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quinta-feira, 21 de julho de 2022

'Síndrome do cadáver ambulante' - Estranha doença faz pessoas acharem que estão mortas

'Síndrome do cadáver ambulante' - Estranha doença faz pessoas acharem que estão mortas

Condição leva pacientes a terem a ilusão que não estão mais vivos ou que seus órgãos apodreceram.

quarta-feira, 7 de agosto de 2019

Cientistas conseguem desenvolver ser híbrido entre humano e macaco

Cientistas conseguem desenvolver ser híbrido entre humano e macaco


Pela primeira vez, cientistas conseguiram criar um híbrido entre humano e macaco. 

quinta-feira, 23 de abril de 2015

Conheça cinco partes do corpo que não servem para nada


Conheça cinco partes do corpo que não servem para nada


O corpo humano é um sistema complexo, com partes como membros, órgãos, tecidos, etc. que interagem de modo a nos permitir não apenas existir, mas também funcionar e se relacionar com o mundo. E elas são todas fundamentais, já que, se alguma falhar, todo o corpo é afetado.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

A Vida Sob Pressão - Fisiologia


A VIDA SOB PRESSÃO - Fisiologia



Mais do que a falta de ar, a pressão das águas é o grande obstáculo à permanência do homem no fundo do mar, seja a 10 ou 300 metros, obrigando seu organismo a radicais adaptações ao novo meio.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Salve o Coração

SALVE O CORAÇÃO



Levou milênios para ser o que é, funciona com a força de uma bomba e o ritmo de uma metralhadora, dá a impressão de fabricar todas as emoções pode trabalhar sem descanso durante mais de um século,mas tem Poderosos inimigos externos.

