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quarta-feira, 15 de novembro de 2017

O Cortiço - Parte 1 de 5 - Aluísio Azevedo


O Cortiço - Parte 1 de 5 - Aluísio Azevedo

O Cortiço - Aluísio Azevedo


Tendo como cenário uma habitação coletiva, o romance difunde as teses naturalistas, que explicam o comportamento dos personagens com base na influência do meio, da raça e do momento histórico.

(SEGUE ABAIXO OBRA COMPLETA DIVIDIDA EM 5 POSTAGENS)


Resumo
O livro narra inicialmente a saga de João Romão rumo ao enriquecimento. Para acumular capital, ele explora os empregados e se utiliza até do furto para conseguir atingir seus objetivos. João Romão é o dono do cortiço, da taverna e da pedreira. Sua amante, Bertoleza, o ajuda de domingo a domingo, trabalhando sem descanso.

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 I
 
 
    João Romão foi, dos treze aos vinte e cinco anos, empregado de
um vendeiro que enriqueceu entre as quatro paredes de uma suja e
obscura taverna nos refolhos do bairro do Botafogo; e tanto
economizou do pouco que ganhara nessa dúzia de anos, que, ao
retirar-se o patrão para a terra, lhe deixou, em pagamento de ordenados
vencidos, nem só a venda com o que estava dentro, como ainda um
conto e quinhentos em dinheiro.
    Proprietário e estabelecido por sua conta, o rapaz atirou-se à
labutação ainda com mais ardor, possuindo-se de tal delírio de
enriquecer, que afrontava resignado as mais duras privações. Dormia
sobre o balcão da própria venda, em cima de uma esteira, fazendo
travesseiro de um saco de estopa cheio de palha. A comida
arranjava-lha, mediante quatrocentos réis por dia, uma quitandeira sua
vizinha, a Bertoleza, crioula trintona, escrava de um velho cego
residente em Juiz de Fora e amigada com um português que tinha uma
carroça de mão e fazia fretes na cidade.
    Bertoleza também trabalhava forte; a sua quitanda era a mais bem
afreguesada do bairro. De manhã vendia angu, e à noite peixe frito e
iscas de fígado; pagava de jornal a seu dono vinte mil-réis por mês, e,
apesar disso, tinha de parte quase que o necessário para a alforria. Um
dia, porém, o seu homem, depois de correr meia légua, puxando uma
carga superior às suas forças, caiu morto na rua, ao lado da carroça,
estrompado como uma besta.
    João Romão mostrou grande interesse por esta desgraça, fez-se
até participante direto dos sofrimentos da vizinha, e com tamanho
empenho a lamentou, que a boa mulher o escolheu para confidente das
suas desventuras. Abriu-se com ele, contou-lhe a sua vida de
amofinações e dificuldades. "Seu senhor comia-lhe a pele do corpo!
Não era brinquedo para uma pobre mulher ter de escarrar pr'ali, todos
os meses, vinte mil-réis em dinheiro!" E segredou-lhe então o que tinha
juntado para a sua liberdade e acabou pedindo ao vendeiro que lhe
guardasse as economias, porque já de certa vez fora roubada por
gatunos que lhe entraram na quitanda pelos fundos.
    Daí em diante, João Romão tornou-se o caixa, o procurador e o
conselheiro da crioula. No fim de pouco tempo era ele quem tomava
conta de tudo que ela produzia e era também quem punha e dispunha
dos seus pecúlios, e quem se encarregava de remeter ao senhor os vinte
mil-réis mensais. Abriu-lhe logo uma conta corrente, e a quitandeira,
quando precisava de dinheiro para qualquer coisa, dava um pulo até à
venda e recebia-o das mãos do vendeiro, de "Seu João", como ela dizia.
Seu João debitava metodicamente essas pequenas quantias num


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caderninho, em cuja capa de papel pardo lia-se, mal escrito e em letras
cortadas de jornal: "Ativo e passivo de Bertoleza".
    E por tal forma foi o taverneiro ganhando confiança no espírito da
mulher, que esta afinal nada mais resolvia só por si, e aceitava dele,
cegamente, todo e qualquer arbítrio. Por último, se alguém precisava
tratar com ela qualquer negócio, nem mais se dava ao trabalho de
procurá-la, ia logo direito a João Romão.
    Quando deram fé estavam amigados.
    Ele propôs-lhe morarem juntos e ela concordou de braços abertos,
feliz em meter-se de novo com um português, porque, como toda a
cafuza, Bertoleza não queria sujeitar-se a negros e procurava
instintivamente o homem numa raça superior à sua.
    João Romão comprou então, com as economias da amiga, alguns
palmos de terreno ao lado esquerdo da venda, e levantou uma casinha
de duas portas, dividida ao meio paralelamente à rua, sendo a parte da
frente destinada à quitanda e a do fundo para um dormitório que se
arranjou com os cacarecos de Bertoleza. Havia, além da cama, uma
cômoda de jacarandá muito velha com maçanetas de metal amarelo já
mareadas, um oratório cheio de santos e forrado de papel de cor, um
baú grande de couro cru tacheado, dois banquinhos de pau feitos de
uma só peça e um formidável cabide de pregar na parede, com a sua
competente coberta de retalhos de chita.
    O vendeiro nunca tivera tanta mobília.
    - Agora, disse ele à crioula, as coisas vão correr melhor para você.
Você vai ficar forra; eu entro com o que falta.
    Nesse dia ele saiu muito à rua, e uma semana depois apareceu com
uma folha de papel toda escrita, que leu em voz alta à companheira.
    - Você agora não tem mais senhor! declarou em seguida à leitura,
que ela ouviu entre lágrimas agradecidas. Agora está livre. Doravante o
que você fizer é só seu e mais de seus filhos, se os tiver. Acabou-se o
cativeiro de pagar os vinte mil-réis à peste do cego!
    - Coitado! A gente se queixa é da sorte! Ele, como meu senhor,
exigia o jornal, exigia o que era seu!
    - Seu ou não seu, acabou-se! E vida nova!
    Contra todo o costume, abriu-se nesse dia uma garrafa de vinho
do Porto, e os dois beberam-na em honra ao grande acontecimento.
Entretanto, a tal carta de liberdade era obra do próprio João Romão, e
nem mesmo o selo, que ele entendeu de pespegar-lhe em cima, para dar
à burla maior formalidade, representava despesa porque o esperto
aproveitara uma estampilha já servida. O senhor de Bertoleza não teve
sequer conhecimento do fato; o que lhe constou, sim, foi que a sua
escrava lhe havia fugido para a Bahia depois da morte do amigo.
    - O cego que venha buscá-la aqui, se for capaz... desafiou o
vendeiro de si para si. Ele que caia nessa e verá se tem ou não pra pêras!
    Não obstante, só ficou tranqüilo de todo daí a três meses, quando
lhe constou a morte do velho. A escrava passara naturalmente em
herança a qualquer dos filhos do morto; mas, por estes, nada havia que
recear: dois pândegos de marca maior que, empolgada a legitima,
cuidariam de tudo, menos de atirar-se na pista de uma crioula a quem
não viam de muitos anos àquela parte. "Ora! bastava já, e não era


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pouco, o que lhe tinham sugado durante tanto tempo!"
    Bertoleza representava agora ao lado de João Romão o papel
tríplice de caixeiro, de criada e de amante. Mourejava a valer, mas de
cara alegre; às quatro da madrugada estava já na faina de todos os dias,
aviando o café para os fregueses e depois preparando o almoço para os
trabalhadores de uma pedreira que havia para além de um grande
capinzal aos fundos da venda. Varria a casa, cozinhava, vendia ao
balcão na taverna, quando o amigo andava ocupado lá por fora; fazia a
sua quitanda durante o dia no intervalo de outros serviços, e à noite
passava-se para a porta da venda, e, defronte de um fogareiro de barro,
fritava fígado e frigia sardinhas, que Romão ia pela manhã, em mangas
de camisa, de tamancos e sem meias, comprar à praia do Peixe. E o
demônio da mulher ainda encontrava tempo para lavar e consertar,
além da sua, a roupa do seu homem, que esta, valha a verdade, não era
tanta e nunca passava em todo o mês de alguns pares de calças de
zuarte e outras tantas camisas de riscado.
    João Romão não saia nunca a passeio, nem ia à missa aos
domingos; tudo que rendia a sua venda e mais a quitanda seguia
direitinho para a caixa econômica e daí então para o banco. Tanto assim
que, um ano depois da aquisição da crioula, indo em hasta pública
algumas braças de terra situadas ao fundo da taverna, arrematou-as
logo e tratou, sem perda de tempo, de construir três casinhas de porta e
janela.
    Que milagres de esperteza e de economia não realizou ele nessa
construção! Servia de pedreiro, amassava e carregava barro, quebrava
pedra; pedra, que o velhaco, fora de horas, junto com a amiga, furtavam
à pedreira do fundo, da mesma forma que subtraiam o material das
casas em obra que havia por ali perto.
    Estes furtos eram feitos com todas as cautelas e sempre coroados
do melhor sucesso, graças à circunstância de que nesse tempo a polícia
não se mostrava muito por aquelas alturas. João Romão observava
durante o dia quais as obras em que ficava material para o dia seguinte,
e à noite lá estava ele rente, mais a Bertoleza, a removerem tábuas,
tijolos, telhas, sacos de cal, para o meio da rua, com tamanha habilidade
que se não ouvia vislumbre de rumor. Depois, um tomava uma carga e
partia para casa, enquanto o outro ficava de alcatéia ao lado do resto,
pronto a dar sinal, em caso de perigo; e, quando o que tinha ido voltava,
seguia então o companheiro, carregado por sua vez.
    Nada lhes escapava, nem mesmo as escadas dos pedreiros, os
cavalos de pau, o banco ou a ferramenta dos marceneiros.
    E o fato é que aquelas três casinhas, tão engenhosamente
construídas, foram o ponto de partida do grande cortiço de São
Romão.
    Hoje quatro braças de terra, amanhã seis, depois mais outras, ia o
vendeiro conquistando todo o terreno que se estendia pelos fundos da
sua bodega; e, à proporção que o conquistava, reproduziam-se os
quartos e o número de moradores.
    Sempre em mangas de camisa, sem domingo nem dia santo, não
perdendo nunca a ocasião de assenhorear-se do alheio, deixando de
pagar todas as vezes que podia e nunca deixando de receber,


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enganando os fregueses, roubando nos pesos e nas medidas,
comprando por dez réis de mel coado o que os escravos furtavam da
casa dos seus senhores, apertando cada vez mais as próprias despesas,
empilhando privações sobre privações, trabalhando e mais a amiga
como uma junta de bois, João Romão veio afinal a comprar uma boa
parte da bela pedreira, que ele, todos os dias, ao cair da tarde,
assentado um instante à porta da venda, contemplava de longe com um
resignado olhar de cobiça.
    Pôs lá seis homens a quebrarem pedra e outros seis a fazerem
lajedos e paralelepípedos, e então principiou a ganhar em grosso, tão em
grosso que, dentro de ano e meio, arrematava já todo o espaço
compreendido entre as suas casinhas e a pedreira, isto é, umas oitenta
braças de fundo sobre vinte de frente em plano enxuto e magnífico para
construir.
    Justamente por essa ocasião vendeu-se também um sobrado que
ficava à direita da venda, separado desta apenas por aquelas vinte
braças; de sorte que todo o flanco esquerdo do prédio, coisa de uns
vinte e tantos metros, despejava para o terreno do vendeiro as suas
nove janelas de peitoril. Comprou-o um tal Miranda, negociante
português, estabelecido na Rua do Hospício com uma loja de fazendas
por atacado. Corrida uma limpeza geral no casarão, mudar-se-ia ele
para lá com a família, pois que a mulher, Dona Estela, senhora
pretensiosa e com fumaças de nobreza, já não podia suportar a
residência no centro da cidade, como também sua menina, a
Zulmirinha, crescia muito pálida e precisava de largueza para enrijar e
tomar corpo.
    Isto foi o que disse o Miranda aos colegas, porém a verdadeira
causa da mudança estava na necessidade, que ele reconhecia urgente,
de afastar Dona Estela do alcance dos seus caixeiros. Dona Estela era
uma mulherzinha levada da breca: achava-se casada havia treze anos e
durante esse tempo dera ao marido toda sorte de desgostos. Ainda
antes de terminar o segundo ano de matrimônio, o Miranda pilhou-a em
flagrante delito de adultério; ficou furioso e o seu primeiro impulso foi
de mandá-la para o diabo junto com o cúmplice; mas a sua casa
comercial garantia-se com o dote que ela trouxera, uns oitenta contos
em prédios e ações da divida publica, de que se utilizava o desgraçado
tanto quanto lhe permitia o regime dotal. Além de que, um rompimento
brusco seria obra para escândalo, e, segundo a sua opinião, qualquer
escândalo doméstico ficava muito mal a um negociante de certa ordem.
Prezava, acima de tudo, a sua posição social e tremia só com a idéia de
ver-se novamente pobre, sem recursos e sem coragem para recomeçar a
vida, depois de se haver habituado a umas tantas regalias e afeito à
hombridade de português rico que já não tem pátria na Europa.
    Acovardado defronte destes raciocínios, contentou-se com uma
simples separação de leitos, e os dois passaram a dormir em quartos
separados. Não comiam juntos, e mal trocavam entre si uma ou outra
palavra constrangida, quando qualquer inesperado acaso os reunia a
contragosto.
    Odiavam-se. Cada qual sentia pelo outro um profundo desprezo,
que pouco a pouco se foi transformando em repugnância completa. O


