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segunda-feira, 7 de julho de 2025

Como a PrEP torna o sexo mais seguro

Como a PrEP torna o sexo mais seguro

A Profilaxia Pré-Exposição é uma estratégia eficaz para prevenir a infecção pelo HIV e está disponível no SUS.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2023

Quarto caso de cura de HIV é anunciado por médicos nos EUA

Quarto caso de cura de HIV é anunciado por médicos nos EUA

Paciente de 66 anos convivia com o vírus desde a década de 1980.

domingo, 10 de janeiro de 2021

5 vírus que mudaram a história da humanidade

5 vírus que mudaram a história da humanidade

Nos últimos meses, a pandemia de coronavírus tem afetado a rotina de pessoas em todo o mundo. 

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Mais próximo da cura - Cientistas criam anticorpos que atacam 99% das cepas do HIV


Mais próximo da cura - Cientistas criam anticorpos que atacam 99% das cepas do HIV


Antivirual utiliza inteligência genética para eliminar o vírus

terça-feira, 19 de setembro de 2017

5 avanços impressionantes conquistados pela Engenharia Genética


5 avanços impressionantes conquistados pela Engenharia Genética


Embora existam controvérsias éticas, a técnica trouxe avanços notáveis no campo da medicina.

Abaixo, alguns dos fatos mais surpreendentes dos últimos anos:

quarta-feira, 23 de março de 2016

Cientistas conseguem remover HIV de células infectadas com edição genética


Cientistas conseguem remover HIV de células infectadas com edição genética


Cientistas da Universidade Temple, nos Estados Unidos, utilizaram uma ferramenta de edição genética e conseguiram remover o genoma do HIV-1 das células imunológicas de um paciente infectado com o vírus da AIDS.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Estudo revela como ocorreu a disseminação do HIV pelo mundo


Estudo revela como ocorreu a disseminação do HIV pelo mundo


Segundo uma pesquisa publicada pela revista Science, realizada com técnicas inovadoras de arqueologia viral, os três principais fatores foram o aumento populacional, a prostituição e o desenvolvimento ferroviário, impulsionado pela Bélgica – além do uso de agulhas não esterilizadas em hospitais.  

terça-feira, 20 de outubro de 2015

Vacina promissora contra AIDS será testada em humanos pela primeira vez


Vacina promissora contra AIDS será testada em humanos pela primeira vez


Cientistas estão otimistas para o início dos testes em seres humanos de uma nova vacina contra a AIDS. O medicamento foi testado minuciosamente em macacos, com resultados positivos pela equipe de Robert Gallo, cientista que descobriu, em 1984, que o vírus HIV desencadeava a AIDS.

domingo, 8 de março de 2015

Cientistas descobrem origem da AIDS


Cientistas descobrem origem da AIDS


O cientista norte-americano David Quammen afirma ter descoberto o momento exato em que o vírus do HIV começou a se espalhar por todo o planeta. 

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Droga contra HIV trata doença que causa cegueira em idosos, diz estudo


Droga contra HIV trata doença que causa cegueira em idosos, diz estudo

Montagem mostra imagem de pílula de antirretroviral sobre uma íris humana (Foto: Bradley D. Gelfand/Science/Divulgação)

Degeneração macular é uma das principais causas de cegueira no idoso.
Estudo em camundongos também revelou ação anti-inflamatória de droga.

terça-feira, 17 de junho de 2014

Heróis da Resistência - Aids

HERÓIS DA RESISTÊNCIA - AIDS


De cada vinte pessoas infectadas pelo HIV, uma resiste bravamente. No caso dessa minoria lutadora, passam-se até vinte anos e a Aids não chega a se manifestar.
Os cientistas querem saber o que essa gente tem de tão especial para deixar o vírus acuado por um tempo muito maior do que o de costume.
Por enquanto, há poucas pistas.
Mas as pesquisas poderão
revelar um contragolpe fatal
do organismo para derrotar a mais terrível doença do mundo atual.

domingo, 29 de dezembro de 2013

Droga bloqueia HIV em estudo de laboratório, mostra pesquisa

Droga bloqueia HIV em estudo de laboratório, mostra pesquisa

Concepção artística do vírus HIV (Foto: Divulgação/NIH)

Experimento foi feito com remédio feito para tratar epilepsia.
Cientistas querem testá-lo em pessoas infectadas com HIV.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Perguntas sem resposta - AIDS


PERGUNTAS SEM RESPOSTA - AIDS


Sem saber direito como o HIV se comporta no organismo, os cientistas admitem: precisam resolver algumas questões básicas sobre a doença, antes de retomar a corrida atrás de vacinas e drogas. Senão, a busca de novos tratamentos poderá ser inglória. Essa foi a principal conclusão da conferência internacional que reuniu 14 000 especialistas na Alemanha.

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Explosão no terceiro mundo - AIDS

EXPLOSÃO NO TERCEIRO MUNDO - AIDS


Sete a oito milhões de africanos são portadores do HIV, o vírus acusado pela derrota fatal do sistema imunológico nos aidéticos. A doença cresce vertiginosa nos países  pobres. 

quinta-feira, 1 de março de 2012

Os defensores do corpo humano - Imunologia

OS DEFENSORES DO CORPO HUMANO



Milhões de células vivem para matar qualquer invasor que ameace a saúde do ser humano. Em caso de perigo iminente, esse exército se lança a uma guerra sem quartel, em que ninguém faz prisioneiros. O nome dessa tropa de elite é sistema imunológico.