Desde que o mundo é mundo, o coração é considerado a sede dos sentimentos - e assim conquistou um lugar de honra na linguagem e na literatura produzida há milhares de anos. Só no Antigo Testamento, por exemplo? o coração é mencionado nada menos que oitocentas e cinqüenta vezes. Nas últimas décadas, porem, o mito começou a perder a aura. Os sucessivos avanços da ciência passaram a desvendar, um a um, os segredos desse órgão tido como o mais nobre, senão o mais importante, do corpo humano. O primeiro transplante cardíaco, realizado em 1967, causou tanta sensação quanto a chegada do homem à Lua, dois anos depois. Hoje, sequer se fala nisso, tão rotineiras e variadas se tornaram as possibilidades de tratamento em cardiologia.
O que sempre foi reverenciado como matriz das emoções é descrito com frieza clínica apenas como um músculo oco, do tamanho aproximado de um punho, que pesa entre 280 e 340 gramas nos homens e de 230 e 280 gramas nas mulheres. Sabe-se também que o coração é uma máquina tremendamente eficiente, dividida em duas partes que trabalham em sincronia, contraindo-se e relaxando-se a cada batida, para bombear cerca de cinco litros de-sangue oxigenado, cheio de vida, ao organismo. Essa operação se repete umas 80 vezes por minuto. Assim, o coração pulsa 4 800 vezes por hora, 113 mil vezes por dia e 41 milhões de vezes por ano. Mas nem sempre ele foi como é.
A rigor, pode-se dizer que o coração apareceu e evoluiu em conseqüência da sofisticação da vida no planeta. À medida que os seres vivos foram desenvolvendo mais órgãos e funções, maior se tornou a necessidade de um sistema que levasse substâncias nutritivas para todo o seu corpo. Nos seres mais primitivos - unicelulares, como as amebas, por exemplo. e alguns pluricelulares, como os corais - não há indicio desse sistema circulatório. Os alimentos são absorvidos diretamente do meio ambiente e dissolvidos no corpo. No caso dos pluricelulares, a absorção é feita por uma cavidade digestiva, que passa o alimento às células próximas. Depois. uma série de contrações faz com que as células troquem seus líquidos internos entre si. transportando. dessa maneira, o alimento.
Já as esponjas - embora sejam contemporâneas desses seres primitivos, surgidos há mais de dois bilhões de anos - transportam as substâncias pelo corpo de forma diferente. Por motivos ainda desconhecidos, em vez de passar os alimentos de célula a célula, as esponjas têm canais, por onde a água circula. entrando pelos poros. A água vai até uma cavidade central e volta distribuindo as substâncias. Inúmeros flagelos. existentes dentro dos canais. se movimentam, ajudando o liquido avançar. Os canais das esponjas até podem ser os antecessores das artérias. mas não se pode dizer que, por causa disso, esses seres têm um sistema circulatório.
O sangue como solvente do organismo, as artérias flexíveis e uma espécie de bomba hidráulica, capaz de manter a circulação constante - enfim, os elementos básicos do sistema circulatório - aparecem somente cerca de 1 bilhão e 500 milhões de anos mais tarde. Há 570 milhões de anos, um coração rudimentar surge nos anelídeos. como são chamados os animais da família das minhocas. De fato, o que se considera coração no anelídeo são cinco artérias em forma de anéis que se encontram em torno do aparelho digestivo.
Na verdade, existem corações e corações. Algumas espécies, que surgiram há 500 milhões de anos, como os crustáceos e os moluscos, desenvolveram sistemas circulatórios abertos, ou seja, corações em forma de tubos, que ondulam de trás para frente, bombeando o sangue para as artérias, que, por sua vez, desembocam em lacunas dentro do organismo. Ai o sangue entra em contato direto com as células, voltando ao coração pelo mesmo caminho. Os insetos, que apareceram mais tarde, há 250 milhões de anos, também têm sistemas circulatórios abertos.Já no sistema de circulação fechado, presente nos vertebrados - e sabe-se lá por que razão nas minhocas, com seus anéis-corações - não há lacunas. O sangue viaja por uma complexa rede de canais cada vez mais estreitos e com paredes cada vez mais finas. Sai pelas artérias (como são chamados os canais que partem do coração), que se ramificam em arteríolos Finalmente, o sangue percorre os milimétricos capilares. As substâncias, como os alimentos, passam para as células e as células, por sua vez, devolvem outras substâncias ao sangue. através das paredes desses capilares. Finalmente, o sangue faz o caminho de volta pelas veias (como são chamados os canais que chegam ao coração).
A essa altura da evolução das espécies, quando aparecem os peixes, há cerca de 400 milhões de anos,o coração já tem uma certa semelhança com dos seres humanos, por estar dividido em câmaras. O coração do tubarão, um dos mais antigos animais vertebrados, possui, por exemplo, uma câmara superior chamada aurícula outra, inferior,conhecida por ventrículo. A aurícula recebe - o sangue do corpo e, ao se contrair, o expulsa para o ventrículo. Este, por sua vez, com suas paredes musculosas, bombeia com toda força o sangue para o corpo as válvulas impedem que ele volte. Do grande vaso central, que sai do coração do tubarão, o sangue passa para uma das oito artérias branquiais, que se transformam em capilares, já no interior das brânquias onde o oxigênio é captado. Enquanto a vida que se prezava transcorria debaixo d ´água esse coração dividido em duas câmaras dava conta do recado. Mas, ao surgirem animais com respiração pulmonar, há 340 milhões de anos, o coração precisou mudar de novo: adquiriu uma terceira câmara.Os anfíbios possuem duas aurículas e um ventrículo. A auricula esquerda acolhe o sangue oxigenado vindo dos pulmões; a direita recebe o sangue que acabou de circular pelo organismo. No ventrículo, o sangue arterial e o venoso se misturam, antes de partir rumo aos pulmões e demais órgãos.
