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sexta-feira, 4 de março de 2016

Eles voltaram - Micróbios - Medicina


Eles voltaram - Micróbios - Medicina


Um mundo cada vez mais infeccionado
O médico americano Anthony Fauci ainda se lembra dos tempos de infância, quando tinha a impressão de que para todo  mal havia remédio. Não é à toa, ele nasceu em 1940 e cresceu na mesma época em que os antibióticos se desenvolveram. "O mundo inteiro achava que nunca mais veria pandemias como a da gripe espanhola no início do século", disse ele. 


Por ironia do destino, Fauci se tornaria uma das maiores autoridades do mundo em AIDS, doença provocada pelo imbatível HIV, um dos trinta novos agentes infecciosos isolados nas últimas duas décadas. E hoje ele também dirige o Instituto Nacional de Alergias e Doenças Infecciosas, órgão do governo dos Estados Unidos, país onde a incidência de antigas e recentes infecções cresceu 58% de dez anos para cá.

No mundo todo, anualmente, cerca de 30 milhões de pessoas ao redor do globo morrem porque foram contaminadas por vírus, bactérias ou protozoários nocivos. "Esses males são a maior causa atual de mortalidade", explica Fauci. "Muitos americanos pensam que esse é um problema exclusivo do Terceiro Mundo, mas está longe de ser." E, de acordo com o especialista, muito pior do que os novos males são os velhos conhecidos, que voltam com força total, mais fortes e resistentes. Eles acabam com qualquer ilusão de que para tudo existe uma solução simples, contida em comprimidos à venda nas farmácias.

A raiva pode estar crescendo

Os cientistas costumam chamar as doenças conhecidas apenas neste século de emergentes, enquanto aquelas que voltaram a afligir a humanidade depois de um longo período de trégua são chamadas reemergentes. A malária, no caso, não é um mal reemergente porque infelizmente nunca desapareceu do mapa. Outros males, por sua vez, talvez devessem ser considerados reemergentes e, no entanto, ainda não são. Ao menos, por enquanto. 

"É o caso da raiva humana, que vem crescendo tanto aqui, no Brasil, como em países como os Estados Unidos", garante o infectologista Luciano de Almeida Burdmann, da Universidade Federal de São Paulo. Segundo o médico, essa é a doença mais subnotificada de que se tem notícia. Os registros paulistas indicam apenas quatro casos nos últimos dez anos. Um nada. "Mas como para cada cinqüenta episódios de raiva animal, em cães, gatos e morcegos, pode-se esperar um caso de raiva humana, há algo de errado com essa contagem", diz Burdmann. "Afinal, nesse período, foram encontrados cerca de 3 000 animais contaminados só na região oeste do Estado."



Com os genes aprimorados

Velhas ou novas ameaças, todas serão discutidas a partir do dia 28 deste mês, quando acontecerá o Congresso Internacional sobre Doenças Emergentes e Reemergentes, em Atlanta, nos Estados Unidos. "Infelizmente, teremos mais dúvidas do que respostas. Mas esperamos sair de lá com muitas pistas", diz um dos participantes, o médico americano Steve Simpson, da Universidade do Novo México. Eles foi um dos que estudaram amostras do hantavírus de uma paciente de 13 anos, na Argentina, onde ocorreu um surto de infecções por esse microorganismo no início do ano.

Cogitou-se que a adolescente teria sido contaminada pelos pais, também doentes, pois ela própria não havia estado nas áreas de focos de ratos transmissores do vírus. "Improvável", diz Simpson. "Não há evidências de que o hantavírus passe de uma pessoa para outra, o que tornaria o problema bem mais grave." O que preocupa mesmo é que os genes na amostra argentina eram ligeiramente diferentes dos que se encontram nos hantavírus conhecidos. Péssimo sinal. Quando um micróbio modifica seu código genético é para adquirir estratégias de achar mais e mais vítimas. É assim também que, no caso de bactérias, elas adquirem as manhas necessárias para derrotar os antibióticos (veja infográfico à direita).

É preciso ficar de olho nos mosquitos

Às vezes, quem muda são os chamados vetores, os animais que servem de intermediários na transmissão do agente infeccioso para o homem. Existem estudos indicando que o mosquitinho Aedes aegypti, transmissor da dengue e da febre amarela, está se tornando resistente aos inseticidas usados para destruí-lo. Essa é uma das possíveis explicações para o crescimento as-sustador da dengue, que hoje é a mais importante das infecções virais, contaminando 100 milhões de indivíduos anualmente. Para o mal, não existe vacina. O Brasil registrou 124 000 casos em 95 e 176 000 no ano passado. "O jeito é observar o mosquito de perto", diz o professor Arary Tiriba, da Universidade Federal de São Paulo, um entusiasta da pesquisa dos insetos em seu habitat natural. "Várias doenças são transmitidas por mosquitos e se a gente focar apenas o tratamento do doente, vamos continuar sendo surpreendidos por diversos males."

Tuberculosos sem controle

Experiente, Tiriba defende a observação meticulosa do Aedes aegypti até para dimensionar o tamanho da encrenca, se a sua previsão e de outros colegas cientistas se confirmar: a volta da febre amarela urbana, desaparecida há 56 anos. "Basta alguém se contaminar na região amazônica, vir se tratar na cidade e pronto", exemplifica. "Nos centros urbanos, esse paciente pode ser picado pelo mesmo mosquito da dengue. Em doze dias, o bichinho estará apto a espalhar o mal."

