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sábado, 21 de abril de 2018

Luzia Homem - Parte 3 de 5 - Domingos Olímpio


Luzia Homem - Parte 3 de 5 -  Domingos Olímpio



E, pois lhe a rapariga respondesse com simples gesto negativo, disse, à puridade, 
suspeitar da interferência maligna de algum interessado em desgraçá-lo.

- Sabe o que me fizeram - continuou, amargurado - Levantaram-me uma calúnia... Você 
conhece a Gabrina, aquela moça morena, que perdeu a mãe, há pouco tempo?... Pois não 
inventaram que eu lhe havia dado dinheiro e dois cortes de vestido?...


- O quê?!... - exclamou Luzia, franzindo os sobrolhos, e encarando no moço.

- Eu que nunca alevantei meus olhos para semelhante criatura senão para salvá-la, quando 
nos encontrávamos no trabalho.

- Quem disse isso?

- Há gente para tudo, até para levantar falsos contra os seus semelhantes.

- Mas... quem inventou esse aleive?... Ela?!... É possível que uma rapariga tão moça tenha 
maldade para tanto?...

- Disse que eu andava há muito tempo atrás dela, seduzindo-a com promessas de casamento 
e que, sozinha no mundo, sem ter quem se doesse dela, não se lhe dera de consentir... Veja 
que mulherzinha mais desalmada... E eu, disse ela, lhe dera os mimos para que ela saísse 
logo de casa comigo...

- E você jura que isso é mentira?...

- Eu?... Eu não preciso jurar; basta, Luzia, que lhe afirme...

- Por certo... Demais, que tenho eu com os seus particulares?... Você não tem necessidade 
de negar... Mentira ou verdade, é livre, desimpedido, senhor da sua vontade para empregar 
o bem-querer em quem for do seu agrado. Isto não é da minha conta...

- Mas... queria explicar...

- Para quê? São desnecessárias para mim essas explicações. Deve dá-las ao Delegado...

- Luzia - continuou Alexandre, fitando-lhe uns olhos pisados de mágoa - Você tem sido, 
abaixo de Deus, minha protetora, meu anjo da guarda nesta desgraça, que me apanhou. Não 
tenho outra pessoa que puna por mim... se me abandonar...

- Abandonar!... Não penso em semelhante ingratidão. Além disso, é obrigação fazer o que 
tenho feito pelo senhor e ainda mais, se necessário for, muito embora, depois de solto, 
satisfaça o capricho do seu coração. Serei sempre a mesma, somente não estou para levar 
fama sem proveito, como já me tem acontecido...

- Sei quanto tem sofrido por minha causa...

- Não vale a pena. Fui eu quem lhe truxe caiporismo. Mas, só peço a Deus que me ajude a 
tirá-lo desta cadeia. Depois, o senhor toma o seu rumo e eu o meu. Será melhor assim para 
ambos...

Houve prolongada pausa. Alexandre, conturbado àquelas palavras secas e cruéis, 
contemplava, num misto de espanto e mágoa, a figura da moça, enteada, e de olhos 
cerrados, quase absorta em torturantes pensamentos. Rompeu ele, a custo, o oprimente 
silêncio. 

- Que rumo tomarei, Luzia, senão o seu? Para onde for, hei de acompanhá-la como a minha 


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estrela, a minha guia, segui-la como o cachorro vai atrás do dono que o abandonou e o 
despreza. Se eu entulho o seu caminho, se quer ver-se livre de mim, não me tire daqui; não 
empregue mal os seus passos... Deixe-me entregue à minha sorte, apodrecendo nesta 
sepultura de vivos, infamado... esquecido como um malfazejo, que nem compaixão merece. 
Só lhe peço a esmola de não desconfiar da minha inocência... Caiu-me em cima uma 
infelicidade que não sei explicar, uma vingança de mulher, de inimigos miseráveis; mas não 
sou ladrão... Nunca!...

- Vingança de mulher!... - murmurou Luzia, num grande entono de cólera indomável.

- Atenda-me. Essa, Gabrina, além de má, é ingrata. Quando a mãe caiu doente e foi 
desenganada, foi comigo que se achou para arranjar remédios e um caldo chilro para a 
infeliz. Eu sabia que a filha era uma doida, que apressara a morte da mãe com desgostos, 
arrebates e más respostas, por isso tive somente em mira fazer obra de caridade para não a 
deixar morrer à míngua. Você sabe que morreu mesmo; e, então, a filha foi para a 
companhia da Chica Seridó; e nunca mais me ocupei com a vida de semelhante 
desmiolada... É verdade que não faltou quem atribuísse os meus atos a embelezamento pela 
moça, que dava cabo ao machado, inculcando-se...

- Já lhe disse que nada tenho com isso, nem desconfio do senhor...

- Então por que me ameaça com a separação?...

- Quen, sou eu?... Quero evitar as más línguas, que não me poupam. Em homem nada pega, 
mas, em moça, tudo tisna. Eu confio em Deus acabar os meus dias, limpa como nasci do 
ventre da minha mãe... A pobreza não me afronta, porque tenho forças para trabalhar e 
ainda não cansei de sofrer. Sabe o que temo? Que façam pouco de mim, que me frechem 
com dictérios e caçoadas. Às vezes, tenho ímpetos de estraçalhar uma dessas criaturas 
perversas que me olham pelo rabo do olho, rindo pelo canto da boca, como se eu fora uma 
ridícula... Quando o senhor for para a sua banda e eu para a minha, tudo acabará ...

- Como acabaria, se nos casássemos.

- É impossível... Nasci, com má sina...

- Bem, Luzia... Vejo que me suspeita, embora não o diga francamente... Paciência... Será 
como for do seu agrado.

- Luzia amarrou, lentamente, a toalha com os pratos da refeição, que Alexandre mal 
encetara. Havia nos seus gestos, aparências de calma fria, resoluta. Toda ela, entretanto, 
vibrava com o abalo estranho, indefinido, que a invadira como um frio pérfido de moléstia.

- Até amanhã - disse ela, secamente.

- Não venha mais, Luzia... - murmurou o preso - Não vale a pena fazer mais sacrifícios por 
mim... Arranjarei aqui mesmo o de-comer. Basta. Não mereco tamanha dedicação... 
Deixe-me de mão, já que não quer ser ridícula...

Ela não lhe respondeu. Retirou-se, de manso, com o andar lento e fatigado de quem vai a 
contragosto. Alexandre acompanhou-a, com os olhos desvairados, até que ela dobrou a 


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esquina do João Padeiro, e desapareceu no beco do Coronel Braga. Pungia-lhe o coração 
imensa saudade, o pressentimento de nunca mais tornar a vê-lo, remorso de haver 
provocado a separação com o excesso de brio, ressumante nas palavras cruéis com as quais 
se desonerara da piedosa tarefa de visitá-lo todos os dias, para levar-lhe, talvez, o melhor 
quinhão da magra despensa de pobre, o precioso quinhão do pobre, que se priva do apenas 
suficiente para não morrer à fome. Súbito, ele estremeceu de pasmo, de dolorosa surpresa, 
ao fitar a parede, onde se fincavam os vergalhões de ferro da dupla grade... Estavam ali, 
entre migalhas da comida, murchos e ressequidos, os cravos rubros que ele havia dado a 
Luzia...





XV

Tão preocupada regressara Luzia da cadeia, que não reparou em Dona Matilde, debruçada 
sobre uma das janelas da casa do Promotor. Foi preciso que a formosa senhora a chamasse 
para arrancá-la da funda meditação absorvente, em que imergira o espírito, como num antro 
caliginoso.

- Aonde vai tão apressada, Luzia?...

- Desculpe-me, dona - respondeu ela, estacando, confusa e enteada, como se lhe houvessem 
surpreendido a tortura moral - Estava tão atarantada que não vi vosmecê, quando era minha 
intenção falar com o seu doutô a respeito do processo. 

- Entre. Estou com saudades dos meus bonitos cabelos... 

- Aqui estão sempre bem tratados e muito mais cuidados do que quando eram meus - disse 
Luzia, libertando a opulenta cabeleira do pente que a sustinha.

- Que lindos!... - exclamou Matilde, acariciando, com mimo, as bastas madeixas - Como 
estão macios... Oh! nunca vi coisa igual...

Luzia agradecia, com um sorriso contrafeito de melancolia. 

- Você - continuou a senhora - parece contrariada... Que lhe aconteceu?... Sua mãezinha vai 
melhor?...

- Muito melhor...

- E Alexandre?...

- Como preso, quase sem esperança de se ver livre da enxovia...

- Tenho grande dó de você, Luzia, moça capaz, merecedora de melhor sorte. Mas, que 
significa esse ar sombrio, esses olhos amortecidos?...

Luzia não respondeu.


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- Diga-me - continuou a senhora, com meiguice quer muito a Alexandre?...

- Por que me pergunta?

- A sua dedicação ilimitada àquele infeliz só pode ser inspirada por um grande afeto, desses 
que não esmorecem ante os maiores sacrifícios.

- Não sei se lhe quero muito... Sei que lhe devo muita gratidão por ter sido bom para nós, o 
protetor e amigo, que nos ajudou... 

- E é somente por gratidão, que o defende com tanta dedicação?...

- Só por gratidão. Por que, então, havia de ser?...

Luzia respondia com esforço. As palavras irrompiam de seus lábios, ásperas, aos pedaços, 
com uma falaz aparência de calma e indiferença.

- Você não é sincera, Luzia; não confia, talvez, em mim. Ninguém é superior ao próprio 
infortúnio; e mais humano, mais nobre, é confessá-lo que o sufocar ou esconder. Sofre-se 
mais no repúdio à consolação e ao lenitivo... É possível que não tenha consciência do estado 
do seu coração, ou não saiba explicar o que, nele, se passa? Não é crime amar, e Deus 
abençoa o amor das criaturas honestas, como um sagrado impulso da natureza, tanto mais 
forte quanto mais contrariado. Você é mulher forte. Os seus afetos devem ser mais intensos 
e impetuosos que os das outras, frágeis e passivas, entre quem vive deslocada, sempre como 
estranha, porque não foi feita para nascer e viver entre essa gente. Nisto consiste a sua 
infelicidade. Você sente que, em volta, entre os seus amigos e conhecidos, ninguém a 
compreende e a estima como merece. Daí, é fácil imaginar quanto sofreria se viesse a amar 
algum indigno de você... É um desastre que, vulgarmente, acontece, causando desgraças 
irremediáveis...

