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quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Baderna Eletromagnética - Tecnologia


BADERNA ELETROMAGNÉTICA - Tecnologia 


Robôs enlouquecidos, computadores com amnésia e aviões fora de controle: a interferência eletromagnética que estraga a imagem da TV também provoca.


O cineasta americano Steven Spielberg não faria melhor. Assim que os operários de um prédio em construção em São Paulo movimentaram o guindaste para iniciar mais um dia de trabalho, faíscas estalaram e um festival de raios começou a sair do equipamento. Assustados, os trabalhadores ainda teriam uma surpresa digna do filme Poltergeist. Vozes e sons apavorantes ecoaram, fazendo alguns acreditar que a construção estava realmente sobre solo mal-assombrado. Estavam enganados. Os próprios operários perceberam pouco depois que as vozes fantasmagóricas emitidas pelo guindaste eram nada mais que as dos locutores de uma estação de rádio paulistana. O episódio ocorrido em 1987 não viraria tema de cinema, mas sim de discussões sobre um fenômeno nada sobrenatural nas grandes cidades: a poluição eletromagnética.
Ocorrências estranhas co-mo essa estão se tornando comuns nos grandes centros urbanos, onde antenas de transmissão de rádio e TV e equipamentos industriais se aglomeram, gerando uma caótica teia de sinais eletromagnéticos. As ondas viajam pelos ares e invadem tudo que podem. Dentro de casa, somam-se ainda a outros comparsas, os pulsos elétricos saídos dos eletrodomésticos. O resultado é uma poluição invisível, que inutiliza aparelhos de rádio e TV, destrói a memória de computadores, enlouquece robôs nas fábricas e pode até mesmo derrubar aviões. Ou, ainda, criar guindastes mal-assombrados. 
"Quando me chamaram para ver o tal guindaste, achei que fosse brincadeira", lembra-se o engenheiro eletrônico Antonio Roberto Panicalli, especialista em desvendar as origens das mais variadas interferências eletromagnéticas. Professor da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo e consultor da Telebrás, Panicalli coleciona casos pitorescos de interferências. Certa vez, atendeu a um obstetra cujo estetoscópio eletrônico não captava batimentos cardíacos, mas sim música sertaneja. O caso da grua falante, porém, foi o mais impressionante visto por ele. Panicalli foi chamado às pressas, pois, além de assustar os trabalhadores, o guindaste emitia um arco de eletricidade em direção ao solo, o que colocava em perigo as pessoas por perto.
Não foi difícil descobrir a causa do fenômeno. O prédio estava sendo erguido ao lado da torre de transmissão da Rádio Bandeirantes, uma das mais potentes de São Paulo. "A energia irradiada era tão grande nas proximidades, que a grua passou a funcionar como uma antena", conta Panicalli. O guindaste captava a energia e a descarregava para o solo assim que a caçamba se aproximava do chão. Isso explica as faíscas e o arco voltaico.Quanto às vozes, ocorreu o que se chama de "alto-falante" iônico. Num alto-falante comum, uma tela faz o ar que está em volta vibrar proporcionalmente à música e às vozes dos locutores. O som nada mais é que o resultado dessa vibração das moléculas de ar. No caso da grua falante, o que fazia o papel da tela era a própria corrente elétrica que dela saía em direção ao chão. De tão intensa, ela fazia o ar vibrar, exatamente como faz um alto-falante comum. 
Alguns efeitos da poluição eletromagnética são bem mais perigosos que gruas falantes. "Somos obrigados a monitorar continuamente as imediações dos aeroportos de Congonhas e Guarulhos, em busca de emissoras clandestinas de rádio", conta o engenheiro eletrônico Roberto Freitas Moraes, chefe do serviço de radiomonitoragem da seção paulista do Departamento Nacional de Telecomunicações (Dentel). As rádios piratas, como são conhecidas, costumam invadir as freqüências das emissoras comerciais, causando-lhes transtornos e a seus ouvintes. 
