Clique no PLAY para leitura automática do texto:

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Mas isto é que é ET? - Exobiologia


MAS ISTO É QUE É ET? - Exobiologia


É duro mas temos de admitir: os extraterrestres não são lá grande coisa. Pelo menos os que podem ter invadido a Terra há 13 000 anos sem que ninguém notasse. Contra todas as expectativas da fantasia, eles não chegaram num disco-voador, mas a bordo de um meteorito apelidado de ALH84001, achado na Antártida há doze anos. Não falam, muito menos se comunicam por telepatia. Sequer se movem. Não passam de múmias de bactérias de 3,6 bilhões de anos, mais singelas que os seres unicelulares que povoaram a Terra na mesma época. 


As fotos batidas pelos pesquisadores do Centro Espacial Johnson, da Nasa, anunciadas em agosto, mostram formas parecidas com minhocas, ou com chocolate granulado - como o que se usa em docinhos tipo brigadeiro (veja ao lado). Ninguém na equipe liderada por David McKay jura de pés juntos que isto seja ET. E ainda há dúvidas se é mesmo bactéria. Mas que parece, parece. Mais ainda, a análise do meteorito gerou uma lista de coincidências que levam a crer que os minerais, um dia, abrigaram atividade biológica.

Fora da Nasa, a cautela também é grande (veja a opinião de Arthur C. Clarke na página 33). Ainda assim, o clima é de estusiasmo. O astrônomo e escritor Carl Sagan, da Universidade Cornell, declarou: "Se os resultados forem confirmados, é sinal de que pode haver vida em todo o Universo." Está aberta a discussão. Será que as múmias são mesmo bactérias? Como o árido ambiente de Marte poderia ter gerado algum organismo? Qual a probabilidade de ainda habitarem o planeta vermelho? 



Uma sorte que veio do outro mundo

A caça aos marcianos não é feita na base do chute. Marte pode muito bem ter sido tão hospitaleiro quanto a Terra (veja o quadro grande ao lado). E é razoável imaginar ETs por lá, ao menos no passado. O nó da questão é decidir se a evidência apresentada agora vai além de uma soma de coincidências (veja o quadro abaixo). "Prova definitiva nós teríamos se desse para ver sinais de membrana celular nos possíveis fósseis", disse à SUPER a astrônoma Jane Luu, da Universidade Harvard. Sem achar as membranas, resta a desconfiança de que a aparente colônia de micromúmias possa ser apenas produto de uma reação química da rocha.

Se os bichos forem mesmo bichos, e marcianos, foi muita sorte achá-los. Primeiro: se o meteorito saiu de Marte, ele foi arrancado de lá por um asteróide enorme que despencou sobre o planeta. E aí, foi muita pontaria do acaso acertar esse meteorito bem no Pólo Sul, onde o gelo o conservou.  Mais afortunada ainda foi a geóloga Roberta Score, da Fundação Nacional de Ciência, que deu de cara com a pedra em 1984, ao tropeçar nela.



Em busca do endereço perdido

Se a sorte ajudou a encontrar os presumidos marcianos, muito mais sorte será necessário daqui pra frente. Pois, além de comprovar se elas são mesmo ETs, agora é preciso saber se ainda restam alguns deles se reproduzindo por lá. Segundo Christopher McKay, do Centro de Pesquisa Ames, a água congelada debaixo do solo marciano talvez preserve micróbios em estado de dormência. Que podem ser acordados. "Basta a água descongelar para reanimá-los", disse McKay à SUPER (veja o quadro abaixo). 

Infelizmente, as duas próximas excursões a Marte não vão procurá-los (veja o quadro na página ao lado). Mas, a Nasa quer verbas para ir atrás dos micróbios. Ela planeja buscar rochas marcianas, no ano 2005, para examiná-las de perto. Claro que o sucesso dependerá da sorte (além do financiamento). Por ora, a humanidade se encanta com a idéia de bancar a anfitriã de aliens. Mesmo que eles não sejam hiperfuturistas, não tenham dedos de neon e nem mandem mensagens telepáticas para cidadãos que passam a noite em volta de fogueiras, procurando discos voadores no céu.



PARA SABER MAIS



Mars Beckons, John Noble Wilford, editora Alfred A. Knopf, Nova York, 1990.

Pálido Ponto Azul, Carl Sagan, Cia. das Letras, São Paulo, 1996.



NA INTERNET:  



http://www.nasa.gov homepage da revista Science, no endereço http://www.eurekalert.org




 Quem vê cara...
Compare estas duas fotos. A primeira, acima, mostra bactérias terrestres chamadas Clostridium perfringens. Encontradas normalmente no solo e no intestino de animais como porcos, podem causar sérias doenças e até levar à morte por infecção generalizada



...Não vê orígem

Esta é uma das fotos da Nasa. Segundo os cientistas, cada tubinho pode ser uma bactéria marciana fossilizada. Repare que são iguaizinhas às suas primas terrestres. Mas são 100 vezes menores do que elas. Por enquanto, não se sabe se causariam doenças fatais.


Ascensão e queda de um mundo que já foi melhor

 No início, Marte era como a Terra. Há 3,5 bilhões de anos, ele perdeu o ar e a água congelou no subsolo. Nas fotos das naves Mariner e Viking vê-se o que restou daquela época.


1 - Há 4,3 bilhões de anos

O sistema solar já tem 2 milhões de anos de idade. Como a Terra, Marte sofre com a queda de pesados meteoros. Eles liberam grande quantidade de dióxido de carbono e nitrogênio das rochas. O bombardeio deixa vastas crateras carimbadas no solo. 