Um leve corte no dedo, tão superficial que mal assustaria uma criança. Indigno de merecer mais do que um "ai" ou, quem sabe, um palavrão. Afinal, ninguém morre por causa de um corte no dedo-pelo menos em 99,9 por cento dos casos. Não que um corte não possa matar, se mais não mata é graças a uma tropa de elite, em permanente prontidão para ir à luta pela vida. É uma guerra secreta: enquanto uma dorzinha no lugar é praticamente tudo o que a pessoa retém do acidente, dentro do organismo reina grande agitação e todas as atenções se voltam para a vizinhança do pequeno corte; ali a batalha poderá começar a qualquer momento. A tropa de elite-o sistema imunológico-está preparada para o que der e vier.
A mesma dor que avisa a pessoa que ela se machucou fez soar um outro alarme, destinado às células de defesa. Dai começou o corre-corre. A circulação sangüínea transporta rapidamente batalhões inteiros dessas células ao local atingido, onde passam a ocupar posições estratégicas, entrincheiradas entre os tecidos. Toda a movimentação é apenas uma medida de segurança. Pode ser que o pequeno corte seja apenas um machucado sem conseqüências e que as células de defesa logo possam se dispersar sem ter disparado um tiro. Aliás, essa tropa é tão precavida que pega em armas diante de qualquer ameaça: por menor que seja uma lesão física, desencadeia o alerta. Até mesmo quando se leva um tapa, o sistema imunológico fica a postos.
As células de defesa já estão se dispersando quando soa de novo o alarme-na verdade, trata-se da liberação das substâncias químicas produzidas pela pele ferida e também pelos invasores. Isso porque até um pequeno arranhão abre uma grande brecha para a ação de micróbios solertes, toxinas perversas, partículas exóticas. Ao segundo alarme, os soldados da infantaria-que os cientistas chamam granulócitos-se lançam à batalha, sem perda de tempo, valendo-se do alto grau de preparo que os tornam ágeis e dinâmicos. Muitos deles vão tombar em combate. Junto com os restos mortais do inimigo derrotado, formarão o pus que aparece nas feridas.
Então se aproxima a artilharia dos macrófagos, células mais fortes, cujos canhonaços pulverizam não só os invasores-vivos ou mortos-como os próprios granulócitos eliminados no começo da batalha. Tamanha é a quantidade de macrófagos, comprimidos nos espaços entre as células, que são uma das causas do inchaço no local machucado. Granulócitos e macrófagos usam armas fabricadas há muito tempo-tanto que foram encontradas nos arsenais de espécies primitivas, como as esponjas. Graças a esse material bélico de comprovada eficiência-as enzimas existentes em seu interior -, eles engolem, trituram e digerem os inimigos. Outras enzimas, produzidas por diversos órgãos, como o estômago, podem ajudar, perfurando a membrana de micróbios e parasitas feito balas de canhão.
Chamadas de fagocitárias, essas células reconhecem os invasores (conhecidos antígenos) por meio das substâncias químicas que Ihes são comuns. Não é difícil a identificação -tais substâncias inexistem no organismo. Ou seja, o uniforme do inimigo é inconfundível. Certas bactérias, como as pneumococci da pneumonia, ao longo da evolução aprenderam porém a se camuflar e a passar desapercebidas. Contra isso os vertebrados inventaram há 400 milhões de anos uma resposta formidável-as células linfócitos B. Assim que uma bactéria da pneumonia tenta invadir o corpo pelo pequeno corte, os linfócitos B disparam seus mísseis teleguiados que se encaixam na molécula da bactéria, ou de qualquer outro invasor infeccioso, bloqueando-a para que não contamine outras células do organismo.
Essas proteínas são os tão falados anticorpos. Sua função principal, porém, é típica dos serviços de contra-espionagem: desmarcar os inimigos camuflados. A técnica funciona às mil maravilhas. Ao combinar-se com o odiado antígeno, o anticorpo chama a atenção do macrófago para a presença do estranho. O inimigo, então, fica encurralado. "Além de tornar o antígeno reconhecível, os anticorpos ajudam os macrófagos a ingeri-los", explica o professor de Imunologia Momtchillo Russo, da USP.
Os linfócitos B, em geral, são os soldados mais especializados do exército de defesa. Nas aves, são treinados para o ataque na Bursa de Fabricius (daí a letra B), que fica na cloaca, a ponta do canal intestinal. Já no homem, que não tem bursa, essas células nascidas na medula óssea são treinadas em tecidos como os do baço, intestino, amídalas, fígado. Dali vão navegar na corrente sangüínea, prontas para a luta, onde quer que se localize o teatro de operações. Se todas as células da pele humana são idênticas, o mesmo não acontece com os linfócitos B. Faz sentido: afinal, precisam especializar-se na produção de anticorpos de tamanhos e formatos diversos, para se encaixar como peças de quebra-cabeça numa infinidade de inimigos. Calcula-se que entre o trilhão de linfócitos B do organismo, haja cerca de 1 milhão de tipos diferentes.
No curso de uma infecção, algumas células B adquirem o que os cientistas chamam memória: a propriedade que Ihes permite estudar detalhadamente as táticas do invasor, de maneira que, se ele infectar o corpo uma segunda vez, haverá células B especializadas no seu combate e capazes de agir mais rapidamente do que no ataque anterior. Quando um linfócito B se encontra porém face a face com o seu antígeno, não se põe a disparar anticorpos imediatamente, como um amador. Espera a ordem de atacar dada por uma substância, a interleucina enviada pela célula T auxiliar. A T auxiliar é um dos três tipos de células que rumam da medula óssea para o timo (daí a letra T), uma glândula atrás das costelas, na altura do coração. Sua função é controlar todo o sistema imunológico.
Como não produz anticorpos, embora seja especializada num único invasor, não se sabe até hoje quais são seus receptores, isto é, como ela e encaixa e percebe o inimigo, ativando a partir dai tanto as células B como os macrófagos. Além das interleucinas, a T auxiliar tem uma segunda arma: a interferona, que funciona como um gás paralisante nas células infectadas e dificulta a propagação do antígeno.
Quem nasce sem timo não sobrevir, por falta de células T para organizar suas defesas. Quando tais células são destruídas pelo vírus da AIDS por exemplo, o mesmo acontece. Não seria então o caso de simplesmente injetar interleucina no organismo dos pacientes para suprir a produção natural prejudicada? A resposta infelizmente é negativa. "Lançada na circulação, a interleucina ativaria todo o sistema imunológico em vez de estimular apenas o lifócito B necessário", esclarece o professor Russo, da USP. "O sistema muito ativado é tão nefasto quanto o deficiente, causando febres, dores, coagulação do sangue. Enfim, pode levar à morte".
Quem corrige os lamentáveis mas nem sempre evitáveis excessos da repressão e ao mesmo tempo dá a ordem para o recuo é um segundo tipo de célula T, a supressora. Ela envia uma substância que inibe a ação da célula T auxiliar e, por tabela, de todas as outras células. Na verdade, cientistas desconhecem como essas duas células, a auxiliar e a supressora, mantêm o equilíbrio do sistema imunológico. Como será que sabem quando é hora de parar? Essa é a grande questão que a Imunologia busca responder. O terceiro e último tipo de célula T, ao contrário de suas irmãs, não dá ordens- nem por isso é menos importante. Trata-se da célula citotóxica, uma espécie de assassino profissional. Daí a sua alcunha em inglês: killer, assassina. Enquanto as demais células do sistema reconhecem apenas os antígenos (substâncias estranhas), a killer perscruta os tecidos do próprio organismo, os quais vive espionando: se estiver faltando algo, como nas células cancerosas que degeneram, ou se houver algo a mais, como nas células infectadas que retiveram em suas membranas partículas de um vírus invasor, ela se ativará. Então, aproxima-se da célula doente e, como se Ihe desse o beijo da morte, transmite-lhe uma substância tóxica destruidora. Se a killer destrói as células defeituosas, por que então se morre de câncer? Quando se tem trilhões de células como no organismo humano é normal que no decorrer da vida um certo número delas comece a apresentar defeitos. Portanto, a pergunta correta deveria ser: por que se pode viver sem câncer? E a resposta é: graças ao controle exercido pela killer. O problema aparece quando ela se ausenta -como na AIDS, em que o doente logo padece de tipos raros da enfermidade, ou quando já não existem killers em número suficiente, como em pessoas idosas. "Com o passar dos anos, o sistema imunológico se enfraquece", esclarece o imunologista Antonio Lauro Coscina, do Hospital Albert Einstein.
Apesar das vastas zonas de sombra que ainda desafiam os imunologistas, avanços importantes têm ocorrido. Nos Estados Unidos, pesquisadores conseguiram isolar em laboratório as interleucinas específicas para ativar as células T que combatem determinado tipo de câncer. Também se descobriu que, em alguns casos, quando a célula cancerosa é contaminada por bactérias, as células killer vão ao ataque mais rapidamente. Por isso, os cientistas estão inoculando essas bactérias em tumores de pele, com resultados positivos. Sem dúvida, porém, uma das descobertas mais significativas foi a dos anticorpos monoclonais, no inicio dos anos 80: são anticorpos específicos, desenvolvidos em laboratório, marcados com substâncias radioativas.
Eles não só identificam células cancerosas, mas também o tipo de câncer, permitindo o diagnóstico precoce da doença. As vezes, ao invés de estimular o sistema de defesa, a ciência deve colocar-lhe freios. É o que ocorre nas doenças auto-imunes, quando algo faz com que as células de defesa passem a tratar as células do próprio corpo como inimigas. Suspeita-se que algumas doenças, como úlceras estomacais e intestinais, artrite reumatóide, problemas de tireóide e esclerose múltipla, sejam auto-imunes. O conceito existe desde a década de 50, mas até hoje pouco se sabe sobre os seus mecanismos. Há três hipóteses que não se excluem necessariamente: 1) As doenças auto-imunes são provocadas em tecidos de cuja existência o sistema de defesa não teve conhecimento prévio e por isso não estaria capacitado a reconhecer. Há casos de esterilidade masculina produzida por anticorpos que aniquilam os espermatozóides. 2) Determinada infecção poderia alterar a aparência das membranas celulares de um órgão qualquer, tornando suas células estranhas para o sistema de defesa. 3) Desequilíbrio nas funções das células T supressoras e auxiliares que controlam o sistema inteiro. Cientistas americanos, que testaram o sangue de portadores de doenças auto-imunes, constataram que nele havia menos células T supressoras do que normal.
Atualmente, essas doenças têm sido tratadas com drogas chamadas imunossupressoras. que inibem o sistema imunológico. São os mesmos medicamentos usados em casos de transplante, para evitar a rejeição do órgão. Mas evidentemente essas drogas têm a grande desvantagem de diminuir a eficiência do sistema como um todo. As pesquisas mais recentes voltam-se para a produção de anticorpos, ou seja, anticorpos que anulem os anticorpos fabricados pelo organismo contra si próprio. O professor Coscina acredita que no futuro a solução será ainda melhor: "A Imunologia daqui a alguns anos será a Imunogenética", diz. "Manipulando os genes se poderá ter sistemas de defesa mais eficientes e sanar os problemas das doenças auto-imunes."