O coração com três partes dos anfíbios foi uma boa solução encontrada pela natureza - mas não a melhor. A bomba propuisora mais eficiente seria conseguida pelos crocodilos, um dos últimos répteis surgidos na Terra, há 130 milhões de anos. Seu coração tem quatro divisões. épraticamente o mesmo coração das aves e dos mamíferos que vieram muito mais tarde - há 26 milhões e 2,5 milhões de anos, respectivamente. Ele opera, ao mesmo tempo, dois tipos de circulação - ou seja, uma ida-e-volta aos pulmões e uma ida-e-volta ao restante do corpo. O músculo já tem, então, o seu característico perfil triangular. No homem, situa-se quase no centro do corpo. Sua aurícula direita - ou átrio direito, como também é chamada - fica na parte superior e recebe o sangue do organismo ao relaxar-se. Esse é um sangue escuro, porque distribuiu todo o oxigênio pelos órgãos, recebendo, em troca, o gás carbônico produzido nas células após a queima do oxigênio. Numa contração, a aurícula empurra o sangue para o ventrículo direito, logo abaixo; imediatamente, fecha-se a válvula que separa essas duas câmaras, impedindo que o líquido volte. A válvula chama-se tricúspide, porque dá a impressão de estar dividida em três.
Do ventrículo direito, numa segunda contração, o sangue sai por uma artéria grossa e forte, que se bifurca em dois ramos, um para cada pulmão. Lá, o sangue troca o gás carbônico por uma nova dose de oxigênio e, por isso, assume uma tonalidade vermelho vivo. O caminho de volta ao coração é feito por quatro veias pulmonares, duas de cada lado. O sangue, então, chega ao átrio, ou aurícula esquerda. Daí, numa contração, desce para o ventrículo esquerdo e, mais uma vez, uma válvula se fecha, para que o sangue não volte. Esta é a válvula mitral, porque sua ponta bipartida lembra uma mitra, o chapéu usado pelos bispos. O ventrículo esquerdo - onde se dá a etapa final da circulação pelo coração - é bem mais forte que o ventrículo direito. Faz sentido. Afinal, enquanto o lado direito do músculo manda o sangue apenas para os pulmões, o esquerdo deve rejeitar o líquido, num movimento vigoroso, para todo o corpo, como se estivesse Ihe dando um verdadeiro empurrão inicial.
O sangue parte do coração pela aorta, a mais espessa e larga artéria de todo o organismo, e percorre uma enorme rede de tubos. As veias e artérias, que são elásticas, ajudam 0 sangue a correr, com pequenos movimentos. Por isso é que o sangue é capaz de dar uma volta inteira pelo corpo em apenas um minuto, aproximadamente. Nesse percurso, o liquido faz de tudo um pouco: transmite mensagens químicas de um órgão a outro, através dos hormônios; alimenta e, ao mesmo tempo, recebe toda espécie de excretas das células.
Tradicionalmente, o coração foi comparado com uma bomba. Ainda hoje, essa é a analogia que ocorre aos leigos. Mas os cientistas já adotaram uma imagem mais precisa: a da metralhadora automática. De fato, o músculo se contrai, num movimento chamado sístole e imediatamente se expande, na chamada diástole, com bastante força, contorcendo-se bruscamente. Mas isso não significa que o coração necessite de energia para os dois movimentos: a mesma força que ele utiliza para contrair-se é usada, na seqüência, para aspirar o sangue. Ou seja: quando o coração relaxa, permite que o sangue entre automaticamente. Daí a idéia da metralhadora, que não precisa ser recarregada constantemente.
O coração parece um órgão essencial demais para ser governado apenas pelo cérebro. Seus disparos são controlados também por um sistema nervoso próprio. O cérebro envia suas ordens na forma de impulsos elétricos, que indicam a freqüência e a amplitude das contrações. Assim, exigirá que o coração trabalhe mais depressa se o corpo estiver em exercício; ou mandará que bata mais lentamente, durante o sono. Já o sistema nervoso do coração, localizado num pequeno nódulo sobre o átrio direito, cuida que o músculo cardíaco não perca a sincronia: ao mesmo tempo em que os ventrículos expulsam o sangue, já estão recebendo mais sangue das aurículas e assim por diante.
