas ordens, - replicou Martinho.
- Estou persuadido, senhor Martinho, - disse-lhe Alvaro em voz
baixa, tomando-o de parte, - que a gratificação de cinco contos é o
motivo principal que o leva a proceder desta maneira contra uma infeliz
mulher, que nunca o ofendeu. Está em seu direito, eu reconheço, e a
soma não é para desprezar. Mas se quiser desistir completamente desse
negócio, e deixar em paz essa escrava, dou-lhe o dobro dessa quantia.
- O dobro!... dez contos de réis! exclamou Martinho arregalando
os olhos.
- Justamente; dez contos de réis de hoje mesmo.
- Mas, senhor Alvaro, já empenhei minha palavra para com o
senhor da escrava, dei passos para esse fim, e...
- Que importa!... diga que ela evadiu-se de novo, ou dê outra
qualquer desculpa...
- Como, se é tão público que ela se acha em poder de V. S.ª ?...
- Ora!... isso é sua vontade, senhor Martinho; pois um homem
vivo e atilado como o senhor embaraça-se com tão pouca coisa!...
- Vá, feito - disse Martinho depois de refletir um instante. - Já
que Sa. tanto se interessa por essa escrava, não quero mais 
afligi-lo
com semelhante negócio, que a dizer-lhe a verdade bem me 
repugna.
Aceito a proposta.
- Obrigado; é um importante serviço que vai me prestar.


[Linha 3800 de 5193 - Parte 3 de 4]


- Mas que volta darei eu ao negócio para sair-me bem dele?
- Veja lá; sua imaginação é fácil em recursos, e há de inspirar-lhe
algum meio de safar-se de dificuldades com a maior limpeza.
Martinho ficou por alguns momentos a roer as unhas, pensativo e
com os olhos pregados no chão. Por fim levantando a cabeça e levando
à testa o dedo índice:
- Atinei! exclamou. - Dizer que a escrava desapareceu de novo,
não é conveniente, e iria comprometer a V. S.ª que se responsabilizou
por ela. Direi somente que, bem averiguado o caso, reconheci que a
moça, que Sa. tem em seu poder, não é a escrava em questão, e
está tudo acabado.
- Essa não é mal achada... mas foi um negócio tão público...
- Que importa!... não se lembra V. S.ª de um sinal em forma de
queimadura em cima do seio esquerdo, que vem consignado no anúncio? 
direi, que não se achou semelhante sinal, que é muito característico, e está 
destruída a identidade de pessoa. Acrescentarei mais que a moça, por quem 
V. S.ª se interessa, vista de noite é uma coisa, e de dia é outra; que em nada 
se parece com a linda escrava que se acha descrita no anúncio, e que em vez 
de ter vinte anos mostra ter seus trinta e muitos para quarenta, e que toda 
aquela mocidade e formosura era efeito dos arrebiques, e da luz vacilante dos 
lustres e candelabros.
- O senhor é bem engenhoso. - observou Alvaro sorrindo-se; -
mas os que a viram nenhum crédito darão a tudo isso. Resta, porém,
ainda uma dificuldade, senhor Martinho; é a confissão que ela fez em
público!... isto há de ser custoso de embaraçar-se.
- Qual custoso!... alega-se que ela é sujeita a acessos de histerismo, 
e é sujeita a alucinações.
- Bravo, senhor Martinho; confio absolutamente em sua perícia e
habilidade. E depois?
- E depois comunico tudo isso ao chefe de policia, declaro-lhe
que nada mais tenho com esse negócio, passo a procuração a qualquer
meirinho, ou capitão-do-mato, que se queira encarregar dessa diligência,
e em ato contínuo escrevo ao senhor da escrava comunicando-lhe o
meu engano, com o que ele por certo desistirá de procurá-la mais por
aqui, e levará a outras partes as suas pesquisas. Que tal acha o meu
plano?...
- Admirável, e cumpre não perdermos tempo, senhor Martinho.
- Vou já neste andar, e em menos de duas horas estou aqui de
volta, a dar parte do desempenho de minha comissão.
- Aqui não, que não poderei demorar-me muito. Espero-o em
minha casa, e lá receberá a soma convencionada.
- Podem-se retirar, - disse Martinho ao oficial de justiça e aos
guardas, que se achavam postados do lado de fora da porta. - Sua
presença não é mais necessária aqui. Não há dúvida! - continuou ele
consigo mesmo: - isto vai a dobrar como no lansquenê. Esta escrava é
uma mina, que me parece não estar ainda esgotada.
E retirou-se, esfregando as mãos de contentamento.
- Então, que arranjo fizeste com o homem, meu Álvaro? - perguntou 
Geraldo, apenas Martinho voltou as costas.
- Excelente, - respondeu Álvaro; - a minha lembrança surtiu o