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sábado, 28 de janeiro de 2012

A outra Síndrome - AIDS

A OUTRA SÍNDROME - AIDS



Os efeitos sociais da AIDS revelam-se tão complexos como a própria enfermidade. Desde as campanhas educativas à exigência dos testes, todo um rol de problemas inesperados entra na ordem do dia. Uma coisa é certa: a doença mexe com a vida de todos.

Sete anos depois de ter sido identificada pela Medicina e de já ter provocado pelo menos 40 mil óbitos, a AIDS (Síndrome de Imunodeficiência Adquirida) derrama pelos quatro cantos do mundo uma variedade de conseqüências sociais tão complexas quanto a própria doença. De uma forma ou de outra, nas sociedades atuais ninguém está imune aos reflexos da AIDS nas relações humanas. "O problema da moléstia é muito maior do que aparece nas estatísticas de saúde", afirma Jonathan Mann, do alto de seu posto de observação como diretor do Programa Global da AIDS, da Organização Mundial da Saúde (OMS). "Existem implicações econômicas, comportamentais e demográficas que devem ser atendidas para atenuar o impacto pessoal da doença" adverte.
Foi com esse espírito que 1 milhão de delegados de 63 países e entidades internacionais como a OMS se reuniram recentemente em Londres para tentar montar o quebra-cabeça dos efeitos extraclínicos da AIDS. E, à medida que foram juntando as peças, começaram a enxergar os contornos de uma paisagem acidentada como poucas. Nela ressalta, por exemplo, o intrincado problema da linguagem, alcance e, em última análise, eficácia das campanhas de prevenção: como saber se elas estão ajudando de fato a conter a difusão de uma doença que - além de ser mortal e esconder ainda muitos segredos dos cientistas -tem a perversa peculiaridade de se manifestar só seis ou sete anos em média após o contágio?
Outro nó está na delicadíssima questão das tentativas (por parte de corporações e governos) de tornar obrigatórios os testes que identificam no organismo a presença dos anticorpos ao HIV, o vírus da AIDS: em que medida tais exigências podem configurar uma agressão aos direitos individuais e até que ponto têm alguma utilidade real? A reunião de Londres serviu também para confirmar que, assim como pode variar enormemente por país a proporção de doentes (por exemplo 2 por 100 mil habitantes na Alemanha e 20 por 100 mil nos Estados Unidos), também varia de país para país a escala dos problemas ligados à AIDS. Assim, enquanto na França o governo tem algum controle sobre 99 por cento do sangue usado em transfusões, no Brasil a fiscalização mal e mal cobre 50 por cento-uma carência que não pode ser subestimada, dado que as doações de sangue contaminado são uma das principais rotas de propagação da AIDS.
Mas, se com dinheiro e empenho os governos podem virtualmente acabar com o contágio por transfusão, muito dificilmente podem enquadrar as demais formas de transmissão, que, afinal de contas, de pendem exclusivamente do comportamento de cada um. "E nisso não se interfere sem tocar na liberdade individual", observa a médica Lair Guerra de Macedo Rodrigues, que representou o Brasil no encontro de Londres na condição de coordenadora do Programa Nacional de Controle da AlDS do Ministério da Saúde. "Neste particular, todos os países pisam o mesmo terreno escorregadio", constata.
O que torna o chão tão liso é o fato de se estar mexendo com um dos impulsos mais fundos do ser humano, a sexualidade-algo que, como na canção de Chico Buarque, "não tem juízo nem nunca terá". As obscuras leis que governam a conduta sexual de cada um às vezes se divorciam não só da moral sexual vigente como também dos mais razoáveis mandamentos do bom senso. Se a AIDS fosse tudo o que é, mas nada tivesse a ver com sexo, como tantas outras moléstias transmitidas por vírus, seria muitíssimo mais fácil apostar na racionalidade das pessoas como garantia contra a sua propagação. Para piorar ainda mais as coisas, a grande maioria dos transmissores da AIDS são pessoas clinicamente sadias-aquelas que (sem saber) carregam o vírus HIV mas ainda não apresentam os sintomas que ele provoca. Pelos melhores cálculos, existem para cada aidético entre 50 e 100 portadores do vírus. Isso significa que, se existem atualmente cerca de 80 mil casos notificados no mundo inteiro, a população de portadores pode chegar a 8 milhões. Mesmo que esses futuros doentes se distribuíssem mais ou menos por igual por uma centena e tanto de países, o mero porte de um número como aquele indica o tamanho do problema com o qual a humanidade terá de conviver antes que as esperadas mudanças de comportamento sexual se reflitam nas estatísticas (o que ainda é uma incerteza) e antes que a ciência descubra a cura ou a vacina para a AIDS (o que ainda vai demorar).
Em 1982, data das primeiras contas da OMS, os 366 casos da época haviam aparecido em dezenove países, incluindo o Brasil, com seis doentes. Hoje, a AIDS está em todos os continentes e em pelo menos 128 países. (Não se sabe, a rigor, se existe algum país sem AIDS; o que existe são países que não fornecem informações sobre o assunto.) No Brasil, com quase 3 mil aidéticos conhecidos e talvez outros 2 mil não registrados, o Ministério da Saúde estima em até meio milhão o número de possíveis portadores. A rapidez com que o vírus deu a volta ao mundo induziu alguns países a tentar barrar-lhe o caminho por meio de providências que em alguns casos deixaram à mostra uma face preconceituosa.
Na Índia (nove casos contabilizados) e na União Soviética (cinco) ninguém entra sem um teste anti-HIV negativo. Há pouco tempo, a cantora Alcione e os dezoito músicos que a acompanham precisaram submeter-se ao teste antes de viajar para uma temporada de shows na URSS. Mas nem sempre todos são iguais perante a AIDS-ou perante certos governos. A Bélgica, por exemplo, obrigou ao teste os quase mil estudantes negros do Zaire (sua antiga colônia) que ali residem, mas não incomodou alunos vindos de países brancos. O mesmo fez a Inglaterra em relação aos 1200 estudantes nascidos em Zâmbia, Uganda e Tanzânia, ex-colônias-e ainda em relação aos 20 mil turistas africanos, sem distinção de passaporte, que todo ano desembarcam em Londres. Só que não se exige teste dos ingleses que voltam de viagem da África.