Às vezes, por causa de infecções, traumatismos ou má irrigação, o coração passa a receber dois comandos próprios. Forma-se um segundo e, em alguns casos, até um terceiro nódulo nervoso. Isso provoca uma doença chamada arritmia. Submetido a ordens diferentes, o coração se desgoverna. Não recebe nem expulsa o sangue. É a parada cardíaca. Para combater a arritmia, a medicina desenvolveu um pequeno aparelho, instalado no peito: o marca-passo. Quando a coração ameaça parar, o marca-passos emite descargas elétricas entre 200 e 400 volts, o que o obriga a trabalhar. O marca-passo é apenas um entre os cada vez mais numerosos recursos aperfeiçoados pelos cardiologistas para prevenir, remediar ou compensar a mau funcionamento do coração. Drogas controlam os depósitos de gordura nas artérias para impedir que fiquem obstruídas sendo impossível evitar a obstrução, cirurgias substituem as artérias inválidas; eletrocardiogramas são complementados por exames muito mais complexos, como tomografia computadorizada (que consiste em analisar a imagem do coração, obtida por raios X, com a ajuda de um computador).
A maior proeza da ciência, porem, foi tornar o coração substituível Tudo começou no dia 3 de dezembro de 1967, quando o médico Christian Barnard do Hospital Groote Schuur, na África do Sul, anunciou que havia realizado o primeiro transplante de coração em um ser humano. O paciente, que sobreviveria apenas dezoito dias, era Louis Washlcansky, de 55 anos, portador de uma doença fatal nas coronárias. Ele recebeu o coração de uma mulher, Denise Ann Darvall, morta em acidente de carro. Washkansky morreu porque seu organismo não aceitou o coração estranho. De fato, a rejeição revelou-se o maior obstáculo no caminho dos transplantes. Nem por isso eles cessaram de imediato - muito ao contrário.Nos doze meses seguintes à cirurgia pioneira do doutor Barnard - que se tornaria uma celebridade - 96 transplantes foram realizados no mundo. A moda só começou a arrefecer na virada da década. No início dos anos setenta, a freqüência dos transplantes caiu drasticamente, e, com o passar do tempo, outras alternativas mais atraentes passaram a ser pesquisadas. Hoje, o problema da rejeição está sob controle e a medicina deu outro passo gigantesco ao criar o coração artificial. Trata-se de uma bomba propulsora metálica, capaz de substituir 0 coração humano. Considerado a solução ideal para os casos incuráveis, o coração artificial tem a evidente vantagem adicional de não se desgastar com o estresse provocado pelas tensões da vida cotidiana, nem padece dos males da alimentação errada, hábitos sedentários e fumo - que o entopem a ponto de inutilizar a metralhadora automática do nosso organismo.
"O homem pode viver perfeitamente até os 120 anos. Quem morre antes, morre precocemente", afirma, com segurança, o cardiologista Radi Macruz, professor adjunto da Universidade de São Paulo. Ele não parece otimista demais. De fato, a idéia de que o coração inevitavelmente começa a falhar quando a pessoa chega à casa dos quarenta, não se sustenta em teoria médica. Livre dos inimigos externos, nada impede que o coração se mantenha em bom estado durante um século inteiro. O bom coração, além do mais, bombeia com precisão o sangue para o organismo, mantendo os diversos órgãos bem irrigados - portanto fortes e igualmente capazes de funcionarem sem problemas.Se isso não acontece, já se sabe por quê: usa-se e abusa-se de alimentos com colesterol - lipoproteínas de alta densidade, presentes em carnes gordas, mariscos, leite integral e seus derivados, e ovos - que se depositam em forma de gorduras nas artérias do coração, chamadas coronárias. Com o entupimento ou aterosclerose, o músculo cardíaco, que também precisa receber nutrientes e oxigênio através do sangue, fica sem irrigação e morre. É o infarto agudo do miocárdio, responsável por três em cada quatro mortes causadas pelo coração. O cigarro também ajuda o aparecimento da aterosclerose, porque o fumo estimula o coração a bater mais depressa que o normal. Com isso, ele se esforça mais e necessita de oxigênio extra. Ao mesmo tempo, para piorar as coisas, o oxigênio chega ao sangue em doses cada vez menores, devido à nicotina acumulada nos pulmões. Oxigenado inadequadamente, o miocárdio acaba morrendo ou, na menos ruim das hipóteses, sofrendo lesões. Além disso, a nicotina também torna as artérias mais estreitas, facilitando os entupimentos.
A falta de exercícios é outro inimigo do coração. A vida sedentária aumenta a sensibilidade do organismo ao colesterol: as gorduras não são queimadas, acumulando-se nas artérias. Mas, sem dúvida, o estresse não pode ser subestimado. Pessoas que vivem com o coração na mão, como se diz, ansiosas e angustiadas, obrigam o coração a trabalhar dobrado, abrindo caminho para que um problema fisiológico - do tipo entupimento das coronárias - se manifeste num período mais curto. Como as emoções afetam o coração, é fácil entender por que as pessoas, desde os tempos primitivos, se acostumaram a achar que o coração produz os sentimentos.
Essa é uma das crenças mais duradouras do homem. E há mesmo, nos dias de hoje, quem tente dar fundamentação científica a essa idéia. É o caso dos cientistas que quiseram provar que o coração secreta hormônios responsáveis pelas emoções. Tudo o que se sabe. porem, é que esse órgão produz, na aurícula direita, um prosaico hormônio diurético. É inegável que o coração é o órgão mais vulnerável aos sentimentos. Esse músculo que funciona feito máquina, também se descontrola, acelera ou diminui o ritmo diante do perigo ou da surpresa agradável, muda de comportamento diante do que se ama ou se odeia. Enfim, é onde são percebidas as verdades básicas de cada ser humano - suas emoções.