- Por que me diz isto?

- Sabe que, nesse trama, contra Alexandre, aparece uma rapariga que o acusa?

- A Gabrina...

- Como soube?...

- Alexandre, ainda há pouco, contou-me tudo...

- Ah!... Ele lhe falou nisso?!... E você?...

- Que importa... Tanto se me dá que ele queira bem a ela como a outra qualquer...

- Empenha-se ainda em libertá-lo?...

- Por certo. Não penso noutra coisa...

- Admirável!...


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- Puno por ele porque me diz o coração que está inocente. Ainda que fosse culpado, 
confessasse o crime, eu não era capaz de abandoná-lo na desgraça...

- Mesmo tendo cometido o crime por causa de outra mulher?

- Que tem isso?... Ele é senhor do seu coração, pode dá-lo a quem quiser. Demais, querer 
bem não é obrigação. Eu não poderia exigir que ele me pagasse alguns serviços de amizade, 
ligando-se a mim, ele um moço branco, eu uma pobre mulher de cor, sem eira nem beira, 
com à mãe doente às costas, neste tempo de seca e carestia de tudo. Além disso, ninguém 
gostaria de casar com uma criatura, que tem o apelido de Luzia-Homem, como esse que o 
meu fado ruim me deu...

- De homem só tem a força; é bem bonita rapariga... Que pretende, então, fazer?...

- Quando Alexandre for solto, pego em minha mãe, que está melhor, e marcho para a praia, 
como os outros retirantes.

- Você é uma extraordinária criatura, Luzia. Cada vez mais interesse me desperta...

- Reconheço que faz isso por bondade de santa... Só lhe peço que se empenhe com seu 
doutô para acabar esse tal de inquérito, para libertar Alexandre e a mim, que não devo me 
arredar daqui, enquanto ele padecer...

- Fique descansada. Farei o possível... Aqui para nós... Meu marido não acredita na história 
da tal Gabrina; desconfia mesmo que ela foi insinuada...

- Ah! Não acredita, não é?!.. acudiu Luzia, com estranha vivacidade, iluminado o rosto, 
num fulgor de vitória.

- Pobre coração, que te atraiçoas - observou dona Matilde, sorrindo, deliciosamente irônica.

- Gabrina é ingrata e vingativa como uma cobra...

- Meu anelo é que você e meu marido tenham razão, mas desconfiarei até verificar a 
verdade... Oh! os homens...

- A senhora é ciumenta?...

- Como uma leoa, como toda a mulher apaixonada até à loucura...

Luzia espetara na bela senhora, os olhos espavoridos, onde havia algo de surpresa e prazer, 
ante a revelação, que estalou vibrante. 

- Deve ser assim - murmurou como se monologasse - Raiva de onça contra quem lhe bole 
na carniça, ou lhe rouba os filhos... Fui má; ofendi Alexandre. Agora é tarde... O que está 
feito não está mais por fazer...

- Não desespere, Luzia. É bem possível que tudo acabe do melhor modo e você seja 
recompensada de tantas aflições e cuidados. Tenha coragem. Não se amofine. Não quero 


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que os meus belos cabelos embranqueçam por muito apurar o juízo em coisas tristes...

- A senhora é do céu, dona Matilde.

- Vá sossegada que, hoje mesmo, à tardinha, cuidarei da sua causa.

- Faça isso. Será obra de caridade, que não cairá no chão.

Luzia, retendo as lágrimas, rorejantes nos negros olhos ansios, e muito grata, beijou-lhe as 
mãos brancas, duma maciez fina de camurça, e partiu.

Na rua, atravancada por enorrnes e pesados carros toscos, arrastados por muitas juntas de 
bois magros, escapados da devastação do gado, carros de pesadas rodas inteiriças e 
oblongas para que as excrescências do círculo, os tombadores, diminuíssem o esforço da 
tração, sobrecarregados de fardos, caixas de víveres e mercadorias, amarradas entre os altos 
fueiros; por entre eles e os bois, deitados, rendidos de fadiga, e ruminando tranqüilos, 
sonolentos, e os lábios cinzentos, lubrificados de baba espessa, deslizava a intérmina 
torrente de retirantes andrajosos, esquálidos, torpemente sórdidos, parando de porta em 
porta, a mendigarem uma migalha, ossos, membranas intragáveis, os resíduos destinados a 
repasto de cães.

No largo da feira, a aglomeração asfixiava em redor das vendas ambulantes de 
mantimentos, expostos em caixões, sacos, sob os tamarineiros, trapiás frondosos, à sombra 
de toldos de estopa, manchada de largos remendos variegados.

Magotes de crianças nuas, de hedionda magreza de esqueleto, de grandes ventres, obesos e 
lustrosos como grandes cabaças, lançavarn olhares, terríveis de avidez, sobre pilhas de 
rapaduras, grandes medidas de quarta, desbordantes de farinha e feijão, pencas de bananas, 
rimas de beijus, alvíssimas tapiocas, montes de laranjas pequeninas e vermelhas, colhidas na 
véspera, nos pomares murchos da Meruoca.

Os míseros pequenos, estatelados ao tantálico suplício da contemplação dessas gulodices, 
atiravam-se às cascas de frutas lançadas ao chão, e se enovelavam, na disputa desses 
resíduos misturados com terra, em ferozes pugilatos. Era indispensável ativa vigilância para 
não serem assaltadas e devoradas as provisões à venda, pela horda de meninos, que não 
falavam; não sabiam mais chorar, nem sorrir, e cujos rostos, polvilhados de descamações 
cinzentas, sem músculos, tinham a imobilidade de coiro curtido. Quando contrariados ou 
afastados pelos mercadores aos empuxões e pontapés, rugiam e mostravam os dentes roídos 
de escorbuto. Eram órfãos quase todos, ou abandonados pelos pais; não sabiam os próprios 
nomes, nem donde vinham. Privados de memória, bestificados pela carência de carinhos, 
anestesiados pelo contínuo sofrer, eram esses pequeninos mendigos gravetos de uma 
floresta morta, despedaçados pelos vendavais, destroços de famílias, dispersadas pela 
ruptura de todos os laços de interesses e afetos.

Às vezes, a morte os surpreendia durante o sono, junto de um tronco ou na soleira de uma 
porta. Trespassavam como pássaros, sem contorções, sem estertor, sem um gemido, 
silenciosos, tranqüilos, num sossego de morte, num sossego de liberdade.

Luzia atravessou, rapidamente, o largo da feira, evitando o contacto e desviando os olhos 
dos grupos de mendigos nauseabundos, pois se ainda não habituara ao pungente espetáculo 


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da miséria ínfima, degradada e feroz. Empolgada pela comoção da entrevista com 
Alexandre, pelas palavras de conforto da sua adorável protetora, rememorando o que esta 
lhe dissera sobre o amor e o ciúme, quase esbarrou em Crapiúna, que a saudou cortês; e, 
bamboleando em ademanes amáveis, arriscou:

- Adeus, feitiço...

A moça estremeceu de susto, fez um gesto de cólera, e seguiu mais depressa.

- Você não tirou ainda o juizo da Luzia-Homem? - perguntou a Crapiúna o Cabecinha, que 
fazia com ele, o serviço de policiar a feira.

- Qual o quê!... - respondeu o soldado, carregando a caraça, muito despeitado - Aquilo é 
uma fera, braba como cascavel; mas hei de amansá-la por bem ou por mal...

- Aquela mesma não cai com duas razões...

- Há de ser como as outras: muita soberba, muito luxo... tudo bobages. A demora é a gente 
teimar e esperar com paciência. Já lhe teria dado uma ensinadela se o estupor do Delegado 
não estivesse atravessado comigo...

- Eu acho que você faz mal em se meter com a vida daquela mulher...

- Já agora é impossível recuar. Por causa daquela não-sei-que-diga tenho perdido noites de 
sono, maginando na raiva que ela tem de mim, só poroue me engracei dela...

- Só faltava dar o Crapiúna, em namorado sem ventura.

- Não caçoe, Cabecinha. Há mulheres mandingueiras, que põem na gente um veneno que só 
elas podem tirar. Fica-se tomado por dentro de uma dor que não dói, mas sofre-se sem saber 
porquê; não se tem onde botar o corpo; não há cama nem rede, que caiba a gente; finge-se 
não fazer caso; procura-se distrair com outras mulheres, como quem se embebeda para ficar 
valente, ou para esquecer... Tudo peta... O veneno vai queimando o sangue, faz febre, dor 
de cabeça e fastio. E o coração vai inchando, crescendo, até que estoira...

- Você, então, cabra velho, está mesmo ervado?... Tibes! Que cobra te mordeu!...

- Não tenho a vida para negócio; nem conheço a cor do medo; nunca fiz caso da morte, e 
queria ter de anjos para acompanharem a minha alma, as vezes que tenho visto boca de 
bacamarte e faca de ponta em cima de mim ... mas, fico mesmo mole diante dessa mulher 
encantada; fico sem ação e aluado, quando ela passa por mim, e me repuna...

- O melhor, já lhe disse, seu Crapiúna, é pensar noutra coisa.

- Isso é bom de dizer... Nem que queira não posso. É urna desgraça. A você, que é amigo, 
posso falar a verdade. Tenho feito tudo para reduzi-la. Lembrei-me até de botar dormideira 
na jarra d'água...

- E se ficar doente; se morrer?!



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- Não há perigo. A Joana Cangati sabe fazer a mandinga. Mas o diabo da velha Zefinha não 
dorme; passa a noite tossindo e gemendo; e, agora, havia a Teresinha de se meter de gorra 
com elas para me atrapalhar. Tem-me dado vontade de torcer o pescoço daquela galinha...

- Você está se metendo numa rascada...

- Saberei manobrar para me desapertar, quando for preciso. Agora, estou esperando que ela 
se desengane do ladrão do Alexandre...

- Qual! Mulher, quando principia a querer bem, fica viciada: larga um, arranja outro.

- Aquela não é dessas. Luza é séria...

- Ora, adeus, seu Crapiúna. Quando dorme...

- E honrada...

- Só se for na testa.

- Já lhe disse.