[Linha 3850 de 5193 - Parte 3 de 4]


desejado efeito, e ainda mais do que eu esperava.
Álvaro em poucas palavras deu conta ao seu amigo do mercado
que fizera com o Martinho.
- Que caráter desprezível e abjeto o deste Martinho! - exclamou
Geraldo. - De um tal instrumento não se pode esperar obra que preste. E 
julgas ter conseguido muita coisa, Álvaro, com o passo que acabas de dar?...
- Não muito, porém alguma coisa sempre posso conseguir. Pelo
menos consigo deter o golpe por algum tempo, e como diz lá o rifão
popular, meu Geraldo, enquanto o pau vai e vem, folgam as costas.
Enquanto Leôncio, persuadido que a sua escrava não se acha aqui no
Recife, a procura por todo esse mundo, ela fica aqui tranqüilamente à
minha sombra, livre das perseguições e dos maus-tratos de um bárbaro
senhor; e eu terei tempo para ativar os meios de arranjar provas e 
documentos que justifiquem o seu direito à liberdade. É quanto me 
basta por agora; quanto ao resto, já que pareces julgar a minha causa 
irremissivelmente perdida, a justiça divina me inspirará o modo por 
que devo proceder.
- Como te enganas, meu pobre Álvaro!... cuidas que arredando o
Martinho ficas por enquanto livre de perseguições e pesquisas contra a
tua protegida? que cegueira!... não faltarão malsins igualmente esganados 
por dinheiro, que pelos cinco contos de réis, que para estes miseráveis é uma 
soma fabulosa, se ponham à cata de tão preciosa presa. Agora principalmente, 
que o Martinho deu o alarma, e que esse negócio tem atingido a um certo grau 
de celebridade, em vez de um, aparecerão cem Martinhos no encalço da bela 
fugitiva,  e não terão mais que fazer senão seguir a trilha batida pelo primeiro.
- És muito meticuloso, Geraldo, e encaras as coisas sempre pelo
lado pior. É bem provável que peguem as patranhas inventadas pelo
Martinho, e que ninguém mais se lembre de descobrir a cativa Isaura
nessa moça, por quem me interesso, e embora mil malsins a procurem
por todos os cantos do mundo, pouco me importará. Sempre obtenho
uma dilação, que poderá me ser muito vantajosa.
- Pois bem, Álvaro; vamos que assim aconteça; mas tu não vês
que semelhante procedimento não é digno de ti?... que assim incorres
realmente nos epítetos afrontosos, com que obsequiou-te o tal Leôncio,
e que te tomas verdadeiramente um sedutor e acoutador de escravos
alheios?...
- Desculpa-me, meu caro Geraldo; não posso aceitar a tua reprimenda. 
Ela só pode ter aplicação aos casos vulgares, e não às circunstâncias 
especialíssimas em que eu e Isaura nos achamos colocados. Eu
não dou couto, nem capeio a uma escrava: protejo um anjo, e amparo
uma vítima inocente contra a sanha de um algoz. Os motivos que me
impelem, e as qualidades da pessoa por quem dou estes passos, nobilitam o 
meu procedimento, e são bastantes para justificar-me aos olhos de minha 
consciência.
 - Pois bem, Alvaro; faze o que quiseres; não sei que mais possa 
dizer-te para demover-te de um procedimento, que julgo não 
só imprudente, como, a falar-te com sinceridade, ridículo, e 
indigno da tua pessoa.

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A Escrava Isaura - Parte 1 de 4 - Bernardo Guimarães
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A Escrava Isaura - Parte 2 de 4 - Bernardo Guimarães
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A Escrava Isaura - Parte 3 de 4 - Bernardo Guimarães
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A Escrava Isaura - Parte 4 de 4 - Bernardo Guimarães
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