Belgas e britânicos negam as acusações de racismo. Lembram que aqueles países não só estão entre os mais infectados como também que neles a AIDS não se espalha, como no Ocidente, a partir dos chamados grupos de risco (homossexuais, viciados em drogas injetáveis e hemofílicos), mas da população heterossexual. De fato, na região Centro-Leste, que compreende a Tanzânia, Ruanda, Burundi e Uganda, existem lugares onde um terço da população tem AIDS, incluindo mulheres e crianças. Ali a doença se propaga por causa da promiscuidade sexual. Mesmo assim, os especialistas da Organização Mundial da Saúde estão longe de se pôr de acordo sobre o efeito das políticas de testes obrigatórios para determinados grupos humanos. No Brasil, membros do governo e da classe média defendem que se exija teste anti-HIV de estrangeiros que solicitarem visto de permanência no país -umas 3 mil pessoas por ano. "Não vejo sentido nisso", objeta Lair Rodrigues, do Ministério da Saúde. Ela explica que, devido ao fato de não ser o teste verdadeiro em 100 por cento dos casos-daí os chamados "falsos positivos" e "falsos negativos" -, sempre se correrá o risco de se abrirem as portas a imigrantes contaminados e de fechá-las a pessoas sadias.
Mais complicado é o debate sobre a exigência do teste de candidatos a emprego. A discussão é muito acesa nos Estados Unidos, onde algumas corporações já adotam essa prática, enquanto uma lei a proíbe em empresas que recebem recursos do governo federal. Como no Brasil não existe lei alguma a respeito, a possibilidade de que certas companhias venham a pedir o teste preocupa o Conselho Federal de Medicina. "É uma questão de ética", explica Gabriel Oselka, vice-presidente do CFM. "O médico só deve informar ao empregador se o candidato está ou não apto ao trabalho; se é portador do vírus, só ele mesmo deve ser informado."
Com seus 13 500 funcionários espalhados por cinco Estados, a Rhodia é o exemplo da grande empresa que prefere apostar na informação e não na discriminação. Há dois anos ela gasta dinheiro em campanhas educativas, que incluem um filme de duas horas e meia sobre a AIDS. A Rhodia não oferece testes aos funcionários "porque não temos estrutura montada para isso", segundo Marcos Wasserstein, gerente do departamento médico. Mas não o nega aos interessados. A empresa tem dois funcionários com o vírus. Um deles, que já apresenta os primeiros sintomas da AIDS, recebe assistência de saúde. Nos Estados Unidos, onde um aidético gasta em tratamento algo como 20 mil dólares por ano (no Brasil o custo é um pouco maior devido aos medicamentos importados), as companhias de seguros estão em pé de guerra para recusar clientes portadores do HIV.
A maioria das seguradoras brasileiras já não dão cobertura a despesas com doenças infecto-contagiosas, como a AIDS. Uma exceção é o Itaú, com 1,2 milhão de clientes. "Não recusamos quem quer que seja", garante Alfredo del Bianco, diretor técnico da seguradora. "Damos cobertura à AIDS se a doença for notificada após o início do contrato e dentro dos limites nele estipulados." Com o inevitável aumento do número de aidéticos nos próximos anos, não faltarão episódios de discriminação. "Já é hora de as pessoas se organizarem pensando nisso", acredita o advogado Marco Antônio Rodrigues Barbosa presidente da Comissão Justiça e Paz da Cúria Metropolitana de São Paulo. Ele não vê, no caso da AIDS, um conflito entre direitos individuais e direitos coletivos, "mesmo porque, com o crescimento da doença, logo estaremos falando em direitos de uma coletividade com dezenas de milhares de indivíduos".
Nos Estados Unidos, onde em 1991 haverá 270 mil aidéticos, ocupando (em Nova York) dois em cada dez leitos de hospital, muita gente já reclama que as pesquisas sobre a AIDS consomem montanhas de dólares que deveriam ser gastas na busca da cura; para o câncer. Isso mostra uma competição por recursos sociais que só tende a se acirrar, com reflexos sobre a atitude das pessoas diante dos aidéticos. Também para conter esses conflitos as campanhas informativas são necessárias. "Elas são na verdade a única arma contra a AIDS", ressalta Lair Rodrigues. O problema é como fazê-las acertar o alvo.
Para começar, existe um verdadeiro tiroteio no escuro entre os que criticam as campanhas por serem desbocadas e os que acham que é preciso falar mais claro ainda. "Raramente a reação das pessoas é adequada", observa, desalentado, o médico Gabriel Oselka, do CFM. Além disso, para não pouco homossexuais, as campanhas não passam de propaganda moralista. Para um número talvez ainda maior de heterossexuais, as campanhas escondem que os riscos de se contrair AIDS são na verdade bem maiores. Mesmo em países desenvolvidos a desinformação e o medo alcançam níveis surpreendentes. Nos Estados Unidos, por exemplo, mais da metade da população não sabe com segurança como o vírus da AIDS se transmite -e um em cada três médicos tem receio de tratar de aidéticos.
A paranóia não é menor aqui", suspira a médica Lair do Ministério da Saúde. "Quase todo dia algum colega me liga achando que pegou AIDS." Da mesma forma, a discussão sobre a linguagem das campanhas não é exclusividade desse ou daquele país. Na liberadíssima Dinamarca, uma organização de país conseguiu tirar do ar um filmete que insinuava sexo entre adolescentes. Na União Soviética, não poucas resistências precisaram ser vencidas para que um locutor pudesse dizer pela primeira vez na TV a palavra preservativo - agora, em março último. Na religiosa Itália, volta e meia trechos de filme sobre AIDS são censurados. É provável que, para funcionarem, as campanhas devam mesmo ser fortes, diretas e sem meias palavras. Mas não há como negar que, irrompendo nas casas via TV, proporcionam uma aula de educação sexual, prematura e carregada de problemas, ao público infantil. A AIDS também obriga as sociedades a virar a cabeça diante de certos comportamentos até bem pouco tempo frontalmente reprovados. Em Nova York, por exemplo, já se distribuem agulhas descartáveis a drogados, para que ao menos não transmitam o vírus. A experiência sofre cerrada oposição de setores sociais para quais ela significaria na prática aceitação da droga. Em outros Estados americanos, briga-se por causa da iniciativa de distribuir preservativo nas prisões: segundo os críticos, isso estimularia o homossexualismo, "Seria ótimo se o mesmo fosse aqui", retruca o médico Gabriel Oselka. Motivo: estima-se que até três em cada dez dos 300 mil sentenciados brasileiros são portadores do vírus HIV.
Às vezes, o próprio público-alvo rejeita as campanhas. Em certas tribos africanas, apesar das advertências, não se pensa em parar com certos ritos que envolvem cortes no corpo-uma prática milenar que se transformou em outra fonte de transmissão da AIDS. Apesar desses percalços todos, os maiores especialistas no assunto insistem em que só não se pode uma coisa na guerra contra a doença: ferir os direitos das pessoas. Não se trata apenas de um valor moral. Como observou na reunião de Londres, o diretor do programa da AIDS da Organização Mundial da Saúde, Jonathan Mann,"as ameaças aos direitos individuais acabam estimulando clandestinidade da doença-mais casos deixarão de ser notificados e mais difícil ficará atacar o problema".