- Está bom; está bom!... Não vale se zangar por tão pouco. Nada tenho com isso. Você 
mesmo é quem está puxando conversa... Arrume-se com a sua donzela, ruim de amansar, e 
seja muito feliz. Faça-lhe bom proveito aquela jóia.

- Também maldei que aquilo tudo era soberba, luxo ou aleijão da natureza, mas entrei a 
especular a vida, os particulares dela, e, verifiquei que é mesmo dura como pedra. Quanto 
mais certeza tenho, de ser ela bem procedida, mais o diacho da rapariga se me encravilha na 
cabeça. Eu não gosto de mulher que me azucrine, mas também refugar como aquela é da 
gente desesperar.

- Por que não lhe prometes casamento?

- Se ela não me quer ver nem pintado... Além disso, por mal dos meus pecados, sou casado.

- E a mulher?...

- Sei lá. Não combinava com o meu gênio, nem pegava do meu jeito... Era um demônio em 
figura de gente, rezinguenta e respondona. Um dia, brigamos mesmo de verdade: dei-lhe 
uns pescoções, e o diabinho anoiteceu e não amanheceu. Levantei as mãos para o céu. Boi 
solto, lambe-se todo...

- Por essas e outras, é que nunca fiz semelhante asneira. Para peso, basta a granadeira e a 
mochila.

- Deixe lá... Sempre é bom ter quem pregue botões na farda, engome as calças, a tempo e à 
hora.

- Se contas com aquela, ficas desabotoado toda a vida. Tome o meu conselho, seu Crapiúna. 
Quem me avisa, meu amigo é. Deixe a Luzia de mão. Olhe que lhe acontece desgraça, 


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quando menos pensar. Você tem sangue na guelra e o coração perto da goela. Tome 
cuidado.

- Sei o que hei de fazer, e ando de rédeas tesas. Quando a vejo, ardo por dentro; dá-me 
vontade de reinar, mas fico quieto e mudo como cascavel de tocaia, esperando a minha vez 
para dar bote certo. Então nem reza de cigano, nem oração de padre velho a livra de mim. 
Eu cá sou homem de tenência. Quando viro a cabeça para uma banda, nem o diabo a 
endireita...

Crapiúna sacou da ilharga uma grande faca, fina e pontiaguda, e pôs-se a cortar um pedaço 
de fumo mapinguim para fazer um cigarro.

- Que bonita faca! - observou Cabecinha.

- Pasmado verdadeiro. Traspassa uma moeda de dois vinténs - disse Crapiúna, fazendo 
vibrar com a unha o gume afiado. - Ah! se este ferro falasse!...

- Vamos ali, ao Antônio Benvindo, tomar uma terça?

- Vamos lá, mas só tomo zinebra.

- Está feito.

Os dois soldados se dirigiram para a bodega, continuando a conversar.

O sol dardejava, a pino, intensa luz sobre o largo da feira, coalhado de gente. Redemoinhos 
intermitentes revolviam o pó cálido, que se elevava em espirais, envolvendo retirantes e 
mercadores em bulcões amarelados e sufocantes.





XVI

Desde esse dia, cessaram as visitas de Luzia à cadeia. Teresinha tomou a si, com prazer, a 
piedosa incumbência de levar comida ao prisioneiro, que a recusou tenazmente.

- Deixe-se de asneiras, seu Alexandre - disse-lhe ela - Isto até parece desfeita. A Luzia não 
vem afetiva como dantes, porque não pode mais faltar ao serviço; e, agora, que a tia Zefinha 
vai melhor, não há mais desculpa para estar recebendo a ração sem trabalhar. Poderia vir à 
tarde, mas você sabe que, depois das quatro horas, não deixam mais falar com os presos.

- Não me iludo - respondeu-lhe o moço, em tom de funda tristeza - Luzia desconfiou de 
mim. Acreditou, talvez, na história da Gabrina, ou supõe que tenho alguma coisa com 
aquela grande mal-agradecida.

- Não suponha que ela esteja amuada... Qual o quê!... Aquela não se afoga em poucas águas, 
e a prova é que continua a fazer o possível para obter a sua soltura...



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- Sei; mas somente para mostrar agradecimento e não por merecimento meu. Sinto que está 
tudo acabado entre nós. Luzia é decidida, e bem percebi que não tinha mais nada que 
esperar quando me disse, francamente, aí, nesse lugar em que você está agora: - quando for 
solto, cada um de nós tomará o seu rumo.

- Mas, por isso, não deve recusar o de-comer, que ela mesma preparou com tanto gosto.

- Não há mais razão para repartir comigo a porção, que mal chega para ela e a mãe.

- Pensei que só nós, mulheres, éramos caprichosas.

Desenganada de vencer a formal recusa de Alexandre, Teresinha distribuiu a comida pelos 
meninos, que estavam ali de visita aos pais presos, generosidade que lhe valeu 
agradecimentos de uns e, de outros.

Luzia voltara, com efeito, a trabalhar na penitenciária do rnorro do Curral do Acougue.

As paredes mestras estavam quase concluídas: trabalhava-se com afinco no madeiramento 
da coberta, e já estava em construção a muralha em volta do edifício, formando um recinto, 
onde os sentenciados pudessem trabalhar ao ar livre, ou sob telheiros destinados às oficinas. 
Nas barracas improvisadas moirejavam carpinteiros, de troncos nus e suarentos, no preparo 
das grandes vigas das amendoeiras e tacanieas do tabuado para o soalho e portas e da obra 
de esquadria. Ao ruído das enxós, falquejando o rijo pau-d'arco, ao sibilar das plainas e 
cepilhos raspando das pranchas de cedro, longas espirais encaracoladas e cheirosas, 
misturavam-se a dos malhos nas bigornas sonoras, onde grossos vergalhões de ferro, 
candentes nas extremidades, disparavam chispas de encontro aos aventais de coiro dos 
ferreiros, enegrecidos de fumaça e carvão, fabricando grades invencíveis, junto dos grandes 
foles ofegantes, como pulmões de um monstro.

A negra torrente de retirantes operários deslizava pela encosta áspera, em marcha de cobra, 
conduzindo materiais. Era o mesmo vai e vem ininterrupto de homens, mulheres e crianças 
envoltos em rolos de pó subtil, magros e andrajosos, insensíveis à fadiga, ao calor de 
culminar passarinhos, taciturnos uns, os semblantes deformados por traços denunciadores 
de íntima revolta impotente; outros, resignados, como heróis, vencidos pela fatalidade; 
muitos, alegres e sorridentes, cantavam e brincavam, como criaturas felizes de encontrarem 
refúgio do assédio angustioso da fome, da miséria, da morte.

Quando Luzia se apresentou ao apontador, houve um movimento geral de surpresa e 
curiosidade. Ninguém a esperava ver de novo; era considerado morto ou emigrado o 
trabalhador que desaparecia da obra. Notavam que estava mais esbelta, graciosa, a cor rnais 
clara pelo repoiso de alguns dias. Havia misteriosa alteração no seu semblante. As vigorosas 
linhas de energia máscula se contraíam em curvas melancólicas, e, nos olhos meigos, 
flutuava a sombra do ideal morto entre chispas fulvas de anelos incontentados. As atitudes 
lânguidas e os gestos lentos denunciavam fadiga moral, ou a preguiça voluptuosa das felinas 
amorosas. Dir-se-ia que se lhe haviam atenuado os tons varonis, e, da crisálida 
Luzia-Homem, surgira a mulher com a doçura e fragilidade encantadora do sexo em plena 
florescência suntuosa. Irradiavam dela fluidos de simpatia, empolgando os companheiros de 
infortúnio, como prestigiosa transfiguração. Estes não experimentavam já a repulsa que lhes 
causava a moça bisonha, arredia, taciturna, sempre enrolada no amplo lençol de mandapolão 
branco.


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- Como está mudada! - murmuravam as mulheres.

- E não é que a Luzia está ficando bonita! - diziam os rapazes, mutuando olhares sensuais.

- Parece que esteve doente.

- Só se foi de mal de amores.

- Quem sabe? Amor não mata, mas maltrata.

- Qual, mulher! Aquilo é o cansaço de estar fazendo quarto à mãe, que estava vai-não-vai. 
Não há nada para escangalhar uma criatura como labutar com doentes...

- Ela é um tanto soberba, mas é boa filha até ali.

- Quem é bom filho, é bom em tudo o mais - observou um velho.

Os comentários chegavam aos ouvidos de Luzia, como ecos do murmúrio de maldição, que 
a perseguia por toda a parte, até na igreja, no trabalho, quando atravessava a multidão de 
retirantes.

E ela, que antes os afrontava em retraimentos de cólera mal contida, estremecia, agora, 
pálida e tímida, em angustioso sobressalto de consciência perturbada por inteira e 
desconhecida mácula, estranha sombra de homem projetando-se no vácuo, que a inocência 
lhe deixara no coração, como a pegada de um crime, ou o espectro de um remorso. Devia 
ser assim cruciante, o primeiro momento após o pecado: a alma escondida, envergonhada e 
temerosa, nos mais íntimos refolhos das entranhas profanadas, aguilhoadas pelos instintos 
insaciados, agueados pelo gozo revelado, traída por eles, delatores impudicos e implacáveis. 
Através do corpo diáfano, penetrariam depois olhares da turba, compassivos ou rancorosos, 
devassando as peripécias e os destroços da secreta luta, e condenando a vítima, que não 
pudera vencer.

Luzia só se confessava culpada de haver perdido a energia inflexível, que a preservara até 
então, como invulnerável coiraça, sem a qual não tinha já integridade moral para resistir a si 
mesma, varrer do coração essa indelével imagem de homem, libertar-se do tormento de 
senti-la transfundida no seu ser, misturada com o seu sangue e os seus pensamentos. 
Ímpetos de rebeldia, assomos de reação esmoreciam na delícia de capitular, e sucumbir 
aniquilada. E se lhe figurava que toda a gente em derredor, amigos, indiferentes, 
adversários maliciosos, grandes e pequenos, testemunhavam os seus impotentes esforços, de 
passarinho fascinado pela cobra, a luta desigual, o prazer com que ela se deixava vencer, 
apoucada e débil.

O administrador da obra, seu protetor, percebera a transformação por que passara, 
designando-a para trabalhar com as costureiras.