2 - Há 4 bilhões de anos

Vulcões gigantescos - com até 24 quilômetros de altura, três vezes mais do que o Monte Everest - cospem dióxido de carbono contido no subsolo. O acúmulo do gás provoca efeito estufa semelhante ao que hoje aquece a Terra. Com o calor, o gelo derrete e começa a correr água líquida.



3 - Há 3,8 bilhões de anos

É o cenário ideal para a proliferação de possíveis bactérias primitivas. Chuvas torrenciais criam rios, lagos e oceanos, que são fonte de inundações periódicas. O Vale Ares, com crateras marcadas pelas enxurradas (foto acima), aparece nesse período, numa enchente daquelas, um dilúvio bíblico.



4 - Há 3,5 bilhões de anos

Os vulcões se acalmam. O dióxido de carbono e a água são absorvidos pelas rochas. No lugar dos rios, restam desfiladeiros, como o Vale Marineris (foto acima). A atmosfera é seca e fria (60 graus Celsius negativos). Se toda sua umidade virasse chuva, Marte seria coberto por uma lâmina de água de apenas 6 milésimos de milímetro de espessura.


Acareação alienígena

 Não existe ainda nenhuma comprovação direta dos ETs. Para cada uma das interpretações favoráveis à atividade de microorganismos, há sempre um contra-argumento plausível por parte dos céticos.


O meteorito ALH84001

Contém minerais e gases semelhantes aos de Marte. Há astrônomos que acham que ele pode ser uma rocha terrestre ou de outro astro qualquer.



O carbonato

Na Terra, esse material achado nas conchas indica a presença de bactérias. Mas, no meteorito, pode ter surgido de reações químicas.



A magnetita

É um cristal que reveste os fósseis de bactérias na Terra. Mas pode se originar também da aglomeração de moléculas de ferro e oxigênio. 



Compostos de carbono

Aqui em nosso planeta, são produto da decomposição de plantas e plânctons. Mas também aparecem em reações químicas inorgânicas.


Você já leu na SUPER

 Saiu em SUPERNOTÍCIAS de junho de 1995. Uma equipe da Universidade Aberta, na Inglaterra, achou compostos de carbono no meteorito ALH84001. A mesma equipe já tinha detectado os compostos em outra rocha supostamente marciana, em 1989. Na época, Monica Grady, uma das pesquisadoras, disse à SUPER que isso era insuficiente para se afirmar que ali houvesse sinais de vida.

A saga de transformar o deserto em paraíso

 Parece coisa tirada de filmes de ficção científica. Mas tem muita gente pensando seriamente em construir uma filial da Terra em Marte.


O sonho saiu das páginas de alguns dos mais conhecidos ficcionistas do mundo, como Arthur C. Clarke e Isaac Asimov, e virou projeto na mesa de engenheiros, biólogos, geólogos e astrônomos. Eles querem reengenheirar Marte e pôr gente para morar lá. Em 1975, um grupo de cientistas do Centro de Pesquisa Ames, da Nasa, se reuniu para estudar a viabilidade da fantasia. Há diversas equipes trabalhando no assunto. Nada é impossível (desde que se tenha bastante tempo e dinheiro). 

A água pode vir das calotas polares e de massas geladas no subsolo, derretidas graças à energia solar concentrada por espelhos quilométricos flutuando no espaço. Um ingrediente especial do gelo marciano, o dióxido de carbono, liberado pelo derretimento, seria estratégico para produzir o efeito estufa, como este que aquece a Terra. Pelo menos lá o efeito estufa seria bom: a temperatura chegaria a um nível satisfatório para os novos colonizadores. 

O delírio científico não pára aí. Algas e líquens - alterados pela engenharia genética para suportar os raios ultravioletas - se encarregariam de filtrar o ar, produzindo o oxigênio. Tudo pronto: em uma questão de milênios, o clima em Marte seria um paraíso tropical. Por enquanto, você pode sonhar em acampar dentro de uma bolha de vidro como essa aí ao lado. Segundo Carl Sagan, as cúpulas fechadas podem ser realidade já no próximo século.


O mapa das minicolônias

 Se existe ainda hoje algum micróbio em Marte, ele está enterrado em regiões cobertas de gelo e com fonte interna de calor. O astrônomo Christopher McKay aponta três candidatos a endereços de ETs.


Bacia Hellas

É a maior cratera circular de Marte, com 1 600 quilômetros de diâmetro e 6 quilômetros de profundidade. Seu relevo é pouco acidentado. 



Montes Tharsis

Ficam próximos do grande Vale Marineris, na região do equador. Ali estão três dos maiores vulcões marcianos: Arsia, Pavonis e Ascraeus.



Planície Elysium

É uma vasta área plana localizada no hemisfério norte. O gelo que recobre o terreno pode esconder fósseis e até organismos adormecidos.


Próximas excursões interplanetárias

As duas missões da Nasa que partem no final do ano não estão equipadas para identificar sinais de extraterrestres. Mas podem desvendar outros mistérios.


A Mars Global Surveyor decola em novembro com data marcada para chegar lá em setembro de 1997. Em dois anos, vai estudar os campos gravitacional e magnético de Marte, sua atmosfera e relevo.



A Pathfinder sai em 31 de dezembro e chega no dia 4 de julho de 1997. Lá, vai soltar o Sojourney (foto), um "patinete" com 60 centímetros, que vai passear, filmar a paisagem e analisar o solo.



Nenhum comentário:

Postar um comentário