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nascimento de Zulmira veio agravar ainda mais a situação; a pobre
criança, em vez de servir de elo aos dois infelizes, foi antes um novo
isolador que se estabeleceu entre eles. Estela amava-a menos do que lhe
pedia o instinto materno por supô-la filha do marido, e este a detestava
porque tinha convicção de não ser seu pai.
    Uma bela noite, porém, o Miranda, que era homem de sangue
esperto e orçava então pelos seus trinta e cinco anos, sentiu-se em
insuportável estado de lubricidade. Era tarde já e não havia em casa
alguma criada que lhe pudesse valer. Lembrou-se da mulher, mas
repeliu logo esta idéia com escrupulosa repugnância. Continuava a
odiá-la. Entretanto este mesmo fato de obrigação em que ele se colocou
de não servir-se dela, a responsabilidade de desprezá-la, como que
ainda mais lhe assanhava o desejo da carne, fazendo da esposa infiel
um fruto proibido. Afinal, coisa singular, posto que moralmente nada
diminuísse a sua repugnância pela perjura, foi ter ao quarto dela.
    A mulher dormia a sono solto. Miranda entrou pé ante pé e
aproximou-se da cama. "Devia voltar!... pensou. Não lhe ficava bem
aquilo!..." Mas o sangue latejava-lhe, reclamando-a. Ainda hesitou um
instante, imóvel, a contemplá-la no seu desejo.
    Estela, como se o olhar do marido lhe apalpasse o corpo, torceu-se
sobre o quadril da esquerda, repuxando com as coxas o lençol para a
frente e patenteando uma nesga de nudez estofada e branca. O
Miranda não pôde resistir, atirou-se contra ela, que, num pequeno
sobressalto, mais de surpresa que de revolta, desviou-se, tornando logo
e enfrentando com o marido. E deixou-se empolgar pelos rins, de olhos
fechados, fingindo que continuava a dormir, sem a menor consciência
de tudo aquilo.
    Ah! ela contava como certo que o esposo, desde que não teve
coragem de separar-se de casa, havia, mais cedo ou mais tarde, de
procurá-la de novo. Conhecia-lhe o temperamento, forte para desejar e
fraco para resistir ao desejo.
    Consumado o delito, o honrado negociante sentiu-se tolhido de
vergonha e arrependimento. Não teve animo de dar palavra, e retirou-se
tristonho e murcho para o seu quarto de desquitado.
    Oh! como lhe doía agora o que acabava de praticar na cegueira da
sua sensualidade.
    - Que cabeçada!... dizia ele agitado. Que formidável
cabeçada!...
    No dia seguinte, os dois viram-se e evitaram-se em silêncio, como
se nada de extraordinário houvera entre eles acontecido na véspera.
Dir-se-ia até que, depois daquela ocorrência, o Miranda sentia crescer o
seu ódio contra a esposa. E, à noite desse mesmo dia, quando se achou
sozinho na sua cama estreita, jurou mil vezes aos seus brios nunca mais,
nunca mais, praticar semelhante loucura.
    Mas, daí a um mês, o pobre homem, acometido de um novo acesso
de luxúria, voltou ao quarto da mulher.
    Estela recebeu-o desta vez como da primeira, fingindo que não
acordava; na ocasião, porém, em que ele se apoderava dela febrilmente,
a leviana, sem se poder conter, soltou-lhe em cheio contra o rosto uma
gargalhada que a custo sopeava. O pobre-diabo desnorteou, deveras


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escandalizado, soerguendo-se, brusco, num estremunhamento de
sonâmbulo acordado com violência.
    A mulher percebeu a situação e não lhe deu tempo para fugir;
passou-lhe rápido as pernas por cima e, grudando-se-lhe ao corpo,
cegou-o com uma metralhada de beijos.
    Não se falaram.
    Miranda nunca a tivera, nem nunca a vira, assim tão violenta no
prazer. Estranhou-a. Afigurou-se-lhe estar nos braços de uma amante
apaixonada: descobriu nela o capitoso encanto com que nos
embebedam as cortesãs amestradas na ciência do gozo venéreo.
Descobriu-lhe no cheiro da pele e no cheiro dos cabelos perfumes que
nunca lhe sentira; notou-lhe outro hálito, outro som nos gemidos e nos
suspiros. E gozou-a, gozou-a loucamente, com delírio, com verdadeira
satisfação de animal no cio.
    E ela também, ela também gozou, estimulada por aquela
circunstância picante do ressentimento que os desunia; gozou a
desonestidade daquele ato que a ambos acanalhava aos olhos um do
outro; estorceu-se toda, rangendo os dentes, grunhindo, debaixo
daquele seu inimigo odiado, achando-o também agora, como homem,
melhor que nunca, sufocando-o nos seus braços nus, metendo-lhe pela
boca a língua úmida e em brasa. Depois, um arranco de corpo inteiro,
com um soluço gutural e estrangulado, arquejante e convulsa,
estatelou-se num abandono de pernas e braços abertos, a cabeça para o
lado, os olhos moribundos e chorosos, toda ela agonizante, como se a
tivessem crucificado na cama.
    A partir dessa noite, da qual só pela manhã o Miranda se retirou do
quarto da mulher, estabeleceu-se entre eles o hábito de uma felicidade
sexual, tão completa como ainda não a tinham desfrutado, posto que no
intimo de cada um persistisse contra o outro a mesma repugnância
moral em nada enfraquecida.
    Durante dez anos viveram muito bem casados; agora, porém,
tanto tempo depois da primeira infidelidade conjugal, e agora que o
negociante já não era acometido tão freqüentemente por aquelas crises
que o arrojavam fora de horas ao dormitório de Dona Estela; agora, eis
que a leviana parecia disposta a reincidir na culpa, dando corda aos
caixeiros do marido, na ocasião em que estes subiam para almoçar ou
jantar.
    Foi por isso que o Miranda comprou o prédio vizinho a João
Romão.
    A casa era boa; seu único defeito estava na escassez do quintal;
mas para isso havia remédio: com muito pouco compravam-se umas dez
braças daquele terreno do fundo que ia até à pedreira, e mais uns dez ou
quinze palmos do lado em que ficava a venda.
    Miranda foi logo entender-se com o Romão e propôs-lhe negócio.
O taverneiro recusou formalmente.
    Miranda insistiu.
    - O senhor perde seu tempo e seu latim! retrucou o amigo de
Bertoleza. Nem só não cedo uma polegada do meu terreno, como ainda
lhe compro, se mo quiser vender, aquele pedaço que lhe fica ao fundo
da casa!


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    - O quintal?
    - É exato.
    - Pois você quer que eu fique sem chácara, sem jardim, sem
nada?
    - Para mim era de vantagem...
    - Ora, deixe-se disso, homem, e diga lá quanto quer pelo que lhe
propus.
    - Já disse o que tinha a dizer.
    - Ceda-me então ao menos as dez braças do fundo.
    - Nem meio palmo!
    - Isso é maldade de sua parte, sabe? Eu, se faço tamanho
empenho, é pela minha pequena, que precisa, coitada, de um pouco de
espaço para alargar-se.
    - E eu não cedo, porque preciso do meu terreno!
    - Ora qual! Que diabo pode lá você fazer ali? Uma porcaria de
um pedaço de terreno quase grudado ao morro e aos fundos de minha
casa! quando você, aliás, dispõe de tanto espaço ainda!
    - Hei de lhe mostrar se tenho ou não o que fazer ali!
    - É que você é teimoso! Olhe, se me cedesse as dez braças do
fundo, a sua parte ficaria cortada em linha reta até à pedreira, e
escusava eu de ficar com uma aba de terreno alheio a meter-se pelo
meu. Quer saber? não amuro o quintal sem você decidir-se!
    - Então ficará com o quintal para sempre sem muro, porque o que
tinha a dizer já disse!
    - Mas, homem de Deus, que diabo! pense um pouco! Você ali
não pode construir nada! Ou pensará que lhe deixarei abrir janelas sobre
o meu quintal!...
    - Não preciso abrir janelas sobre o quintal de ninguém!
    - Nem tampouco lhe deixarei levantar parede, tapando-me as
janelas da esquerda!
    - Não preciso levantar parede desse lado...
    - Então que diabo vai você fazer de todo este terreno?...
    - Ah! isso agora é cá comigo!... O que for soará!
    - Pois creia que se arrepende de não me ceder o terreno!...
    - Se me arrepender, paciência! Só lhe digo é que muito mal se
sairá quem quiser meter-se cá com a minha vida!
    - Passe bem!
    - Adeus!
    Travou-se então uma lata renhida e surda entre o português
negociante de fazendas por atacado e o português negociante de secos
e molhados. Aquele não se resolvia a fazer o muro do quintal, sem ter
alcançado o pedaço de terreno que o separava do morro; e o outro, por
seu lado, não perdia a esperança de apanhar-lhe ainda, pelo menos,
duas ou três braças aos fundos da casa; parte esta que, conforme os seus
cálculos, valeria ouro, uma vez realizado o grande projeto que
ultimamente o trazia preocupado - a criação de uma estalagem em
ponto enorme, uma estalagem monstro, sem exemplo, destinada a
matar toda aquela miuçalha de cortiços que alastravam por Botafogo.
    Era este o seu ideal. Havia muito que João Romão vivia
exclusivamente para essa idéia; sonhava com ela todas as noites;


[Linha 350 de 8202 - Parte 1 de 5]


comparecia a todos os leilões de materiais de construção; arrematava
madeiramentos já servidos; comprava telha em segunda mão; fazia
pechinchas de cal e tijolos; o que era tudo depositado no seu extenso
chão vazio, cujo aspecto tomava em breve o caráter estranho de uma
enorme barricada, tal era a variedade dos objetos que ali se apinhavam
acumulados: tábuas e sarrafos, troncos de árvore, mastros de navio,
caibros, restos de carroças, chaminés de barro e de ferro, fogões
desmantelados, pilhas e pilhas de tijolos de todos os feitios, barricas de
cimento, montes de areia e terra vermelha, aglomerações de telhas
velhas, escadas partidas, depósitos de cal, o diabo enfim; ao que ele,
que sabia perfeitamente como essas coisas se furtavam, resguardava,
soltando à noite um formidável cão de fila.
    Este cão era pretexto de eternas resingas com a gente do Miranda,
a cujo quintal ninguém de casa podia descer, depois das dez horas da
noite, sem correr o risco de ser assaltado pela fera.
    - É fazer o muro! dizia o João Romão, sacudindo os ombros.
    - Não faço! replicava o outro. Se ele é questão de capricho eu
também tenho capricho!
    Em compensação, não caia no quintal do Miranda galinha ou
frango, fugidos do cercado do vendeiro, que não levasse imediato
sumiço. João Romão protestava contra o roubo em termos violentos,
jurando vinganças terríveis, falando em dar tiros.
    - Pois é fazer um muro no galinheiro! repontava o marido de
Estela.
    Daí a alguns meses, João Romão, depois de tentar um derradeiro
esforço para conseguir algumas braças do quintal do vizinho, resolveu
principiar as obras da estalagem.
    - Deixa estar, conversava ele na cama com a Bertoleza; deixa
estar que ainda lhe hei de entrar pelos fundos da casa, se é que não lhe
entre pela frente! Mais cedo ou mais tarde como-lhe, não duas braças,
mas seis, oito, todo o quintal e até o próprio sobrado talvez!
    E dizia isto com uma convicção de quem tudo pode e tudo espera
da sua perseverança, do seu esforço inquebrantável e da fecundidade
prodigiosa do seu dinheiro, dinheiro que só lhe saia das unhas para
voltar multiplicado.
    Desde que a febre de possuir se apoderou dele totalmente, todos
os seus atos, todos, fosse o mais simples, visavam um interesse
pecuniário. Só tinha uma preocupação: aumentar os bens. Das suas
hortas recolhia para si e para a companheira os piores legumes, aqueles
que, por maus, ninguém compraria; as suas galinhas produziam muito e
ele não comia um ovo, do que no entanto gostava imenso; vendia-os
todos e contentava-se com os restos da comida dos trabalhadores.
Aquilo já não era ambição, era uma moléstia nervosa, uma loucura, um
desespero de acumular; de reduzir tudo a moeda. E seu tipo baixote,
socado, de cabelos à escovinha, a barba sempre por fazer, ia e vinha da
pedreira para a venda, da venda às hortas e ao capinzal, sempre em
mangas de camisa, de tamancos, sem meias, olhando para todos os
lados, com o seu eterno ar de cobiça, apoderando-se, com os olhos, de
tudo aquilo de que ele não podia apoderar-se logo com as unhas.
    Entretanto, a rua lá fora povoava-se de um modo admirável.