- Sabe, Luzia - disse-lhe ele - A senhora do Promotor pediu-me que não lhe desse serviços 
braçais. Ela se interessa muito por você, como eu, como todos que a conhecem. Era também 
intenção minha deixá-la repousar. Está-se vendo quanto a fatigaram os cuidados, os 
vexames sofridos pela saúde de sua mãe.


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Luzia baixou os olhos, e corou humilhada. Preferira à ocupação sedentária de costureira, 
continuar na faina de carregar água nos grandes potes, que estavam servindo de depósito, 
conduzir telhas em companhia daqueles infelizes, que vergavam ao peso de uma dúzia 
delas, ir às caieiras longínquas buscar tijolos nas altas tulhas, que ao Paulo, francês, se 
haviam afigurado paredes na cabeça de uma mulher, rolar pesados madeiros, grandes 
pedras, trabalhos que lhe exercitassem os músculos e lhe produzissem o atordoamento da 
fadiga.

Acudiu-lhe, então, à memória, a quadra da infância, passada no Ipu, em casa da mestra que 
lhe ensinara ler; os cocorotes e castigos sofridos por não resistir ao sono, quando condenada 
a ficar dias inteiros sentada diante de uma almofada a trocar bilros crepitamos, entretecendo 
delicadas rendas e curtindo a nostalgia do ar livre e puro nos campos verdejantes e floridos 
da fazenda Ipueiras.

Mas... era forçoso submeter-se à ordem do administrador, tão bom e compassivo, que lhe 
dera muitos dias de licença para tratar a pobre mãe enferma.

Na maioria das barracas, em forma de meia-água, coberta de folhas de carnaubeira, Dona 
Inacinha, que, desde as missões do padre Ibiapina, renunciara os efêmerosgozos mundanos, 
para se fazer beata professa, distribuía o serviço de agulha em tarefas. A Luzia, coube um 
enrolado de algodãozinho, onde estava cravada uma agulha, atravessando um molho de 
linha e sustentando, subposto, um dedal de cobre.

- Cosam com muito cuidado - recomendou ela às costureiras - que isto é trabalho especial 
para a comissão de senhoras, que me mandou seis peças de fazenda para desmancharmos 
em roupa. Não quero obra de carregação como a dos sacos. Vejam que as mãos estejam bem 
lavadas, pois tenho singular implicância com a costura suja.

Luzia ocupou o primeiro lugar vago, distanciada das outras, surpreendidas com o vê-la ali, 
quando trabalhava sempre com os homens; enfiou a linha na agulha e estava muito 
atrapalhada com o adaptar e alinhavar peças já cortadas, quando Dona Inacinha se acercou, 
como sempre, enfezada e rabugenta.

- Você parece que nunca viu costura - rosnou, em tom de áspero remoque - Tamanha 
mulher, e não sabe por onde há de começar um par de ceroulas de homem.

Luzia sentiu subir-lhe ao rosto, impetuosa onda de sangue.

- Olhe - continuou a beata, armando sobre o nariz rubro e adunco, grandes óculos de latão 
com as hastes ligadas em torno da cabeça por um cadarço preto, lustroso de banha - 
primeiro as pernas pospontadas e sobrecosidas; depois o gavião em separado, terminando 
nesta tira que serve de cós. Você ajunta as duas pernas, cosendo-as no gavião com as 
preguinhas que forem necessárias para dar certo. No meu tempo, dava conta de duas por dia 
sem me cansar.

As companheiras de trabalho sorriam, ironicamente, da lição e do desazo de Luzia, confusa 
e amesquinhada, injustamente, porque sabia coser bem e depressa, mas não estava habituada 
a fazer roupas masculinas.



[Linha 3400 de 6979 - Parte 3 de 5]


Aquela tarefa, escolhida ao acaso, era um prolongamento da obsessão que a torturava; 
avivava-lhe, a cada ponto da agulha, a lembrança do prisioneiro a pungir-lhe o coração com 
o remorso de o haver abandonado num ímpeto de despeito, ciúme ou capricho pueril que ela 
tentava em vão justificar com o pretexto de preservá-lo da influência funesta com que a 
marcava o destino. Causava-lhe, também, imenso dó o haver deixado, com desdém, no 
parapeito da grade da cadeia, os cravos vermelhos, emurchecidos nos seus cabelos, ao calor 
do seu seio, onde os guardara carinhosamente, como um talismã prestigioso.

E assim passou o dia, até que o martelo do mestre da obra anunciou a terminação do 
trabalho, batendo, rijo, cadenciados golpes secos, vibrantes, sobre uma das tábuas dos 
andaimes.

Luzia ergue-se aliviada, entregou a tarefa concluída, e partiu, ansiosa por ver a mãe e 
Teresinha, que lhe daria notícias de Alexandre, notícias más porque ele devera ficar 
magoado, vendo-se tratado com tanto rigor por quem lhe devia, pelo menos, favores 
inestimáveis, desses que impõem o suave jugo de gratidão imperecível.

Justificando-se, ela ponderava que, em consciência, o reconhecimento não a obrigava ao 
extremo passo de consagrar-se para sempre a um homem preso, sob a imputação de um 
crime grave, envolto em densa atmosfera de suspeita, quando ela tinha outros deveres 
sagrados que cumprir, velar pela mãe e conservar a própria vida, ameaçada pelo assédio 
cada vez mais apertada de privações e miséria. Estava pagando a dívida de gratidão com o 
empenho sincero em libertá-lo. Demais, não se expusera, todos os dias, ao vexame de 
encontrar o soldado maldito? não repartira com ele o seu pão minguado? não chegava ao 
extremo sacrifício de afrontar a vergonha de vender os cabelos por causa dele?

Não, a consciência não a acusava,, mas outra vez, mais forte, vibrava dentro de seu peito, 
em acentos dolorosos, exprobando-lhe a covardia cruel de só haver abandonado o desditoso 
moço, quando, entre os dois, surgiu a figura odiada da mulher delatora, amante impudica, 
que apregoava a própria infâmia, carícias pagas com o produto do crime, e se vangloriava de 
haver provocado a ruína de um homem de bem. E a sinistra voz, que a vergastava, 
prosseguia em tom mais brando e carinhoso: Seja ele, embora, culpado; tenha sucumbido à 
tentação em momento de síncope do senso moral; ame outra menos digna; é um desgraçado, 
cuja sorte está ligada à tua por laços fatais, inquebrantáveis. O teu lugar seria junto dele, 
consorte do infortúnio, ajudando-o a carregar, o peso da sua falta, a arrastar a calceta, 
deprimente... porque o amas... Entretanto, Alexandre é inocente e sofre duplamente, porque 
lhe infringiste a tua desconfiança. Vai, mulher caprichosa e bárbara, prostra-te aos seus pés; 
unge-lhe as mãos impolutas com o bálsamo das tuas lágrimas, com os teus beijos de virgem, 
e pede-lhe perdão da tua fraqueza vil. Não lutes, debalde, contra o destino inexorável. 
Aquelas pobres flores murchas se radicaram no teu duro coração, como o cardo à rocha, e 
revivem enseivadas com o suor da tua angústia, coloridas com o teu sangue, 
envenenando-te com o filtro mágico e inebriante, que destila emanações de fragância 
suavíssima.

Luzia acelerou a marcha para chegar a casa, encontrar pessoas amigas e evitar a sugestão 
daquela voz íntima e eloqüente, que lhe derrubava todos os meios de defesa, engendrados 
para resistir ao secreto impulso, preservá-la da sorte de Teresinha, pranteando o homem 
cruel que a maltratava e relembrando, com saudade, a sua sensualidade, impetuosa e brutal 
como a dos toiros bravios; para ficar livre de eleger, oportunamente, aquele que deveria 
completá-la, que lhe abriria as portas do céu às aspirações de moça; ou o homem que ela 


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empolgaria num atrevido lance poderoso, como o dos gaviões arrebatando a presa, 
conquistando-o vitoriosa.

No seu espírito inculto, essas idéias se chocavam em confusão, aterrando-a; sobre o tumulto, 
ardido fragor de peleja encarniçada, permanecia, dominando-o, inconfundível como um 
clangor de clarim, a sedutora, a máscula voz do demônio tentador...





XVII



O beco da Gangorra terminava na várzea, que o rio Acaracu inundava nas cheias, em um 
renque de casas velhas habitadas por michelas e soldados do destacamento. Belota ocupava 
uma delas, paredes-meias com o quarto de Teresinha, que só ali aparecia, raramente, para 
mudar de roupa, ou, consoante ela dizia, vigiar os seus teréns, um baú tauxiado de pregos 
doirados, uma pequena mesa desconjuntada, o pote d'água e alguns objetos de cozinha.

A porta de Belota, quase ao escurecer, Romana, Joana Cangati e Maria Caiçara 
conversavam acocoradas e cigarreando, muito desenvoltas e palradeiras. Romana, sempre 
roliça, com os cabelos duros de pomada cheirosa, aljofrada de empolas de suor adiposo, a 
ponta do nariz curto e arrebitado, e mostrando os dentes pontiagudos, contava casos 
escandalosos, que as outras contestavam, ou ampliavam e comentavam com insinuações 
picantes e grosseiras, ou se espraiavam em mexericos triviais sobre a crônica da ralé. Joana 
Cangati, a mais séria das três, metida a rezas e bruxarias, desde que por uma praga, irrogada 
pela mãe, ficara com o útero escangalhado de um aborto, obra do demônio, porque a 
consciência não a acusava de haver feito por onde, dava-se certo recato e modos de mulher 
séria, muito temente a Deus. Maria Caiçara, bem conformada, galante rapariga, a qualquer 
graçola de Romana, despejava o riso em gargalhadas estrídulas.

- Então - dizia Romana - o tal Alexandre está cada vez mais embrulhado.

- Não sei - observa a Cangati - Quem havera de dizer?! Eu, meu Deus perdoai-me, não vi 
ele furtar; por isso não digo nada; mas há coisas que só pintadas pelo cão...

- Qual o quê! - continuou Romana - a Gabrina que o diga. Quando soube que ele estava 
todo babado pela Luzia-Homem, desembuchou e contou tudo...

- O que ciúme não fizer...

- E fez muto bem, sa Joaninha. Você, comparando mal, quer bem a um homem, tem 
confiança nele, nas suas promessas, se ele não lhe corresponde e atraiçoa, não tem mais 
obrigação de guardar fidelidade. Não é?... Não faltava mais que estar empatando a rapariga 
com outra de olho e já de casamento tratado. Iam embora juntos e, muito que bem: a 
Gabrina que ficasse com os beijos com que mamou ou com cara de besta...