De vigia a traidor

Cientistas americanos descobriram recentemente que o vírus da AIDS penetra no organismo não apenas na forma de microorganismos soltos no sangue ou no esperma, mas também dentro de macrófagos-e isso faz uma enorme diferença. Células do sistema imunológico, os macrófagos têm o notável poder de romper barreiras: assim, atravessam as paredes dos vasos sangüíneos em direção à mucosa ou em sentido contrário. Nesse trajeto, eles prendem os agentes estranhos que encontrarem, como os vírus, para que sejam melhor atacados pelo exército de anticorpos do sangue. Ora, se o HIV pode contaminar os macrófagos, isso significa-ao contrário do que se tinha como certo-que a transmissão do vírus não depende necessariamente do rompimento de microvasos sangüíneos durante a relação sexual.
Dentro dos macrófagos, os vírus atravessam a mucosa até chegar à corrente sangüínea O pior, nesse processo, é o que acontece com os próprios macrófagos. Normalmente, são eles que disparam os mecanismos de defesa do organismo, ao avisar as células que portam um inimigo a ser combatido. Infectados pelo vírus da AIDS, porém, eles passam a agir como traidores, deixando de avisar que há um invasor a caminho. Sem esse alarme, uma eventual vacina anti AIDS poderia ser inútil, visto que os anticorpos adquiridos graças a ela não seriam despertados. A descoberta, portanto, sugere que há mais obstáculos entre a AIDS e sua cura do que supunha a ciência.



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sexta-feira, 4 de novembro de 2011

O Inimigo público número 1 - O Vírus.

O INIMIGO PÚBLICO NÚMERO 1 - O Vírus.



Do mais banal resfriado ao flagelo da AIDS, o culpado é sempre a mesma criatura: o vírus.