[Linha 400 de 8202 - Parte 1 de 5]


Construía-se mal, porém muito; surgiam chalés e casinhas da noite para
o dia; subiam os aluguéis; as propriedades dobravam de valor.
Montara-se uma fábrica de massas italianas e outra de velas, e os
trabalhadores passavam de manhã e às Ave-Marias, e a maior parte
deles ia comer à casa de pasto que João Romão arranjara aos fundos da
sua varanda. Abriram-se novas tavernas; nenhuma, porém, conseguia
ser tão afreguesada como a dele. Nunca o seu negocio fora tão bem,
nunca o finório vendera tanto; vendia mais agora, muito mais, que nos
anos anteriores. Teve até de admitir caixeiros. As mercadorias não lhe
paravam nas prateleiras; o balcão estava cada vez mais lustroso, mais
gasto. E o dinheiro a pingar, vintém por vintém, dentro da gaveta, e a
escorrer da gaveta para a barra, aos cinqüenta e aos cem mil-réis, e da
burra para o banco, aos contos e aos contos.
    Afinal, já lhe não bastava sortir o seu estabelecimento nos
armazéns fornecedores; começou a receber alguns gêneros diretamente
da Europa: o vinho, por exemplo, que ele dantes comprava aos quintos
nas casas de atacado, vinha-lhe agora de Portugal às pipas, e de cada
uma fazia três com água e cachaça; e despachava faturas de barris de
manteiga, de caixas de conserva, caixões de fósforos, azeite, queijos,
louça e muitas outras mercadorias.
    Criou armazéns para depósito, aboliu a quitanda e transferiu o
dormitório, aproveitando o espaço para ampliar a venda, que dobrou de
tamanho e ganhou mais duas portas.
    Já não era uma simples taverna, era um bazar em que se encontrava
de tudo, objetos de armarinho, ferragens, porcelanas, utensílios de
escritório, roupa de riscado para os trabalhadores, fazenda para roupa
de mulher, chapéus de palha próprios para o serviço ao sol, perfumarias
baratas, pentes de chifre, lenços com versos de amor, e anéis e brincos
de metal ordinário.
    E toda a gentalha daquelas redondezas ia cair lá, ou então ali ao
lado, na casa de pasto, onde os operários das fábricas e os trabalhadores
da pedreira se reuniam depois do serviço, e ficavam bebendo e
conversando até as dez horas da noite, entre o espesso fumo dos
cachimbos, do peixe frito em azeite e dos lampiões de querosene.
    Era João Romão quem lhes fornecia tudo, tudo, até dinheiro
adiantado, quando algum precisava. Por ali não se encontrava
jornaleiro, cujo ordenado não fosse inteirinho parar às mãos do
velhaco. E sobre este cobre, quase sempre emprestado aos tostões,
cobrava juros de oito por cento ao mês, um pouco mais do que levava
aos que garantiam a divida com penhores de ouro ou prata.
    Não obstante, as casinhas do cortiço, à proporção que se
atamancavam, enchiam-se logo, sem mesmo dar tempo a que as tintas
secassem. Havia grande avidez em alugá-las; aquele era o melhor ponto
do bairro para a gente do trabalho. Os empregados da pedreira
preferiam todos morar lá, porque ficavam a dois passos da obrigação.
    O Miranda rebentava de raiva.
    - Um cortiço! exclamava ele, possesso. Um cortiço! Maldito seja
aquele vendeiro de todos os diabos! Fazer-me um cortiço debaixo das
janelas!... Estragou-me a casa, o malvado!
    E vomitava pragas, jurando que havia de vingar-se, e protestando


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aos berros contra o pó que lhe invadia em ondas as salas, e contra o
infernal baralho dos pedreiros e carpinteiros que levavam a martelar de
sol a sol.
    O que aliás não impediu que as casinhas continuassem a surgir,
uma após outra, e fossem logo se enchendo, a estenderem-se unidas por
ali a fora, desde a venda até quase ao morro, e depois dobrassem para o
lado do Miranda e avançassem sobre o quintal deste, que parecia
ameaçado por aquela serpente de pedra e cal.
    O Miranda mandou logo levantar o muro.
    Nada! aquele demônio era capaz de invadir-lhe a casa até a sala de
visitas!
    E os quartos do cortiço pararam enfim de encontro ao muro do
negociante, formando com a continuação da casa deste um grande
quadrilongo, espécie de pátio de quartel, onde podia formar um
batalhão.
    Noventa e cinco casinhas comportou a imensa estalagem.
    Prontas, João Romão mandou levantar na frente, nas vinte braças
que separavam a venda do sobrado do Miranda, um grosso muro de
dez palmos de altura, coroado de cacos de vidro e fundos de garrafa, e
com um grande portão no centro, onde se dependurou uma lanterna de
vidraças vermelhas, por cima de uma tabuleta amarela, em que se lia o
seguinte, escrito a tinta encarnada e sem ortografia:
    "Estalagem de São Romão. Alugam-se casinhas e tinas para
lavadeiras".
    As casinhas eram alugadas por mês e as tinas por dia; tudo pago
adiantado. O preço de cada tina, metendo a água, quinhentos réis;
sabão à parte. As moradoras do cortiço tinham preferência e não
pagavam nada para lavar.
    Graças à abundância da água que lá havia, como em nenhuma
outra parte, e graças ao muito espaço de que se dispunha no cortiço para
estender a roupa, a concorrência às tinas não se fez esperar; acudiram
lavadeiras de todos os pontos da cidade, entre elas algumas vindas de
bem longe. E, mal vagava uma das casinhas, ou um quarto, um canto
onde coubesse um colchão, surgia uma nuvem de pretendentes a
disputá-los.
    E aquilo se foi constituindo numa grande lavanderia, agitada e
barulhenta, com as suas cercas de varas, as suas hortaliças verdejantes e
os seus jardinzinhos de três e quatro palmos, que apareciam como
manchas alegres por entre a negrura das limosas tinas transbordantes e
o revérbero das claras barracas de algodão cru, armadas sobre os
lustrosos bancos de lavar. E os gotejantes jiraus, cobertos de roupa
molhada, cintilavam ao sol, que nem lagos de metal branco.
    E naquela terra encharcada e fumegante, naquela umidade quente
e lodosa, começou a minhocar, a esfervilhar, a crescer, um mundo, uma
coisa viva, uma geração, que parecia brotar espontânea, ali mesmo,
daquele lameiro, e multiplicar-se como larvas no esterco.


II
 


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     Durante dois anos o cortiço prosperou de dia para dia, ganhando forças,
socando-se de gente. E ao lado o Miranda assustava-se, inquieto com aquela
exuberância brutal de vida, aterrado defronte daquela floresta implacável que lhe
crescia junto da casa, por debaixo das janelas, e cujas raízes, piores e mais grossas
do que serpentes, minavam por toda a parte, ameaçando rebentar o chão em torno
dela, rachando o solo e abalando tudo.
    Posto que lá na Rua do Hospício os seus negócios não corressem
mal, custava-lhe a sofrer a escandalosa fortuna do vendeiro "aquele
tipo! um miserável, um sujo, que não pusera nunca um paletó, e que
vivia de cama e mesa com uma negra!"
    À noite e aos domingos ainda mais recrudescia o seu azedume,
quando ele, recolhendo-se fatigado do serviço, deixava-se ficar
estendido numa preguiçosa, junto à mesa da sala de jantar, e ouvia, a
contragosto, o grosseiro rumor que vinha da estalagem numa exalação
forte de animais cansados. Não podia chegar à janela sem receber no
rosto aquele bafo, quente e sensual, que o embebedava com o seu
fartum de bestas no coito.
    E depois, fechado no quarto de dormir, indiferente e habituado às
torpezas carnais da mulher, isento já dos primitivos sobressaltos que lhe
faziam, a ele, ferver o sangue e perder a tramontana, era ainda a
prosperidade do vizinho o que lhe obsedava o espírito,
enegrecendo-lhe a alma com um feio ressentimento de despeito.
    Tinha inveja do outro, daquele outro português que fizera fortuna,
sem precisar roer nenhum chifre; daquele outro que, para ser mais rico
três vezes do que ele, não teve de casar com a filha do patrão ou com a
bastarda de algum fazendeiro freguês da casa!
    Mas então, ele Miranda, que se supunha a última expressão da
ladinagem e da esperteza; ele, que, logo depois do seu casamento,
respondendo para Portugal a um ex-colega que o felicitava, dissera que
o Brasil era uma cavalgadura carregada de dinheiro, cujas rédeas um
homem fino empolgava facilmente; ele, que se tinha na conta de
invencível matreiro, não passava afinal de um pedaço de asno
comparado com o seu vizinho! Pensara fazer-se senhor do Brasil e
fizera-se escravo de uma brasileira mal-educada e sem escrúpulos de
virtude! Imaginara-se talhado para grandes conquistas, e não passava
de uma vitima ridícula e sofredora!... Sim! no fim de contas qual fora a
sua África?... Enriquecera um pouco, é verdade, mas como? a que
preço? hipotecando-se a um diabo, que lhe trouxera oitenta contos de
réis, mas incalculáveis milhões de desgostos e vergonhas! Arranjara a
vida, sim, mas teve de aturar eternamente uma mulher que ele odiava! E
do que afinal lhe aproveitar tudo isso? Qual era afinal a sua grande
existência? Do inferno da casa para o purgatório do trabalho e
vice-versa! Invejável sorte, não havia dúvida!
    Na dolorosa incerteza de que Zulmira fosse sua filha, o
desgraçado nem sequer gozava o prazer de ser pai. Se ela, em vez de
nascer de Estela, fora uma enjeitadinha recolhida por ele, é natural que
a amasse e então a vida lhe correria de outro modo; mas naquelas
condições, a pobre criança nada mais representava que o documento
vivo do ludibrio materno, e o Miranda estendia até à


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inocentezinhad'África o ódio que sustentava contra a esposa.
    Uma espiga a tal da sua vida!
    - Fui uma besta! resumiu ele, em voz alta, apeando-se da cama,
onde se havia recolhido inutilmente.
    E pôs-se a passear no quarto sem vontade de dormir, sentindo que
a febre daquela inveja lhe estorricava os miolos.
    Feliz e esperto era o João Romão! esse, sim, senhor! Para esse é
que havia de ser a vida!... Filho da mãe, que estava hoje tão livre e
desembaraçado como no dia em que chegou da terra sem um vintém de
seu! esse, sim, que era moço e podia ainda gozar muito, porque quando
mesmo viesse a casar e a mulher lhe saísse uma outra Estela era só
mandá-la para o diabo com um pontapé! Podia fazê-lo! Para esse é que
era o Brasil!
    - Fui uma besta! repisava ele sem conseguir conformar-se com a
felicidade do vendeiro. Uma grandíssima! No fim de contas que diabo
possuo eu?... Uma casa de negócio, da qual não posso separar-me sem
comprometer o que lá está enterrado! um capital metido numa rede de
transações que não se liquidam nunca, e cada vez mais se complicam e
mais me grudam ao estupor desta terra, onde deixarei a casca! Que
tenho de meu, se a alma do meu crédito é o dote, que me trouxe aquela
sem-vergonha e que a ela me prende como a peste da casa comercial me
prende a esta Costa d'África?
    Foi da supuração fétida destas idéias que se formou no coração
vazio do Miranda um novo ideal - o título. Faltando-lhe
temperamento próprio para os vícios fortes que enchem a vida de um
homem; sem família, a quem amar e sem imaginação para poder gozar
com as prostitutas, o náufrago agarrou-se àquela tábua, como um
agonizante, consciente da morte, que se apega à esperança de uma vida
futura. A vaidade de Estela, que a principio lhe tirava dos lábios
incrédulos sorrisos de mofa, agora lhe comprazia à farta. Procurou
capacitar-se de que ela com efeito herdara sangue nobre, que ele, por
sua vez, se não o tinha herdado, trouxera-o por natureza própria, o que
devia valer mais ainda; e desde então principiou a sonhar com um
baronato, fazendo disso o objeto querido da sua existência, muito
satisfeito no intimo por ter afinal descoberto uma coisa em que podia
empregar dinheiro, sem ter, nunca mais, de restituí-lo à mulher, nem ter
de deixá-lo a pessoa alguma.
    Semelhante preocupação modificou-o em extremo. Deu logo para
fingir-se escravo das conveniências, afetando escrúpulos sociais,
empertigando-se quanto podia e disfarçando a sua inveja pelo vizinho
com um desdenhoso ar de superioridade condescendente. Ao
passar-lhe todos os dias pela venda, cumprimentava-o com proteção,
sorrindo sem rir e fechando logo a cara em seguida, muito sério.
    Dados os primeiros passos para a compra do titulo abriu a casa e
deu festas. A mulher, posto que lhe apontassem já os cabelos brancos,
rejubilou com isso.
    Zulmira tinha então doze para treze anos e era o tipo acabado da
fluminense; pálida, magrinha, com pequeninas manchas roxas nas
mucosas do nariz, das pálpebras e dos lábios, faces levemente
pintalgadas de sardas. Respirava o tom úmido das flores noturnas, uma