- Pois eu - atalhou a Caiçara - só quero quem me quer. Entojou de mim?... Melhor!... 


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Homens não faltam.

- É porque você, mulher, nunca teve paixão de fazer a gente perder noites de sono...

- Paixão é bobage, sa Joana...

- Então você não sabe que a Gabrina queria bem ao Alexandre, calada, sem dar 
demonstração. Andava atrás dele bebendo ares; ficava horas esquecidas na porta do 
armazém da Comissão, olhando pra ele com olhos melados de piedade que parecia quererem 
engolir vivo o moço?...

- Histórias...

- É o que lhe digo, por esta luz. Deus dê muitos anos de vida a quem ela pediu uma oração 
forte, a do "Santo Amâncio te amanse", para amolgar coração de homem ingrato.

- E aquela bestalhona acredita na virtude dessas bruxarias? 

- Bruxarias?!... Bata na boca, Romana, para não ser castigada. Com santo não se faz 
mangação.

E a Cangati entrou a contar casos assombrosos, que não conseguiram dominar o cepticismo 
de Romana.

- Mas - ponderou Caiçara - se ela estava mesmo caída pelo Alexandre, como é que foi 
contar a história do dinheiro e dos cortes de vestido dados por ele, e agora anda toda 
derrengada com o Crapiúna?

- Tudo por pique. Ciúme faz reinação do demônio, e torna uma pessoa boa malvada como 
uma cascavel. Depois ela e Crapiúna se entendem; sofrem do mesmo mal; andam os dois 
com o juízo entornado: ela pelo Alexandre, ele pela Luzía-Homem. Não sei como isso 
acabará. Talvez nalguma desgraça...

- Qual desgraça, qual nada. É uma coisa que se vê todos os dias. Desenganados, cada um 
vai para a sua banda cuidar em outra coisa... Amor desencontrado.

- É porque você não conhece o Crapiúna, nem a Gabrina. Ele é o que se sabe, capaz de tudo, 
até de mandar gente desta para melhor; ela, uma bichinha teimosa como uma mosca, e 
ruinzinha que faz dó. Não se me dava de jurar que ela inventou aquela história para 
desgraçar Alexandre... Ronha não lhe falta.

- O quê?!...

- Cala-te boca... Não está mais aqui quem falou... Façam de conta que não ouviram nada.

- Você que diz isso, sa Joana, é porque sabe alguma coisa.

- Não sei nada. É uma cisma que tenho.

- Ela não tinha astúcia para inventar uma história tão bem contada, tão cheia de 


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circunstâncias. Se não foi do furto, quem lhe deu dinheiro para comprar um par de brincos 
de ouro?

- Sei lá! Não quero esmiuçar a vida dela, nem a de ninguém; mas vocês não a conhecem, 
repito: é capaz de dizer que Deus não é Deus e não há ninguém mais manhosa debaixo 
daquela sonsidão de menina!

- O quê, sa Joana; você parece que inticou com a rapariga!

- É muito arrebitada e mal-ensinada; mas eu até gosto dela...

- Olhem quem está ali - exclamou Maria Caiçara, apontando para Teresinha, que abria a 
porta do quarto.

- Bons olhos a vejam - disse a Cangati, com modos amáveis. - Por isso é que a tarde está 
tão bonita!...

- Boas tardes - respondeu Teresinha, secamente.

- Por onde tem andado, que mal pergunto?

- Por aí mesmo... - tornou Teresinha, entrando para evitar bisbilhotices, e dar trela às três 
vadias, muito do seu conhecimento como catanas, que nada poupavam.

Belota mantinha tavolagem, frequentada por parceiragem de ínfima condição e 
mal-afamada, Zé Zoião, Cândido da Bertolina, exímios artistas da vermelhinha, operosos 
contribuintes da estatistica criminal e heróis de todos os distúrbios que agitavam a paz da 
cidade. Eles se encarregavam de atrair as vítimas: comboieiros e matutos ingênuos; e, 
depois, como viciosos de raça, repartiam, ao jogo, as quotas das extorsões.

Crapiúna era freqüentador assíduo, principalmente quando se jogava o monte, partida de 
sua predileção.

Os outros parceiros não se davam bem com ele, por ser muito rezinguento. Por qualquer 
pretexto, armava barulho e, muita vez, estivera a pique de fazer água suja, inconveniente aos 
créditos da casa. 

Desde que tomara a peito quebrar o encanto de Luzia-Homem, andava-lhe a sorte 
arrevesada. Perseguia-o um caiporismo incessante, que o tornava ainda mais irritadiço e 
trêfego, principalmente quando Belota, chasqueando, insinuava que ele estava contra o 
sentido do rifão, sendo infeliz no jogo e no amor, e atribuía as perdas consideráveis, que ele 
sofria, ao fato de andar com o juizo passeando, em vez de fixá-lo nas cartas ensebadas e 
sujas do baralho, recurvado em forma de telha pela pressão do partir, repetindo-lhe a cada 
pexotada, que jogador não guarda cabras.

Nessa tarde, o jogo fervia lá dentro, e as três mulheres continuavam a grasnar, aguardando 
as gorjetas dos afortunados, e fazendo de vigias para avisarem aos jogadores a aproximação 
do sargento Carneviva, que era um duende para os soldados. Em achando banca armada, 
podiam os viciosos contar com os mais severos castigos, o serviço dobrado com mochila às 
costas em ordem de marcha e sarilho, quando não eram esfregados com surra de espada de 


[Linha 3600 de 6979 - Parte 3 de 5]


prancha, ou de cipó de raposa.

Crapiúna estava num dos seus piores dias. Perdera já quantia tão avultada, que os parceiros 
procuravam, surpreendidos, atinar onde arranjara ele tanto dinheiro. Os prejuízos montavam 
a vinte que haviam passado, suavemente, para os bolsos do Zoião e do Cândido, nos quais 
Crapiúna encarava desconfiado, atribuindo a batota, em que eram useiros e vezeires, 
tamanha fortuna.

- O Senhor - disse-lhe Zoião, cravando-lhe, de esguelha, os grandes olhos esbugalhados - 
parece que está maldando de nós!

- Não estou maldando - resmungou Crapiúna - mas tanta sorte junta é de fazer a gente 
desconfiar...

- Pois se desconfia - avançou o Vicente, em jeitos arrogantes - o remédio é não jogar mais 
nós. Veja o seu Belota se se queixa...

Cândido, velhaco e pouco expansivo, não falava, exasperando com um sorriso irônico, o 
soldado infeliz.

- Não me queixo - observou Belota - porque estou com o juízo no jogo. Você, Crapiúna, 
não tem razão. Estou com um olho no padre e outro na missa, e não admitiria trapaça... 
principalmente em minha casa.

- Nem nós seríamos capazes de abusar... - acrescentaram, quase ao mesmo tempo, os outros 
parceiros, com uma vasta exibição de escrúpulo.

- Vocês são capazes de tudo! - tornou Crapiúna, irritado.


- Veja como fala!

- Tenho visto o que fazem com os matutos. Comigo fia mais fino... Se eu perceber qualquer 
tramóia...

Foi-se azedando a discussão até falarem todos, em tumulto, trocando injúrias e doestos, 
apesar da intervenção conciliadora de Belota, para evitar um conflito.

Teresinha, que fechara a porta da rua para mudar de roupa, foi atraída pelo rumor e não 
resistiu à curiosidade de saber donde provinha. Dirigiu-se, cautelosamente, ao pequeno 
quintal; e, firmando os pés nas fendas dos tijolos carcomidos, guindou-se acima do muro 
que dava para a casa vizinha. Daí descortinou a tumultuosa cena, a fúria de Crapiúna, as 
ameaças dirigidos aos parceiros venturosos, às réplicas destes, cheias de malícia irônica, 
audaciosos, porque, aliados como estavam, não se arreceavam do insolente soldado, nem 
eram homens que morressem de caretas, mesmo das mais pintadas.

Chegou o momento em que esteve iminente a conflagração. Vicente, sempre calmo, sempre 
sorridente, considerava, que tanto direito tinha Crapiúna de desconfiar deles quanto estes; 
entretanto não o faziam, porque não queriam cascavilhar na vida alheia.



[Linha 3650 de 6979 - Parte 3 de 5]


- Para saber - atalhou o Cândido - onde você desenterrou botija para ter tanto dinheiro para 
perder.

- Olhe - acrescentou Zoião - se eu quisesse falar era capaz de o desgraçar...

Crapiúna estremeceu, e levou, de repente, a destra ao cabo da faca, escondida debaixo da 
farda.

- Pois fale, seu miserável - bradou ele, ganindo de raiva que te hei de obrigar a morder a 
língua danada.

- Olha Zoião, meu amigo Crapiúna - implorava Belota, entre os dois. - Nós somos todos 
amigos velhos. Para que este baticum de boca... Daqui a nada ouvem lá fora... Pelo amor de 
Deus... Seu Candinho, você que é mais moderado tenha mão no Zoião, mais no Vicente...

- Pois então, seu Belota - ajuntou Zoião, com os olhos faiscantes - era o que faltava, um 
indivíduo...

- Depois digam que sou eu quem está intimando!...

- Que - continuou Zoião - não pode levantar a cabeça diante de homens de mãos limpas, 
querer ter voz altiva para insultar os outros!... Tenha mão nele, que é soldado como você e 
deve respeitar a farda...

Crapiúna rosnava, acovardado, como fera acuada, subjugado pela serenidade do adversário. 
Lívido, de olhar fulvo, ensangüentado, resmoneava surdas ameaças, e Zoião, com 
inquebrantável energia, continuava:

- Não pense que digo isto por estar em companhia e aqui na casa de Belota... Sou homem 
para o senhor em toda a parte, e como quiser. Se tem Pasmado, eu tenho Pajeú, ferro de 
qualidade que nunca me envergonhou... Se o seu já quebrou o preceito, o meu também não 
está em jejum...

- Pelo amor de Deus - suplicou o Belota, com lágrimas na voz - Basta!... Basta!... Está 
acabado por hoje, meus amiguinhos da minh'alma... Vocês parecem crianças...

- Olha, cabra, toma a bênção ao Belota...