O maior inimigo da vida não mede mais que trinta milionésimos de milímetro. Causa gripe, sarampo, paralisia infantil, varíola, AIDS - entre muitas outras agressões à saúde. Esse inimigo é tão peculiar que, além de microscópico, tem um lado vivo e um lado morto.
Como não se alimenta nem respira nem produz coisa alguma, não faz parte do mundo dos vivos. Mas,como é formado por um material genético básico - o ácido nucléico - e é capaz de multiplicar-se, não se pode
negar-lhe a condiçào de criatura viva.
Essa criatura é o vírus, cuja única razão de existir parece ser a própria reprodução. Para isso, aproveita-se dos mecanismos das células onde se hospeda. Depois as sacrifica.
O vírus surgiu antes do homem, vencendo todos os obstáculos naturais à seleção das espécies. E ainda vence muitas batalhas na guerra sem quartel que a ciência moderna lhe move. São conhecidas cerca de mil espécies diferentes de vírus, responsáveis por 60 por cento das doenças em animais e plantas.
A cada passo descobre-se a presença de vírus onde não se suspeitava.
Em 1980, por exemplo, o imunologista norte-americano Robert Gallo - um dos descobridores do vírus da AIDS- identificou um vírus, existente no Japão, na África e nas Ilhas do Caribe, que causa leucemia. Não é um caso isolado : sabe-se que cerca de 40 vírus tem a ver com certos tipos de câncer. O vírus pode até atacar a mente humana.
Médicos do Instituto de Saúde Mental dos Estados Unidos desconfiam que a esquizofrenia- um dos tipos mais comuns de loucura - pode ter causas viróticas. Um vírus foi encontrado no líquido espinhal de dezessete dos cinquenta esquizofrênicos examinados no início deste ano. Outra doença que talvez seja provocada por vírus é a esclerose múltipla - degeneração incurável do sistema nervoso, caracterizada por perda de memória e de coordenação motora.
No sangue de algumas pessoas, os cientistas identificaram um anticorpo então desconhecido muito parecido com o da AIDS. Os anticorpos são uma arma do organismo contra agentes estranhos como os vírus.
Pode-se compará-los a mísseis teleguiados: são feitos sob medida para determinado alvo - portanto, um anticorpo diferente supõe a existência de um vírus diferente.
Na pesquisa, a maioria das pessoas com o novo anticorpo tinha sintomas de esclerose múltipla. Isolado o novo vírus, batizado Smon, verificou-se que ele existia no líquido espinhal de um terço dos esclerosados.
Fica muito difícil, porém, diagnosticar se um vírus é de fato novo ou se nova é apenas a sua descoberta. É que o vírus é formado por um ácido nucléico, base de qualquer célula. Tais ácidos formam as chamadas moléculas de aminoácidos. Estas reunidas, constroem as proteínas de que são feitos os seres vivos.
Nas células existem dois ácidos nucléicos: o DNA, ou ácido desoxirribonucléico, que guarda toda a bagagem hereditária daquele organismo; e o RNA, ou ácido ribonucléico, responsável pelo bom funcionamento dos componentes das células. Mas com o vírus é diferente: só possui ou DNA ou RNA. Ele, na verdade, nada mais é que um novelo de um único ácido nucléico, envolvido numa fina capa de proteínas. Não se sabe se surgiu antes dos seres considerados vivos - sendo então uma forma primitivíssima de vida-ou se é resultado de uma espécie de retrocesso.
"Dizer quem chegou primeiro é discutir sobre a origem do ovo e da galinha", compara o professor Renato Mortara, da Escola Paulista de Medicina, que passou cinco anos na Universidade de Cambridge, na Inglaterra, estudando essas minúsculas criaturas. Mortara, um paulista de 32 anos, admite que "o vírus poderia ter surgido a partir do próprio homem?". Não é impossível: assim como a doença chamada câncer é uma reprodução descontrolada das células, uma célula poderia passar por um processo de mutação, até restar apenas a unidade básica da forma original, ou seja, o seu ácido nucléico.
Essa "fantasia", como diz o professor Mortara, é um exemplo das teorias segundo as quais os vírus seriam conseqüência de um processo de regressão da vida. Seja como for, vírus e seres humanos convivem há muito tempo. A múmia de Ramsés II, faraó do século XIII a.C., mostra cicatrizes de varíola doença causada por vírus, que geralmente ataca crianças e hoje pode ser evitada com vacina.
Assim como a varíola, as doenças viróticas em geral permaneceram um mistério até a invenção do microscópio eletrônico na década de 40. Com seus raios luminosos, o equipamento permite ver o vírus. Mas o homem desconfiava da existência do vírus antes de conseguir enxergá-lo.
Em 1892, 0 microbiologista russo Dmitry Ivanovsky (1864-1920), ao estudar uma doença na planta do tabaco, ficou espantado ao verificar que, injetando a seiva filtrada de uma planta doente em outra sadia, esta última também adoecia.
O complicado processo de filtragem pelo qual passou a seiva deveria ter contido todas as bactérias. Mas, se mesmo filtrada a seiva continuava infecciosa, deveria existir algo ainda menor que as bactérias - até então os menores seres vivos que se conhecia. Ivanovsky falou em ultrabactérias. Outros cientistas, que também fizeram experiências semelhantes em plantas e animais, começaram a falar em "líquido infeccioso vivente". Eles não tinham como ver que o líquido era, na realidade, uma supensão contendo milhares de vírus. Em 1917, o microbiologista canadense Félix d´ Herelle observou no microscópio que placas de bactérias de repente começavam a desaparecer. Concluiu que existiam criaturas ainda menores que as bactérias por elas destruídas: foram chamadas bacteriófagas.
Na verdade, o que existe são vírus que preferem a célula de determinada bactéria a qualquer outra. Mas d´Herelle, no seu microscópio comum, que aumentava apenas 360 vezes, não conseguia vê-los. Trezentos anos antes, em 1617, o biólogo holandês Van Leeuwenhoec, que descobriu as bactérias, impressionou a todos ao afirmar que algumas centenas de bactérias caberiam num grão de areia. Pois bem: dentro das menores bactérias existentes cabem cerca de cem vírus da poliomielite ou dez vírus da gripe.
Os vírus- palavra que em latim significa veneno - foram isolados e fotografados pela primeira vez na década de 50. Desde então, a pesquisa na área da virologia caminha em ritmo acelerado. Logo se descobriu que se trata de entes ao mesmo tempo primitivos e sofisticados, diante dos quais o organismo também revelou uma surpreendente capacidade de defesa. Na presença do vírus o corpo transforma-se em campo de batalha. E, como em toda guerra, a vitória costuma ser de quem tem a melhor estratégia. Cada vírus tem a sua. Por isso, em virologia, cada caso é um caso.
Um organismo pode ser comparado a uma fábrica de luvas: produz desde luvas microscópicas até gigantes, com diferenças milimétricas entre um tamanho e outro. Cada luva - ou anticorpo - veste perfeitamente um vírus ou antígeno- e só aquele. Muitos anticorpos vivem e morrem ingloriamente sem encontrar o antígeno para o qual foram feitos e travar com ele uma batalha de vida ou morte. Não se trata, porém de um desperdício da natureza: para o organismo é melhor ter um de cada a ter vários só de alguns.
Se assim é, qual a vantagem de se vacinar contra uma doença para a qual já se tem defesa? A vantagem está na velocidade. Ou memória, como dizem os virologistas. A vacina é composta sempre de vírus inativados (mortos) ou atenuados (um segmento do vírus). Se fosse composta de vírus ativos e inteiros, a pessoa vacinada pegaria a doença, o que seria um contra-senso. A função da vacina é chamar a atenção do anticorpo que, despertado, briga com o "falso vírus" da vacina - o suficiente para ter na memória (dai o termo) a estratégia adequada quando entrar em cena um vírus autêntico: uma forma de multiplicar-se rapidamente para defender o organismo a tempo.
Chegar a tempo significa combater o vírus antes que ele alcance o núcleo da célula, quando domina a situação. Todo vírus é um especialista - tem preferência por determinado tipo de célula. Assim, o vírus da hepatite sai em busca das células do fígado; o vírus do resfriado prefere as células do aparelho respiratório. Essa especialização se deu ao longo da evolução: o capsídio que envolve o ácido nucléico do vírus se encaixa perfeitamente apenas na cavidade de um único tipo de célula.
Desprevinida, a célula recebe o vírus amigavelmente, sem perceber que ele - tão parecido com ela mesma - é um estranho cheio de más intenções. Assim, o hóspede, hipócrita e insidioso, trai o anfitrião: corre para o núcleo, uma espécie de cérebro da célula, e lhe toma os comandos. A célula passa a fabricar compulsivamente mais e mais vírus - até que de tão cheia ela estoura e os filhotes invadem as células vizinhas.
No caso dos vírus que possuem RNA, os chamados retrovírus, há um servicinho extra: uma enzima, localizada dentro do invólucro do vírus tem de transformar o RNA em DNA, pois este é o único ácido capaz de entrar no núcleo. Drogas hoje muito faladas como a AZT, buscam dificultar a vida do retrovírus da AIDS, eliminando essa enzima. Sem ela, o retrovirus leva muito mais tempo até ser traduzido para DNA e assim invadir o núcleo da célula.
Qualquer vírus deixa rastros, como pedaços do seu capsídio presos na membrana celular. O organismo, ao sentir a presença estranha, envia glóbulos brancos do sangue, chamados macrófagas que literalmente engolem a célula infectada. Se for tarde, ou seja, se a área infectada já tiver crescido muito (o vírus da poliomielite produz cem filhotes em três horas, por exemplo), as células T existentes no sangue começam a fabricar os anticorpos sob medida, que matam ou neutralizam os vírus. A produção desses anticorpos demora de três a sete dias. Só que o vírus da AIDS corta o bem pela raiz: ataca justamente as células T.
Quando isso acontece, abre-se o espaço para uma série de infecções oportunistas. Elas não apareceriam caso as células T funcionassem normalmente. Por exemplo, elas fabricam anticorpos contra os vírus da herpes, que ficam hibernando com apenas cinco de seus setenta genes em funcionamento. Às vezes, fatores tão diversos como queimaduras solares ou estresse acordam os vírus da herpes. Mas, no caso da AIDS. os vírus acordam por falta da vigilância implacável dos anticorpos.
"A AIDS deve ter surgido pela mutação de um vírus já existente", opina o doutor Alexandre Vranjac, diretor do Centro de Controle Epidemológico de São Paulo. A mutação, segundo ele, é um recurso de sobrevivência do vírus ." 0 vírus da gripe é um dos mais mutantes" , exemplifica. De fato, quanto mais comum o vírus, maior o número de pessoas imunizadas por terem contraído a doença. Logo, ou o vírus muda, alterando um pouco a ordem de seus genes, ou está condenado a desaparecer.
O vírus da AIDS é ainda mais mutante que o da gripe. Cada geração não dura sequer um mês . Portanto, para se produzir uma vacina contra ele, seria preciso saber qual a sua próxima forma. "A vacina", explica Vranjac, "só é eficaz quando tomada antes". É isso o que mais intriga nos vírus - estão sempre prontos a trocar de máscara e nos enganar de novo.