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brancura fria de magnólia; cabelos castanho-claros, mãos quase
transparentes, unhas moles e curtas, como as da mãe, dentes pouco
mais claros do que a cútis do rosto, pés pequeninos, quadril estreito mas
os olhos grandes, negros, vivos e maliciosos.
    Por essa época, justamente, chegava de Minas, recomendado ao
pai dela, o filho de um fazendeiro importantíssimo que dava belos
lucros à casa comercial de Miranda e que era talvez o melhor freguês
que este possuía no interior.
    O rapaz chamava-se Henrique, tinha quinze anos e vinha terminar
na corte alguns preparatórios que lhe faltavam para entrar na Academia
de Medicina. Miranda hospedou-o no seu sobrado da Rua do Hospício
mas o estudante queixou-se, no fim de alguns dias, de que ai ficava mal
acomodado, e o negociante, a quem não convinha desagradar-lhe,
carregou com ele para a sua residência particular de Botafogo.
    Henrique era bonitinho, cheio de acanhamentos, com umas
delicadezas de menina. Parecia muito cuidadoso dos seus estudos e tão
pouco extravagante e gastador, que não despendia um vintém fora das
necessidade de primeira urgência. De resto, a não ser de manhã para as
aulas, que ia sempre com o Miranda, não arredava pé de casa senão em
companhia da família, deste. Dona Estela, no cabo de pouco tempo,
mostrou por ele estima quase maternal e encarregou-se de tomar conta
da sua mesada, mesada posta pelo negociante, visto que o Henriquinho
tinha ordem franca do pai.
    Nunca pedia dinheiro; quando precisava de qualquer coisa,
reclamava-a de Dona Estela, que por sua vez encarregava o marido de
comprá-la, sendo o objeto lançado na conta do fazendeiro com uma
comissão de usurário. Sua hospedagem custava duzentos e cinqüenta
mil-réis por mês, do que ele todavia não tinha conhecimento, nem
queria ter. Nada lhe faltava, e os criados da casa o respeitavam como a
um filho do próprio senhor.
    À noite, às vezes, quando o tempo estava bom, Dona Estela saia
com ele, a filha e um moleque, o Valentim, a darem uma volta ate à
praia e, em tendo convite para qualquer festa em casa das amigas,
levava-o em sua companhia.
    A criadagem da família, do Miranda compunha-se de Isaura,
mulata ainda moça, moleirona e tola, que gastava todo o vintenzinho
que pilhava em comprar capilé na venda de João Romão; uma negrinha
virgem, chamada Leonor, muito ligeira e viva, lisa e seca como um
moleque, conhecendo de orelha, sem lhe faltar um termo, a vasta
tecnologia da obscenidade, e dizendo, sempre que os caixeiros ou os
fregueses da taverna, só para mexer com ela, lhe davam atracações:
"Óia, que eu me queixo ao juiz de orfe!", e finalmente o tal Valentim,
filho de uma escrava que foi de Dona Estela e a quem esta havia
alforriado.
    A mulher do Miranda tinha por este moleque uma afeição sem
limites: dava-lhe toda a liberdade, dinheiro, presentes, levava-o
consigo a passeio, trazia-o bem vestido e muita vez chegou a fazer
ciúmes à filha, de tão solicita que se mostrava com ele. Pois se a
caprichosa senhora ralhava com Zulmira por causa do negrinho! Pois, se
quando se queixavam os dois, um contra o outro, ela nunca dava razão


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à filha! Pois se o que havia de melhor na casa era para o Valentim! Pois,
se quando foi este atacado de bexigas e o Miranda, apesar das súplicas
e dos protestos da esposa, mandou-o para um hospital, Dona Estela
chorava todos os dias e durante a ausência dele não tocou piano, nem
cantou, nem mostrou os dentes a ninguém? E o pobre Miranda, se não
queria sofrer impertinências da mulher e ouvir sensaborias defronte dos
criados, tinha de dar ao moleque toda a consideração e fazer-lhe
humildemente todas as vontades.
    Havia ainda, sob as telhas do negociante, um outro hóspede além
do Henrique, o velho Botelho. Este, porém, na qualidade de parasita.
    Era um pobre-diabo caminhando para os setenta anos, antipático,
cabelo branco, curto e duro, como escova, barba e bigode do mesmo
teor; muito macilento, com uns óculos redondos que lhe aumentavam o
tamanho da pupila e davam-lhe à cara uma expressão de abutre,
perfeitamente de acordo com o seu nariz adunco e com a sua boca sem
lábios: viam-se-lhe ainda todos os dentes, mas, tão gastos, que
pareciam limados até ao meio. Andava sempre de preto, com um
guarda-chuva debaixo do braço e um chapéu de Braga enterrado nas
orelhas. Fora em seu tempo empregado do comércio, depois corretor de
escravos; contava mesmo que estivera mais de uma vez na África
negociando negros por sua conta. Atirou-se muito às especulações;
durante a guerra do Paraguai ainda ganhara forte, chegando a ser bem
rico; mas a roda desandou e, de malogro em malogro, foi-lhe escapando
tudo por entre as suas garras de ave de rapina. E agora, coitado, já
velho, comido de desilusões, cheio de hemorróidas, via-se totalmente
sem recursos e vegetava à sombra do Mirada, com quem por muitos
anos trabalhou em rapaz, sob as ordens do mesmo patrão, e de quem se
conservara amigo, a principio por acaso e mais tarde por necessidade.
    Devorava-o, noite e dia, uma implacável amargura, uma surda
tristeza de vencido, um desespero impotente, contra tudo e contra
todos, por não lhe ter sido possível empolgar o mundo com as suas
mãos hoje inúteis e trêmulas. E, como o seu atual estado de miséria não
lhe permitia abrir contra ninguém o bico, desabafava vituperando as
idéias da época.
    Assim, eram às vezes muito quentes as sobremesas do Miranda,
quando, entre outros assuntos palpitantes, vinha à discussão o
movimento abolicionista que principiava a formar-se em torno da lei
Rio Branco. Então o Botelho ficava possesso e vomitava frases
terríveis, para a direita e para a esquerda, como quem dispara tiros sem
fazer alvo, e vociferava imprecações, aproveitando aquela válvula para
desafogar o velho ódio acumulado dentro dele.
    - Bandidos! berrava apoplético. Cáfila de salteadores!
    E o seu rancor irradiava-lhe dos olhos em setas envenenadas,
procurando cravar-se em todas as brancuras e em todas as claridades. A
virtude, a beleza, o talento, a mocidade, a força, a saúde, e
principalmente a fortuna, eis o que ele não perdoava a ninguém,
amaldiçoando todo aquele que conseguia o que ele não obtivera; que
gozava o que ele não desfrutara; que sabia o que ele não aprendera. E,
para individualizar o objeto do seu ódio, voltava-se contra o Brasil, essa
terra que, na sua opinião, só tinha uma serventia: enriquecer os


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portugueses, e que, no entanto, o deixara, a ele, na penúria.
    Seus dias eram consumidos do seguinte modo: acordava às oito
da manhã, lavava-se mesmo no quarto com uma toalha molhada em
espírito de vinho; depois ia ler os jornais para a sala de jantar, à espera
do almoço; almoçava e sala, tomava o bonde e ia direitinho para uma
charutaria da Rua do Ouvidor, onde costumava ficar assentado até às
horas do jantar, entretido a dizer mal das pessoas que passavam lá fora,
defronte dele. Tinha a pretensão de conhecer todo o Rio de Janeiro e os
podres de cada um em particular. Às vezes, poucas, Dona Estela
encarregava-o de fazer pequenas compras de armarinho, o que o
Botelho desempenhava melhor que ninguém? Mas a sua grande paixão,
o seu fraco, era a farda, adorava tudo que dissesse respeito a
militarismo, posto que tivera sempre invencível medo às armas de
qualquer espécie, mormente às de fogo. Não podia ouvir disparar perto
de si uma espingarda, entusiasmava-se porém com tudo que cheirasse a
guerra; a presença de um oficial em grande uniforme tirava-lhe lágrimas
de comoção; conhecia na ponta da língua o que se referia à vida de
quartel; distinguia ao primeiro lance de olhos o posto e o corpo a que
pertencia qualquer soldado e, apesar dos seus achaques, era ouvir tocar
na rua a corneta ou o tambor conduzindo o batalhão, ficava logo no ar,
e, muita vez, quando dava por si, fazia parte dos que acompanhavam a
tropa. Então, não tornava para casa enquanto os militares neo se
recolhessem. Quase sempre voltava dessa loucura às seis da tarde,
moído a fazer dó, sem poder ter-se nas pernas, estrompado de marchar
horas e horas ao som da música de pancadaria. E o mais interessante é
que ele, ao vir-lhe a reação, revoltava-se furioso contra o maldito
comandante que o obrigava àquela estopada, levando o batalhão por
uma infinidade de ruas e fazendo de propósito o caminho mais longo.
    - Só parece, lamentava-se ele, que a intenção daquele malvado
era dar-me cabo da pele! Ora vejam! Três horas de marche-marche por
uma soalheira de todos os diabos!
    Uma das birras mais cômicas do Botelho era o seu ódio pelo
Valentim. O moleque causava-lhe febre com as suas petulâncias de
mimalho, e, velhaco, percebendo quanto elas o irritavam, ainda mais
abusava, seguro na proteção de Dona Estela. O parasita de muito que o
teria estrangulado, se não fora a necessidade de agradar à dona da casa.
    Botelho conhecia as faltas de Estela como as palmas da própria
mão. O Miranda mesmo, que o via em conta de amigo fiel, muitas e
muitas vezes lhas confiara em ocasiões desesperadas de desabafo,
declarando francamente o quanto no intimo a desprezava e a razão por
que não a punha na rua aos pontapés. E o Botelho dava-lhe toda a
razão; entendia também que os sérios interesses comerciais estavam
acima de tudo.
    - Uma mulher naquelas condições, dizia ele convicto, representa
nada menos que o capital, e um capital em caso nenhum a gente
despreza! Agora, você o que devia era nunca chegar-se para ela...
    - Ora! explicava o marido. Eu me sirvo dela como quem se serve
de uma escarradeira!
    O parasita, feliz por ver quanto o amigo aviltava a mulher,
concordava em tudo plenamente, dando-lhe um carinhoso abraço de


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admiração. Mas por outro lado, quando ouvia Estela falar do marido,
com infinito desdém e até com asco, ainda mais resplandecia de
contente.
    - Você quer saber? afirmava ela, eu bem percebo quanto aquele
traste do senhor meu marido me detesta, mas isso tanto se me dá como
a primeira camisa que vesti! Desgraçadamente para nós, mulheres de
sociedade, não podemos viver sem esposo, quando somos casadas; de
forma que tenho de aturar o que me caiu em sorte, quer goste dele quer
não goste! Juro-lhe, porém, que, se consinto que o Miranda se chegue às
vezes para mim, é porque entendo que paga mais à pena ceder do que
puxar discussão com uma besta daquela ordem!
    O Botelho, com a sua encanecida experiência do mundo, nunca
transmitia a nenhum dos dois o que cada qual lhe dizia contra o outro;
tanto assim que, certa ocasião, recolhendo-se à casa incomodado, em
hora que não era do seu costume, ouviu, ao passar pelo quintal,
sussurros de vozes abafadas que pareciam vir de um canto afogado de
verdura, onde em geral não ia ninguém.
    Encaminhou-se para lá em bicos de pés e, sem ser percebido,
descobriu Estela entalada entre o muro e o Henrique. Deixou-se ficar
espiando, sem tugir nem mugir, e, só quando os dois se separaram, foi
que ele se mostrou.
    A senhora soltou um pequeno grito, e o rapaz, de vermelho que
estava, fez-se cor de cera; mas o Botelho procurou tranqüilizá-los,
dizendo em voz amiga e misteriosa:
    - Isso é uma imprudência o que vocês estão fazendo!... Estas
coisas não é deste modo que se arranjam! Assim como fui eu, podia ser
outra pessoa... Pois numa casa em que há tantos quartos, é lá preciso vir
meterem-se neste canto do quintal?...
    - Nós não estávamos fazendo nada! disse Estela, recuperando o
sangue-frio.
    - Ah! tornou o velho, aparentando sumo respeito: então
desculpe, pensei que estivessem... E olhe que, se assim fosse, para mim
seria o mesmo, porque acho isso a coisa mais natural do mundo e
entendo que desta vida a gente só leva o que come!... Se vi, creia, foi
como se nada visse, porque nada tenho a cheirar com a vida de cada
um!... A senhora está moça, está na força dos anos; seu marido não a
satisfaz, é justo que o substitua por outro! Ah! isto é o mundo, e, se é
torto, não fomos nós que o fizemos torto!... Até certa idade todos
temos dentro um bichinho-carpinteiro, que é preciso matar, antes que
ele nos mate! Não lhes doam as mãos!... apenas acho que, para outra
vez, devem ter um pouquinho mais de cuidado e...
    - Está bom! basta! ordenou Estela.
    - Perdão! eu, se digo isto, é para deixá-los bem tranqüilos a meu
respeito. Não quero, nem por sombra, que se persuadam de que...
    O Henrique atalhou, com a voz ainda comovida:
    - Mas, acredite, seu Botelho, que...
    O velho interrompeu-o também por sua vez, passando-lhe a mão
no ombro e afastando-o consigo:
    - Não tenha receio, que não o comprometerei, menino!
    E, como já estivessem distantes de Estela, segredou-lhe em tom