Depois desta ameaça, Zoião deixou-se conduzir pelo Cândido, que chofrou esta pilhéria:

- Até mais ver, seu Crapiúna, quando quiser a desforra... Damos lambuje...

Teresinha, espiando ansiosa, por cima do muro, lamentava o desenlace pacífco da contenda.

- Você sempre arma cada rascada, seu Crapiúna - observou Belota, ainda agitado.

- Aquele homem é um precipício - murmurou o soldado - Se não fosse você... Deixe estar 
que os desaforos não caíram no chão...

- O melhor é você não fazer caso...


[Linha 3700 de 6979 - Parte 3 de 5]



Belota, com maneiras manhosas de consumado velhaco, tinha enorme predomínio no 
camarada, que tanto era agressivo e rixoso, quanto cobarde, quando entestava um 
adversário considerável. Isto sucedera no caso da Quinotinha, a que o Alexandre defendera, 
com uma coragem evidente, bonita...

Depois de muitos conselhos e exortações, Belota pretextou necessidade de ir ao corpo da 
guarda, prometendo voltar sem demora.

Vendo que Crapiúna se dirigia para o quintal, Teresinha desceu, ligeiro, do posto de 
observação, e correu. Mal teve tempo de chegar à porta, atrás da qual se escondeu, trêmula 
de terror.

O soldado, destro como um gato, saltou por cima do muro, e dirigindo-se para o fundo, 
suspendeu um velho caixão, atulhado de coisas imprestáveis, tirou de sob o qual uma bolsa 
de coiro de onça, cheia de dinheiro.

Enquanto o soldado contava, umedecendo os dedos na língua, as notas miúdas, dilaceradas 
e sórdidas, Teresinha, no esconderijo, procurava, em vão, conter as pernas vacilantes, quase 
a vergarem. Pelos seus olhos espavoridos, passou a visão do responsório, em casa de Rosa 
Veado. Uma das sombras, aquela que, com esgares de louco, a arrebatava em volteios 
macabros pelo ar, em nuvens de fumaça sufocante, estava ali corporizada, bem nítida, 
contando o dinheiro furtada. O glorioso Santo Antônio operara o milagre. Por precaução 
criminosa, talvez para arriscá-la, Crapiúna escondera o furto, denunciá-la-ia mais tarde, e ela 
seria, como cúmplice de Alexandre, vítima de uma prova esmagadora.

Entre o terror de se achar a sós com o soldado em tão estreito espaço, ser por ele pressentida 
e descoberta, testemunhando o terrível segredo, e o prazer de haver colhido certeza da 
autoria do crime, Teresinha vacilava na resolução por tomar, sem se embaraçar nas malhas 
da rede, em que pretendia apanhar o criminoso. Teve ímpetos de gritar, de surpreendê-lo em 
flagrante, e arrastá-lo à presença do delegado. Isso, porém, seria perder-se, sacrificar-se, 
inutilmente, porque Crapiúna seria capaz de eliminá-la, estrangulá-la, sem piedade. Ela não 
poderia lutar, frágil como era e aberta dos peitos, contra um homem vigoroso e armado de 
uma faca hedionda, cujo cabo de chifre, incrustado de arabescos de oiro, surgia-lhe da 
ilharga. Ah! se tivesse os músculos de Luzia!

As pernas lhe tremiam, cada vez mais bambas; os dentes se chocavam com estalidos secos, 
toda ela tiritava inundada de suor gelado, que lhe empapava os cabelos na fronte, e lhe 
corria pelo dorso, como vermes pegajosos. A cabeça andava-lhe à roda; e, na visão 
perturbada, o soldado se afigurava desdobrado em outros iguais e pequeninos, que 
avançavam para ela com trejeitos de palhaços. A mísera debatia-se para fugir, implorar 
socorro, como na angústia de um pesadelo.

Os rápidos instantes que se ali demorara o soldado lhe pareceram infindáveis; e quando 
recobrou a posse de si mesma, saindo do esconderijo, pé ante pé, com meticulosas 
precauções, lívida, espavorida, viu que o quintal estava deserto. Nada denunciava a 
presença dele: o caixão estava no mesmo lugar, onde permanecia, havia muito tempo; 
não viu pegadas no chão, nem o mais leve vestígio.

E a bolsa?... Ela não ousava verificar se fora reposta onde a vira.


[Linha 3750 de 6979 - Parte 3 de 5]



- Seria realidade ou sonho? - ínquiria ela, procurando despertar a memória, fixar idéias e 
recompor o fato, em todas as suas minúcias - Teria, na verdade, visto Crapiúna transpor o 
muro, suspender o caixão e contar o dinheiro?...

Seria a revelação efeito da intervenção do Santo?...

Nessa dolorosa incerteza, esgotadas as forças, com os quadris doloridos, como se os 
houvesse traspassado a faca do soldado, marchou trôpega, para o interior do aposento, 
então quase escuro, e, subjugada de inelutável torpor, derreou-se na rede, armada a um 
canto.

Era quase noite. Não se ouvia mais o grazinar das três mulheres, que haviam partido para a 
delícia de um gozo, fariscando, numa insaciedade, a fortuna dos jogadores.



XVIII



O relógio da Matriz dava oito horas, quando Teresinha despertou sobressaltada, tomando 
pela claridade da aurora, o luar que se coava pelas frestas do telhado. Seu primeiro 
movimento foi para erguer-se, ir ter com Luzia, dar-lhe, como costumava, notícias de 
Alexandre, e contar-lhe a excelente novidade. Mas, o corpo enlanguescido de tão violentas 
comoções, do torpor do sono, recusou obedecer. Ela permaneceu encastoada na rede, 
encadeando idéias dispersas, e fixando bem, na memória, o episódio que duvidava ainda 
fosse sonho, ou realidade. Por fim, assaltou-a o medo de estar só na penumbra do quarto, 
povoado de fantasmas, rumores suspeios que se lhe figuravam passos de homem 
aproximando-se, hálitos ansiosos, como a sua própria respiração ofegante.

Com esforço voluntarioso ergueu-se, espreguiçou-se para distender as articulações 
entorpecidas, e abriu, de manso, a porta.

O beco estava deserto, banhado de luz intensa, suavemente argentina. Na casa fronteira, 
alumiada pela froixa luz de uma vela de carnaúba, chorava, em magoados vagidos, uma 
criança enferma, acalentada pela mãe, que murmurava monótonas cantigas, cortadas de 
suspiros. Era a angústia do coração a estoirar de pranto.

Teresinha espreitou todos os lados; fechou a porta sem estrépito, e partiu, dirigindo-se para 
a várzea, por uma estreita senda, cavada no solo, ladeado de cisqueiros, farejados, 
afocinhados de cães magros e murchos, que se esgueiravam desconfiados. Ela passou, 
depois, cosida aos altos muros do fundo dos quintais, até chegar à encruzilhada das ruas, 
cheias de escravos, retirantes, gente ,suja, gente esquálida, carregando potes d'água, colhida 
nas cacimbas abertas na areia do rio, a conversar, rezingando, em voz alta, com rasgadas 
desenvolturas de chufas, de arregaços obscenos, com risos estridentes de malícia.

Ao chegar à rua, suspirou libertada do pavor aflitivo; e, outra vez, gozando uma doce 
serenidade d'ânimo, seguiu na direção da igreja do Rosário, relembrando os incidentes 
daquela tarde, a cena do jogo, a cobardia no esconderijo, e o terror que lhe não permitia 


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verificar se Crapiúna deixara a bolsa de coiro de onça debaixo do caixão. Em todo caso, 
estava satisfeita com o haver logrado a certeza do verdadeiro criminoso, indicado pelo 
infalível, pelo glorioso Santo Antôniol, e a convicção de concorrer para a libertação de 
Alexandre e a felicidade inteira de Luzia. E reputava-se engrandecida por essa boa ação, 
renovada do passado de culpas, de crimes talvez, dos quais fora responsável inconsciente, e, 
sobretudo, a principal vítima. Entidade diminuída e inútil, flutuando sobre uma suja torrente 
de vícios incontinentes, sentia-se valorizada, sentia-se forte e sentia-se prestante. Duas 
criaturas, pelo menos, neste mundo de ingratidão, de perfídia e de miséria, seriam 
reconhecidas à sua dedicação.

Enlevada no doce conforto do beco, Teresinha foi subindo a rua do Rosário até ao largo. 
Em redor do Cruzeiro, erguido defronte da igreja, sobre um sólido pedestal de alvenaria, 
crentes, ajoelhados, rezavam padre-nossos, ave-marias e o terço, murmurado, nuns tons 
soturnos de devota cadência.

Do piedoso burburinho, sobressaía a voz de Dona Inacinha, ao recitar, com solenidade de 
padre, o gloria-patris, respondido pelos fiéis, numa algaravia, um mistifório de latim e 
português: - Os que perderem em princípio, agora im sempre por todos os séculos, seculoro. 
Amém, Jesus.

A moça prostrou-se, comovida, abeirando-se do grupo, pouco e pouco engrossado pelos 
transeuntes, de uma reverência grave, na maioria mulheres, de alvos mantos, a espalharem 
ao luar, claro como o dia. Havia muito, seus lábios se não entreabriam à floreseêneia da 
prece consoladora, nem despertava, aos eflúvios puríssimos da fé, sua alma agrilhoada ao 
pecado. Dos hábitos piedosos da infância, apenas conservava o de persignar-se antes de 
dormir, antes de tomar banho. Não se recordava da última vez que rezara, a não ser a oração 
sacrílega em casa da Rosa Veado.

Terminados os mistérios do terco, Dona Inacinha entoou, com pompa, numa voz fanhosa e 
áspera, o canto de contrição, - "Oh! Senhor Deus bem-amado...", acompanhado por todos os 
devotos, com uma dissonância aparatosa, irremediável. Aos derradeiros versículos, houve 
uma contrita, houve uma longa pausa. Recolheram-se todos com Deus, curvados e 
humildes, preparando-se para o solene epílogo do ato religioso, a súplica comovente de 
misericórdia. Quando, esta ecoou, entoada pela beata, em acentos plangentes, as pessoas, 
afastadas da igreja, reunidas em roda, na calçada, tanto que ouviam a súplica, ajoelhavam e 
batiam também nos peitos, repetindo, em leve, em sentido balbucio, a invocação à 
misericórdia divina. Teresinha curvou-se, compungida, e pediu a Deus, sinceramente, 
perdão dos seus pecados.