Outra doença que merece ser analisada fora dos limites dos hospitais é a tuberculose. Ela já matou 40 milhões de indivíduos nos últimos dez anos, ou seja, quarenta vezes mais do que a AIDS. O Brasil terá 127 000 novos tuberculosos até o final deste ano. E 20% deles deverá adquirir a forma resistente da doença, na qual o bacilo culpado costuma vencer os antibióticos. Um erro do passado que não pode ser repetido é a falta de acompanhamento do paciente durante o tratamento. Ele dura seis meses. Um terço dos doentes costuma abandoná-lo no meio do caminho, por falta de informação ou dinheiro no bolso. Os bacilos que ainda existem em seu organismo são justamente os mais duros na queda. Eles é que terminam se espalhando quando o tuberculoso volta para casa e larga os remédios.

PARA SABER MAIS

Na Internet:

Professor Arary Tiriba, inftiriba.dmed@epm.br

Luciano Burdmann, burdmann.dmed@epm.br




Cólera
A infecção que se restringia a áreas isoladas do planeta se alastra novamente e até invade a Europa.

Febre amarela
Não apenas os habitantes das florestas tropicais estão em perigo. O mal ameaça, cada vez mais, os centros urbanos.

Leishmaniose
Com os desmatamentos, seu transmissor está de mudança para os arredores das cidades.

Tuberculose
Considerada carta fora do baralho antes da hora, ela contra-ataca os remédios existentes com táticas imbatíveis.

Hantavirose
Ninguém deu muita bola quando essa doença surgiu nos anos 50, na Coréia do Sul. Agora, ela mostra a sua força.

Dengue
Em vez de ser eliminado para sempre, o mosquito que espalha a moléstia se multiplicou.



Os velhos alvos dos novos ataques

Defesas desligadas
O leishmânia é um protozoário que vive em insetos chamados flebótomos, uma espécie de mosquito. 

O problema é quando esses insetos picam o ser humano, injetando-lhe o micróbio. Isso pode simplesmente provocar feridas na pele. Mas, em 1 a 2% das vítimas, o leishmânia imobiliza as células imunológicas, deixando o organismo indefeso, como acontece na AIDS.

Sem parar de sangrar

Existem quatro versões do vírus da dengue. Quando uma delas invade o organismo, pela picada do mosquito Aedes aegypti, vai logo atacar músculos e articulações. No entanto, se por azar a pessoa é contaminada tempos depois por um segundo tipo desse vírus, dessa vez o assalto é nos vasos sangüíneos e causa hemorragias fatais.

Pulmões destruídos

O bacilo de Koch, causador da tuberculose, plana no ar em gotículas da saliva dos doentes. 

Ao entrar em uma nova vítima, instala-se nos pulmões, construindo condomínios em forma de nódulos ou tubérculos, daí o nome da doença. Meses depois, a superpopulação de bacilos explode seus pequenos edifícios pulmonares.

Fígado destrambelhado

O vírus da febre amarela é transmitido nas regiões de mata pelo mosquito Haemagogus e, nas cidades, pelo mesmo Aedes aegypti da dengue. 

Ele ataca o aparelho digestivo em geral. O fígado, porém, acaba sendo o mais prejudicado. A infecção atrapalha seu funcionamento e leva a uma produção excessiva da bílis. O pior é que a doença pode se tornar crônica.

Rins prejudicados

O hantavírus vive em ratos silvestres e contamina indivíduos que respiram partículas da saliva ou dos excrementos desses animais. Além dos pulmões, o vírus ataca os rins, inibindo sua capacidade de filtrar o sangue. Como os primeiros estágios da infecção se confundem com uma gripe, a maioria dos doentes já chega ao hospital com os rins danificados.

Estômago sensível

Bactéria em forma de bastonete, o vibrião da cólera libera toxinas que, na comida contaminada por esgotos, irritam as paredes do estômago, causando crises intermináveis de vômito. Os intestinos, também instigados pelas toxinas, tentam expulsá-las em fortes diarréias. O corpo perde assim muita água e pode-se até morrer por desidratação.



Novas estratégias dos inimigos



O dobro de forças
As drogas bloqueiam moléculas essenciais para a sobrevivência do microorganismo. Mas ele pode fabricar mais e mais dessas moléculas, até a dose do remédio ser insuficiente para controlá-las. E como nem sempre é possível aumentar a dosagem da medicação…

Encaixe imperfeito
Outro estratagema do micróbio é modificar o formato de suas moléculas para que elas não se encaixem direito nas moléculas dos medicamentos. Desse modo, as drogas não conseguem agarrá-las. 

Molécula errada
Certas bactérias fabricam armadilhas. No caso, proteínas que se encaixam nos remédios, enquanto aquelas moléculas que são seus verdadeiros alvos continuam livres para desempenhar suas funções.

Efeito bumerangue
A última das manhas é criar enzimas que expulsam os remédios mal eles começam a agir. Os medicamentos, assim, entram nos micróbios e logo saem, sendo jogados na circulação sangüínea do paciente.

Um ardil à espera
Os microorganismos mais resistentes também produzem substâncias que são capazes de detonar as drogas, quebrando-as em inúmeras e ineficazes partículas.

Portas fechadas
Uma das maneiras mais comuns de vencer os remédios é eliminar da superfície os receptores que funcionam como chaves para eles penetrarem. As moléculas do medicamento batem nas paredes do micróbio, mas não conseguem entrar.




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