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protetor:
    - Não torne a fazer isto assim, que você se estraga... Olhe como
lhe tremem as pernas!
    Dona Estela acompanhou-os a distancia, vagarosamente,
afetando preocupação em compor um ramalhete, cujas flores ela ia
colhendo com muita graça, ora toda vergada sobre as plantas rasteiras,
ora pondo-se na pontinha dos pés para alcançar os heliotrópios e os
manacás.
    Henrique seguiu o Botelho até ao quarto deste, conversando sem
mudar de assunto.
    - Você então não fala nisto, hein? Jura? perguntou-lhe.
    O velho tinha já declarado, a rir, que os pilhara em flagrante e que
ficara bom tempo à espreita.
    - Falar o quê, seu tolo?... Pois então quem pensa você que eu
sou?... Só abrirei o bico se você me der motivo para isso, mas estou
convencido que não dará... Quer saber? eu até simpatizo muito com
você, Henrique! Acho que você é um excelente menino, uma flor! E
digo-lhe mais: hei de proteger os seus negócios com Dona Estela...
    Falando assim, tinha-lhe tomado as mãos e afagava-as.
    - Olhe, continuou, acariciando-o sempre; não se meta com
donzelas, entende?... São o diabo! Por dá cá aquela palha fica um
homem em apuros! agora quanto às outras, papo com elas! Não mande
nenhuma ao vigário, nem lhe doa a cabeça, porque, no fim de contas,
nas circunstâncias de Dona Estela, é até um grande serviço que você lhe
faz! Meu rico amiguinho, quando uma mulher já passou dos trinta e
pilha a jeito um rapazito da sua idade, é como se descobrisse ouro em
pó! sabe-lhe a gaitas! Fique então sabendo de que não é só a ela que
você faz o obséquio, mas também ao marido: quanto mais escovar-lhe
você a mulher, melhor ela ficará de gênio, e por conseguinte melhor será
para o pobre homem, coitado! que tem já bastante com que se aborrecer
lá por baixo, com os seus negócios, e precisa de um pouco de descanso
quando volta do serviço e mete-se em casa! Escove-a, escove-a! que a
porá macia que nem veludo! O que é preciso é muito juizinho, percebe?
Não faça outra criançada como a de hoje e continue para diante, não só
com ela, mas com todas as que lhe caírem debaixo da asa! Vá passando!
menos as de casa aberta, que isso é perigoso por causa das moléstias;
nem tampouco donzelas! Não se meta com a Zulmira! E creia que lhe
falo assim, porque sou seu amigo, porque o acho simpático, porque o
acho bonito!
    E acarinhou-o tão vivamente dessa vez, que o estudante,
fugindo-lhe das mãos, afastou-se com um gesto de repugnância e
desprezo, enquanto o velho lhe dizia em voz comprimida:
    - Olha! Espera! Vem cá! Você é desconfiado!...


III


    Eram cinco horas da manhã e o cortiço acordava, abrindo, não os
olhos, mas a sua infinidade de portas e janelas alinhadas.


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    Um acordar alegre e farto de quem dormiu de uma assentada sete
horas de chumbo. Como que se sentiam ainda na indolência de neblina
as derradeiras notas da ultima guitarra da noite antecedente,
dissolvendo-se à luz loura e tenra da aurora, que nem um suspiro de
saudade perdido em terra alheia.
    A roupa lavada, que ficara de véspera nos coradouros, umedecia o
ar e punha-lhe um farto acre de sabão ordinário. As pedras do chão,
esbranquiçadas no lugar da lavagem e em alguns pontos azuladas pelo
anil, mostravam uma palidez grisalha e triste, feita de acumulações de
espumas secas.
    Entretanto, das portas surgiam cabeças congestionadas de sono;
ouviam-se amplos bocejos, fortes como o marulhar das ondas;
pigarreava-se grosso por toda a parte; começavam as xícaras a tilintar; o
cheiro quente do café aquecia, suplantando todos os outros;
trocavam-se de janela para janela as primeiras palavras, os bons-dias;
reatavam-se conversas interrompidas à noite; a pequenada cá fora
traquinava já, e lá dentro das casas vinham choros abafados de crianças
que ainda não andam. No confuso rumor que se formava,
destacavam-se risos, sons de vozes que altercavam, sem se saber onde,
grasnar de marrecos, cantar de galos, cacarejar de galinhas. De alguns
quartos saiam mulheres que vinham pendurar cá fora, na parede, a
gaiola do papagaio, e os louros, à semelhança dos donos,
cumprimentavam-se ruidosamente, espanejando-se à luz nova do dia.
    Daí a pouco, em volta das bicas era um zunzum crescente; uma
aglomeração tumultuosa de machos e fêmeas. Uns, após outros,
lavavam a cara, incomodamente, debaixo do fio de água que escorria
da altura de uns cinco palmos. O chão inundava-se. As mulheres
precisavam já prender as saias entre as coxas para não as molhar;
via-se-lhes a tostada nudez dos braços e do pescoço, que elas despiam,
suspendendo o cabelo todo para o alto do casco; os homens, esses não
se preocupavam em não molhar o pêlo, ao contrário metiam a cabeça
bem debaixo da água e esfregavam com força as ventas e as barbas,
fossando e fungando contra as palmas da mão. As portas das latrinas
não descansavam, era um abrir e fechar de cada instante, um entrar e
sair sem tréguas. Não se demoravam lá dentro e vinham ainda
amarrando as calças ou as saias; as crianças não se davam ao trabalho de
lá ir, despachavam-se ali mesmo, no capinzal dos fundos, por detrás da
estalagem ou no recanto das hortas.
    O rumor crescia, condensando-se; o zunzum de todos os dias
acentuava-se; já se não destacavam vozes dispersas, mas um só ruído
compacto que enchia todo o cortiço. Começavam a fazer compras na
venda; ensarilhavam-se discussões e resingas; ouviam-se gargalhadas e
pragas; já se não falava, gritava-se. Sentia-se naquela fermentação
sangüínea, naquela gula viçosa de plantas rasteiras que mergulham os
pés vigorosos na lama preta e nutriente da vida, o prazer animal de
existir, a triunfante satisfação de respirar sobre a terra.
    Da porta da venda que dava para o cortiço iam e vinham como
formigas; fazendo compras.
    Duas janelas do Miranda abriram-se. Apareceu numa a Isaura, que
se dispunha a começar a limpeza da casa.


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    - Nhá Dunga! gritou ela para baixo, a sacudir um pano de mesa;
se você tem cuscuz de milho hoje, bata na porta, ouviu?
    A Leonor surgiu logo também, enfiando curiosa a carapinha por
entre o pescoço e o ombro da mulata.
    O padeiro entrou na estalagem, com a sua grande cesta à cabeça e
o seu banco de pau fechado debaixo do braço, e foi estacionar em meio
do pátio, à espera dos fregueses, pousando a canastra sobre o cavalete
que ele armou prontamente. Em breve estava cercado por uma nuvem
de gente. As crianças adulavam-no, e, à proporção que cada mulher ou
cada homem recebia o pão, disparava para casa com este abraçado
contra o peito. Uma vaca, seguida por um bezerro amordaçado, ia,
tilintando tristemente o seu chocalho, de porta em porta, guiada por um
homem carregado de vasilhame de folha.
    O zunzum chegava ao seu apogeu. A fábrica de massas italianas,
ali mesmo da vizinhança, começou a trabalhar, engrossando o barulho
com o seu arfar monótono de máquina a vapor. As corridas até à venda
reproduziam-se, transformando-se num verminar constante de
formigueiro assanhado. Agora, no lugar das bicas apinhavam-se latas
de todos os feitios, sobressaindo as de querosene com um braço de
madeira em cima; sentia-se o trapejar da água caindo na folha. Algumas
lavadeiras enchiam já as suas tinas; outras estendiam nos coradouros a
roupa que ficara de molho. Principiava o trabalho. Rompiam das
gargantas os fados portugueses e as modinhas brasileiras. Um carroção
de lixo entrou com grande barulho de rodas na pedra, seguido de uma
algazarra medonha algaraviada pelo carroceiro contra o burro.
    E, durante muito tempo, fez-se um vaivém de mercadores.
Apareceram os tabuleiros de carne fresca e outros de tripas e fatos de
boi; só não vinham hortaliças, porque havia muitas hortas no cortiço.
Vieram os ruidosos mascates, com as suas latas de quinquilharia, com
as suas caixas de candeeiros e objetos de vidro e com o seu
fornecimento de caçarolas e chocolateiras, de folha-de-flandres. Cada
vendedor tinha o seu modo especial de apregoar, destacando-se o
homem das sardinhas, com as cestas do peixe dependuradas, à moda
de balança, de um pau que ele trazia ao ombro. Nada mais foi preciso
do que o seu primeiro guincho estridente e gutural para surgirem logo,
como por encanto, uma enorme variedade de gatos, que vieram
correndo acercar-se dele com grande familiaridade, roçando-se-lhe nas
pernas arregaçadas e miando suplicantemente. O sardinheiro os
afastava com o pé, enquanto vendia o seu peixe à porta das casinhas,
mas os bichanos não desistiam e continuavam a implorar, arranhando os
cestos que o homem cuidadosamente tapava mal servia ao freguês. Para
ver-se livre por um instante dos importunos era necessário atirar para
bem longe um punhado de sardinhas, sobre o qual se precipitava logo,
aos pulos, o grupo dos pedinchões.
    A primeira que se pôs a lavar foi a Leandra, por alcunha a
"Machona", portuguesa feroz, berradora, pulsos cabeludos e grossos,
anca de animal do campo. Tinha duas filhas, uma casada e separada do
marido, Ana das Dores, a quem só chamavam a "das Dores" e outra
donzela ainda, a Nenen, e mais um filho, o Agostinho, menino levado
dos diabos, que gritava tanto ou melhor que a mãe. A das Dores morava


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em sua casinha à parte, mas toda a família habitava no cortiço.
    Ninguém ali sabia ao certo se a Machona era viúva ou desquitada;
os filhos não se pareciam uns com os outros. A das Dores, sim,
afirmavam que fora casada e que largara o marido para meter-se com
um homem do comércio; e que este, retirando-se para a terra e não
querendo soltá-la ao desamparo, deixara o sócio em seu lugar. Teria
vinte e cinco anos.
    Nenen dezessete. Espigada, franzina e forte, com uma proazinha
de orgulho da sua virgindade, escapando como enguia por entre os
dedos dos rapazes que a queriam sem ser para casar. Engomava bem e
sabia fazer roupa branca de homem com muita perfeição.
    Ao lado da Leandra foi colocar-se à sua tina a Augusta
Carne-Mole, brasileira, branca, mulher de Alexandre, um mulato de
quarenta anos, soldado de policia, pernóstico, de grande bigode preto,
queixo sempre escanhoado e um luxo de calças brancas engomadas e
botões limpos na farda, quando estava de serviço. Também tinham
filhos, mas ainda pequenos, um dos quais, a Juju, vivia na cidade com a
madrinha que se encarregava dela. Esta madrinha era uma cocote de
trinta mil-réis para cima, a Léonie, com sobrado na cidade. Procedência
francesa.
    Alexandre, em casa, à hora de descanso, nos seus chinelos e na sua
camisa desabotoada, era muito chão com os companheiros de
estalagem, conversava, ria e brincava, mas envergando o uniforme,
encerando o bigode e empunhando a sua chibata, com que tinha o
costume de fustigar as calças de brim, ninguém mais lhe via os dentes e
então a todos falava teso e por cima do ombro. A mulher, a quem ele só
dava tu quando não estava fardado, era de uma honestidade proverbial
no cortiço, honestidade sem mérito, porque vinha da indolência do seu
temperamento e não do arbítrio do seu caráter.
    Junto dela pôs-se a trabalhar a Leocádia, mulher de um ferreiro
chamado Bruno, portuguesa pequena e socada, de carnes duras, com
uma fama terrível de leviana entre as suas vizinhas.
    Seguia-se a Paula, uma cabocla velha, meio idiota, a quem
respeitavam todos pelas virtudes de que só ela dispunha para benzer
erisipelas e cortar febres por meio de rezas e feitiçarias. Era
extremamente feia, grossa, triste, com olhos desvairados, dentes
cortados à navalha, formando ponta, como dentes de cão, cabelos lisos,
escorridos e ainda retintos apesar da idade. Chamavam-lhe "Bruxa".
    Depois seguiam-se a Marciana e mais a sua filha Florinda. A
primeira, mulata antiga, muito seria e asseada em exagero: a sua casa
estava sempre úmida das consecutivas lavagens. Em lhe apanhando o
mau humor punha-se logo a espanar, a varrer febrilmente, e, quando a
raiva era grande, corria a buscar um balde de água e descarregava-o
com fúria pelo chão da sala. A filha tinha quinze anos, a pele de um
moreno quente, beiços sensuais, bonitos dentes, olhos luxuriosos de
macaca. Toda ela estava a pedir homem, mas sustentava ainda a sua
virgindade e não cedia, nem à mão de Deus Padre, aos rogos de João
Romão, que a desejava apanhar a troco de pequenas concessões na
medida e no peso das compras que Florinda fazia diariamente à venda.
    Depois via-se a velha Isabel, isto é, Dona Isabel, porque ali na