Boxes da reportagem

No Brasil, mais doentes e mais inovações
Apenas seis meses após o primeiro transplante de coração realizado no mundo, a equipe do professor Euryclides de Jesus Zerbini , do Hospital das Clínicas de São Paulo, anunciou, a 26 de maio de 1968, que o boiadeiro João Ferreira da Cunha, um matogrossense de 23 anos, havia recebido um coração novo. O paciente parecia ter reagido bem à operação. Mas, passados 21 dias, o coração de João parou por 90 segundos e ele voltou à UTI. O problema foi contornado. Seis dias depois, porém, uma segunda crise matou João Boiadeiro. Ele morreu, não porque a cirurgia tivesse sido malsucedida, mas porque seu organismo rejeitou o coração transplantado - como vinha acontecendo em toda parte com pacientes com coração novo.O segundo transplantado brasileiro, o comerciante Ugo Orlandi, chegou a sobreviver 13 meses e 13 dias, morrendo em outubro de 1969. Nesse meio tempo, um terceiro transplantado sobreviveu apenas dois meses. Mas foi a morte de Orlandi que induziu os cardiologistas brasileiros a decretarem uma moratória nos transplantes de coração. Como explicou, na época, o professor Zerbini, eles estavam suspensos, enquanto não se encontrassem medicamentos que realmente evitassem as rejeições. Com isso, o Brasil só retomou a corrida dos transplantes em 1979. "A rejeição está controlada e realizamos esse tipo de cirurgia tão bem quanto em qualquer lugar do mundo", diz o professor Adib Jatene, diretor do Instituto do Coração (Incor) do Hospital das Clínicas de São Paulo.Em matéria de coração, por sinal, o Brasil oferece um retrato contraditório. Faz-se, no pais, todo tipo de cirurgia cardíaca e também se desenvolvem tratamentos revolucionários. Em compensação, aumenta, a cada ano, o número de pessoas com problemas cardíacos."Infelizmente, aqui não se faz prevenção de doenças do coração", critica o professor Radi Macruz, da Universidade de São Paulo. As cirurgias para correção de problemas de válvulas, por exemplo, não têm resultados duradouros: os problemas voltam após cerca de dez anos - e, se isso ocorre repentinamente, a pessoa morre. As deficiências nas válvulas, que respondem por 15 a 20 por cento das cardiopatias no Brasil, têm uma causa única: a febre reumática, causada por uma infecção, a estreptococcia, que atinge cerca de três em cada cem brasileiros. "Bastaria que os portadores da doença fossem identificados", observa Macruz, "e tomassem um comprimido de penicilina por dia. Em conseqüência, teríamos quase 20 por cento de cardíacos a menos."O número de pessoas com aterosclerose (entupimento das coronárias) também está crescendo, por falta de campanhas de prevenção. Logo aumentará bastante o número de cirurgias para corrigir o problema. Em todo caso, o Brasil oferece as mais avançadas alternativas ao bisturi, como a angioplastia, técnica utilizada em São Paulo - pela primeira vez no mundo - há três anos: um cateter (tubo com largura de três milímetros é colocado numa artéria do braço ou da perna e chega até o coração; dentro do coração, é inflado por um balão de gás, de modo a comprimir os depósitos de gordura.Mais revolucionária é a angioplastia a laser, também desenvolvida no Brasil, ainda em fase experimental. Mediante essa técnica, se destrói tudo o que obstruir a artéria."A questão é que, sem ver a artéria por dentro, fica difícil colocar o cateter em posição pararela ao depósito de gordura", explica o único médico no país a usar o laser em cirurgias cardíacas, doutor Euclydes Marques, do Hospital das Clínicas de São Paulo. "Se o instrumento se inclinar, o laser pode furar a artéria." Esse problema será resolvido quando houver um equipamento ótico que possa ser acoplado ao cateter do laser.Em cirurgia, o laser é uma espécie de bisturi elétrico, só que mais preciso. A particularidade, em relação à cirurgia cardíaca, é que ajuda a estancar hemorragias nas grandes artérias, onde o bisturi elétrico não pode ser utilizado, porque destruiria as paredes dos vasos. Atualmente, os cardiologistas brasileiros seguem duas outras linhas de pesquisa. Uma busca nada mais nada menos que usar o laser para dar ao coração uma nova rede de irrigação sanguínea: através de perfurações, seriam criados cerca de cem capilares por centímetro quadrado. A outra pesquisa, já desenvolvida com êxito, pretende usar o laser para a sutura de artérias. Nas mãos de um cirurgião habilidoso, emendar uma artéria com pontos de náilon leva quinze minutos - e numa cirurgia cardíaca geralmente são feitas, no mínimo quatro suturas desse tipo; com o laser, uma sutura gasta apenas cinco minutos. Orgulha-se o doutor Euclydes Marques: "Durante anos, os melhores institutos de pesquisas cardiológicas do mundo tentaram fazer isso e não conseguiram. Nós somos os primeiros a acertar".