Sob pressão da AIDS

Como só costuma acontecer em situações de crise, a busca da cura para a AIDS mobiliza cientistas no mundo inteiro. Surgem novas teorias e técnicas - algumas delas verdadeiramente fantásticas. O físico alemão Jonathan Tennenbaum, que trabalha para o governo norte-americano, anunciou em setembro último a criação de um aparelho a laser, capaz não só de realizar 1200 testes por dia mas também de localizar qualquer microorganismo invasor existente no corpo, lendo a forma das células através da pele. O microrganismo ou bactéria, inclusive o da AIDS-é identificado por um computador. "Conseguimos ver a impressão digital do vírus", diz Tennenbaum.

Sem dúvida, a área mais quente nas pesquisas é a da engenharia genética , que tenta fazer do virís um aliado. Inoculando dois vírus inofensivos em animais, os cientistas já provaram que podem originar um terceiro vírus, fatal. Agora, formulam-se teorias sobre a possibilidade de se criar uma espécie de antivírus.

O professor da Escola Paulista de Medicina. Renato Mortara, acha que isso só será possível daqui a décadas. "Por enquanto", receia ele, "com tantas incógnitas sobre vírus, poderíamos criar um antivírus para a AIDS que por sua vez provoque outra doença qualquer." Já o doutor Alexandre Vranjac, do Centro de Controle Epidemiológico de São Paulo, é mais otimista: "Nessa teoria está o daqui-pra-frente da virologia".

domingo, 26 de dezembro de 2010

Aids é uma doença que já matou milhões de pessoas no mundo todo

AIDS É PURA INVENÇÃO?



Aids é uma doença que já matou milhões de pessoas no mundo todo. Mais precisamente - até o fechamento desta edição -, os mortos já somavam 22 milhões. Diz a OMS (Organização Mundial da Saúde) que atualmente existem cerca de 42 milhões de infectados no planeta, sendo 14 000 casos novos descobertos por dia. Diante desses números assustadores, não há como negar que a epidemia exista, certo? Atualmente, pode ser. Mas, até o início dos anos 90, muita gente jurava que a doença tinha sido inventada por uma mídia ávida por notícias novas e bombásticas. "Você conhece alguém que morreu de Aids?", perguntavam os céticos. Como, em geral, a resposta era um sonoro "não", estava aí a legitimidade de que tanto precisavam. É lógico que, diante da doença que começou a bater na porta de todos nós, hoje em dia pouca gente seria capaz de levantar essa lebre.

Acontece que o boato foi apenas um entre as diversas histórias que surgiram em torno da Aids, identificada pela primeira vez, oficialmente, nos Estados Unidos, em 1981. Na verdade, vamos voltar só um pouquinho no tempo: no dia 12 de dezembro de 1977, morria, aos 47 anos, a médica e pesquisadora dinamarquesa Margrethe P. Rask. Ela havia morado na África e começara a apresentar diversos sintomas estranhos para sua idade. A autópsia revelou que seus pulmões estavam repletos de microorganismos, que ocasionaram um tipo de pneumonia, causando a morte por asfixia. Estudiosos acreditam que o caso dela tenha sido o primeiro óbito por Aids registrado no mundo.

A pergunta que surgiu na época era: o que estava acontecendo? A resposta aos conspirólogos - e, pior, a muita gente séria por aí - só viria mais de 20 anos depois, quando cientistas americanos conseguiram mapear a origem do vírus HIV: a epidemia teria surgido mesmo no centro da África, numa região onde o vírus, antes encontrado somente em chimpanzés, foi transmitido para os humanos através de contato ocasional entre esses animais e os homens. Você pode imaginar o que as mentes poluídas de plantão pensaram, não é? Sim, que humanos andaram transando com os macacos ancestrais e espalharam a doença. "Muitas tribos locais tinham o hábito de caçar chimpanzés. Esses animais eram mortos e esquartejados no local onde eram abatidos, havendo portanto intensa manipulação de sangue, o que facilita a contaminação", esclareceu o infectologista Esper Kallás, da Unifesp (Universidade Federal de Medicina), quando o assunto foi levantado em uma conversa com o médico Drauzio Varella.