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estalagem lhes dispensavam todos certa consideração, privilegiada
pelas suas maneiras graves de pessoa que já teve tratamento: uma pobre
mulher comida de desgostos. Fora casada com o dono de uma casa de
chapéus, que quebrou e suicidou-se, deixando-lhe uma filha muito
doentinha e fraca, a quem Isabel sacrificou tudo para educar,
dando-lhe mestre até de francês. Tinha uma cara macilenta de velha
portuguesa devota, que já foi gorda, bochechas moles de pelancas
rechupadas, que lhe pendiam dos cantos da boca como saquinhos
vazios; fios negros no queixo, olhos castanhos, sempre chorosos
engolidos pelas pálpebras. Puxava em bandos sobre as fontes o escasso
cabelo grisalho untado de óleo de amêndoas doces. Quando saia à rua
punha um eterno vestido de seda preta, achamalotada, cuja saia não
fazia rugas, e um xale encarnado que lhe dava a todo o corpo um feitio
piramidal. Da sua passada grandeza só lhe ficara uma caixa de rapé de
ouro, na qual a inconsolável senhora pitadeava  agora, suspirando a
cada pitada.
    A filha era a flor do cortiço. Chamavam-lhe Pombinha. Bonita,
posto que enfermiça e nervosa ao último ponto; loura, muito pálida,
com uns modos de menina de boa família. A mãe não lhe permitia lavar,
nem engomar, mesmo porque o médico a proibira expressamente.
    Tinha o seu noivo, o João da Costa, moço do comércio, estimado
do patrão e dos colegas, com muito futuro, e que a adorava e conhecia
desde pequenita; mas Dona Isabel não queria que o casamento se
fizesse já. É que Pombinha, orçando aliás pelos dezoito anos, não tinha
ainda pago à natureza o cruento tributo da puberdade, apesar do zelo
da velha e dos sacrifícios que esta fazia para cumprir à risca as
prescrições do médico e não faltar à filha o menor desvelo. No entanto,
coitadas! daquele casamento dependia a felicidade de ambas, porque o
Costa, bem empregado como se achava em casa de um tio seu, de quem
mais tarde havia de ser sócio, tencionava, logo que mudasse de estado,
restituí-las ao seu primitivo circulo social. A pobre velha desesperava-se
com o fato e pedia a Deus, todas as noites, antes de dormir, que as
protegesse e conferisse à filha uma graça tão simples que ele fazia, sem
distinção de merecimento, a quantas raparigas havia pelo mundo; mas,
a despeito de tamanho empenho, por coisa nenhuma desta vida
consentiria que a sua pequena casasse antes de "ser mulher", como dizia
ela. E "que deixassem lá falar o doutor, entendia que não era decente,
nem tinha jeito, dar homem a uma moça que ainda não fora visitada
pelas regras! Não! Antes vê-la solteira toda a vida e ficarem ambas
curtindo para sempre aquele inferno da estalagem!"
    Lá no cortiço estavam todos a par desta história; não era segredo
para ninguém. E não se passava um dia que não interrogassem duas e
três vezes a velha com estas frases:
    - Então? Já veio?
    - Por que não tenta os banhos de mar?
    - Por que não chama outro médico?
    - Eu, se fosse a senhora, casava-os assim mesmo!
    A velha respondia dizendo que a felicidade não se fizera para ela.
E suspirava resignada.
    Quando o Costa aparecia depois da sua obrigação para visitar a


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noiva, os moradores da estalagem cumprimentavam-no em silêncio
com um respeitoso ar de lástima e piedade, empenhados tacitamente
por aquele caiporismo, contra o qual não valiam nem mesmo as virtudes
da Bruxa.
    Pombinha era muito querida por toda aquela gente. Era quem lhe
escrevia as cartas; quem em geral fazia o rol para as lavadeiras; quem
tirava as contas; quem lia o jornal para os que quisessem ouvir.
Prezavam-na com muito respeito e davam-lhe presentes, o que lhe
permitia certo luxo relativo. Andava sempre de botinhas ou sapatinhos
com meias de cor, seu vestido de chita engomado; tinha as suas
joiazinhas para sair à rua, e, aos domingos, quem a encontrasse à missa
na igreja de São João Batista, não seria capaz de desconfiar que ela
morava em cortiço.
    Fechava a fila das primeiras lavadeiras, o Albino, um sujeito
afeminado, fraco, cor de espargo cozido e com um cabelinho castanho,
deslavado e pobre, que lhe caia, numa só linha, até ao pescocinho mole
e fino. Era lavadeiro e vivia sempre entre as mulheres, com quem já
estava tão familiarizado que elas o tratavam como a uma pessoa do
mesmo sexo; em presença dele falavam de coisas que não exporiam em
presença de outro homem; faziam-no até confidente dos seus amores e
das suas infidelidades, com uma franqueza que o não revoltava, nem
comovia. Quando um casal brigava ou duas amigas se disputavam, era
sempre Albino quem tratava de reconciliá-los, exortando as mulheres à
concórdia. Dantes encarregava-se de cobrar o rol das colegas, por
amabilidade; mas uma vez, indo a uma república de estudantes,
deram-lhe lá, ninguém sabia por quê, uma dúzia de bolos, e o
pobre-diabo jurou então, entre lágrimas e soluços, que nunca mais se
incumbiria de receber os róis.
    E daí em diante, com efeito, não arredava os pezinhos do cortiço,
a não ser nos dias de carnaval, em que ia, vestido de dançarina, passear
à tarde pelas ruas e à noite dançar nos bailes dos teatros. Tinha
verdadeira paixão por esse divertimento; ajuntava dinheiro durante o
ano para gastar todo com a mascarada. E ninguém o encontrava,
domingo ou dia de semana, lavando ou descansando, que não estivesse
com a sua calça branca engomada, a sua camisa limpa, um lenço ao
pescoço, e, amarrado à cinta, um avental que lhe caia sobre as pernas
como uma saia. Não fumava, não bebia espíritos e trazia sempre as
mãos geladas e úmidas.
    Naquela manhã levantara-se ainda um pouco mais lânguido que
do costume, porque passara mal a noite. A velha Isabel, que lhe ficava
ao lado esquerdo, ouvindo-o suspirar com insistência, perguntou-lhe o
que tinha.
    Ah! muita moleza de corpo e uma pontada do vazio que o não
deixava!
    A velha receitou diversos remédios, e ficaram os dois, no meio de
toda aquela vida, a falar tristemente sobre moléstias.
    E, enquanto, no resto da fileira, a Machona, a Augusta, a
Leocádia, a Bruxa, a Marciana e sua filha conversavam de tina a tina,
berrando e quase sem se ouvirem, a voz um tanto cansada já pelo
serviço, defronte delas, separado pelos jiraus, formava-se um novo


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renque de lavadeiras, que acudiam de fora, carregadas de trouxas, e
iam ruidosamente tomando lagar ao lado umas das outras, entre uma
agitação sem tréguas, onde se não distinguia o que era galhofa e o que
era briga. Uma a uma ocupavam-se todas as tinas. E de todos os casulos
do cortiço saiam homens para as suas obrigações. Por uma porta que
havia ao fundo da estalagem desapareciam os trabalhadores da
pedreira, donde vinha agora o retinir dos alviões e das picaretas. O
Miranda, de calças de brim, chapéu alto e sobrecasaca preta, passou lá
fora, em caminho para o armazém, acompanhado pelo Henrique que ia
para as aulas. O Alexandre, que estivera de serviço essa madrugada,
entrou solene, atravessou o pátio, sem falar a ninguém, nem mesmo à
mulher, e recolheu-se à casa, para dormir. Um grupo de mascates, o
Delporto, o Pompeo, o Francesco e o Andréa, armado cada qual com a
sua grande caixa de bugigangas, saiu para a peregrinação de todos os
dias, altercando e praguejando em italiano.
    Um rapazito de paletó entrou da rua e foi perguntar à Machona
pela Nhá Rita.
    - A Rita Baiana? Sei cá! Faz amanhã oito dias que ela arribou!
    A Leocádia explicou logo que a mulata estava com certeza de
pândega com o Firmo.
    - Que Firmo? interrogou Augusta.
    - Aquele cabravasco que se metia às vezes ai com ela. Diz que é
torneiro.
    - Ela mudou-se? perguntou o pequeno.
    - Não, disse a Machona; o quarto está fechado, mas a mulata tem
coisas lá. Você o que queria?
    - Vinha buscar uma roupa que está com ela.
    - Não sei, filho, pergunta na venda ao João Romão, que talvez te
possa dizer alguma coisa.
    - Ali?
    - Sim, pequeno, naquela porta, onde a preta do tabuleiro está
vendendo! Ó diabo! olha que pisas a boneca de anil! Já se viu que
sorte? Parece que não vê onde pisa este raio de criança!
    E, notando que o filho, o Agostinho, se aproximava para tomar o
lugar do outro que já se ia:
    - Sai daí, tu também, peste! Já principias na reinação de todos os
dias? Vem para cá, que levas! Mas, é verdade, que fazes tu que não vais
regar a horta do Comendador?
    - Ele disse ontem que eu agora fosse à tarde, que era melhor.
    - Ah! E amanhã, não te esqueças, recebe os dois mil-réis, que é
fim do mês. Olha! Vai lá dentro e diz a Nenen que te entregue a roupa
que veio ontem à noite.
    O pequeno afastou-se de carreira, e ela lhe gritou na pista:
    - E que não ponha o refogado no fogo sem eu ter lá ido!
    Uma conversa cerrada travara-se no resto da fila de lavadeiras a
respeito da Rita Baiana.
    - É doida mesmo!... censurava Augusta. Meter-se na pândega
sem dar conta da roupa que lhe entregaram... Assim há de ficar sem um
freguês...
    - Aquela não endireita mais!... Cada vez fica até mais


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assanhada!... Parece que tem fogo no rabo! Pode haver o serviço que
houver, aparecendo pagode, vai tudo pro lado! Olha o que saiu o ano
passado com a festa da Penha!...
    - Então agora, com este mulato, o Firmo, é uma pouca-vergonha!
Est'ro dia, pois você não viu? levaram ai numa bebedeira, a dançar e
cantar à viola, que nem sei o que parecia! Deus te livre!
    - Para tudo há horas e há dias!...
    - Para a Rita todos os dias são dias santos! A questão é aparecer
quem puxe por ela!
    - Ainda assim não e má criatura... Tirante o defeito da
vadiagem...
    - Bom coração tem ela, até demais, que não guarda um vintém
pro dia de amanhã. Parece que o dinheiro lhe faz comichão no corpo!
    - Depois é que são elas!... O João Romão já lhe não fia!
    - Pois olhe que a Rita lhe tem enchido bem as mãos; quando ela
tem dinheiro é porque o gasta mesmo!
    E as lavadeiras não se calavam, sempre a esfregar, e a bater, e a
torcer camisas e ceroulas, esfogueadas já pelo exercício. Ao passo que,
em torno da sua tagarelice, o cortiço se embandeirava todo de roupa
molhada, de onde o sol tirava cintilações de prata.
    Estavam em dezembro e o dia era ardente. A grama dos
coradouros tinha reflexos esmeraldinos; as paredes que davam frente
ao Nascente, caiadinhas de novo, reverberavam iluminadas, ofuscando
a vista. Em uma das janelas da sala de jantar do Miranda, Dona Estela
e Zulmira, ambas vestidas de claro e ambas a limarem as unhas,
conversavam em voz surda, indiferentes à agitação que ia lá embaixo,
muito esquecidas na sua tranqüilidade de entes felizes.
    Entretanto, agora o maior movimento era na venda à entrada da
estalagem. Davam nove horas e os operários das fábricas chegavam-se
para o almoço. Ao balcão o Domingos e o Manuel não tinham mãos a
medir com a criadagem da vizinhança; os embrulhos de papel amarelo
sucediam-se, e o dinheiro pingava sem intermitência dentro da gaveta.
    - Meio quilo de arroz!
    - Um tostão de açúcar!
    - Uma garrafa de vinagre!
    - Dois martelos de vinho!
    - Dois vinténs de fumo!
    - Quatro de sabão!
    E os gritos confundiam-se numa mistura de vozes de todos os
tons.
    Ouviam-se protestos entre os compradores:
    - Me avie, seu Domingos! Eu deixei a comida no fogo!
    - Ó peste! dá cá as batatas, que eu tenho mais o que fazer!
    - Seu Manuel, não me demore essa manteiga!
    Ao lado, na casinha de pasto, a Bertoleza, de saias arrepanhadas
no quadril, o cachaço grosso e negro, reluzindo de suor, ia e vinha de
uma panela à outra, fazendo pratos, que João Romão levava de carreira
aos trabalhadores assentados num compartimento junto. Admitira-se
um novo caixeiro, só para o frege, e o rapaz, a cada comensal que ia
chegando, recitava, em tom cantado e estridente, a sua interminável


[Linha 1200 de 8202 - Parte 1 de 5]


lista das comidas que havia. Um cheiro forte de azeite frito
predominava. O parati circulava por todas as mesas, e cada caneca de
café, de louça espessa, erguia um vulcão de fumo tresandando a milho
queimado. Uma algazarra medonha, em que ninguém se entendia!
Cruzavam-se conversas em todas as direções, discutia-se a berros, com
valentes punhadas sobre as mesas. E sempre a sair, e sempre a entrar
gente, e os que saiam, depois daquela comezaina grossa, iam radiantes
de contentamento, com a barriga bem cheia, a arrotar.
    Num banco de pau tosco, que existia do lado de fora, junto à
parede e perto da venda, um homem, de calça e camisa de zuarte,
chinelos de couro cru, esperava, havia já uma boa hora, para falar com o
vendeiro.
    Era um português de seus trinta e cinco a quarenta anos, alto,
espadaúdo, barbas ásperas, cabelos pretos e maltratados caindo-lhe
sobre a testa, por debaixo de um chapéu de feltro ordinário: pescoço de
touro e cara de Hércules, na qual os olhos todavia, humildes como os
olhos de um boi de canga, exprimiam tranqüila bondade.
    - Então ainda não se pode falar ao homem? perguntou ele, indo
ao balcão entender-se com o Domingos.
    - O patrão está agora muito ocupado. Espere!
    - Mas são quase dez horas e estou com um gole de café no
estômago!
    - Volte logo!
    - Moro na cidade nova. É um estirão daqui!
    O caixeiro gritou então para a cozinha, sem interromper o que
fazia:
    - O homem que ai está, seu João, diz que se vai embora!
    - Ele que espere um pouco, que já lhe falo! respondeu o vendeiro
no meio de uma carreira. Diga-lhe que não vá!
    - Mas é que ainda não almocei e estou aqui a tinir!... observou o
Hércules com a sua voz grossa e sonora.
    - Ó filho, almoce ai mesmo! Aqui o que não falta é de comer. Já
podia estar aviado!
    - Pois vá lá! resolveu o homenzarrão, saindo da venda para entrar
na casa de pasto, onde os que lá se achavam o receberam com ar
curioso, medindo-o da cabeça aos pés, como faziam sempre com todos
os que ai se apresentavam pela primeira vez.
    E assentou-se a uma das mesinhas, vindo logo o caixeiro
cantar-lhe a lista dos pratos.
    - Traga lá o pescado com batatas e veja um martelo de vinho.
    - Quer verde ou virgem?
    - Venha o verde; mas anda com isso, filho, que já não vem sem
tempo!