Ergueram-se os devotos, como um rebanho de ovelhas, espantado na malhada noturna, e 
debandaram em todas as direções, depois de beijarem o pedestal da grande cruz negra, que 
o luar destacava,,com melancólicos fulgores.

Ao toque de nove horas, desmancharam-se as rodas de confabulação amistosa; trocaram-se 
saudações habituais e arrastaram-se as cadeiras para o interior das casas, cujas portas se 
fechavam com estrépito.

Naquele tempo, terminavam a tal hora, com exceção das raras casas da fidalguia da terra, as 
visitas, fossem de cerimônia, fossem íntimas. É considerável esta nota.



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Luzia passeava, impaciente, sob a latada, cujas palhas, muito secas, farfalhavam ao violento 
embate das rajadas tépidas.

- Que horas são estas?! - exclamou, avistando Teresinha.

- Fui ao meu quarto - respondeu esta - mudar a roupa e peguei no sono...

- Pensei que te havia acontecido desgraça... Tardaste tanto... Estava num pé e noutro 
ansiosa... E ... Alexandre?...

- Na mesma. Poucas palavras e muito sucumbido... Mete dó vé-lo, coitado!

- Perguntou por mim?

- Não. Eu é que falei de você. Disse-me que não lhe podia pagar o que tem feito por ele; 
entrou a repetir que já está desesperado... Sempre a mesma ladainha.

- Tem razão. Há quase um mês que padece...

- Deixe estar que, mais dias, menos dias, se descobre a verdade. Deus há de permitir que 
isso seja breve, talvez amanhã...

- Amanhã?!... Dessa esperança estou farta.

- Não desespere, Luzia. Quem espera sempre alcança. Você nem pode adivinhar o que vai 
acontecer.

- Sabe, então, alguma novidade?...

- Não. É um palpite.

- Um palpite à-toa?...

- Lembra-se, Luzia da minha alma, lembra-se do respônsio?

- Sim. E depois?...

- Não lhe dizia eu que tinha fé no milagre? Pois é por ter fé que prevejo a próxima libertação 
de Alexandre. Diz-me o coração que ele está ali e está na rua. Ainda há instantinho rezei o 
terço no cruzeiro do Rosário, e uma voz interior dizia-me, com segurança: Deus tarda, mas 
não falha...

- Então ele nem perguntou por mim!?

Luzia prescrutava, com olhares insistentes, o pensamento de Teresinha, suspeitando que ela 
lhe ocultasse a verdade, ou que soubesse algo que, por compaixão, lhe não queria revelar. 
Essa reserva mental devera influir naquele ar de mistério, velado de ironia, palavras vagas, 
em completa discordância do gênio expansivo e alegre da rapariga, uma deleitosa criatura 
sem aspirações, resignada ao seu quinhão minguado da partilha das coisas boas deste 
mundo, feita pela Providência. Entretanto, ela testemunhava, com funda mágoa, a 


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ansiedade, o desconcerto de Luzia.

Esteve a pique de revelar-lhe o descobrimento do dinheiro; mas, por um justo egoísmo, 
desejava reservar para si, exclusivamente, a caridosa iniciativa da libertação do prisioneiro, 
se bem que não houvesse ainda atinado como tirar partido do que vira, ou tornar valioso o 
seu testemunho único, porque não ousara verificar se a bolsa ficara no lugar onde Crapiúna a 
escondera.

Era por medo, por cobardia indesculpável que se não houvera assegurado dessa 
circunstância importante, ela que tinha afrontado perigos e estava calejada de suportar as 
vicissitudes da vida? E se ele houvesse tirado o dinheiro? Tornar-se-iam inúteis o 
descobrimento, o tormento daqueles angustiados, daqueles inolvidáveis instantes, porque 
nada valeriam as suas afirmações.

Seria possível que assim se desvanecessem as esperanças da iminente vitória da verdade à 
calúnia, urdida contra o pobre moço!...

Luzia por sua vez, meditava, com os claros olhos fitos na clara lua, a librar-se no céu, de um 
fino e doce azul. Seu pensamento adejava em redor de Alexandre, que, indiferente, não 
perguntara por ela, merecedora do castigo desse desdém, e rendida à voz diabólica que, das 
entranhas, lhe bradava, com insistência lancinante: "és, culpada pelo teu excessivo 
amor-próprio, pela tua soberba!..."

Seguia-se a revolta, com assomos fanfarrões de defesa inconsistente, fútil.

- Não quer saber de mim? - pensava ela - Melhor. Fosse eu outra, faria o mesmo. 
Deixá-lo-ia entregue à sua sorte, desobrigando-me de tamanha canseira, pois muito tenho 
feito para demonstrar-lhe a minha gratidão. Talvez isso lhe conviesse para desembaraçar-se 
do compromisso de ligar à sua vida, uma mulher pobre com a mãe doente, duas bocas a 
reclamarem de comer, neste tempo de carestia, e maior soma de trabalho. Seria uma loucura 
pensar em casamento em semelhante crise. Ele, sozinho, poderia suportar privações, 
vencê-las ou sucumbir consolado de não fazer falta a ninguém, como defunto sem choro...

E Gabrina?... - Não iria esta ou outra igual ocupar, no coração vazio, o lugar que Luzia 
abandonara? Não procuraria ele, na triste conjunção do naufrágio das suas esperanças, uma 
afeição que o consolasse, um refúgio carinhoso, embora impuro de lascívia, onde se 
abrigasse para espairecer, como quem se intoxica de bebidas capitosas para curar dissabores, 
ou se afoga na vasa infecta de um pântano?

Seria horrível. E Luzia estremecia, sob um pavor, como se fora ameaçada do espólio de um 
bem inestimável, de coisa a que tinha direito sagrado, coisa que ela criara, e à qual 
transmitira parte da sua alma, planta que tratara com desvelado carinho, regada com o suor 
das suas aflições e o orvalho das suas lágrimas, ameaçada de ser desarraigado por mão 
criminosa, quando lhe desabrochavam, pujantes de viço, coloridas e perfumosas, as 
primeiras flores. Não tinha energias varonis, músculos poderosos para defender o seu bem 
querido, e esmagar o espoliador!?... Não tinha o indeclinável dever de lutar pelo que era seu, 
e constituía, já, elemento essencial da sua existência, como se defendesse a própria vida, o 
património inexaurível dos tesoiros do coração, o precioso quinhão da inefável ventura que, 
neste mundo, só no amor se encontra?



[Linha 3950 de 6979 - Parte 3 de 5]


Como puas lancinantes, esse egoísmo, que é a suma de todos os instintos da espécie, tanto 
mais veementes e indomáveis quanto menos culto é o espírito da mulher, não contaminada 
de pecado, na exuberante razão do organismo sadio, assanhava-lhe as iras, a lhe morderem 
como cobras, o coração, que lhe projetava nas veias uma torrente abrasada de ódio a 
Gabrina, a todas as mulheres que lhe disputassem a presa adorada, contra si mesma, que o 
abandonara, contra as coisas que a cercavam, testemunhando o seu penar, contra aquele 
astro radiante a iluminar a luta travada no âmbito escuro da sua alma, como lâmpada 
tristonha a revelar o monstro de paixão acuado na caverna das entranhas, latejantes de 
desejos...

Passava-lhe, então, pela mente alucinada, a torva idéia de vingar-se, rebaixando-se, de 
poluir-se, de atolar-se no charco da lascívia, saciando-se até à embriaguez, ao primeiro 
encontro, fora embora cúmplice do imundo crime, o mais hediondo dos homens. Crapiúna, 
outro qualquer, ainda mais vil e detestável, contanto que a sua depravação, com requintes 
de despejo, fizesse sofrer Alexandre, o desalmado, o frio homem, que não perguntara por 
ela, a Teresinha.

E a voz diabólica, vibrando em místicas melodias, de um tom angélico, e dominando o 
tumulto da sua alma atribulada, repetia: "Por que te golpeias assim? por que te maceras 
nessa luta mortíficante e estéril, frágil criatura?...

Vai; curva-te, como escrava, aos pés do ente adorado, beija-lhe as mãos, unge-as com o 
bálsamo do teu pranto, porque o amas... Uma exortação de alto romantismo, a dessa voz de 
anjo e diabo...

Despertou-a do cismar torturante, a voz de Teresinha:

- Que bonito luar, Luzia. Dá vontade à gente de passar a noite em claro. Como está bem 
visível! São Jorge e o cavalo empinado. Dizia-me um tapuio velho da Serra Grande que a 
lua protege a quem quer bem. Quando uma tapuia gentia tinha saudades do marido ausente, 
olhava para ela, e lá lhe aparecia o retrato da criatura querida, ou nela casavam, conduzidos 
pelos olhares, as almas do par, separado por léguas de distância.

Luzia, maquinalmente, olhou para a lua a navegar serena no céu nítido, e pensou que, àquele 
momento, Alexandre também a contemplava, triste e só, por entre as grades do cárcere 
infecto.

- A lua - continuou Teresinha. com melancolia - leva recados e juras dos noivos, e amolece 
o corpo da gente. E o tapuio dizia que ela era mãe da terra, das coisas e das criaturas vivas; 
protegia as plantações, mandando chuva e orvalho, aquecia os ninhos chocos, dava cheiro às 
flores em botão e cio aos animais. Também tirava o juizo à gente, quando se zangava... Ah! 
que saudades me faz o luar! Foi por uma noite destas, que conheci o Cazuza pela primeira 
vez... Ai, ai... Deus... meu pai...

E ela se esticava, num grande bocejo de volúpia, deitada sobre a esteira, desalinhadas, pelo 
vento, as roupas leves, os olhos quase cerrados à imortal saudade do primeiro amor, sempre 
vivo no inquieto coração devastado.

- Tomara que já amanheça - continuou, bocejando - Como custa a passar a noite!... Em que 
está você tão embebida, Luzia?


[Linha 4000 de 6979 - Parte 3 de 5]



- Eu!... Estou maginando na minha triste vida...

- Arre lá com tanto disfarce! Você, minha negra, não se abre comigo. Estava, mas era longe 
daqui, rezando à lua como as tapuias.

- Você tem coisas, Teresinha!?...

- Não chorei na barriga da minha mãe, mas adivinho. Por que não diz logo que está com o 
juizo em Alexandre?