Isso é pouco perto do perigo que representam para os aviões. É que as emissoras de freqüência modulada (FM) transmitem em uma faixa exatamente vizinha daquela utilizada nos equipamentos de radionavegação dos aeroportos. Ou seja, em qualquer radio de pilha, o final do dial marca 108 megahertz - a freqüência mais alta em que uma emissora pode transmitir segundo as leis. Logo acima dos 108 MHz, começa a faixa de freqüências utilizadas pelo sistema de pouso por instrumentos - um recurso eletrônico usado pelos aeroportos que envia dados por sinais de rádio aos aviões para orientá-los em caso de tempo ruim. Se, por um erro humano ou do equipamento, uma emissora de rádio passar a transmitir sua programação alguns megahertz além dos 108, pode acabar interferindo catastroficamente na aterrissagem de uma aeronave. Esse tipo de erro é praticamente impossível no caso das emissoras de rádio legais, que usam transmissores de boa qualidade e estão constantemente sob a fiscalização do Dentel. As rádios piratas, no entanto, costumam improvisar transmissores caseiros. Não é difícil cometer erros em condições tão precárias.
Intrusos ainda mais inesperados quase derrubaram alguns Boeings nos últimos tempos, nos Estados Unidos. As empresas de aviação mantêm segredo, mas diretores da Administração Federal de Aviação (FAA) revelaram que pelo menos dois 747 tiveram suas rotas "levemente" alteradas por causa de aparelhos eletrônicos utilizados pelos passageiros a bordo. Comenta-se que um dos casos foi mais sério. O piloto automático simplesmente se desligou, deixando o avião à mercê da sorte até que os pilotos percebessem. O comandante do Jumbo ordenou que as aeromoças fizessem uma investigação a bordo. Ficou constatado que a interferência estava sendo causada pelo computador portátil de um passageiro, que não quis esperar o pouso para começar a trabalhar. Por pouco não iria trabalhar nunca mais. 
Como é possível um computador quase derrubar um avião? Afinal, ele não foi feito para transmitir ondas eletromagnéticas, como as emissoras de rádio. "Mas transmite", diz Eduardo Berruezo, engenheiro eletrotécnico do Instituto de Pesquisas Tecnológicas, de São Paulo. "Para executar suas tarefas, sinais elétricos percorrem os circui-tos da máquina e geram um campo eletromagné-tico", explica Berruezo, que se desdobra para resolver os enigmas levados ao IPT por indústrias e particulares atordoados por interferências. "Se a freqüência desse sinal for compatível com algum outro aparelho eletrônico, ela pode se transformar numa interferência", afirma. 
Foi o que aconteceu no avião americano. O micro estava emitindo e o piloto automático, por sua vez, estava propício a funcionar como uma antena. Isso não quer dizer, no entanto, que todo computador portátil que for ligado dentro de um avião ocasionará problemas. "O micro transmite com baixíssima potência e certamente não em todas as direções", explica Berruezo. Por isso, é preciso que haja uma grande coincidência na sua localização dentro da aeronave para que haja interferência. Mesmo assim, quase todas as companhias aéreas passaram a pedir aos passageiros que não utilizem microcomputadores ou aparelhos portáteis de CD a bordo.
Vilões dentro das aeronaves, os computadores tornam-se vítimas da poluição eletromagnética quando estão em terra. Há vários registros de siste-mas afetados em ambientes inundados pela radiofreqüência. "Um grande banco nacional desistiu de transferir seu centro de processamento de dados para a Avenida Paulista depois de ver que seus computadores simplesmente não funcionavam ali", conta Roberto Moraes, do Dentel. A região a que se refere, na cidade de São Paulo, é altamente poluída. por sinais invisíveis: concentra doze torres de emissoras de televisão e rádio, e pelo menos dez antenas de transmissão de dados entre empresas. Com tanta energia no ar, não há circuito que não seja "sacodido" eletricamente.
Mais poluídas que a Avenida Paulista, talvez só algumas fábricas no Japão, país conhecido pelo seu altíssimo índice de automação industrial - e também pelos mais trágicos efeitos da poluição eletromagnética. Uma catastrófica epidemia de loucura robótica aconteceu lá, no final dos anos 80. Máquinas ensandecidas mataram dezenove operários e feriram vários outros com movimentos inesperados - na maior parte dos casos, verdadeiros golpes de caratê, que arremessavam os trabalhadores a vários metros de distância. 