IV


    Meia hora depois, quando João Romão se viu menos ocupado, foi


[Linha 1250 de 8202 - Parte 1 de 5]


ter com o sujeito que o procurava e assentou-se defronte dele, caindo
de fadiga, mas sem se queixar, nem se lhe trair a fisionomia o menor
sintoma de cansaço.
    - Você vem da parte do Machucas? perguntou-lhe. Ele falou-me
de um homem que sabe calçar pedra, lascar fogo e fazer lajedo.
    - Sou eu.
    - Estava empregado em outra pedreira?
    - Estava e estou. Na de São Diogo, mas desgostei-me dela e
quero passar adiante.
    - Quanto lhe dão lá?
    - Setenta mil-réis.
    - Oh! Isso é um disparate!
    - Não trabalho por menos...
    - Eu, o maior ordenado que faço é de cinqüenta.
    - Cinqüenta ganha um macaqueiro...
    - Ora! tenho aí muitos trabalhadores de lajedo por esse preço!
    - Duvido que prestem! Aposto a mão direita em como o senhor
não encontra por cinqüenta mil-réis quem dirija a broca, pese a pólvora
e lasque fogo, sem lhe estragar a pedra e sem fazer desastres!
    - Sim, mas setenta mil-réis é um ordenado impossível!
    - Nesse caso vou como vim... Fica o dito por não dito!
    - Setenta mil-réis é muito dinheiro!...
    - Cá por mim, entendo que vale a pena pagar mais um pouco a
um trabalhador bom, do que estar a sofrer desastres, como o que sofreu
sua pedreira a semana passada! Não falando na vida do pobre de Cristo
que ficou debaixo da pedra!
    - Ah! O Machucas falou-lhe no desastre?
    - Contou-mo, sim senhor, e o desastre não aconteceria se o
homem soubesse fazer o serviço!
    - Mas setenta mil-réis é impossível. Desça um pouco!
    - Por menos não me serve... E escusamos de gastar palavras!
    - Você conhece a pedreira?
    - Nunca a vi de perto, mas quis me parecer que é boa. De longe
cheirou-me a granito.
    - Espere um instante.
    João Romão deu um pulo à venda, deixou algumas ordens,
enterrou um chapéu na cabeça e voltou a ter com o outro.
    - Ande a ver! gritou-lhe da porta do frege, que a pouco e pouco
se esvaziara de todo.
    O cavouqueiro pagou doze vinténs pelo seu almoço e
acompanhou-o em silêncio.
    Atravessaram o cortiço.
    A labutação continuava. As lavadeiras tinham já ido almoçar e
tinham voltado de novo para o trabalho. Agora estavam todas de
chapéu de palha, apesar das toldas que se armaram. Um calor de
cáustico mordia-lhes os toutiços em brasa e cintilantes de suor. Um
estado febril apoderava-se delas naquele rescaldo; aquela digestão feita
ao sol fermentava-lhes o sangue. A Machona altercava com uma preta
que fora reclamar um par de meias e destrocar uma camisa; a Augusta,
muito mole sobre a sua tábua de lavar, parecia derreter-se como sebo; a


[Linha 1300 de 8202 - Parte 1 de 5]


Leocádia largava de vez em quando a roupa e o sabão para coçar as
comichões do quadril e das virilhas, assanhadas pelo mormaço; a Bruxa
monologava, resmungando numa insistência de idiota, ao lado da
Marciana que, com o seu tipo de mulata velha, um cachimbo ao canto
da boca, cantava toadas monótonas do sertão:

                "Maricas tá marimbando,
                Maricas tá marimbando,
                Na passage do riacho
                Maricas tá marimbando."

    A Florinda, alegre, perfeitamente bem com o rigor do sol, a rebolar
sem fadigas, assoviava os chorados e lundus que se tocavam na
estalagem, e junto dela, a melancólica senhora Dona Isabel suspirava,
esfregando a sua roupa dentro da tina, automaticamente, como um
condenado a trabalhar no presídio; ao passo que o Albino,
saracoteando os seus quadris pobres de homem linfático, batia na tábua
um par de calças, no ritmo cadenciado e miúdo de um cozinheiro a
bater bifes. O corpo tremia-lhe todo, e ele, de vez em quando,
suspendia o lenço do pescoço para enxugar a fronte, e então um gemido
suspirado subia-lhe aos lábios.
    Da casinha número 8 vinha um falsete agudo, mas afinado. Era a
das Dores que principiava o seu serviço; não sabia engomar sem cantar.
No número 7 Nenen cantarolava em tom muito mais baixo; e de um dos
quartos do fundo da estalagem saia de espaço a espaço uma nota áspera
de trombone.
    O vendeiro, ao passar por detrás de Florinda, que no momento
apanhava roupa do chão, ferrou-lhe uma palmada na parte do corpo
então mais em evidência.
    - Não bula, hein?!... gritou ela, rápido, erguendo-se tesa.
    E, dando com João Romão:
    - Eu logo vi. Leva implicando aqui com a gente e depois, vai-se
comprar na venda, o safado rouba no peso! Diabo do galego  Eu não te
quero, sabe?
    O vendeiro soltou-lhe nova palmada com mais força e fugiu,
porque ela se armara com um regador cheio de água.
    - Vem pra cá, se és capaz! Diabo da peste!
    João Romão já se havia afastado com o cavouqueiro.
    - O senhor tem aqui muita gente!... observou-lhe este.
    - Oh! fez o outro, sacudindo os ombros, e disse depois com
empáfia: - Houvesse mais cem quartos que estariam cheios! Mas é
tudo gente séria! Não há chinfrins nesta estalagem; se aparece uma
rusga, eu chego, e tudo acaba logo! Nunca nos entrou cá a policia, nem
nunca a deixaremos entrar! E olhe que se divertem bem com as suas
violas! Tudo gente muita boa!
    Tinham chegado ao fim do pátio do cortiço e, depois de
transporem uma porta que se fechava com um peso amarrado a uma
corda, acharam-se no capinzal que havia antes da pedreira.
    - Vamos por aqui mesmo que é mais perto, aconselhou o
vendeiro.


[Linha 1350 de 8202 - Parte 1 de 5]


    E os dois, em vez de procurarem a estrada, atravessaram o capim
quente e trescalante.
    Meio-dia em ponto. O sol estava a pino; tudo reverberava a luz
irreconciliável de dezembro, num dia sem nuvens. A pedreira, em que
ela batia de chapa em cima, cegava olhada de frente. Era preciso
martirizar a vista para descobrir as nuanças da pedra; nada mais que
uma grande mancha branca e luminosa, terminando pela parte de baixo
no chão coberto de cascalho miúdo, que ao longe produzia o efeito de
um betume cinzento, e pela parte de cima na espessura compacta do
arvoredo, onde se não distinguiam outros tons mais do que nódoas
negras, bem negras, sobre o verde-escuro.
    À proporção que os dois se aproximavam da imponente pedreira,
o terreno ia-se tornando mais e mais cascalhudo; os sapatos
enfarinhavam-se de uma poeira clara. Mais adiante, por aqui e por ali,
havia muitas carroças, algumas em movimento, puxadas a burro e
cheias de calhaus partidos; outras já prontas para seguir, à espera do
animal, e outras enfim com os braços para o ar, como se acabassem de
ser despejadas naquele instante. Homens labutavam.
    À esquerda, por cima de um vestígio de rio, que parecia ter sido
bebido de um trago por aquele sol sedento, havia uma ponte de tábuas,
onde três pequenos, quase nus, conversavam assentados, sem fazer
sombra, iluminados a prumo pelo sol do meio-dia. Para adiante, na
mesma direção, corria um vasto telheiro, velho e sujo, firmado sobre
colunas de pedra tosca; ai muitos portugueses trabalhavam de canteiro,
ao barulho metálico do picão que feria o granito. Logo em seguida,
surgia uma oficina de ferreiro, toda atravancada de destroços e objetos
quebrados, entre os quais avultavam rodas de carro; em volta da
bigorna dois homens, de corpo nu, banhados de suor e alumiados de
vermelho como dois diabos, martelavam cadenciosamente sobre um
pedaço de ferro em brasa; e ali mesmo, perto deles, a forja escancarava
uma goela infernal, de onde saiam pequenas línguas de fogo,
irrequietas e gulosas.
    João Romão parou à entrada da oficina e gritou para um dos
ferreiros:
    - O Bruno! Não se esqueça do varal da lanterna do portão!
    Os dois homens suspenderam por um instante o trabalho.
    - Já lá fui ver, respondeu o Bruno. Não vale a pena consertá-lo;
está todo comido de ferragem! Faz-se-lhe um novo, que é melhor!
    - Pois veja lá isso, que a lanterna está a cair!
    E o vendeiro seguiu adiante com o outro, enquanto atrás
recomeçava o martelar sobre a bigorna.
    Em seguida via-se uma miserável estrebaria, cheia de capim seco e
excremento de bestas, com lugar para meia dúzia de animais. Estava
deserta, mas, no vivo fartum exalado de lá, sentia-se que fora habitada
ainda aquela noite. Havia depois um depósito de madeiras, servindo ao
mesmo tempo de oficina de carpinteiro, tendo à porta troncos de
arvore, alguns já serrados, muitas tábuas empilhadas, restos de cavernas
e mastros de navio.
    Daí à pedreira restavam apenas uns cinqüenta passos e o chão era
já todo coberto por uma farinha de pedra moída que sujava como a cal.


[Linha 1400 de 8202 - Parte 1 de 5]


    Aqui, ali, por toda a parte, encontravam-se trabalhadores, uns ao
sol, outros debaixo de pequenas barracas feitas de lona ou de folhas de
palmeira. De um lado cunhavam pedra cantando; de outro a quebravam
a picareta; de outro afeiçoavam lajedos a ponta de picão; mais adiante
faziam paralelepípedos a escopro e macete. E todo aquele retintim de
ferramentas, e o martelar da forja, e o coro dos que lá em cima
brocavam a rocha para lançar-lhe fogo, e a surda zoada ao longe, que
vinha do cortiço, como de uma aldeia alarmada; tudo dava a idéia de
uma atividade feroz, de uma luta de vingança e de ódio. Aqueles
homens gotejantes de suor, bêbados de calor, desvairados de insolação,
a quebrarem, a espicaçarem, a torturarem a pedra, pareciam um
punhado de demônios revoltados na sua impotência contra o
impassível gigante que os contemplava com desprezo, imperturbável a
todos os golpes e a todos os tiros que lhe desfechavam no dorso,
deixando sem um gemido que lhe abrissem as entranhas de granito. O
membrudo cavouqueiro havia chegado a fralda do orgulhoso monstro
de pedra; tinha-o cara a cara, mediu-o de alto a baixo, arrogante, num
desafio surdo.
    A pedreira mostrava nesse ponto de vista o seu lado mais
imponente. Descomposta, com o escalavrado flanco exposto ao sol,
erguia-se altaneira e desassombrada, afrontando o céu, muito íngreme,
lisa, escaldante e cheia de cordas que mesquinhamente lhe escorriam
pela ciclópica nudez com um efeito de teias de aranha. Em certos
lugares, muito alto do chão, lhe haviam espetado alfinetes de ferro,
amparando, sobre um precipício, miseráveis tábuas que, vistas cá de
baixo, pareciam palitos, mas em cima das quais uns atrevidos pigmeus
de forma humana equilibravam-se, desfechando golpes de picareta
contra o gigante.
    O cavouqueiro meneou a cabeça com ar de lástima. O seu gesto
desaprovava todo aquele serviço.
    - Veja lá! disse ele, apontando para certo ponto da rocha. Olhe
para aquilo! Sua gente tem ido às cegas no trabalho desta pedreira.
Deviam atacá-la justamente por aquele outro lado, para não contrariar
os veios da pedra. Esta parte aqui é toda granito, é a melhor! Pois olhe
só o que eles têm tirado de lá - umas lascas, uns calhaus que não
servem para nada! É uma dor de coração ver estragar assim uma peça
tão boa! Agora o que hão de fazer dessa cascalhada que ai está senão
macacos? E brada aos céus, creia! ter pedra desta ordem para
empregá-la em macacos!
    O vendeiro escutava-o em silêncio, apertando os beiços,
aborrecido com a idéia daquele prejuízo.
    - Uma porcaria de serviço! continuou o outro. Ali onde está
aquele homem é que deviam ter feito a broca, porque a explosão punha
abaixo toda esta aba que é separada por um veio. Mas quem tem ai o
senhor capaz de fazer isso? Ninguém; porque é preciso um empregado
que saiba o que faz; que, se a pólvora não for muito bem medida, nem
só não se abre o veio, como ainda sucede ao trabalhador o mesmo que
sucedeu ao outro! É preciso conhecer muito bem o trabalho para se
poder tirar partido vantajoso desta pedreira! Boa é ela, mas não nas
mãos em que está! É muito perigosa nas explosões; é muito em pé!