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Sinto muito - Os Sentidos

SINTO MUITO - Os Sentidos



Tente descrever qual é a graça de andar em uma montanha russa usando só os 5 sentidos. Enquanto você coça a cabeça para descobrir se a vertigem e o frio na barriga se encaixam no tato, na visão, no olfato, na audição ou no paladar, aproveite para pensar em outra coisa: como você sabe que seu braço está de fato coçando a sua cabeça, se não consegue vê-lo? Se quiser mais desafios, olhe de novo a página anterior e responda: por que a imagem de um prego no olho traz uma sensação de dor? Por que alguns padrões de cor e de formas dão a ilusão de vibrar? Por que ver uma mulher beijando um rato embrulha o estômago? Aliás, qual dos 5 sentidos lhe diz que você teve um embrulho no estômago?

Não fique tonto com essas questões (até porque a tontura é outra sensação que não dá para explicar só com audição, visão, tato, olfato e paladar). Como você já deve desconfiar pelas perguntas acima, os nossos sentidos são muito mais complexos do que sempre nos disseram. A idéia de que temos apenas 5 formas de perceber o mundo foi formulada pelo filósofo grego Aristóteles no século 4 a.C. e, de forma um tanto impressionante, permanece popular até hoje. A ciência, no entanto, já percebeu que os nossos sentidos passam de 20 e são bastante maleáveis, complexos e interessantes. Quando começaram a estudar as portas da percepção, coisas incríveis aconteceram: pessoas passaram a enxergar pela língua ou pelo ouvido, pintar coisas que nunca viram, sentir o tato só pela visão. É a nova ciência dos sentidos - e ela pode mudar tudo o que sabemos sobre a realidade à nossa volta.



Vendo tudo

Quantas formas de perceber o mundo nós temos? Não é uma pergunta fácil, principalmente porque, para respondê-la, precisamos antes saber de que mundo estamos falando. É que, nesse caso, existem dois: o externo e o interno. Os 5 sentidos tradicionais são específicos para observar o que acontece fora de nós. Além deles, existem aqueles que servem para percebermos nós mesmos e a relação do nosso corpo com o espaço. Mesmo de olhos fechados, você sabe que tem pés, braços, cabeça, um corpo inteiro, certo? O sentido encarregado de informar o que faz parte do nosso corpo é a propriocepção. O neurologista inglês Oliver Sacks, no livro O Homem que Confundiu sua Mulher com um Chapéu, cita o caso real de Christina, que, aos 27 anos, perdeu a propriocepção depois de receber antibióticos. De uma hora para outra, ficou incapaz de sentir o próprio corpo e precisou aprender a se virar usando outros sentidos, como a visão e a audição. Precisava ver as pernas ou as mãos para andar ou pegar um objeto. Falar se tornou muito difícil - é graças à propriocepção que sentimos a posição da boca.

Comece a viajar nesse mundo interno e vão pipocar sentidos que nos informam situações como o equilíbrio, a pressão sanguínea, a sede ou a fome. Um exemplo é a cinestesia, que nos diz quando cada parte do corpo se move. Só que alguns cientistas acreditam que, mesmo somando todos esses sentidos, ainda não temos o retrato completo. Quem sabe se cada um desses não é um agrupamento simplista de muitas formas de percepção? Afinal, sentir um toque gelado é diferente de sentir um toque com pressão. E enxergar formas é diferente de enxergar cores - o que é comprovado pelo fato de que é possível ficar cego apenas para as cores, como bem sabem os daltônicos. Será correto agrupar no nome "visão" a percepção das formas, dos vermelhos, dos verdes e dos azuis? Ou deveríamos falar de pelo menos 4 sentidos? Não existe ainda entre os cientistas um consenso sobre o que deve ou não ser considerado um sentido isolado. As diferentes respostas a essas perguntas podem fazer o nosso número total de sentidos oscilar entre 10 e 33 (veja tabela à direita). Sentiu o problema? Pois ele é só o começo.