Quando os peritos examinavam os robôs, no entanto, não achavam nada de errado. Não era para menos: o defeito era de nascença. Os projetistas não haviam previsto a enxurrada de sinais espúrios causada por computadores, equipamentos de telecomunicações e pelas próprias máquinas existentes no ambiente industrial. Para se ter idéia do tamanho dessa inundação, basta considerar as soldas para plástico, usadas em fábricas de brinquedos e eletroeletrônicos. A cada soldagem, elas emitem um sinal na freqüência de 30 megahertz (bastante próxima àquela em que operam os microprocessadores dos robôs), com uma elevadíssima potência de 10 quilowatts. Por isso, a radiofreqüência penetrava facilmente nos circuitos dos robôs e alterava as programações. "Uma simples blindagem, no entanto, poderia evitar essas interferências fatais", diz Eduardo Berruezo, do IPT.
A poluição eletromagnética não é exclusividade do ambiente de trabalho. Embora bem menos perigosa, é dentro de casa que ela provoca os casos mais difíceis de resolver. Quem nunca teve seu aparelho de TV invadido por vozes de radioamadores? Ou o som do rádio distorcido por causa de um liquidificador ligado na cozinha? São problemas aparentemente insolúveis para os desavisados cidadãos. Afinal, não há sentido em instalar uma blindagem na televisão ou um fio-terra no liquidificador. "Quando a interferência é causada por radioamadores, é possível minimizá-la instalando filtros no aparelho de TV", explica Roberto Moraes, do Dentel. Mas nem sempre os incomodados se conformam em pagar para resolver um problema pelo qual não são responsáveis. Brigas e processos se sucedem e alguns até usam meios pouco ortodoxos para acabar com as interferências. "Recentemente, um inconformado telespectador abateu a tiros a antena de seu vizinho radioamador", conta Moraes.
No caso dos eletrodomésticos, há uma luz no fim do túnel. "O importante é que o produto já venha da fábrica sem causar ou receber interferências", diz Flávio Eitor Barbieri, presidente da Associação Brasileira de Compatibilidade Eletromagnética. Criada há cinco anos, a entidade tenta descobrir e repassar às indústrias novas técnicas para evitar emissão e recepção de sinais indesejados. 
A iniciativa veio em boa hora. Desinformado e pouco exigente, o consumidor brasileiro não leva em conta os desconfortos que um barbeador elétrico ou uma furadeira podem lhe causar. Os fabricantes também não. Por terem motores de indução elétrica, ou seja, propulsores que geram faíscas continuamente, costumam enviar pulsos de energia de volta para a tomada. "Os pulsos passeiam pela rede e entram impunemente em outros aparelhos, principalmente a TV e o rádio, que são feitos para captar sinais", explica Barbieri. 
Às vezes, os pulsos elétricos que percorrem os fios de uma casa são tão fortes que penetram até no que parece invulnerável. Há cerca de dez anos, uma chuva de reclamações desabou de repente sobre os fabricantes de máquinas de lavar. O protesto era sempre o mesmo: as lavadoras não cumpriam a programação fornecida pelas donas de casa, pulando fases ou simplesmente se desligando antes da hora. Depois de muito procurar, os técnicos acharam a causa do problema. É que acabavam de ser lançados os fogões com acendimento automático, que usavam faiscadores em cada uma das bocas para inflamar o gás. Assim que se apertava o botão para ligar o fogo, um sinal espúrio saía por to--dos os fios de energia da casa e, ao chegar nas lavadoras, fazia o seqüenciador das tarefas pular para a seguinte.
Problemas assim já são raros na Europa, onde os aparelhos saem da linha de produção com filtros supressores de interferências. Hoje, de um barbeador a uma geladeira, todos exibem num selo: "De acordo com as normas da CEE quanto a interferências eletromagnéticas". Isso foi uma exigência dos consumidores e resultado da concorrência entre os fabricantes, sobretudo com a formação da Comunidade Econômica Européia, que estabeleceu normas e nivelou por cima a qualidade dos produtos. 


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