- Como hei de pensar em quem não faz caso de mim!... Nem perguntou a você, por mim...

- Não perguntou por quê?... Porque você, por pique, não foi mais à cadeia. Você é 
caprichosa, ele também... Mas não se me dava de apostar como ambos e dois estão 
arrependidos...

- Acha, então, que depois do que houve, eu deveria entreter uma... coisa sem fundamento, 
sem esperança?

- Qual o quê! A gente faz de um argueiro um cavaleiro, fica amuada, jura por quantos 
santos, faz finca-pé... É o mesmo que nada. Quem quer bem não tem vergonha. Eu, ralada 
neste mundo, que o diga.

- E a história da Gabrina?

- Mentira, tudo mentira. Não duvido que ela levantasse, com aquela cara de santa, toda 
denguices e inocências, o falso testemunho. É uma rapariga bem-paxecida, bem feita de 
corpo, mas tem a alma deste tamanhinho. A Chica Seridó tem comido candeias, desde que 
tomou conta dela. É capaz de tudo, meu Deus perdoai-me. Não duvido que tenha feito esse 
malefício por ciúme...

- Por ciúme?...

- Pensa que todos os homens se babam por ela, e, como Alexandre não lhe deu trela...

- Demais, que tenho eu com isso? Tanto se me dá que ela goste dele, como que não goste. 
Só me empenho para ele ser livre. O mais... está acabado...

- Que soberbia, Luzia! Você ainda é castigada.

- Por quê? Se não faço mal a ninguém...

- Deixe estar. Quem for vivo verá... Não há mal que sempre dure... Amanhã!... Ali! 
miserável; tenho aqui o fio da meada!

Teresinha, como se falasse a um ente miserável, estendeu, com ar triunfante, o punho 
cerrado.

- Bem dizia eu - exclamou Luzia - que você sabe alguma coisa...


[Linha 4050 de 6979 - Parte 3 de 5]



- Ora se sei... Vai ver... Amanhã, se Deus quiser... Não; o melhor é não dar à língua... 
Espere...

E Teresinha, muito lenta, muito lânguida, entrou a murmurar, baixinho, com uma ternura 
tiritante, uma canção, da qual Luzia distinguiu bem esta quadra:

A traição, meu bem, ature:

Diga que é cega e não sabe,

Não há mal que sempre dure,

Nem bem que nunca se acabe ...





XIX



Teresinha voltou, no dia seguinte, ao beco da Gangorra, à hora da revista, quando os 
soldados estavam reunidos no quartel, estabelecido em uma velha casa fronteira à cadeia. 
No sobressalto de quem se esconde, esgueirando-se para evitar a curiosidade da vizinhança, 
entrou no quarto, e se fechou por dentro. O silêncio aumentava-lhe o susto. Foi preciso 
repoisar para adquirir coragem.

A porta, que dava para o quintal, estava entreaberta, como ficara na véspera. O caixão velho 
lá estava, regurgitando de traços, lavado de luz intensa, um contraste da penumbra do 
aposento, sem o menor sinal de haver sido desviado, ou da presença de ser humano naquele 
sítio.

Com o peito ofegante, pálida de aflição, o ouvido atento ao menor ruído, a moça ajoelhou, 
e, com um esforço sobreposse, ergueu um dos ângulos do caixão, muito pesado, muito 
cheio; e, sustentando-o de encontro ao ombro, fendeu com mão trêmula, o espaço entre o 
fundo e o chão. Seus dedos crispados experimentaram repugnante contacto. Retirou, 
rapidamente, a mão, como se a houvesse passado pela polpa ascorosa de um réptil. Um 
calefrio varou-lhe os membros, as forças abandonaram-na, e o caixão caiu, percutindo o solo 
com um som cavo.

Transida de pavor, ela esperou alguns momentos, imóvel e atenta, sempre de joelhos, 
apoiada ao muro. Recobrado o ânimo limpou com a fímbria da saia o copioso suor que lhe 
inundava o rosto, respirou agoniada, como se lhe faltasse ar; abanou-se com o vestido, 
movendo de um para outro lado a cabeça, quase desfalecida. A bolsa de Crapiúna estava 
ali. Não havia dúvida; ela havia sentido o contacto eletrizante dos pêlos do coiro de onça. 
Aguilhoada pela curiosidade de examinar-lhe o conteúdo, não ousou de fazê-lo: seus 
músculos flácidos e fatigados não poderiam repetir a exploração. Além disso, começou a 
sentir a dolorosa junção inguinal e o aperto do peito, que a acometia toda vez que era 


[Linha 4100 de 6979 - Parte 3 de 5]


assaltada por fortes abalos.

- Ah!... Se eu fosse mulher de talento, como Luzia - murmurou, desalentada, erguendo-se a 
custo.

Certa da permanência da prova do crime, restava escolher meio de utilizá-la. Seria 
necessário surpreender Crapiúna ali, quando voltasse em busca de dinheiro e obter o auxílio 
de um homem bravo e forte, capaz de entestar com o soldado, prendê-lo e conduzi-lo à 
presença da autoridade. Lembrou-se de Raulino Uchoa que era vigoroso e arrojado, quando 
menos pela brava fascinação das histórias que contava da vida aventurosa. Era, demais 
disso, amigo de Alexandre e devotado a Luzia, que o salvara dos chifres do toiro sanhudo. 
Era, porém, indispensável que ela e ele ficassem escondidos de tocaia, esperando, horas, 
talvez dias inteiros, a ocasião propícia.

Ocorreu-lhe, então, procurar o sargento Carneviva, que ela o sabia em excesso rigoroso para 
com os soldados, e andar muito prevenido com Belota e Crapiúna, por serem jogadores 
incorrigíveis. A essa idéia, duma felicidade que farte, ela vibrou de júbilo, ela vibrou de 
cólera, misturados, na mesma expansão impetuosa, os nobres anelos de vitória e antegozo 
cruel da vingança.

- Hás de Pagar o novo e o velho - exclamou ela, com ameaças, e triunfante - Hei de 
mostrar, ladrão safado, quem é tábua de bater roupa e quanto vale esta cachorra!... 

E partiu em busca do sargento.

A essa hora, estava Luzia trabalhando na oficina de costuras do morro do curral do 
Açougue.

Confiara-lhe Dona Inacinha a superintendência das meninas taludas, depois de verificar a 
sua perícia, o seu exemplar procedimento, o recato de maneiras e linguagem, tão raros 
naquela quadra de carência de nutrição física e moral. Seria ela um exemplo vivo para 
aquelas pobrezinhas, condenadas à mendicidade, órfãs ou abandonadas pelos pais, expostas 
ao contágio da infecção, que diluía as baixas camadas da sociedade, desfibradas pelo 
inominado flagelo.

Entre elas estava Quinotinha, um futuro de formas, em cujas linhas, ainda angulosas, se 
debuxavam, nuns longes de curvas graciosas, os primeiros sinais da puberdade. Luzia 
acolheu-a com simpatia; e, quando soube que era a menina libertada por Alexandre da sanha 
monstruosa de Crapiúna, dedicou-lhe os mais carinhosos cuidados. Fruía deliciosa sensação 
ao contacto dela, ao exercitar-lhe as pequeninas mãos delicadas no manejo da agulha e no 
ajustamento das peças de costura, sensação de mãe testemunhando a florescência da força e 
da inteligência nos tenros rebentos do seu ser. Ela a distinguia das outras meninas, 
desasseadas, esgrouvinhadas, como pombas privadas do arminho das penas cândidas, de 
olhos toldados, como se por eles já houvesse passado a sombra funestra do crime; muitas 
indiferentes às carícias, aos conselhos, de grandes olhos parados, ardendo num brilho fulvo 
de febre, e sempre voltados para o telheiro onde roncavam, fumegando, os enormes 
caldeirões de comida. Quase todas pareciam esgalhos enfezados, condenadas ao 
estiolamento precoce, a se consumirem, varas estéreis, na coivara de vícios, que se ia 
alastrando, como incêndio em matagal ressequido, e mais não era outra coisa essa massa de 
famílias, erradicadas dos lares, desagregadas e descompostas.


[Linha 4150 de 6979 - Parte 3 de 5]



Contemplando Quinotinha a trabalhar, Luzia se embebia no enlevo de um sonho, onde se 
dissolviam as amarguras, as tristezas do presente, e surgia, entre resplendores suaves de 
aurora, o desejo da maternidade, dar-lhe Deus uma filha assim, formosa e sadia. E já 
considerava, num gozo, em toda a sua sublimidade, esse prazer inefável de mãe, quando a 
estrelava ao seio fremente, lhe amimava os cabelos de menina e a beijava com afã, com a 
meiguice, o doce frenesi das mães amorosas.

Evolava-se o sonho, e ela considerava que a rapariguinha poderia servir de companheira à 
mãe enferma e a ela mesma, como irmã caçula, se os tempos não fossem tão ruins; poderia 
repartir, com ela, a sua pobreza, o seu quinhão parco, como fizera com Alexandre. Chegou 
mesmo a falar-lhe nisso, mas Quinotinha respondeu-lhe que era a mais idosa de oito irmãos, 
uma escadinha de meninos que terminava num de peito, e não podia abandonar a mãe, 
coitada, já abandonada pelo marido.

Depois disso, Luzia lhe teve mais amor, e mesmo mais sorrisos, e mesmo mais cuidados. 
Havia, entre ambas, a solidariedade do mesmo infortúnio, de sentimentos idênticos, 
dedicação e amor filial, com a diferença de ser a menina uma criatura ingênua e feliz, pela 
inconsciência da miséria, e ela mulher rebelada contra a sorte, assaltada de absurdas 
aspirações, tendo o coração apertado entre mágoas, dissabores, esperanças desfeitas, 
murchas como os cravos rubros de Alexandre.

Uma tarde, terminada a tarefa, Quinotinha saiu acompanhada de Luzia, que lhe notava algo 
estranho no semblante, de ordinário tranquilo e risonho.

Caminharam em silêncio, algum tempo.

- Há muitos dias - disse a menina, enteada e hesitante que ando para lhe dizer uma coisa.

- Você?! - exclamou Luzia, com interesse, com surpresa.

- Sim, eu mesma...

- Vamos lá... Diga...

- Vosmecê conhece seu Alexandre? Aquele moço que está preso por causa do furto da 
Comissão?...

- Conheço, sim.



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