Fazendo sentido

Os sentidos são como uma gangue: além de serem muitos, agem sempre em grupo. E basta acionar um para que todos respondam. Segundo Alvaro Pascual-Leone, neurologista da Universidade Harvard, em Massachusetts, EUA, nosso cérebro está sempre usando todas as percepções para criar um cenário mental da situação. É o que se chama de "mãos da mente": ao olhar para um abacaxi, você sente a textura espinhenta da fruta, enquanto mentalmente é capaz de sentir seu cheiro e o sabor doce e ácido.

Por que isso acontece? Antes de mais nada, é importante entender que sensação e percepção são processos complementares, mas diferentes. A sensação é a parte passiva da coisa, quando simplesmente recebemos um estímulo. É quando as ondas sonoras atingem o aparelho auditivo, fazem o tímpano vibrar e, na forma de impulsos elétricos, são levadas pelo nervo auditivo até o cérebro. A partir daí, entra em cena a percepção, que assimila, decodifica e processa esses dados.

As nossas sensações estão sempre funcionando, mas nossa percepção varia bastante. Ela pode ser temporariamente desativada: como qualquer um que tenha assistido a uma aula chata pode dizer, é possível escutar palavras sem ouvir nada. Por outro lado, é só andar em uma rua deserta para perceber como ficamos mais perceptivos a barulhos e sombras. O desligamento é seletivo: quando queremos conversar com alguém em uma festa barulhenta, precisamos ignorar todas as conversas paralelas, mas basta mencionarem nosso nome para voltarmos a atenção a outra conversa. Na Universidade Harvard, os psicólogos Daniel Simons e Christopher Chabris pediram que voluntários contassem o número de passes dados em um jogo de basquete, o que fez com que muitos não percebessem uma pessoa vestida de gorila atravessando a quadra. (Preste atenção: alguém pode estar chamando o seu nome enquanto você lê esta matéria.)

É possível ter problemas na percepção - um mal neurológico conhecido como agnosia que impede o reconhecimento de qualquer imagem, cheiro ou som. Existem relatos de pessoas incapazes de diferenciar um círculo de um quadrado, apesar de enxergar bem as duas formas. Oliver Sacks cita o caso de um professor de música com um processo degenerativo nas partes visuais do seu cérebro que foi aos poucos perdendo a capacidade de enxergar o todo de uma imagem. Identificava apenas os detalhes ou os movimentos. A confusão chegou a tal ponto que ele não conseguia mais entender uma rosa, apesar de descrevê-la com riqueza de detalhes. Durante uma consulta médica, confundiu seu pé com o sapato e, depois, pegou a cabeça de sua mulher para colocá-la na sua própria cabeça, literalmente confundindo-a com um chapéu.

Mais impressionantes ainda são os casos em que a sensação não acontece, mas a percepção sim. Nosso cérebro é capaz de sentir texturas através da visão (olhe para um cachorro fofinho, por exemplo) ou formar imagens através do tato. O pintor turco Esref Armagan é cego de nascença e seus olhos não detectam nenhum tipo de luz, mas mesmo assim ele é capaz de pintar imagens complexas, como paisagens ou peixes, respeitando as regras da perspectiva. Ele retrata até mesmo objetos distantes, como montanhas e nuvens. Como consegue?

Em primeiro lugar, ele conhece os objetos através do tato e pelas explicações de pessoas que enxergam. Para saber o que está pintando, ele usa uma tinta com textura que lhe permite sentir os próprios traços. Mas o segredo mesmo está na cabeça de Armagan. O córtex visual (área responsável por processar a visão) de uma pessoa funciona mesmo sem estímulos visuais objetivos. Por exemplo, ao fechar os olhos e imaginar uma cena, seu cérebro vai ativar a área relacionada às imagens, mesmo que em uma intensidade mais baixa. O mesmo acontece com o cérebro de Armagan: atividade leve quando ele imagina alguma imagem e bem mais alta quando está desenhando ou pintando. Nessas horas, sua atividade no córtex visual é praticamente igual à de alguém que enxerga perfeitamente. Usando informações da memória, tato, descrição, localização espacial e outros sentidos, ele consegue formar uma imagem parecida com a que temos ao enxergar.