ARMA BIOLÓGICA

Já outros conspirólogos, mais dados a jogos de guerra do que à sacanagem propriamente dita, acreditam que a Aids foi uma doença fabricada em laboratório. Sim, caro leitor, esqueça os chimpanzés africanos de outrora. Até porque, segundo Peter Duesberg, professor de Biologia Molecular da Universidade da Califórnia, a Aids americana é diferente daquela encontrada na África - ele afirma que esta última seria resultado de má nutrição. Para essas mentes preocupadas, o governo americano teria desenvolvido o HIV artificialmente para usá-lo um dia como arma biológica. Só que, como seria previsível numa situação dessas, a criatura acaba fugindo das mãos do criador. O vírus letal teria escapado dos cientistas, sabe-se lá como, e começado a fazer vítimas pelo mundo - iniciando pelos próprios Estados Unidos, em Washington e Nova York.
Se você duvida, saiba que existem até governantes que acreditam nisso. Veja só: "A epidemia da Aids é uma guerra biológica produzida por certos Estados, e não uma doença natural", declarou o presidente da Namíbia, Sam Nujoma, à agência France Press, durante uma convenção em Genebra (Suíça), em janeiro de 2000. "Trata-se de uma doença fabricada pelo homem. A verdade é que a Aids não apareceu na África. Nós simplesmente nos convertemos em suas vítimas", afirmou, sem, no entanto, esclarecer quais seriam esses Estados criminosos. Fala sério, hein, presidente!

Eu acredito!

"Depois das revoluções sexuais e culturais dos anos 60 e 70, o mundo parecia caminhar para uma sociedade de puro sexo, drogas e rock’n’roll. O que os ultraconservadores podiam fazer para impedir uma coisa dessas? Puxar as rédeas do sexo e das drogas injetáveis foi fácil - bastou criar um vírus em laboratório, testá-lo em macacos africanos e espalhá-lo pelo mundo. Já o rock´n’roll deu mais trabalho: exigiu um exército de boys band e popstars pré-fabricadas. Mas eles venceram."
Rafael Kenski, repórter da SUPER, é a favor do sexo seguro.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Paternidade a dois - HIV

PATERNIDADE A DOIS



A década de 80 começou com um grande desafio para a ciência: identificar a causa de uma nova e fulminante doença, cujos sintomas incluíam manchas na pele, emagrecimento rápido e um tipo até então raro de câncer, o sarcoma de Kaposi. A urgência se justificava não apenas pela necessidade de tratar os doentes, mas sobretudo para evitar o pânico que ameaçava se espalhar pelo mundo: àquela altura, não se sabia se a recém-batizada Síndrome da Deficiência Imunológica Adquirida (Aids) poderia ser transmitida pelo ar ou pelo contato social. Houve um momento em que a doença foi tachada de "peste gay", devido à concentração de casos, numa primeira fase, entre homossexuais masculinos.

Duas equipes de cientistas se destacaram na investigação da doença. De um lado, o grupo liderado pelo francês Luc Montagnier, do Instituto Pasteur, na França. De outro, a equipe do americano Robert Gallo, do Instituto Nacional do Câncer, nos Estados Unidos. Em maio de 1983, Montagnier isolou um vírus que acreditava ser o causador da Aids. Em abril de 1984, Gallo anunciou a descoberta de um vírus e patenteou um teste para identificá-lo. Montagnier desconfiou tratar-se do mesmo vírus e reivindicou a paternidade da descoberta, dando início a uma polêmica que se arrastou por anos.
Em 1989, a imprensa americana levantou dúvidas sobre o comportamento de Gallo no processo. O vírus descoberto por ele, batizado de HIV (Human Immunodeficiency Virus), não apenas seria o mesmo que Montagnier anunciara, como surgiu a suspeita de que amostras tivessem sido surrupiadas do laboratório francês. O Departamento de Saúde americano investigou o caso e concluiu que Gallo cultivou vírus fornecidos pela equipe de Montagnier, a partir de amostras intercambiadas pelos dois centros. Gallo alegou que poderia ter ocorrido uma "contaminação" acidental. Em 1995, os Estados Unidos admitiram que os pesquisadores do Instituto Pasteur haviam identificado o HIV antes da equipe de Gallo. Apesar da controvérsia entre os dois cientistas, hoje se considera que o grupo de Montagnier foi o primeiro a identificar o HIV, mas o grupo de Gallo contribuiu significativamente para demonstrar que o vírus é o causador da Aids. Assim, ambos os cientistas passaram a ser reconhecidos como co-descobridores do vírus. Gallo dirige atualmente o Instituto de Virologia Humana da Universidade de Maryland, em Baltimore, nos Estados Unidos. Montagnier comanda o Departamento de Aids e Retrovírus do Instituto Pasteur, em Paris. Encerrada a disputa pela paternidade do vírus HIV, os dois cientistas chegaram a trabalhar juntos em pesquisas sobre a Aids.

O impacto da descoberta
A identificação do HIV, vírus que ataca o sistema imunológico do organismo, foi o ponto de partida para o combate à Aids, doença que mudou o comportamento sexual a partir dos anos 80. O desenvolvimento de uma vacina para a Aids é das maiores aspirações atuais da humanidade

Geração pós-HIV
O mundo nunca mais foi o mesmo depois da explosão de casos de Aids. Se a geração dos anos 60 cultuou o amor livre, a dos anos 80 se viu obrigada a mudar o comportamento em função dos riscos de pegar Aids. Com a descoberta de que o HIV é transmitido por via sexual ou através do sangue, o uso de preservativos passou a ser obrigatório e compartilhar seringas virou sentença de morte. A decadência física do doentes e a proliferação de celebridades vitimadas - Rock Hudson (1985), Lauro Corona (1989), Cazuza (1990), Freddie Mercury (1991) - foram suficientemente assustadoras para promover a prevenção.
Nos anos 90, o desenvolvimento dos remédios que compõem o coquetel de combate ao HIV trouxe qualidade de vida aos doentes, atuando contra as infecções oportunistas e reduzindo a debilidade física. A doença deixou de parecer tão devastadora e muita gente se descuidou. Mas a Aids continua sem cura - e matando. Estima-se que foram 3 milhões de baixas e 5 milhões de novas infecções em 2003, fazendo subir para 38 milhões o número de pessoas que vivem com o vírus no mundo.