[Linha 1450 de 8202 - Parte 1 de 5]


Quem lhe lascar fogo não pode fugir senão para cima pela corda, e se o
sujeito não for fino leva-o o demo! Sou eu quem o diz!
    E depois de uma pausa, acrescentou, tomando na sua mão, grossa
como o próprio cascalho, um paralelepípedo que estava no chão:
    - Que digo eu?! Cá está! Macacos de granito! Isto até é uma
coisa que estes burros deviam esconder por vergonha!
    Acompanhando a pedreira pelo lado direito e seguindo-a na volta
que ela dava depois, formando um ângulo obtuso, é que se via quanto
era grande. Suava-se bem antes de chegar ao seu limite com a mata.
    - Que mina de dinheiro!... dizia o homenzarrão, parando
entusiasmado defronte do novo pano de rocha viva que se desdobrava
na presença dele.
    - Toda esta parte que se segue agora, declarou João Romão,
ainda não é minha.
    E continuaram a andar para diante.
    Deste lado multiplicavam-se as barraquinhas; os macaqueiros
trabalhavam à sombra delas, indiferentes àqueles dois. Viam-se panelas
ao fogo, sobre quatro pedras, ao ar livre, e rapazitos tratando do jantar
dos pais. De mulher nem sinal. De vez em quando, na penumbra de um
ensombro de lona, dava-se com um grupo de homens, comendo de
cócoras defronte uns dos outros, uma sardinha na mão esquerda, um
pão na direita, ao lado de uma garrafa de água.
    - Sempre o mesmo serviço malfeito e mal dirigido!... resmungou
o cavouqueiro.
    Entretanto, a mesma atividade parecia reinar por toda a parte.
Mas, lá no fim, debaixo dos bambus que marcavam o limite da pedreira,
alguns trabalhadores dormiam à sombra, de papo para o ar, a barba
espetando para o alto, o pescoço intumescido de cordoveias grossas
como enxárcias de navio, a boca aberta, a respiração forte e tranqüila de
animal sadio, num feliz e pletórico resfolgar de besta cansada.
    - Que relaxamento! resmungou de novo o cavouqueiro. Tudo
isto está a reclamar um homem teso que olhe a sério para o serviço!
    - Eu nada tenho que ver com este lado! observou Romão.
    - Mas lá da sua banda hão de fazer o mesmo! Olará!
    - Abusam, porque tenho de olhar pelo negócio lá fora...
    - Comigo aqui é que eles não fariam cera. isso juro eu! Entendo
que o empregado deve ser bem pago, ter para a sua comida à farta, o seu
gole de vinho, mas que deve fazer serviço que se veja, ou, então, rua!
Rua, que não falta por ai quem queira ganhar dinheiro! Autorize-me a
olhar por eles e verá!
    - O diabo é que você quer setenta mil-réis... suspirou João
Romão.
    - Ah! nem menos um real!... Mas comigo aqui há de ver o que lhe
faço entrar para algibeira! Temos cá muita gente que não precisa estar.
Para que tanto macaqueiro, por exemplo? Aquilo é serviço para
descanso; é serviço de criança! Em vez de todas aquelas lesmas, pagas
talvez a trinta mil-réis...
    - É justamente quanto lhes dou.
    - ... melhor seria tomar dois bons trabalhadores de cinqüenta,
que fazem o dobro do que fazem aqueles monos e que podem servir


[Linha 1500 de 8202 - Parte 1 de 5]


para outras coisas! Parece que nunca trabalharam! Olhe, é já a terceira
vez que aquele que ali está deixa cair o escopro! Com efeito!

    João Romão ficou calado, a cismar, enquanto voltavam. Vinham
ambos pensativos.
    - E você, se eu o tomar, disse depois o vendeiro, muda-se cá para
a estalagem?...
    - Naturalmente! não hei de ficar lá na cidade nova, tendo o
serviço aqui!...
    - E a comida, forneço-a eu?...
    - Isso é que a mulher é quem a faz; mas as compras saem-lhe da
venda...
    - Pois está fechado o negócio! deliberou João Romão,
convencido de que não podia, por economia, dispensar um homem
daqueles. E pensou lá de si para si: "Os meus setenta mil-réis
voltar-me-ão à gaveta. Tudo me fica em casa!"
    - Então estamos entendidos?...
    - Estamos entendidos!
    - Posso amanhã fazer a mudança?
    - Hoje mesmo, se quiser; tenho um cômodo que lhe há de calhar.
É o número 35. Vou mostrar-lho.
    E aligeirando o passo, penetraram na estrada do capinzal com
direção ao fundo do cortiço.
    - Ah! é verdade! como você se chama?
    - Jerônimo, para o servir.
    - Servir a Deus. Sua mulher lava?
    - É lavadeira, sim senhor.
    - Bem, precisamos ver-lhe uma tina.
    E o vendeiro empurrou a porta do fundo da estalagem, de onde
escapou, como de uma panela fervendo que se destapa, uma baforada
quente, vozeria tresandante à fermentação de suores e roupa ensaboada
secando ao sol.



V

 
    No dia seguinte, com efeito, ali pelas sete da manhã, quando o
cortiço fervia já na costumada labutação, Jerônimo apresentou-se junto
com a mulher, para tomarem conta da casinha alugada na véspera.
    A mulher chamava-se Piedade de Jesus; teria trinta anos, boa
estatura, carne ampla e rija, cabelos fortes de um castanho fulvo, dentes
pouco alvos, mas sólidos e perfeitos, cara cheia, fisionomia aberta; um
todo de bonomia toleirona, desabotoando-lhe pelos olhos e pela boca
numa simpática expressão de honestidade simples e natural.
    Vieram ambos à boleia da andorinha que lhes carregou os trens.
Ela trazia uma saia de sarja roxa, cabeção branco de paninho de
algodão e na cabeça um lenço vermelho de alcobaça; o marido a mesma
roupa do dia anterior.


[Linha 1550 de 8202 - Parte 1 de 5]


    E os dois apearam-se muito atrapalhados com os objetos que não
confiaram dos homens da carroça; Jerônimo abraçado a duas
formidáveis mangas de vidro, das primitivas, dessas em que se podia à
vontade enfiar uma perna; e a Piedade atracada com um velho relógio
de parede e com uma grande trouxa de santos e palmas bentas. E assim
atravessaram o pátio da estalagem, entre os comentários e os olhares
curiosos dos antigos moradores, que nunca viam sem uma pontinha de
desconfiança os inquilinos novos que surgiam.
    - O que será este pedaço de homem? indagou a Machona da sua
vizinha de tina, a Augusta Carne-Mole.
    - A modos, respondeu esta, que vem para trabalhar na pedreira.
Ele ontem andou por lá um ror de tempo com o João Romão.
    - Aquela mulher que entrou junto será casada com ele?
    - É de crer.
    - Ela me parece gente das ilhas.
    - Eles o que têm é muito bons trastes de seu! interveio a
Leocádia. Uma cama que deve ser um regalo e um toucador com um
espelho maior do que aquela peneira!
    - E a cômoda, você viu, Nhá Leocádia? perguntou Florinda,
gritando para ser ouvida, porque entre ela e a outra estavam a Bruxa e a
velha Marciana.
    - Vi, Rico traste!
    - E o oratório, então? Muito bonito!...
    - Vi também. É obra de capricho. Não! eles sejam lá quem for,
são gente arranjada... Isso não se lhes pode negar!
    - Se são bons ou maus só com o tempo se saberá!... arriscou Dona
Isabel.
    - Quem vê cara não vê corações... sentenciou o triste Albino,
suspirando.
    - Mas o número 35 não estava ocupado por aquele homem muito
amarelo que fazia charutos?... inquiriu Augusta.
    - Estava, confirmou a mulher do ferreiro, a Leocádia, porém
creio que arribou, devendo não sei quanto, e o João Romão então
esvaziou-lhe ontem a casa e tomou conta do que era dele.
    - É! acudiu a Machona; ontem, pelo cair das duas da tarde, o
Romão andava aí às voltas com os cacarecos do charuteiro. Quem sabe,
se o pobre homem não levou a breca, como sucedeu àquele outro que
trabalhava de ourives?
    - Não! Este creio que está vivo...
    - O que lhe digo é que aquele número 35 tem mau agouro! Eu cá
por mim não o queria nem de graça! Foi lá que morreu a Maricas do
Farjão!
    Três horas depois, Jerônimo e Piedade achavam-se instalados e
dispunham-se a comer o almoço, que a mulher preparara o melhor e o
mais depressa que pôde. Ele contava aviar até a noite uma infinidade
de coisas, para poder começar a trabalhar logo no dia seguinte.
    Era tão metódico e tão bom como trabalhador quanto o era como
homem.
    Jerônimo viera da terra, com a mulher e uma filhinha ainda
pequena, tentar a vida no Brasil, na qualidade de colono de um


[Linha 1600 de 8202 - Parte 1 de 5]


fazendeiro, em cuja fazenda mourejou durante dois anos, sem nunca
levantar a cabeça, e de onde afinal se retirou de mãos vazias e uma
grande birra pela lavoura brasileira. Para continuar a servir na roça tinha
que sujeitar-se a emparelhar com os negros escravos e viver com eles no
mesmo meio degradante, encurralado como uma besta, sem aspirações,
nem futuro, trabalhando eternamente para outro.
    Não quis. Resolveu abandonar de vez semelhante estupor de vida
e atirar-se para a Corte, onde, diziam-lhe patrícios, todo o homem bem
disposto encontrava furo. E, com efeito, mal chegou, devorado de
necessidades e privações, meteu-se a quebrar pedra em uma pedreira,
mediante um miserável salário. A sua existência continuava dura e
precária; a mulher já então lavava e engomava, mas com pequena
freguesia e mal paga. O que os dois faziam chegava-lhes apenas para
não morrer de fome e pagar o quarto da estalagem.
    Jerônimo, porém, era perseverante, observador e dotado de certa
habilidade. Em poucos meses se apoderava do seu novo ofício e, de
quebrador de pedra, passou logo a fazer paralelepípedos; e depois
foi-se ajeitando com o prumo e com a esquadria e meteu-se a fazer
lajedos; e finalmente, à força de dedicação pelo serviço, tornou-se tão
bom como os melhores trabalhadores de pedreira e a ter salário igual ao
deles. Dentro de dois anos, distinguia-se tanto entre os companheiros,
que o patrão o converteu numa espécie de contramestre e elevou-lhe o
ordenado a setenta mil-réis.
    Mas não foram só o seu zelo e a sua habilidade o que o pôs assim
para a frente; duas outras coisas contribuíram muito para isso: a força
de touro que o tornava respeitado e temido por todo o pessoal dos
trabalhadores, como ainda, e, talvez, principalmente, a grande
seriedade do seu caráter e a pureza austera dos seus costumes. Era
homem de uma honestidade a toda prova e de uma primitiva
simplicidade no seu modo de viver. Sala de casa para o serviço e do
serviço para casa, onde nunca ninguém o vira com a mulher senão em
boa paz; traziam a filhinha sempre limpa e bem alimentada, e, tanto um
como o outro, eram sempre os primeiros à hora do trabalho. Aos
domingos iam às vezes à missa ou, à tarde, ao Passeio Público; nessas
ocasiões, ele punha uma camisa engomada, calçava sapatos e enfiava
um paletó; ela o seu vestido de ver a Deus, os seus ouros trazidos da
terra, que nunca tinham ido ao monte de socorro, malgrado as
dificuldades com que os dois lutaram a principio no Brasil.
    Piedade merecia bem o seu homem, muito diligente, sadia,
honesta, forte, bem acomodada com tudo e com todos, trabalhando de
sol a sol e dando sempre tão boas contas da obrigação, que os seus


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