Definir a visão parecia ser uma tarefa simples, mas se torna um pouco mais complicado agora: um indivíduo com agnosia é capaz de reagir à luz, mas não vê certos objetos. Armagan não reage à luz, mas usa relatos para "enxergar" a ponto de pintar melhor do que muita gente com a visão perfeita. Casos como o dele reforçam a teoria de que a percepção das coisas não depende exatamente do caminho pelo qual o estímulo chega. Ou seja, seu cérebro consegue ver de várias formas - os olhos são apenas o caminho mais tradicional.



Olhando pela língua

Em uma pesquisa na Inglaterra, tudo o que voluntários precisavam fazer era colocar o braço debaixo de uma mesa. Por cima, ficava um braço de borracha, usado em shows de mágica. Os braços real e falso eram tocados pelos mesmos objetos, ao mesmo tempo. Foram precisos apenas 11 segundos para que eles começassem a considerar como sua a mão que estava visível, o que ficou provado pelo monitoramento da atividade cerebral e porque, no final da experiência, vários apontaram a mão de borracha como sendo a real. Já o neurologista Alvaro Pascual-Leone, de Harvard, foi mais longe: fez pessoas com a visão perfeita passarem 5 dias com óculos que bloqueavam toda a luz. Durante esse período, eles relataram um aumento nos outros sentidos e também algumas alucinações visuais. Além disso, estímulos táteis ou auditivos tornaram-se capazes de ativar o córtex visual do cérebro. Todos esses sintomas desapareceram menos de 24 horas depois que os voluntários retiraram os óculos.

As duas experiências mostram que os nossos sentidos são muito mais flexíveis e adaptáveis do que se acreditava. Por estarem todos interligados, é só limitar um pouco um deles para que outros tentem compensar a deficiência. Na primeira experiência, a visão interagiu - e acabou substituindo - a propriocepção. E, na segunda, Pascual-Leone acredita que o córtex visual dos voluntários começou a se adaptar para funcionar com estímulos não-visuais. Nos dois casos, o que interessava ao cérebro era a informação disponível. Com os dados que tinha, ele tentava montar uma imagem mental.

Descobertas como essas abriram caminho para encontrar formas de compensar deficiências como cegueira e surdez. Um dos resultados mais promissores é o vOICe, um dispositivo criado pelo inventor holandês Peter Meijer para fazer pessoas enxergarem por meio de música. Ele usa um padrão de sons para descrever imagens captadas por uma câmera, que pode ser acoplada aos óculos de um deficiente visual. Agudos indicam um objeto em posição elevada, como uma prateleira, enquanto sons mais graves indicam algo perto do chão. O volume está relacionado à luminosidade: quando mais alto o som, mais claro o objeto. A ausência de luz é representada pelo silêncio. Pode parecer estranho, mas com algum tempo de uso o sistema pode guiar uma pessoa por um ambiente.

Algo parecido pode ser feito com o paladar. O BrainPort, da Universidade de Wisconsin, EUA, é formado por 144 eletrodos dispostos em um quadrado do tamanho de um selo, que fica em contato com a língua. O alpinista Erik Weihenmayer, cego há mais de 20 anos, usou o dispositivo para projetar em sua língua as imagens captadas por uma câmera localizada em sua cabeça. Em pouco tempo de uso, foi capaz de identificar objetos e apanhar uma bola em movimento. Já a americana Cheryl Schiltz usou o BrainPort para recuperar a sensação de equilíbrio. No caso dela, um aparelho localizado também na cabeça registrava todas as vezes que ela se inclinava, indicando o desnível através dos eletrodos - ao deixar a cabeça alinhada, ela sentiria uma sensação mais forte na parte central da língua. Foi o suficiente para que Cheryl andasse pela rua, subisse e descesse escadas e até mesmo carregasse uma bandeja.
A viagem através dos sentidos está apenas começando. Cada um desses novos equipamentos levam a descobertas ainda mais profundas sobre como percebemos o mundo, que por sua vez levam a tecnologias mais avançadas. Talvez um dia os cientistas cheguem à conclusão de que temos mais de 35 sentidos ou, quem sabe, a uma resposta ainda mais radical: um só. Como o que está em jogo é nada menos a forma com que lidamos com o mundo e com que sabemos que tudo existe, é possível que essas pesquisas mudem toda a nossa relação com a realidade. O que estaremos vendo e ouvindo daqui a algumas décadas? Ninguém sabe.



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